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CASAIS DE FIM DE SEMANA: UM NOVO TIPO DE RELACIONAMENTO

Não estamos falando daquelas aventuras românticas dos casais nos fins de semana que servem para desconectar. Também não estamos falando de relacionamentos que duram 48 horas e depois desaparecem. Falamos dos casais de fim de semana, casais que se veem apenas aos sábados e domingos.

Mas essa história de viver para sempre em lua de mel realmente funciona?

Normalmente, as pessoas que formam esse tipo de casal estão no ápice das suas vidas profissionais. Elas costumam ter entre 25 e 35 anos e viajam com frequência. Por não terem muito tempo para dedicar ao parceiro ou à parceira ao longo da semana porque trabalham, decidem se encontrar apenas nos finais de semana.

A recompensa de um sacrifício diário
Muitos relacionamentos fracassam por causa da distância. Ao não renovar a paixão e o carinho de maneira contínua, os quilômetros acabam por ser uma fonte de conflito. Mas isso não seria um problema para os relacionamentos que mantêm viva a chama do amor, pelo menos durante os finais de semana. Esses casais sabem que esses dois dias são para eles. E servem como recompensa pelas duras jornadas de trabalho.

Eles sentem saudades um do outro durante a semana, mas sabem que no sábado e domingo vão se encontrar. Isso faz com que a fase da paixão se prolongue. Ou seja, ver um ao outro com menos frequência faz com que os reencontros sejam como se fosse a primeira vez. É um tipo de paixão constante que reforça os aspectos positivos do relacionamento.

Outra vantagem é que, por terem pouco tempo para dividir com o outro, cada um dá o melhor de si durante esses dias que passam juntos. Por isso, esses casais não costumam perder tempo em discussões absurdas. Eles resolvem os conflitos para poderem aproveitar o tempo juntos ao máximo. Ao mesmo tempo, isso permite que cada um se concentre no que o outro traz de bom e nas qualidades do parceiro ou da parceira.

Os contras também são grandes para os casais de fim de semana
Já destacamos que a distância física é um dos grandes desafios de qualquer namoro ou casamento. Os casais de fim de semana também podem ser vítimas dela. A insegurança criada sem o contato diário pode criar dúvidas e ciúmes para com o outro. Isso, se alimentado todos os dias, pode se tornar o motivo do término ou, até mesmo, de infidelidade.

Por outro lado, reviver todos os finais de semana esse amor não significa que o relacionamento vá seguir adiante. Essa maneira de se ver pode estagnar o relacionamento. É como se ambos estivessem confortáveis com a situação e ninguém pretendesse dar um passo além.

É uma sensação de impotência e conformismo das duas partes. Pode chegar a criar a sensação de viver em uma espiral de frustração, impaciência e, até mesmo, tédio.

Quanto mais duradouro, mais forte
Apesar de quantidade não ser sinônimo de qualidade, nesse caso parece ser. Quanto mais anos tiver o relacionamento, mais fortes são os vínculos e as bases sobre os quais se formou. Devido a esse fato, é menos provável que um relacionamento termine pela distância quanto maior for o tempo que o casal estiver junto.

Por exemplo, vamos pensar no caso de um relacionamento de anos no qual uma das duas partes vai trabalhar temporariamente em outro país. A distância pode, até mesmo, chegar a fortalecer os laços de união entre essas pessoas. A distância coloca a união à prova e, se o resultado for positivo, se transforma em mais um pilar da relação.

Por outro lado, se o relacionamento não fica bem, há grandes chances de que não exista compromisso suficiente para mantê-lo.

Será que sabem se são compatíveis?
Os casais de fim de semana convivem apenas algumas horas juntos. Sábado e domingo compartilham cama, refeições e momentos. Mas isso é comparável ao dia a dia de um casal que vive na mesma casa e tem que enfrentar responsabilidades compartilhadas?

Esse tipo de encontro esporádico não permite saber como o outro realiza, por exemplo, as tarefas de casa. Nem como reage quando algo está incomodando, quais manias tem, o que gosta de fazer quando chega em casa ou como cozinha. É um relacionamento um pouco superficial. Talvez percebam alguns desses detalhes, mas não é a mesma coisa.

Segredos de sucesso para casais
Em todo caso, os casais de fim de semana são uma realidade. Ninguém pode determinar a duração de um relacionamento com base em como se conheceram ou quais são os parâmetros do mesmo. Apenas os membros do relacionamento sabem o que se passa nas suas vidas.

No entanto, existem certas características que aparecem em todos os casais bem-sucedidos. Algumas delas são, por exemplo, a admiração, o respeito mútuo e a ausência de codependência. Além disso, as expectativas de ambos devem ser realistas e baseadas em uma escolha: amar o outro.

Certamente, a base deve ser a comunicação e a confiança. É preciso poder conversar sobre tudo e manifestar cada um seu ponto de vista, sem medo de ser julgado ou rejeitado. Os casais passam por momentos incríveis e felizes, mas quando os mais difíceis chegam, devem ser capazes de dizer o que sentem e no que acreditam um para o outro.

Todas essas características podem estar perfeitamente presentes nos casais de fim de semana. Só é preciso saber o que cada um pode contribuir para o outro, como esse relacionamento vive, como a distância afeta e se a situação faz ambos serem felizes.

Se ambos estiverem de acordo, então pode ser um relacionamento muito saudável e duradouro!
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MUDAR O GOVERNO – Mia Couto

Não se pode governar um país como se a política fosse um quintal e a economia fosse um bazar. Ao avaliar um regime de governação precisamos, no entanto, de ir mais fundo e saber se as questões não provêm do regime mas do sistema e a cultura que esse sistema vai gerando. 

Pode-se mudar o governo e tudo continuará igual se mantivermos intacto o sistema de fazer economia, o sistema que administra os recursos da nossa sociedade. Nós temos hoje gente com dinheiro. Isso em si mesmo não é mau. Mas esses endinheirados não são ricos. Ser rico é outra coisa. Ser rico é produzir emprego. Ser rico é produzir riqueza. Os nossos novos-ricos são quase sempre predadores, vivem da venda e revenda de recursos nacionais.

Afinal, culpar o governo ou o sistema e ficar apenas por aí é fácil. Alguém dizia que «governar é tão fácil que todos o sabem fazer até ao dia em que são governo». A verdade é que muitos dos problemas que nós vivemos resultam da falta de resposta nossa como cidadãos activos. 

Resulta de apenas reagirmos no limite quando não há outra resposta senão a violência cega. Grande parte dos problemas resulta de ficarmos calados quando podemos pensar e falar.
in 'E Se Obama Fosse Africano?'
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NATAL - Rubem Alves

O Natal me deixa triste. 
Porque, por mais que o procure, não o encontro. 
Natal é uma celebração.

As celebrações acontecem para trazer do esquecimento uma coisa querida que aconteceu no passado. A celebração deve ser semelhante à coisa celebrada. Não posso celebrar a vida de Gandhi com um churrasco. Ele era vegetariano, amava os animais. Uma celebração de Gandhi teria de ser feita com verduras, água, leite e um falar baixo. Mais a leitura de alguns textos que ele deixou escritos. Assim Gandhi se tornaria um dos hóspedes da celebração.

Agora, um visitante de outro planeta que nada soubesse das nossas tradições, se ele comparecesse às festas de Natal, sem que nenhuma explicação lhe fosse dada, ele concluiria que o objeto da celebração deveria ser um glutão, amante das carnes, bebidas, do estômago cheio, das conversas em voz alta, do desperdício.

Nossas celebrações de Natal são como as cascas de cigarra agarradas às árvores. Cascas vazias, das quais a vida se foi. 

Se perguntar às crianças o que é que está sendo celebrado, eles não saberão o que dizer. Dirão que o Natal é dia do Papai Noel, um velho barrigudo de barbas brancas amante do desperdício, que enche os ricos de presentes e deixa os pobres sem nada.

Pois é certo que as celebrações do Natal são orgias de ricos, celebrações do desperdício e lixo. Celebrações do lixo? Aquelas pilhas de papel de presente colorido em que vieram embrulhados os presentes, não são elas essenciais às celebrações? Rasgados, amassados, embolados num canto. Irão para o lixo. 

Quantas árvores tiveram de ser cortadas para que aqueles papéis fossem feitos. Para quê? Para nada. A indiferença com que tratamos o papel de presentes é uma manifestação da indiferança com que tratamos a nossa Terra.

Estou convidando meus amigos para uma celebração de Natal. Ela deverá imitar a ceia que José e Maria tiveram naquela noite: velas acesas, um pedaço de pão velho, vinho, um pedaço de queijo, algumas frutas secas. 

À volta de um prato de sopa de fubá – comida de pobre –, tentaremos reconstruir na imaginação aquela cena mansa na estrebaria, um nenezinho deitado numa manjedoura, uma estrela estranha nos céus, os campos iluminados pelos vaga-lumes. 

E ouviremos as velhas canções de Natal, e leremos poemas, e rezaremos em silêncio. 

Rezaremos pela nossa Terra, que está sendo destruída pelo mesmo espírito que preside nossas orgias natalinas.
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NATUREZA HUMANA: LIVRE ARBÍTRIO - Francisco Daudt

Sabe aquele ouro que o Brasil perdeu para a Rússia no vôlei? Fui eu o culpado. Explico: nunca assisto a esportes, mas meu filho queria ver o jogo, e eu lhe fiz companhia. Logo comecei a torcer, e tudo saía ao contrário das minhas mandingas. Resultado foi o que se viu. Nunca mais. Não quero o peso do fracasso brasileiro.

Para eu sentir essa culpa, são necessárias algumas crenças: que eu tenha poderes mágicos de influenciar jogadores em Londres; que eu tenha a vontade para operá-los de forma a que eles dêem bons frutos; que minha vontade não foi bastante para produzir os efeitos supostamente desejados.

Em suma: para ter culpa, eu preciso acreditar que tenho arbítrio (significa vontade), e que ele é livre ao meu dispor. O tal livre arbítrio.

Há milênios que nossa espécie se acha grande coisa. Nossos antepassados criam que o raio havia caído porque eles tinham tocado numa pedra. Quando criança, acreditei poder parar a chuva queimando a palha do domingo de ramos (e não é que a chuva parava… às vezes). Havia uma relação poderosa de causa-efeito entre o que fazíamos e o que acontecia. Há uma criança dentro de nós até hoje (ou um antepassado troglodita, que ambos se parecem), caso contrário não haveria o menor sentido em torcer (pelo menos, não pela TV). É duro admitir, mas não estamos com essa bola toda. O último milênio foi cruel com nossa vaidade. Copérnico mostrou que não éramos o centro do universo. Freud mostrou que não mandávamos nem em nosso próprio quintal, que forças ocultas nos manipulam (no que foi endossado pelos evolucionistas, com as forças genéticas). Cientistas em geral mostram que é cada vez mais difícil completar a frase “O ser humano é o único animal que…”

No artigo sobre sentimento de culpa, falei que a crença no livre arbítrio, na vontade perfeitamente comandada por um eu soberano, era essencial para que sentíssemos culpa. Neste, questiono, não a existência da vontade, mas o quanto ela é livre. “Mas se a ausência de livre arbítrio for demonstrada, não podemos pôr ninguém na cadeia, pois ninguém será culpado”. Sinto muito, não é por isto que a cadeia existe. Ela é necessária para afastar pessoas perigosas a nosso meio. E para criar mais um constrangimento à vontade, algo que a torne menos livre ainda: cuidado com seus atos, pois eles têm conseqüências.

Afinal, quais são os cordéis que tornam nossa vontade um bonifrate? Ela é um títere de que, ou de quem? Começando com o mais básico, o nosso desejo é seu maior manipulador. Compreenda “desejo” como nossa força motora que carrega, desde os instintos mais primitivos, à modelagem que eles sofrem da genética e da criação, da cultura, da moda, do zeitgeist (o espírito do tempo). Ele é um gigantesco software inconsciente, que se mostra na tela da consciência com uma imagem a cada vez. Uma delas é a vontade. Minha vontade de assistir ao jogo foi completamente diferente da de meu filho. Livre arbítrio? rsrsrsrs. Odeio isto e o kkkk, mas, sabe, é o zeitgeist… Lamento muito, mas não peço desculpas.

> FRANCISCO DAUDT - Natureza Humana: Sentimento de Culpa

> FRANCISCO DAUDT - Natureza Humana: Palavra e Pensamento 

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FÉ NO NATAL - Martha Medeiros

As semanas que antecedem o Natal são de caixa de e-mails lotada: diversas mensagens chegam, algumas bem alegres, outras com apelos um pouco melodramáticos, em especial as que recrutam Jesus, o aniversariante esquecido. De fato, vivemos numa época megaconsumista e muitos não dão valor à data, mas a tragédia não é absoluta.
De minha parte, não festejo o... aniversário de Jesus, mas nem por isso minha casa se transforma num iglu habitado por abomináveis corações de gelo. Me emociono, confraternizo, abraço, beijo e brindo à paz, acreditando que essa abertura sincera para o afeto é uma espécie de religião também.
Recentemente, o escritor e filósofo suíço Alain de Botton esteve no Brasil lançando Religião para Ateus, livro em que ele defende a tese de que, mesmo sem acreditar em Deus, é possível ter fé. E mesmo sem ter fé, é possível encontrar na religião elementos úteis e consoladores que suavizam o dia-a-dia.
Botton condena a hostilidade que há entre crentes e ateus, e diz que em vez de atacar as religiões, é mais salutar aprender com elas, mesmo quando não compactuamos com seu aspecto sobrenatural.
Não é de hoje que admiro esse autor, e mais uma vez ele me empolga com sua visão. Fui criada numa família católica, mas já na adolescência minha espiritualidade se divorciou dos rituais de celebração, já que deixei de acreditar em fatos bíblicos que me pareciam implausíveis. Nem por isso fiquei órfã dos valores éticos que as religiões pregam.
Solidariedade, gentileza, tolerância, princípios morais, nada é furtado daqueles que descartam a existência de Deus. Claro que, se não houver o hábito constante da reflexão, podemos nos tornar materialistas convictos e acabar exercendo a bondade só em datas especiais.
É nesse ponto que Alain de Botton defende o lado prático e benéfico das religiões: elas funcionam como lembretes sobre a importância de nos introspectarmos e de fazermos a coisa certa todos os dias. Quem prefere não buscar esses lembretes na igreja, pode buscar na arte, no contato com a natureza ou onde quer que sua alma se revitalize.
Do que concluo que é possível encontrar o sentido do Natal sem montar presépio, sem assistir à missa do Galo e sem servilismo religioso. Basta que sejamos uma pessoa do bem, consciente das nossas responsabilidades coletivas e que passemos adiante a importância de se ter uma conduta digna. Nós todos podemos ser os pequenos "deuses" de nossos filhos, de nossos amigos e também de desconhecidos.
Dentro desse conceito, posso afirmar que o Natal é frequente aqui em casa: hoje, amanhã, depois de amanhã.  A diferença é que nos outros dias estamos de moletom em vez de vestido de festa, e a ceia vira uma torrada americana, mas o espírito mantém-se em constante estado de alerta contra o vazio e a superficialidade da vida.
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NATAL, A ESTÓRIA DO MENININHO - Rubem Alves

Minhas netas: o Natal está chegando. Todo mundo fica agitado, é preciso comprar presentes no cartão de crédito, fazer dívidas a serem pagas no outro ano, preparar comilanças... Mas, afinal de contas, por que tanto agito? Eu acho que a maioria se agita sem saber porque. E, se soubessem, não se agitariam... Pois eu vou dizer o que penso do por que do Natal. O Natal é o dia em que se para tudo a fim de se contar e a fim de se ouvir uma estória, a mais bela e a mais simples jamais contada. Todo esse agito por causa de uma estória? É. 

Vocês, que gostam do Harry Potter, fiquem sabendo: a estória do Natal é uma estória do mundo dos mágicos, dos bruxos, das fadas, das varinhas de condão, dos encantamentos. As estórias têm poderes mágicos. Vocês já notaram que, quando a gente ouve uma estória que nos comove, ela entra dentro da gente, faz a gente rir, faz a gente chorar, faz a gente amar, faz a gente ficar com raiva? As estórias dos mundos dos mágicos saltam das páginas dos livros onde estão escritas, entram dentro da gente e se alojam no coração. 


Quando isso acontece a estória fica viva, toma conta do nosso corpo e da nossa alma, e nós passamos a ser parte dela. Pois a estória do Natal faz isso com a gente. Quando vai chegando o Natal eu fico com saudade das músicas antigas de Natal (tem de ser das antigas; as modernas não servem) e começo a folhear meus livros de arte, onde estão as pinturas do presépio. É muito simples: um menininho que nasceu em meio aos bois, vacas, ovelhas, cavalos, jumentos... Era menininho pobre. 


Mas diz a estória que quando ele nasceu aconteceu uma mágica com o mundo: tudo ficou diferente: as árvores se cobriram de vaga-lumes, as estrelas brilharam com um brilho mais forte, e até uns reis deixaram os seus palácios e foram ver o nenezinho. A visão do menininho os transformou: eles largaram suas coroas, jóias e mantos de veludo junto com os bichos, na estrebaria. Quem vê o menininho fica curado de perturbação. Perturbados são os adultos que, ao falar sobre Deus, imaginam um ser muito grande, muito poderoso, muito terrível, ameaçador, sempre a vigiar o que fazemos para castigar. 


Pois o Natal diz que isso é mentira. Porque Deus é uma criancinha. Ele está muito mais próximo de vocês do que dos adultos. E foi essa mesma criancinha que, depois de crescida, disse que para estar com Deus bastava voltar a ser criança. Se os adultos, antes de comprar presentes e preparar ceias, se lembrassem da estória, eles ficariam curados da sua doidice. Na noite do Natal que se aproxima, antes de abrir os presentes, antes de começar a comedoria, peça ao seu pai ou à sua mãe: “Por favor, conte a estória do menininho...“ E, se eles não souberem contar, peça que eles leiam esse poema sobre o Menino Jesus escrito por um poeta que queria ser menino, por nome de Alberto Caeiro.

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver.
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro.
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta.
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales.
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?
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PREGUIÇA: AS DIFERENÇAS ENTRE A BOA E A RUIM - Suzana Herculano-Houzel

Falta de motivação pode ser existencial e depressiva, levando a questionar de que adianta a vida. Mas também pode ser temporária e saudável, ajudando o cérebro a descansar

Falta de motivação é algo que todo mundo conhece: aquele estado em que a inércia a ser vencida é enorme, e seu cérebro não vislumbra nenhuma recompensa no horizonte que faça o esforço valer a pena. Nem toda falta de motivação é igual, contudo; ela existe em várias versões.

A versão braba é a falta de motivação existencial. “No final, todo mundo morre mesmo”, como observa o personagem principal em um de meus filmes favoritos do Woody Allen. Sejamos racionais: se o fim é inexorável, para que adianta a vida, então? Sair da cama, pensando assim, não valeria o esforço. Se no entanto levantamos a cada novo dia, ou é porque encontramos um argumento lógico que justifique a empreitada, ou é porque... não é a lógica racional que nos move.

De fato, não é. Somos literalmente movidos pela sensação de prazer e satisfação, nada racional, que nosso próprio cérebro se dá como prêmio quando faz algo que dá certo – e pelo prazer e satisfação que ele antecipa como retorno pelas suas possíveis ações futuras. Quem cuida disso é o sistema de recompensa e motivação do cérebro, informado pela dopamina que sinaliza o sucesso real ou esperado. Todos os animais com um cérebro razoavelmente organizado tem algo parecido, com neurônios dopaminérgicos que, ao dar valor positivo a qualquer coisa que funcione, impulsionam os movimentos – e acabam dando também um sentido para a vida.

Essa versão braba de falta de motivação costuma nos visitar em instantes de reflexão existencial, mas em geral é momentânea, esquecida assim que o cérebro se lembra de alguma tarefa premente, de preferência prazerosa. Ao menos, isso é o que o cérebro saudável consegue fazer; a versão duradoura, crônica, da falta de motivação existencial é, justamente, sinal de doença, chamada depressão. Em depressão, um estado de dificuldade de ativação das estruturas do sistema de recompensa, o cérebro não encontra nem satisfação interna suficiente para suas ações, nem consegue vislumbrar prazeres em seu futuro que façam o esforço valer a pena – apesar de amplas evidências do contrário. A falta de motivação da depressão não é uma escolha; é resultado de um distúrbio que deixa o cérebro preso à evidência racional de que nada vale a pena.

Mas existe ainda uma versão temporária, saudável, e curiosamente diária da falta de motivação: aquela que nos visita todos os dias ao final do dia, e que chamamos de preguiça – de levantar do sofá para buscar os óculos, o controle remoto ou um copo d’água. Também esta falta de motivação é resultado da perda de ação dopaminérgica, aqui no entanto causada pela adenosina que se acumula ao longo do dia no cérebro como resultado do seu próprio funcionamento. Com o cérebro encharcado de adenosina, haja dopamina para dar conta de convencer outras partes do seu cérebro de que o esforço de se mexer vale a pena.

Esta preguiça diária e com hora marcada, ao contrário da existencial e da depressiva, é boa: é ela que nos faz sossegar ao fim do dia, aumentando nossas chances de adormecer. E, dormindo, a adenosina é removida, o que permite que, pela manhã, a dopamina volte a exercer seu papel, premiando o cérebro com sensações positivas a cada ação executada ou apenas planejada. 

Assim você acorda pronto para um novo dia, capaz de navegar pela vida enxergando prazeres e satisfações no horizonte – apesar de toda a evidência racional de que a viagem provavelmente é inútil.
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Me dê a coragem
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