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GENEROSIDADE, MUITO PRAZER - Cláudia Penteado

Generosidade é um conceito nem sempre muito claro e incrivelmente complexo na hora de ser posto em prática.

 Ela começa por aceitar a minha própria história, repleta de fraquezas e falhas – e encontrar nela as coisas boas, que me trouxeram até aqui com dignidade. 

Aceitar a própria história, já li numa crônica da Eliane Brum, é um desafio desmedido e libertador. Nos faz aceitar a idade que chega, e ver brilho nela e no futuro. Tem me feito encontrar a riqueza de ser o fruto – bom – de tudo o que vivi e das escolhas que fiz, inclusive as “erradas”. Outro tipo de generosidade é estar verdadeiramente aberto a cuidar do(s) outro(s). 

Eu me achava a pessoa mais generosa do mundo até que decidi construir uma nova família.

Estar disponível emocionalmente para isso não é simples. Encontro, diariamente, novas oportunidades de expandir o espaço no meu coração para “cuidar” desse novo núcleo familiar que escolhi. 

Eu – que, imagine só, já fui casada por 15 anos – achava que sabia tudo sobre casamento e cuidar de uma família. Depois de algumas cabeçadas, devo dizer que há um imenso encanto nisso: em não saber, em ficar meio perdido e ter de buscar novas ferramentas internas para construir uma nova história e cuidar de um novo amor. 

E, neste meio tempo, porque não, me tornar uma pessoa um pouco melhor.

Este aprendizado é o grande presente que me dei nessa minha nova fase de vida. Uma fase cercada de verde por todos os lados, tucanos, saíras, gambás, luar por entre as folhagens, um jardim cheio de flores incrivelmente belas, cheiro de lavanda, vazamentos e boilers que pifam, paredes que dão bolhas, cheiro de citronela pra espantar (muitos) mosquitos, e a permanente brisa fresca da novidade e do amor verdadeiro. 

Dentro da minha carteira, guardo comigo uma frase que ganhei de uma amiga e que diz: escolhas são compromissos de amor com o caminho. É isso.









PARA NÃO SE PERDER DE SI MESMO - Gláucia Leal

Nos últimos anos, cada vez mais pessoas têm deparado com a necessidade de amparar pessoas próximas – idosos ou acometidas por doenças e limitações severas – sem que tenham se preparado para tal

A palavra “cuidado” tem origem latina, cogitatu, vocábulo do qual derivam também “pensamento”, “reflexão” e “cura”. Pode parecer estranho à primeira vista, mas basta nos determos um pouco para nos darmos conta do quão intimamente ligadas estão essas ideias. 

Em suas várias facetas, o cuidar requer, por um lado, o planejamento racional e, por outro, recursos emocionais que ofereçam suporte a essa tarefa tão complexa. Nos últimos anos, cada vez mais pessoas têm deparado com a necessidade de amparar pessoas próximas – idosos ou acometidas por doenças e limitações severas – sem que tenham se preparado para tal. 

E não porque não saibamos que o imprevisto, a incapacidade (permanente ou momentânea) nos rondam. 

Como em outras épocas as pessoas evitavam pronunciar a palavra “câncer” numa tentativa pueril de afastar a patologia, muitas vezes, ainda hoje, postergamos conversas, decisões e providências, na tentativa de adiar a angústia – embora tenhamos conhecimento dos processos inerentes ao envelhecimento, por exemplo.

Obviamente não é prazeroso pensar em como queremos atravessar situações dolorosas, mas nos aproximarmos dessa realidade e nos familiarizarmos com ela pode ser a maneira mais saudável de enfrentar esse momento. 

Caso contrário, quando surge uma situação “repentina” em que as limitações de um parente se impõem, em geral uma única pessoa termina se sobrecarregando com os cuidados – e, não raro, adoecendo tanto física quanto mentalmente, já que esse tipo de acontecimento tende a mobilizar profundamente a família, muitas vezes trazendo à tona mágoas e conflitos não resolvidos. 

Nos últimos anos, algumas linhas de pesquisa na área da psicologia buscam não apenas enfatizar a importância de preparar as pessoas para momentos de crise, mas também encontrar maneiras de aliviar o profundo cansaço e a solidão, tantas vezes vinculados ao ato de cuidar do outro – em geral, deixando de cuidar de si mesmo.

Temas árduos, delicados, mas que pedem reflexão e cuidado, em nome de nossa saúde física e mental. 

E de uma possibilidade de cura – não como na medicina, privilegiando a erradicação dos sintomas, mas no sentido tomado pela psicanálise, que privilegia o acompanhamento e a possibilidade de transformação por meio do encontro e do afeto.  

A CRISE ECONÔMICA ADOECE A SAÚDE MENTAL DOS BRASILEIROS - Jackson César Buonocore

A saúde mental dos cidadãos está à mercê do “mau humor” da atual crise econômica, que gerou 12,7 milhões de desempregados, aumento da inflação, endividamento das famílias e das empresas.

As recentes pesquisas têm indicado de que 7 de cada 10 brasileiros avaliam que a situação do país se deteriorou, ainda mais, com a crise. A saúde mental dos cidadãos está à mercê do “mau humor” da atual crise econômica, que gerou 12,7 milhões de desempregados, aumento da inflação, endividamento das famílias e das empresas.

A vida da maioria dos brasileiros está sendo afetada diretamente por essa desordem. Nesse cenário – a ansiedade e a angústia – tomaram proporções assustadores, que atingem a nossa dimensão corporal e psíquica, tendo como principais sintomas: cansaço mental e físico, aceleração cardíaca, transpiração, lapso de memória e bloqueio mental, que nos dificultam resolver os problemas básicos do cotidiano.

O consumo de drogas, de álcool e de outras substâncias químicas, inclusive a incidência de suicídios, são fenômenos que vem crescendo com o colapso econômico. Antes tínhamos a prevalência das neuroses, que cedeu espaço aos casos de transtornos de personalidade, já que a crise nos “rouba” a esperança de uma vida melhor.

A economia neoliberal, além de gerar a crise, criou uma concepção ilusória de que existem apenas dos tipos de indivíduos: os bem-sucedidos e os perdedores, deixando evidente que tal sistema acumula riqueza nas mãos de poucos. Porém, quem perde são os assalariados da classe trabalhadora e da classe média. Segundo o Papa Francisco, essa economia mata, transforma o capital em ídolo, em que a ambição sem limites pelo dinheiro comanda tudo.

No afã da competição têm pessoas que 
levam suas vidas como se fossem empresas. 

Não é à toa, a busca de respostas “mágicas” fornecidas pela teologia da prosperidade ou pelo mito do sucesso a qualquer custo, tornando-se um “deslumbre” na mente de quem acredita nisso.

É preciso reagir à força adoecedora da crise. Valorizando as atividades psicossociais, como por exemplo: cuidar da espiritualidade, participar de atividades comunitárias, estar entre amigos e familiares, aprender a solucionar as dificuldades de forma coletiva. 

Também é vital desacelerar a nossa mente, acalmar o ritmo cardíaco, diminuir a hiperconectividade, dando vazão às emoções positivas que expandem a consciência humana.

Além disso, temos que exigir um atendimento digno da população na rede pública de atenção à saúde mental. Mas, mesmo assim, devemos criticar esse modelo econômico, que adoece a saúde mental dos brasileiros. 

De acordo com Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, o exercício da crítica nos permite mudar o estado de agente passivo para agente ativo, onde vamos questionar e refletir sobre as ações e as razões das coisas na sociedade, a fim de reverter a lógica neoliberal da modernidade líquida.

A CRIANÇA TROFÉU: OS EFEITOS DO FAVORITISMO ENTRE IRMÃOS

A criança troféu é um boneco de porcelana sorrindo diante da câmera fotográfica. 

É, além do mais, o favorito entre todos os irmãos e quem é obrigado a ser a extensão de um pai ou mãe que anseia que seu filho perfeito satisfaça suas necessidades emocionais, suas fantasias ou desejos não cumpridos.

Infelizmente, este favoritismo entre irmãos deixa sequelas.

Em nossa sociedade, nós gostamos de pensar que todas as famílias que têm mais de um filho valorizam e amam as suas crianças de igual maneira e sem preferências. No entanto, são vários os estudos que demostram que isso não é assim. O tratamento preferencial na criação existe. Quase 70% dos pais e das mães admitiram que, em algum momento, demostraram um tratamento diferente para um determinado filho.

“O melhor presente que nossos pais podem nos dar é um só: acreditar em nós”.
– Jim Valvano –

Fazer isso, em um dado momento, seja em razão da idade ou pelas necessidades particulares de um filho, não é algo reprovável. Agora, o problema chega quando essa parcialidade é desmedida e constante. Deste modo, quando os progenitores começam a dar um tratamento diferente a uma das crianças, elogiando, ressaltando e dirigindo a ela toda a atenção, estamos diante de um claro favoritismo entre irmãos.

O favoritismo entre irmãos e as famílias narcisistas
O filho favorito nem sempre é o mais velho, nem o caçula. Assim, algo que muitos especialistas em Psicologia Infantil e em dinâmicas familiares dizem é que as relações entre pais e filhos não são estáveis, elas costumam mudar devido à interação, pela idade dos filhos e por um ou outro acontecimento.

A razão pela qual ocorre esse tratamento preferencial nem sempre está clara. Os pais podem se ver refletidos em um dos seus filhos e não em outros. Também podem escolher um deles pelas suas características físicas ou pelas suas habilidades ou, simplesmente, perceber que uma das crianças é mais submissa. Seja como for, algo que devemos ter bem claro é que essa situação de favoritismo também não é fácil para a criança-troféu.

Essa criança entenderá desde muito cedo que, para conseguir a consideração positiva de seu progenitor, deve reprimir os seus próprios desejos e necessidades para se encaixar neste brilhante ideal, nesse alto nível às vezes desmesurado estabelecido pelos seus pais. Assim, é comum que eles orientem a criança-troféu para uma série de objetivos: praticar um esporte, tocar um instrumento, ser modelo, etc.

Por outro lado, algo que costuma ocorrer com especial frequência é que, por trás de uma criança-troféu, existe um pai ou uma mãe narcisista. São pessoas que fazem dessa criação preferencial seu maior prazer e sua obsessão. Estes filhos são o seu abastecimento emocional cotidiano, um modo de cumprir desejos frustrados e metas não cumpridas do passado, que a criança é obrigada a conseguir para eles no presente.

Deste modo, o pai ou a mãe narcisista não será capaz de reconhecer que esse filho tem as suas próprias necessidades, suas próprias preferências, nem ao menos que o resto dos irmãos ficou em segundo plano. Uma situação complexa que, sem dúvida, nenhuma criança merece experimentar.

A criança troféu e seus irmãos, crianças igualmente descuidadas

Quando uma criança tem dois anos, começa a ter um senso de identidade e de pertencimento. É então que aparecem as primeiras comparações, quando surge o “você tem isso e eu não tenho”, “você pode fazer isso e eu não”… Os ciúmes marcam os territórios de combate entre irmãos, e as coisas se intensificam muito mais quando eles notam que existe um tratamento preferencial por parte dos pais.

Tudo isso deixa marcas a partir de uma idade muito precoce. Quando um pai escolhe o seu filho favorito e o enche de privilégios emocionais e materiais, fará com que o resto dos irmãos comece a desenvolver problemas de autoestima e segurança. No entanto, eles serão capazes, à medida que crescem, de controlar o rancor, as emoções contraditórias e a má qualidade do vínculo afetivo com os pais. Assim, a criança desprotegida poderá se tornar um adulto seguro de si.

Agora, cabe destacar, uma vez mais, que a posição da criança-troféu também não é fácil. Esse tratamento preferencial onde ele é o beneficiário tem um alto custo: a negociação de seu próprio projeto vital em muitos casos. É comum que ela desenvolva uma personalidade imatura, uma baixa autoestima e pouca tolerância à frustração.

Para concluir, algo que temos claro é que esta situação não é fácil nem para a criança supervalorizada e nem para a criança desprotegida. Ambas as situações são o resultado de uma criação ineficiente, imatura e, em alguns casos, narcisista. A criação e a educação devem ser equitativas em todos os casos, devem ser coerentes, respeitosas e atentas para evitar que nenhum de nossos filhos se sinta deslocado ou menosprezado.

Devemos lembrar que a nossa identidade se constrói a partir da consideração positiva, do olhar onde nos vemos refletidos e reforçados através do carinho e do afeto sem fissuras, nem preferências.
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10 DIFERENÇAS ENTRE FREUD E JUNG

São inúmeras, e em muitos casos controversas, as polêmicas geradas ao redor das figuras de Sigmund Freud e Carl Gustav Jung. 

Neste artigo, falaremos sobre as principais diferenças entre Freud e Jung.

Em geral, para cada uma de suas propostas, encontramos especialistas que se posicionam a favor e contra, cada um com suas variantes. Além disso, quando, ao invés de analisá-los separadamente, os colocamos em um mesmo plano, a comparação faz com que os debates sejam muito ricos.

As diferenças entre Freud e Jung são interessantes porque, paradoxalmente, no início da prática profissional de Jung eles coincidiam em pensamentos e abordagens teóricas. Na verdade, a coincidência inicial faz com que em alguns casos tenhamos dúvidas sobre o autor de uma determinada ideia; algo que já não acontece, por exemplo, nas últimas fases de sua evolução, em que suas diferenças aumentaram e sua marca se tornou muito mais particular. De uma forma ou de outra, a caminhada que propomos pela história desses dois grandes autores parece realmente incrível. Você vem com a gente?

Por que diferenciar Freud de Jung?
Sigmund Freud foi um médico neurologista de origem austríaca que deu início e forma a uma das correntes psicológicas mais poderosas e de maior tradição: a psicanálise. Além disso, é considerado por muitos, tanto seguidores quanto críticos, um dos intelectuais mais importantes do século 20. Sendo um neurologista, seu interesse inicial como campo de estudo foi a neurologia; daí podemos situar a origem de sua evolução, derivando progressivamente em uma vertente mais psicológica: tanto na análise das causas, como no curso e nas consequências dos transtornos que estudou.

Por outro lado, Carl Gustav Jung foi um médico psiquiatra, psicólogo e ensaísta de origem suíça. Atuou como figura chave nos primórdios da psicanálise; posteriormente fundou sua própria escola de “psicologia analítica”, também conhecida como psicologia profunda ou psicologia complexa.

Jung se interessou pelo trabalho de Freud, o que levou este último a nomeá-lo como seu “sucessor” publicamente. No entanto, não demorou muito para que o professor de Viena e o de Zurique, como resultado de seus desentendimentos teóricos e pessoais, se separassem. Desta forma, Jung foi expulso da Sociedade Psicanalítica Internacional daquela época, a mesma que presidiu em 1910.

Diferenças entre Freud e Jung
Embora existam muitas diferenças entre Freud e Jung, neste artigo iremos citar algumas das mais relevantes. Por outro lado, podemos dividir essas diferenças em diferentes subdivisões.

1. Ser psicanalista
Embora não seja estranho escutar o termo “psicanalista junguiano” – para se referir a aqueles que estudaram pela teoria de Jung – este é um erro nominativo. Jung não é considerado psicanalista, na verdade, decidiu separar-se por completo dessa escola e fundou a sua própria.

2. O termo “complexo”
Freud reconheceu e concedeu a autoria desse termo à Jung. Freud utilizou esse termo sempre acompanhado de um sobrenome em sua teoria: “Complexo de Édipo” ou “Complexo de castração” para poder explicar a teoria sexual e a dinâmica psíquica ali existente.

Por outro lado, para Jung o termo complexo tem relação com o conjunto de conceitos ou imagens emocionalmente carregadas que atuam como uma personalidade dividida. No núcleo desses complexos é encontrado o arquétipo, que se relaciona com o conceito de trauma.

3. Parapsicologia e fenômenos ocultos
Jung atribuiu muita importância à parapsicologia e à autenticidade dos então chamados “fenômenos ocultos”. Freud, por outro lado, foi contrário a estudar essas questões e ligá-las à psicanálise; considerava que fariam muito mal à teoria.

“Se dois indivíduos estão sempre de acordo em tudo,
posso assegurar que um dos dois pensa por ambos”.
-Sigmund Freud-

4. Conceito de “restos arcaicos”
Para Freud, os “restos arcaicos” estão relacionados com certos assuntos inconscientes, teriam relação com o conceito de traço mnêmico criado por ele.

Diferentemente, para Jung, os restos arcaicos eram mais que isso; na verdade, permitiram criar uma tipologia do inconsciente diferente da psicanálise – o inconsciente coletivo. Para isso, fez uso da análise dos sonhos de seus pacientes, interpretou diferentes mitos produzidos por diversas culturas e os somou à investigação do simbolismo alquímico.

Para Jung, o inconsciente coletivo é algo comum à natureza humana. Nasce com ela; constituído por estruturas arquetípicas derivadas dos momentos emocionais mais transcendentes da humanidade que resultam no medo ancestral da escuridão, a ideia de Deus, do bem, do demoníaco, entre outros.

5. Os fatores históricos e a importância do presente
Para Freud, tanto no desenvolvimento da neurose quando no da psicose, prevaleciam os fatores históricos de cada indivíduo sobre os fatores ou circunstâncias atuais. Ou seja, os fatores históricos viriam a determinar os comportamentos atuais e futuros.

No entanto, para Jung isso funcionava ao contrário. Ele relativizava a preeminência dos fatores históricos na fundamentação freudiana. E mesmo que Freud não concordasse com essa peculiaridade, ele o fazia em termos gerais, considerando o foco de Jung em ressaltar, ao que diz respeito ao campo de estudo das neuroses, o presente em detrimento do passado.

“Eu não sou o que aconteceu comigo,
eu sou o que eu escolhi me tornar.”
-Carl Jung-

6. Elã vital vs. libido
Para Jung, o conceito de libido definia uma energia vital de natureza geral que adotava a forma mais importante para o organismo em cada momento de sua evolução biológica – alimentação, eliminação, sexo. É diferente da concepção de libido freudiana: energia predominantemente sexual concentrada em diferentes áreas corporais no decorrer do desenvolvimento psicossexual do indivíduo.

7. Estrutura psíquica
Para Freud, a estrutura psíquica estava composta por três níveis: consciente, pré-consciente e inconsciente. Para Jung havia o nível consciente, mas ele fazia referência a dois inconscientes: o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo.

8. A transferência
Outra diferença entre Freud e Jung é a forma como entendiam o fenômeno da transferência. Ambos contemplavam esse conceito. Freud pensava que, para que isso pudesse ocorrer, deveria existir uma certa assimetria em que o analista serve como objeto, tela em branco onde o paciente pode colocar – transferir – fantasias, figuras representativas, etc., a partir do qual se inicia o trabalho analítico. Direção unidirecional.

Por outro lado, embora para Jung a transferência permaneça sendo o problema central da análise, não compartilha sua prática ortodoxa. Partindo de seus conhecimentos de alquimia, definiria a relação terapêutica a partir da metáfora de dois corpos químicos diferentes que, colocados em contato, se modificam mutuamente. Sendo assim, a relação que se estabelece entre paciente e psicoterapeuta é de colaboração e confrontação mútua.

9. O sofá
Para Freud, o uso da ferramenta do sofá era imprescindível para poder realizar análises, sempre deixando o analista fora do alcance da visão do paciente. O oposto de Jung, que realizava as sessões frente a frente, sentado diante do paciente e mantendo uma interação direta constante. Ele dispensava o sofá.

10. Frequência das sessões
A frequência das sessões é outra diferença entre Freud e Jung. Carl Gustav Jung atendia seus pacientes, no início, duas vezes por semana, por uma hora em cada sessão. Mais tarde, propunha passar para uma sessão semanal em um tratamento usual de três anos. Freud, por outro lado, atendia à seus pacientes seis vezes por semana, por 45 a 50 minutos em cada sessão, estritamente.

Finalmente, embora tenhamos mencionado dez diferenças entre Freud e Jung e seus métodos, pensamentos e abordagens, muitas outras poderiam ser encontradas. A relação entre ambos e como cada um deles deixou sua marca no outro é muito interessante; por esse motivo, está feito o convite para conhecer suas obras em maior profundidade.
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O RELACIONAMENTO DOS PAIS AFETA A NOSSA ESCOLHA DE UM PARCEIRO?

A relação dos pais realmente tem tanto impacto – como argumentam alguns – sobre as futuras relações dos filhos? A experiência pode nos dizer que sim. 

A ciência nos diz que, se o relacionamento dos pais é positivo, os filhos têm uma maior probabilidade de ter relacionamentos saudáveis. Isso não acontece no caso contrário. No entanto, estamos falando de influências, e sempre pode haver exceções.

Nós temos que levar em conta que o primeiro modelo de relacionamento romântico e convivência que as crianças têm é o que podem observar em seus pais ou no casal com quem vivem. 

Nesse sentido, o ambiente tem muita influência sobre os menores da casa. O que eles veem também os afeta e pode condicionar ou influenciar algumas de suas ações muitos anos depois.

Às vezes ouvimos frases do tipo: “São muito pequenas, não sabem de nada”. Mas não é assim. As crianças absorvem tudo, de forma que o que acontece ao seu redor influenciará as relações que elas estabelecerão e manterão no futuro.

O relacionamento dos pais está presente nos filhos
O relacionamento dos pais pode estar presente em nós sem percebermos. Pode ser, por exemplo, uma das causas que nos faz escolher sempre como parceiros aquelas pessoas que basicamente não se encaixam conosco. 

A relação de nossos pais pode ter sido dominada pelos altos e baixos, então podemos tender a procurar uma pessoa que nos dê estabilidade acima de tudo, quando o que precisamos para o nosso jeito de ser é uma pessoa muito dinâmica.

Por outro lado, podem ter existido várias circunstâncias especialmente relevantes que foram observadas pelas crianças. Referimo-nos a uma grande desconfiança, uma dependência muito marcante, constantes infidelidades e até mesmo abusos. 

Daremos um exemplo de uma situação real, com a qual podemos fazer uma ideia do grau em que o relacionamento dos pais pode afetar a escolha do parceiro.

Laura ainda não tinha completado 30 anos. Com vários relacionamentos nas costas, o fato é que nenhum deles tinha corrido bem. Ela não sabia o que estava acontecendo. Às vezes, seus parceiros eram infiéis. 

Em outros, eles tinham um incrível apego à mãe. Laura decidiu ir a um psicólogo e contar sua história. Ele pediu para que ela contasse sobre o relacionamento de seus pais.

O relacionamento dos pais de Laura foi dramático. O pai maltratou a mãe, manipulou-a, foi infiel em várias ocasiões… A mãe se submeteu, não foi capaz de expressar seus sentimentos e suportou o relacionamento, porque ela dizia que sentia amor, quando na realidade sofria de dependência emocional. 

A mãe se sentiu sozinha muitas vezes, abandonada. Não só pelo seu parceiro, mas também pela sua própria família, que a obrigou a suportar em vez de terminar o relacionamento.

A história de Laura tinha só dois caminhos: um era ser dependente e procurar uma relação séria com afinco, o outro era fugir dos relacionamentos sérios e ser muito independente nas suas relações. Laura, inconscientemente, tendeu ao primeiro.

Laura nunca foi uma mulher submissa. Em seus relacionamentos, nunca houve abuso. Ela fez tudo que não tinha visto no relacionamento dos pais: ela se comunicava muito com seus parceiros, se respeitava, não ficava com ninguém que a subjugava … No entanto, seus parceiros, além do que foi mencionado anteriormente, às vezes eram submissos, mentiam e não se comunicavam abertamente.

A escolha do parceiro por Laura tinha “muito da sua mãe”. No entanto, embora ela acreditasse que estava tentando construir relacionamentos saudáveis, não como o dos pais, a raiz do problema ainda não era visível para ela. Não demorou muito para descobrir.

O que aconteceu com Laura em seus relacionamentos foi que havia uma falta de compromisso: aqueles que não estavam realmente comprometidos com ela ou eram infiéis ou eram muito apegados às suas mães. Portanto, ela ficou em segundo lugar, como aconteceu com a mãe dela.

Escolher um companheiro sem estar condicionado
A questão que agora nos preocupa, depois de ter conhecido a história de Laura, é: podemos escolher um parceiro sem sermos condicionados pela relação dos nossos pais? 

A resposta é sim, mas para isso temos que perceber o que está acontecendo.

A maneira mais clara de estar ciente é ver que padrão é repetido em nossos parceiros. Talvez dois tenham coincidido, mas se tivermos quatro relacionamentos e todos tiverem o mesmo problema, talvez o tópico que trazemos hoje seja uma hipótese a ser apresentada.

Se é difícil ver a razão que pode estar implícita em cada relação de casal, ir a um psicólogo especializado em relacionamentos pode ser de grande ajuda. Além de nos fornecer ferramentas para aumentar nossa autoestima e resolver certas inseguranças que possamos ter, nos ajudará a ver a situação com perspectiva. 

Assim, procuraremos nos enriquecer com a pessoa que escolhemos para nossa vida, e não cobrir nossas necessidades ou escapar de nossos fantasmas.

Acima de tudo, um psicólogo nos ajudará a perceber como começamos um relacionamento. Porque aí reside a chave para cair em velhos padrões de comportamento. Nós tendemos a ter altas expectativas? Ficamos cegos na fase de paixão? Nós nos iludimos rápido demais?

A chave de todos os nossos relacionamentos se encontra na maneira como eles começaram. É aí que devemos prestar a verdadeira atenção.

Uma vez que tenhamos analisado e refletido sobre esses pontos, conhecida a forma da pedra, será mais difícil tropeçar nela. Se abrirmos nossos olhos, vamos descartar antes os relacionamentos que nos façam muito mal. 

Ao mesmo tempo, identificar como estamos condicionados pelos modelos que temos, não apenas nos relacionamentos, nos dará a oportunidade de fazer escolhas mais livres e precisas.
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O QUE FAZER NAQUELES DIAS EM QUE VOCÊ NÃO QUER SE LEVANTAR?

Você já deve ter passado por isso alguma vez. Há alguns dias em que você não quer se levantar, seja porque enfrenta muitos problemas ao mesmo tempo ou porque está em um processo de luto e não consegue encontrar um modo de seguir em frente.

Também é possível que seja porque, francamente, você se sente aborrecido com tudo, mas não consegue encontrar uma saída.

O quer menos quer nesses dias é que alguém tente animá-lo, de tão preso que está neste estado emocional. É preciso ter motivação, mas você rejeita tudo que pode fornecê-la. Basicamente, não quer sair da cama, mas permanecer lá em um estado de inatividade. Dormir ou descansar, mas em todo caso, não parar para enfrentar o dia.

Talvez tudo isso não seja tão ruim. É possível que um desses estados seja uma maneira extrema de dar uma pausa. Talvez você precisasse dessa pausa há muito tempo, mas você não reconheceu esta necessidade. Os dias em que você não quer se levantar também são uma boa oportunidade para começar a enfrentar o que está acontecendo.

“O entusiasta sempre vence o apático. Não é a força do braço, nem a virtude das armas, mas a força da alma a que alcança a vitória“.
-Johann Gottlieb Fichte-

Se você não quer se levantar, faça um parênteses
É válido, e inclusive recomendado, que você eventualmente se dê um espaço nos dias em que não quer se levantar. É importante fazer uma pausa. Provavelmente é o que sua mente está pedindo a gritos e você não quer ouvir. A vida não se trata de fazer sempre o que se quer, mas há circunstâncias em que é importante dar uma margem aos nossos desejos.

O que não vale a pena é que, em um contexto de tristeza, você não se levante o dia todo, ou se levante apenas um pouco para voltar para a cama. E não vale porque isso significa ceder e dar um passo à frente em direção à depressão. 

Se você ceder e ceder, começará a cortar vínculos, a ter problemas de trabalho ou a se envolver em uma espiral de apatia da qual depois é muito difícil sair.

O recomendável é fazer um parênteses. Lembre-se de que um parênteses se abre e se fecha. Você precisa pensar no que está acontecendo. Por que chegou em um daqueles dias em que não quer se levantar? Tente encontrar uma saída, mesmo que somente parcial, para essa situação.

Os primeiros passos
Hoje você não quer nem se levantar, mas tem que fazer isso. Durma um pouco mais se quiser, mas não se permita cair em um excesso. Esse é o primeiro objetivo que deve propor a si mesmo em um dia assim. É também a primeira conquista para sair desse estado.

Considere os passos a seguir. Levante-se, tome um banho, vista-se. Cada um deles é um objetivo a cumprir. Se você quer que sua vida seja melhor, comece por aí. Busque e encontre a maneira que não afete suas obrigações de trabalho ou que não cause danos sérios ao trabalho ou aos estudos. 

Isso é muito importante. Se a pausa lhe traz problemas, é possível que se levantar pela manhã seja ainda mais difícil.

Por outro lado, se você a adiar, marque um dia no calendário, uma saída de referência.

Resolvidos esses problemas práticos, não se tranque em casa. Se gosta de ler, melhor fazê-lo em um parque com crianças que espalham alegria, em um ambiente que não irá lembrá-lo de que entre as tarefas pendentes está limpar a casa.

Assuma o controle
Se conseguir chegar a esse ponto em que está longe de casa, em um espaço tranquilo e verde, e identificou a principal fonte de sua apatia, boas notícias: você começou a assumir o controle da situação. Não pare por aí. Você tem que ir um pouco mais longe.

Examine as alternativas que você tem diante dessa grande preocupação que o inquieta e deprime. Pense se é a primeira vez que acontece com você ou se já havia estado assim antes. Com muita frequência? Com muita intensidade? Você sente que há algo mais aí que não consegue visualizar? Dependendo das respostas a essas perguntas, você saberá se pode resolvê-las de maneira autônoma ou se precisa de ajuda.

Se não encontrar respostas para essas perguntas ou se sentir confuso a respeito delas, não se preocupe. É normal que isso aconteça. Neste ponto, você deve ser consciente de que é hora de fechar os parênteses. A vida tem que continuar. 

Se sente que isso não é possível, definitivamente é porque você precisa de ajuda. Se vê que é possível, vá em frente. Volte para as perguntas no dia seguinte e quantas vezes for necessário, até que encontre uma resposta.

Enquanto isso, não se esqueça de que, mesmo que você volte a ter um daqueles dias em que não quer se levantar, é necessário que o faça. Que você defina metas diariamente e as alcance. 

Não ceda à tentação de mergulhar na insatisfação. Isso não irá levá-lo a lugar algum.

POR QUE COMETEMOS ATOS FALHOS?

Culpa da memória que preenche suas lacunas
 com a primeira coisa que vem à mente.

Por que você trocou o nome da namorada na hora H?
Freud explica, mas é bom já saber que a neurociência discorda dele. Segundo a psicanalista Vera Warchavchik, a primeira explicação veio no livro Psicopatologia da Vida Cotidiana, de 1901, em que Freud descreveu o ato falho como uma confusão com um sentido maior por trás. Ou seja, para Freud, você fala "sem querer querendo". 

Isso aí: todos temos nossos momentos Chaves.

Já a neurociência considera esse deslize um esquecimento corriqueiro sem nenhum significado especial. 

Ele acontece porque, ao contrário de uma filmadora, o cérebro não grava todos os mínimos detalhes dos acontecimentos, mas apenas as informações principais. 

Quando ativamos nosso banco de dados para buscar a situação completa, ele monta esses dados como se editasse um filme. E, para ligar uma coisa a outra, preenche as lacunas com algumas invenções. 

Pronto! É exatamente nesse momento que surgem as confusões, que, se pegarem mal, serão consideradas atos falhos. 

A contragosto dos psicanalistas, seriam simples e pequenos tilts na memória sem nenhuma razão oculta. 

Por isso, na próxima vez que der uma mancada na cama, diga que a culpa é do seu cérebro.
por Natalia Kuschnaroff  




OLHAR PELA JANELA: UM EXERCÍCIO DE REFLEXÃO E INTROSPECÇÃO

Olhar pela janela, deixar os olhos suspensos em um copo, não é sinônimo de perder tempo. Porque às vezes, quem olha através desse limiar não tem interesse em ver o mundo exterior. 

O que procura é percorrer seu reflexo para navegar através da introspecção, alcançar seus mundos internos em busca de novas possibilidades. Poucos exercícios mentais podem ser mais saudáveis.

Qualquer um que conheça o trabalho de Edward Hopper sem dúvida se lembrará de todas aquelas obras nas quais somos apresentados a uma mulher solitária diante de uma janela. Às vezes é um quarto de hotel, às vezes uma cama ou um refeitório … A imagem é sempre a mesma: um olhar feminino que parece transcender o vidro e ficar a quilômetros de distância daquele pequeno espaço que a rodeia.

Poucos enigmas despertaram esse interesse pictórico. O que essas mulheres olham? A resposta é simples: nada e tudo ao mesmo tempo. Hopper era um especialista em criar ambientes e atmosferas onde as emoções de definição pouco simples eram contagiosas. A luz, as formas, as cores, tudo tinha que propiciar uma certa sensação. Por esse motivo, ele costumava usar o recurso de uma janela perto de seus personagens.

As janelas são umbrais para a mente humana. Muitas vezes elas são um recurso indispensável para todos os sonhadores. Também para aqueles que precisam de uma pausa após um dia de estresse, e apoiam a testa no vidro frio de uma janela no metrô. É quando o olhar relaxa e nossa imaginação se apaga. É aquele momento em que começamos a sonhar e nosso cérebro encontra alívio, liberdade, bem-estar.

Olhar pela janela, um exercício de introspecção
Em qualquer sala de aula de uma escola primária ou secundária, é fácil encontrar uma criança olhando pela janela. Eles estão ausentes, desconectados dos seus arredores, mas conectados a suas divagações, a seus devaneios. À medida que crescemos, esse comportamento, longe de ser corrigido, persiste com entusiasmo. No entanto, ainda é desaprovado. Porque olhar pela janela é sinônimo de ser improdutivo, não está presente no imediatismo que nos rodeia, nas responsabilidades que nos exigem.

Vamos admitir, raramente podemos mergulhar em nossos estados mentais para saber o que está acontecendo lá. Porque quem faz isso fica imóvel, não gera nada, não mostra nada. E isso, numa sociedade orientada para resultados, é pouco mais que um sacrilégio. Talvez por esse motivo, olhar pela janela seja um exercício que preferimos fazer sozinhos. É deixar os olhos nesse limite sugestivo que o vidro forma para olhar, mas não para ver, o que acontece no mundo exterior.

O que fazemos é uma viagem ao contrário. Nós não nos importamos com o que está lá fora, porque o que está lá embaixo é bem conhecido: trânsito, aglomerados de pessoas, uma cidade que evolui na rotina habitual … Nosso cérebro nos puxa como a âncora que é coletada da parte inferior das profundezas para nos levar para o mar. E aí, algo tão maravilhoso quanto útil para nosso desenvolvimento emocional e psicológico acontece.

Vivemos em um mundo obcecado pela produtividade, nós sabemos. Talvez por esse motivo, nos esquecemos do enorme potencial existente no ato de sonhar acordado. Às vezes, as coisas mais importantes, as decisões mais importantes, surgem na frente de um painel da janela. É quase como uma rebelião de nossa mente ordenando que façamos algo diferente. É fazer contato com o nosso eu mais sábio – mas recôndito – para ouvir o que ele quer nos dizer.

O vidro onde sonhamos acordados
Psicólogos especialistas no mundo da criatividade, como Scott Barry Kaufman e Jerome L. Singer, explicam em um artigo da Psychology Today que hoje sonhar acordado permanece sendo um estigma. Quem quer que olhe pela janela por meia hora, em vez de continuar a trabalhar com o computador, é uma pessoa preguiçosa.

Em um estudo realizado por esses psicólogos, foi demonstrado que 80% dos gestores de empresas como a Adobe pensam que a criatividade é aprimorada através do trabalho e da atividade contínua. Assim, o trabalhador que em determinado momento escolhe deixar o resto para tomar café diante de uma janela é alguém que não aguenta a pressão, alguém improdutivo.

Até hoje, continuamos a associar movimento com desempenho e passividade com preguiça. Devemos, portanto, mudar essas perspectivas, essas idéias enferrujadas. Sonhar acordado representa a arte de rastrear maravilhas escondidas no cérebro de alguém. Está treinando a mente para expandi-la ainda mais por meio de introspecção, curiosidade, simbolismo e imaginação.

Tudo isso, todo esse potencial oculto em cada um de nós, pode ser encontrado perfeitamente na frente de um vidro. Olhar pela janela em algum momento do dia é incitar a nós mesmos. É atravessar o limiar para esse mundo interior tantas vezes negligenciado. Esse que não servimos ou alimentamos porque o exterior exige muito de nós. A sociedade de hoje nos quer hiperconectados, esperando estímulos infinitos.

Vamos aprender, portanto, a estabelecer limites e a ir a essa janela de vez em quando. Para essa reflexão onde estão contidos nossos sonhos, onde podemos espiar nossa beleza interior e um mundo cheio de infinitas possibilidades…
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SAUDADE DAQUELES QUE NÃO ESTÃO MAIS CONOSCO


 “Eu olho para o céu e tento ver-lhe dentre tantas estrelas, 
procuro nas sombras sua imagem perdida.
Desenho seu rosto nas nuvens que vejo passar,
viajando sem rumo e me guiando pelo luar, 
eu pergunto:
Onde você está?
E então meu coração se agita, dando-me a resposta
com uma lágrima que me faz perceber novamente:
Você não está aqui, mas permanece no meu coração

Eu gosto de pensar que existe um mundo paralelo no qual vivem as almas que deixaram este mundo.
Gosto de pensar que os novos possuem algo dos que já não estão aqui. Agarro-me à ideia de que há algo ou alguém próximo a mim que me toca todos os dias com seus fragmentos.

É apenas isso, uma maneira de reviver aqueles que já foram, aqueles que vemos no céu, aqueles que todas as noites iluminam nossas vidas. Precisamos sentir a presença deles em nosso exterior, mesmo sabendo que eles nunca mais voltarão.

A verdade é que cada pessoa que já se foi de nossa vida agora é uma estrela no céu, uma estrela que nunca se apaga. Porque em nós permanecem as memórias dos que se foram; a saudade sempre permanecerá.

Como escrever uma história quando ela ainda não acabou?
Quando uma pessoa nos deixa, nossa vida é paralisada, nosso coração se entristece e nós nos bloqueamos. No entanto, há uma maneira de continuarmos escrevendo nossa história: com lágrimas, saudade e esperança.

“Quando alguém morre, não parte sozinho. Leva parte da sua alma para confeccionar suas asas, e assim voar junto a você”

Sua partida nos ensina que não é a morte o que nos assusta mais; o que é verdadeiramente doloroso é conviver com a dor de saber que, apesar de chorarmos e sofrermos, nunca mais voltaremos a ver a pessoa.

Isso é assustador, muito assustador. É uma dor que fica lá no fundo, na qual nós não queremos mexer. Porque, afinal, é desta forma que sentimos a pessoa perto de nós, e nos agarramos a isso por um bom tempo.

Nunca vou parar de buscar a sua presença
Nós cometemos o erro de pensar que, eventualmente, essa dor irá parar, e isso pode fazer com que nos sintamos culpados. Perder alguém querido é sempre doloroso.

Há um longo caminho a percorrer. É preciso chegar ao fundo do poço, chorar, sentir saudade e lamentar profundamente que algo foi quebrado, que esse alguém se foi, e que esse é um “antes e depois” indesejável em sua vida.

“No entanto, embora nunca deixemos de sentir solidão e tristeza pela morte de um ente querido, podemos sim recuperar nossa vida e o desejo de viver e ser feliz”

Apesar de toda a dor e tristeza, o nosso dia a dia continua, e aprenderemos a aceitar sua partida compreendendo o significado da morte e da vida.

Não é fácil se recuperar e admitir que uma parte de sua vida foi deixada inacabada. Os meses passam e continuamos nos lembrando, sentindo e pensando em tudo o que ficou pendente.


Volte a abraçá-los e renasça
“Quando a vida te separa de um ente querido, a lembrança de seu sorriso é a melhor maneira de seguir adiante”

Todos os dias de nossas vidas daríamos qualquer coisa para voltar a senti-los, para tê-los conosco por alguns minutos e dizer tudo o que agora nos sufoca. Mas podemos superar, podemos encontrar uma maneira de viver com o sofrimento e a saudade.

A melhor maneira de seguir é reinventando os abraços, tornando-os memórias e enfrentando-as todos os dias. Portanto, nossa melhor homenagem será trazer a alegria de volta para os nossos dias, fazendo com que essas lembranças participem da nossa felicidade.
 Fonte: “A morte: um amanhecer”. Elisabeth Kubler-Ross
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O CINEMA COMO FERRAMENTA PSICOTERAPÊUTICA

Nunca aconteceu de, depois de ver um filme, o modo com você via um determinado problema mudar? Ou o filme fez você adotar uma perspectiva diferente para enfrentar novas situações? E o filme fez você se distanciar um pouco de algum momento difícil da sua vida? Os benefícios do cinema como ferramenta psicoterapêutica são múltiplos. Por isso, é cada vez mais utilizado pelos profissionais de saúde.

Assistir a filmes permite que os espectadores e, portanto, os pacientes, obtenham informação de uma natureza muito distinta: linguística, visão-espacial, interpessoal e intrapsíquica. Ou seja, a comumente conhecida como “cineterapia” pode fazer do tratamento psicológico um espaço de aprendizagem completo, integral e intersensorial.

O cinema como ferramenta psicoterapêutica
proporciona inúmeros benefícios.
A leitura e o cinema
Para Bruce Skalarew, psiquiatra e psicanalista co-presidente do Forum for Psychoanalytic Study of Film, a cineterapia seguiu os mesmos passos da biblioterapia. Ou seja, a utilização de livros e a leitura como uma prática clínica.

Este médico define a sétima arte como uma ferramenta que ajuda a melhorar a saúde mental. Da mesma forma, considera este meio terapêutico como um bom complemento para as tradicionais terapias.

Walz explica que utilizar o cinema como ferramenta psicoterapêutica permite ao psicólogo apoiar-se na imagem, na música, nas cores, nos personagens, nos espaços e nos elementos teatrais. Além disso, o cinema tem o poder de facilitar a compreensão de si mesmo e realizar o que é chamado de “descarga emocional”. Em última instância, esta arte, diz Walz, ajuda a mudar nossos hábitos e a evoluir.

“A cineterapia pode ser um poderoso agente catalisador para a cura e para o crescimento daquele que está aberto à possibilidade de aprender como os filmes nos afetam, e de se propor a ver certos filmes com verdadeira atenção”.
-Birgit Walz-

Reflexão pessoal
O que eu faria se isso acontecesse comigo? Como meu parceiro reagiria se este problema acontecesse com a gente? Às vezes, os filmes fazem com que nos coloquemos em situações que, de outra forma, seriamos incapazes de imaginar.

Frequentemente nos colocamos na pele dos personagens e tentamos pensar ou ver através deles. Isso ajuda as pessoas que estão em tratamento psicoterapêutico a realizar uma introspecção de seus pensamentos, sentimentos e emoções – tanto presentes como futuros.

A aplicação do cinema como ferramenta psicoterapêutica
A primeira coisa a ser feita, segundo Gary Solomon – um dos primeiros psicólogos a abordar o uso de filmes como terapia – é selecionar aqueles filmes ou curtas que refletem o problema do paciente. Ou seja, a situação deve ser o mais parecida possível com a situação atual ou traumática do paciente.

É fundamental que o terapeuta e a pessoa conversem antes da exibição do filme. Isso serve para que ambos entendam que é preciso realizar um exercício consciente de análise do filme, para que o profissional possa reconhecer e examinar as reações do paciente.

“Sonhe como se fosse eterno, 
e viva como se fosse seu último dia”.
-James Dean-

Após a exibição do filme, é conveniente que o paciente explique as conexões e as semelhanças que encontrou entre o filme e a sua vida. É bom que ele use a imaginação e que possa se identificar com algum personagem do filme (Berg-Cross, Jennings, e Baruch, 1990).

Empatia e nova perspectiva
Um dos pontos fortes desta técnica é que ela pode melhorar as habilidades sociais e de comunicação dos pacientes. Serve como exemplo prático de situações nas quais pode-se desenvolver empatia e tornar os sentimentos, emoções e desejos próprios conscientes.

Com isso, pode-se colocar em prática a conhecida teoria da mente, ou seja, a capacidade para entender nossos próprios processos emocionais e para compreender e refletir sobre os sentimentos ou pensamentos alheios. E tudo isso através de uma sequência de imagens e engenhosos diálogos, graças à magia do cinema.

Os conflitos que observamos em protagonistas criminais nos ajudam a fixar nossos valores morais.
Além disso, esta técnica permite trabalhar com cenas específicas, focalizando ainda mais a questão a ser tratada. E mais, os personagens podem ser analisados de forma detalhada, podendo apreciar cada mudança e detalhe quantas vezes forem necessárias, voltando e reassistindo cada cena. Isso permite que sejam encontradas mais semelhanças e diferenças entre o comportamento do paciente e do ator.

O cinema como ferramenta psicoterapêutica é ainda um pouco desconhecido. Apesar de estar sendo cada vez mais integrado como estratégia complementar na prática tradicional, ainda não é suficiente. No entanto, mesmo que funcione para a maioria dos pacientes, é necessário evitar a realização desta com pessoas que sofrem de transtornos psicóticos. Nestes casos, não é garantido que a cineterapia traga benefícios.
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