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13 de jun de 2018

A INSPIRADORA PARÁBOLA DAS FLORES SEM PERFUME

A parábola das flores sem perfume nos conta a história de um velho samurai, muito sábio, que era muito respeitado por todos. O homem ancião sempre fazia reuniões em sua casa para compartilhar seus ensinamentos com os mais jovens, que sempre o escutavam com muito interesse e atenção.

Diz-se que sua fama se espalhou por todas as cidades próximas, e começaram a chegar pessoas de diversos lugares para ouvi-lo. O velho samurai falava principalmente da importância do desapego e da importância de saber erradicar as emoções egoístas de dentro do nosso ser.

“Tudo o que te incomoda nas outras pessoas é só
uma projeção do que você não resolveu dentro de si mesmo”.
-Buda-

Seu discípulo mais assíduo era um jovem chamado Alino. Ele queria aprender tudo que pudesse do mestre, e por isso ia sem falta, todos os dias, as suas reuniões. Também preparava chá para todos e se caracterizada por gostar muito de ajudar os outros. O samurai o via com bons olhos por sua humildade e seu interesse pelos outros. Ele seria o principal aprendiz da parábola das flores sem perfume.

A raiva e a parábola das flores sem perfume
Um dia, em plena reunião, um dos presentes derramou seu chá sobre as roupas de outra pessoa que também estava assistindo. O que foi atingido não demorou nem um segundo para reagir. Ele imediatamente empurrou agressivamente o homem que havia causado o acidente. “Como você é desastrado!”. E logo acrescentou que sua roupa era de seda proveniente da China e que agora estava completamente manchada e arruinada.

O velho samurai permaneceu impassível. Continuou como se nada tivesse acontecido. Alguns dos presentes murmuraram em voz baixa. Todos ficaram muito surpresos que o mestre tivesse permitido uma discussão dentro da sua própria casa. A maioria opinava que ele deveria intervir, fazer algo diante da soberba daquele homem.

Alino estava confuso. Quando a reunião acabou, ele não conseguiu se segurar e perguntou para seu mestre. “Por que você permitiu aquela injustiça, sabendo que bastava apenas uma palavra sua para colocar aquele orgulhoso no lugar dele? Por que você não o expulsou da sua casa em represália?”.

O mestre apenas sorriu. “Há algumas flores que não têm perfume, e elas não devem estar em nosso jardim”, foi o que ele respondeu para Alino. Ele ficou ainda mais confuso. Não entendeu a mensagem do mestre. Então, o velho samurai completou: “A raiva é uma flor sem perfume, que só cresce nos jardins em que não há liberdade”. E essa foi a primeira lição da parábola das flores sem perfume.

Alino e a parábola das flores sem perfume
Uma semana depois do acidente com o homem e o chá, aconteceu algo que ninguém esperava. O mesmo homem voltou para a casa do mestre, mas desde o momento em que entrou, mostrou-se muito hostil com todos os presentes. Ele abriu caminho entre os presentes empurrando quem estava em seu caminho. Também falava quase gritando, sem se dar conta de que o mestre já estava transmitindo seus ensinamentos.

Então ele fez algo que deixou todos completamente chocados. Ele se levantou, foi até o lugar onde o mestre estava e, sem falar nenhuma palavra, cuspiu na sua cara. O mestre ficou em silêncio por alguns segundos. Todos estavam atônitos. Em um primeiro momento ninguém reagiu, mas logo surgiram várias vozes ao mesmo tempo.

Alino se levantou em alerta. Pegou um dos sabres que estavam na casa. Logo disse para o velho samurai: “Permita-me mestre dar a lição que esse homem merece!”. O mestre se manteve impassível e só levantou sua mão para indicar que ninguém iria fazer nada. Parecia que Alino ainda não havia entendido a parábola das flores sem perfume.

Um final inesperado
O mestre pediu calma. Mantinha-se completamente sereno. O agressor estava pronto para responder e agir se qualquer um tentasse atacá-lo. Havia em seu rosto um certo sorriso de satisfação em ter desafiado o homem mais conhecido de toda a região. Então finalmente o velho samurai rompeu seu silêncio. Dirigindo-se ao homem que havia cuspido nele, ele disse: “Obrigado”.

Ninguém conseguiu acreditar no que estava ouvindo. Alino não sabia nem o que pensar. Por isso ele perguntou para o ancião: “O que você disse mestre? Como pode agradecer esse indivíduo que pela segunda vez veio para sua casa e te afrontou dessa maneira? Como é possível que você esteja agradecendo a ele?”

O mestre serenamente se dirigiu para o agressor dizendo: “Seu gesto me permitiu comprovar que a raiva desapareceu do meu coração. Não tenho como te pagar por isso. As flores sem perfume não crescem em meu jardim”. Alino então compreendeu e se sentiu envergonhado.

O mestre estava há meses lhes ensinando a se desapegar das armadilhas do ego. Também a evitar as emoções como a raiva. As pessoas que ofendem os outros, as agressões e críticas negativas são como flores sem perfume. A única resposta sensata é ignorá-las e não permitir que destruam nosso jardim interior como ervas daninhas. 

Esse é o ensinamento da parábolas das flores sem perfume.
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5 de jun de 2018

PORQUE A VIDA NÃO BASTA - Ferreira Gullar

A arte contemporânea acabou com a crítica;
isso é expressão da crise por que passam as artes plásticas

Embora tenha frequentemente criticado o que se chama de arte contemporânea, devo deixar claro que não pretendo negá-la como fato cultural. Seria, sem dúvida, infundado vê-la como fruto da irresponsabilidade de alguns pseudoartistas, que visam apenas chocar o público.

Há isso também, é claro. Mas não justificaria reduzir a tais exemplos um fenômeno que já se estende por muitas décadas e encontra seguidores em quase todos os países.

Por isso, se com frequência escrevo sobre esse fenômeno cultural, faço-o porque estou sempre refletindo sobre ele. Devo admitir que ninguém me convenceria de que pôr urubus numa gaiola é fazer arte, não obstante, me pergunto por que alguém se dá ao trabalho de pensar e realizar semelhante coisa e, mais ainda, por que há instituições que a acolhem e consequentemente a avalizam.

O fato de negar o caráter estético de tais expressões obriga-me, por isso mesmo, a tentar explicar o fenômeno, a meu ver tão contrário a tudo o que, até bem pouco, era considerado obra de arte. Não resta dúvida de que alguma razão há para que esse tipo de manifestação antiarte (como a designava Marcel Duchamp, seu criador) se mantenha durante tantos anos.

Não vou aqui repetir as explicações que tenho dado a tais manifestações, as quais, em última análise, negam essencialmente o que se entende por arte. Devo admitir, porém, que a sobrevivência de tal tendência, durante tanto tempo, indica que alguma razão existe para que isso aconteça, e deve ser buscada, creio eu, em certas características da sociedade midiática de hoje. O fato de instituições de grande prestígio, como museus de arte e mostras internacionais de arte, acolherem tais manifestações é mais uma razão para que discutamos o assunto.

Uma observação que me ocorre com frequência, quando reflito sobre isso, é o fato de que obra de arte, ao longo de 20 mil anos, sempre foi produto do fazer humano, o resultado de uma aventura em que o acaso se torna necessidade graças à criatividade do artista e seu domínio sobre a linguagem da arte.

Das paredes das cavernas, no Paleolítico, aos afrescos dos conventos e igrejas medievais, às primeiras pinturas a óleo na Renascença e, atravessando cinco séculos, até a implosão cubista, no começo do século 20, todas as obras realizadas pelos artistas o foram graças à elaboração, invenção e reinvenção de uma linguagem que ganhou o apelido de pintura.

Isso não significa que toda beleza é produto do trabalho humano. Eu, por exemplo, tenho na minha estante uma pedra --um seixo rolado-- que achei numa praia de Lima, no Peru, em 1973, que é linda, mas não foi feita por nenhum artista. É linda, mas não é obra de arte, já que obra de arte é produto do trabalho humano.

Pense então: se esse seixo rolado, belo como é, não pode ser considerado obra de arte, imagine um casal de urubus postos numa gaiola, que de belo não tem nada nem mantém qualquer relação com o que, ao longo de milênios, é tido como arte. Não se trata, portanto, de que a coisa tenha ou não tenha qualidades estéticas --pois o seixo as tem-- e, sim, que arte é um produto do trabalho e da criatividade humana. Se é boa arte ou não, cabe à crítica avaliar.

E toca-se aqui em outro problema surgido com essa nova atitude em face da arte. É que, assim como o que não é fruto do trabalho humano não é arte, também não é possível exercer-se a crítica de arte acerca de uma coisa que ninguém fez.

O que pode o crítico dizer a respeito dos urubus mandados à Bienal de São Paulo? A respeito de um quadro, poderia ele dizer que está bem mal-executado, que a composição é pobre ou as cores inexpressivas, mas a respeito dos urubus, que diria ele? Que não seriam suficientemente negros ou que melhor seria três em vez de dois? Não o diria, pois nada disso teria cabimento. Não diria isso nem diria nada, porque não é possível exercer a crítica de arte sobre o que ninguém fez.

Desse modo -e inevitavelmente-, a chamada arte contemporânea acabou também com a crítica de arte. Isso tudo é, sem dúvida, a expressão da crise grave por que passam hoje as artes plásticas.

Costumo dizer que a arte existe porque a vida não basta. Negar a arte é como dizer que a vida se basta, não precisa de arte. Uma pobreza!

AMAR O TRANSITÓRIO - Zuenir Ventura

Carpe diem é uma expressão latina presente numa ode do poeta Horácio, da Roma Antiga, e que ficou popular no fim dos anos 80 por causa do filme "Sociedade dos poetas mortos", de Peter Weir, em que funcionava como lema do personagem interpretado por Robin Williams.

Quem viu não esquece aquele professor de literatura carismático que subverteu a caretice de uma escola conservadora, exaltando a liberdade e a poesia, e ensinando seus alunos a pensar por si mesmos. Carpe diem significa "aproveite o dia de hoje", ou seja, desconfie do amanhã, não se preocupe com o futuro, não deixe passar as oportunidades de prazer e gozo que lhe são oferecidas aqui e agora.

Ele me foi lembrado por um amigo numa conversa em que lamentávamos algumas ameaças à saúde que atingiram pessoas queridas. Em proporções mais dramáticas, era um pouco daquilo que Ronaldo Fenômeno resumiu na sua emocionante despedida.

Como as dele, eram derrotas para o corpo. Trapaças que ele apronta na forma de um tombo traiçoeiro ou do defeito de uma peça do nosso mecanismo.

Falávamos de quanto tempo se perde com bobagens que nos aborrecem além da conta, deixando passar momentos preciosos como, por exemplo, uma dessas nossas luminosas manhãs que nenhuma outra cidade consegue produzir com igual esplendor. Desprezamos por piegas as emoções singelas e vivemos à espera das ocasiões especiais, de um estado permanente de felicidade, sonhando com apoteoses e sentindo saudades do passado e até do futuro, sem curtir o presente. 

Só quando surge a perspectiva da perda é que damos valor a deleites simples ao nosso alcance, como ler um bom livro, ouvir uma boa música, ver Alice sorrir, assistir a "O discurso do rei", ver o "Sarau", de Chico Pinheiro, receber o afago de leitor(a), voltar a andar no calçadão, beber uma água de coco ou admirar o pôr do sol no Arpoador. 


Foi depois desse papo de exaltação hedonista que meu amigo concluiu que, como o destino nem sempre avisa quando vai aprontar, urge curtir enquanto é tempo — carpe diem. 


O grande poeta pernambucano Carlos Pena Filho, que morreu aos 31 anos num acidente de carro, em 1960, disse mais ou menos o mesmo num dos mais belos sonetos da língua portuguesa, "A solidão e sua porta", que termina assim:

Lembra-te que afinal te resta a vida
Com tudo que é insolvente e provisório
E de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.
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23 de mai de 2018

O QUE É SER PAPA? - Luiz Paulo Horta

A Jornada Mundial da Juventude espalha pela cidade uma eletricidade que é tudo de bom e de belo. Que experiência, ver a garotada pelas ruas do Rio com suas bandeiras e mochilas (algumas enormes), disposta a andar, a cantar, a confraternizar! Se o mundo fosse sempre assim ...

A chegada do Papa deu algumas voltas extras nesse parafuso. Tente imaginar alguma personalidade contemporânea sendo recebida como foi o Papa Francisco na segunda-feira. Duvido que você consiga achar.

De onde vem essa energia? Há o fenômeno religioso, talvez a maior de todas as paixões humanas. Mas, será só isso? Desde a renúncia de Bento XVI, esse fenômeno tem mobilizado, de maneira surpreendente, pessoas que não têm ligação direta, ou mesmo indireta, com a religião.

Há mistérios no Vaticano, muito além do alcance de um Dan Brown. Há uma tradição forte dizendo que naquela colina foi martirizado o primeiro Papa, e que uma primeira igreja teria sido construída, ali, sobre a própria sepultura de São Pedro. Há as palavras solenes do Cristo: “Pedro, tu me amas? Apascenta as minhas ovelhas”.

São Pedro fez o que pôde para cumprir sua missão. Depois, veio uma série de Papas de que sabemos muito pouco — Lino, Cleto, Clemente. Esses primeiros Papas eram os bispos de Roma (e é assim que gosta de se chamar o atual Francisco). Fora dos muros da cidade, tinham uma influência apenas relativa, como se vê pelo concílio de Nicéia, ano 300, crucial para a igreja primitiva, em que a presença de um legado pontifício passou quase desapercebida.

Depois, houve de tudo. Houve os grandes Papas da Roma antiga — São Leão, São Gregório —, houve os Papas posteriores a Carlos Magno, cujas histórias nos cobrem de vergonha (aquilo ainda era a Igreja de Cristo?), houve os pontífices majestosos da Alta Idade Média, os Papas corruptos da Renascença, contra os quais se rebelou Lutero, e por aí vai.

O que sobra dessa cavalgada histórica? Um mistério. Alguns Papas foram grandes personalidades, às vezes, até, santos. Outros foram medíocres, como os Papas do século XVIII (um deles, por pressão da França, decretou o fim da Companhia de Jesus). Mas cada um deles, de algum modo, sabia o que se esperava deles.

Conversando, uma vez, com dom Eugenio Sales, ele me disse que, estudando documentos pontifícios referentes à fundação do Brasil, encontrou textos do terrível Papa Borgia, Alexandre VI, pessoa sabidamente corrupta. Mas, disse dom Eugenio, quando tinha de falar como Papa, a voz (ou o texto) era de Papa.

A Igreja também se envolveu em mil confusões por causa de problemas políticos — como a existência dos Estados pontifícios. Durante séculos, o Papa era um chefe de estado com direito a território, a burocracia, a forças militares. Julio II, na Renascença, chegou a comandar tropas envergando armadura cintilante. Equívoco total, que terminou no século XIX com a emancipação da Itália. O Vaticano, hoje, é um Estado minúsculo. Mesmo assim, reporta-se ao Papa uma organização gigantesca, interferindo na vida de um bilhão de pessoas.

O Papa precisa de ajuda. Ele poderá pôr em prática um dos lemas do Vaticano II — a colegialidade, significando que o Papa, no fundo, é um bispo entre outros bispos, ainda que com prerrogativas especiais.

Essa prerrogativa é o mistério católico propriamente dito: um ponto de referência doutrinário, que o Papa divide com os concílios.

Desde a Renascença, católicos e protestantes tomaram caminhos divergentes. Os protestantes pregam o “livre exame”: cada cristão tem o direito de abrir a Bíblia e extrair, dali, as conclusões que quiser. Sem Papas, sem bispos, sem hierarquias. Também por esse caminho se pode ser cristão, e na literatura protestante há textos (e exemplos) da mais alta espiritualidade.

O católico tem um olho em Roma. E sabe que, quando o Papa fala, não está falando por si mesmo. É como se, de geração em geração, fosse passada adiante a experiência de fé da Igreja primitiva, das pessoas que conheceram o Cristo e que, quando necessário, deram a vida em nome do que acreditavam.

É como se, pelas mãos do Papa, corressem os fios inumeráveis dessas histórias. Dessa transmissão viveram os santos. Por ela é responsável o bispo de Roma, que hoje se chama Francisco.


21 de mai de 2018

BONITAS, CHEIROSAS E SOZINHAS - Ivan Martins

Por que sobram tantas 
mulheres no fim da festa?

Estou me acostumando a ver mulheres sozinhas ao meu redor. Não apenas mulheres sentadas no cinema ou lendo num café, em paz com elas mesmas. Penso em mulheres sem companhia masculina, em situações em que elas gostariam de ser cortejadas, mas não são.

Outro dia fui a um casamento. Havia na festa muita gente avulsa. As mulheres dançavam e olhavam ao redor, procurando companhia. Eram mulheres bonitas, cheirosas e bem arrumadas, a maioria delas com menos de 30 anos. Sozinhas. Onde estavam os homens? Acompanhados, muitos. Bêbados e desinteressados, outros. Ou superados em números pela quantidade de mulheres disponíveis.

Eu me pergunto o que isso significa.

Festas de casamento eram bons lugares para arrumar namoro, ou pelo menos um rolo que valesse a pena. As pessoas costumam estar embriagadas e felizes. Mulher adulta não vai sem depilação a esse tipo de evento. Os homens já saem de casa mal intencionados. Mesmo que a família esteja olhando, pode rolar um romance gostosinho. Por que, então, tanta mulher atraente dando sopa inutilmente?

Às vezes eu tenho a impressão que o mecanismo que regula a oferta de sexo e afeto na nossa sociedade emperrou.

Obviamente há muito sexo e muito romance por aí, mas a quantidade de gente sobrando é alta – e não são apenas mulheres. Conheço homens bacanas que não transam há meses. Eles saem, frequentam, xavecam, mas não rola. Podem ser casos isolados, mas eu duvido. Da festa de casamento deve ter saído mais de um sujeito macambúzio e rejeitado. As mulheres, afinal, estão disponíveis, mas não para qualquer um.

Quando todos se tornam superficiais e exigentes, acho que as mulheres sofrem mais.

Elas estão em desvantagem nesse tipo de disputa. São mais tolerantes com a aparência e a idade dos homens. Sãos mais flexíveis em seus critérios sociais. Enquanto elas se deixam seduzir por caras interessantes, mesmo que não se encaixam nos padrões de aparência e sucesso, boa parte dos homens continua apegada a dois critérios de escolha rígidos: beleza e gostosura. As mulheres que melhor preenchem esses requisitos escolhem os homens que desejam, inclusive fora do padrão. As outras, se não tiverem muita personalidade, correm o risco de dançar sozinhas.

Não há uma solução óbvia para esse tipo de desencaixe.

Com sorte, seremos capazes de perceber, em algum momento da existência, que correr atrás de padrões que todo mundo quer é uma tolice. Cada um de nós é tão específico, tão diferente dos demais. É impossível que um único modelo de beleza, personalidade ou sensualidade sirva a todos. Uma pessoa que nos preencha é mil vezes mais difícil de encontrar que um bom sapato. Tem de encaixar temperamento, química corporal, ideias, grupo social, desejos para o futuro, neuroses.

Como pode aquela menina boba e bonita da televisão ser a mulher da vida de 50 milhões de homens? Como o sedutor da faculdade pode ser o cara certo para todas as mulheres ao redor dele? Isso, obviamente, não existe. Quem andar pela vida de olhos abertos vai notar: os encaixes são pessoais. Às vezes, tremendamente exóticos.

Coletivamente também se aprende.

Uma sociedade não produz desencaixes indefinidamente. Se muita gente começa a sobrar, alguma coisa está errada, com os valores ou com as relações sociais. O mundo já foi organizado de forma que servia, sobretudo, ao propósito dos homens. Hoje não é mais assim. 

Se as mulheres sentirem que a sociedade as está prejudicando, vão parar de cooperar. Isso não pode. Nós sabemos que nada neste mundo funciona sem as mulheres – sobretudo boas festas de casamento.
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18 de mai de 2018

SORRINDO PELAS COSTAS - Eliane Brum

Enfiou uma mão por dentro da blusa para puxar o sutiã, cuja alça direita tinha dobrado. No gesto, sentiu seu indicador roçar alguma coisa. Uma pedra no meio do seu caminho? Retrocedeu com os cinco dedos. Sentiu de novo. Apalpou. Parecia uma bola entre as suas costelas. Apertou. Não doía. Coçou. Não coçava. O que era aquilo? Correu até o banheiro da firma. Tirou a blusa, torcendo para que ninguém entrasse e a visse seminua. Torceu-se toda para olhar no espelho. Havia uma bolota vermelha e perfeitamente redonda ali. Não perfeitamente, olhando melhor. Apalpou de novo. Não sentia nada. Coçou. Não coçava nada. Como não tinha visto aquela bolota antes?

Ligou para o consultório médico. Há uma bolota nas minhas costas, anunciou à secretária. Não posso esperar um mês por uma consulta. Maldito plano de saúde vagabundo. Você sabe, uma bolota nem sempre é uma bolota, insistiu. Vou falar com o doutor para marcar um encaixe, a moça prometeu.

Naquela noite sonhou que a bolota tinha um rosto. Como a carinha do smiles. Mas era uma carinha má. A bolota ria dela. Antes de lhe cravar os dentes. Agora ela tinha certeza de que aquela bolota não era inofensiva. Nas noites seguintes teve medo de dormir. Era como se uma estranha estivesse acordada sem que ela pudesse enxergar seus olhos abertos. Uma estranha íntima dando dentadas na sua carne. E rindo, rindo muito. Rindo pelas suas costas.

Hum, disse o médico. Hum o quê? Não estou gostando do aspecto dela, mas não posso confirmar nada antes da biópsia. Pode não ser nada. Quando apareceu? Não sei, só vi na semana passada. Deve estar aí há algum tempo. Como você não viu? A pergunta a deixava nervosa. Eu não sei, não sei como eu não a vi antes. Eu deveria tê-la apalpado no banho, pelo menos, mas não senti. Simplesmente não senti. Não se preocupe, faremos a biópsia e tudo ficará esclarecido. Ela nem sabia se queria esclarecer alguma coisa. Eu não tenho material para fazer aqui, mas basta ir ao laboratório, seu plano cobre esse exame. É um procedimento de rotina. Da rotina de quem, ela gostaria de ter perguntado. Mas se calou.

Sentada na sala de espera do laboratório em que arrancariam um dente do sorriso das costas dela, ela estava longe. Não só de suas costas, mas dela inteira. Fora. Estava fora. Nem registrou a dor. Sentiu algum desconforto?, perguntou a moça. Desconforto, que palavra era esta? Doeu menos do que depilar a virilha com cera, ela disse.

Cinco dias depois, a secretária do médico ligou porque ele queria vê-la. Ela foi, mas permaneceu onde estava. Longe. Nem ouviu a palavra quando o médico a pronunciou. Simplesmente não a interessava. Tudo o que ela conseguia pensar é que ninguém a amava o suficiente para acariciar as suas costas. Ninguém a amava o suficiente para descobrir que havia uma bolota ali antes que fosse tarde demais.
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13 de mai de 2018

A MELHOR MÃE DO MUNDO - Martha Medeiros

Você é. Sua vizinha também. A Maitê. A Malu. A Claúdia. Eu, naturalmente. Somos as melhores mães do mundo. Aliás, essa é a única categoria em que não há segundo lugar, todas as mães são campeãs, somos bilhões de "as melhores" espalhadas pelo planeta. Ao menos, as melhores para os nossos filhos, que nunca tiveram outra.

Não é uma sorte ser considerada a melhor, mesmo se atrapalhando tanto? Mãe erra, crianças. E improvisa. Mãe não vem com manual de instrução: reage apenas aos mandamentos do coração, o que tem um inestimável valor, mas não substitui um bom planejamento estratégico. E planejamento é tudo o que uma mãe não consegue seguir, por mais que livros, revistas e psicólogos tentem nos orientar.

Um dia um exame confirma que você está gravida e a felicidade é imensa e o pânico também. Uau, vou ser responsável pela criação de um ser humano! A partir daí, nunca mais a vida como era antes. Nunca mais a liberdade de sair pelo mundo sem dar explicações a ninguém. Nunca mais pensar em si mesma em primeiro lugar. Só depois que eles fizerem dezoito anos, e isso demora. E às vezes nem adianta.

O primeiro passo é se acostumar a ser uma pessoa que já não pode se guiar apenas pelos próprios desejos. Você continuará sendo uma mulher ativa, autêntica, batalhadora, independente, estupenda, mas cem por cento livre, esqueça. De maridos você escapa, dos próprios pais você escapa, mas da responsabilidade de ser mãe, jamais. E nem você quer. Ou será que gostaria?

De vez em quando, sim, gostaríamos de não ter esse compromisso com vidas alheias, de não precisar monitorar os passos dos filhotes, de não ter que se preocupar com a violência que eles terão que enfrentar, de não sofrer pelas dores-de-cotovelo deles, de não temer por suas fragilidades, de não ficar acordada enquanto eles não chegam e de não perder a paciência quando eles fazem tudo ao contrário do que sonhamos.

Gostaríamos que eles não falassem mal de nós nos consultórios dos psiquiatras, que eles não nos culpassem por suas inseguranças, que não fôssemos a razão de seus traumas, que esquecessem os momentos em que fomos severas demais e que nos perdoassem na vezes em que fomos severas de menos. Há sempre um "demais" e um " de menos" nos perseguindo. Poucas vezes acertamos na intensidade dos nossos conselhos e críticas.

Mas é assim que somos: às vezes exageradamente enérgicas em momentos bobos, às vezes um tantinho ..na hora de impor limites. A gente implica com alguns amigos deles e adora outros e não consegue explicar por quê, mas nossa intuição diz que estamos certas. Mas de que adianta estarmos certas se eles só se darão conta disso quando tiverem os próprios filhos?

Erramos em forçá-los a gostar de aipo, erramos em agasalhá-los tanto para as excursões do colégio, erramos em deixar que passem a tarde no computador em véspera de prova, erramos em não confiar quando eles dizem que sabem a matéria, erramos em nos escabelar porque eles estão com olhos vermelhos (pode ser só resfriado), erramos quando não os olhamos nos olhos, erramos quando fazemos drama por nada, erramos um pouquinho todo dia por amor e por cansaço. 

O que nos torna as melhores mães do mundo é que nossos erros serão sempre acertos, desde que estejamos por perto. 
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10 de mai de 2018

EU ACUSO - Luiz Felipe Pondé

O bullying ideológico com os 
mais jovens é apenas o efeito,
 a causa é maior

Muitos alunos de universidade e ensino médio estão sendo acuados em sala de aula por recusarem a pregação marxista. São reprovados em trabalhos ou taxados de egoístas e insensíveis. No Enem, questões ideológicas obrigam esses jovens a "fingirem" que são marxistas para não terem resultados ruins.

Estamos entrando numa época de trevas no país. O bullying ideológico com os mais jovens é apenas o efeito, a causa é maior. Vejamos.

No cenário geral, desde a maldita ditadura, colou no país a imagem de que a esquerda é amante da liberdade. Mentira. Só analfabeto em história pensa isso. Também colou a imagem de que ela foi vítima da ditadura. Claro, muitas pessoas o foram, sofreram terríveis torturas e isso deve ser apurado. Mas, refiro-me ao projeto político da esquerda. Este se saiu muito bem porque conseguiu vender a imagem de que a esquerda é amante da liberdade, quando na realidade é extremamente autoritária.

Nas universidades, tomaram as ciências humanas, principalmente as sociais, a ponto de fazerem da universidade púlpito de pregação. No ensino médio, assumem que a única coisa que os alunos devem conhecer como "estudo do meio" é a realidade do MST, como se o mundo fosse feito apenas por seus parceiros políticos. Demonizam a atividade empresarial como se esta fosse feita por criminosos usurários. Se pudessem, sacrificariam um Shylock por dia.

Estamos entrando num período de trevas. Nos partidos políticos, a seita tomou o espectro ideológico na sua quase totalidade. Só há partidos de esquerda, centro-esquerda, esquerda corrupta (o que é normalíssimo) e do "pântano". Não há outra opção.

A camada média dos agentes da mídia também é bastante tomada por crentes. A própria magistratura não escapa da influência do credo em questão. Artistas brincam de amantes dos "black blocs" e se esquecem que tudo que têm vem do mercado de bens culturais. Mas o fato é que brincar de simpatizante de mascarado vende disco.

Em vez do debate de ideias, passam à violência difamatória, intimidação e recusam o jogo democrático em nome de uma suposta santidade política e moral que a história do século 20 na sua totalidade desmente. Usam táticas do fascismo mais antigo: eliminar o descrente antes de tudo pela redução dele ao silêncio, apostando no medo.

Mesmos os institutos culturais financiados por bancos despejam rios de dinheiro na formação de jovens intelectuais contra a sociedade de mercado, contra a liberdade de expressão e a favor do flerte com a violência "revolucionária".

Além da opção dos bancos por investirem em intelectuais da seita marxista (e suas similares), como a maioria esmagadora dos departamentos de ciências humanas estão fechados aos não crentes, dezenas de jovens não crentes na seita marxista soçobram no vazio profissional.

Logo quase não haverá resistência ao ataque à democracia entre nós. A ameaça da ditadura volta, não carregada por um golpe, mas erguida por um lento processo de aniquilamento de qualquer pensamento possível contra a seita.

E aí voltamos aos alunos. Além de sofrerem nas mãos de professores (claro que não se trata da totalidade da categoria) que acuam os não crentes, acusando-os de antiéticos porque não comungam com a crença "cubana", muitos desses jovens veem seu dia a dia confiscado pelo autoritarismo de colegas que se arvoram em representantes dos alunos ou das instituições de ensino, criando impasses cotidianos como invasão de reitorias e greves votadas por uma minoria que sequestra a liberdade da maioria de viver sua vida em paz.

Muitos desses movimentos são autoritários, inclusive porque trabalham também com a intimidação e difamação dos colegas não crentes. Pura truculência ideológica.

Como estes não crentes não formam um grupo, não são articulados nem têm tempo para sê-lo, a truculência dos autoritários faz um estrago diante da inexistência de uma resistência organizada.

Recebo muitos e-mails desses jovens. Um deles, especificamente, já desistiu de dois cursos de humanas por não aceitar a pregação. Uma vergonha para nós.









8 de mai de 2018

O DIA MAIS FELIZ DA MINHA INFÂNCIA – Juliana Ludmer

Um dos momentos mais deslumbrantes de minha vida foi o dia em que andei de avião pela primeira vez. Tinha por volta de dez anos, e a curiosidade teimosa pela sensação de voar me consumia a mente desde quando, alguns anos antes, haviam me levado ao aeroporto para buscar um parente. O destino não importava: a principal aventura era o percurso até lá, entre as nuvens, sobre o mundo.

A ansiedade foi aumentando à medida que eu avançava de mãos dadas com meu pai pelo aeroporto. As pessoas arrumadas com coques de laquê, o barulho dos saltos, o cheiro de limpo, a luminosidade homogênea, os letreiros coloridos: tudo parecia compor uma sinfonia caótica que, contudo, se movia harmonicamente em direção aos portões de embarque. Fazer parte daquele mundo de pessoas viajantes me dava uma sensação de invencibilidade: eu era capaz de transpor barreiras, ir para longe, desbravar. Dentro de mim se potencializava um sentimento de independência, não em relação a algo ou alguém, mas às limitações físicas, como se eu tivesse a habilidade de me dissipar no ar e me refazer em outro local.

Um refresco e um salgado, horário do embarque. Atravessamos a passarela. Chegamos ao avião. Ia mesmo acontecer. Afivelei os cintos. Senti um formigamento na parte interna da coxa, que foi se expandindo pouco a pouco para a barriga, faringe, boca, até se tornar uma rede de energia à minha volta. Não conseguia mais conter a felicidade: vivia uma explosão de êxtase em todos os meus órgãos.

E então aconteceu. O avião acelerou, barulho, barulho, barulho e, de repente, um milagre. Não existiam aeronave, pessoas, nem mesmo meu pai. Éramos apenas eu e o universo, em uma conexão única. Eu estava voando. Eu estava voando, e o mundo estava aos meus pés.

Tempos depois, nessas conversas em retrospectiva, vim a descobrir que o meu primeiro voo foi motivado pela falência de meu pai, que, sem família no Rio, retornava a Pernambuco para se abrigar por tempo indefinido na casa da irmã. O meu momento de indestrutibilidade contrastava, nessa costura delicada de sentimentos que é a vida, com um dos momentos de maior fragilidade de meu pai, sentado logo ao meu lado. Ah!, o poder da fantasia. Nunca, nunca mais, me senti invencível como naquele dia.
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6 de mai de 2018

A PARTE BRANCA DO BIQUINI - Fabrício Carpinejar

O verão é perturbador.

A nudez da mulher muda com a praia e a piscina. Ela passa a ter uma calcinha na pele. Quando transar, terei duas calcinhas para tirar. Se uma já era boa, duas são insuportavelmente excitantes. É a tara masculina saciada em dobro. Você vai baixar a primeira de renda com as mãos e outra com os olhos.

Preste atenção, aproveite a temporada. Só nos meses quentes para contar com strip-tease duplo de sua esposa. Irresistível a marca de biquíni que ela deixa para mim. Sua pele branca somente reservada para minha adoração. É o mapa do pecado, é a geografia do desejo, é o país da lascívia.

Fortalecendo a morenidade de minha mulher, o sol me ajuda, é meu cúmplice de alcova. O sal e o mar colaboram colorindo o corpo e me separando a tez imaculada. Abençoo o contraste. A parte branca do biquíni significa um presente marítimo, uma concha inteiriça e de som infinito que erguemos do rebuliço das águas.

Eu entendo e respeito quando ela fica horas torrando na cadeira. De bruços, de frente, de lado, seguindo os raios com a lealdade dos reflexos dos óculos escuros. Não reclamo do seu isolamento, não digo que é perda de tempo, não vejo como imolação, não recrimino com piadas sexistas, não zombo da dedicação.

Pelo contrário, agradeço sua generosidade comigo. Levo cerveja gelada, caipirinha e protetor reserva para prolongar seu tempo de exposição. Busco toda coisa que deseje. Ela tem direito a sonhos de grávida, a excentricidades de grávida. Não considero nenhuma regalia absurda perante o prazer que encontrarei de noite.

Eu me torno seu cooler, seu isopor, seu guia do deserto, seu pajem. Altero a direção dos ventos, sopro tempestades para longe, abro frestas nas nuvens com o poder do pensamento. Combato o que pode atrapalhar seu dia iluminado e claro.

Conheço o valor de minha recompensa, prevejo a extensão da dádiva. Não é o bronzeado que me alucina, é onde ela não se bronzeou. É onde ela se guardou para mim.

A parte branca do biquíni vale qualquer esforço, qualquer sacrifício. A parte branca do biquíni é uma cobiçada ilha após a natação dos braços.

Sem querer esnobar, eu entro onde nem a luz tem permissão.

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FERREIRA GULLAR - O que me disse a flor









27 de abr de 2018

FAKENEWS: A BATALHA PELA REALIDADE ESTÁ COMEÇANDO – Ronaldo Lemos

Quem acha que o tempo das 'fakenews' está passando precisa pensar melhor.

O diretor Jordan Peele (Oscar de roteiro por "Corra!") disseminou um vídeo em que Barack Obama aparece xingando Donald Trump com um termo chulo ("deepshit"). Só um problema: o vídeo é falso.

Foi gerado por técnicas de inteligência artificial —e dublado por— Peele que cada vez mais permitem sintetizar imagens e vídeos indistintos do que chamamos de realidade.

Esse fenômeno é chamado de "deepfake" (falsificação profunda). Quem acha que o tempo das "fakenews" está passando precisa pensar melhor. Peele soltou o vídeo justamente para alertar sobre a popularização e o barateamento dessas novas ferramentas.

O que torna esse tema especialmente grave é que confiamos em imagens e em vídeos. Estamos culturalmente programados a aceitar o que vemos com nossos próprios olhos como real. Essa confiança pode agora ser abusada.

O pesquisador Giorgio Patrini dá em seu site um exemplo estarrecedor. Ele publicou quatro fotos de pessoas diferentes, perguntando para os leitores qual seria a imagem "falsa".

Para a surpresa de quem vê as imagens, a resposta é que todas são falsas. E mais importante: nenhuma daquelas pessoas retratadas nas fotos existe.

Os rostos foram sintetizados digitalmente, utilizando aprendizado de máquina, e são indistinguíveis da imagem de pessoas reais.

O que faltou discutir na semana passada quando o vídeo de Peeleviralizou é como combater as "deepfakes".Hoje, as ferramentas de análise forense de vídeos e imagens são facilmente enganadas por esse tipo de técnica.
Em outras palavras, se for preciso provar que uma imagem dessa natureza é falsa, há chance grande de a perícia ser inconclusiva.

Com isso, há dois enfoques principais sendo propostos como antídoto ao fenômeno. O primeiro é utilizar a própria inteligência artificial para detectar se uma imagem ou vídeo é falso. Esse enfoque fazia muito sentido até pouco tempo atrás.

A questão é que surgiu um novo método que transforma o antídoto em veneno. Chamado GAN (acrônimo de "redes adversárias generativas"), ele faz com que a criação de uma técnica para identificar imagens falsas com inteligência artificial contribua para tornar as falsificações ainda mais perfeitas. Com um GAN os falsificadores poderão aperfeiçoar sua técnica, tornando a identificação do que é falso ainda mais difícil.

O outro enfoque é o uso de blockchain para certificação da captação de imagens virtuais. Em outras palavras, toda imagem captada diretamente da realidade, com celulares ou câmeras profissionais, seria registrada num arquivo global, imutável e acessível em qualquer parte do mundo, certificando que aquela imagem é "real".

O problema desse enfoque é que ele é extremamente difícil de implementar. Além disso, qualquer edição na imagem ou no vídeo (por exemplo, colocando um filtro) tornaria a "certidão de realidade" inválida.

Essas duas estratégias são insatisfatórias. Até o momento, são o que há de mais concreto para combater "deepfakes". Se eu fosse pessimista, diria que estamos lascados. Como sou otimista, tenho confiança de que a inventividade humana irá superar também esse abacaxi.

Já era: 'Deepfakes' para gerar vídeos do ex-presidente Obama
Já é: 'Deepfakes' para transformar os atores e atrizes de todos os filmes em Nicholas Cage.
Já vem: O primeiro caso de uso político de 'deepfakes' em áudio, imagem ou vídeo.
 (Fonte: FSP 23/04/2018)

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