SOFRER POR ANTECIPAÇÃO - Suzana Herculano-Houzel

Um indivíduo que apenas detectasse estímulos e respondesse a eles 
viveria eternamente no presente

Dizem os livros didáticos que o sistema nervoso serve para "detectar estímulos e responder a eles".

Pode ser -mas isso até amebas e bactérias fazem, e com uma célula só. Um indivíduo que apenas detectasse estímulos e respondesse a eles, ainda que de forma coordenada e organizada, viveria eternamente no presente, incapaz de enxergar para frente ou para trás no tempo, e não teria a menor capacidade de reviver experiências do passado, fazer planos para o futuro -nem de sofrer por antecipação.

Não consegui deixar de pensar nisso no dia mais longo da minha vida: terça-feira passada, quando meu pai tinha uma cirurgia cardíaca marcada para contornar três coronárias muito obstruídas.
Meu cérebro há semanas vinha se torturando com o risco da cirurgia, desde quando os médicos decidiram que nem três fileirinhas de stents resolveriam o assunto.

Imaginava, apesar de meus protestos pré-frontais, todo tipo de catástrofe que poderia acontecer durante a cirurgia -do choque anestésico ao coração não voltar a bater-, e várias vezes sofri por antecipação o anúncio da morte do meu pai, com os requintes de como passá-lo aos netos, para quem o avô é Deus.

Meu plano para o dia da cirurgia era trabalhar normalmente no laboratório, para passar o tempo. Tolinha.

Acordei pensando que meu pai já devia estar entubado, com o tórax aberto. Experimentei levantar, mas descobri que apenas andava desnorteada pela casa, querendo que meu marido decidisse por mim se deveria comer, me vestir ou beber água.

Acabei arranjando um trabalho repetitivo para fazer no computador, que durou até a noite, quando minha mãe ligou dizendo que havia acabado e estava tudo bem. Chorei de alívio, e meus pensamentos catastróficos cessaram.

A neurocientista de plantão explica. Mesmo sem aviso dos sentidos sobre a cirurgia, a muitos quilômetros de distância, meu cérebro possui um hipocampo capaz de projetar para o futuro combinações de suas memórias sobre meu pai e cirurgias, que influencia o hipotálamo a fazer o corpo sofrer de acordo.

Eu vivo, lembro do que vivi e faço previsões para o futuro. Se elas não são boas, sofro desde já -e tiro vantagem do aviso sobre o quanto amo meu pai para aproveitar bastante os dias ao seu lado.

Para mim, portanto, o sistema nervoso é aquele que, entre outras coisas, dota os animais de passado e futuro.

E, agora que meu pai está bem de novo, me permite até voltar a curtir o presente com ele.
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