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QUE HUMANIDADE É ESTA? – José Saramago


Se o homem não for capaz de organizar a economia mundial de forma a satisfazer as necessidades de uma humanidade que está a morrer de fome e de tudo, que humanidade é esta?

Nós, que enchemos a boca com a palavra humanidade, acho que ainda não chegamos a isso, não somos seres humanos. Talvez cheguemos um dia a sê-lo, mas não somos, falta-nos mesmo muito.

Temos aí o espetáculo do mundo e é uma coisa arrepiante. Vivemos ao lado de tudo o que é negativo como se não tivesse qualquer importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro.

Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo, e também não devemos falar desta cidade, porque o mundo é um imenso Sarajevo. E enquanto a consciência das pessoas não despertar isto continuará igual.

Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na carência de vontade, para diminuir a nossa capacidade de intervenção cívica.
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COMO É QUE SE ESQUECE ALGUÉM QUE SE AMA - Miguel Esteves Cardoso

 Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar.

A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste.

Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injeção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se tudo na alma, fica tudo desarrumado.

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.
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O DIFÍCIL PROBLEMA DA CONSCIÊNCIA - Marcelo Gleiser

Como um apanhado de 80 a 100 bilhões de neurônios gera a experiência que temos de sermos nós?

Gostaria de retornar a um assunto que deixa muita gente perplexa, inclusive eu: a natureza da consciência e como ela "surge" no nosso cérebro. Se você acha que sabe a resposta, provavelmente não entende a questão. Nenhum cientista ou filósofo sabe como respondê-la.

Existem vários modos de formular a questão, mas eis um: como o cérebro, um apanhado de 80 a 100 bilhões de neurônios, gera a experiência que temos de sermos nós?

O filósofo australiano David Chalmers chama a questão de "o difícil problema da consciência". Faz isso para diferenciá-lo dos demais problemas que poderão ser resolvidos pela pesquisa nas ciências neurocognitivas e neurocomputacionais. Mesmo que isso possa demorar um século, o nível de dificuldade não se compara ao do problema que, alguns especulam, é insolúvel.

Eis alguns dos problemas que Chalmers considera fáceis: a habilidade de discriminar, categorizar e reagir a estímulos externos; a integração de informação sensorial; o controle intencional de comportamento; a diferença entre dormir e estar acordado.

Essas questões são localizadas, passíveis de uma descrição reducionista de como funcionam partes do cérebro, usando a conexão entre neurônios e grupos de neurônios.

Henry Markram, na Suíça, recebeu uma bolsa de 1 bilhão de euros para liderar o Projeto do Cérebro Humano, uma colaboração de centenas de cientistas que visa criar uma simulação do cérebro humano. Para tal, eles precisarão de computadores capazes de bilhões de bilhões de operações por segundo, um fator cerca de 50 vezes maior do que os supercomputadores mais rápidos do mundo são capazes hoje.

Markram e os "computacionalistas" acreditam que, se o nível de informação da simulação for suficientemente detalhado, incluindo desde o trânsito de neurotransmissores entre sinapses até as milhares de conexões interneuronais em partes diferentes do cérebro, a simulação funcionará como um cérebro humano dotado de uma consciência tão complexa quanto a nossa. Markram acredita que o problema "difícil" não existe: tudo pode ser obtido de neurônio a neurônio.

Apesar de concordar com a relevância científica do projeto de Markram, não vejo como uma simulação poderá criar uma entidade com consciência semelhante à humana. Talvez crie algum outro tipo de consciência, mas não a nossa.

Outro filósofo, Thomas Nagel, mostrou que somos incapazes de perceber a experiência consciente de outro cérebro. Como exemplo, usou os morcegos, que constroem sua realidade a partir da ecolocalização. Usando ideias do linguista Noam Chomsky, que defende a limitação cognitiva de cada cérebro (por exemplo, um rato jamais poderá falar), Nagel mostra que não podemos entender o que é "ser" um morcego.

Essa é outra versão do problema de Chalmers, que o filósofo Colin McGinn chama de "clausura cognitiva". Não existe um modo de capturar a essência do consciente, pois este não se presta a uma análise metódica das propriedades do cérebro: está em toda a parte e em nenhuma parte. Talvez, McGinn especula, uma inteligência mais avançada saiba responder à pergunta. Mas nós, simulações ou não, temos que viver com o mistério.
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O NÓ DO AFETO - Eloi Zanetti
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ESSES FILHOS PERPLEXOS DIANTE DA VELHICE DOS PAIS - Eliane Brum

O cinema anuncia novos arranjos para o envelhecer e traz um olhar
irônico sobre essa relação familiar quase sempre conflituosa

Uma sequência de filmes mostra que a velhice mudou – ou está mudando. Isso diz bastante sobre o aumento da expectativa de vida, já que um dos temas cruciais da sociedade contemporânea passa a ser como ser velho nestes tempos. E faz com que atores e atrizes sem muita chance de viver papéis desafiadores por conta da idade, muitos deles obrigados a uma aposentadoria não desejada, passem a ter a chance de interpretações magistrais, como foi o caso de Emmanuelle Riva e de Jean-Louis Trintignant, no excepcional Amor. Ou tem levado atores consagrados a se aventurar na direção depois dos 70, como fez Dustin Hoffman no encantador O Quarteto. São filmes em que a velhice é contada pelo olhar de quem a está vivendo e há várias formas de pensar sobre o que está sendo dito, dentro e fora da tela.

Minha proposta é refletir sobre uma em particular: nos últimos quatro filmes exibidos por aqui e que já estão ou devem estar chegando às locadoras e às TVs por assinatura, os filhos ou estão ausentes ou são uns atrapalhados, oscilando entre a boçalidade e a incapacidade de dar conta da própria vida.
    
Em O Excêntrico Hotel Marigold, o mais fraco deles, um dos casais britânicos vai parar na Índia porque a filha gastou o dinheiro dos pais numa aventura empreendedora na internet. Assim, precisam encontrar uma opção mais barata de moradia, o que os leva ao excêntrico hotel do título. Ainda que depois a opção se mostre interessante, mesmo que por caminhos tortuosos, não foi uma escolha num primeiro momento. E sim uma reação à atrapalhação da filha, que se arriscou não com o seu próprio dinheiro, mas (convenientemente) com o dos pais, o que também é uma marca da nossa época.

No ótimo E se vivêssemos todos juntos?, a filha do casal interpretado por Jane Fonda e Pierre Richard é uma chata pretensiosa que só aparece para (tentar) mandar nos pais e dar palpite na vida deles, para em seguida desaparecer. Já o filho do Don Juan interpretado por Claude Rich é muito mais participativo e francamente esforçado, mas o pai tenta escapar de todo jeito das boas intenções filiais porque esse filho só é capaz de enxergá-lo como alguém que vai quebrar a qualquer momento – o que é verdade, mas está longe de ser toda a verdade.
  
Em Amor, a maravilhosa Isabelle Huppert está menos maravilhosa no papel de filha do casal que se descobre velho de repente, numa manhã qualquer, em um segundo. Esta personagem, às voltas com um casamento que parece emocionante apenas pelas razões erradas, encarna a filha perplexa diante dos pais. Perplexa e apavorada diante da fragilidade e da finitude dos pais. Ela tenta intervir, ela tenta se impor, ela tenta dizer e fazer coisas sensatas – e tudo falha. Ela tenta principalmente ser potente, mas mal dá conta da própria vida. Seu diálogo com o pai, enquanto a mãe não sabe de si, é uma das cenas antológicas desse filme belíssimo.

Em O Quarteto, que se passa num “lar para velhos” que foram cantores e músicos antes de perderem a voz, a memória ou a saúde, os filhos não estão lá. Surgem, ao fundo, nos dias de visita, mas nenhum dos personagens principais parece ter filhos. Artistas de ópera, eles possivelmente não tiveram tempo para a maternidade ou a paternidade. E esta não parece ser nem uma questão, nem um motivo de arrependimento, o que é bastante interessante. Se tiveram filhos, o fato não foi tão marcante a ponto de ser citado, o que de novo é bem interessante. O quarteto é primeiro um trio, que se ampara e se diverte na velhice como os amigos de uma vida inteira que foram e ainda são. A quarta personagem, que chega para fechar o grupo, é uma diva atormentada pela perda da potência, que no seu caso se expressa pela voz que falha. Ela terá de descobrir que pode cantar mesmo com uma voz que não é – nem jamais voltará a ser – a da juventude. E para isso terá de amarrar alguns fios esgarçados do passado.

Só estou citando os últimos filmes, mas antes destes já tivemos outros em que os filhos aparecem ora perdidos, ora oportunistas na vida dos pais, como no delicioso Elsa & Fred. O que vale a pena perceber é que, cada vez mais, ao contar a velhice pelo olhar de quem a vive, conta-se também da perplexidade dos filhos apatetados diante dos pais. Não mais os pais velhos como um estorvo para filhos que mal dão conta da sua vida, sem saber se os enfiam num asilo ou os carregam para casas ou apartamentos onde mal cabem eles. E sim filhos atrapalhados ou boçais que, quando aparecem, tornam-se um estorvo para os pais.

A ponto de em E se vivêssemos todos juntos? deixarem o filho de um para fora do portão e ainda lhe darem um banho de mangueira para que vá embora de uma vez e não volte tão cedo. São velhos poderosos – e que reivindicam seu poder mesmo em uma condição de fragilidade – os do cinema. Poderosos porque não se deixam apartar de sua história na velhice, ao contrário. Apropriam-se dela e a usam para viver com intensidade seus últimos capítulos, apesar das inevitáveis perdas e limitações.
  
Cabe esclarecer que esta questão, a dos filhos diante da velhice dos pais, que aqui se torna a principal, nos filmes é secundária, quando não inexistente, o que também é muito significativo. Como filha de pais que envelhecem, eu me identifico com esses filhos perplexos e atrapalhados. Como uma mulher que envelhece, me identifico com esses velhos, nos quais me espelho para o futuro não mais tão distante. Em qualquer um dos casos, consigo encontrar discernimento para perceber o quanto é sensacional que os filhos, que se acham tão centrais na vida de seus pais, a qualquer tempo, sejam colocados no seu devido lugar.

“Minha mãe (ou meu pai) virou criança.” Esta frase, corriqueira na boca de filhos que parecem exaustos, me provoca alguma desconfiança. Soa mais como uma tentativa de potência de filhos que estão se sentindo bem impotentes. Ou soa como uma tentativa de mostrar que sabem o que fazem ou para onde vão, quando de fato se encontram completamente perdidos. Até porque é uma marca do nosso tempo o retardamento da vida adulta, de preferência para sempre. E a velhice dos pais, os adultos por excelência, afunda todas as esperanças inconfessadas de ser adolescente para sempre em pelo menos um lugar no mundo.

Sinto compaixão por esses filhos, como senti pelos filhos dos velhos do cinema. Como senti por mim mesma à certa altura. Ao perceber que meus pais estavam envelhecendo, em determinado momento achei que tinha de assumir também o comando da vida deles. Considerei que, para ser uma boa filha, tinha de ter todas as respostas. Ou, invertendo o lugar, me apropriar do famigerado “eu sei o que é melhor para eles”. Aos poucos fui percebendo que estava me tornando uma chata pretensiosa. Com tanto medo que eles quebrassem que queria carregá-los no colo, mas minha estropiada coluna vertebral mal dá conta de sustentar meu próprio peso.

Com a gentileza que lhes é peculiar, meus pais escutavam meus palpites e minhas pregações e, claro, faziam exatamente o que queriam. Devagar fui me dando conta de que era só o que faltava ter vivido e experimentado tanto para chegar à velhice e ter de suportar uma filha tentando mandar neles. Percebi que o importante era estar por perto não só para o que fosse preciso, mas pelo prazer da companhia, e continuar capaz de escutá-los. Se precisam da minha ajuda, eles mesmos me dizem – não só com palavras, mas de maneiras mais sutis. E se fazem coisas que eu considero mais arriscadas, tanto a decisão quanto o risco continuam sendo deles, como sempre foram. Não por minha majestosa concessão, mas porque não tenho nenhum direito de impor qualquer vontade. Se depois de me tornar adulta eu nunca permiti que meus pais interferissem de forma autoritária na minha vida, por que é que eu me acharia no direito de me meter de forma autoritária na deles quando estão envelhecendo? Escutar de verdade ainda é o começo e o fim de qualquer relação de respeito mútuo – e de amor.
  
Mas nós, os filhos, nos atrapalhamos mesmo. E acho muito divertida a ironia com que somos tratados nessa sequência de filmes, mesmo quando não estamos. (Como assim não estamos, nós, tão centrais na vida dos pais? Que horror!) Alguns se atrapalham porque se confrontar com a velhice dos pais é se confrontar com a certeza de que não há mais jeito de escapar da vida adulta. E, para quem achou que poderia continuar sendo filho para sempre, é uma complicação virar gente grande de uma hora pra outra. Ao tentar dar ordens aos pais, esses filhos na verdade estão dizendo: “Não me deixem sozinho nesse mundo tão ameaçador. Não me desamparem!”. E a irritação que manifestam diante das limitações dos pais muitas vezes é um jeito tosco de disfarçar o pavor que sentem diante do desamparo iminente. Isso para alguns.

Para todos a velhice dos pais anuncia a própria velhice. É talvez o primeiro grande confronto com a fragilidade e com a finitude. Os filhos que olham aterrorizados para os passos claudicantes dos pais não temem apenas que eles caiam, mas principalmente que serão os próximos a ter pernas que vacilam. Ainda que não confessem nem para si mesmos, talvez seja este o maior horror. E este é um momento bem periclitante da vida. E quando isso se dá por volta dos 40, 50 anos, o confronto acontece quando o corpo está dando os primeiros sinais inequívocos de que já não somos tão jovens. É um duplo desafio, a velhice dos pais e o anúncio do próprio envelhecer. Que nem se compara, e isso também é preciso lembrar, com o desafio abissal que é ser velho – e ser velho nesse mundo em que, além de todas as dificuldades da idade, é preciso brigar para ser respeitado. E escutado.
  
Como já contei aqui, compartilho com um grupo de amigos o projeto de envelhecermos juntos num condomínio construído por nós em uma cidade pequena perto de uma grande. Uma cidade pequena por ser mais amigável a quem tem limitações físicas, sem contar que perder o pouco tempo de vida que resta empacado no trânsito não parece uma boa ideia. E perto de uma grande porque queremos continuar indo ao cinema, ao teatro, às livrarias e aos cafés e restaurantes, e numa cidade maior as alternativas gratuitas ou de baixo custo de eventos culturais são mais promissoras para quem vive de aposentadoria. Nossas casas terão fundos para um pátio comum, para o caso de querermos nos encontrar, e frente individual, para a rua. O pacto, já antigo entre nós, parte da ideia de envelhecer no mundo – e não apartado dele, como acontece com a velhice asilada – e perto de quem sabe de nós. 

Além de nos dar a possibilidade de amparar as dificuldades um do outro e de baratear os custos de manutenção. Neste sentido, nos aproximamos dos personagens de E se vivêssemos todos juntos?, mas com um pouco mais de privacidade. 

Tenho encontrado gente na mesma faixa etária com projetos semelhantes com o seu grupo de amigos. E acredito que esta também é uma mudança importante. Acho que a minha geração está diante dessa questão como nenhuma outra. E tem aprendido algo importante com sua própria perplexidade diante da velhice dos pais. A questão dos meus pais, que sempre viveram com salário de professor, o que todo mundo sabe o que significa no Brasil, era fazer uma poupança para não depender dos filhos na velhice. A frase clássica dos pais bacanas, que hoje estão nos 70, 80 anos, é: “Não quero dar trabalho para os meus filhos dependendo deles”. Ou: “Não quero incomodar os meus filhos”.

A frase da minha geração – e que já se anuncia na boca dos velhos do cinema – é outra:


– Incomodar os meus filhos? Nem me importaria. O que não quero é que os meus filhos me incomodem!
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O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL E A FARSA DO AMIANTO – Eliane Brum

Como é possível que, em 2017, ainda se discuta no Brasil se é possível seguir produzindo e usando um material cancerígeno que mata milhares de pessoas e há muito foi banido de dezenas de países?

Em 10 de agosto, o Supremo Tribunal Federal começa a  julgar um conjunto de ações relacionadas ao amianto: elas questionam a proibição do material nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco, além da capital paulista. Ou seja, o objetivo é voltar a liberar o amianto nestes locais onde leis estaduais e municipais o baniram. E outra ação, esta movida por quem luta pelo banimento da fibra cancerígena em todo o território brasileiro, questiona a constitucionalidade da lei federal que permite o “uso seguro” do amianto no país. Se essa lei for considerada inconstitucional pelo Supremo, será o primeiro e mais importante passo para banir de vez o amianto no Brasil.

Apesar da linguagem burocrática aí de cima, este é mais um capítulo de uma história sórdida que um dia poderá se tornar uma série policial de TV ou um thriller de suspense no cinema, daqueles cheios de vilões de terno e sorrisos corrigidos em dentistas. E aqueles que o assistirem poderão pensar, como acontece quando assistimos a filmes que narram atrocidades históricas: como os cidadãos deste país permitiram que isso acontecesse? Mas é isso, não só deixamos acontecer, no passado, como segue acontecendo, no presente.

A história do amianto – também conhecido como asbesto – é marcada por falsificações, chantagens, ameaças e mortes de trabalhadores e de familiares de trabalhadores. Uma farsa do século 20 que no Brasil se estendeu para o século 21 porque uns poucos ainda faturam com a morte de muitos. E estes poucos que faturam têm dinheiro para pagar grandes escritórios de advocacia, consultores influentes, cientistas de universidades importantes, que torturam primeiro a ética, depois a ciência, assim como financiar vereadores, prefeitos, deputados e senadores, lobistas e vendilhões de todo o tipo.

O amianto já foi banido de mais de 70 países por ser uma ameaça à vida. É proibido na União Europeia desde 2005. A indústria do amianto conhece os riscos da fibra mineral para a saúde desde o início do século 20, mas como ela dava muito lucro e alguns impérios familiares foram construídos com o dinheiro do amianto, omitiu-se e seguiu produzindo. Quando o escândalo de saúde pública começou a se desenhar na Europa, a partir do final dos anos 70 do século passado, os barões do amianto foram progressivamente recuando lá e expandindo seus negócios em países como o Brasil. Afinal, havia ainda muito mundo onde se ganhar dinheiro antes de ter que recuar por completo. E ainda há.

É o que acontece hoje. A Brasilit trocou o amianto por material não cancerígeno no início deste século, ao calcular que estava na hora de disputar o mercado em outra posição visando o futuro. Mas não resolveu o passivo dos trabalhadores doentes nem respondeu pelos mortos. A Eternit, dona da única mina de amianto no Brasil, a Mina de Cana Brava, em Minaçu, no estado de Goiás, tornou-se a principal defensora do “uso seguro” da fibra cancerígena.

Quando o amianto for banido, milhares de vidas já terão sido exterminadas e durante décadas outros milhares poderão morrer

Ninguém se iluda, é uma disputa de negócios. Neste momento, até as pedras sabem que o amianto terminará por ser banido no Brasil. Mas o xadrez segue sendo jogado, parte dele como encenação, para que a indústria consiga as melhores condições e perca o menos possível – e para que a indústria se responsabilize o menos possível pelas vítimas humanas e pela corrosão do meio ambiente. Entre 1980 e 2010, uma pesquisa mostrou que houve 3.718 casos de mesotelioma, o câncer fatal do amianto, no Brasil. Mas seu autor, o pesquisador Francisco Pedra, da Fiocruz, chama a atenção para a extrema subnotificação da doença. Muitos trabalhadores e familiares morrem sem ter o diagnóstico correto e sem que a informação seja registrada.

É fundamental perceber que tanto o número de doentes crescerá quanto a contaminação ambiental persistirá por décadas. O Brasil deverá atingir o pico de mesoteliomas nos anos que ainda virão, já que a doença tem um longo período de latência. E não há nenhum plano para a descontaminação do amianto que está por todo canto, entranhado no país, possivelmente no prédio onde você lê esse texto. Ainda que a produção esteja em queda, o Brasil segue sendo um dos maiores produtores e exportadores da fibra cancerígena. Mas, claro, quando essa história acabar, além das milhares de vidas perdidas, sobrará para a rede pública de saúde e, portanto, para todos nós, pagar o custo do crime perpetrado pela indústria do amianto.

Os lobistas do amianto seguem o script da indústria do tabaco

Para compreender como esse enredo se desenrola, vale a pena olhar para o cigarro, uma história que todos conhecem bem. A indústria do tabaco sabia há muito tempo que o produto era cancerígeno. E silenciou. Quando se tornou impossível seguir em silêncio porque os males do cigarro se tornaram públicos e os casos de câncer e outras doenças dispararam, negou. Depois criou produtos que supostamente causavam menos danos à saúde, como o famoso “menos nicotina e alcatrão”, assim como colocou “filtro” nos cigarros. E mais recentemente os cigarros com sabores e o “cigarro eletrônico”. E tudo isso financiando fartamente lobistas, cientistas, médicos, publicitários, marqueteiros, astros de cinema e da TV, advogados e agentes públicos para adiar o desfecho o máximo possível. O cálculo é sempre “o quanto podemos ganhar antes de sermos supostamente vencidos”.

Os “defensores” do amianto seguiram à risca este “case” bem sucedido que foi o cigarro. Afinal, ter feito de um produto cancerígeno um hábito de massa, durante décadas até mesmo um elemento cultural, glamour entre os lábios de divas de Hollywood e virilidade tragada por cowboys de olhos semicerrados, foi uma conquista criminosa e tanto. Hoje, na Europa, não se leva a sério uma pessoa que diga ser possível usar qualquer tipo de amianto de forma segura. É tão absurdo quanto alguém afirmar que o cigarro não faz mal.

Mas no Brasil estamos ainda na fase do “nosso amianto é menos perigoso” e “é possível o uso controlado”. Seguido pela importância de “garantir os empregos” (mesmo que depois os empregados e seus familiares morram de doenças causadas pelo amianto), “mais ainda num momento de crise econômica do país”. É isso que deverá ser repetido por um dos lados no próximo dia 10. E, lamentavelmente, possivelmente no voto de alguns ministros. Neste último caso, só há duas possibilidades: ou estarão mal informados, o que é incompatível com o cargo e com o salário e com a responsabilidade de um ministro do STF, ou é má fé. Há vasta e consolidada literatura científica internacional mostrando que não há uso seguro do amianto – de qualquer tipo de amianto.

Nem mesmo o “príncipe do amianto” defende hoje o material cancerígeno que fez a fortuna de sua família

Conhecido como “príncipe do amianto”, o bilionário suíço Stephan Schmidheiny, cuja família era dona da Eternit, foi julgado na Itália por “desastre ambiental doloso permanente e omissão dolosa de medidas de segurança para os operários”. A ação havia sido movida pelas vítimas do amianto e familiares de mortos pelo amianto. Na Itália, vale lembrar, o material cancerígeno está banido desde 1992. O bilionário foi condenado em duas instâncias, na segunda a 18 anos de prisão. Mas, em novembro de 2014, a corte italiana anulou a sentença na última instância: não porque considerou Schmidheiny inocente, mas porque o crime teria prescrito. Como foi dito no tribunal, “uma escolha pelo Direito – e não pela Justiça”. Schmidheiny escapou.

Mas nem ele, que durante as últimas décadas tentou se transformar num filantropo e num ambientalista, tinha a ousadia de defender o amianto. Ao contrário. Ele sempre repetiu que desconhecia o potencial destrutivo do amianto e, tão logo soube, deixou o setor. (Na verdade, sua família vendeu o negócio, que seguiu produzindo e devastando e matando em outras mãos). O bilionário não explicou por que não começou sua carreira de ambientalista e benfeitor cuidando do passivo ambiental e humano deixado pelo produto que fez a fortuna da família.

Quando sua sentença foi anulada pelo tribunal italiano, a Avina, fundação criada por ele, publicou um comunicado em seu site, declarando-se “contrária a que se continue empregando amianto em qualquer tipo de indústria”: “As autoridades públicas de todas as nações devem normatizar e regulamentar a proibição da produção e uso do amianto, além de desenvolver ações de proteção da cidadania das vítimas por ele afetadas”. Nem o homem que escapou da condenação por uma tecnicalidade defende o amianto. Mas, no Brasil, há muita gente que defende o produto cancerígeno. E vai defendê-lo nesta semana no STF.

É curioso como neste momento em que as séries de TV se tornaram um dos produtos de entretenimento mais bem sucedidos do mundo, com a difusão em plataformas mundiais como a Netflix, o amianto seguidamente frequenta alguma delas como ameaça. Em Os Sopranos, que marcou o início do período de excelência das séries, a máfia de New Jersey usa um depósito clandestino de asbesto num dos episódios. Em The Good Wife, outra série premiada, uma advogada é obrigada a sair do seu escritório porque descobriram que havia um resquício de amianto. Uma equipe que lembrava a de filmes de ficção científica, com máscaras e equipamentos sofisticados, interdita a área. Em Chicago Fire, um personagem passa por uma série de exames para descobrir se foi contaminado por amianto quando trabalhava como bombeiro. E há vários outros exemplos do gênero.

Os brasileiros assistem a esses episódios sem relacionar que possivelmente a sua caixa d’água, quando não o telhado sobre suas cabeças, são de amianto. Nas ruas e telhados do Brasil é corriqueiro testemunhar trabalhadores sem nenhum tipo de proteção cortando e lidando com telhas e outros produtos de amianto. A poeira cancerígena levantando e entrando pelas suas narinas – e poucos se horrorizam. Ao contrário, há anos a discussão se arrasta no Supremo. No final do ano passado, o ministro Dias Toffoli teve o desplante de pedir vista, suspendendo e adiando um julgamento tão crucial para a saúde pública e para a saúde do trabalhador, sobre o qual todos já deveriam estar mais do que informados. Enquanto isso, na vida real, pessoas seguem se contaminando e morrendo.

No país em que se pode tudo, é preciso tratar a farsa como farsa para que os perverso não nos pervertam

Neste país em que se pode tudo, até Michel Temer seguir no poder, é preciso tratar a farsa como farsa para que os perversos não nos pervertam. Quando a realidade vira perversão, o risco é começar a acreditar que sanidade é loucura. Tratar a afirmação de que é possível o uso seguro do amianto como se fosse meramente “o outro lado” é irresponsabilidade. Esta é uma mentira verificável. É preciso denunciá-la, porque pessoas morrem por conta dela. Seria o equivalente a dar o mesmo peso a um fabricante de cigarros que ouse, nos dias de hoje, afirmar que o cigarro não faz mal. É provável que nem mesmo um porta-voz da indústria de cigarro se arrisque a dizer isso atualmente. Ao contrário, a solução encontrada para seguir vendendo cigarros é defender o que se pode chamar de liberdade individual, que incluiria o direito de escolher fazer mal a si mesmo. Mas não a outros, argumento das leis que proíbem o fumo em lugares públicos e fechados.

No caso do amianto, os trabalhadores podem se contaminar já na produção e o produto fica nas casas das pessoas e no espaço comum, onde é manipulado por muitos. Trata-se de saúde pública, com toda a responsabilidade que isso implica. Banir o amianto do território brasileiro seria só o começo. Há que se fazer um plano de descontaminação e garantir o tratamento das vítimas. É preciso que aqueles que lucraram por décadas com a morte alheia sejam obrigados a se responsabilizar pela reparação possível.

A morte por mesotelioma e outras doenças causadas por amianto é terrível. Na asbestose, conhecida como “pulmão de pedra”, as pessoas vão perdendo progressivamente a possibilidade de expirar e inspirar. É um lento e demorado processo de asfixia. Começam tendo dificuldades para andar e fazer qualquer esforço básico até terminarem numa cama amarradas a um tubo de oxigênio. Era neste momento que os prepostos da Brasilit e da Eternit costumavam aparecer nos hospitais no início dos anos 2000. Vinham para fazer acordos em que pagavam uma miséria pela morte que causavam, para evitar que a família movesse um processo mais vultoso na justiça depois do enterro. Fragilizada e com medo, a família pressionava o operário que, quase sem ar, assinava trêmulo a derradeira humilhação. Morria violentado uma última vez.

Quando os primeiros casos chegaram à justiça brasileira, os trabalhadores doentes seguidamente eram vencidos ou recebiam quantias irrisórias. Uma vez um operário ouviu de um juiz que ele tinha perdido só um pulmão por conta do amianto e era possível viver com o outro. Só há poucos anos as indenizações se tornaram significativas, com advogados melhores defendendo as vítimas e principalmente uma forte atuação do Ministério Público do Trabalho. Alguns estados e cidades aprovaram leis de banimento em seus territórios, iniciando pelo debate um processo de conscientização no país. Mas não haverá justiça de fato enquanto o amianto não for proibido em todo o Brasil e a indústria do amianto responsabilizada pelo mal que causou e ainda causará.

Em 2001, fizemos uma reportagem na revista Época, contando sobre o escândalo do amianto no Brasil. Na capa e nas páginas interiores, colocamos as fotos de 15 trabalhadores doentes. Era apenas uma mostra, já que não caberiam milhares nas páginas da revista. Hoje, dos 15, pelo menos 11 estão mortos. E morreram sem justiça.

Naquele momento, era uma luta quase marginal no Brasil, ao contrário do que acontecia na Europa. A principal protagonista era a engenheira Fernanda Giannasi, auditora fiscal do Ministério do Trabalho, que em determinado momento se deparou com os trabalhadores morrendo e fez desta causa a sua vida. Foi pressionada, chantageada e ameaçada por anos, comprometendo sua saúde e o bem-estar da sua família. Sua história tem muitos pontos em comum com a de Erin Brockovich, personagem real que inspirou o filme de mesmo nome do diretor Steven Soderbergh. Pelo papel, a atriz Julia Roberts ganhou um Oscar.
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“Então, por que eu não consigo respirar?”, perguntou um trabalhador ao escutar que produzir amianto era seguro

No início da luta no Brasil, a saúde dos operários era tabelada pela indústria com indenizações de 5 mil reais, 10 mil reais e 15 mil reais, conforme o comprometimento de sua saúde. Era isso o que a vida valia. Mas naquele momento os trabalhadores tinham esperança de justiça. E justiça era ter o reconhecimento de que suas vidas importavam, já que não era mais possível impedir que morressem por doenças causadas pelo amianto dentro de seus corpos. E justiça era garantir o direito de morrer com dignidade, com a certeza de deixar suas famílias amparadas. Nem isso lhes foi assegurado.

Em junho deste ano, os poucos que ainda restavam vivos desse primeiro grupo de resistência chegaram alquebrados, ofegantes, para assistir ao documentário Não respire – contém amianto, produzido pela Repórter Brasil e dirigido por André Campos, Carlos Juliano Barros e Caue Angeli, que ganharia o prêmio de melhor filme pelo júri popular na 6a Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, em São Paulo. Aqueles sobreviventes foram os pioneiros da pequena e corajosa Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto (Abrea), sempre lutando com a falta de recursos e com o descaso das pessoas pela luta de trabalhadores pobres. Na plateia, eles se manifestavam quando prepostos da indústria falavam placidamente na tela do cinema que fabricar produtos com amianto e usá-los era seguro. “É mentira!”, diziam. Ou: “Então por que eu não consigo respirar?”. Era aterrador.

Para compreender, é preciso vestir a pele de alguém que tem amianto dentro do seu corpo, amianto que lhe mata um pouco por dia, alguém que viu seus colegas de trabalho morrerem porque a indústria mentiu para eles que era seguro, alguém que testemunhou esposas e filhas morrerem porque lavavam as roupas trazidas da fábrica, e, em 2017, precisam ainda escutar que o amianto é seguro porque as autoridades brasileiras se omitem. A mesma farsa deverá se repetir no dia 10 no Supremo pela boca de advogados. E mais uma vez trabalhadores que têm que fazer esforço para expirar e inspirar serão obrigados a ouvir que não há problema algum. Espera-se apenas que os ministros não ousem cometer essa barbárie com os fatos e com a vida.

Há pouco tempo me reuni com um editor de um dos mais importantes jornais do mundo em língua inglesa para discutir as possibilidades de cobertura ambiental no Brasil e mencionei o amianto. Ele me olhou com os olhos arregalados: “Mas isso ainda existe?”. Pois é. E como é difícil explicar como é possível que ainda exista no Brasil.

A pequena cidade italiana de Casale Monferrato, no Piemonte, tornou-se o símbolo mundial da resistência e da luta por justiça. Estive lá em 2012 e encontrei uma cidade onde a contaminação ambiental provocada por uma fábrica de produtos de amianto alcançou pessoas de todas as classes sociais, pessoas que nunca trabalharam na indústria. Em Casale a produção começou décadas antes do início da produção no Brasil. E assim o que aconteceu e segue acontecendo lá pode ser o que veremos no futuro em algumas localidades brasileiras. Primeiro foram os trabalhadores que tiveram contato direto com a fibra que adoeceram, mais tarde moradores que nunca haviam pisado no chão de fábrica começaram a receber o diagnóstico fatal do mesotelioma. Casale é hoje uma cidade marcada pela tragédia.

A presidente da Associação de Familiares e Vítimas do Amianto era uma mulher impressionante chamada Romana Blasotti Pavesi. Ela viu morrer primeiro seu marido, Mario, depois sua irmã, Libera, em seguida sua prima, Anna, o próximo foi Giorgio, seu sobrinho, e por fim, embora nunca se saiba se acabou, Maria Rosa, a filha. Todos mortos pelo câncer do amianto. 

A certa altura de minha entrevista com ela, Romana levantou-se e desapareceu no quarto. Voltou de lá com uma caixa bonita. De dentro tirou um longo cabelo em tons de dourado e vermelho. “Bello, molto bello”, disse. Era o que lhe restava da filha Maria Rosa, que nunca havia trabalhado na fábrica, mas mesmo assim foi morta pelo amianto.

No último dia do julgamento do bilionário Stephan Schmidheiny, em novembro de 2014, Romana entrou na corte ereta. Quando anunciaram que os crimes do príncipe do amianto tinham prescrito e a sentença fora anulada, Romana saiu amparada pelo único filho que lhe restou. Parecia que haviam se passado anos entre a mulher que entrou e a mulher que saiu. Daquele dia em diante, Romana começou a esquecer. Quando a injustiça é dessa ordem, já não é possível lembrar. Ao anular a condenação, a corte italiana destruiu o direito à memória de Romana. E este é o crime inominável.

Que no Brasil os ministros do Supremo lembrem a importância estrutural da justiça para a saúde de uma nação e não transformem em farsa o que é vida. E o que é morte.
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AMY WINEHOUSE NA CONTRAMÃO DO AMOR LÍQUIDO – Anna Carolina Pinto

Não existe artista recente com quem tenha dialogado mais com as músicas do que Amy Winehouse. Carrego comigo tamanha identificação desde que ouvi suas primeiras músicas e, de forma mais radical, em 2015 quando eternizei o verso “what’s inside her never dies”, em tradução literal, “o que está dentro dela nunca morre”, trecho da canção “He can only hold her”, em minha pele. Essa música, aliás, nem é das minhas preferidas, mas esse trecho!

Pensar que o sentimento que está dentro de nós nunca morre me soa bastante acertado. Alguns afetos sinceros e bastante relevantes repousam, vivem em conflito dentro de nós e, principalmente, se transformam. Esses grandes amores, porém, não morrem: viram lembranças boas, paradigmas, saudade, tristeza, nostalgia… a completa indiferença em relação ao que muito já se amou, aos meus olhos, é algo impossível.
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Os dissabores de fim (ou de pausas, quem sabe?) de relacionamentos, seja lá quais sejam suas matizes e classificações, não podem apagar uma história bonita seja dentro de um relacionamento familiar, amoroso ou entre amigos. Querer se desfazer de tudo, incluindo as memórias e esse respeito pelo que se viveu junto, é uma estratégia que parece muito racional à luz do sofrimento e/ou da decepção, mas que o amor, aquele restinho que teima em ficar mesmo nas condições mais adversas, não permite que a tarefa seja levada à cabo.

Evidente que em muitos momentos da vida essa missão de apagar pessoas do rol das pessoas queridas foi bem sucedida. Afinal, a própria vida se encarrega disso com bastante naturalidade. Entendo, porém, que quando alcançamos a indiferença pelo outro que um dia já acreditamos amar é porque o que existia não era sólido o bastante para deixar raízes que impeçam esse completo apagar do outro e do que se viveu junto. Tratava-se, assim, valendo-me das palavras de Zygmunt Bauman, de mero amor líquido. Vale a pena, a título de contextualização, a leitura desse trecho do prefácio da obra “Amor Líquido” cujo:

O principal herói deste livro é o relacionamento humano. Seus personagens centrais são homens e mulheres, nossos contemporâneos, desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos facilmente descartáveis, ansiando pela segurança do convívio e pela mão amiga com que possam contar num momento de aflição, desesperados por “relacionar-se”. E, no entanto desconfiados pela condição de “estar ligado”, em particular de estar ligado “permanentemente” (…) pois temem que tal condição possa trazer encargos e tensões que eles não se consideram aptos nem dispostos a suportar, e que podem limitar severamente a liberdade de que necessitam para – sim, seu palpite está certo- relacionar-se.

Bauman apregoa que tal como a morte, só nos deparamos com o amor romântico uma vez na vida, embora a paixão insista em nos iludir nesse sentido. Em Amor Líquido, o sociólogo atesta que:

Pode-se supor (mas será uma suposição fundamentada) que em nossa época cresce rapidamente o número de pessoas que tendem a chamar de amor mais de uma de suas experiências de vida, que não garantiriam que o amor que atualmente vivenciam é o último e que têm a expectativa de viver outras experiências como essa no futuro. (…) Afinal, a definição romântica do amor como “até que a morte nos separe” está decididamente fora de moda (…) o desaparecimento dessa noção significa, inevitavelmente, a facilitação dos testes pelos quais uma experiência deve passar para ser chamada de “amor”.

Não é, definitivamente, sobre esse amor que me refiro quando falo em amor que nunca morre, pois, como diria Otto em (sua lindíssima música) “6 minutos”: “até pra morrer, você tem que existir”. Um grande e verdadeiro amor não morre se ele não foi um grande e verdadeiro amor, simples assim. Penso, porém, que o trecho acima, considerando as nuances entre diferentes formas e tipos de amor, seja um norte para compreendermos a fragilidade dos laços humanos dentro, até mesmo, de nossa esfera mais privada de relacionamentos. Minha primeira coluna aqui para Prosa, Verso e Arte fala bastante sobre isso e complementa a de hoje. Se quiser dar uma lida, clique aqui. Garanto que vale a leitura! Risos 

É preciso, portanto, não ter medo de se entregar para viver o oposto desse amor líquido, demasiadamente frágil, ausente dos compromissos. Seja na esfera amorosa, familiar ou das amizades, não importa, não podemos nos esquivar de sentir do começo ao fim das nossas relações. Não dá pra amar pela metade, é fundamental se permitir viver a intensidade e responsabilidade que o amor traz. Sim, amar, dentre tantas coisas, também é um ato de coragem.

Dentro dessa lógica, compreendo que Amy era muito corajosa: em seu repertório, com especial destaque para as faixas de “Back to Black”, o amor é presença recorrente, bem como os seus desencontros amorosos com Blake, com quem foi casada. Sua vida pessoal é um testemunho (insano, para alguns) desses desencontros e, aos meus olhos, desse sentimento que não morre.

“Bold as Love”, como já dizia a música de Hendrix, Winehouse caminhava na contramão do amor líquido. Se o amor lhe parecia um jogo de azar, como descrevia em sua profunda “Love is a losing game”, cujos dissabores a adoeceram e fizeram com que estreitasse sua relação com bebidas e drogas que custaram-lhe não só a vida, tempos depois, mas uma quase internação como descreve no hit “Rehab”, fato é que Amy não desistiu de sua relação com Blake. Apesar de acordar (“Wake up alone”) e secar suas lágrimas sozinha (“Tears dry on their own”) ela acreditava verdadeiramente que não havia amor maior do que o que ela sentia (“There is no greater love”) e, por isso, lutava por ele.
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Ouvir Back to Black, disco de origem das músicas elencadas acima, é ouvir um manifesto de crença no amor mesmo diante do seu aparente fim. É perceber que esse amor cantado, por mais louco e destrutivo que nos soe, era suficientemente sólido e verdadeiro para não morrer e se transformar em algo triste, mas muito bonito.

Acredito que o ponto final (ou ponto e vírgula, que seja) que colocamos em nossos relacionamentos não precisam ser tão trágicos ou doloridos como foram para Amy. Penso que é sempre tempo de revisitar o passado e colocar as coisas em ordem, seja superando as mágoas, ajustando a falta de sintonia quando possível ou simplesmente tirando o peso desses finais de ciclos. Para isso, creio ser necessário compreender que o amor é elástico e mesmo quando já não parece caber em nossa vida.

E, por ter essa capacidade, ele pode nos surpreender em sua generosidade transformando-se em um legado bonito de aprendizado e lembranças dos bons momentos quando da inviabilidade da retomada, na prática, desse sentimento por alguém que já esteve em nossa vida. Como nos ensinou Erich Fromm “o amor é um desafio constante; não é um lugar de repouso”. Amy sabia disso.


*Anna Carolina Cunha Pinto, colunista da Revista Prosa, Verso e Arte, escreve sobre suas percepções do mundo associando-as com conteúdos de Filosofia e Sociologia. Formada em Direito pela Universidade Cândido Mendes, mestranda em Sociologia e Direito pela UFF e apaixonada por filosofia.
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