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DEPRESSÃO E SUICÍDIO: DEVEMOS FALAR MAIS SOBRE ISSO - Talita Baldin

"Você tinha um monte de pedras nas mãos, 
então resolveu limpá-las, deixá-las bonitas e fez um colar. 
Meg ganhou um colar de joias e se enforcou com ele".

Não vou falar sobre “13 reasons why”, a série que está dando o que falar nos prós e contras e que despertou (isso mesmo, só agora!) para a necessidade de romper com os tabus que silenciam as discussões nas mais diversas camadas sociais sobre o que é e como lidar com a depressão e o suicídio. Porém, também vou me utilizar de uma obra artística para tratar do tema, livro que li recentemente, emprestado de uma amiga. É o livro “Eu estive aqui”, de Gayle Forman, publicado em português pela editora Arqueiro em 2015.

O romance conta a história de Cody, uma adolescente entrando na vida adulta e as formas que encontra para lidar com a dor da perda recente de sua “melhor metade”, Meg, que se suicida ingerindo veneno num quarto de hotel.

Cody se sente responsável pela morte de Meg, na medida em que era sua melhor amiga e “não sabia de nada”, como a personagem narra em diversos trechos do livro. De leitura fluida, instigante e melancólica, Cody adentra no universo de Meg, após ganhar dos pais dela o notebook que Meg utilizava na faculdade. Nele, Cody descobre arquivos corrompidos na lixeira e faz de tudo para recuperá-los, chegando a um grupo de “ajuda”, que na verdade é de incentivo, a pessoas com intenções suicidas.

Sem dar mais spoylers, porque vale a pena ler o livro - que em breve vai ser lançado como filme, Forman trabalha de forma sensível com a necessidade de perdoar – a si e aos outros – e a busca pela coragem em se falar abertamente sobre depressão.

Mesmo quando o ambiente hostil externo em que vivemos nos diga com frequência que precisamos ser imensamente felizes e gratos pelas boas oportunidades que temos – já que há uma imensa incongruência estatística, uma vez que a classe média sofre de depressão e se suicida, “mesmo tendo tudo”.

O romance explora, também, a possível responsabilidade que outras pessoas, ao magoar alguém, possam exercer sobre a decisão de alguém tirar a própria vida. Em certa medida, fala até mesmo sobre meritocracia, sobre a exigência moderna de que toda dor tenha que ser transformada em algo produtivo. Questiono-me se deva mesmo e até que ponto.

Sobre isso, destaco a fala da mãe de Cody: “Meg tinha tudo. Toda aquela inteligência. Uma bolsa de estudos para uma boa faculdade. Tinha até esse computador caro que você não consegue largar. – Ela volta a me encarar. – Você só tinha a mim. E é inteligente, não me entenda mal, mas não como Meg. Ficou limitada a uma porcaria de faculdade comunitária. (...) O que quero dizer é: você nunca desistiu, nem da dança, nem da matemática, nem em nada, e talvez tivesse mais motivos para isso [suicidar-se]. 

Você tinha um monte de pedras nas mãos, então resolveu limpá-las, deixá-las bonitas e fez um colar. Meg ganhou um colar de joias e se enforcou com ele" (p. 124-5).

Trazendo isso à tona quero dizer que precisamos de menos discussões teóricas (embora elas sejam importantes e eu própria seja uma acadêmica) e mais empatia, mais se colocar no lugar do outro, mais amar o outro, mais perdoar nossas “falhas” e incompletudes e também as do outro. Precisamos de mais gente sendo gente, pois de juízes o mundo está cheio.

E, sobre “13 reasons why”, assisti à série recentemente. Morosamente, pois disse desde o início que a estava odiando. Na verdade era resistência em encarar a identificação com o nosso próprio real do cotidiano. “Pecamos” com os outros sem nem nos darmos conta. O tempo todo. Mas esse é tema para um outro artigo.
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APRENDI A DIZER 'SIM' SEM MEDO E 'NÃO' SEM CULPA

Consegui. Vivo sem medo e perdi a vergonha, agora não temo dizer-lhe que no seu quadrado você pode fazer o que quiser, mas no meu, quero o seu respeito. Digo “não” sem reservas a quem me traz tempestades em dias ensolarados e digo “sim” à minha vida, aos meus anseios, e obviamente à minha dignidade.

Autoafirmar-se sem agredir é uma atitude e um comportamento que nem todo mundo sabe realizar. Às vezes chega-se a confundir o orgulho com o egoísmo ou a afirmação de si mesmo com a imposição dos próprios valores. Mas dizer “sim” sem medo e “não” sem culpa é muito mais do que um necessário exercício de higiene mental e sobrevivência.

Me visto como eu quiser, vou e volto quando eu quiser, ouço, respeito e opino. Faz tempo que aprendi a viver sem medo, a dizer “não” sem sentir culpa e a dizer “sim” quando tenho vontade, porque mesmo que o meu coração tenha uma porta para quem desejar entrar, também existe outra porta para quem quiser sair.

No nosso dia a dia, frequentemente nos deparamos com o mesmo tipo de pessoas. Por um lado estão as que desejam ficar de bem com todo mundo e sempre têm um “sim” abnegado e devoto nos lábios. Do lado oposto, estão os mais nervosos. Os que “ninguém tem o direito de me dizer o que devo fazer” ou “eu não devo nada para você portanto afaste-se do meu caminho”.

Os extremos nunca são bons, porque a chave da sobrevivência respeitosa e sábia está no centro onde nos afirmamos sem agredir e sem chegar a ser permeáveis a ponto de diluir-nos em ditados alheios a fim de satisfazer. De se encaixar.

Dizer “sim” sem medo: a validação como pessoa

Quando crianças, ninguém nos ensina o que é isso chamado de autoestima. Dependendo da nossa criação e das experiências que tivermos ao longo da infância e adolescência, desenvolveremos uma “imitação” da mesma para tentar sobreviver.

As provas de fogo autênticas vão chegando com o tempo. São instantes complexos para os quais ninguém nos preparou, momentos nos quais colocar à prova nossos medos, nossas fraquezas ou forças para nos adaptarmos a este mundo tremendamente complexo. Ali onde nem os egos inflados nem os egos raquíticos serão funcionais, e muito menos felizes.

Dizer “sim” sem medo mas com respeito a cada uma de nossas aspirações e necessidades é vital. Muitos de nós, por exemplo, fomos educados sem conhecimento sobre isto, na “lei do desgaste pessoal”: nessa complacência exterior onde buscar a aprovação frequente dos outros para nos fazermos valer como pessoas. Nossa dignidade, nestes casos, fica enclausurada nos porões do temor e na mais pura indecisão.

De forma semelhante, também é comum calar e afogar desejos e vontades por temor de ser sancionado ou, ainda pior, ser rejeitado por aqueles que nos rodeiam ao ver a decepção nos seus rostos. Pouco a pouco e no caso de não reagirmos, acabamos invalidando a nós mesmos, tirando a legitimidade de ter voz, de respirar e simplesmente ser pessoas capazes de dizer “sim” quando a vida nos convida a viver.

Dizer “não” sem culpa, viver sendo coerente

Aceitar a si mesmo, mais além do que muitos disserem, não deveria nos tomar a vida toda. A auto-aceitação, como a autoestima deveria ser um esporte obrigatório para praticar desde a infância. Deveria ser uma religião restauradora e ao mesmo tempo libertadora que ensina a crer em nós mesmos e, ao mesmo tempo, nas nossas capacidades para nos respeitarmos e respeitarmos os outros.

Porque viver sem medo é dizer “sim” sem peso na consciência, e dizer “não” é viver com coerência, é sobreviver em cada âmbito da nossa própria existência conferindo um aspecto autêntico e pleno para a própria autoestima e para quem nos rodeia.

Sugerimos considerar os seguintes aspectos para aprender a dizer “não” toda vez que precisar, sem nenhum peso na consciência.

Como ser assertivo sem peso na consciência

Autoafirmar-se sem agredir é uma arte que precisamos realizar com exata elegância e com afinada precisão. Nada do que dissermos deve conduzir a enganos, cada palavra precisa nos definir e dar forma a nossas necessidades, nossos direitos vitais e nossos próprios limites intransponíveis.

Dizer “não” quando os outros esperam um “sim” de você não é um ato de traição. É se autoafirmar na sua postura para que os outros possam agir de acordo, conhecendo-o melhor como pessoa.

Dizer um “não” a tempo salva vidas, especialmente a sua. Salva você de situações que o teriam colocado no caminho da infelicidade, das imposições egoístas e dos sofrimentos dos quais todos precisamos nos defender.

O “não” precisa ser dito a tempo, sem medo e sem vergonha alguma. Quem gostar de você o aceitará com respeito e, de fato, nem sequer irá se surpreender, porque já conhece você. Mas quem colocar resistência à sua negativa ou se sentir traído terá apenas duas opções, aceitá-lo assim ou sair pela porta traseira do seu coração.
Concluindo, trata-se apenas de praticar a autenticidade e o senso de sobrevivência onde finalmente caem os véus e toda a vergonha. Porque a felicidade está mais além da linha do medo, essa que precisamos ultrapassar com coragem, com a cabeça bem erguida, os olhos abertos e o coração alegre.

Site A mente é maravilhosa.
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VOCÊ CONSEGUE VIVER SEM DROGAS LEGAIS? - Eliane Brum

Como Pedro descobriu que tinha se tornado uma
“máquina humana” – ou um “bombado psíquico”. 
E como sua história fala do nosso tempo e de muitos de nós.

Pedro – o nome é fictício porque ele não quer ser identificado – é um cara por volta dos 40 anos que adora o seu trabalho e é reconhecido pelo que faz. É casado com uma mulher que ama e admira, com quem tem afinidade e longas conversas. Juntando os fundos de garantia e algumas economias os dois compraram um apartamento anos atrás e o quitaram em menos de um ano. 

Este é o segundo casamento dele, e a convivência com os dois filhos do primeiro é constante e marcada pelo afeto. Ao contrário da regra nesses casos, a relação com a ex-mulher é amigável. Pedro tem vários bons amigos, o que é mais do que um homem pode desejar, acha ele, porque encontrar um ou dois bons amigos na vida já seria o bastante, e ele encontrou pelo menos uns dez com quem sabe que pode contar na hora do aperto. A vida para Pedro faz todo sentido porque ele criou um sentido para ela.


Ótimo. Ele poderia ser personagem de uma daquelas matérias sobre sucesso, felicidade e bem-estar. Mas há algo estranho acontecendo. Algo que pelo menos Pedro estranha. Há dois anos, Pedro toma Lexapro (um antidepressivo), Rivotril (um ansiolítico, tranquilizante) e Stilnox (um hipnótico, indutor de sono). Dou os nomes dos remédios porque os psicofármacos andam tão populares que se fala deles como de marcas de geleia ou tipos de pão. E o fato de nomes tão esquisitos estarem na boca de todos quer dizer alguma coisa sobre o nosso tempo.

Pedro conta que a primeira vez que tomou antidepressivo, anos atrás, foi ao perder uma pessoa da família. A dor da perda o paralisou. Ele não conseguia mais trabalhar. Queria ficar quieto, em casa, de preferência sem falar com ninguém. Nem com a sua mulher e com os filhos ele queria conversar. Pedro só queria ficar “para dentro”. E, quando saía de casa, sentia um medo irracional de que algo poderia acontecer com ele, como um acidente de carro ou um assalto ou ser atingido por uma bala perdida. 

Ele mesmo pediu indicação de um bom psiquiatra a uma amiga que trabalha na área. Pedro sentia que estava afundando, mas temia cair na mão de algum charlatão do tipo que receita psicofármacos como se fossem aspirinas e acredita que tudo que é do humano é uma mera disfunção química do cérebro.


O psiquiatra era sério e competente. Ele disse a Pedro não acreditar que ele fosse um depressivo ou que tivesse síndrome do pânico, apenas estava em um momento de luto. Precisava de tempo para sofrer, elaborar a perda e dar um lugar a ela. Receitou um antidepressivo a Pedro para ajudá-lo a sair da paralisia porque o paciente repetia que precisava trabalhar. 

A licença em caso de luto – dois (!!!!) dias, segundo a legislação trabalhista – já tinha sido estendida por um chefe compreensivo. Por Pedro ser muito bom no que faz recebera o privilégio de duas semanas de folga para se recuperar da perda de uma das pessoas mais importantes da vida dele. Pedro não queria “fracassar” nessa volta. E não “fracassou”. Com a ajuda do antidepressivo, depois de algumas semanas ele voltou a produzir com a mesma qualidade de antes. Três meses depois da morte de quem amava, ele já voltara a ser o profissional brilhante.


Pedro tomou o antidepressivo por cerca de um ano, com acompanhamento rigoroso e consultas mensais. Como não agradava nem a ele nem era o estilo do psiquiatra que escolheu, pediu para parar de tomar o remédio. O psiquiatra concordou, e Pedro foi diminuindo a dose da medicação até cessar por completo. Tocou a vida por mais ou menos um ano e meio.

Neste intercurso, ele se tornou ainda mais criativo. Aumentou o número de horas de trabalho, que já eram muitas, porque se sentia muito potente. Pedro multiplicou o seu sucesso, que sempre foi medido por ele não pela quantidade de dinheiro, mas de paixão. E achava que tudo estava maravilhoso até começar a ter insônia. Pedro dormia e acordava, sobressaltado. 

Sem conseguir voltar a dormir, pensamentos terríveis passavam pela sua cabeça. Pedro pensava que perderia todo o seu sucesso, a sua possibilidade de fazer as coisas que acreditava e às vezes temia morrer de repente. As noites de Pedro passaram a ser povoadas por catástrofes imaginárias, mas bem reais para ele.


E, toda vez que saía de casa pela manhã, voltara a ter medo de ser atingido por alguma fatalidade, por algo que estaria sempre fora do seu controle.

Algumas semanas depois do início da insônia, Pedro paralisou de novo. Não conseguia trabalhar – e este, para Pedro, era o maior dos pesadelos reais. Voltou ao consultório psiquiátrico e há dois anos toma os três remédios citados. Pedro, que sempre tinha olhado com desconfiança para a prateleira de psicofármacos, começou a achar natural precisar deles para enfrentar os dias e também as noites. “Que mal tem tomar uma pílula para dormir?”, dizia para a mulher, quando ela o questionava. “Ou tomar umas gotas de tranquilizante para não travar o maxilar de tensão? Ou 15 mg de antidepressivo para vencer a vontade de se atirar no sofá e ficar apenas olhando para dentro?” Sua mulher conta que ele parecia o Capitão Nascimento, em “Tropa de Elite”, tomando comprimidos no banheiro e dizendo à esposa: “Isso aqui não tem problema nenhum. Todo mundo faz isso. Não tem problema nenhum”.

Em 2011, Pedro teve momentos em que achou que tudo estava muito bem mesmo. E, se para tudo ficar tão bem era preciso tomar algumas pílulas, não tinha mesmo problema nenhum. Pedro talvez nunca tenha produzido tanto como neste ano e, por conta disso, até ganhou um aumento de salário sem precisar pedir. Mas, às vezes, não com muita frequência, ele se surpreendia pensando que algumas dimensões da sua vida tinham se perdido. 

Pedro não tinha mais o mesmo desejo pela sua mulher, e o sexo passou a ser algo secundário na sua vida. Não tinha mais tanto desejo pela sua mulher nem desejo por mulher alguma. “Efeito colateral do antidepressivo”, conformou-se.


Pedro trabalhava tanto que tinha reduzido às idas ao cinema, os encontros com os amigos e a pilha de livros ao lado da cama continuava no mesmo lugar. Ele também tinha perdido o interesse por viagens de lazer com a família, porque estava ocupado demais com seus projetos profissionais. 

Pedro constatou que os momentos de subjetividade eram cada vez mais escassos na sua vida. E, embora o trabalho lhe desse muita satisfação, ele tinha eliminado uma coleção de pequenos prazeres do seu cotidiano. Por volta do mês de setembro, Pedro começou a sentir uma difusa saudade dele mesmo que já não conseguia ignorar.


Devagar eu comecei a perceber que tinha criado uma vida que não podia sustentar sem medicação. E tinha aceitado isso. Como, acho, boa parte das pessoas que conheço e que tomam esse tipo de remédio”, conta. “Eu só consigo fazer tudo o que faço porque tenho essa espécie de anabolizante. Sou um bombado psíquico. Vivo muitas experiências todo dia e não tenho nenhum tempo para elaborar essas experiências, como não tive tempo para elaborar o meu luto. É uma vida vertiginosa, mas é uma vida não sentida. 

Às vezes tenho experiências maravilhosas, mas, na semana seguinte, ou na mesma semana, já não me lembro delas, porque outras experiências se sobrepuseram àquela. E sei que só durmo porque engulo pílulas, só acordo porque engulo pílulas. Só suporto esse ritmo porque engulo pílulas. Até pouco tempo atrás eu achava que tudo bem, então eu ficaria tomando pílulas pelo resto da vida. Em vez de mudar meu cotidiano para que ele se tornasse possível, eu passei a esticar meus limites porque sabia que podia contar com os medicamentos e, se voltasse a cair, me iludia que bastaria aumentar a dose. Eu me tornei uma equação: Pedro + medicamentos. 


Aos poucos, porém, comecei a perceber que não é essa vida que eu quero para mim. Tem algo errado quando a vida que você inventou para você só é possível porque você toma três comprimidos diferentes para poder vivê-la. E, talvez, daqui a pouco, eu esteja tomando Viagra para ter desejo pela mulher que amo. Isso aos 40 anos. E, com o tempo, os efeitos colaterais desses remédios vão causar, pelo prolongamento do uso, doenças em outras partes do meu corpo. 


Eu sei que muita gente, como eu, já se habituou a achar que é normal viver à custa de pílulas. Mas, se você parar para pensar, isso é uma loucura. Isso, sim, é doença. E os médicos estão nos mantendo doentes, mas produtivos, usando os remédios para ajustar a máquina a um ritmo que a máquina só vai aguentar por um certo tempo. De repente, percebi que eu era uma máquina humana. 


E que eu estava usando remédios legais como se fossem cocaína e outras drogas criminalizadas. E o mais maluco é que todo mundo acha que tenho uma vida invejável e que está tudo ótimo comigo. Por serem drogas legais, por causa da popularização de coisas como depressão e síndrome do pânico, todo mundo acha normal eu tomar pílula para ter coragem de sair da cama de manhã e pílula para conseguir dormir sem ter medo de morrer no meio da noite. De repente, me caiu a ficha, e eu comecei a enxergar que estamos todos loucos, a começar por mim. Loucos por achar que isso é normal.”


Com a autorização de Pedro, procurei o psiquiatra dele para uma conversa. É um profissional inteligente e sério. E foi de uma honestidade rara. Perguntei a ele porque receitava psicofármacos para gente como Pedro. “Porque vivemos num mundo em que as pessoas não têm tempo para elaborar o que é do humano. Muitas vezes eu me deparo com essa situação no consultório. Vejo uma pessoa ali me pedindo antidepressivo porque não consegue mais trabalhar, não consegue mais tocar a vida. 

Eu sei que ela não consegue mais trabalhar nem tocar a vida porque é a sua vida que se tornou impossível, porque precisa de um tempo que não tem para elaborar o vivido. É óbvio que não é possível, por exemplo, elaborar um luto ou uma separação em uma semana e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. 


Assim como não é possível viver sem dúvidas, sem tristezas, sem frustrações. Tudo isso é matéria do humano, mas o ritmo da nossa vida eliminou os tempos de elaboração. Essa pessoa não é doente – é a vida dela que está doente por não existir espaço para vivenciar e elaborar o que é do humano. 


Só que esse cara precisa trabalhar no dia seguinte e produzir bem ou vai perder o emprego. Então eu dou o antidepressivo e faço um acompanhamento sério, com psicoterapia, para que esse cara possa dar um jeito na vida e parar de tomar remédios. 


É um dilema e não tem sido fácil lidar com ele, mas é neste mundo que eu exerço a profissão de psiquiatra. Porque no tratamento da depressão, de verdade, a doença, de fato, é muito difícil obter resultados, mesmo com os medicamentos atuais. Assim como outras doenças psíquicas, quando são doenças mesmo.


Os resultados são muito mais lentos – e às vezes não há resultado nenhum. A maioria das pessoas que estamos medicando hoje não é doente. E por isso o resultado é rápido e parece altamente satisfatório. Estas pessoas só precisam dar conta de uma vida que um humano não pode dar conta.”

Pedro, que nunca foi adepto das famosas resoluções de Ano-Novo, desta vez se colocou uma que talvez seja a empreitada mais difícil que já enfrentou. 

“Estou reduzindo progressivamente a dose dos medicamentos e vou parar até março. 

Minha meta, em 2012, e talvez leve muitos réveillons para conseguir alcançar isso, é criar uma vida possível para mim. Uma vida e uma rotina que meu corpo e minha mente possam dar conta, uma vida em que seja possível aceitar os limites e lidar com eles, uma vida em que eu tenha tempo para sofrer e elaborar o sofrimento, e tempo para usufruir das alegrias e dos pequenos prazeres e da companhia dos que eu amo. 
Sei que vai ter um custo, sei que vou perder coisas e talvez tenha até de mudar de emprego, mas acho que vai valer a pena. Não quero mais uma mente bombada, nem ser uma máquina bem sucedida. Quero só uma vida humana.”

Torço por Pedro, torço por nós.
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AMOR É PATOLOGIA? - Carolina Vilanova

Quando um estudante de Psicologia me afirmou numa conversa despretensiosa: “Para psiquiatria amor é patologia”, eu realmente me senti intrigada. Será mesmo que amar estaria sempre diretamente relacionado a algum distúrbio psiquiátrico? Então fui fazer as minhas pesquisas, embora antes disso já tivesse encontrado algumas respostas em minhas próprias histórias.

Depois de dois casamentos, alguns relacionamentos, maternidade, mudança de país, tantos trabalhos e estudos, a maturidade e amor próprio finalmente haviam chegado. Olhar para trás e perceber o quanto as coisas tinham sido diferentes antes disso era claro como água. Observar a minha própria vida e a de tantas pessoas à minha volta, mostrava nitidamente que maturidade e amor próprio não são coisas que se aprende na escola ou apenas com a educação em casa. Maturidade e amor próprio verdadeiros vêm com o passar dos anos, com as dores vivenciadas, os erros cometidos e lições aprendidas.

E sobre minhas histórias eu concluí que muitos amores foram mesmo patológicos, o que significa dizer que não foram saudáveis, mas baseados nas minhas próprias carências e necessidades, e não no amor ao outro propriamente dito e como o saudável deveria ser. Nós pobres mortais sempre teremos a tendência a esperar do ser amado a compensação por tudo àquilo que nos faltou na infância, mesmo que seja de forma inconsciente na maioria das vezes.

Hoje para mim é claro todo o excesso de ciúmes que senti no passado, as inseguranças, a possessividade, os exageros, e até o abrir mão da minha própria vida e individualidade em nome de um amor por outra pessoa. E é claro que nada disso deu certo. O maior erro que se pode cometer em nome de qualquer coisa que acreditamos ser amor, é o abrir mão daquilo que somos. Não existe reciprocidade saudável nisso. Nada justifica algo tão impensado, uma vez que abrindo mão de nossa individualidade, nada do que o outro faça poderá resgatar esta perda. E um ciclo de insatisfações e cobranças se instala. E a patologia então aparece: em depressões, inseguranças, obsessões, ciúmes e outros.

Sabe a falta que seu pai fez nos seus dias de criança? A surra injusta que levou da sua mãe ou do seu avô? O abuso físico ou psicológico? Querendo ou não, esperamos que o amor de nossas vidas tenha por nós um amor tão grande, que irá preencher todos os buracos que temos na alma. Mas ninguém é responsável pelo passado de ninguém.

Apenas com a maturidade e o verdadeiro amor por si mesmo, somos então capazes de encontrar um amor saudável, a partir de nós mesmos: sem ciúmes, inseguranças, cobranças indevidas e tantos outros exageros, que hoje chegam até mesmo à violência doméstica.

Vejo ao meu redor diversos casamentos de anos, mas que na prática são falidos também há tempos. Há controle de um cônjuge em relação ao outro nos horários, gastos, telefones e por aí vai. Quem tem amor por si mesmo, não estaciona numa relação tão insegura e sofrida. Se o outro não tem amor, então se aceita e se segue adiante. 

Mas o que existe na maioria dos casos é uma dependência emocional e às vezes ao mesmo tempo financeira, e tudo fica por isso mesmo. 

Num jogo de infidelidade e deslealdade sem fim, não apenas um com o outro, mas em primeiro lugar e principalmente com si mesmos.

Não é fácil encontrar um amor. Passamos a vida procurando por um que valha a pena. Somos todos carentes em alguns pontos, quebrados psicologicamente e emocionalmente em outros. Não existe ninguém inteiro, que nunca tenha se ferido.

E no fim das contas, acho que o estudante tinha em parte razão. Nem todo amor é considerado patológico. Mas vivemos numa sociedade onde a maioria das pessoas parece viver relacionamentos desse tipo, com apego em excesso, sem liberdade e cheio de inseguranças.

Acredito que a solução para que tantos amores não se tornem patológicos, é a busca por si mesmo, o autoconhecimento e as curas internas, tendo como consequência uma autoestima elevada. E depois dessa auto realização, todo amor será saudável e construtivo, livre de associação a patologias.

Pois amor saudável provém sim de maturidade, sabedoria e experiência de vida. O amor saudável pelo outro vem depois do amor saudável por si mesmo. E isto é algo que se aprende com o tempo e a vida. Com o olhar em primeiro lugar em si mesmo.
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CARAS E BOCAS: A VERDADEIRA FACE DAS EMOÇÕES

Como sentimentos e palavras são expressos no rosto das pessoas;
Elas dizem mais do que as palavras. Para quem sabe ver, dizem até aquilo que as palavras às vezes escondem. Por isso, a ciência procura tanto decifrar o código das expressões faciais.

Diante da expressão de zanga do gordo Oliver Hardy e do ar de choro do magro Stan Laurel é difícil conter o riso. Para saber a sério o que esse riso tem a ver com a sensação de alegria, pesquisadores americanos convidaram dois grupos de estudantes para uma sessão de filmes da mais bem-humorada dupla da história do cinema. Enquanto suas trapalhadas se sucediam na tela, as reações fisiológicas dos jovens eram monitoradas por meio de eletroencefalogramas. Foi possível verificar assim que os membros de um dos grupos saíram da sala literalmente menos felizes - não por acaso, talvez, tratava-se daqueles a quem se havia pedido que procurassem não esboçar sequer um sorriso durante a exibição das comédias.

Era onde os pesquisadores queriam chegar, comprovando a surpreendente e controvertida teoria de que a expressão facial não apenas traduz um sentimento mas também o estimula. Ou seja, quem ri porque está feliz fica ainda mais feliz porque ri. Essa experiência faz parte de um fecundo campo de estudo da Psicologia contemporânea, que pretende decifrar o mais ostensivo dos mistérios do comportamento humano - o sentido das expressões faciais, como o riso e o choro, o espanto e o desdém, a raiva e o nojo. A linguagem do rosto é provavelmente a forma mais comum de comunicação entre as pessoas: fala-se mais com caras e bocas do que com palavras. Com certeza, falam-se também mais verdades. Os sinais visíveis do que vai dentro de cada um muitas vezes contradizem a arrumação racional das palavras.

Sentir determinada emoção é sempre experimentar determinada reação fisiológica. Entre outros sintomas, por exemplo, a tristeza é a diminuição do ritmo respiratório; a raiva e o medo têm em comum a secreção do hormônio adrenalina, que dispara o coração preparando o organismo para o ataque ou a fuga; por sua vez, a sensação de alegria, a emoção testada naquela experiência americana, é um aumento na produção de endorfinas, hormônios analgésicos e calmantes naturais, que criam o bem-estar da felicidade. A quantidade desse hormônio era muito maior no organismo dos estudantes que puderam rir à vontade nos filmes do Gordo e o Magro.

Alguns pesquisadores acreditam que os nervos do rosto, ao informar o cérebro da posição exata dos músculos faciais, desencadeiam as reações fisiológicas correspondentes às diversas emoções. A idéia é instigante mas não é nova. O psicólogo e filósofo americano William James (1842-1910) propôs que, diante de um perigo, uma pessoa não se põe a correr propriamente porque sente medo, mas sente medo porque corre - e a teoria tem seguidores até hoje. O fato é que atualmente a maioria dos cientistas admite o caminho de mão dupla: O que se expressa no rosto pode afetar a reação do cérebro, concorda o neurologista Luiz Augusto Franco de Andrade, da Escola Paulista de Medicina. Mas a recíproca, segundo o médico, é verdadeira.

Pacientes com mal de Parkinson, em que falta no cérebro a substância dopamina, têm bastante dificuldade de fazer expressões faciais, exemplifica Andrade. Do mesmo modo, suponho que, se a atividade bioquímica do cérebro estiver acentuada, a pessoa mostrará melhor no rosto aquilo que sente. Mas afirmar que um jogo preciso dos músculos da face reforça ou mesmo cria uma sensação é algo que pode fazer muita gente torcer os lábios de desconfiança. Pois, se fosse assim, argumenta-se, um japonês educado para não expressar sentimentos negativos ficaria menos triste ao encarar uma situação pesarosa com aquele sorriso que os ocidentais dizem ser tipicamente amarelo.

A discussão, na verdade, existe desde 1872, quando o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) defendeu em seu livro A expressão das emoções em homens e animais que algumas expressões faciais são comuns ao gênero humano. Estudos sistemáticos comprovando a tese de Darwin, porém, se firmaram só há uns trinta anos. O psicólogo americano Paul Ekman, que estuda caras e bocas desde 1953, é autor de uma famosa experiência a respeito. Em Tóquio, ele convidou pessoas para assistir, uma a uma, a um documentário com cenas de acidentes, queimaduras e cirurgias, enquanto filmava suas reações - sem elas saberem, é claro.

Na piores cenas do documentário, o espectador japonês, ao lado de quem Ekman estava sentado, dava um sorriso; então o psicólogo se levantava, fingindo que ia dar um telefonema. O resultado apareceu com nitidez no filme feito às escondidas: toda vez que ficava sozinho, o espectador não sorria, mas contorcia o rosto de horror diante das imagens sangrentas, como faria qualquer pessoa não guiada por uma cultura que manda disfarçar sentimentos negativos. Segundo Ekman, toda cultura impõe as chamadas regras de exibição, normas que inibem ou enfatizam determinada expressão facial.

Entre os brasileiros uma clássica regra de exibição é a de que homem não chora, exemplifica o psicólogo Ailton Amélio da Silva, da Universidade de São Paulo, autor de uma tese sobre as expressões faciais das emoções. De acordo com ele, os psicólogos afirmam que a cara de no mínimo sete emoções é idêntica em quaisquer seres humanos. À medida que as enumera, o rosto de Ailton, um psicólogo que passou mais de um ano treinando músculos faciais em frente ao espelho, vai se transfigurando. Enquanto fala, monta traço a traço as máscaras do medo, da raiva, da surpresa, do nojo, do desprezo, da tristeza e, finalmente da alegria. Como notas musicais que compõem infinitas melodias, as expressões básicas se misturam, formando outras muito complexas, compara.

O que torna mais difícil decifrá-las, porém, é seu tempo de vida - muitas vezes não duram mais de 1 segundo. Brevidade, contudo, não quer dizer escassez: quanto mais complexa for uma espécie do ponto de vista evolutivo, maior será a capacidade de seus membros de criar expressões diferentes com o rosto. Por isso, de todos os seres deste mundo nenhum é tão careteiro como o homem, cujos 22 pares de músculos faciais - metade do lado esquerdo, metade do lado direito - podem formar mais de mil expressões. Se alguém conseguisse demonstrar voluntariamente toda essa habilidade, o espetáculo terminaria porém em alguns minutos, tão ágeis são esses músculos.

A capacidade de distinguir expressões parece ser herdada, fazendo parte do que os cientistas chamam memória biológica. Numa experiência pioneira realizada por pesquisadores americanos, macacos criados em regime de isolamento, sem verem sequer rostos humanos, postos diante da fotografia de outro macaco com expressão agressiva, apresentavam reações típicas do medo. Pesquisas como esta reforçam a teoria de que a compreensão da linguagem silenciosa da face é fundamental à sobrevivência. Tanto nos animais como nos seres humanos, essa compreensão pode variar. 

Está provado que tóxicos como o álcool e a maconha - esta com a injusta fama de aguçar a sensibilidade - confundem o indivíduo no reconhecimento das expressões faciais. Um fato curioso, comprovado mas ainda não muito claro para os cientistas, é que a bebida alcoólica tende a atrapalhar a percepção de duas expressões específicas - a do desprezo e a da raiva. Também é comum a crença de que a criança, por não compreender bem o significado das palavras, perceberia melhor trejeitos faciais do que o adulto. Tudo indica que isso é falso. Há pessoas mais sensíveis do que outras, independentemente da idade, explica a psiquiatra Maria Cristina Ferrari, da Universidade de São Paulo.


Especialista em crianças, ela reconhece a importância do rosto na educação. Conta, a propósito, o caso de uma garotinha de 4 anos que nas sessões de terapia sempre desenhava uma bruxa para representar a mãe - por sinal, uma mulher muito bonita. Por acaso, certo dia a psiquiatra viu a mãe dar uma bronca na filha e, ao observar seu rosto transtornado de raiva, matou a charada dos desenhos da menina. Comenta Maria Cristina: Uns tapas no bumbum não fazem mal, desde que o adulto não expresse raiva no rosto. Caso contrário, a criança entende que está sendo punida não porque fez algo errado mas porque não é amada.

No entanto, a própria psiquiatra, mãe de dois filhos pequenos, reconhece que é preciso muito autocontrole para não exibir raiva diante de uma malcriação. Se é verdade que tudo que está na cara é um sentimento. Posso mostrar no rosto o meu cansaço, diferencia o psicólogo Arno Engelmann, da USP. Nascido na Alemanha, há 59 anos, ele vive há 51 no Brasil e há 25 estuda o que chama estados subjetivos - um conceito que se aplica tanto às emoções quanto às sensações não muito localizadas, sono, interesse, distração, como define.

Após longa e criteriosa pesquisa, Engelmann conseguiu determinar nada menos de 370 estados subjetivos. Agora, ele está entusiasmado com um novo projeto - gravar o rosto de entrevistados, na tentativa de captar expressões faciais, se é que existem, relacionadas a cada um daqueles estados. É uma pesquisa pioneira no Brasil, revela, os olhos brilhando de orgulho. Engelmann lembra que há expressões não provocadas por emoções, como os emblemas - gestos mudos que substituem palavras. Exemplos: mostrar a língua no lugar de xingar, piscar os olhos em sinal de aprovação, abrir a boca em vez de dizer que ficou boquiaberto de espanto e por aí afora. Engelmann também cita os chamados sinais de conversação, a pontuação de um diálogo que aparece no rosto. As vezes, só pelo olhar do outro dá para notar que ele quer nos interromper para fazer uma observação, diz o psicólogo.

O olhar, de fato, é a expressão suprema. Geralmente, enquanto se fala, não se olha o tempo inteiro para o interlocutor. Este, de seu lado, também ora desvia os olhos, ora volta a encarar. Desconfortável sempre é o olhar fixo do outro, com toda probabilidade uma herança do medo experimentado pelos ancestrais. Psicólogos observaram macacos Rhesus reagirem com violência apenas porque o pesquisador os encarava olho a olho. Não só quando sustentados ou quando zanzam de um lado para outro os olhos se exprimem. As pupilas, garantem os cientistas, também revelam segredos. Em condições idênticas de luz - portanto, sem razões fisiológicas para se contrair ou se dilatar -, as pupilas diminuem diante de uma imagem desagradável e aumentam diante de algo prazeroso, por exemplo, uma pessoa atraente. Esse é, aliás, um dos indicadores mais comuns do flerte. Outros sinais de namoro que transparecem na face - habitualmente identificados como a expressão viva de quem está amando - resultam do fato de os músculos ficarem mais tensos, com isso retendo mais sangue.

Mas é na boca que nasce a mais humana das expressões: o sorriso. A careta de raiva, por exemplo, é muito semelhante tanto na aparência quanto nos músculos envolvidos à exibição dos dentes que caracteriza o focinho de qualquer mamífero antes de partir para o ataque. Já o sorriso - e não só o da Mona Lisa - é sempre enigmático. Ao menos o sorriso genuíno, que derrama alegria. Isso porque o movimento facial do riso aparece apenas nos primatas, mas com a função de apaziguar outro animal; ao se sentir ameaçado, o macaco repuxa os lábios para cima e emite um som, parecido com o de uma risada. Segundo estudiosos, tal sorriso simiesco promove um efeito calmante na macacada.

Esse mesmo sorriso pálido e sem graça também aparece no rosto humano. Há histórias de guerra relatando episódios de soldados que se sentiram desarmados quando o inimigo lhe sorriu. Mas é um mistério como, na evolução do homem, do riso inseguro brotou a risada feliz. Outra particularidade humana é fingir no rosto aquilo que não sente. E o sorriso é a arma mais usada da mentira, porque, segundo os cientistas, além de ser uma expressão positiva, de todos os componentes do rosto o homem tem mais controle sobre a boca. Assim, o sorriso mascara a tristeza, aumenta na aparência a dose de satisfação de rever alguém, esconde rancores, afirma o desprezo. Reconhecer o verdadeiro riso é uma das últimas etapas de um treinamento para identificar expressões faciais, informa o psicólogo Ailton Amélio, da USP.

No entanto, se todos podem controlar a boca, apenas uma em cada dez pessoas consegue impedir a formação de rugas na testa quando o sorriso vem disfarçar a tristeza. Mais difícil ainda é camuflar sorrisos falsos, ditados pelas convenções sociais. A verdadeira risada contrai os músculos orbiculares, em torno dos olhos, formando pequenas rugas laterais, feito pés-de-galinha. De acordo com os especialistas, mesmo os mentirosos profissionais, como os atores, que reproduzem esses movimentos menos sujeitos ao controle da vontade, não o fazem no ritmo natural.Pois um riso nasce aos poucos, se sustenta e esmorece - tudo isso em cerca de 10 segundos. O falso sorriso pode surgir do nada e desaparecer de repente. O austríaco Sigmund Freud, fundador da Psicanálise, que sabia das coisas, sabia também que a face humana é um baú de informações sobre os sentimentos mais íntimos. Quem tem olhos para ver pode se convencer de que nenhum mortal consegue guardar um segredo, escreveu ele. A traição brota pelos poros. O que ele queria dizer está na cara.

Retratos das emoções
Quando se olha alguém, um dos erros mais comuns é ver medo em um rosto apenas surpreso. Isso porque, mesmo quando as emoções não se misturam no semblante, há músculos que trabalham em mais de uma expressão. Mas o olhar atento não se engana, pois cada sentimento traça sua máscara própria no rosto humano, como mostra a seqüência de caras do psicólogo Ailton Amélio da Silva, da Universidade de São Paulo.

Medo - As sobrancelhas também se erguem, mas se aproximam por causa da contração do músculo piramidal do nariz - o único da face que nenhum treino ensina a dominar - e assim formam rugas verticais na testa; as pálpebras inferiores e superiores sobem, diminuindo os olhos; a boca, aberta ou fechada, fica tensa.

Nojo - As sobrancelhas se abaixam, sem se aproximar; o lábio superior é puxado para cima, empurrando as bochechas na mesma direção; assim, podem aparecer rugas no nariz; o lábio inferior se contrai para fora.

Surpresa - Ao se erguerem, as sobrancelhas costumam formar rugas horizontais na testa; as pálpebras superiores sobem, sem tensão; o maxilar relaxa, deixando a boca entreaberta e abaixando as pálpebras inferiores - daí os olhos se arregalarem.

Tristeza - Apenas o canto interno das sobrancelhas se eleva; os cantos da boca caem; de modo geral, todos os músculos faciais perdem tônus, criando a expressão típica do abatimento.

Alegria - Os lábios são puxados para trás e para cima, empurrando as bochechas; as pálpebras inferiores também se elevam e aparecem rugas na parte externa dos olhos, feito pés-de-galinha; um detalhe fundamental é que não existe tensão na testa.

Raiva - As sobrancelhas se aproximam, só que abaixadas; a tensão em torno da boca comprime os lábios.

Desprezo - Os lábios se comprimem, um contra o outro, e um canto é puxado para cima.

Primeiras caretas
Com menos de duas semanas, o recém-nascido já tenta imitar expressões faciais do adulto. Assim, abre a boca e faz beicinho, franze o cenho, arregala os olhos. Aproximadamente no terceiro mês, o bebê aprende a sorrir sempre que alguém se aproxima. Na verdade, nessa fase ele reage com um sorriso, como se agradecesse a companhia, toda vez que enxerga o que os cientistas chamam T - as linhas formadas pelos olhos, nariz e boca. Numa experiência clássica, cientistas aproximaram de uma criança um T esculpido em madeira e obtiveram o mesmo sorriso. Por volta do oitavo mês, porém a criança já reconhece rostos. Então sua face começa a revelar todos os matizes do humor, mostrando que aprendeu o bê-á-bá da fisionomia.
Por Lúcia Helena de Oliveira
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