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FRIEDRICH NIETZCHE - Frases


Temos sentido muito pouco alegria. Este, somente, é o nosso pecado original.
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Eis o momento! Começando nesta porta, um longo e
eterno caminho mergulha no passado: atrás de nós está
uma eternidade! Não será verdade que todos os que
podem andar têm de já ter percorrido este caminho?
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"Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar."
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E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.
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Amareis a paz como um meio para uma nova guerra. E amareis mais a paz breve do que a prolongada. Aconselho-vos não a trabalhar, mas a lutar! Aconselho-vos não à paz, mas à vitória! Dizeis que a boa causa santifica até mesmo a guerra? Eu vos digo é a boa guerra que santifica toda causa! A guerra e a coragem tem feito mais do que a caridade!
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Os grandes intelectuais são cépticos.
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Todo conhecimento implica em poder.
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As convicções são cárceres. Mais inimigas da verdade do que as próprias mentiras.
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Tudo na mulher é adivinha e tudo nela tem uma única solução e essa é a gravidez.
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Sem a música, a vida seria um erro.
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O sucesso tem sido sempre um grande mentiroso.
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As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras.
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Nunca odiamos aos que desprezamos. Odiamos aos que nos parecem iguais ou superiores a nós.
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A música oferece às paixões o meio de obter prazer delas.
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Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez! E falsa seja para nós toda a verdade que não tenha sido acompanhada por uma gargalhada!
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A arte deve antes de tudo e em primeiro lugar embelezar a vida, portanto fazer com que nós próprios nos tornemos suportáveis e, se possível, agradáveis uns aos outros.
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Somos muito injustos com Deus. Nem sequer Lhe permitimos pecar.
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Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse.
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O fanatismo é a única forma de força de vontade acessível aos fracos
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O FUTURO DA ESPÉCIE HUMANA - Manoel de Oliveira

Não sei se as populações estão a aumentar ou a diminuir. É claro que, com o aborto, com a pílula, com as "camisas de Vénus", com a soma dessas coisas todas, a procriação diminui, a velhice aumenta; a receita dos impostos diminui, porque há menos jovens no trabalho e há mais velhos a ser remunerados.

É preciso que a população aumente sempre e que não se faça a desertificação da província, como está a acontecer. Tiram escolas, hospitais e as pessoas desertificam essas cidades. Porque é da província, da cultura da terra, que nós vivemos, e ela está desertificada.

[Mas eu referia-me mesmo à sobrevivência do planeta Terra. Acha que ele está em perigo?]

Está em perigo, claro. De tal modo que a gente pergunta: onde está a inteligência do homem? Há um progresso, é certo, mas esse progresso encaminha-se para a morte.
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O EGOÍSMO PESSOAL TAPA TODOS OS HORIZONTES – José Saramago

 O mal e o remédio estão em nós. A mesma espécie humana que agora nos indigna, indignou-se antes e indignar-se-á amanhã.

Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o sentido da solidariedade, o sentido cívico, que não deve confundir-se nunca com a caridade.

É um tempo escuro, mas chegará, certamente, outra geração mais autêntica. Talvez o homem não tenha remédio, não tenhamos progredido muito em bondade em milhares e milhares de anos sobre a Terra.

Talvez estejamos a percorrer um longo e interminável caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, não sei onde nem quando, cheguemos a ser aquilo que temos de ser.

Quando metade do mundo morre de fome e a outra metade não faz nada... alguma coisa não funciona. Talvez um dia!
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OS VERDADEIROS MALES - Marguerite Yourcenar

 Vejo uma objeção a qualquer esforço para melhorar a condição humana: é que os homens são talvez indignos dele. Mas repilo-a sem dificuldade: enquanto o sonho de Calígula se mantiver irrealizável e todo o gênero humano se não reduzir a uma única cabeça oferecida ao cutelo, teremos que o tolerar, conter e utilizar para os nossos fins; sem dúvida que o nosso interesse será servi-lo.

O meu processo baseava-se numa série de observações feitas desde há muito tempo em mim próprio: toda a explicação lúcida me convenceu sempre, toda a delicadeza me conquistou, toda a felicidade me tornou moderado.

E nunca prestei grande atenção às pessoas bem intencionadas que dizem que a felicidade excita que a liberdade enfraquece e que a humanidade corrompe aqueles sobre quem é exercida. Pode ser: mas, no estado habitual do mundo, é como recusar a alimentação necessária a um homem emagrecido com receio de que alguns anos depois ele possa sofrer de superabundância.

Quando se tiver diminuído o mais possível as servidões inúteis, evitado as desgraças desnecessárias, continuará a haver sempre, para manter vivas as virtudes heróicas do homem, a longa série de verdadeiros males, a morte, a velhice, as doenças incuráveis, o amor não correspondido, a amizade recusada ou traída, a mediocridade de uma vida menos vasta que os nossos projetos e mais enevoada que os nossos sonhos: todas as infelicidades causadas pela divina natureza das coisas.
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DE QUE VALE A SABEDORIA? – Erasmo de Roterdam

Os homens que se entregam à sabedoria são de longe os mais infelizes. Duplamente loucos, esquecem que nasceram homens e querem imitar os deuses poderosos, e a exemplo dos Titãs, armados com as ciências e as artes, declaram guerra à Natureza.

Ora, os menos infelizes são aqueles que mais se aproximam da animalidade e da estupidez.

Tentarei fazer-vos entender isto, usando, em vez dos argumentos dos estóicos, um exemplo crasso. Haverá, pelos deuses imortais, espécie mais feliz que os homens a quem o povo chama loucos, parvos, imbecis, cognomes belíssimos, na minha opinião?

Esta afirmação poderá a princípio parecer insensata e absurda e, no entanto, nada há de mais verdadeiro. Tais homens não receiam a morte, e, por Júpiter! Isso já não representa pequena vantagem?

A sua consciência não os incomoda. As histórias de fantasmas não os aterrorizam, nem os afeta o medo das aparições e espectros, nem os males que os ameaçam ou a esperança dos bens que poderão vir a receber. Nada, em resumo, os atormenta, isentos dos mil cuidados de que a vida é feita. Ignoram a vergonha, o medo, a ambição, a inveja e chegam mesmo, se são suficientemente estúpidos, a gozar o privilégio, segundo os teólogos, de não cometerem pecados.

Passai agora em revista, ó louco sábio, todas as noites e infinitos dias em que a inquietação crucifica a tua alma. Olha bem para todos os aborrecimentos da tua vida e tenta compreender, enfim, de quantos males eu liberto os meus loucos. Acresce ainda que não só passam o tempo em divertimentos, risos e canções, como levam a todos os que os rodeiam o prazer, os seus jogos, o divertimento e a alegria, como se a indulgência divina os tivesse destinado a afastar a tristeza da vida humana.

Além disso, quaisquer que sejam as disposições de uns para os outros, todos os reconhecem como amigos; procuram-nos, adoram-nos, acarinham-nos, gostam de conversar com eles, permitem-lhes que tudo digam e tudo façam. Ninguém os tenta prejudicar e os próprios animais ferozes evitam fazer-lhes mal como se instintivamente os soubessem inofensivos. Estão, com efeito, sob a proteção dos deuses e, sobretudo sob a minha égide, rodeados pelo respeito universal. 
Erasmo de Roterdam, in "Elogio da Loucura" (fala a Loucura).
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MENTIMOS PARA PROTEGER NOSSO PRAZER – Marcel Proust


A mentira é essencial à humanidade. Nela desempenha porventura um papel tão importante como a procura do prazer, e de resto é comandada por essa mesma procura.

Mentimos para proteger o nosso prazer, ou a nossa honra se a divulgação do prazer for contrária à honra.

Mentimos ao longo de toda a nossa vida, até, e sobretudo, e talvez apenas, àqueles que nos amam.

Só estes, com efeito, nos fazem temer pelo nosso prazer e desejar a sua estima.

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A VIDA ESCORRE ENTRE NOSSOS DEDOS - Will Durant

 Volta-se o rico para os prazeres da carne e a maior parte do mundo faz o mesmo. E não sem acerto, porque todas as coisas agradáveis devem ser tidas como inocentes, e até que se provem culpadas todas as presunções pendem a seu favor.

A vida já é bastante penosa para que ainda a agravemos com proibições e obstáculos aos seus deleites; tão arisca se mostra a felicidade que todas as portas por onde ela queira entrar devem permanecer escancaradas. A carne enfraquece muito precocemente - e os olhos olham com melancolia para os prazeres de outrora.

Muito rapidamente todas as alegrias perdem a vivacidade - e admiramo-nos de como pudessem ter-nos interessado tanto. O próprio amor torna-se grotesco logo que atinge os seus fins. Guardemos o ascetismo para a estação própria - a velhice.

É este o grande drama do prazer; todas as coisas agradáveis acabam por amargar; todas as flores murcham quando as colhemos, e o amor morre tanto mais depressa quanto é mais retribuído. Por isso o passado parece-nos sempre melhor que o presente; esquecemos os espinhos das rosas colhidas; saltamos por cima dos insultos e injúrias e demoramo-nos sobre as vitórias.

O presente parece muito mesquinho diante de um passado do qual só retemos na memória o bom, e diante de um futuro que ainda é sonho. O que alcançamos nunca nos contenta; «olhamos para diante e para trás em procura do que não está ali»; não somos bastante sábios para amar o presente do mesmo modo que o amaremos quando se tornar passado.

Quando mergulhamos num prazer, o nosso olhar vai para longe - a felicidade ainda não está alcançada apesar de termos o deleite nos nossos braços. Que mau demônio nos afeiçoou assim?

William James Durant - 5 Nov 1885 // 7 Nov 1981 - Filósofo, historiador e escritor norte-americano, conhecido pela autoria, junto à sua esposa Ariel Durant, da coleção A História da Civilização.
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PARA QUE SERVE A CELEBRIDADE? - Roberto DaMatta

Quero começar com uma nota sobre a celebrização como um problema e como um valor. A ultima besteira aprontada pelo jovem cantor Justin Bieber, que minhas netas mais novas idolatram (ou idolatravam), ajuda e, intrigantemente, coincide com o que elaborei na semana passada sobre esse tema.

Uma sociologia da modernidade avançada, globalizada e marcada pelo hiperconsumo não pode deixar de meditar sobre a celebrização e o sucesso como paradoxos. Pois como distinguir e buscar a fama que inevitavelmente leva as pessoas para cima ou para baixo numa sociedade fundada num individualismo igualitário que horizontaliza?

Deste ponto de vista, a celebrização traz à tona a hierarquia (ou um centro desejado) como um valor implícito ou até mesmo envergonhado num sistema que, idealizadamente, se pensa como descentralizado porque é feito de iguais. A celebrização revela também como o sistema oscila entre a ênfase no individual (ou nas suas peças ou partes) e em como essas partes se relacionam entre si formando um tecido ou uma totalidade. A regra é salientar a parte, mas a celebrização não nos deixa esquecer o todo. Talvez essa seja sua principal função e ela está contida na pergunta: por que ele (ou ela) e não eu?

Não se trata, como bem viu Tocqueville, de achar que o regime igualitário suprima a excelência ou a singularidade extraordinária que dimensionam o ideal da aristocracia; mas de ter suficiente lucidez para compreender que a igualdade não suprime a gradação; e que a ênfase no individuo ou na parte não acabam com o todo. O numero um em alguma esfera das artes não liquida os elos entre as pessoas. As coletividades humanas são reconhecidamente humanas, justamente porque preservam essas dimensões.

Há o momento da celebrização e o momento em que ela, como o Justin Bieber condenado, revela o jovenzinho banal, igualzinho aos nossos filhos e netos.

Num mundo igualitário, o processo de celebrização legitima a crença de que todos são iguais e alguns se diferenciam pelo talento. É o caso especifico do esporte e das artes musicais e cênicas, mas isso não exclui paternalismos, favores, preferências e familismos que marcam todos os campos, sobretudo o do poder.

O que chama a atenção hoje em dia é o acasalamento às vezes patológico entre uma hiperdistinção (caso de alguns astros da música popular e do esporte) e uma espécie de autoflagelação por meio do uso abusivo da liberdade. Um menino que fica milionário aos 15 anos e vive numa sociedade que lhe garante o espaço de ser feliz a seu modo corre o risco de ser engolido e, eventualmente, morto pelo seu tão desejado sucesso!

Como naquela famosa capa da “New Yorker”, comentada nesta coluna, na qual os Oscars comiam como sobremesa os artistas premiados. Afinal, se os cavalos não são domados, eles acabam nos guiando.

Para que serve então a celebridade? Ela agencia uma diferenciação num mundo que se deseja construído de iguais. Os seus perigos são claros: toda pessoa célebre tem uma superespecialização que se confunde com um dom. O famoso é a tela na qual as pessoas comuns projetam os que lhes falta. Os mitos das celebridades insistem em dizer como elas foram pessoas simples e pobres antes de obterem a tão desejada fama. O astro é, entre outras coisas, um especialista no que faz e um modelo do que faz. Daí a tendência a confundir o seu papel público com a sua intimidade. A suposição de uma excepcionalidade em tudo se desfaz e decepciona quando ocorre um desvio entre a figura que aparece no palco e a figura que surge — bêbado, burro, arrogante, desonesto, corrupto e, acima de tudo, infeliz como todo mundo — na vida real. Isso é acentuado pela nossa busca de coerência, a qual inventou sua tecnologia.

Do outro lado do universo das celebrizações para cima, há o conjunto de empregados e de inferiores que congrega as “celebridades para baixo”. Os garçons, engraxates, motoristas, porteiros e empregados em geral que fazem a nossa comida, lavam a nossa roupa, vigiam nosso lar e nos protegem do mundo. Esses fornecedores de amor, atenção e carinho preenchem um espaço que não ocupamos e passam a impressão de que vivem apenas para o que fazem. Para muitos, ver a empregada namorando é tão surpreendente quanto descobrir que a sua celebridade favorita tem um péssimo caráter.

Esse time de empregados: secretários, assessores e subdiretores que, na política, desculpam-se pelos seus superiores quando a Fifa ou Comité Olímpico Internacional ou uma chuvarada revela como nada está pronto e há um atraso crônico e insuportável na infraestrutura nacional.

No Brasil, as autoridades não pedem desculpas. No máximo, elas dãodesculpas por meio dos seus “peles” ou asseclas. As obras que jamais ficam prontas em tempo e o cara de pau ministro diz que as empreiteiras precisam ser mais responsáveis. Mas quem contrata essas empresas?

Se as celebridades não podem ser escusadas dos seus delitos, o mesmo deve ocorrer com a autoridade que, na maioria dos casos, lamentavelmente torna-se uma celebridade pelo que não fez; ou, pior que isso, pela sua inestimável contribuição ao atraso do país.
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MUDAR É MUITO DIFÍCIL, MAS NÃO MUDAR É FATAL - Leandro Karnal

  
Independente da minha ação tudo muda.  Tudo muda a todo instante. Tudo muda.  É bom pensar nisso.  E tudo mudando eu posso ter duas opções: A mudança passa por mim ou a gerencio; ou eu faço ou ela fará por mim. Não importa, porque se eu ficar bem paradinho a mudança continua porque ela atinge até o que não tem consciência, como pedras e plantas. Esta é a mudança – precisa reconhecer isso – que pode ser um lema de vida. Mudar é difícil, não mudar é fatal. Mudar é muito difícil. Mudar hábitos, mudar relações, mudar propostas, mas não mudar é fatal.

Será que este ano você resolve aquele probleminha com o seu inglês?  Você vai resolver o fato de você ter problemas com o uso da crase?  Estude, faça exercícios, tente, mude. Não mudar é fatal. Usando o quadro de Matisse: Mudar, mudar-se. Mudar as coisas que nos cercam. Mudar e reinventar-se. Quem não se reinventa na amizade, no emprego ou no casamento esgota essa possibilidade rapidamente. A pessoa com quem se casou há vinte, dez, quinze, trinta anos não existe mais. Nem as células são as mesmas.  Infelizmente os neurônios são os mesmos, cada vez em menor quantidade. Mas as células se renovam constantemente.

A imagem da escultura americana Carlyle diz que o homem com consciência e ação está se esculpindo como a sua grande obra. Você se torna na sua própria obra, torna-se na pessoa que investe nisso. Este o momento de pensar nisso.  Fim de ano.  Há uma poesia de Antônio Machado, o espanhol – não o nosso Machado de Assis, mas o Machado espanhol – que é conhecida de todos: “Caminhante, são tuas pegadas o caminho e nada mais; caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar”.

O problema de eu comprar o livro A cabeça de Steve Jobs é que ele não leu esse livro para fazer o que fez. O problema de pedir conselho é que quem venceu não pediu conselhos. É a velha história de Mozart que, perto de morrer, recebe a carta de um menino de 15 anos, de Praga, que pergunta a ele como fazer uma ópera. E Mozart responde: “E muito cedo para você fazer isso”. O menino responde na terceira carta entre os dois: “O senhor fez a primeira com nove anos”.  E Mozart responda na quarta carta: “É verdade, mas eu não perguntei a ninguém como se fazia”.

Essa é a diferença. Ouvir conselhos de pessoas que não os praticam. Têm uns casamentos destroçados, mas elas dão conselhos. Ouçam todo mundo. Segundo Hamlet: “A todos, teu ouvido; a voz, a poucos; ouve opiniões, mas forma juízo próprio“. Em qualquer sentido. A todos ofereça o ouvido, ouçam o que as pessoas têm a dizer.  Nós estamos falando sempre delas. Façam isso. Tornem-se diferentes ou achem felicidade na repetição que também é possível.

Achem felicidade em ser comum. Achem felicidade na repetição do óbvio. Achem felicidade em fazer a felicidade de outro como minha avó que faz o menu do Natal há trinta anos, colocando os mesmos pratos nos mesmos lugares da mesa. Até o cheiro da casa é o mesmo. E ela era feliz assim. Achem a felicidade na repetição ou na renovação. E este é o momento, fim de ano, para fazer essa reflexão. A reflexão do quanto eu quero aprofundar, de que eu quero transformar o que está ao alcance da minha mão. Uma das coisas mais fascinantes da vida é isso.

Quando eu tinha dezoito anos, estava do meio para o fim da faculdade, em entrei muito cedo, eu fui fazer o primeiro estágio em sala de aula, na 5ª Série. Hoje não existe mais essa nomenclatura. Eu e uma colega vimos uma aula na 5ª Série. Eu saí de lá horrorizado. Eu disse: “Eu não quero isso, que horror. São uns demônios, eles gritam, estão possuídos por Satanás”. Aquilo era um horror. Eu saí de lá e disse para a minha colega: “Eu vou fazer tudo para acabar a minha faculdade, mas eu não quero dar aula para a 5ª Série”.  Acabei dando por algum tempo, mas eu queria escapar disso. Eu queria dar aula para adultos e não para crianças. Terminou a faculdade e eu me inscrevi para ser professor. Passados mais de 30 anos disso, esta mesma minha amiga estava dando aula para a 5ª Série.  Ela sempre disse que eu tive sorte.

Sorte é o nome que se dá para a pessoa que leva adiante o seu plano. Sorte é o nome que se dá a quem se empenha. Mas a minha sorte foi atravessar as madrugadas estudando. A minha sorte foi vir para São Paulo com uma mão na frente e outra atrás. A minha sorte foi um projeto longo, o custo do sacrifício em construir uma carreira. Essa foi a minha sorte que levei adiante.

Este é o momento para pensar na sorte ao invés de estar comendo lentilhas no Ano Novo. Não tem um pobre que não coma lentilhas. Rico não come lentilhas, é uma coisa fascinante. E o pobre continua comendo. No ano seguinte come de novo. Ao invés de investir na lentilha ou em alguma coisa assim, se preferir troque superstição por religião, mas pense num projeto para 2017, leve este projeto adiante. Nesse projeto faça tudo o que você possa fazer. O tempo linear é uma invenção nossa.  Mas como eu dizia antes, o tempo pode ser circular e, assim, pode ser um recomeço a qualquer instante, de qualquer ponto.

O tempo linear é uma invenção do Ocidente. E pode ser de fato, um Ano Novo. Pode ser, de fato, um novo momento. Basta uma ação de quem vai enfrentar o mundo. O mundo não vai querer,  vai nos obrigar a refazer a ação e insistir como tudo que é importante na vida tem que se insistir muito. Muitas vezes. A recompensa por essa escolha é a vida que vale a pena ser vivida.

Perguntaram-me uma vez, num debate sobre felicidade, se eu era feliz. Eu respondi que o único objetivo que posso ter, a única ideia que eu posso ter é que eu já fui infeliz e hoje eu sou feliz. É a comparação. Ninguém pode saber se de fato é feliz. Mas eu já fui infeliz. E hoje o ponto maior da minha felicidade é saber que ela depende de mim. Exclusivamente de mim. Então, esta é a vida válida para mim. Nem sempre é fácil. Algumas coisas eu estou querendo abrir mão porque não adiantou insistir, minha energia não foi suficiente. Mas aquela que foi possível se tornou numa vida válida.  
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O TEMPO E O TÉDIO – Thomas Mann

Com respeito à natureza do tédio encontram-se
 frequentemente conceitos errôneos.

Acredita-se em geral que a novidade e o caráter interessante do seu conteúdo "fazem passar mais rápido" o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e o vazio retardam o seu curso. Mas não é absolutamente verdade. O vazio e a monotonia alargam por vezes o instante ou a hora e tornam-nos "aborrecidos"; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada.

Um conteúdo rico e interessante é, pelo contrário, capaz de abreviar uma hora ou até mesmo o dia, mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de tal maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e voam.

Portanto, o que se chama de tédio é, na realidade, antes uma simulação mórbida da brevidade do tempo, provocada pela monotonia: grandes lapsos de tempo quando o seu curso é de uma ininterrupta monotonia chegam a reduzir-se a tal ponto, que assustam mortalmente o coração; quando um dia é como todos, todos são como um só; e numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos.

O hábito é uma sonolência, ou, pelo menos, um enfraquecimento do senso do tempo, e o fato dos anos de infância serem vividos vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa, esse fato também se baseia no hábito.

Sabemos perfeitamente que a intercalação de mudanças de hábitos, ou de hábitos novos, constitui o único meio de manter a nossa vida, de refrescar a nossa sensação de tempo, de obter um rejuvenescimento, um reforço, um atraso da nossa experiência do tempo, e com isso, a revolução da nossa sensação da vida em geral.

Tal é a finalidade da mudança de lugar e de clima, da viagem de recreio: nisso reside o que há de salutar na variação e no episódio. Os primeiros dias num ambiente novo têm um curso juvenil, quer dizer, vigoroso e amplo - seis ou oito dias. Depois, na medida em que a pessoa se "aclimata", começa a senti-los abreviarem-se: quem se apega à vida, ou melhor, quem gostaria de apegar-se à vida nota, com horror, como os dias começam a tornar-se leves e furtivos; e a última semana - de quatro, por exemplo - é de uma rapidez e fugacidade inquietante.

Verdade é que a vitalização do nosso senso de tempo faz-se sentir para além do momento, e desempenha o seu papel ainda quando a pessoa já voltou à rotina; os primeiros dias que passamos em casa, depois desta variação, afiguram-se também novos, amplos e juvenis, mas somente uns poucos: porque a gente acostuma-se mais rapidamente à rotina do que à sua suspensão, e quando o nosso senso do tempo está fatigado pela idade, ou nunca o possuímos desenvolvido em alto grau - o que é sinal de pouca força vital - volta a adormecer muito depressa, e ao cabo de vinte e quatro horas já é como se a pessoa jamais tivesse partido e a viagem não passasse de um sonho de uma noite.
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O VALOR DO TEMPO – Sêneca

Fico sempre surpreendido quando vejo algumas pessoas a exigir o tempo dos outros e a conseguir uma resposta tão servil. Ambos os lados têm em vista a razão pela qual o tempo é solicitado e nenhum encara o tempo em si - como se nada estivesse a ser pedido e nada a ser dado.

Estão a esbanjar o mais precioso bem da vida, sendo enganados por ser uma coisa intangível, não aberta à inspeção, e, portanto, considerada muito barata - de fato, quase sem qualquer valor.

As pessoas ficam encantadas por aceitar pensões e favores, pelos quais empenham o seu labor, apoio ou serviços. Mas ninguém percebe o valor do tempo; os homens usam-no descontraidamente como se nada custasse.

Mas se a morte ameaça estas mesmas pessoas, vê-las-ás a recorrer aos seus médicos; se estiverem com medo do castigo capital, as verá preparadas para gastarem tudo o que têm para se manterem vivas. Tão inconsistentes são nos seus sentimentos!

Mas se cada um de nós pudesse ter um vislumbre dos seus anos futuros, como podemos fazer em relação aos anos passados, como ficariam alarmados os que só podem ver com alguns anos de antecedência e como seriam cuidadosos a utilizá-los! E, no entanto, é fácil organizar uma quantidade, por pequena que seja daquilo que nos está garantido; temos de ser mais cautelosos a preservar o que cessará num ponto desconhecido.

Mas não deves pensar que tais pessoas não sabem como é precioso o tempo.

Dizem com regularidade àqueles de quem são particularmente chegados que estão dispostos a dar-lhe alguns dos seus anos. E dão-lhos sem estarem conscientes dele; mas a dádiva é tal que eles próprios perdem sem acrescentar nada aos outros. Mas o que de fato não sabem é que estão a perder; assim, podem suportar a perda do que não sabem que se foi.
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A INFELICIDADE DO DESEJO – José Luís Nunes Martins

Um desejo é sempre uma falta, carência ou necessidade. Um estado negativo que implica um impulso para a sua satisfação, um vazio com vontade de ser preenchido.

Toda a vida é, em si mesma, um constante fluxo de desejos. Gerir esta torrente é essencial a uma vida com sentido. Cada homem deve ser senhor de si mesmo e ordenar os seus desejos, interesses e valores, sob pena de levar uma vida vazia, imoderada e infeliz. Os desejos são inimigos sem valentia ou inteligência, dominam a partir da sua capacidade de nos cegar e atrair para o seu abismo.

A felicidade é, por essência, algo que se sente quando a realidade extravasa o que se espera. A superação das expectativas. Ser feliz é exceder os limites preestabelecidos, assim se conclui que quanto mais e maiores forem os desejos de alguém, menores serão as suas possibilidades de felicidade, pois ainda que a vida lhe traga muito... esse muito é sempre pouco para lhe preencher os vazios que criou em si próprio.

Na sociedade de consumo em que vivemos há cada vez mais necessidades. As naturais e todas as que são produzidas artificialmente. Hoje, criam-se carências para que se possa vender o que as preenche e anula. Valorizar mais o ter que o ser é uma decisão tão inconsciente quanto maléfica, porque arrasta, quem assim se torna, para vazios maiores que o mundo. Os escravos dos seus apetites condenam-se ao inferno da eterna insatisfação... abdicam da paz, trocando-a por um nada maior que tudo. Quanto ao paraíso... isso é o que sente quem ama.

O caminho para a felicidade passa por aprender a esperar, permitir que o tempo ajude a filtrar os desejos, garantindo que a nossa liberdade não se deixa encantar pelo que é passageiro.

Os desejos determinam a felicidade. Quanto menos alguém desejar, mais feliz pode ser.

Como se os homens fossem taças; uns, através dos desejos, fazem-se enormes e exigem quantidades; outros, com sabedoria, limitam-se ao essencial; a estes últimos, a vida, ainda que pobre, conseguirá facilmente fazer transbordar; mas aos que têm desejos maiores, ainda que tudo lhes seja favorável, é pouco possível que consigam sequer preencher-se, menos ainda fazer-se transbordar...

A pobreza é o supremo teste à felicidade autêntica.

Se a tristeza e a privação não atentam contra o que somos e queremos ser, então, estaremos no caminho certo, onde a vontade de fazer o outro feliz nos conduzirá (por entre incontáveis cenários frios e sombrios) à fonte da luz que tudo ilumina, aquece e anima... Sempre no silêncio da fé de quem sabe esperar.

Todo o homem deseja naturalmente ser feliz, mas o que é necessário para atingir esse ponto não é mais que um desprendimento dos desejos do que é exterior e superficial, para nos concentrarmos no que somos e sentir gratidão pela gratuidade disso.

Quantas vezes as nossas palavras, gestos e decisões não refletem os nossos valores mais fundos? É fundamental descobrir em nós o lugar da nossa quietude. Dar valor ao que se tem, em vez de procurar ter o que se deseja... afinal, o que conta verdadeiramente não é a enormidade do que se sonha mas a qualidade do que se é.

Para se ser feliz é preciso mudar o olhar, o pensar e o sentir. Aprender a desejar menos, desejar bem, desejar o Bem.

Perante o mistério de tudo, há que compreender que a vida é em si mesma uma dádiva, e, o tempo que nos é dado, as nossas horas, o maior de todos os dons...

A vida mais que uma procura é um encontro.
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ARISTÓTELES - Frases

  • A inteligência é a insolência educada.
  • Nós somos aquilo que fazemos repetidamente. Excelência, então, não é um modo de agir, mas um hábito.
  • Alguns pensam que para se ser amigo basta querê-lo, como se para se estar são bastasse desejar a saúde...
  • O homem solitário é uma besta ou um deus.
  • O que é um amigo? Uma única alma habitando dois corpos.
  • Sócrates é meu amigo, mas sou mais amigo da verdade.
  • Um bom começo é a metade.
  • A primeira qualidade do estilo é a clareza.
  • O belo é o esplendor da ordem.
  • A cultura é o melhor conforto para a velhice.
  • O menor desvio inicial da verdade multiplica-se ao infinito à medida que avança.
  • Ter muitos amigos é não ter nenhum.
  • O historiador e o poeta não se distinguem um do outro pelo fato de o primeiro escrever em prosa e o segundo em verso. Diferem entre si, porque um escreveu o que aconteceu e o outro o que poderia ter acontecido.
  • O sábio nunca diz tudo o que pensa, mas pensa sempre tudo o que diz.
  • A alma é a causa eficiente e o princípio organizador do corpo vivente.
  • No fundo de um buraco ou de um poço, acontece descobrir-se as estrelas.
  • A natureza não faz nada em vão.
  • O convidado é melhor juiz de uma refeição que o cozinheiro.
  • Haverá flagelo mais terrível do que a injustiça de armas na mão?
  • O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.
  • A amizade perfeita apenas pode existir entre os bons.
  • Devemos nos comportar com os nossos amigos do mesmo modo que gostaríamos que eles se comportassem conosco.
  • Em arte o impossível verosímil é preferível ao possível não acreditável.
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SÊNECA - A Sabedoria e a Alegria

Vou ensinar-te agora o modo de entenderes que não és ainda um sábio. O sábio autêntico vive em plena alegria, contente, tranquilo, imperturbável; vive em pé de igualdade com os deuses.

Analisa-te então a ti próprio: se nunca te sentes triste, se nenhuma esperança te aflige o ânimo na expectativa do futuro, se dia e noite a tua alma se mantém igual a si mesma, isto é, plena de elevação e contente de si própria, então conseguiste atingir o máximo bem possível ao homem! Mas se, em toda a parte e sob todas as formas, não buscas senão o prazer, fica sabendo que tão longe estás da sabedoria como da alegria verdadeira.

Pretendes obter a alegria, mas falharás o alvo se pensas vir a alcançá-la por meio das riquezas ou das honras, pois isso será o mesmo que tentar encontrar a alegria no meio da angústia; riquezas e honras, que buscas como se fossem fontes de satisfação e prazer, são apenas motivos para futuras dores.

Toda a gente, repito, tende para um objetivo: a alegria, mas ignora o meio de conseguir uma alegria duradoura e profunda. Uns procuram-na nos banquetes, na libertinagem; outros, na satisfação das ambições, na multidão assídua dos clientes; outros, na posse de uma amante; outros, enfim, na inútil vanglória dos estudos liberais e de um culto improfícuo das letras.

Toda esta gente se deixa iludir pelo que não passa de falacioso e breve contentamento, tal como a embriaguez, que paga pela louca satisfação de um momento o tédio de horas infindáveis, tal como os aplausos de uma multidão entusiasmada - aplausos que se ganham e se pagam à custa de enormes angústias!

Pensa bem, portanto, no que te digo: o resultado da sabedoria é a obtenção de uma alegria inalterável. A alma do sábio é semelhante à do mundo supralunar: uma perpétua serenidade. Aqui tens mais um motivo para desejares a sabedoria: alcançar um estado a que nunca falta a alegria. Uma alegria assim só pode provir da consciência das próprias virtudes: apenas o homem forte, o homem justo, o homem moderado pode ter alegria.
Sêneca, in 'Cartas a Lucílio'
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ROBERT KURZ - O HOMEM REDUZIDO

Ciências e economia se unem hoje contra 
a reflexão crítica sobre a sociedade

Quando o físico e romancista britânico Charles P. Snow avançou em 1959 sua tese das "duas culturas", com ela não somente conquistou um eco universal, mas cunhou também um topos da discussão cultural e sociopolítica. As "duas culturas" são a oposição entre os mundos da ciência humana e da literatura, de um lado, e, de outro, os da técnica e da ciência natural, mundos estes que, desde o século 19, se apartam cada vez mais. A controvérsia que se instaurou a respeito, todavia, permaneceu um tanto superficial. Isso porque o problema decisivo, a radicação das duas "culturas" antagônicas numa determinada ordem social histórica, quase não foi posto em litígio.

O debate sobre a tese de Snow referiu-se mais à relação das ciências naturais com a literatura e a filologia, e menos à relação das ciências naturais com a teoria social. Snow, é verdade, ao complementar seu estudo em 1963, admitiu que talvez se pudesse ainda falar de uma "terceira cultura", mas isso não passou de um comentário marginal.


O discurso sobre as "duas culturas" toldou, nesse sentido, o verdadeiro problema, ao concentrar-se não numa luta por posições entre as ciências naturais e as ciências humanas, mas na relação polar entre as ciências naturais e os procedimentos artístico-literários. Essa oposição pôde assumir o aspecto de uma desavença familiar dentro da intelligentsia burguesa, na qual a ciência natural, uma espécie de irmã mais velha ajuizada, levava a melhor sobre os representantes da "intelligentsia estética", a quem se podia facilmente tachar de "analfabetos da ciência".


No fundo, o debate sobre as "duas culturas" já pressupõe que "a" ciência seja a ciência natural. A possível batalha pelo primado entre a teoria social e as ciências naturais foi decidida a favor das últimas, antes mesmo que pudesse ter início. A questão da "terceira cultura" foi em grande parte ofuscada. Como mostrou a "querela do positivismo" na sociologia alemã -travada também nos anos 60 entre os minoritários da "teoria crítica" de Adorno e Horkheimer, de um lado, e, de outro, a ciência humana oficial-, o "mainstream" das ciências sociais há muito se pôs do lado dos fundamentos e métodos ditados pelas ciências naturais.


Ao emancipar-se desse positivismo das ciências naturais e converter-se em crítica radical da sociedade ou implicar essa última, no fundo a teoria social deixa de ser uma "disciplina" acadêmica. Isso se deve, claro, ao caráter institucional do próprio modelo científico, que por sua forma é "ritualizado" à moda burguesa e não possui vocação de crítica radical, sendo antes parte integrante da ordem vigente com sua falsa pretensão de objetividade.


Se no declínio da ordem pré-moderna foram sobretudo as novas ciências naturais que, modificando a concepção de mundo, causaram escândalo e acabaram perseguidas pelas autoridades, durante a história de modernização capitalista foi a teoria social, por sua vez, que passou a ser objeto potencial de perseguição, fosse diretamente pelo Estado e pela polícia, fosse mais sutilmente pelos critérios restritivos (tanto de conteúdo quanto de método) da "reputação científica". Por isso, inovações relevantes da crítica social na modernidade, semelhantes -na forma- à criativa "boemia" artística, não raro surgiram fora ou à margem da ciência oficial, a exemplo de Rousseau no século 18, Marx no século 19 e a "Teoria Crítica" ou mesmo os situacionistas franceses (Guy Debord) no século 20.

O neomarxismo acadêmico dos anos 70, boa parte dele estéril, só pôde dissimular por alguns momentos -fenômeno da moda que era- o fato de a teoria crítica da sociedade no fundo representar pouco mais que uma "gata borralheira" da academia, como já se evidenciara no debate mais ou menos paralelo sobre as "duas culturas". Hoje a crítica radical da sociedade desapareceu quase totalmente da ciência acadêmica. Como último resquício de um pensamento social irredutível ao paradigma das ciências naturais restou apenas a chamada "ética", uma "doutrina do comportamento" de todo acrítica, individualista e institucional em relação ao capitalismo, a qual se insinua como modesta oficina de reparos para colisões sociais. A "empresa ética" que grassa hoje é o retrato da teoria social acadêmica após sua capitulação incondicional.


As disciplinas históricas e sociológicas são segregadas tanto em termos de método quanto de conteúdo, são quase "perfumaria". O triunfo da ciência natural sobre o pensamento crítico da sociedade e sua entronização como "a" ciência não é obra do acaso. Isso porque a ciência natural moderna e a ordem social capitalista dominante têm uma origem histórica comum. A ciência natural foi de certo modo a "ciência caseira" do capitalismo ascendente, foi ela que forneceu um paradigma para uma "objetividade" sem sujeito. A ela pôde atrelar-se a apologética economia política, que representava de certa forma o "cavalo de Tróia" do pensamento das ciências naturais na teoria social. Desde o princípio, ciência natural e economia uniram-se contra o pensamento de crítica social, para afinal expulsá-lo de vez do panteão da ciência moderna.


O triunfo da ciência natural e da economia pseudocientífica sobre a crítica social revela-se em dois pontos comuns e essenciais de seus "métodos": funcionalismo, de um lado, e reducionismo, de outro. Funcionalismo significa não se perguntar pelo fundo, mas somente pela forma, pelo modo de "funcionar", ao passo que a essência, o "sentido", o verdadeiro âmago do objeto é pressuposto sem reflexão e permanece à parte do interesse científico, um caso para a "infrutífera metafísica", para a religião, para a "opinião" meramente subjetiva.


Na "ciência", os objetos dissolvem-se em suas funções. Na práxis social, trata-se daquela "razão instrumental" criticada por Horkheimer e Adorno, que dá margem a manipulações segundo o fim tautológico cegamente pressuposto da valorização do capital, em que tanto a ciência natural e a técnica quanto a economia teórica acham-se banidas.


Reducionismo significa, ao menos segundo a intenção, que objetos e formas de ordem superior sejam reduzidos a meras "combinações" de objetos e formas de ordem inferior. Economia e ciência natural concordam em grande parte que espírito, cultura e sociedade possam remontar a elementos biológicos ou mesmo econômicos (funções), e esses, por sua vez, a elementos físicos. A consciência humana, o pensar e as formas de interação social a eles conexas devem ser reduzidos a processos neurobiológicos no cérebro.


A famigerada "fórmula universal" buscada pelos físicos seria o coroamento desse reducionismo. Que só poderia ser, no entanto, uma fórmula vazia, pois a consciência resulta tão pouco da descrição de processos neurobiológicos quanto o conteúdo de um livro, digamos, sobre os descalabros intelectuais da ciência natural e da economia resulta da descrição da técnica de impressão gráfica, da estrutura molecular do papel utilizado ou dos pigmentos das letras impressas. A consciência supõe "significado" de conteúdo, e isso é "fundo", não "forma", que jamais é idêntico à execução de funções neurobiológicas. Com relação ao "significado" e ao conteúdo, a pesquisa científica neurológica só pode expor-se ao ridículo.


Algo semelhante ao reducionismo das ciências naturais afeta o pensamento econômico. Desde as hoje ressuscitadas "leis populacionais" de um Malthus, passando pela doutrina sociodarwinista do "survival of the fittest" (sobrevivência do mais apto), até a suposta predisposição "genética" à pobreza, ele biologiza a sociedade para então novamente dissolver esse reino animal de seres humanos em categorias pseudofísicas, tais como um mecanismo "natural" de preço, um "desemprego natural" (Friedman) etc.


Tanto para a natureza quanto para a sociedade, o enlace desse funcionalismo reducionista com esse reducionismo funcional desenvolve potenciais destrutivos. É por isso que a ciência natural e a economia, apesar de seu patente sucesso na manipulação do homem e da natureza, acabou por não trazer melhora nenhuma às condições de vida. A economia não se cansa de produzir novos surtos de pobreza e crises, a ciência natural, novos "artefatos de destruição". 


Mas esse infeliz resultado não remonta a um "abuso" contingente, a uma simples "utilização" equivocada da "cientificidade" legítima, antes está radicado nos próprios procedimentos, nos axiomas e no sistema de categorias da ciência natural e da economia. Não estamos às voltas aqui com uma objetividade absoluta e a-histórica, senão com um mundo filtrado pelas formas do moderno sistema produtor de mercadorias, que se fazem passar por um a priori absoluto não apenas no pensamento econômico, mas também no científico.


Para poder criticar, no interesse da emancipação humana, esse nexo categórico entre a ciência natural e a economia de produção mercantil, temos de evitar diversas armadilhas. Não é uma alternativa, por exemplo, criticar o pensamento físico mecanicista desde Descartes em nome de um "organicismo" biológico, tal como tentou a chamada filosofia da vida na virada do século passado.


Isso não seria mais que jogar o reducionismo biológico contra o físico (com as reacionárias consequências sociopolíticas de praxe), em vez de formular propriamente uma crítica do reducionismo científico. O escândalo do paradigma científico é duplo: em última análise, ele não é capaz de distinguir nem entre objetos mortos e vivos, nem entre biologia e sociedade. Ambos os aspectos desse processo duplo de redução científica devem ser criticados para superar o nefasto discurso econômico-científico.


Também não é uma alternativa buscar refúgio num cosmos religioso da pré-modernidade reproduzido sinteticamente. Uma ordem simbólica desse tipo, com uma cosmovisão coerente, faz parte irrevogável da história; toda tentativa de reavivá-lo só pode redundar num obscurantismo ainda mais irracional. A embromação da indústria esotérica, comercializada a extremos, não supera o reducionismo (e funcionalismo) econômico-científico, antes só o complementa.

Não raro, são os próprios cientistas e economistas que cultuam seu "deus pessoal" ou lêem sua sorte nas cartas. O objetivo não pode ser um recuo reacionário a formas de reflexão anteriores à ciência moderna, mas somente um avanço para além delas. Ora, a forma dessa crítica é necessariamente a teoria social, cuja esfera de aplicação devia ser estendida às ciências naturais, ou melhor, às raízes históricas comuns do capitalismo, da ciência natural e da economia teórica.

Não se trata simplesmente de negar os conhecimentos científicos atuais ou aceitar "lado a lado", sem reflexão, práticas culturais divergentes, tais como a magia das danças da chuva e a meteorologia moderna, como sugeriu Paul Feyerabend, antigo teórico positivista da ciência, após o colapso de sua imagem científica do mundo. Um caso ainda pior é o do físico norte-americano Fritjof Capra, que traça paralelos superficiais entre a mística do Extremo Oriente e a física moderna, reunindo-as num moralismo raso.


A tarefa é muito mais complicada. Cumpre "historicizar" a ciência natural e submetê-la a uma auto-reflexão social: ela não é uma relação imediata "do" ser humano com a natureza "objetiva", antes vem sempre filtrada pelo caráter social dos sujeitos que percebem e pesquisam. A ciência natural, claro, não é uma ciência da sociedade, e isso pelo próprio âmbito de seu objeto, mas é, sim, uma ciência social, devendo ser apreendida, nesse sentido, como fenômeno de uma certa "subjetividade histórica" -e seus axiomas, categorias e procedimentos, decifrados como formas sociais de percepção.


Esta, portanto, é a grande questão: em que consiste, do prisma da teoria do conhecimento e da práxis social, de uma "visão de mundo", o nexo formal comum e historicamente limitado entre capitalismo e ciência natural, nexo este que cabe ser superado? A tarefa consistiria, nesse sentido, em vincular a crítica à pseudo-objetividade das categorias econômicas modernas a uma crítica correspondente à forma socialmente mediada das ciências naturais, a fim de "enxergá-las" de alto a baixo com as lentes da crítica social, pulverizando a interpretação sociotecnológica ou sociobiológica e evidenciando seu âmbito de aplicação limitado. 


Há muito tempo a própria física chegou a seus limites, que simplesmente não são reconhecidos como limites histórico-sociais. Talvez o previsível fiasco da "fórmula universal" seja a gota d'água para que a ciência natural comece a tomar consciência crítica de sua forma social negativa.Para desvendar o caráter irracional da moderna racionalidade econômica e científica, os teóricos da sociedade teriam, é claro, de superar seu "analfabetismo" científico, e os cientistas, seu "analfabetismo" social. Uma tal perspectiva exige também uma crítica social do modelo científico.O sistema dos "especialistas bitolados", inflexível como é, não produzirá mais novos conhecimentos que abalarão o mundo.

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