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HOMENS DESCONCERTADOS DIANTE DO NOVO PAPEL DA MULHER - Patricia Ramírez

O papel da mulher mudou radicalmente nas sociedades mais desenvolvidas durante as últimas quatro décadas. Mas ainda há muito a fazer. E o apoio dos homens é fundamental para conseguir a tão esperada igualdade

A PALAVRA “empoderar” se aplica perfeitamente à mulher do século XXI. Ela, que se adapta a qualquer situação, se sente forte, capaz e independente — tanto no plano econômico como no emocional. Seu papel na sociedade mudou nos últimos 40 anos, em parte devido à sua progressiva incorporação ao mercado de trabalho. Desde então, a incessante luta pela igualdade salarial e para ocupar posições de poder empresarial e institucional, bem como a conciliação trabalhista e as medidas de ação afirmativa, configurou um papel feminino mais ativo. Mesmo assim, as estatísticas mostram que isso não é suficiente. Nenhum país alcançou a igualdade de gênero. E mesmo os mais igualitários oferecem menos oportunidades para as mulheres.

Um dado significativo: 44% dos europeus continua pensando que o papel mais importante da mulher é cuidar da casa e da família. Essa é a opinião de 44% das mulheres e de 43% dos homens. A mesma porcentagem afirma que a função mais importante do homem é ganhar dinheiro. Elas continuam ganhando muito menos. Portanto, esses dados revelam que ambos os gêneros têm um longo caminho pela frente até alcançar a verdadeira igualdade.

Para isso, é necessário não apenas definir os papéis de cada gênero. Nós, mulheres, precisamos de tanto tempo para lutar por nossos direitos que nos esquecemos que essas mudanças repercutem na figura tradicional do homem. Agora, é hora de que eles também se façam perguntas. É preciso que entendam nossa causa. Não queremos depender uns dos outros, mas compartilhar e caminhar juntos para transmitir um modelo de autêntica igualdade. Somente se trabalharmos esses valores desde a infância, entre irmãos e irmãs, companheiros e companheiras, mães e pais, e também entre casais de todos os gêneros, conseguiremos adequar as tarefas e romper com os esquemas até encontrar um equilíbrio.

Quando falo com muitos homens na terapia de casal, a sensação que tenho é que se sentem desconcertados. “Ela me pede que participe mais em casa. E, quando participo, tudo o que faço está errado porque tem que ser do jeito dela.” “Se lhe digo que saia para correr tranquila, que fico sozinho com as crianças, ela me diz que está cansada. Realmente não sei o que quer.” “Quando tenho a iniciativa de preparar o jantar, no final brigamos porque não consegui adivinhar o prato que ela teria servido.” “Mudamos de casa porque seu trabalho era melhor, ela ganhava mais que eu. Enquanto procuro emprego eu me dedico à casa, mas realmente me sinto como um completo inútil. Tenho a sensação de não contribuir com o que deveria, sinto vergonha por não poder colaborar com os gastos como minha mulher.” Essas frases refletem até que ponto a cultura machista está arraigada em nossa sociedade. E o desconcerto que os homens sentem com a mudança do papel da mulher.

Muitos deles mudaram de mentalidade e se adaptaram ao seu novo papel: curtem ao máximo a licença-paternidade, tentam sair antes do trabalho para estar mais com os filhos e participam das tarefas domésticas. Outros, que continuam sendo maioria, não têm iniciativa nem ideia de como exercer sua função familiar e social.

Mas tudo é questão de tempo, conscientização e luta. E se os dois gêneros se unirem nesse desafio, ambos sairão ganhando.
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O SANGUE NOS FAZ PARENTES, A LEALDADE NOS TORNA UMA FAMÍLIA

Todo mundo tem uma família. Ter uma é algo fácil: todos nós temos uma origem e raízes. Entretanto, mantê-la e saber como construí-la, alimentando o vínculo diariamente para conseguir que ela se mantenha unida, já é uma outra questão.

Todos nós dispomos de mãe, pais, irmãos, tios… Às vezes de grandes núcleos familiares com membros que, possivelmente, já deixamos de ver e com quem não convivemos. Precisamos nos sentir culpados por isso?

A verdade é que, às vezes, sentimos uma certa obrigação “moral” de nos darmos bem com aquele primo com quem compartilhamos pouquíssimos interesses, e que tantos desprazeres nos causou ao longo de nossa vida. Pode ser que o sangue nos una, mas a vida não nos encaixa com nenhuma peça, então nos afastarmos ou mantermos um relacionamento justo e pontual não deve ser motivo de nenhum trauma.

Porém, o que acontece quando falamos dessa família mais próxima? De nossos pais ou irmãos?

Chegamos a este mundo como se tivéssemos caído de uma chaminé. Neste momento, nos vemos unidos a uma série de pessoas com as quais compartilhamos o sangue e os genes. Uma família que nos fará caber em seus mundos particulares, em seus modelos educativos, que tentarão inculcar seus valores, mais ou menos certos…

Às vezes, tende-se a pensar que ser família supõe compartilhar algo além do sangue ou mesmo uma árvore genealógica. Há quem, quase de forma inconsciente, acredita que um filho deve ter os mesmos valores dos pais, compartilhar uma mesma ideologia e ter um padrão de comportamento semelhante.

Há pais e mães que se surpreendem por ver o quão diferentes os irmãos podem ser entre si… Como pode ser assim se são todos filhos de um mesmo ventre? É como se dentro do núcleo familiar tivesse que existir uma harmonia explícita, onde não existem excessivas diferenças, onde ninguém deve sair do “padrão” e tudo está controlado e em ordem.

Entretanto, algo que devemos saber claramente é que nossa personalidade não é 100% transmitida geneticamente; podem ser herdadas algumas características e, sem dúvidas, ao viver num entorno compartilhado iremos compartilhar uma série de dimensões. Mas os filhos não são moldes dos pais, e os pais nunca vão conseguir que os filhos sejam como suas expectativas querem.

A personalidade é dinâmica, é construída no dia a dia e não atende às barreiras que, às vezes, os pais ou as mães tentam impor. É aí que, muitas vezes, aparecem os habituais desapontamentos, as “colisões”, as desavenças…

Para criar uma ligação forte e segura a nível familiar, devem ser respeitadas as diferenças, promover a independência ao mesmo tempo que a segurança. É preciso respeitar a essência de cada pessoa em sua maravilhosa individualidade, sem colocar muros, sem censurar cada palavra e comportamento…

Segredos das famílias que vivem em harmonia
Às vezes, muitos pais veem como seus filhos se afastam do lar familiar sem estabelecer mais contato. Há irmãos que deixam de se falar e famílias que veem quantas cadeiras vazias jazem no silêncio da sala de casa.

A que se deve isso? Está claro que cada família é um mundo, um micromundo com suas regras, suas crenças e, também, com as cortinas abaixadas onde só elas mesmas sabem o que aconteceu no passado, e como se vive no presente.

Entretanto, podemos falar disso baseados em alguns eixos básicos que devem nos fazer refletir.

– A educação tem como a finalidade dar ao mundo pessoas seguras de si mesmas, capazes e independentes, para que possam alcançar sua felicidade, e, por sua vez, saibam oferecê-la aos demais.  Como se consegue isso? Oferecendo um amor sincero que não impõe e que não controla. 
Um carinho que não censura como alguém é, pensa ou age.

Está claro que, na hora de educar, sempre são cometidos alguns erros. Mas nós também devemos ter o controle de nossa vida e saber reagir, ter voz, e saber dizer “não”, e acreditar que somos capazes de empreender novos projetos com segurança e maturidade, novos sonhos sem sermos escravos das lembranças familiares do ontem.

Ser família NÃO supõe compartilhar sempre as mesmas opiniões e os mesmos pontos de vista. E nem por isso devemos julgar, censurar e, menos ainda, desprezar. Comportamentos como estes criam distâncias e fazem que, no dia a dia, encontremos maior lealdade nos amigos do que na família.

– Às vezes, temos a “obrigação moral” de ter que continuar mantendo contato com parentes que nos fazem mal, que nos incomodam, que nos censuram. São família, não cabe dúvida, mas devemos ter em conta que o que importa de verdade nessa vida é ser feliz e ter um equilíbrio interno. Uma paz interior. Se estes ou aqueles familiares prejudicam nossos direitos, devemos impor distância.

A maior virtude de uma família é aceitar a si e aos outros tal e como são, em harmonia, com carinho e respeito.
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VALORIZE QUEM TE ENXERGA QUANDO VOCÊ SE SENTE INVISÍVEL - Marcel Camargo

 
“É preciso que consigamos manter junto de nossas vidas gente que faz a diferença, que acredita em nós, dando-nos as mãos para comemorar, para consolar e para nos guiar em direção à luz, ao amanhecer de nossa alma.”

Um dos melhores conselhos que podemos levar conosco diz respeito à necessidade de cultivarmos as nossas amizades mais especiais, de amarmos de volta quem nos ama verdadeiramente, porque com eles poderemos sempre contar, sem sobra de dúvida. Mesmo assim, muitas vezes acabamos mantendo perto de nós quem não faz a mínima questão de estar ali, quem não soma nada, de quem, na verdade, deveríamos nos afastar.

A vida hoje se constitui, em grande parte, de valores ilusórios, em que as aparências são supervalorizadas, em detrimento da essência, dos sentimentos, prevalecendo o material sobre o espiritual. Com isso, somos atraídos pelo que as pessoas possam oferecer em termos de status, popularidade, conforto material, relegando a segundo plano o que nos é mais caro: a afetividade, o sentimento, a verdade de cada um.

E, assim, muitas vezes nos esquecemos das amizades sinceras, partindo em busca das mais interessantes; não enxergamos quem nos ama com verdade, pois procuramos alguém cuja imagem seja mais condizente com a estética ideal; perdemos grandes oportunidades de nos realizarmos profissionalmente, enquanto ansiamos por empregos rentáveis. Quanto mais nos apegarmos ao externo, mais nos perderemos daquilo que somos de fato, dentro de nós.

Da mesma forma, vamos nos afastando de quem nos faz bem, de quem nos abre sorrisos sinceros, de quem completaria nossa vida em todos os sentidos, na dor, no contentamento, no amor. Já disse Exupéry ser o essencial invisível aos olhos, posto que tudo de que nossa alma precisa não se compra, pois não tem preço. E, sem que alimentemos a nossa essência, permaneceremos vazios e incompletos, ainda que estejamos rodeados de luxo.

Por isso é tão difícil amar. O amor não permanece no que não é verdadeiro, não se sustenta no que é apenas aparente. O amor precisa de essência, daquilo que não se compra, não se comercializa, não se corrompe. O amor não se veste com grifes, tampouco acompanha relacionamentos interesseiros, ou se impressiona com corpos perfeitos. Amor é entrega e reciprocidade, amor vem de dentro e ali se instala, na sinceridade de corações transparentes.

É preciso que consigamos manter junto de nossas vidas gente que faz a diferença, que acredita em nós, dando-nos as mãos para comemorar, para consolar e para nos guiar em direção à luz, ao amanhecer de nossa alma. É preciso que nos acomodemos nos ambientes em que, mais do que conforto, haja sorrisos sinceros e admiração mútua, onde podemos ser e aparentar tudo o que temos dentro de nós e mesmo assim obter aceitação sincera.

Nada nos fará mais falta na vida do que tudo aquilo que pudemos ter sem precisar comprar, porque é isso que nos acalentará durante as duras despedidas que a vida nos obriga a vivenciar. Porque então o amor vencerá tudo, até mesmo a dor da morte.
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AQUILO QUE NINGUÉM SABE, NINGUÉM ESTRAGA - Marcel Camargo

É normal querermos que os outros saibam de nossas conquistas pessoais e de nossos queridos, uma vez que, da mesma forma que a tristeza, a alegria costuma ficar estampada em nossos semblantes. Existem momentos tão intensamente felizes na nossa vida, que mal cabemos em nós de tanto contentamento e acabamos querendo contar e espalhar o quanto estamos felizes.

Entretanto, sempre estaremos rodeados por pessoas invejosas, maldosas e que não suportam ver alguém feliz, pois a felicidade lhes é tão estranha, que não são capazes de entendê-la, a ponto de fazer de tudo para destruí-la. Não devemos temer a maldade alheia, no sentido de que ninguém é capaz de fazer conosco aquilo a que não estivermos vulneráveis. Cautela, porém, é preciso, a fim de que não tenhamos que enfrentar o pior dos outros em nossa jornada.

Por mais que estejamos seguros e certos quanto às nossas convicções, existirão pessoas que tentarão nos diminuir por meio de provocações constantes e de maledicências espalhadas ao nosso redor. Incapazes de torcerem pelo sucesso de ninguém – nem de si mesmas -, não se permitirão conviver com as conquistas alheias sem que tentem trazer o outro ao nível da própria escuridão emocional, muitas vezes utilizando-se de meios antiéticos e covardes.

Muitas vezes, é inevitável disseminarmos pelas redes sociais o contentamento pelas nossas viagens, nossas conquistas amorosas e profissionais, pelo sucesso de nossos filhos, inclusive seria muito chato apenas postarmos lamúrias, indiretas venenosas e lamentações em nossos perfis – existem ótimos psicólogos para isso. No entanto, é necessário saber que muitos verão tudo isso como ostentação inútil, excesso de vaidade, ego inflado, ou seja, estaremos sujeitos a comentários desagradáveis sobre nós, muitos deles pelas nossas costas.

Sempre existirá quem torcerá por nossa felicidade, quem caminhará conosco sob sol ou tempestade, quem nos amará verdadeiramente, quem, enfim, será capaz de compartilhar nossas vidas com reciprocidade sincera, porém, serão bem poucos capazes disso. Por isso, uma de nossas maiores conquistas será exatamente poder contar com pelo menos alguns poucos que nos admirem realmente, sem qualquer ranço de negatividade. A esses, sim, poderemos nos desnudar inteiramente, em nossa grandeza e em nossa pequenez mais inconfessável. Quanto aos demais, repete-se, cautela.

Não precisaremos estampar nossa felicidade nas vitrines sociais e virtuais, para que ela se complete. Aqueles que sempre estiveram conosco, bem de perto, ali ao lado, compartilhando verdades, lerão a felicidade em nossos olhos e comemorarão de mãos dadas conosco cada conquista, cada degrau superado, e é por eles que sempre valerá a pena sobreviver com ética e dignidade a cada batalha de nosso caminhar.
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SOBRE OS MISTÉRIOS QUE NOS MOVEM - Raquel Alves

Gosto de imaginar. A imaginação me leva para onde eu quero! Nesses dias estive imaginando como foram construídas as pirâmides do Egito, cerca de 2.500 anos atrás. Acredito que todos pensam nelas como uma incógnita construtiva, dada a tecnologia e os recursos da época. Estranho mesmo seria não se assombrar diante deste mistério.

Muitas coisas na vida são misteriosas, sobre as quais raciocínio lógico algum parece se aplicar. Creio que Deus brincalhão deseja mesmo é ser incompreendido. Mistério constante! Afinal de contas, nem conseguimos entender os homens direito… Pensar que Deus possa ser compreendido por nós, seria (quase) uma heresia. Acredito mesmo que se Deus quisesse que nós o conhecêssemos, teria se apresentado aos nossos olhos céticos. O que nos resta então? O grande mistério, a dúvida, o assombro! Seiva que nutre a alma.

Não me basta imaginar como foram erguidas as pirâmides. Penso no faraó inovador que decidiu construir a primeira… Quantos escravos envolvidos, quantas pesquisas e estudos, quantos anos de trabalho, quanto dinheiro gasto e quantas vidas investidas em uma construção inédita? Não acredito na loucura faraônica. Seria demência demais por parte deles. Creio sim, que desde o início uma voz silenciosa e interna despertava a “quase certeza” fazendo pulsar o desejo de apostar e investir, independente do preço a ser pago.

Tantas coisas na história da humanidade foram desenvolvidas na base da aposta… A medicina desvendou cura para várias doenças, aviões foram inventados, a energia elétrica foi trazida para nossas casas e a internet nos dá inúmeras possibilidades. Tudo isso graças às mentes inventivas que se alimentaram do mistério, daquela voz interna que dizia “Vai!”.

Antes de existirem, (pergunto eu), onde andavam as idéias? A idéia é uma espécie de sementinha que planta algo novo. E o que brota dessa semente é fruto da nossa imaginação, fruto que nos impulsiona na direção do desconhecido, para que o desconhecido e o novo se juntem a nós expandindo nossos horizontes. Einstein bem sabia disso, afirmando que “A imaginação é mais importante que o conhecimento. O conhecimento é limitado, a imaginação envolve o mundo”.

Meu ceticismo teimoso se rende. Convencida das forças sagradas que nos envolvem, só posso pensar que o “Mistério” se apresenta da forma mais simples que podemos conceber. Tão natural como a Terra Mãe. Tão simples quanto uma pipa no céu. Tão puro quanto o riso de uma criança. Tão incógnito quanto o desconhecido. E tão sagrado como a nossa alma…

Quem alimenta a alma e a imaginação convida Deus menino a brincar por entre nós…
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QUANDO O ESTADO NAUFRAGA, A CIÊNCIA É A ÂNCORA - Marcelo Gleiser

"Quando a tempestade irrompe em fúria e o Estado ameaça naufragar, só nos resta lançar a âncora de nossos estudos nas profundezas da eternidade".

Assim escreveu o grande astrônomo alemão Johannes Kepler no início do século 17, quando a Europa passava por terríveis conflitos entre católicos e protestantes, que culminariam na devastadora Guerra dos Trinta Anos em (1618-1638). O Estado, no caso, o Sacro Império Romano-Germânico com sede em Praga, naufragava sob o comando caótico do imperador Rodolfo II, mentalmente instável, enquanto diferentes facções religiosas disputavam o poder. As instituições colapsavam, e ninguém confiava em ninguém.

Na península itálica, a Igreja Católica intensificava a repressão ideológica na luta contra a Reforma Protestante. Em 1616, Galileu Galilei foi caucionado pelo cardeal Bellarmine, mestre das questões controversas do Colégio Romano, que o desafiou a provar de forma convincente que a Terra gira em torno do Sol ou calar-se por completo.

Embora Kepler e Galileu temessem por suas vidas, não renunciaram à liberdade de refletir sobre os mecanismos do mundo natural. Ignorando a repressão, avançaram suas pesquisas, que culminaram, ainda no mesmo século, no abandono das ideias de Aristóteles, que dominaram o pensamento ocidental e eclesiástico por 18 séculos. A coragem intelectual deles abriu as portas para o mundo moderno.

A repressão religiosa e as guerras passam, mas o conhecimento científico permanece.

Não vivemos no século 17, mas seria inocente achar que a ciência e sua credibilidade não estão sendo atacadas. Vemos isso todos os dias, quando muitos políticos e amadores criticam, sem a menor autoridade ou conhecimento, as conclusões de milhares de cientistas em assuntos que vão da validade das vacinas ao aquecimento global.

É paradoxal que isto esteja ocorrendo em pleno século 21, quando dependemos tão diretamente das tecnologias resultantes da aplicação da pesquisa em ciência básica. Este vídeo extremamente importante, produzido por cientistas brasileiros, deveria ser visto por todos.

Sem a ciência brasileira, não existiria a tecnologia que tornou o Brasil numa grande potência agropecuária internacional, fornecendo alimentação para centenas de milhões de pessoas. Sem a ciência brasileira, não existiriam carros movidos a álcool ou gás natural, com flexibilidade no uso do combustível. Sem a ciência brasileira, não temos liderança na exploração de águas profundas, ou no controle e erradicação de várias doenças tropicais. Como então, me pergunto, nos encontramos nessa situação absurda de termos um governo que parece ter declarado guerra ao conhecimento?

Essa é uma questão crucial, que pertence a todos nós, e não só aos cientistas. Existe um abismo imenso entre o mundo da ciência e o mundo da política. A maioria dos líderes políticos pouco sabe sobre ciência (com louváveis exceções, claro) e não parece ter o menor interesse no assunto.

Após 26 anos ensinando ciência numa universidade, vejo uma divisão clara entre os alunos que gostam ou não de matemática e de ciências. Existem, como disse acima, exceções, mas tirando os alunos interessados em legislação de patentes ou ambiental, a maioria que decide cursar advocacia e seguir carreira política não é composta dos interessados nas disciplinas CTEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Matemática). 

Seria interessante ter um estudo quantitativo para saber como esse déficit afeta posições políticas relacionadas com a ciência e sua importância, especialmente quando o governo atua sem uma consultoria científica.

O resultado é que, sob a pressão de grupos de interesse diversos, questões de natureza científica viram assuntos "abertos para o debate público": pessoas que pouco sabem do uso da metodologia científica utilizada para se chegar a uma certa conclusão se acham no direto de opinar e criticar, baseados em... baseados em quê, exatamente? Informações incompletas e propaganda de grupos de interesse que manipulam a opinião pública para servir a seus propósitos, em geral para garantir os ganhos de seus investidores.

Com isso, a ciência e seus resultados – obtidos após anos de trabalho meticuloso realizado por profissionais treinados – se transformam em mera opinião, como se fossem futebol, moda ou filmes. É como se o cirurgião virasse advogado e o juiz virasse engenheiro.

As pessoas tendem a confundir o processo de como a ciência é feita – se autocorrigindo, seus resultados sempre melhorando – com imprecisão e incerteza. Trata-se de um erro grave. A ciência avança em estágios, mas avança, e vemos os resultados disso por toda a parte. Basta comparar a qualidade das TVs ou dos computadores de dez anos atrás com os de hoje.

Celulares? GPSs? TVs de ultra-definição? Bluetooth? De onde vieram essas invenções e tecnologias? Quem são esses inventores? Certamente, não os políticos que querem cortar o orçamento da ciência. Eles apenas usam os frutos da pesquisa, achando que surgem do nada, como que por mágica.

Kepler viu o Estado colapsar a sua volta, e pouco pôde fazer a respeito. Não podia pegar uma espada para lutar, pois não era um herói dos campos de batalha e, sim, do mundo das ideias. O que ele e Galileu fizeram foi olhar para os céus, buscando por verdades eternas, além da fragilidade e confusão dos homens. O que eles fizeram permanece vivo, enquanto as guerras e repressões ideológicas ficaram no passado.

Penso nas crianças e jovens espalhados pelo Brasil, nos potenciais Galileus e Keplers, que não terão a oportunidade de expandir seus horizontes, que viverão num país onde a carreira científica será cada vez mais vista como um tabu, como uma opção profissional inviável. Que triste ver nosso país tomar esse rumo, determinado por pessoas que parecem não entender as consequências desastrosas de suas ações.
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AS VÁRIAS FACES DA MENTIRA - Flávio Gikovate

Há um momento na vida em que, graças ao domínio de mecanismos sofisticados da inteligência, aprendemos a mentir.

Mentimos jogando com as palavras, contendo gestos, assumindo posturas convenientes – e das quais discordamos – para aliviar tensões. Tentamos esconder aquele traço da nossa personalidade que não nos agrada assumindo uma maneira de ser mais apropriada.

São tantas as possibilidades de escamotear a verdade que o mais prudente seria olhar o ser humano com total desconfiança – pelo menos até prova em contrário.

Ainda que sentir medo e insegurança faça parte da natureza humana, fingimos que tudo está sob controle e que nada nos abala para ocultar nossa fragilidade. Acreditando no que veem, os outros passam a se comportar como se também não sentissem medo.

Mentem para não parecerem frágeis e inferiores diante daqueles que julgam fortes. Nesse teatro diário, alimentamos o círculo vicioso da dissimulação. Minto para impressionar você, que me impressionou muito com aquele jeito fingido de ser – mas que me pareceu genuíno.

Não seria mais fácil se todos admitíssemos que não somos super-heróis e que não há nada que nos proteja das incertezas do futuro?

Em geral, quem não aceita o próprio corpo evita praias e piscinas. Diz que não gosta de sol, quando, na verdade, não tem estrutura para mostrar publicamente aquilo (a gordura, a magreza ou qualquer outra imperfeição) que abomina.

É o mesmo mecanismo usado pelos tímidos, que não se entusiasmam muito por festas e locais públicos. Em casa, não precisam expor sua dificuldade de se relacionar com desconhecidos.

Temos muito medo de nos sentirmos envergonhados, de sermos alvos de ironias que ferem nossa vaidade.

É para não correr esse risco que muita gente muda de cidade depois de um abalo financeiro. Melhor ser pobre e falido (e encontrar a paz necessária para reconstruir a vida) onde ninguém nos conheceu ricos e bem-sucedidos!

Até aqui me referi às posturas de natureza defensiva, que servem de armadura contra o deboche, as críticas e o julgamento alheio.

Há, no entanto, um tipo perverso de falsidade: a premeditada. Pessoas dispostas a se dar bem costumam vender uma imagem construída sob medida para tirar vantagem.

Um homem extrovertido e aparentemente seguro, independente e forte pode ter criado esse estereótipo apenas para cativar uma parceira romântica. Depois de conquistá-la, revela-se inseguro, dependente e egoísta.

Mulheres sensuais podem se comportar de maneira provocante para despertar o desejo masculino – e sentir-se superiores aos homens. Vendem uma promessa de intimidade física alucinante que raramente cumprem, pois são, em geral, as mais reprimidas sexualmente. O apelo erótico funciona como atalho para os objetivos de ordem material que pretendem alcançar.

Não há como deixar de apontar a superioridade moral daqueles que mentem por fraquezas quando comparados aos que obtêm vantagens com sua falsidade.


O primeiro grupo poderia se distanciar ainda mais do segundo, se acordasse para uma verdade óbvia e fácil de enfrentar: aquele que me intimida é tão falível e frágil quanto eu. 

E – nunca é demais lembrar –, para ele, eu sou o outro que tanto lhe mete medo.
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MUDAR O GOVERNO – Mia Couto

Não se pode governar um país como se a política fosse um quintal e a economia fosse um bazar. Ao avaliar um regime de governação precisamos, no entanto, de ir mais fundo e saber se as questões não provêm do regime mas do sistema e a cultura que esse sistema vai gerando. 

Pode-se mudar o governo e tudo continuará igual se mantivermos intacto o sistema de fazer economia, o sistema que administra os recursos da nossa sociedade. Nós temos hoje gente com dinheiro. Isso em si mesmo não é mau. Mas esses endinheirados não são ricos. Ser rico é outra coisa. Ser rico é produzir emprego. Ser rico é produzir riqueza. Os nossos novos-ricos são quase sempre predadores, vivem da venda e revenda de recursos nacionais.

Afinal, culpar o governo ou o sistema e ficar apenas por aí é fácil. Alguém dizia que «governar é tão fácil que todos o sabem fazer até ao dia em que são governo». A verdade é que muitos dos problemas que nós vivemos resultam da falta de resposta nossa como cidadãos activos. 

Resulta de apenas reagirmos no limite quando não há outra resposta senão a violência cega. Grande parte dos problemas resulta de ficarmos calados quando podemos pensar e falar.
in 'E Se Obama Fosse Africano?'
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ANO NOVO, ME SURPREENDA! - Martha Medeiros

As melhores coisas do ano sempre foram aquelas que eu não previ.

Ano-Novo é uma convenção. Os dias correm em sequência. De 31 de dezembro para 1º de janeiro ocorrerá apenas mais uma sucessão de 24 horas em que nada mudará, tudo seguirá do mesmo jeito. Pois é, sei disso, mas é um ponto de vista sem nenhuma alegria. Sou das que compram o pacote de Ano-Novo com tudo que ele traz em seu imaginário: balanço de vida, reafirmação de votos, desejos manifestos e esperança de uma etapa promissora pela frente.

Faço lista de projetos e tudo mais. Só que, quando chega o fim do ano e avalio o que consegui cumprir, descubro que o inesperado superou de longe o esperado. As melhores coisas do ano sempre foram aquelas que eu não previ. Então tomei uma decisão: nessa virada, não vou planejar coisa alguma e aguardar as resoluções que novo ano tomará para mim, à minha revelia.

Mas poderia dar algumas sugestões?

Ano Novo, anote aí: que as coisas mudem, mas não alterem meu estado de espírito. Não deixe que eu me torne uma pessoa ranzinza, mal-humorada, desconfiada, sem tolerância para as diferenças. Aconteça o que acontecer, que eu me mantenha aberta, leve e consciente de que tudo é provisório.

Não quero mais. Quero menos. Menos preocupações, menos culpa, menos racionalismo. Pode cortar os extras. Mantenha apenas o estritamente necessário para me manter atenta.

Está anotando?

Espero que você esteja com ótimos planos para sua amiga aqui. Lançarei livro novo? Permita que eu seja abusada: dois. Sendo que nenhuma coletânea de crônicas, nem romance. Me ajude a variar.

Que lugares conhecerei que ainda não conheço? Que pessoas entrarão na minha vida que, quando cruzo com elas na rua, ainda não as identifico? Que boas notícias ouvirei das minhas filhas? Quantos shows terei o prazer de assistir? Estou curiosa para saber o que você está aprontando para incrementar os meses que virão.

Prometo que estarei preparada para receber o abraço afetuoso de quem antes me esnobava, para a frustração por tudo o que for cancelado, para voltar atrás nas minhas teimosias, para me dedicar a algo que nunca fiz antes.

Estarei disposta a tirar de letra os espíritos de porco e assumir a responsabilidade pelas asneiras que eu mesma cometer. E estarei pronta também para uma grande surpresa, ou até duas. Três, meu coração não aguenta.

Se a dor me alcançar, que me encontre com energia e sabedoria para enfrentá-la. Que eu não me torne dura diante dos horrores, nem sentimentaloide diante das emoções. Ano Novo, os acontecimentos são da sua alçada. Da minha, cabe recepcioná-los com categoria.

Quais são seus planos para mim, afinal? Talvez nem todos sejam do meu agrado, portanto, que eu não tenha constrangimento em dizer “não, obrigada”, caso seja preciso. Mas que eu me sinta mais predisposta para o sim.

Se estamos de acordo, pode vir.
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NATAL - Rubem Alves

O Natal me deixa triste. 
Porque, por mais que o procure, não o encontro. 
Natal é uma celebração.

As celebrações acontecem para trazer do esquecimento uma coisa querida que aconteceu no passado. A celebração deve ser semelhante à coisa celebrada. Não posso celebrar a vida de Gandhi com um churrasco. Ele era vegetariano, amava os animais. Uma celebração de Gandhi teria de ser feita com verduras, água, leite e um falar baixo. Mais a leitura de alguns textos que ele deixou escritos. Assim Gandhi se tornaria um dos hóspedes da celebração.

Agora, um visitante de outro planeta que nada soubesse das nossas tradições, se ele comparecesse às festas de Natal, sem que nenhuma explicação lhe fosse dada, ele concluiria que o objeto da celebração deveria ser um glutão, amante das carnes, bebidas, do estômago cheio, das conversas em voz alta, do desperdício.

Nossas celebrações de Natal são como as cascas de cigarra agarradas às árvores. Cascas vazias, das quais a vida se foi. 

Se perguntar às crianças o que é que está sendo celebrado, eles não saberão o que dizer. Dirão que o Natal é dia do Papai Noel, um velho barrigudo de barbas brancas amante do desperdício, que enche os ricos de presentes e deixa os pobres sem nada.

Pois é certo que as celebrações do Natal são orgias de ricos, celebrações do desperdício e lixo. Celebrações do lixo? Aquelas pilhas de papel de presente colorido em que vieram embrulhados os presentes, não são elas essenciais às celebrações? Rasgados, amassados, embolados num canto. Irão para o lixo. 

Quantas árvores tiveram de ser cortadas para que aqueles papéis fossem feitos. Para quê? Para nada. A indiferença com que tratamos o papel de presentes é uma manifestação da indiferança com que tratamos a nossa Terra.

Estou convidando meus amigos para uma celebração de Natal. Ela deverá imitar a ceia que José e Maria tiveram naquela noite: velas acesas, um pedaço de pão velho, vinho, um pedaço de queijo, algumas frutas secas. 

À volta de um prato de sopa de fubá – comida de pobre –, tentaremos reconstruir na imaginação aquela cena mansa na estrebaria, um nenezinho deitado numa manjedoura, uma estrela estranha nos céus, os campos iluminados pelos vaga-lumes. 

E ouviremos as velhas canções de Natal, e leremos poemas, e rezaremos em silêncio. 

Rezaremos pela nossa Terra, que está sendo destruída pelo mesmo espírito que preside nossas orgias natalinas.
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CORPO INTERDITADO - Martha Medeiros

Estava num café esperando por uma amiga. Enquanto o tempo passava, fiquei observando o ambiente. Outra mulher estava sozinha a poucas mesas de distância, também esperando alguém atrasado. O atrasado dela chegou antes da minha. Vi quando ela se levantou para cumprimentá-lo. Deram-se dois beijinhos.

Os dois beijinhos mais vacilantes e constrangedores que podem ocorrer entre um casal. Talvez fosse delírio meu, mas tenho quase certeza de que eram ex-amantes, ex-namorados, ou um ex-marido e uma ex-esposa que haviam terminado a relação poucos dias atrás, no máximo alguns meses atrás.

É uma cena clássica. Depois de anos de amor e intimidade, a relação se desfaz. Os dois juram nunca mais se ver, odeiam-se por algumas semanas, até que um dia surge uma pendência para ser conversada, ou simplesmente resolvem tomar um drinque para provar ao mundo que a amizade prevaleceu, essas cenas aparentemente civilizadas que trazem significados ocultos.

Ou pior: encontram-se sem querer num estacionamento no centro da cidade, num corredor de shopping, num quiosque do mercado público. Você aqui? Que surpresa. E os dois beijinhos saem de uma forma tão desengonçada que seria motivo pra rir, não fosse de chorar. Eles não se possuem mais fisicamente.

Interdição do corpo. Um dos troços mais sofridos de um final de relacionamento, que só se vai experimentar depois de um tempo afastados. Uma coisa é você ficar racionalizando sobre o desenlace trancafiada no quarto, ele ficar ruminando sobre as razões do rompimento enquanto trabalha.

Uma coisa é você chorar durante o banho para disfarçar os olhos inchados, ele falar mal de você em bares, fingindo que se livrou da Dona Encrenca. Uma coisa é você consultar uma cartomante a fim de acreditar em dias mais promissores, ele sair com umas lacraias bonitinhas pra provar que te esqueceu.

Outra coisa é quando os dois se encontram, cara a cara, depois de semanas ou meses apenas se imaginando.

Ele está ali na sua frente. Mas você não pode agarrar seus cabelos, não pode passar a mão no seu peito, não pode rir de uma piada interna que só pertence aos dois, porque está oficializado que nada mais pertence aos dois.

Ela está ali na sua frente. Mas você não pode mais dar uma beliscadinha na sua bunda, não pode mais beijá-la na boca, não pode mais dizer uma bobagem em seu ouvido, porque está oficializado que ela agora é apenas uma amiga, e não se toma esse tipo de liberdade com amigas.

Depois de terem vivido, por anos, a proximidade mais libidinosa e abençoada que pode haver entre duas pessoas apaixonadas, vocês agora estão proibidos ao toque. Não se amam mais, é o que ficou decretado. Logo, os códigos de aproximação mudaram.

Você dará dois beijinhos na mulher que tantas vezes viu nua, como se ela fosse uma prima. Você dará dois beijinhos no homem para quem tanto se expôs, como se ele fosse um colega de escritório. Esses dois beijinhos doerão mais do que um soco do Mike Tyson.

O corpo interditado. Você não pode mais tocá-lo, você não pode mais tocá-la. O definitivo sinal de que o fim não era uma ilusão.
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