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A INTELIGÊNCIA É AFRODISÍACA - Marcel Camargo

O termo “afrodisíaco” remonta à deusa grega Afrodite, divindade atrelada ao amor como um todo, sendo atribuído a quaisquer substâncias tidas como estimulantes sexuais. Não existe comprovação científica de que haja relação entre o consumo delas e o aumento do apetite sexual, porém, o termo já se incorporou ao vocabulário popular, uma vez que é usado para caracterizar alimentos, produtos e características pessoais que incitam a libido das pessoas.

Inteligência conectada ao amor

Não dá para explicar direito o que nos atrai, o que realmente nas pessoas nos chama a atenção, mexendo conosco, com nossas emoções. Após termos uma certa convivência com alguém, muitas vezes acabamos sentindo algo a mais, sendo atraídos para além de mera amizade. Outras vezes, já na primeira vez que conversamos com uma pessoa, nós nos sentimos atraídos, sem conseguirmos explicar o motivo de fato.

Embora também possamos ser atraídos apenas visualmente, só de ver alguém que nos chame a atenção, mesmo de longe, ainda que nem tenhamos ouvido a sua voz, os sentimentos mais intensos, que nos embaralharão os sentidos, ocorrerão quando estivermos diante de alguém com quem possuímos certa convivência. Mesmo que apenas nos esbarremos com a pessoa pelos corredores da empresa e conversemos futilidades, a atração não se explica racionalmente.

Sem que precisemos recorrer a dados de pesquisa ou a argumentos científicos, certo é que a inteligência é um poderoso afrodisíaco, ou seja, pessoas inteligentes, intelectuais, escritores, acabam por se tornar atraentes para muitas pessoas. Alguém que transmita sabedoria e cultura, ainda que não possua atributos físicos, irá atrair muitos olhares, irá derreter corações por onde passar, simplesmente porque conteúdo não acaba, conhecimento ninguém nos tira – conhecimento atiça a libido.

Inteligência constrói o amor

Assim, a inteligência se nos apresenta como uma força inerente, que não envelhece, como se fosse algo que vem junto com a pessoa e ali ficará para sempre.

É algo líquido e certo, pois transmite segurança, proteção e, portanto, atrai. Pessoas inteligentes conseguem buscar soluções, resolver problemas, rir de si mesmas, o que faz toda a diferença em qualquer tipo de relacionamento. Pessoas inteligentes assim permanecem com a passagem do tempo, que não lhes rouba o que possuem de mais precioso.

Enfim, a inteligência é algo com o que sabemos que poderemos contar, sem data de validade, algo permanente e imutável, algo que somente se amplia. E apenas quem é inteligente o bastante se coloca no lugar do outro, entendendo o que o compromisso afetivo requer, o que fere o semelhante, o que alimenta o amor verdadeiramente compartilhado, para além dos lençóis e das aparências vãs.
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BASTAM 66 DIAS PARA MUDAR UM HÁBITO – Patrícia Ramirez

 O cérebro se reorganiza constantemente 
se tivermos interesse em fazê-lo.

Mudar alguns hábitos está ao alcance de todos. Para isso, são necessários dois ingredientes importantes: escolher uma mudança que seja coerente com sua escala de valores e treinar até que se torne um hábito. Pouco além disso.

Nada é “obrigatoriamente” para sempre, sequer o que se escolheu como hobby, profissão ou local de residência. A ideia de que podemos ser quem desejamos, praticar novos esportes, aprender outras culturas, experimentar todas as gastronomias, ter outros círculos de amigos... transforma uma vida parada em outra, rica em oportunidades e variedade.

O cérebro é plástico. As pessoas evoluem, desejamos mudar, crescer interiormente, e estamos capacitados para isso. Ficaram para trás as teorias sobre a morte dos neurônios e os processos cognitivos degenerativos. Hoje sabemos que os neurônios geram novas conexões que permitem aprender até o dia em que morremos. A plasticidade cerebral demonstrou que o cérebro é uma esponja, moldável, e que continuamente vamos reconfigurando nosso mapa cerebral. Foi o que disse William James, um dos pais da psicologia, em 1890, e todos os neuropsicólogos hoje em dia confirmam as mesmas teorias.

O próprio interesse por querer mudar de hábitos, a atitude e a motivação, assim como sair da zona de conforto, convidam o cérebro a uma reorganização constante. Esse processo está presente nas pessoas desde o nascimento até a morte.

“Todo homem pode ser, se assim se propuser, escultor de seu próprio cérebro". Santiago Ramón Y Cajal

Nesta sociedade impaciente, baseada na cultura do “quero tudo já e sem esforço”, mudar de hábitos se tornou um suplício. Não porque seja difícil, mas porque não abrimos espaço suficiente para que se torne um hábito. Não lhe passou pela cabeça alguma vez que, ao começar uma dieta, as primeiras semanas são mais difíceis de do que quando já está praticando há algum tempo? É resultado desse processo. No início seu cérebro lembra o que já está automatizado, o hábito de beliscar, comer doce ou não praticar exercício, até que se “educa” e acaba adquirindo as novas regras e formas de se comportar em relação à comida.

A neurogênese é o processo pelo qual novos neurônios são gerados. Uma das atividades que retardam o envelhecimento do cérebro é a atividade física. Sim, não só se deve praticar exercícios pelos benefícios emocionais, como o bem-estar e a redução da ansiedade, ou para ficar mais atraente e forte, mas porque seu cérebro se manterá jovem por mais tempo. Um estudo do doutor Kwok Fai-so, da Universidade de Hong Kong, correlacionou a corrida com a neurogênese. O exercício ajuda a divisão das células-tronco, que são as que permitem o surgimento de novas células nervosas.

Existem outras práticas, como a meditação, o tipo de alimentação e a atividade sexual que também favorecem a criação de novas células nervosas.

Uma vez que a reorganização cerebral é estimulada ao longo de toda a vida, não há uma única etapa em que não possamos aprender algo novo. A idade de aposentadoria não determina uma queda, nem completar 40 ou 50 anos deveria ser deprimente. Todos que tiverem interesse e atitude em relação a algo estão em boa hora, poderão aprender, treinar e tornar-se especialistas independentemente da idade. Se você é dessas pessoas que se dedicaram durante a vida a uma profissão com a qual viveram relativamente bem, mas ficaram com o desejo de estudar Antropologia, História, Exatas, Artes Plásticas ou o que for, pode começar agora. Não há limite de idade nem de tempo para o saber.

Não deixe que sua idade o limite quando seu cérebro está preparado para tudo. A mente se renova constantemente graças à plasticidade neuronal.

Até há pouco tempo pensava-se que modificar e automatizar um hábito exigia 21 dias. Otimismo demais! Um estudo recente de Jane Wardle, do University College de Londres, publicado no European Journal of Social Psychology, afirma que para transformar um novo objetivo ou atividade em algo automático, de tal forma que não tenhamos de ter força de vontade, precisamos de 66 dias.

Sinceramente, tanto faz se forem 21 ou 66! O interessante é que somos capazes de aprender, treinar e modificar o que desejarmos. O número de dias é relativo. Depende de fatores como insistência, perseverança, habilidades, das variáveis psicológicas da personalidade e do interesse. A mudança está em torno de dois meses e pouco. O que são dois meses no ciclo de nossa vida? Nada. Esse tempo é necessário para sermos capazes de fazer a mudança que desejamos. E isso nos torna livres e poderosos.

“É preciso sacudir energicamente o bosque dos neurônios cerebrais adormecidos; é fundamental fazê-los vibrar com a emoção do novo e infundir-lhes nobres e elevadas inquietudes”. Ramón y Cajal

Dez conselhos para começar o que se deseja:
1. Eleja seu propósito e o transforme em seu projeto. É certo que, se fizer uma lista, se dará conta de que tem muitas inquietações. Mas não podemos mudar ou tentar fazer tudo de uma vez. Esqueça seu cérebro multitarefa e não queira modificar tudo em um instante. Quando conseguir automatizar o primeiro, passe ao segundo.

2. Reflita sobre sua meta. Se responder às seguintes perguntas em relação a seu objetivo, seu compromisso com ele aumentará: O que quero? Por quê? Para quê? Com quê? O “com que” refere-se aos seus pontos fortes, valores e atitudes para consegui-lo. Quando enfrentar algo novo, e tendo em vista que isso implica em sair da zona de conforto, é recomendável ter a segurança e a confiança de que está preparado, que tem capacidade e que irá conseguir. Mesmo que seja difícil.

3. Faça com que ele caiba no seu dia-a-dia. Não importa o que deseja iniciar, é preciso tempo. Se não abrir um espaço em sua agenda e o transformar em rotina, o normal é que termine postergando o que agora não faz parte de sua vida.

4. Ressalte seu objetivo. Tudo aquilo que não faz parte de nossa ordem habitual é fácil de ser esquecido. Se tem uma agenda, marque com caneta marca-texto. Se utiliza o alerta do celular, crie um diário com o novo objetivo. Não abuse de sua memória e do “deveria ter me lembrado”.

5. Cerque-se de todo o necessário, assim não terá desculpas para não começar. Por exemplo, se está de dieta, compre os alimentos do regime; se começou a praticar esportes, busque a roupa que irá usar, ou se começou a tirar fotos, prepare o material.

6. Comece hoje. Não existe nenhum estudo com rigor científico que relacione a segunda-feira ou o primeiro dia de janeiro exclusivamente com o começo de um novo hábito. A terça-feira e a quinta são dias tão bons como qualquer outro. Deixar tudo para a segunda é outra maneira de postergar e deixar que a preguiça vença sua força de vontade. O melhor dia para começar algo é hoje.

7. Emocione-se. As emoções avivam a lembrança, produzem bem-estar, e estar apaixonado pelo que se faz fideliza o hábito. Busque como se sente, o que irá conseguir, como irá melhorar sua vida pessoal e profissional. Aproveite e esteja presente.

8. Não escute a voz interior que lhe diz que está cansado, qual o sentido disso e que a vida é muito curta para não ser aproveitada. Nosso cérebro está muito treinado para criar desculpas e continuar na zona de conforto. Essa voz interior é muito forte e pode ser muito convincente.

9. Seja disciplinado. Leve seu hábito a sério. E levá-lo a sério não significa se tornar sério, mas que seja uma prioridade, algo para dedicar seu valioso tempo. E que tenha um lugar especial em sua agenda.

10. Transforme seu novo hábito em sua filosofia de vida. Isso lhe dará outra dimensão e calma. Não se trata de aprender algo agora, mas aproveitar e saber que tem toda a vida para praticá-lo. Se, por exemplo, decidiu começar com a atividade física, não se sinta mal se pular um dia. Tem amanhã, o dia depois dele e toda a vida para fazê-lo. Não se trata de sentir-se culpado. Essa emoção não agrega nada. Só é preciso ser disciplinado e ter seriedade. Se for realmente algo importante, amanhã voltará a fazê-lo. Não é tudo ou nada.

É incorporar algo bom para cada um e encaixá-lo na vida para aproveitar, não para que seja mais um sofrimento no caso de não poder realizá-lo um dia.
Jornal El País - Espanha
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RIGIDEZ MENTAL: QUANDO A FORMA DE PENSAR NOS IMPEDE DE CRESCER - Tales Luciano Duarte

Albert Einstein disse que “a mente que se abre a uma nova ideia nunca retorna ao seu tamanho original.” No entanto, abrir a mente é um exercício complicado, muito mais do que gostaríamos de admitir.

Na verdade, já começamos a construir a rigidez mental a partir do nascimento. Cada aprendizagem abre novas portas, mas também fecha outras.

À medida que crescemos e formamos nossa própria imagem do mundo, já estamos cheios de estereótipos, preconceitos e crenças que são muito difíceis de remover. No entanto, a rigidez mental não se refere apenas às idéias, mas, acima de tudo, a maneira de pensar.

A rigidez mental nos torna prisioneiros, pois diminui nossa capacidade de adaptação, criatividade, espontaneidade e positividade. Prendemos-nos a velhos padrões que nos impedem de crescer intelectualmente e emocionalmente.

Na verdade, as pessoas rígidas mentalmente são aquelas que:

– Pensam que só há um “modo adequado” de fazer as coisas.

– Assumem que a sua perspectiva é a única correta e que o resto das pessoas está errado.

– Não estão abertas à mudança porque isso as assusta.

– Se apegam ao passado e recusam se mover.

Mas, se há alguma coisa que caracteriza pessoas com rigidez mental, é o desejo de ter razão a todo custo. Elas não percebem que este desejo é extremamente prejudicial porque a possibilidade de estarem erradas e cometerem erros é, justamente, a principal ferramenta de aprendizado e crescimento.

Nós não podemos crescer, não podemos realmente assimilar novos conhecimentos, seja a nível intelectual ou emocional, se não nos dermos conta de que o que sabemos ou cremos pode estar errado ou, pelo menos, ser insuficiente.

Na verdade, uma das principais características das pessoas que têm uma certa flexibilidade mental é serem capazes de perceber que decisões erradas não são “más decisões”, e sim que qualquer decisão é boa se for seguida por uma outra decisão: a de vermos o lado positivo disso.

Flexibilidade mental é justamente saber que qualquer decisão que tomamos, sempre abre diante de nós um mundo de possibilidades.

Portanto, a flexibilidade mental consiste em estarmos dispostos a aceitar a possibilidade de equivocar-nos, não ter medo dos erros e tentar entender e abraçar as coisas novas ou pontos de vista diferentes dos nossos.

A Rigidez Mental como resistência inconsciente
A pessoa que desenvolve uma maneira muito rígida de pensar, de certa forma, está se protegendo. De fato, a rigidez mental pode também ser entendida como uma resistência psicológica. Em certo ponto, pois quando uma idéia vai contra ao que se pensa, a pessoa experimenta uma sensação estranha que lhe confunde, paralisa e faz com que se feche às razões.

Assim, muitas pessoas simplesmente rejeitam o argumento, sem analisar. No entanto, a boa notícia é que, quando isso acontece, é porque algo no seu interior se dá conta que há um problema, algo precisa ser resolvido, embora o processo seja doloroso.

De fato, em muitos casos, perceber que algo que você acreditava cegamente por anos não é verdade, ou pelo menos não é toda a verdade, pode causar uma dor enorme que pode dar lugar a uma crise existencial.

Como Abrir a Caixinha
A boa notícia é que a flexibilidade mental é uma habilidade que pode ser desenvolvida e aprendida.

1. Concentre-se em suas emoções.
Quando você está tentado a rejeitar completamente uma idéia, observe como você se sente. Se você se sentir desconfortável com o que você ouve, é provável que a rigidez em sua maneira de pensar esconda uma resistência inconsciente.

Pergunte a si mesmo de que tem medo. Se você responder honestamente, irá descobrir muitas coisas. Na verdade, quanto mais medo você perceber que sente, mais será capaz de iluminar essa resistência.

2. Alimente o desejo de crescer.
A curiosidade continua sendo uma das ferramentas mais poderosas que temos à nossa disposição para crescer como pessoas.

Em vez de aceitar as velhas idéias, pergunta-se: “Por quê?”. Se começar a se questionar sobre tudo que você sempre deu como certo, não só encontrará respostas novas como também descobrirá um novo mundo, muito mais vasto.

3. Desenvolva empatia.
Em muitos casos, você provavelmente não concordará com as idéias, as formas de pensar e atitudes dos outros. No entanto, em vez de rejeitá-los de imediato, tente se colocar no lugar deles para entender de onde vem esse ponto de vista.

Se você rejeitar o que não sabe ou não gosta, você será a mesma pessoa de antes, mas se você tentar entender o outro, terá caminhado um passo além e crescerá.

4. Abrace os erros.
Ter certa flexibilidade mental significa não ter medo dos erros, significa estar disposto a aproveitar as novas oportunidades, mesmo que isso signifique se equivocar.

Trata-se de entender a vida como um contínuo aprendizado, onde cada erro não é um passo atrás, mas sim um passo a frente em nossa evolução, pois nos permite desfazermos velhos padrões já enraizados.

5. Não busque a verdade absoluta.
Toda vez que assumimos uma verdade como um fato imutável, significa que paramos de olhar nessa direção e, portanto, começamos a morrer um pouco todos os dias nessa área. Assim, é importante não se prender a uma única maneira de ver as coisas e manter uma mente aberta.

O mais importante para se livrar da rigidez mental é não buscar a verdade absoluta, simplesmente, porque ela não existe.
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A VIDA MELHORA 100% QUANDO VOCÊ EXPRESSA SUAS VONTADES - Larissa Bittar

“Não quero”. “Não gosto”. “Não enche”. “Fique aqui”. “Faço questão”. “Estou a fim”. “Fale direito comigo”. “Prefiro de outra forma”. “Isso não me agrada”. “Vou ligar, deu saudade”… existem milhões de frases curtas e palavras simples que insistimos em transformar em enormes nós na garganta. Optamos por engolir verdades, abafar afagos e cultivar novelos de mágoa no peito à medida que abrimos mão de verbalizar o que sentimos. Rendidos à teoria furada de que o silêncio é o melhor remédio, sufocamos a solução para boa parte das dores de cabeça que nos assolam: a comunicação.

Em algum momento perdemos a capacidade de dialogar. Instituiu-se a perigosa falácia de que ignorar é a resposta ideal e a consequência disso são mal-entendidos bobos minando relações preciosas. É aí que a piada infeliz que o colega de trabalho soltou, o presente que o marido se esqueceu de levar no aniversário de casamento e a ligação que você esperava do amigo e não recebeu são transformados em rosnadas e ressentimentos. A desconfortável sensação de que erraram conosco se converge em descontentamento prolongado pelo orgulho ferido. Tempos depois você descobre que um mero “ei, algo está me incomodando e preciso falar a respeito” economizaria dissabores e rupturas tolas.

Dizer o que se sente é colocar-se em primeiro lugar e conceder à vida adulta a maturidade que ela requer. É se dar o direito de expor, sem máscaras e jogos, vontades legítimas, que podem (e devem) ser postas na mesa. Não me refiro à verborragia sem freio que confunde falta de limites com liberdade de expressão. Refiro-me à libertadora possibilidade que temos de substituir as entrelinhas pela necessária e eficiente clareza de sentimentos. A vida melhora 100℅ quando a gente aprende que o subtendido é perda de tempo e elege o “preto no branco” como regra de conduta.

É dizer “não quero ir porque estou com preguiça” sem inventar que o carro pifou. É perguntar “qual o problema?” para quem desapareceu do nada. É falar “eu me preocupo e por isso quero estar perto” para quem é importante. É evidenciar para o seu funcionário o que espera dele, pedir para a tia mandona parar de se meter, externar para o companheiro que ele tem sido arrogante, solicitar sem constrangimento a folga de que precisa no trabalho. Combinar encontros, recusar propostas, propalar em alto e bom som desejos adormecidos.

No final das contas percebemos que tudo começa a fluir e que quem realmente se importa ouve, assimila e reconsidera posturas. Percebemos que a vaidade que o ego tem em se calar vale bem menos que as vantagens de soltar o que está reprimido. Entendemos que pagamos um preço alto pela inércia de esperar que o outro aja como gostaríamos sem que tenhamos manifestado o que queremos. No final das contas concluímos que nos estressamos com quem sequer imagina que agiu mal e que é insano esperar que adivinhem. Existe um mecanismo mais eficaz e viável do que bola de cristal — a boa, velha e indispensável conversa.
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GENTE MADURA NÃO TEM FRESCURA - Fabíola Simões

 Maturidade não é sinônimo de seriedade, e sim responsabilidade. Chega muito cedo para uns poucos, e nunca para outros. Nos resguarda dos mi mi mis e blá blá blás, e traz significado ao que importa de fato.

Gente madura não vive correndo atrás de aprovação ou explicação. Tem noção para quem deve satisfação e é pra esses que abre seu coração. Não vive de suposições nem ilusões. Não cria mundos a partir de pensamentos vagos nem alimenta expectativas em cima de sentimentos rasos.

Gente madura sabe se absolver. Não se leva tão a sério, chuta o balde de tempos em tempos, desculpa suas incapacidades e aceita suas precariedades.

Gente madura não se cobra a perfeição nem exige tanto de si e dos outros em nome de uma imagem imaculada e um semblante engessado. Ao contrário, aprendeu a rir dos tombos que leva e a fazer limonada dos limões que a vida lhe dá.

Gente madura não tem frescura com a própria vida e por isso consegue se deixar em paz. Já caiu e levantou tantas vezes que aprendeu a não sofrer por pequenices e superficialidades. Perdoa o cabelo mal humorado, a pele ressecada, a gordurinha fora do lugar. Não se tortura com fios puxados na blusa de lã, pregos fixados com diferença de altura, unha do mindinho descascada. Não se patrulha por repetir a sobremesa no almoço ou o vinho no jantar. Sabe que um dia compensa o outro, e que o saldo final é ser feliz.

Gente madura sabe que é exaustivo tentar ser legal o tempo inteiro. Por isso impõe limites e cuida bem de si. Zela pelos que ama mas entende que não é possível agradar a todos o tempo todo.

Gente madura não tem medo de errar nem de viver. Experimenta

sabores novos, inova na frente do espelho, recomeça depois de uma fossa, assume que estava errado, pede perdão, se reconcilia com sua história.

Gente madura não faz drama. Enfrenta os dissabores com bravura e vive os dias comuns com gratidão e maravilhamento. Com isso, aprende a ser feliz. A não comparar a própria vida, a não querer chegar na frente, a não desejar subir no podium da ilusão. Gente madura ama a própria realidade e não cobiça o mundo alheio. Não se faz de vítima nem vive ressentida. Ama o que lhe cabe e não se fecha para a alegria.

Gente madura aceita bem as diferenças e convive bem com as divergências. Ouve, analisa e tira suas conclusões sem impor seus conceitos como verdade absoluta.

Gente madura não faz alarde da tristeza nem da felicidade. Curte seus momentos com serenidade e não mede sua vida pela popularidade.
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MAIS VALE UMA SAFADEZA SINCERA, DO QUE UM ROMANTISMO FORÇADO - Jéssica Pellegrini

 Leia o texto abaixo ao som de Ariana Grande – Into You
(Vídeo no final do texto)

Esquece tudo e leia-me nessa madrugada vazia…
Deixe os seus problemas do lado de fora da porta. Entre sem receios, sem medo e sem pudores. Liberte-se de tudo o que for pesado, retire o seu casaco e também a sua vergonha em me encontrar de lingerie no meio da cozinha. Acompanhe-me em algumas taças de vinho, conte-me sobre a sua vida e os seus anseios. Eu prometo te ajudar, independentemente de quais sejam as suas dores ou desejos.

Eu sei que você é do tipo que fala muito. A sua boca está seca, deixe-me hidratá-la com os meus lábios. Posso começar te beijando lentamente, até que tudo se torne uma erupção no seu corpo e pensamentos. A tensão está visível no seu olhar e nos seus gestos, não precisa travar-se. Eu quero te levar, daqui para a cama, da cama para o chuveiro, do chuveiro para uma vida inteira ao meu lado. Podemos minimizar e simplificar a palavra: tesão.

Estamos a sós. Não seja assim tão covarde, não fuja de mim…

A madrugada está fria, e o meu corpo pegando fogo. Eu sei que entre uma lembrança e outra, eu consigo dominar os seus sentidos de uma forma que você nunca sentiu antes. E isso te causa aflição, pois é incontrolável. Logo você, que sempre teve o controle na palma das mãos, agora deixou vazar pela ponta dos dedos. Quebrou, eu te desconcertei. É desesperador, eu sei. Mas estou aqui, meu bem. Nessa noite, após um dia desgastante, eu sei que você vai deitar-se na cama e cobrir os pés com intenção de que eles façam o trabalho de esquentar todos os milímetros da sua pele. Mas não, eles não são obrigados a realizar essa tarefa. Na verdade, eu diria que é uma consequência. A responsabilidade de manter a sua temperatura, é inteiramente minha. Deixe-se levar por mim…

Por cima, por baixo, de lado, como você quiser. Até suarmos, sem pressa…

Eu não vou deixar você pegar no sono. Envie-me mensagens dizendo tudo o que você guarda para si, comece a dividir comigo e não seja egoísta. Você pode ter alguém que sempre sonhou, só precisa querer. E arriscar-se. Fique comigo, também quando amanhecer. Descubra as minhas imperfeições à luz do dia, eu não te quero apenas no escuro. Aliás, você não imagina o quanto eu sou louca, alucinada, desvairada por você. Você me entorpece, é delirante.

Acorde. Levante-se. Abra os olhos e enxergue o presente e futuro lindo que eu planejo com você. Desperte-se do comodismo, liberte-se dos seus traumas. Deixe-me fazer carinho sem horário para acabar, te mostrar que o amor pode não ser dolorido como nos seus antigos casos. Te provar que todo ou qualquer relacionamento é uma via de mão dupla, onde os dois fazem acontecer. Que não existe relação sem reciprocidade. Deixe-me cuidar de você, e de te proteger de todo mal que encontramos quando abrimos a janela ou ligamos a televisão. 

Eu quero te cobrir nos dias de chuva, e te refrescar quando chegar o verão. Quero te dedicar músicas, frases e todas as minhas declarações. Dizer que sou maluca por você, e que nunca imaginei assumir isso antes. Te surpreender com a naturalidade de um coração que pulsa, que clama e implora por você. Ser espontânea e muito mais do que você já idealizou ao abraçar o travesseiro, com saudade de alguém que você nunca conheceu…

O prazer é seu ou meu? Espero que seja nosso!

Afinal, ontem eu pensei em você. Hoje também, e amanhã não será diferente…

Se eu te passar o endereço, você vem me encontrar?

Vem aqui comigo!


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POR QUE A CULPA AUMENTA O PRAZER?

Alguns estudos em psicologia descobriram que a sensação de culpa que temos quando saímos da dieta ou escolhemos uma vida mais descontrolada não nos ajuda a ter uma vida saudável. Em vez de nos desviar das tentações, a culpa frequentemente nos leva a desenvolver vícios. Essa ironia parece ter vários motivos. Uma teoria é de que formas culpáveis de prazer estão tão enraizadas em nossa psique que os sentimentos de remorso detonam pensamentos de desejo em nosso cérebro. Ou seja, nossos vícios são tentadores em parte porque sabemos que eles nos fazem mal.

Para demonstrar a forma como nosso subconsciente realmente funciona de maneira masoquista, Kelly Goldsmith, da Northwestern University, em Illinois, mostrou alguns jogos de palavras a um grupo de voluntários. Eles primeiro tinham que reordenar algumas frases, algumas com palavras como “pecado”, “culpa” e “remorso”, e outras com termos mais neutros.

Na segunda parte do experimento, eles recebiam duas letras e tinham que completar as palavras. Aqueles que antes ordenaram as frases com as palavras condenadoras apresentaram muito mais tendência a criar palavras associadas com desejo. Ou seja, em vez de desviar os pensamentos do pecado, o subconsciente culpado começou a pensar de maneira mais luxuriosa.

Goldsmith descobriu ainda que esses sentimentos se traduziam em experiências realmente sensoriais. Os voluntários que foram incitados com ideias de culpa admitiram mais compulsão por doces ou ter mais prazer em olhar as fotos de um site de encontros.

O efeito “foda-se”
Mas a ironia da culpa não para por aqui. Além de aumentar a atração pelas tentações, o sentimento também pode lançar o chamado efeito “foda-se”.

Esse fenômeno psicológico tão bem estudado é o motivo pelo qual você não consegue parar de comer quando se comprometeu a comer “só uma” fatia de bolo – ao acharmos que fracassamos em algo, logo concluímos que é melhor se entregar completamente.

Roeline Kuijer e Jessica Boyce, da Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia, recentemente estudaram os hábitos alimentares de um grupo de voluntários que tentava perder peso.

Elas perceberam que aqueles que logo associavam um bolo de chocolate a um sentimento de culpa acreditavam menos em seu autocontrole do que as pessoas que associavam o alimento com coisas mais positivas, como uma festa.

Nos meses que se seguiram, aquilo se tornou uma profecia auto-realizável: apesar das intenções serem as mesmas, as pessoas que se sentiam mais culpadas ao pensar em chocolate conseguiam perder menos peso em comparação àquelas que viam o chocolate com animação. O mesmo aconteceu com outro grupo que estava tentando manter um peso saudável. Em um período de 18 meses, aqueles que inocentemente desfrutavam de sua comida tinham menos tendência a engordar.

Utilidade pública
As descobertas podem evidenciar um problema que ocorre em algumas campanhas de saúde pública. “Quando você pega uma atividade que não era associada com a culpa e, de repente, a faz parecer imprópria, o prazer parece aumentar”, diz Goldsmith.

Sendo assim, um aviso de “É proibido fumar” pode aumentar a vontade dos fumantes. Kuijer e Boyce argumentam que não deve ser coincidência o fato de os Estados Unidos apresentarem uma maior taxa de obesidade que a França, apesar dos americanos se sentirem mais culpados do que os franceses em relação a sua alimentação.

Apesar de nenhuma campanha pública ter sido alterada para experimentar essas teorias, Goldsmith acredita que seria mais eficiente se concentrar nos aspectos positivos, por exemplo, enfatizando os benefícios de escolhas mais saudáveis. Outros estudos concluíram que a liberdade de sentir pequenos prazeres uma vez ou outra é essencial para manter a força de vontade em relação a objetivos de vida maiores.

“Quando usamos nosso auto-controle para resistir a uma tentação ou para continuar com uma tarefa pouco interessante, esgotamos a força desse ‘músculo'”, explica Leonard Reinecke, da Universidade de Mainz, na Alemanha. “Consequentemente, é mais difícil resistir a desejos em outras situações.”

O cientista descobriu que formas de entretenimento menos intelectuais são uma ótima maneira de dar um descanso ao que ele chama de “músculo da força de vontade” e de recarregar o auto-controle. Mas quem sucumbir a esse tipo de lazer não pode se sentir culpado por isso, senão não há benefícios. Até porque, não é para menos que boa parte das maiores empresas do mundo possuem um excelente local de recreação: o descanso é produtivo.

Pessoas cansadas, esgotadas e/ou entediadas produzem menos. Em outras palavras, perdoar-se por um pouco de diversão ou por se entregar a uma guloseima deve servir para recuperar uma atitude saudável mais rapidamente e, assim, direcionar a força de vontade a algo mais positivo no dia seguinte.
por Demasiado Humano
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O PENSAMENTO DE CARL SAGAN (Incluindo PALE BLUE DOT) – André Jorge de Oliveira

O astrônomo que divulgava ciência como ninguém nos deixou um legado intelectual abrangente e de alto impacto filosófico – separamos algumas reflexões que ilustram várias facetas do pensamento humanista e inspirador de Sagan

Carl Sagan foi um cientista que, definitivamente, não teve medo de especular. É claro que ele sabia muito bem separar o que era ciência do que era especulação. Mas o jeito irresistível através do qual relacionava conceitos científicos com conteúdos imaginativos pertinentes tornava seu pensamento único e fascinante para o público leigo. Não é à toa que ele é considerado um dos maiores divulgadores de ciência de todos os tempos.

Além de inspirar toda uma geração de novos cientistas (em grande medida com a série Cosmos), Sagan também adotava um tom poético e filosófico nos assuntos que discutia, tornando suas reflexões ao mesmo tempo belas e dotadas de elementos capazes de despertar uma consciência humanista nas pessoas.

Se fôssemos apresentar todas as frases de impacto do astrônomo que têm o potencial de tornar uma pessoa melhor, provavelmente teríamos de escrever um livro. Mesmo assim, resolvemos escolher algumas citações e pensamentos de Carl Sagan que sintetizam certos aspectos centrais da visão que ele tinha das coisas. Se “somos todos poeira de estrelas” é a única referência que você tem sobre as ideias de Sagan, então os tópicos abaixo podem lhe ajudar a se aprofundar um pouco mais no jeito tão especial que ele tinha de encarar o cosmos – e nós mesmos.

A ciência é muito mais do que um corpo de conhecimentos. É uma maneira de pensar. A afirmação é fundamental para entender a forma como o cientista enxergava o próprio ofício. Completamente apaixonado pelo que fazia, para ele ciências como a física ou a astronomia não se limitavam a um punhado de fórmulas frias e conceitos abstratos. Muito pelo contrário, eram ferramentas poderosas e fascinantes que nos permitiam sondar o desconhecido, além de expandir nosso entendimento sobre a realidade da maneira mais confiável possível.

Toda criança começa como uma cientista nata, e então nós arrancamos isso delas. Entre as características que ele valorizava em um cientista e em qualquer outra pessoa estão a curiosidade e a imaginação, traços típicos das crianças. Para o astrônomo, pensar cientificamente era algo como interrogar de forma metódica diversos aspectos da natureza, o que não deixa de ser uma forma de curiosidade aplicada. A respeito da imaginação, ele acreditava ser um dos motores fundamentais do conhecimento humano.

Um livro é a prova de que os humanos são capazes de fazer mágica. Além da forte inclinação por especular, Sagan também era um intelectual com enorme capacidade de relacionar diferentes áreas do conhecimento – e fazia isso excepcionalmente bem. Para conseguir esta naturalidade em transitar por diversos repertórios, é preciso muita leitura e erudição multidisciplinar. Cosmos, por exemplo, é repleto de narrativas sobre a história da ciência, e em vários momentos o astrônomo declara sua admiração pelos livros.
Nós somos uma maneira de o cosmos se autoconhecer. Se somos feitos de poeira de estrelas sistematicamente organizada para formar seres dotados de consciência, então podemos dizer que somos o universo pensando sobre si próprio. A abordagem se insere na convicção de que nós, humanos, não somos tão diferentes assim da realidade física que nos cerca, e de que interagimos com ela constantemente – de formas que estamos apenas começando a entender. Em outras palavras, você e o cosmos estão intimamente conectados. O astrônomo costumava citar mitos de nossos antepassados que nos concebiam como filhos tanto do céu quanto da terra.

Nossa obrigação de sobreviver e prosperar é devida não apenas a nós mesmos, mas também ao cosmos, antigo e vasto, do qual surgimos. Sagan possuía um profundo senso de reverência com relação à vida e ao ser humano. Ele acreditava que estar vivo e ter uma consciência era não apenas um privilégio, mas também uma grande responsabilidade.

Como salientou em diversos momentos, nossa espécie atingiu um ponto crítico de sua história, no qual tem o próprio destino nas mãos. Todo o conhecimento e bagagem evolutiva que acumulamos nestes poucos milênios podem ser usados de forma a engrandecer nossa civilização – ou então destruí-la por completo, se insistirmos nos erros do passado.

Discursos apaixonados de grandes cientistas dão vida e beleza a conceitos abstratos da ciência.

Cada um de nós é, sob uma perspectiva cósmica, precioso. Se um humano discorda de você, deixe-o viver. Em cem bilhões de galáxias, você não vai achar outro. A reflexão segue a mesma linha do raciocínio apresentado acima – a vida inteligente é rara. Nosso conhecimento sobre o Universo ainda é limitado, é verdade, mas pelo pouco que exploramos já conseguimos chegar a esta conclusão. Sob esta perspectiva, a vida na Terra, principalmente a humanidade, ganha um status quase que sagrado, pois é fruto de um processo contínuo de evolução que se arrasta há 4,5 bilhões de anos. Todos carregam esta bagagem compartilhada dentro de si. Quando enxergamos a vida desta forma, o ato de matar qualquer ser vivo ganha novas e gigantescas proporções.

Diante da vastidão do espaço e da imensidão do tempo, é uma alegria dividir um planeta e uma época com Annie. A frase é adereçada a Ann Druyan, esposa do astrônomo, mas poderia muito bem se aplicar a qualquer outra pessoa. A constatação é de um poder imenso. Apenas pense em como é improvável, nos termos de uma perspectiva cósmica, você e outro amontoado de átomos que formam um ser consciente terem a chance de interagir um com o outro, em um minúsculo planeta chamado Terra e em um período de tempo específico. Reflita: são mais de 100 bilhões de galáxias em nosso Universo, que existe há pelo menos 13,8 bilhões de anos.

Nós somos, cada um de nós, um pequeno universo. Um assunto abordado com frequência por Carl Sagan era a dimensão das coisas muito pequenas, como aquelas que compõem nossos corpos. Ele frequentemente colocava o minúsculo em escala com o gigantesco, equiparando, por exemplo, a quantidade de átomos em uma molécula de DNA com a de estrelas em uma galáxia típica.

É uma forma elegante de demonstrar como somos muito pequenos e muito grandes ao mesmo tempo. Em uma outra comparação do gênero, dizia que existem mais estrelas no Universo do que grãos de areia em todas as praias da Terra.

O Universo não parece nem benigno nem hostil, mas meramente indiferente às preocupações de criaturas tão insignificantes como nós. O cientista defendia que era melhor tentar se agarrar à realidade do jeito que ela realmente é do que persistir em ilusões, por mais reconfortantes que elas sejam.

No fundo, ele queria dizer que, por menos acolhedor e mais adverso que o cosmos possa nos parecer, a verdade é que ele opera independentemente de nossos desígnios. Seremos nós que sempre vamos precisar nos adaptar ao Universo se quisermos sobreviver nele, e não o contrário. A chave para esta adaptação estaria em tentar constantemente entender a natureza das coisas por meio da ciência.

O céu nos chama. Se não nos autodestruirmos, um dia vamos nos aventurar pelas estrelas. A exploração espacial era um tópico especialmente caro a Sagan, e ele próprio participou de diversos projetos da NASA, como o da sonda Voyager 1, que deixou recentemente o Sistema Solar. Em sua concepção, os poucos milênios de vida sedentária da humanidade não apagaram nosso instinto por explorar novos lugares e expandir nossos horizontes, traços típicos das sociedades voltadas para a caça e coleta.

Ele acreditava que o gosto pela exploração era uma herança evolutiva para aumentar as chances de sobrevivência de nossa espécie, e que portanto, cedo ou tarde, vamos nos espalhar pelo espaço.

Toda civilização sobrevivente é obrigada a se tornar viajante espacial, pela razão mais prática que se pode imaginar: manter-se viva. A ideia da expansão pelo espaço no pensamento do astrônomo não se reduzia a um capricho meio romântico ou então à tendência humana de explorar. Ela tinha mais a ver com uma espécie de instinto de sobrevivência. Não é tão difícil de entender este argumento: se a humanidade inteira está confinada na Terra e algo acontece com o planeta, estamos condenados à extinção. Asteroides são uma grande ameaça, mas nosso próprio sol pode nos engolir daqui a 5 bilhões de anos, quando seu combustível acabar e ele virar uma gigante vermelha.

Uma das grandes revelações da era da exploração espacial é a imagem da Terra, finita e solitária, de alguma forma vulnerável, transportando a espécie humana inteira pelos oceanos do espaço e do tempo. 

Pouco depois de a sonda Voyager 1 ultrapassar Saturno, foi ele quem deu a ideia de tirar uma foto da Terra, que dali aparecia como um pixel azul suspenso em um raio de sol. Ou então um grão de areia suspenso no céu da manhã, como ele mais tarde interpretou.

Para Carl Sagan, entre as muitas formas que podemos enxergar nosso frágil planeta, uma delas é como uma nave, que sempre nos transportou pelo espaço e pelo tempo.

Entre as mensagens mais belas da história, inspiradas pela ciência, certamente está Pale Blue Dot (pálido ponto azul), de autoria de Carl Sagan.


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A LINHA DE PENSAMENTO DE STEPHEN HAWKING – Isabela Moreira

As contribuições do físico e cosmólogo para a sociedade ultrapassam o campo da ciência.

Stephen Hawking é, sem dúvidas, uma das mentes mais brilhantes da história da ciência. Aos 73 anos, ele fez grandes contribuições à comunidade científica, com teorias como a do espaço-tempo e do funcionamento dos buracos negros, a partir das quais conseguiu aproximar o público de temas que poderiam parecer complexos para muitos.

Você pode conhecê-lo por meio do livro Uma Breve História do Tempo, da representação feita dele pelo ator Eddie Redmayne no recente A Teoria de Tudo ou pode ter ouvido falar do cientista por conta de ele sofrer da raríssima condição esclerose lateral amiotrófica. No entanto, a produção dele vai muito além.

Separamos oito reflexões a partir das quais é possível ter uma visão mais profunda da linha de pensamento — e das contribuições científicas do cosmólogo:

“Deus pode existir, mas a ciência consegue explicar o universo sem a necessidade de um criador.” Em múltiplas ocasiões, Hawking afirmou ser ateu. Neste caso, Deus seria uma espécie de limitação, ou seja, as pessoas só saberiam aquilo que Ele sabe. A diferença entre a religião e a ciência, de acordo com Hawking, é que a primeira é baseada em uma autoridade, enquanto a segunda funciona a partir da observação e da razão. “Eu acredito que o universo é regido pelas leis da ciência”, explica. “A ciência triunfará porque ela funciona.”

“Acredito que a vida se desenvolve de forma espontânea na Terra, então deve ser possível para ela se desenvolver em outros planetas.” Hawking acredita que formas inteligentes, não apenas microbianas, de vida existem em outros lugares do universo. Tanto que, em julho deste ano, ele lançou um programa de 100 milhões de dólares cujo objetivo é buscar uma civilização extraterrestre ao longo da próxima década. A segunda parte da missão consistirá em compilar uma mensagem para ser enviada para essas formas de vida. “Não há questão maior. Está na hora de nos comprometermos a achar a resposta, a procurar vida fora da Terra. Estamos vivos. Somos inteligentes. Precisamos saber”, disse o físico.

“O desenvolvimento da inteligência artificial pode ser o fim da raça humana.” Por sofrer de esclerose lateral amiotrófica, que compromete o funcionamento do sistema nervoso, o cosmólogo conta com a tecnologia para se comunicar. Especialistas da Intel e da Swiftkey criaram um sistema que, por meio do teclado de um aplicativo no smartphone, aprende como Hawking pensa e sugere palavras que ele queira usar em seguida. O desenvolvimento dessa tecnologia envolve inteligência artificial, o que impressiona e assusta o cientista ao mesmo tempo.

Para ele, é necessário ter cautela para não criar uma espécie de Skynet que ultrapassaria a inteligência humana e substituíria as pessoas. Essa preocupação se estende principalmente ao desenvolvimento de armas autônomas. Em carta aberta, Hawking e centenas de outros cientistas se posicionaram em relação às consequência desse tipo de tecnologia. “A tecnologia relacionada a inteligência artificial chegou a um ponto no qual a disposição desses sistemas é possível em questão de anos, não décadas, e as expectativas são altas: as armas autônomas foram descritas como a terceira revolução para as guerras, após a pólvora e as armas nucleares”, diz o documento.

“A pergunta chave para a humanidade hoje é se devemos dar início a uma corrida de armas feitas com inteligência artificial ou se devemos prevenir que ela sequer comece. É só uma questão de tempo até que elas apareçam no mercado negro ou nas mãos de terroristas e ditadores que querem controlar suas populações, ou déspotas que desejam fazer ‘uma limpeza’ étnica em seus territórios.”

“A ideia de viagem no tempo não é tão louca quanto parece.” Em artigo escrito para o Daily Mail em 2010, Hawking revelou que, por muito tempo, evitou falar sobre viagem no tempo por receio de ser rotulado de louco. Mas com o passar dos anos, deixou essa abordagem de lado. “Eu sou obcecado com o tempo. Se eu tivesse uma máquina do tempo, eu visitaria Marilyn Monroe em seus dias de glória ou iria atrás de Galileu enquanto ele construia seu telescópio. Talvez eu até viajasse para o fim do universo para descobrir como a nossa histórica cósmica termina”, escreve.

NOS ÚLTIMOS ANOS, AS VIAGENS NO TEMPO PASSARAM A SER 
UM TEMA RECORRENTE NA FALA E NO TRABALHO DE HAWKING.

O físico sugere a existência de uma quarta dimensão. Haveria, além da altura e do comprimento, um outro tipo de comprimento: o do tempo. “Tudo tem um comprimento no tempo, bem como no espaço”, explica. Logo, viajar no tempo seria viajar pela quarta dimensão, uma espécie de portal com o nome de “buraco de minhoca”. “Os buracos de minhoca estão por toda parte do nosso redor, mas eles são muito pequenos para que consigamos vê-los. Eles ocorrem em fendas e cantos do espaço e do tempo. Alguns cientistas acreditam que talvez seja possível aumentá-los o suficiente para que humanos ou naves espaciais possam utilizá-los.”

"As coisas podem escapar de um buraco negro, tanto para o lado de fora, como também possivelmente em um outro universo." Em 1974, Hawking argumentou que os buracos negros, supostamente campos gravitacionais impossíveis de se escapar, emitem um tipo de radiação térmica por conta de efeitos quânticos. Chamada de radiação Hawking, quando emitida em grande quantidade, teoricamente, pode fazer com que o buraco negro desapareça e que, com isso, a informação sobre o estado físico de um objeto que cai no buraco negro seja destruída.

Em 2004, o cientista mudou de ideia em relação aos buracos negros, afirmando que a informação poderia sobreviver ao ser sugada por eles

Isso aconteceria de acordo com a relatividade geral. Já sob o ponto de vista da mecânica quântica, essa mesma informação não poderia se perder. Esse paradoxo tem perdurado pelos últimos 40 anos.

Em 2004, o cientista mudou de ideia, afirmando que a informação poderia sobreviver. No fim de agosto de 2015, ao falar da radiação Hawking, o cosmólogo sugeriu uma nova abordagem que pode mudar para sempre a forma como buracos negros são vistos e discutidos. “Eu proponho que a informação não é armazenada no interior do buraco negro, como é de se esperar, mas sim em seu limite, o horizonte de eventos”, disse o cientista. Basicamente, ao ser sugada pelo buraco negro, a informação passaria por um processo de tradução, criando um holograma da informação que sobreveviria e escaparia pelo horizonte de eventos. “Os buracos negros não são tão negros como os fizemos parecer. Eles não são as prisões eternas que já foram considerados uma vez”, explicou Hawking.

“Você tem que ter uma atitude positiva e tirar o melhor da situação na qual se encontra.” O cosmólogo foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica quando tinha 21 anos. Na época, a previsão dos médicos era de que Hawking teria apenas mais três anos de vida — em janeiro de 2015, completou 73 anos. Ele lida com a doença se focando em atividades relacionadas com a física teórica, que não exigem seu esforço físico. “A ciência é uma área boa para pessoas deficientes porque ela precisa principalmente da mente”, afirma.

"Manter alguém vivo contra a sua vontade é uma grande indignidade." O suicídio assistido deve ser um direito dos pacientes de doenças terminais, de acordo com Hawking. O cientista afirmou, durante um programa da BBC, em junho de 2015, que consideraria dar um fim à própria vida se sentisse ser um fardo para outras pessoas e não tivesse mais contribuições a fazer. No entanto, ele admite que ainda tem muito a oferecer à sociedade. “Nem pensem que eu vou morrer antes de desvendar mais segredos do universo”, declara.

“Nós somos uma espécie avançada de macacos em um planeta menor de uma estrela mediana. Mas nós conseguimos entender o universo. E isso nos torna muito especiais.” O objetivo de Hawking é obter a compreensão total do universo, como os motivos de ele ser como é e a razão de ele existir. A dica do cientista para as pessoas é olhar para as estrelas e não para baixo, para os próprios pés. “Tente encontrar sentido no que você vê, e se pergunte sobre o que faz o universo existir”, diz. “Seja curioso.”
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