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OUTRA MANEIRA DE VER AS COISAS - Ramiro Calle

Era um homem que sempre tivera boa sorte, mas certo dia começou a deparar-se com muitas contrariedades. Foi visitar um sábio e disse-lhe:

- Venerável sábio, estou à beira do desespero. Desde há um tempo, tudo me corre mal. A minha mulher adoeceu, os meus negócios dão prejuízo e o meu ânimo anda abatido.

- Assim são as coisas – disse o sábio. – A fortuna e o infortúnio alternam-se. É a lei da vida.

- Não, não – protestou o homem. – Alguém conjurou contra mim, garanto-lhe.

O homem estava obcecado com isso e os raciocínios do mestre de nada serviam. De repente, o mestre disse:

- Ainda bem que conservo o amuleto que o meu mestre me deixou e que é infalível nestes casos. Nunca falhou.

O sábio pôs um pequeno seixo do rio na mão do homem e disse-lhe:

- Não o percas. É muito poderoso. Pendura-o ao pescoço e todos os dias, durante um mês, reza-lhe uma prece. Foi benzido pelo meu mestre e pelo mestre do mestre do meu mestre.

Aliviado, o homem foi-se embora. Todos os dias rezava uma prece ao amuleto e o seu ânimo começou a restabelecer-se, os seus negócios começaram a correr melhor e a sua mulher começou a recuperar. Passado um mês, voltou a visitar o sábio e disse-lhe:

- Alma nobre, que relíquia maravilhosa! Aqui a tem, senhor, é muito valiosa! Grande poder o dela!

Mas o sábio ordenou-lhe:

-Deita-a fora! Desfaz-te dessa simples pedrinha. Não é um amuleto, apanhei-a um dia qualquer perto do rio.

O homem indignou-se visivelmente e perguntou:

- Está a fazer pouco de mim? Por que fez isso?

- Porque estavas tão obcecado que tive de usar a tua imaginação construtiva para refrear a tua imaginação destrutiva. É como quando um homem sonha que está a ser atacado por um leão mas encontra um revólver e o mata, ou seja, com um arma ilusória matou um leão ilusório.

O poder da imaginação é extraordinário, tanto na sua direção construtiva como destrutiva, criativa ou autodestrutiva. É uma energia que há que saber orientar. 

A imaginação descontrolada e neurótica faz-nos ver o que não é e induz-nos a falsas interpretações e a sentirmo-nos ameaçados por objetos, situações e circunstancias que não têm qualquer mal. 

Um sinal de sabedoria é poder manter a mente mais atenta ao aqui e agora e exercitá-la para que compreenda o que é, e não o que foi ou possa vir a ser. 
in “Os Melhores Contos Espirituais do Oriente” – Ramiro Calle.
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BAUMAN E A SURDEZ DO NOSSO TEMPO - Gustavo Caldas

Tive o privilégio de assistir Zygmunt Bauman no Educação 360 e desde então tenho uma pulga gigante atrás da orelha. Lá pelas tantas, em sua palestra, Bauman diz que não há sentimento de pertença, que caminhamos de um espírito coletivo de comunidade para um espírito de imunidade. Em outras palavras, ressalta o quão imunes queremos ser uns em relação aos outros, o quanto perdemos nossa habilidade de sentir, de afetar, de promover encontro, intimidade.

Segundo Bauman, esse estado de imunidade, essa incapacidade de ser empático, essa liberdade ilimitada que encontramos nas redes sociais para opinar e especialmente criticar produziu uma era de suspeição mútua. Eis a minha mega pulga!

Se ele estiver certo, então significa que vivemos hoje um tempo em que todos suspeitam de todos, uma sorte de crise de crédito, do crédito daquilo que se afirma como verdade, da história. Vide Bel Pesce. Em outras palavras, uma crise de credibilidade que influencia diretamente o modo como nos relacionamos.

As redes sociais, como citei anteriormente, nos trouxeram alguns botõezinhos super nocivos a maneira como interagimos. Nas redes sociais podemos bloquear ou excluir tudo o que difere de nós. Podemos ouvir, ler e assistir só o que agrada nosso ponto de vista e dormirmos felizes para sempre. As redes sociais viraram câmaras que ecoam só o que nos apraz e isso desconstrói nossas habilidades sociais, mina nossa capacidade de gerar diálogo.

Nas ruas não temos como excluir ou bloquear o que nos incomoda. No trabalho, na escola ou em casa, fora das telinhas de computador e smartphones, somos convidados a lidar com conflito, com debate, com o diverso. Isso é normal. O problema é como temos reagido nessas situações. Invariavelmente damos as costas, ignoramos o conflito como oportunidade e acabamos por perder chances incríveis de aprendizado. Vez por outra preferimos erguer muros. Vide Brasília.

Erguemos muros também nas escolas. Muros entre professores e alunos, entre professores e pais, entre pais e diretores, entre dentro e fora da escola e especialmente entre público e privado. Nos inúmeros conflitos que habitam o cotidiano educacional, a ausência de diálogo fica clara quando percebemos os diversos mecanismos punitivos que permeiam as relações citadas acima.

Entre professores e alunos o conflito se dá de muitas maneiras, uma das mais comuns nasce no desinteresse do que aprende pelo que ensina o “ensinador”. Acho que vale um relato de algo que aconteceu em uma escola pública que visitei.

Depois de um papo aberto que tive com professores e coordenadores da escola, fui abordado por um professor de história, um jovem chamado André. O André me disse que estava muito alinhado com a ideia de explorar os espaços da cidade como sala de aula, de levar os alunos para a rua e que inclusive já tinha feito esse esforço e que tinha sido um fracasso. Me contou que organizou uma linda excursão para Petrópolis para seus alunos e que ninguém quis ir e que depois dessa nunca mais se atreveu a levar os alunos para a rua. Daí perguntei a ele se antes de preparar a excursão ele tinha feito uma escuta dos alunos, para saber se tinham sugestões de onde ir, do destino da excursão. A resposta vocês devem imaginar.

É bem óbvio que o fracasso da excursão do professor André nasce da não-escuta, do não-reconhecimento, da ausência de diálogo. Tivesse o professor sentado com seus aprendizes e ouvido os desejos, as ideias e insights dos jovens, a chance de sucesso da excursão seria bem mais provável.

Esse é um exemplo leve de como o diálogo é uma ferramenta esquecida na educação. É um exemplo suave, em contraste com as muitas situações de confronto e agressividade originadas no mutismo seletivo que reina em nossas instituições de ensino.

Quando falo de ausência de diálogo na educação, falo essencialmente de ausência de reconhecimento. Quando falo de ausência de diálogo, falo de imposição, falo de verticalidade, falo de autoritarismo. Falo de colonização do ser.

Bauman diz que diálogo é ferramenta de sobrevivência. Quem sou eu para discordar de Bauman?

Entretanto, faço um adendo: Diálogo é ferramenta de encontro, de aprendizado e especialmente, de descolonização do ser. Se nesse século 21 queremos de verdade estabelecer novas relações de ensino/aprendizagem, então precisamos com urgência reconhecer os aprendizes como seres que já são, que tem preferências, que têm interesses genuínos e que merecem ser escutados de forma afetiva e presente.

Para isso, precisamos visitar e experimentar uma nova comunicação, que contemple o diálogo tônico como mídia de encontro para além do verbal, que reconheça a escuta afetiva como técnica praticável e que merece ser trabalhada com consciência e vivencie a visão sistêmica como ferramenta de empatia, de reconhecimento de mapa de mundo, de respeito e entendimento.

O convite para educadores, para pais, para cidadãos ativos, é que mergulhemos novamente em nós mesmos, que nos re-sensibilizemos, que sejamos mais conscientes da importância do diálogo e que assumamos co-responsabilidade nesse processo orgânico e vivo de fazer educação como jardinagem (vide Ken Robinson).
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GOSTO DAS BELAS COISAS CLARAS E SIMPLES – Florbela Espanca

Para quê alcançar os astros?! Para quê?! Para os desfolhar, por exemplo, como grandes flores de luz! Vê-los, vê-os toda a gente.

De que serve então ser poeta se se é igual à outra gente toda, ao rebanho?... Eu não peço à Vida nada que ela me não tivesse prometido, e detesto-a e desdenho-a porque não soube cumprir nem uma das suas promessas em que, ingenuamente, acreditei, porque me mentiu, porque me traiu sempre.

Mas não choro, não, como os portugueses chorões, não tenho nada de Jere­mias, pareço-me antes com Job, revoltado, gritando impreca­ções no seu monte de estrume.


Não gosto de lágrimas, de fados nem de guitarras, gosto das belas coisas claras e sim­ples, das grandes ternuras perfeitas, das doces compreensões silenciosas, gosto de tudo, enfim, onde encontro um pouco de Beleza e de Verdade, de tudo menos do bípede humano, em geral, é claro, porque há ainda no mundo, graças a Deus, almas-astros onde eu gosto de me reflectir, almas de sinceri­dade e de pureza sobre as quais adoro debruçar a minha.
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HOJE TOMEI A DECISÃO DE SER EU - Fernando Pessoa

Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, e plebeia sociabilizacão de mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Génio e na divina consciência da minha Missão.

Hoje só me quero tal qual meu carácter nato quer que eu seja; e meu Génio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser.

Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou.

Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste.

O último rasto de influência dos outros no meu carácter cessou com isto. Reconheci — ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de « lançar o Interseccionismo» — a tranquila posse de mim.

Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci.
 Fernando Pessoa
Portugal
13 Jun 1888 // 30 Nov 1935
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NATUREZA HUMANA: LIVRE ARBÍTRIO - Francisco Daudt

Sabe aquele ouro que o Brasil perdeu para a Rússia no vôlei? Fui eu o culpado. Explico: nunca assisto a esportes, mas meu filho queria ver o jogo, e eu lhe fiz companhia. Logo comecei a torcer, e tudo saía ao contrário das minhas mandingas. Resultado foi o que se viu. Nunca mais. Não quero o peso do fracasso brasileiro.

Para eu sentir essa culpa, são necessárias algumas crenças: que eu tenha poderes mágicos de influenciar jogadores em Londres; que eu tenha a vontade para operá-los de forma a que eles dêem bons frutos; que minha vontade não foi bastante para produzir os efeitos supostamente desejados.

Em suma: para ter culpa, eu preciso acreditar que tenho arbítrio (significa vontade), e que ele é livre ao meu dispor. O tal livre arbítrio.

Há milênios que nossa espécie se acha grande coisa. Nossos antepassados criam que o raio havia caído porque eles tinham tocado numa pedra. Quando criança, acreditei poder parar a chuva queimando a palha do domingo de ramos (e não é que a chuva parava… às vezes). Havia uma relação poderosa de causa-efeito entre o que fazíamos e o que acontecia. Há uma criança dentro de nós até hoje (ou um antepassado troglodita, que ambos se parecem), caso contrário não haveria o menor sentido em torcer (pelo menos, não pela TV). É duro admitir, mas não estamos com essa bola toda. O último milênio foi cruel com nossa vaidade. Copérnico mostrou que não éramos o centro do universo. Freud mostrou que não mandávamos nem em nosso próprio quintal, que forças ocultas nos manipulam (no que foi endossado pelos evolucionistas, com as forças genéticas). Cientistas em geral mostram que é cada vez mais difícil completar a frase “O ser humano é o único animal que…”

No artigo sobre sentimento de culpa, falei que a crença no livre arbítrio, na vontade perfeitamente comandada por um eu soberano, era essencial para que sentíssemos culpa. Neste, questiono, não a existência da vontade, mas o quanto ela é livre. “Mas se a ausência de livre arbítrio for demonstrada, não podemos pôr ninguém na cadeia, pois ninguém será culpado”. Sinto muito, não é por isto que a cadeia existe. Ela é necessária para afastar pessoas perigosas a nosso meio. E para criar mais um constrangimento à vontade, algo que a torne menos livre ainda: cuidado com seus atos, pois eles têm conseqüências.

Afinal, quais são os cordéis que tornam nossa vontade um bonifrate? Ela é um títere de que, ou de quem? Começando com o mais básico, o nosso desejo é seu maior manipulador. Compreenda “desejo” como nossa força motora que carrega, desde os instintos mais primitivos, à modelagem que eles sofrem da genética e da criação, da cultura, da moda, do zeitgeist (o espírito do tempo). Ele é um gigantesco software inconsciente, que se mostra na tela da consciência com uma imagem a cada vez. Uma delas é a vontade. Minha vontade de assistir ao jogo foi completamente diferente da de meu filho. Livre arbítrio? rsrsrsrs. Odeio isto e o kkkk, mas, sabe, é o zeitgeist… Lamento muito, mas não peço desculpas.

> FRANCISCO DAUDT - Natureza Humana: Sentimento de Culpa

> FRANCISCO DAUDT - Natureza Humana: Palavra e Pensamento 

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PROCURAR O SONHO É PROCURAR A VERDADE – Fernando Pessoa

A única realidade para mim são as minhas sensações. Eu sou uma sensação minha. Portanto nem da minha própria existência estou certo. Posso está-lo apenas daquelas sensações a que eu chamo minhas.

A verdade? É uma coisa exterior? Não posso ter a certeza dela, porque não é uma sensação minha, e eu só destas tenho a certeza. Uma sensação minha? De quê?

Procurar o sonho é pois procurar a verdade, visto que a única verdade para mim, sou eu próprio. Isolar-se tanto quanto possível dos outros é respeitar a verdade.
in 'Textos Filosóficos'
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O ESFORÇO PELO CONHECIMENTO DA VERDADE - Albert Einstein

Devemos escolher como finalidade independente do nosso esforço o conhecimento da verdade ou, exprimindo-nos mais modestamente, a compreensão do mundo inteligível por meio do pensamento lógico? Ou devemos subordinar esse esforço pelo conhecimento racional de qualquer espécie a outros objectivos, por exemplo, a objectivos práticos? O simples pensamento não pode resolver esta questão.

A decisão tem, pelo contrário, uma influência decisiva na nossa maneira de pensar e julgar, partindo-se do princípio de que tem o carácter de convicção inabalável. Permitam-me que confesse: para mim, o esforço pelo conhecimento é um daqueles objectivos independentes, sem os quais uma afirmação consciente da vida me parece impossível ao homem de pensamento.

Uma das características do esforço pelo conhecimento é que ele tende a abranger tanto a multiplicidade da experiência como a simplicidade e redução das hipóteses fundamentais. O acordo final desses objectivos é, devido ao estádio primitivo da investigação, uma questão de fé. Sem essa fé, a convicção do valor independente do conhecimento não seria para mim forte e inabalável.

Esta atitude, por assim dizer, religiosa do cientista perante a verdade não deixa de ter influência sobre a sua personalidade. Pois, além daquilo que resulta da experiência e além das leis do pensamento, não há para o investigador, por princípio, nenhuma outra autoridade cuja decisão ou informação, por si, possa pretender ser «verdade».

Daí resulta o paradoxo de que o homem que dedica o melhor dos seus esforços às coisas objectivas, se torna, socialmente falando, um individualista extremo que — em princípio pelo menos — em nada confia senão no seu próprio juízo. Até se pode facilmente afirmar que o individualismo intelectual e a ansiedade científica surgiram juntos na História, mantendo-se sempre inseparáveis.
Albert Einstein, in 'Como Vejo o Mundo'
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A VERDADE ESTÁ À FRENTE DO NOSSO NARIZ - Dostoievski

Nós já esquecemos completamente o axioma de que que a verdade é a coisa mais poética no mundo, especialmente no seu estado puro.

Mais do que isso: é ainda mais fantástica que aquilo que a mente humana é capaz de fabricar ou conceber... de fato, os homens conseguiram finalmente ser bem sucedidos em converter tudo o que a mente humana é capaz de mentir e acreditar em algo mais compreensível que a verdade, e é isso que prevalece por todo o mundo.

Durante séculos a verdade irá continuar à frente do nariz das pessoas mas estas não a tomarão: irão persegui-la através da fabricação, precisamente porque procuram algo fantástico e utópico.
 Fiodor Dostoievski, in 'Diário de um Escitor'
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A BANALIDADE DAS APARÊNCIAS - Christian Ingo Lenz Dunker

O mal como algo “comum” prospera 
como uma patologia das aparências

Hanna Arendt está em alta. Aqui e na Europa discute-se o legado de seu pensamento, com bons comentários e teses, sem falar no impactante filme homônimo de Margarethe von Trotta. Sua ideia mais conhecida, sobre a banalidade do mal, permitiu reler o genocídio nazista como efeito de uma superestimação do modo de vida burocrático-administrado e de nossa paixão pela obediência – e não como uma súbita epidemia de psicopatas na Alemanha de Hitler, na Itália de Mussolini ou na União Soviética de Stalin.

A ideia da banalidade do mal e sua força descritiva, tanto no que se refere à impessoalização dos carrascos voluntários, quanto à falta de resistência das vítimas, apoia-se em uma concepção muito interessante sobre o que vem a ser o nosso mundo de aparências. O mal como algo “comum” prospera como uma patologia das aparências. Ao contrário da vida, que se desenvolve em um ciclo de produção e consumo, no qual dominam os processos em permanente necessidade de reposição, o mundo é composto por acontecimentos, obras e atos que permanecem como contingência ou como impossibilidade. 

A mistura entre público e privado formou um novo tipo de sociedade que gradativamente reduziu a dimensão política, que deveria incluir atos de criação, à mera reposição de processos sociais. Dessa maneira, perdemos a possibilidade de entabular verdadeiros atos, e desenvolvemos uma existência que sentimos como meramente funcional – problema bem retratado em Um homem sério (2009), dos irmãos Cohen.

Verdadeiros atos, aliás, são poucos: dizer sim, dizer não, prometer e perdoar. Mas quando eles acontecem temos sempre imprevisibilidade dos resultados e irreversibilidade do processo, combinadas com a criação de uma nova realidade que pressiona pelo gradual anonimato dos autores. 

Por exemplo, quando dizemos “eu te amo”, como um ato, essas quarto condições são atendidas. Antes de amar todos são possíveis (imprevisibilidade), mas quando ele acontece só um é necessário (irreversibilidade). Quando o ato acontece, cria um novo estado de existência, que torna seus agentes únicos. 

Autores são paradoxalmente anônimos, pois suas identidades pregressas desaparecem como efeito do ato. Aparecer opõe-se tanto a “ser” quanto a “desaparecer”. Há, portanto, contingência e impossibilidade presentes no ato, fazendo com que sejam criadas condições próprias ali onde “pareciam” impossíveis. Até aqui Hanna Arendt caminha de modo convergente com Hegel e Lacan.

O problema do humanismo é que sua crítica da lógica das aparências o leva a advogar algum tipo de essencialismo por trás das aparências, que de certa forma seria o verdadeiro autor dos atos humanos. 

Ora, a banalidade das aparências nem sempre justifica a existência de essências encobertas ou perdidas, autênticas ou verdadeiras. A banalidade das aparências só é perigosa – nos convidando ao sentimento de irrelevância e ao seu correlativo ressentimento social – se é incapacitante para o ato, seja de pensar, querer ou julgar. E aqui o antídoto deve ser buscado em Freud. Refiro-me a Lucian Freud, neto do criador da psicanálise que se tornou um expoente da pintura figurativa na virada do século. 

Em um momento no qual a lógica das aparências se tornava suspeita e a arte partia para o irrepresentável como alternativa formal, Lucian insistia no grotesco, na caricatura e na deformação como maneira de mostrar que nem toda aparência é banal. 

Há aparências que são “acontecências” e outras que são só “parecências”. Como ele mesmo dizia: “Retrato as pessoas não pelo que elas parecem ser, e não apesar do que elas parecem ser, mas do modo como elas acontecem ser (happen to be)”.
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FILOSOFIA E PSICOLOGIA: AS RAÍZES - Gustavo Alves Pereira de Assis

Filosofia e Psicologia não raras vezes percorrem um caminho semelhante, mesmo que com métodos diferentes, mas sempre em busca da compreensão do ser humano. Faz-se necessário distinguir ambas sem perder a essência que é Una, conforme o pensamento de Plotino.

A filosofia como uma esfera do conhecimento busca compreender o ser humano e o mundo que o integra. A história da filosofia ocidental está dividida cronologicamente pelo período cosmológico, antropocêntrico, teológico e novamente antropocêntrico, sempre buscando em seu cerne um fascínio pelos mistérios da vida. Constitui-se, portanto de um valioso conhecimento teórico a ser aplicado na prática humana como ferramenta para a transcendência de um ser autêntico.

A palavra psicologia vem do grego antigo psyché (alma, mente) e logia (estudo, razão) que etimologicamente significa o estudo da alma ou da mente. Atualmente entende-se por psicologia o estudo do comportamento humano e animal e os processos mentais ou cognitivos, sendo esta uma definição simplista, mas adequada ao contexto. Inicialmente pode-se entender a psicologia como uma ponte entre a filosofia e a fisiologia, que ao longo de sua história evoluiu, surgindo várias áreas e abordagens, podendo-se dizer que existe psicologias, no plural, um campo de conhecimento cientifico que busca como objetivo primordial a saúde como definida pela Organização Mundial de Saúde ( OMS, 1946 ) como um ”estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na ausência de doença ou enfermidade”. Sendo assim, espera-se das psicologias uma visão integrada do ser humano como um ser biopsicossocial.

Todas as ciências evoluíram da filosofia, sendo usual chama-la de “mãe de todas as ciências”; aplicando métodos e técnicas estritamente cientificas á problemas e questões humanas, chegam-se ao conceito amplo e crítico de ciência. As psicologias existentes receberam várias influências e dentre elas a da filosofia, como busca á sabedoria. É preciso voltar ás raízes, á gênese, aos primórdios do que chamamos de psicologia.

Segundo Bock, Furtado e Teixeira (1999) é entre os filósofos gregos que surge a primeira tentativa de sistematizar a psicologia como o estudo da alma, começando pelos filósofos pré-socráticos que estudaram o homem em relação ao mundo segundo a percepção, e mais adiante com Sócrates passa-se a estudar a razão(consciência); com Platão haverá uma divisão humana ente corpo e alma, atribuindo características distintas a estas, e já Aristóteles postulava o corpo e a alma como integrados e não separados. Santo Agostinho apoiado em Platão como São Tomás de Aquino apoiado em Aristóteles, ambos filósofos e teólogos, irão em suas teorias cristianizar as principais ideias platônicas e aristotélicas. E respectivamente, a maioria das demais escolas filosóficas  irão influenciar o surgimento da psicologia como ciência, iniciada por Wundt na Alemanha.

Voltar ás raízes significa revistar o caminho feito pela psicologia e perceber uma presença filosófica neste trajeto. Algumas áreas da ciência psicológica distanciam da filosofia, enquanto outras a reconhecem como conhecimento essencial e a incorpora em suas teorias. É necessário ressaltar que a filosofia e a psicologia são campos teóricos e práticos distintos, embora possuam semelhanças que as levam ao conceito de Unidade, elemento essencial á existência humana. A filosofia prática, uma área bastante comum nos territórios norte americanos, busca levar o conhecimento filosófico ao cotidiano das pessoas nas diversas áreas da vida, como a filosofia clinica que pretende levar o cliente através do aconselhamento á uma vida harmônica e genuína.  Portanto, constitui-se um método diferenciado da psicologia, que é cientifica.

Ser filósofo e ser psicólogo são atuações diferentes. Ser filósofo é percorrer um caminho desconhecido na busca da Sabedoria, da Integração que existe na vida humana, é mergulhar dentro de si mesmo espantando-se com os abismos encontrados e procurando um sentido moral para a existência. Ser psicólogo é trabalhar em si mesmo para trabalhar o outro, é ver-se limitado, ver-se humano, mas com potência a ser explorada e transformar em ação, é utilizar-se de um conhecimento cientifico para proporcionar bem-estar ás pessoas. Filosofia e psicologia, campos inacabados, em constante evolução, fazem-se necessária para a compreensão do que é mais sutil em nós, a condição de Ser Humano.
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A PRISÃO DA IDENTIDADE - Eliane Brum

Prefiro me desinventar 
do que assinar minhas certezas em três vias.

Antes, a pergunta que determinava nosso lugar no mundo era: “De que família você é?” ou “Qual é o seu sobrenome” ou “Você é filho de quem?”. Depois, a pergunta migrou para: “O que você faz?”. Tanto que, junto ao nome, em qualquer matéria jornalística, segue a profissão e, de preferência, a filiação profissional. Não é mais a filiação paterna, mas sim a filiação da instituição ou da empresa que confere legitimidade a um indivíduo e o autoriza a falar e a ser escutado. “O que você faz?” ou “Onde você trabalha?” é também a segunda ou a terceira pergunta que você escuta de quem acabou de conhecer em uma festa ou evento social. Só não é a primeira porque ainda faz parte da boa educação se apresentar pelo nome antes, ou fazer algum comentário sobre a qualidade da comida ou qualquer outra banalidade. 

A questão que se impõe, antes ou agora, é a mesma: a partir de que lugar você fala. A partir do lugar de onde alguém fala, prestamos atenção ou não naquilo que diz. O lugar de onde falamos é, portanto, o que nos confere identidade. E a identidade é uma exigência do nosso mundo. 

 
Escrevo sobre isso porque tenho tentado escapar da prisão da identidade. Ou da prisão de uma identidade imutável como a impressão digital do meu polegar. E esbarro no funcionamento do mundo. Há um ano e meio vivo sem emprego. Por opção. A pergunta que mais escuto é: “Por que você deixou de ser repórter?”. Respondo que nunca passou pela minha cabeça deixar de ser repórter. Eu apenas deixei de ter emprego, o que é muito diferente. “Então você está frilando?”. Não exatamente. Não foi apenas uma troca de cadastro, de pessoa física para jurídica. Foi uma mudança mais profunda.

Explico que, a partir de uma investigação sobre a morte, compreendi que precisava me reapropriar do meu tempo e, desde então, venho fazendo uma mudança radical no meu jeito de viver. “Mas então você nunca mais vai ter emprego?”. Sei lá. Como saber? Não tenho nenhum interesse em assinar qualquer declaração de intenções em três vias. “Mas você agora trabalha mais do que antes!”, é o comentário seguinte. Sim, mas eu não mudei para trabalhar menos, pelo contrário. Eu adoro trabalhar e não me sinto oprimida pelo trabalho, porque, para mim, trabalhar é criar. Eu mudei para experimentar outras possibilidades de me expressar e de viver, o que para mim é quase a mesma coisa. “Mas você não separa trabalho da vida pessoal?” Não. Trabalho é bem pessoal para mim. “Mas você trabalha mais e ganha menos?”. Sim. “Hum.”

Eu faço várias coisas que quero fazer, tento explicar. “Então você se tornou documentarista?”, é a próxima pergunta, quando descobrem que estou no meu terceiro documentário. Às vezes, mas é mais como uma experiência de contar histórias do que como uma profissão. “Mas por que você decidiu parar de contar histórias reais para escrever ficção?”, é o questionamento mais recente, desde o lançamento do meu primeiro romance. Eu não deixei de contar histórias reais, apenas senti necessidade de escrever ficção. É mais uma voz na tentativa de dar conta do que me escapa (e continuará escapando) – e não minha única voz. “Mas então agora você é ficcionista?”. Sim e não.
Sou várias coisas ao mesmo tempo. “Hum.”

Estes são diálogos frequentes no meu cotidiano. A partir deles – e da necessidade persistente do mundo de me encaixotar em alguma identidade fixa e fácil de compreender – comecei a me indagar sobre isso. Afinal, o que as pessoas perguntam é: “Quem você é?”. E antes era fácil dizer: “Sou jornalista”. Só que isso dizia muito pouco sobre mim, já que ser jornalista é só o começo da resposta sobre quem sou eu. Assim como ser pedreiro, enfermeiro, morador de rua ou CEO é o começo superficial de uma resposta sobre quem é qualquer pessoa. Mas ter uma resposta simples para algo complexo deixava todo mundo satisfeito. Agora, minhas respostas sobre quem sou eu não satisfazem ninguém. Porque o melhor e mais honesto que posso oferecer ao meu interlocutor são mais pontos de interrogação. E, definitivamente, pontos de interrogação não são populares. O mundo exige respostas com pontos finais e, de preferência, exclamações peremptórias. 
 
Ora, quem sou eu? Não sei quem sou eu. E, quando penso que sei, me escapo. Alguém já conseguiu responder a esta pergunta com alguma quantidade razoável de certeza? Ainda assim, por não ter uma resposta fácil para uma pergunta que define as relações do nosso mundo, tornei-me um incômodo. Mas, como a questão é legítima, tenho me aprofundado nela. E, nessa busca para compreender a questão da identidade, deparei-me com uma ótima história de Michel Foucault.

Em uma passagem pelo Brasil, em Belo Horizonte, Foucault foi questionado sobre o seu lugar: “Mas, finalmente, qual é a sua qualificação para falar? Qual é a sua especialidade? Em que lugar o senhor se encontra?”. Foucault ficou chocado com a “petição de identidade”. A exigência, constante em sua trajetória, motivou uma resposta de grande beleza em seu livro Arqueologia do Saber (Forense Universitari): “Não estou, absolutamente, lá onde você está à minha espreita, mas aqui de onde o observo, sorrindo. Ou o quê? Você imagina que, ao escrever, eu sentiria tanta dificuldade e tanto prazer, você acredita que eu teria me obstinado em tal operação, inconsideradamente, se eu não preparasse – com a mão um tanto febril – o labirinto em que me aventurar, deslocar meu desígnio, abrir-lhe subterrâneos, soterrá-lo bem longe dele mesmo, encontrar-lhe saliências que resumam e deformem seu percurso no qual eu venha a perder-me e, finalmente, aparecer diante de quem nunca mais tivesse de reencontrar? Várias pessoas – e, sem dúvida, eu pessoalmente – escrevem por já não terem rosto. Não me perguntem quem eu sou, nem me digam para permanecer o mesmo: essa é uma moral do estado civil que serve de orientação para elaborar nosso documento de identidade. Que ela nos deixe livres no momento em que se trata de escrever”.

Lindo. Michel de Certeau que, como Foucault, foi alguém que conseguiu escapar dessa identidade de túmulo e, ao mesmo tempo, construir um sólido percurso intelectual, analisa essa questão em um dos textos de um livro muito instigante: História e Psicanálise – entre ciência e ficção (Autêntica). Certeau diz o seguinte sobre o episódio vivido por Foucault em Belo Horizonte:
Ser catalogado, prisioneiro de um lugar e de uma competência, desfrutando da autoridade que proporciona a agregação dos fiéis a uma disciplina, circunscrito em uma hierarquia dos saberes e das posições, para finalmente usufruir de uma situação estável, era, para Foucault, a própria figura da morte. (...) A identidade imobiliza o gesto de pensar, prestando homenagem a uma ordem. Pensar, pelo contrário, é passar; é questionar essa ordem, surpreender-se pelo fato de sua presença aí, indagar-se sobre o que tornou possível essa situação, procurar – ao percorrer suas paisagens – os vestígios dos movimentos que a formaram, além de descobrir nessas histórias, supostamente jacentes, ‘o modo como e até onde seria possível pensar diferentemente’”.

A resposta de Foucault para a plateia de Belo Horizonte foi: “Quem sou eu? Um leitor”.

Quando me perguntam sobre o lugar de onde eu falo, tenho dito nos últimos tempos: “Quem sou eu? Sou uma escutadeira”. E agora posso até citar Foucault para a resposta ficar mais chique.

Na semana passada, participei de um debate na Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo (RS), com Edney Silvestre e Nick Monfort. Terminava minha apresentação dizendo:
A vida é um traçado irregular de memórias no tempo. Quero que, como inventário do vivido, meu corpo tenha as marcas de todas as histórias que fizeram de mim o que sou. E, se meus netos e bisnetos forem me contar, espero que jamais cheguem a qualquer conclusão fechada sobre a minha identidade. Esta seria a maior prova de que vivi”.

Depois, a certa altura do debate, repeti que minha identidade era fluida. E que hoje estava mais interessada em me desinventar do que em me inventar, em me desidentificar do que em me identificar. À noite, quando me preparava para deixar a universidade, fui cercada por um grupo de garotas: “Obrigada pelo que você disse sobre a identidade”.

Percebi que, no mundo líquido em que a internet nos lançou, há algo sobre a compreensão do que é identidade que começa a mudar. É neste mundo novo que os mais jovens tentam dar passos de astronauta, mas a gravidade da antiga ordem os prende no chão. Ainda que por razões e tempos diferentes, eu e aquelas garotas, assim como muitos outros por aí, nos conectamos nas esquinas voláteis de um mundo que ainda é determinado por padrões de cimento.

Ao pegar o avião que me levaria de volta para São Paulo, olhei para a carteira de identidade descolada, parcialmente apagada e um tanto esfarrapada que apresentei no embarque. E finalmente entendi por que não consigo me convencer a substituí-la por uma nova. Enquanto me permitirem, é com ela que vou embarcar. Porque é nela que me reconheço. Quando me obrigarem a trocá-la, vou obedecer. Mas as autoridades jamais saberão que é em uma identidade que se desprende de si que reside minha verdade.
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