SORRINDO PELAS COSTAS - Eliane Brum

Enfiou uma mão por dentro da blusa para puxar o sutiã, cuja alça direita tinha dobrado. No gesto, sentiu seu indicador roçar alguma coisa. Uma pedra no meio do seu caminho? Retrocedeu com os cinco dedos. Sentiu de novo. Apalpou. Parecia uma bola entre as suas costelas. Apertou. Não doía. Coçou. Não coçava. O que era aquilo? Correu até o banheiro da firma. Tirou a blusa, torcendo para que ninguém entrasse e a visse seminua. Torceu-se toda para olhar no espelho. Havia uma bolota vermelha e perfeitamente redonda ali. Não perfeitamente, olhando melhor. Apalpou de novo. Não sentia nada. Coçou. Não coçava nada. Como não tinha visto aquela bolota antes?

Ligou para o consultório médico. Há uma bolota nas minhas costas, anunciou à secretária. Não posso esperar um mês por uma consulta. Maldito plano de saúde vagabundo. Você sabe, uma bolota nem sempre é uma bolota, insistiu. Vou falar com o doutor para marcar um encaixe, a moça prometeu.

Naquela noite sonhou que a bolota tinha um rosto. Como a carinha do smiles. Mas era uma carinha má. A bolota ria dela. Antes de lhe cravar os dentes. Agora ela tinha certeza de que aquela bolota não era inofensiva. Nas noites seguintes teve medo de dormir. Era como se uma estranha estivesse acordada sem que ela pudesse enxergar seus olhos abertos. Uma estranha íntima dando dentadas na sua carne. E rindo, rindo muito. Rindo pelas suas costas.

Hum, disse o médico. Hum o quê? Não estou gostando do aspecto dela, mas não posso confirmar nada antes da biópsia. Pode não ser nada. Quando apareceu? Não sei, só vi na semana passada. Deve estar aí há algum tempo. Como você não viu? A pergunta a deixava nervosa. Eu não sei, não sei como eu não a vi antes. Eu deveria tê-la apalpado no banho, pelo menos, mas não senti. Simplesmente não senti. Não se preocupe, faremos a biópsia e tudo ficará esclarecido. Ela nem sabia se queria esclarecer alguma coisa. Eu não tenho material para fazer aqui, mas basta ir ao laboratório, seu plano cobre esse exame. É um procedimento de rotina. Da rotina de quem, ela gostaria de ter perguntado. Mas se calou.

Sentada na sala de espera do laboratório em que arrancariam um dente do sorriso das costas dela, ela estava longe. Não só de suas costas, mas dela inteira. Fora. Estava fora. Nem registrou a dor. Sentiu algum desconforto?, perguntou a moça. Desconforto, que palavra era esta? Doeu menos do que depilar a virilha com cera, ela disse.

Cinco dias depois, a secretária do médico ligou porque ele queria vê-la. Ela foi, mas permaneceu onde estava. Longe. Nem ouviu a palavra quando o médico a pronunciou. Simplesmente não a interessava. Tudo o que ela conseguia pensar é que ninguém a amava o suficiente para acariciar as suas costas. Ninguém a amava o suficiente para descobrir que havia uma bolota ali antes que fosse tarde demais.
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