Mostrando postagens com marcador filosofia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filosofia. Mostrar todas as postagens

A BANALIDADE DAS APARÊNCIAS - Christian Ingo Lenz Dunker

O mal como algo “comum” prospera 
como uma patologia das aparências

Hanna Arendt está em alta. Aqui e na Europa discute-se o legado de seu pensamento, com bons comentários e teses, sem falar no impactante filme homônimo de Margarethe von Trotta. Sua ideia mais conhecida, sobre a banalidade do mal, permitiu reler o genocídio nazista como efeito de uma superestimação do modo de vida burocrático-administrado e de nossa paixão pela obediência – e não como uma súbita epidemia de psicopatas na Alemanha de Hitler, na Itália de Mussolini ou na União Soviética de Stalin.

A ideia da banalidade do mal e sua força descritiva, tanto no que se refere à impessoalização dos carrascos voluntários, quanto à falta de resistência das vítimas, apoia-se em uma concepção muito interessante sobre o que vem a ser o nosso mundo de aparências. O mal como algo “comum” prospera como uma patologia das aparências. Ao contrário da vida, que se desenvolve em um ciclo de produção e consumo, no qual dominam os processos em permanente necessidade de reposição, o mundo é composto por acontecimentos, obras e atos que permanecem como contingência ou como impossibilidade. 

A mistura entre público e privado formou um novo tipo de sociedade que gradativamente reduziu a dimensão política, que deveria incluir atos de criação, à mera reposição de processos sociais. Dessa maneira, perdemos a possibilidade de entabular verdadeiros atos, e desenvolvemos uma existência que sentimos como meramente funcional – problema bem retratado em Um homem sério (2009), dos irmãos Cohen.

Verdadeiros atos, aliás, são poucos: dizer sim, dizer não, prometer e perdoar. Mas quando eles acontecem temos sempre imprevisibilidade dos resultados e irreversibilidade do processo, combinadas com a criação de uma nova realidade que pressiona pelo gradual anonimato dos autores. 

Por exemplo, quando dizemos “eu te amo”, como um ato, essas quarto condições são atendidas. Antes de amar todos são possíveis (imprevisibilidade), mas quando ele acontece só um é necessário (irreversibilidade). Quando o ato acontece, cria um novo estado de existência, que torna seus agentes únicos. 

Autores são paradoxalmente anônimos, pois suas identidades pregressas desaparecem como efeito do ato. Aparecer opõe-se tanto a “ser” quanto a “desaparecer”. Há, portanto, contingência e impossibilidade presentes no ato, fazendo com que sejam criadas condições próprias ali onde “pareciam” impossíveis. Até aqui Hanna Arendt caminha de modo convergente com Hegel e Lacan.

O problema do humanismo é que sua crítica da lógica das aparências o leva a advogar algum tipo de essencialismo por trás das aparências, que de certa forma seria o verdadeiro autor dos atos humanos. 

Ora, a banalidade das aparências nem sempre justifica a existência de essências encobertas ou perdidas, autênticas ou verdadeiras. A banalidade das aparências só é perigosa – nos convidando ao sentimento de irrelevância e ao seu correlativo ressentimento social – se é incapacitante para o ato, seja de pensar, querer ou julgar. E aqui o antídoto deve ser buscado em Freud. Refiro-me a Lucian Freud, neto do criador da psicanálise que se tornou um expoente da pintura figurativa na virada do século. 

Em um momento no qual a lógica das aparências se tornava suspeita e a arte partia para o irrepresentável como alternativa formal, Lucian insistia no grotesco, na caricatura e na deformação como maneira de mostrar que nem toda aparência é banal. 

Há aparências que são “acontecências” e outras que são só “parecências”. Como ele mesmo dizia: “Retrato as pessoas não pelo que elas parecem ser, e não apesar do que elas parecem ser, mas do modo como elas acontecem ser (happen to be)”.
_________________

Clique nos anúncios e ajude a custear o 
Cult Carioca. Não custa nada.
____________________


__________________


___________________________________________________

 Click

FILOSOFIA E PSICOLOGIA: AS RAÍZES - Gustavo Alves Pereira de Assis

Filosofia e Psicologia não raras vezes percorrem um caminho semelhante, mesmo que com métodos diferentes, mas sempre em busca da compreensão do ser humano. Faz-se necessário distinguir ambas sem perder a essência que é Una, conforme o pensamento de Plotino.

A filosofia como uma esfera do conhecimento busca compreender o ser humano e o mundo que o integra. A história da filosofia ocidental está dividida cronologicamente pelo período cosmológico, antropocêntrico, teológico e novamente antropocêntrico, sempre buscando em seu cerne um fascínio pelos mistérios da vida. Constitui-se, portanto de um valioso conhecimento teórico a ser aplicado na prática humana como ferramenta para a transcendência de um ser autêntico.

A palavra psicologia vem do grego antigo psyché (alma, mente) e logia (estudo, razão) que etimologicamente significa o estudo da alma ou da mente. Atualmente entende-se por psicologia o estudo do comportamento humano e animal e os processos mentais ou cognitivos, sendo esta uma definição simplista, mas adequada ao contexto. Inicialmente pode-se entender a psicologia como uma ponte entre a filosofia e a fisiologia, que ao longo de sua história evoluiu, surgindo várias áreas e abordagens, podendo-se dizer que existe psicologias, no plural, um campo de conhecimento cientifico que busca como objetivo primordial a saúde como definida pela Organização Mundial de Saúde ( OMS, 1946 ) como um ”estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na ausência de doença ou enfermidade”. Sendo assim, espera-se das psicologias uma visão integrada do ser humano como um ser biopsicossocial.

Todas as ciências evoluíram da filosofia, sendo usual chama-la de “mãe de todas as ciências”; aplicando métodos e técnicas estritamente cientificas á problemas e questões humanas, chegam-se ao conceito amplo e crítico de ciência. As psicologias existentes receberam várias influências e dentre elas a da filosofia, como busca á sabedoria. É preciso voltar ás raízes, á gênese, aos primórdios do que chamamos de psicologia.

Segundo Bock, Furtado e Teixeira (1999) é entre os filósofos gregos que surge a primeira tentativa de sistematizar a psicologia como o estudo da alma, começando pelos filósofos pré-socráticos que estudaram o homem em relação ao mundo segundo a percepção, e mais adiante com Sócrates passa-se a estudar a razão(consciência); com Platão haverá uma divisão humana ente corpo e alma, atribuindo características distintas a estas, e já Aristóteles postulava o corpo e a alma como integrados e não separados. Santo Agostinho apoiado em Platão como São Tomás de Aquino apoiado em Aristóteles, ambos filósofos e teólogos, irão em suas teorias cristianizar as principais ideias platônicas e aristotélicas. E respectivamente, a maioria das demais escolas filosóficas  irão influenciar o surgimento da psicologia como ciência, iniciada por Wundt na Alemanha.

Voltar ás raízes significa revistar o caminho feito pela psicologia e perceber uma presença filosófica neste trajeto. Algumas áreas da ciência psicológica distanciam da filosofia, enquanto outras a reconhecem como conhecimento essencial e a incorpora em suas teorias. É necessário ressaltar que a filosofia e a psicologia são campos teóricos e práticos distintos, embora possuam semelhanças que as levam ao conceito de Unidade, elemento essencial á existência humana. A filosofia prática, uma área bastante comum nos territórios norte americanos, busca levar o conhecimento filosófico ao cotidiano das pessoas nas diversas áreas da vida, como a filosofia clinica que pretende levar o cliente através do aconselhamento á uma vida harmônica e genuína.  Portanto, constitui-se um método diferenciado da psicologia, que é cientifica.

Ser filósofo e ser psicólogo são atuações diferentes. Ser filósofo é percorrer um caminho desconhecido na busca da Sabedoria, da Integração que existe na vida humana, é mergulhar dentro de si mesmo espantando-se com os abismos encontrados e procurando um sentido moral para a existência. Ser psicólogo é trabalhar em si mesmo para trabalhar o outro, é ver-se limitado, ver-se humano, mas com potência a ser explorada e transformar em ação, é utilizar-se de um conhecimento cientifico para proporcionar bem-estar ás pessoas. Filosofia e psicologia, campos inacabados, em constante evolução, fazem-se necessária para a compreensão do que é mais sutil em nós, a condição de Ser Humano.
____________________

Clique nos anúncios e ajude a custear o 
Cult Carioca. Não custa nada.
____________________


__________________


___________________________________________________

 Click

A PRISÃO DA IDENTIDADE - Eliane Brum

Prefiro me desinventar 
do que assinar minhas certezas em três vias.

Antes, a pergunta que determinava nosso lugar no mundo era: “De que família você é?” ou “Qual é o seu sobrenome” ou “Você é filho de quem?”. Depois, a pergunta migrou para: “O que você faz?”. Tanto que, junto ao nome, em qualquer matéria jornalística, segue a profissão e, de preferência, a filiação profissional. Não é mais a filiação paterna, mas sim a filiação da instituição ou da empresa que confere legitimidade a um indivíduo e o autoriza a falar e a ser escutado. “O que você faz?” ou “Onde você trabalha?” é também a segunda ou a terceira pergunta que você escuta de quem acabou de conhecer em uma festa ou evento social. Só não é a primeira porque ainda faz parte da boa educação se apresentar pelo nome antes, ou fazer algum comentário sobre a qualidade da comida ou qualquer outra banalidade. 

A questão que se impõe, antes ou agora, é a mesma: a partir de que lugar você fala. A partir do lugar de onde alguém fala, prestamos atenção ou não naquilo que diz. O lugar de onde falamos é, portanto, o que nos confere identidade. E a identidade é uma exigência do nosso mundo. 

 
Escrevo sobre isso porque tenho tentado escapar da prisão da identidade. Ou da prisão de uma identidade imutável como a impressão digital do meu polegar. E esbarro no funcionamento do mundo. Há um ano e meio vivo sem emprego. Por opção. A pergunta que mais escuto é: “Por que você deixou de ser repórter?”. Respondo que nunca passou pela minha cabeça deixar de ser repórter. Eu apenas deixei de ter emprego, o que é muito diferente. “Então você está frilando?”. Não exatamente. Não foi apenas uma troca de cadastro, de pessoa física para jurídica. Foi uma mudança mais profunda.

Explico que, a partir de uma investigação sobre a morte, compreendi que precisava me reapropriar do meu tempo e, desde então, venho fazendo uma mudança radical no meu jeito de viver. “Mas então você nunca mais vai ter emprego?”. Sei lá. Como saber? Não tenho nenhum interesse em assinar qualquer declaração de intenções em três vias. “Mas você agora trabalha mais do que antes!”, é o comentário seguinte. Sim, mas eu não mudei para trabalhar menos, pelo contrário. Eu adoro trabalhar e não me sinto oprimida pelo trabalho, porque, para mim, trabalhar é criar. Eu mudei para experimentar outras possibilidades de me expressar e de viver, o que para mim é quase a mesma coisa. “Mas você não separa trabalho da vida pessoal?” Não. Trabalho é bem pessoal para mim. “Mas você trabalha mais e ganha menos?”. Sim. “Hum.”

Eu faço várias coisas que quero fazer, tento explicar. “Então você se tornou documentarista?”, é a próxima pergunta, quando descobrem que estou no meu terceiro documentário. Às vezes, mas é mais como uma experiência de contar histórias do que como uma profissão. “Mas por que você decidiu parar de contar histórias reais para escrever ficção?”, é o questionamento mais recente, desde o lançamento do meu primeiro romance. Eu não deixei de contar histórias reais, apenas senti necessidade de escrever ficção. É mais uma voz na tentativa de dar conta do que me escapa (e continuará escapando) – e não minha única voz. “Mas então agora você é ficcionista?”. Sim e não.
Sou várias coisas ao mesmo tempo. “Hum.”

Estes são diálogos frequentes no meu cotidiano. A partir deles – e da necessidade persistente do mundo de me encaixotar em alguma identidade fixa e fácil de compreender – comecei a me indagar sobre isso. Afinal, o que as pessoas perguntam é: “Quem você é?”. E antes era fácil dizer: “Sou jornalista”. Só que isso dizia muito pouco sobre mim, já que ser jornalista é só o começo da resposta sobre quem sou eu. Assim como ser pedreiro, enfermeiro, morador de rua ou CEO é o começo superficial de uma resposta sobre quem é qualquer pessoa. Mas ter uma resposta simples para algo complexo deixava todo mundo satisfeito. Agora, minhas respostas sobre quem sou eu não satisfazem ninguém. Porque o melhor e mais honesto que posso oferecer ao meu interlocutor são mais pontos de interrogação. E, definitivamente, pontos de interrogação não são populares. O mundo exige respostas com pontos finais e, de preferência, exclamações peremptórias. 
 
Ora, quem sou eu? Não sei quem sou eu. E, quando penso que sei, me escapo. Alguém já conseguiu responder a esta pergunta com alguma quantidade razoável de certeza? Ainda assim, por não ter uma resposta fácil para uma pergunta que define as relações do nosso mundo, tornei-me um incômodo. Mas, como a questão é legítima, tenho me aprofundado nela. E, nessa busca para compreender a questão da identidade, deparei-me com uma ótima história de Michel Foucault.

Em uma passagem pelo Brasil, em Belo Horizonte, Foucault foi questionado sobre o seu lugar: “Mas, finalmente, qual é a sua qualificação para falar? Qual é a sua especialidade? Em que lugar o senhor se encontra?”. Foucault ficou chocado com a “petição de identidade”. A exigência, constante em sua trajetória, motivou uma resposta de grande beleza em seu livro Arqueologia do Saber (Forense Universitari): “Não estou, absolutamente, lá onde você está à minha espreita, mas aqui de onde o observo, sorrindo. Ou o quê? Você imagina que, ao escrever, eu sentiria tanta dificuldade e tanto prazer, você acredita que eu teria me obstinado em tal operação, inconsideradamente, se eu não preparasse – com a mão um tanto febril – o labirinto em que me aventurar, deslocar meu desígnio, abrir-lhe subterrâneos, soterrá-lo bem longe dele mesmo, encontrar-lhe saliências que resumam e deformem seu percurso no qual eu venha a perder-me e, finalmente, aparecer diante de quem nunca mais tivesse de reencontrar? Várias pessoas – e, sem dúvida, eu pessoalmente – escrevem por já não terem rosto. Não me perguntem quem eu sou, nem me digam para permanecer o mesmo: essa é uma moral do estado civil que serve de orientação para elaborar nosso documento de identidade. Que ela nos deixe livres no momento em que se trata de escrever”.

Lindo. Michel de Certeau que, como Foucault, foi alguém que conseguiu escapar dessa identidade de túmulo e, ao mesmo tempo, construir um sólido percurso intelectual, analisa essa questão em um dos textos de um livro muito instigante: História e Psicanálise – entre ciência e ficção (Autêntica). Certeau diz o seguinte sobre o episódio vivido por Foucault em Belo Horizonte:
Ser catalogado, prisioneiro de um lugar e de uma competência, desfrutando da autoridade que proporciona a agregação dos fiéis a uma disciplina, circunscrito em uma hierarquia dos saberes e das posições, para finalmente usufruir de uma situação estável, era, para Foucault, a própria figura da morte. (...) A identidade imobiliza o gesto de pensar, prestando homenagem a uma ordem. Pensar, pelo contrário, é passar; é questionar essa ordem, surpreender-se pelo fato de sua presença aí, indagar-se sobre o que tornou possível essa situação, procurar – ao percorrer suas paisagens – os vestígios dos movimentos que a formaram, além de descobrir nessas histórias, supostamente jacentes, ‘o modo como e até onde seria possível pensar diferentemente’”.

A resposta de Foucault para a plateia de Belo Horizonte foi: “Quem sou eu? Um leitor”.

Quando me perguntam sobre o lugar de onde eu falo, tenho dito nos últimos tempos: “Quem sou eu? Sou uma escutadeira”. E agora posso até citar Foucault para a resposta ficar mais chique.

Na semana passada, participei de um debate na Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo (RS), com Edney Silvestre e Nick Monfort. Terminava minha apresentação dizendo:
A vida é um traçado irregular de memórias no tempo. Quero que, como inventário do vivido, meu corpo tenha as marcas de todas as histórias que fizeram de mim o que sou. E, se meus netos e bisnetos forem me contar, espero que jamais cheguem a qualquer conclusão fechada sobre a minha identidade. Esta seria a maior prova de que vivi”.

Depois, a certa altura do debate, repeti que minha identidade era fluida. E que hoje estava mais interessada em me desinventar do que em me inventar, em me desidentificar do que em me identificar. À noite, quando me preparava para deixar a universidade, fui cercada por um grupo de garotas: “Obrigada pelo que você disse sobre a identidade”.

Percebi que, no mundo líquido em que a internet nos lançou, há algo sobre a compreensão do que é identidade que começa a mudar. É neste mundo novo que os mais jovens tentam dar passos de astronauta, mas a gravidade da antiga ordem os prende no chão. Ainda que por razões e tempos diferentes, eu e aquelas garotas, assim como muitos outros por aí, nos conectamos nas esquinas voláteis de um mundo que ainda é determinado por padrões de cimento.

Ao pegar o avião que me levaria de volta para São Paulo, olhei para a carteira de identidade descolada, parcialmente apagada e um tanto esfarrapada que apresentei no embarque. E finalmente entendi por que não consigo me convencer a substituí-la por uma nova. Enquanto me permitirem, é com ela que vou embarcar. Porque é nela que me reconheço. Quando me obrigarem a trocá-la, vou obedecer. Mas as autoridades jamais saberão que é em uma identidade que se desprende de si que reside minha verdade.
_________________

____________________________
Clique nos anúncios e ajude a custear o 
Cult Carioca. Não custa nada.
____________________


__________________


___________________________________________________

 Click

A VERDADE É UM MODO DE ESTARMOS BEM CONOSCO – Vergílio Ferreira

Cada época, como cada idade da vida, tem o seu secreto e indizível e injustificável sentido de equilíbrio.

Por ele sabemos o que está certo e errado, sensato e ridículo. E isto não é só visível no que é produto da emotividade. É visível mesmo na manifestação mais neutral como uma notícia ou um anúncio de jornal. Donde nasce esse equilíbrio? Que é que o constitui? O que o destrói?

Porque é que se não rebentava a rir com os anúncios de há cento e tal anos? 

Mas a razão deve ser a mesma por que se não rebentou a rir com a moda que há anos usávamos, os livros ridículos que nos entusiasmaram, as anedotas com que rimos e de que devíamos apenas rir. O homem é, no corpo como no espírito, um equilíbrio de tensões.

Só que as do espírito, mais do que as do corpo, se reorganizam com mais frequência. Equilibrado o espírito, surge uma ideia nova. Se não é expulsa, há nela a verdade. Porque a verdade é isso: a inclusão de seja o que for no nosso mecanismo sem que lhe rebente as estruturas. Ou: a coerência de seja o que for com o nosso equilíbrio espiritual.

A verdade é um modo de estarmos de bem conosco. Mas é um mistério saber o que nos põe a bem ou a mal. Os anúncios de há cem anos eram ridículos porque sim. Nos meus escritos de há anos, mesmo nos ensaios, aquilo de que me separo não são muitas vezes as ideias, a argumentação, mas um certo modo de se olhar para os argumentos, os problemas, um certo nível humano de encarar as coisas.

Leio um ensaio de há vinte anos e sinto que eu tinha menos vinte anos. Há um nível etário para a mesma verdade.

A verdade de que falei há vinte anos é-me exatamente a de hoje; e, todavia há uma defasagem no modo como corri para ela e me entusiasmei com ela e me comovi com ela. Tudo agora me acontece ainda, mas num registro diferente. Não é em si que as verdades envelhecem: é com as rugas que temos no rosto e na alma.
Vergílio Ferreira - Escritor português
28 Jan 1916 // 1 Mar 1996
_______________________

Clique nos anúncios e ajude a custear o 
Cult Carioca. Não custa nada.
____________________


__________________


___________________________________________________

 Click

A NOSSA FALSA VERDADE – Goethe

Uma vez que em boa verdade os homens apenas se interessam pela sua opinião própria, qualquer indivíduo que queira apresentar uma dada opinião trata de olhar para um lado e para o outro à procura de meios que lhe permitam dar força à posição, sua ou alheia, que defende.

As pessoas servem-se da verdade quando ela lhes é útil, mas recorrem com retórica paixão à falsidade logo que se lhes depara o momento em que a podem usar para produzir a ilusão de um meio-argumento e dar assim, com uma manobra de diversão, a aparência de unificar aquilo que se apresenta como fragmentário.

A princípio, quando me apercebia de tais situações, ficava incomodado, depois passei a ficar perturbado, mas tudo isso suscita-me hoje um prazer malicioso.

E prometi a mim mesmo que nunca mais volto a pôr a descoberto esse tipo de procedimentos.
______________

Clique nos anúncios e ajude a custear o 
Cult Carioca. Não custa nada.
____________________


__________________


___________________________________________________

 Click

O NOVO EROTISMO FEMININO - Roberto DaMatta

Não se pode falar de mulheres sem mencionar os homens, do mesmo modo que não há como discutir juventude sem falar da velhice. Há um novo erotismo feminino, e esse erotismo corresponde a novos modos de ser homem, ser jovem e ficar idoso ou, como se diz com uma boa dose de ironia, de entrar na “melhor idade”. 

Outro dia, em conversa com um amigo da minha geração, falávamos – a propósito do erotismo feminino – dos elos entre mulheres e homens neste Brasil sem inflação, mas com alta corrupção, e com um conjunto de imagens e possibilidades de ser mulher.

No Brasil antigo, as mulheres eram mães, virgens ou prostitutas. Hoje, elas podem o que quiserem, tal como os homens, que, hoje, não podem mais ser definidos em termos de machos ou gays. Inimaginável, dizia meu amigo, essa liberdade de aparências e estilos de vestir-se, comportar-se e trabalhar que temos hoje. Os modelos femininos antigos são trocados nas heroínas centrais do drama da novela Avenida Brasil. 

Na trama, um vingador – espécie de Conde de Monte Cristo de saias –, a personagem Nina, tem como projeto de vida ajustar contas com sua oponente, Carminha. E ambas, cada qual a seu modo, representam a mulher que atrai pela liberdade e seduz pelo fingimento.

Nina tem a mobilidade dos homens e anda de lambreta, algo que combina com suas calças compridas e cabelos cortados. Carminha só anda em automóvel de quatro portas, usa joias caras e se desveste lentamente como manda o figurino clássico de quem usa vestido, sutiã e calcinha, nos quadros de um “striptease” tradicional. 

Carminha corresponde ao modelo da mulher brasileira tradicional, que vai à igreja, ajuda os pobres e faz o papel de “dona de casa” e mãe exemplar. Mas ela faz isso com homens diferentes, e a novidade da novela é precisamente esse duplo papel que distingue e iguala Nina e Carminha, ambas sendo duas pessoas em uma, do mesmo modo que as empregadas lindas e oprimidas pelo preconceito da novela Cheias de charme surgem como cantoras, mostrando um talento que a sociedade inibia.

No fundo, concordamos, meu amigo e eu, todas atraem e têm seu erotismo, mas as que vestem o modelo das domésticas que viram cantoras surgem como mais previsíveis (elas querem ascender socialmente), ao passo que Carminha e Nina atraem por uma duplicidade que as torna imprevisíveis. “La donna è mobile”: é volúvel como uma pena ao vento, conforme dizia o grande Giuseppe Verdi em seu Rigoletto.

Se olharmos bem, vemos que, em todos os casos, o erotismo feminino só se realiza quando surgem os homens. Tufão tem Carminha como “esposa fiel”ou “mulher da casa”, mas quem conhece o outro lado dessa figura – seu lado de “mulher da vida e da rua” – é Max, o parceiro que experimenta sua dimensão hipócrita, abusiva e lúbrica. Eis o retorno da mulher como mãe e como prostituta, atuando no fundo de um drama inovador. Fica somente faltando a virgem – que, entretanto, como nota meu amigo, está presente na Suelen, que vai se transformando de uma maravilhosa “periguete” numa incrivelmente linda mocinha, digna do amor de um jovem enrolado por todas essas imagens e modelos, além de se revelar uma brilhante empresária. Aí está um papel profissional que escapa inteiramente dos lugares tradicionais oferecidos às mulheres nas sociedades tradicionais.

A pureza da virgindade, que se misturava a uma candura que nosso mundo globalizado tem banido como ingenuidade e tolice, ainda dá audiência. E surge na inocência das empregadinhas cantoras cheias de charme, a denunciar de modo bem-humorado a saia justa de um papel social e de um emprego que é uma sobrevivência da escravidão: a empregada doméstica que pode tudo, menos competir com a patroa. Algo impossível quando seu papel é realizar aquilo que suas patroas ainda fazem: serviços domésticos.

Ao final desse diálogo, meu amigo e eu chegamos a um ponto revelador. As sociedades não se transformam com a mesma velocidade dos padrões estéticos, das moralidades, das tecnologias e das modas que elas mesmas produzem, mas – mesmo assim – mudam. É justamente nesse diálogo do novo com o antigo que se alteram e alternam, o que mostra a importância da literatura, do teatro, da televisão e do cinema. Os papéis sociais tradicionais femininos e masculinos – e de jovem ou de velho – surgem claramente, mas nos rituais e momentos solenes. Na missa, ninguém duvidará da castidade de um padre; na família, ninguém acusa a mãe de ser uma depravada; na rua, um velho pedinte ganha mais esmolas que um jovem; na sala de aula, o papel de professor obriga a seguir certas normas; e, numa balada, ninguém pedirá uma periguete em casamento. As noivas continuam casando de branco mesmo quando não são mais virgens. Eis a pergunta que o novo erotismo feminino coloca: o que é a virgindade, se tudo tem sempre uma primeira (e uma última) vez?

Como não retomar a ideia de pureza, de consistência, de fidelidade e de lealdade quando as escolhas são tão amplas e baseadas na individualidade? Pensar que esses papéis são determinantes não é um erro. O erro é imaginar que eles não podem ser combinados e exercidos, dentro de certos limites, por uma mesma pessoa. Carminha, Nina, Suelen e as empregadinhas cantoras são exageros sem os quais não há drama ou comédia. Na vida real e neste nosso mundo pós-moderno, uma maior liberdade tem também conduzido a uma maior consciência das inconsistências.

O mulatismo moderno, que nos leva a morar em 
muitos países, a gostar de muitos gêneros musicais e artísticos, que nos leva a ver novelas e Shakespeare, futebol e ópera, a comer caviar e adorar feijão com farofa, ou a ser um híbrido de periguete com virgem-mãe, não nos exime das responsabilidades que esses gostos ou escolhas demandam de cada um de nós. É aí que está o nó da vida social e, quem sabe, da sabedoria.
________________

Clique nos anúncios e ajude a custear o 
Cult Carioca. Não custa nada.

____________________


__________________


___________________________________________________

 Click

Visite os anúncios e ajude a custear o Cult Carioca.
Não custa nada.







MORALIDADE E FELICIDADE - Emmanuel Kant

A felicidade é o estado em que se encontra no mundo um ser racional para quem, em toda a sua existência, tudo decorre conforme o seu desejo e a sua vontade; pressupõe, por consequência, o acordo da natureza com todo o conjunto dos fins deste ser, e simultaneamente com o fundamento essencial de determinação da sua vontade.

Ora a lei moral, como lei da liberdade, obriga por meio de fundamentos de determinação, que devem ser inteiramente independentes da natureza e do acordo dela com a nossa faculdade de desejar (como motor). Porém, o ser agente racional que actua no mundo não é simultaneamente causa do mundo e da própria natureza.
____________________


__________________

Assim, pois, na lei moral não há o menor fundamento para uma conexão necessária entre a moralidade e a felicidade, com ela proporcionada, num ser que, fazendo parte do mundo, dele depende; este ser, precisamente por isso, não pode ser voluntariamente a causa desta natureza nem, no que à felicidade respeita, fazer com que, pelas suas próprias forças, coincida perfeitamente com os seus próprios princípios práticos.

E, todavia, no problema prático que a razão pura nos prescreve, isto é, na prossecução do soberano bem, tal acordo é postulado como necessário: devemos procurar realizar o soberano bem, que, por consequência, tem de ser possível.

Por conseguinte, postular também a existência de uma causa de toda a natureza, distinta da própria natureza que encerra o fundamento de tal conexão, isto é, a exacta harmonia da felicidade e da moralidade.

Mas esta causa suprema deve conter o fundamento do acordo da natureza, não só com uma lei da vontade dos seres racionais, mas com a representação dessa lei, na medida em que eles fazem dela o motivo supremo da sua vontade, e, por consequência, não só apenas com a forma dos costumes, mas com a própria moralidade como fundamento determinante, isto é, com a intenção moral.
____________________


__________________

O soberano bem não é, portanto, possível no mundo, a não ser que se admita uma natureza suprema dotada de causalidade conforme a intenção moral. Ora um ser capaz de agir segundo a representação de certas leis é uma inteligência (ser racional) e a causalidade de tal ser, segundo essa representação das leis, é uma vontade.

Portanto, a causa suprema da natureza, como condição do soberano bem, é um ser que, por razão e vontade, é a causa, por conseguinte, o autor da natureza, isto é, Deus. 
in 'Crítica da Razão Prática'
Emmanuel Kant – Alemanha - 22 Abr 1724 // 12 Fev 1804 
__________________________

Clique nos anúncios e ajude a custear o 
Cult Carioca. Não custa nada.

____________________


__________________


___________________________________________________

 Click

APRENDER A VER - Friedrich Nietzsche

Aprender a ver - habituar os olhos à calma, à paciência, ao deixar-que-as-coisas-se-aproximem-de-nós; aprender a adiar o juízo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lados.

Este é o primeiro ensino preliminar para o espírito: não reagir imediatamente a um estímulo, mas sim controlar os instintos que põem obstáculos, que isolam.

Aprender a ver, tal como eu o entendo, é já quase o que o modo afilosófico de falar denomina vontade forte: o essencial nisto é, precisamente, o poder não «querer», o poder diferir a decisão. Toda a não-espiritualidade, toda a vulgaridade descansa na incapacidade de opor resistência a um estímulo — tem que se reagir, seguem-se todos os impulsos.
____________________


__________________

Em muitos casos esse ter que é já doença, decadência, sintoma de esgotamento, — quase tudo o que a rudeza afilosófica designa com o nome de «vício» é apenas essa incapacidade fisiológica de não reagir. — Uma aplicação prática do ter-aprendido-a-ver: enquanto discente em geral, chegar-se-á a ser lento, desconfiado, teimoso.

Ao estranho, ao novo de qualquer espécie deixar-se-o-á aproximar-se com uma tranquilidade hostil, — afasta-se dele a mão.

O ter abertas todas as portas, o servil abrir a boca perante todo o facto pequeno, o estar sempre disposto a meter-se, a lançar-se de um salto para dentro de outros homens e outras coisas, em suma, a famosa «objectividade» moderna é mau gosto, é algo não-aristocrático par excellence.

Friedrich Nietzsche (15 Out 1844 // 25 Ago 1900) in "Crepúsculo dos Ídolos".
__________________________

Clique nos anúncios e ajude a custear o 
Cult Carioca. Não custa nada.

____________________


__________________


___________________________________________________

 Click

ELA E A TAÇA DE VINHO - Luiz Felipe Pondé

A dúvida, antes de tudo anatômica, 
revela uma profunda ignorância, 
sobretudo espiritual

Ela parecia ansiosa em meio àquelas pessoas, mas era apenas desejo. Bebera muitas taças de vinho. Sabe-se, há milênios, que a virtude de uma mulher depende do número de taças de vinho que bebe.
____________________


__________________

Aliás, segundo relatos genealógicos, os antigos praticavam um ritual bastante comum e que, segundo alguns especialistas, ainda é praticado hoje em dia. O ritual, apesar de pouco sabermos de seus detalhes, implicava no uso da mulher como taça de vinho.

As mulheres quando tomam muitas taças de vinhos (não todas, como pessoa que sabe se comportar à mesa, sei que nem todas são iguais, algumas são diferentes) sonham em ser elas mesmas usadas como taça de vinho.

Alguns homens, pouco informados, se perguntam, afinal, como uma mulher poderia ser usada como uma taça de vinho. A dúvida, antes de tudo anatômica, revela uma profunda ignorância, antes de tudo, espiritual.
____________________


__________________

Perguntas assim são como aquelas que, normalmente, homens chatos fazem no final da noite, e que exigiriam respostas semelhantes a explicar a razão de Deus ter criado o universo, sendo Ele todo poderoso e vivendo Ele muito bem em Sua solidão perfeita.

Já elas, nascem sabendo. Mas, muitas vezes, esse "saber" (como dizem os afetados teóricos pós-modernos pra se referirem ao conhecimento) é mesmo da ordem inconsciente, não do inconsciente da mente, mas da pele. Esse "saber" é aquele que torna úmido o coração entre as pernas.

Outra forma de perceber esse desejo avassalador de ser usada como taça de vinho é pelo olfato. Ela, seguramente, em meio a todas as palavras ditas ao vento, como é comum em ambientes sociais cheios de gente inteligente, exala o odor típico de quando se quer misturar pele, saliva e vinho.

Certa feita, quando eu disse que a virtude de uma mulher dependia do número de taças de vinho que ela bebia, um desses jovens trêmulos e muito magros, que gostam de pensar que superaram o machismo por alguma forma de desejo inofensivo (ela sempre sabe que todo desejo que importa é ofensivo de alguma forma), me acusou de ser niilista.

Por quê?
____________________


__________________

 Simples. Porque eu negava a existência da virtude "em si" já que eu a reduzia, segundo ele, ao efeito da presença ou ausência da quantidade de álcool no sangue.

Claro, poderia ter dito a ele que desde a filosofia grega cética, caras como Enesidemo (nascido em Creta no século 1º antes de Cristo) ou Sexto Empírico (médico e filósofo grego que viveu entre Atenas, Alexandria e Roma entre os séculos 2 e 3 depois de Cristo) afirmavam que o comportamento de alguém nunca pode ser tomado como "verdadeiro" porque se ele (ou ela) bebeu algo, o comportamento fica diferente.

A dúvida cética aplicada a ela seria assim: afinal, quem é ela? A jovem e muito compenetrada intelectual ou a deliciosa bêbada que sonha em ser usada como taça de vinho? Quem é "seu verdadeiro ser"?

Óbvio que nada disse ao jovem trêmulo porque, na verdade, ele provavelmente nada entenderia uma vez que tendo ele já suposto que se pode desejar uma mulher "com respeito", isso significa que ele não conhece esse recôndito recanto da alma feminina e sua irresistível vocação para fundamentar sua virtude no número de taças de vinho que bebe numa noite.

Mas, a verdadeira crítica do jovem trêmulo à minha afirmação era que eu estaria duvidando da capacidade feminina de ser honesta "em si". Meu Deus, quanta cegueira num corpo tão magro.

As meninas à nossa volta, todas já tendo tomado algumas taças de vinho, imersas em pura misericórdia, sorriam pra mim pedindo que fosse piedoso.
____________________


__________________

Escravo como sou da virtude feminina máxima, sua beleza, cedi imediatamente ao impulso de me defender de tamanha absurda acusação de duvidar da honestidade feminina "em si".

A verdade, aquela altura da noite, é que eu estava de fato fazendo uma ode a mais pura honestidade feminina em si: a honestidade que vem diluída no número de taças de vinho que ela bebe.

A prova máxima, e que no passado os homens aprendiam desde jovens (hoje eles aprendem a ter medo das mulheres que os desejam), é que quando ela quer mentir, ela não bebe nada.
__________________________




AS VIDAS QUE DEIXAMOS DE VIVER - Gontardo Calligaris

Quase sempre, quando encontramos alguém que nos encanta, começamos por lhe contar nossa vida e expor nossos projetos --pois é possível que, para um casal, compartilhar planos seja mais importante do que cada um conhecer e entender o passado do outro.

Em suma, a gente se apresenta ao outro como numa entrevista de emprego, dizendo o que fizemos e o que esperamos. Afinal, somos uma mistura da vida vivida com o futuro sonhado, não é?
____________________


__________________

Acabo de ler o último livro de Adam Phillips, psicanalista inglês que é um dos autores que mais me estimulam a pensar: "Missing out: In Praise of the Unlived Life", (Farrar, Straus and Giroux) (perder: elogio da vida não vivida --"missing out" é perder no sentido em que você chega atrasado na festa e pergunta: perdi alguma coisa?).

Justamente, à história passada e aos sonhos Phillips acrescenta mais um ingrediente que nos define: o conjunto das vidas que deixamos de viver --porque não foi possível, porque alguém nos impediu, porque ficamos com medo, porque escolhemos outro caminho, porque a sorte não quis.

Algumas vidas não vividas são alternativas descartadas pela inércia da nossa história ou porque o desejo da gente é dividido, e escolher implica perder o que não escolhemos.
____________________


__________________

Outras são acasos que não aconteceram (é possível passar pela vida sem encontrar ninguém ou encontrando muitos, mas todos na hora errada).

Também, mais dolorosamente, as vidas não vividas são caminhos pelos quais não ousamos nos enveredar (na inscrição para o vestibular, na decisão de voltar de um lugar onde teríamos começado outra vida, nos conformismos de cada dia).

Essas vidas não vividas podem nos enriquecer ou nos empobrecer. Elas nos enriquecem quando integram nossa história como tramas alternativas de um romance, incluídas no rodapé da edição crítica.

Melhor ainda, como tramas alternativas às quais o autor renunciou, mas que ele se esqueceu de apagar inteiramente: o herói não vai mais para África no capítulo dois, mas eis que, no capítulo sete, aparece um africano que ele conheceu antes, mas que não se entende de onde vem, a não ser que a gente leia aquela parte do dois que foi abandonada.
____________________


__________________

Aqui, um conselho: é útil frequentar as vidas não vividas de nossos parceiros (para evitar surpresas desnecessárias, como a chegada de personagens que não fazem parte nem do passado nem dos sonhos do outro, mas das vidas às quais ele achava ter renunciado).

Agora, as vidas não vividas podem sobretudo nos empobrecer, levando-nos a viver num eterno lamento por algo que não nos foi dado, que perdemos ou do qual desistimos. Esse, aliás, é o futuro que estamos preparando para nossas crianças.

Uma das razões pelas quais as vidas não vividas condenarão as crianças de hoje à sensação de desperdício é a popularidade do mito do potencial. Alguém não está se tornando tudo o que esperávamos? Que pena, com o potencial que ele tinha...
____________________


__________________

De onde vem a ideia de que nossas crianças seriam dotadas de disposições milagrosas e que o maior risco seria o de elas desperdiçarem o que já é seu patrimônio?

O potencial das crianças modernas tem duas propriedades: ele é genérico (ou seja, não é fundado em nenhuma observação específica, é uma espécie de a priori: criança tem grande potencial, em tudo) e ele deve dar seus frutos espontaneamente, sem esforço algum da parte da criança.

Nossos rebentos são dotadíssimos para esporte, desenho, criação, música, ciência, estudo, línguas estrangeiras etc. E, se os resultados escolares forem péssimos, as crianças nunca são preguiçosas, elas só estão desperdiçando seu "incrível potencial". Há uma cumplicidade de todos ao redor dessa ideia.

Os pais querem que as crianças sejam tudo o que eles não conseguiram ser na vida. Pior, eles querem que as crianças cumpram essa missão sem esforços, por milagre (o milagre do "potencial").
____________________


__________________

Os professores acham no potencial uma maneira maravilhosa de assinalar que fulano é medíocre sem atrapalhar o sonho dos pais da criança, os quais podem seguir pensando que seu filho leva notas infernais, mas vale a pena insistir (e pagar a escola mais cara) porque ele tem um potencial extraordinário.


Quanto aos filhos, acreditar em seu próprio "potencial" é uma maneira barata para se sentir especial, apesar de resultados pífios. Problema: na hora, inevitável, do fracasso, quem aposta no seu potencial conhece a sensação especialmente dolorosa de ter traído a si mesmo (ou seja, ao seu "potencial").




APRENDA A RESPIRAR CERTO E REDUZA ANSIEDADE, PRESSÃO ALTA E DIABETES

APRENDA A RESPIRAR CERTO E REDUZA ANSIEDADE, PRESSÃO ALTA E DIABETES
CLIQUE nos anúncios e ajude a manter o Cult Carioca. Não custa Nada.

A ALMA ESTÁ NA CABEÇA - Dr. Paulo Niemeyer Filho

VÍDEO - VINAGRE DE MAÇÃ EMAGRECE E CONTROLA DIABETES E COLESTEROL - Dr. Wilson Rondó

VÍDEO - VINAGRE DE MAÇÃ EMAGRECE E CONTROLA DIABETES E COLESTEROL - Dr. Wilson Rondó
CLIQUE nos anúncios e ajude a manter o Cult Carioca. Não custa Nada.

RÁDIO CULT CARIOCA - Smooth Jazz

RÁDIO CULT CARIOCA  - Smooth Jazz
Smooth Jazz

TOP 10

Seguidores