HOMO BAHIANUS - Fernanda Torres

É mesmo impossível negar a fé na Bahia. 
Ela não é imposta, é um hábito concreto e festivo.

Passei o Ano-Novo em Salvador. Na despedida, assisti à extraordinária missa da irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.

Há dois anos, fortes chuvas danificaram a estrutura da capela original, erguida por escravos e alforriados. Enquanto aguardam a restauração, os fiéis realizam as preces na quase vizinha igreja do Carmo.

O ritual é o retrato supremo do sincretismo religioso que tanto vingou no Brasil. Atabaques saúdam o Senhor enquanto pães de santo Antônio rodopiam nas mãos de beatos bailarinos. Ninguém recebe santo em solo sagrado, a liturgia católica permanece intacta, mas, como na mais primitiva das experiências, a catarse rítmica arremessa a alma às alturas.

"Eu sou ateu, posso sair?" Perguntou entediado meu filho de 12 anos. Eu o deixei ir. Jamais induzi minhas crias a essa ou aquela religião, mas também não cultivei o ateísmo. Caetano riu da certeza categórica em tão tenra idade. Confessou que também não acreditava em Deus na adolescência.

Mais velho, no entanto, percebeu uma censura repressora por trás da rejeição da esquerda ao sagrado e se reaproximou do divino.

É mesmo impossível negar a fé na Bahia. Ela não é imposta, é um hábito concreto, festivo, que domina o calendário anual. Cada igreja tem o seu dia; cada terreiro, uma agenda; cada imagem, uma adoração. E, mesmo no Carnaval, o mais pagão dos blocos só põe o pé na folia depois de ungido.

Os soteropolitanos sabem cultuar seus tesouros. Sempre que caminho no Pelourinho lamento a devastação do patrimônio colonial carioca.

O Rio de Janeiro decepou o morro do Castelo, lugar de sua fundação. Em 1921, a faraônica obra de remoção deu um drástico fim à favelização do local.

Hoje, a ladeira da Misericórdia, antigo acesso até a igreja dos Jesuítas, termina em um abismo em linha reta tomado por mato. É tudo o que sobrou do berço dos cariocas.

No momento, Salvador enfrenta o milagre da multiplicação de prédios de 30 andares, estilo paulista, avançando pela orla como ocorreu na Barra da Tijuca. As cidades tendem a se perder quando assaltadas por corridas imobiliárias, mas a capital parece resistir ilesa.

Ao menos quando vista do mar no primeiro dia do ano, entre o farol da Barra e o do Humaitá, seguindo o trajeto da procissão do Bom Jesus dos Navegantes.

Acordei cedo para acompanhar a galeota que leva as imagens de Jesus e Maria entre a basílica da N.S. da Conceição da Praia e a igreja da Boa Viagem.
O hino do Bonfim, na voz juvenil de Gil e Caetano, abriu os trabalhos para, em seguida, ceder o trono para o arrocha.
A romaria é uma invenção grandiosa que envolve a população, a geografia e as águas cristalinas da baía de Todos os Santos.

Levei na mala o livro de Nelson Motta sobre a juventude de Glauber Rocha. Só agora entendo o grau da amizade entre o cineasta e João Ubaldo Ribeiro. Que turma. 

Fala-se muito da sensualidade e da expansividade dos baianos, mas um dos grandes traços daquela terra é o seu refinamento intelectual.

Paulo César de Souza, cuja recomendada tradução do alemão de "Assim Falou Zaratustra" acaba de ser lançada pela Cia. das Letras, mora lá. Paulo é discreto, lembra Antonio Cicero, e em nenhum momento se vangloria, ou mesmo deixa transparecer a dimensão do seu saber. 

A razão, na Bahia, é uma prática tão espontânea quanto a fé. E o sexo.

No documentário "Caverna dos Sonhos Esquecidos", de Werner Herzog, sobre as pinturas paleolíticas da caverna Chauvet, na França, o antropólogo Jean Clottes diz que o termo Homo sapiens não define bem o que somos. Homo espiritualis, na sua opinião, seria mais adequado.

A caverna Chauvet era um templo destinado à realização de cultos. Seus desenhos datam de 30 mil anos atrás. É um dos mais antigos sítios arqueológicos dessa natureza de que se tem notícia.

Ali, foram lapidados o sentido da representação, a arte, a música, o espírito e a fluidez da alma, a grande revolução que catapultou o abrupto desenvolvimento do homem moderno. 

A Bahia é a caverna Chauvet do Brasil, ainda em atividade. Ai que recalque que eu tenho de não ser Homo Bahianus.
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