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MEMÓRIAS DE VIAGEM - Suzana Herculano-Houzel

Se é possível alimentar o cérebro com boas lembranças, por que enfrentar horas de viagem para revisitar um local? Porque queremos repetir o que foi bom

Janeiro é mês de férias e viagens, ainda mais com a abundância de ofertas especiais de agências de turismo enquanto o ano letivo não começa. Mas para que viajar? Por que se dar ao trabalho de encarar aviões, aeroportos, ônibus e estradas para ver ao vivo o que já vimos em fotos, filmes, e agora tão facilmente no YouTube? Ou, pior ainda, por que revisitar um lugar que você já conhece?

Considere, por exemplo, minha opção de destino: um parque nacional no sul do Chile, o Torres del Paine, aonde fui mais de 20 anos atrás, com amigos da faculdade. As fotos das formações geologicamente distintas – torres, cornos, cumes, montanhas arredondadas em um único maciço – são extraordinárias, e posso vê-las em qualquer livro ou site de viagens. Tenho também minhas próprias fotos de anos atrás, e memórias não faltam: da surpresa de ver um iceberg (azul!) pela primeira vez, flutuando lago abaixo, ao susto com o estrondo de paredes de gelo se desprendendo do glaciar, passando por horas infindáveis em ônibus, caronas dentro e fora de caminhões e nuvens nunca dantes avistadas.

Se posso alimentar meu cérebro com imagens lindas, em fotos e na memória, por que então enfrentar três aviões seguidos e quatro horas de ônibus só para rever e reviver o que já vivi?

Primeiro, justamente porque foi bom. Meu sistema de recompensa, parte do cérebro que sinaliza para todas as outras quando faço algo que dá certo e gera sensações positivas, atribuiu valores extremamente favoráveis a tudo o que vivi no sul do Chile anos atrás. Por causa disso, todas as minhas memórias de lá trazem esse valor positivo associado a elas. Evocá-las traz à tona também essas emoções positivas. E como a motivação nada mais é do que essa lembrança de como algo foi bom atrelada à antecipação de como pode ser bom de novo... minhas memórias positivas me motivam a revisitá--las. Queremos fazer de novo aquilo que foi bom. 

Assim é que continuamos procurando nossos amigos e frequentando nossos restaurantes favoritos – e querendo voltar à Disney, à Austrália ou àquele mesmo cantinho de sempre da praia, de novo e de novo e de novo.

No meu caso em particular, também quero revisitar o Paine em busca de novas memórias. Gosto das minhas, tanto que quero voltar lá – mas quero, agora, ter recordações deste lugar que incluam meu marido. Somos feitos de memórias dos eventos que nos constroem, e nossa individualidade vem da história de vida de cada um (sobreposta, é claro, à biologia do cérebro que é ponto de partida e base ao longo do tempo). Quero que meu cérebro tenha a oportunidade de associar meu marido, e minhas experiências positivas com ele, também a este que é para mim um dos lugares mais belos do mundo.

E sim, quero fotos novas, tiradas por mim (e com uma câmera melhor!). Fotos tiradas pelos outros são só fotos, por mais que perfeitas: uma evocação puramente visual, pobre em detalhes e em comparação a todas as evocações sensoriais, emocionais e contextuais de uma lembrança real vivida no mesmo lugar. Minhas fotos, ao contrário, são minhas: um apoio externo à memória que meu cérebro completa com a lembrança do vento frio no rosto, da máquina pendurada na árvore, do sabor do almoço do dia, do alívio de tirar as botas, e de todas as outras maravilhas não fotografadas.

Por isso, também, a experiência de rever as fotos de viagens é tão mais significativa para quem esteve lá: rever suas duas mil fotos é um prazer que não tem como ser compartilhado da mesma forma com quem ficou...
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