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SAUDADES DA GUANABARA - Miguel Falabella

A falência do ensino público causou-nos um estrago
tão grande que vamos precisar de tempo 
para recuperar a palavra

Em algum lugar entre o sonho e a realidade, numa zona que a medicina ainda não conseguiu entender, alguém me entrega uma frase estranha: por toda parte floresciam os abricós-de-macaco. Quase uma mensagem secreta, trazida de além-mar, numa trama de espionagem, eu penso e, ato contínuo, começo a abrir os olhos. 

Por toda parte floresciam os abricós-de-macaco. Um novelista romântico a passeio pela cidade talvez tenha decidido fazer-me um agrado e, na busca pelo remetente, eu finalmente acordo de vez com as palavras brincando no fundo dos olhos e, mais à frente, a imagem da árvore espelhada na retina. 


Acordo também com vontade de ver outra vez um pé de abricó-de-macaco exibindo sua exuberância na floração, mas pulo da cama, pois o dia me chama. Mais tarde eu procuro uma imagem na rede e exercito meu platonismo cotidiano, eu penso. Mais tarde.

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A frase, entretanto, continua comigo, exigindo ser usada quanto antes e, convenhamos, construir uma crônica ao redor dela me parece uma tarefa mais simples do que colocá-la na boca de alguma personagem que, para entrar em cena e dizer eu lembro que por toda parte floresciam os abricós-de-macaco...vai-me exigir um equilíbrio delicado, já que trata-se de uma espécie amazônica e, se florescem por toda parte, eu acredito que a comédia, ou drama, deva se passar no Norte. Ou talvez ela pudesse ser dita numa cena de adeus, filmada naquela minha enseada da infância, com a luz perfeita que havia então. 

A personagem estenderia o olhar acompanhando a curva sinuosa da praia e diria: eu lembro que por toda parte floresciam os abricós-de-macaco. Não. Pensando bem, ela vai ser usada numa crônica. Uma crônica da memória, já que a imagem vem do passado, e também uma crônica de verão, já que é nesta estação que a árvore floresce com mais luxúria. Uma crônica da Guanabara, eu decido:


Eu estudava no Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes, na rua Pio Dutra, na Ilha do Governador, com aquele uniforme de então, camisa cáqui, calça azul e o escudo costurado no bolso, com os golfinhos da insígnia em baixo relevo. Um colégio que tinha sido modelo do Estado da Guanabara, vale a pena acrescentar. Tínhamos um excelente ensino. 

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E então vieram os anos 70 e a educação pública brasileira começou a ruir, sem que ninguém mexesse um dedo para deter o estrago que se fazia na população. Junto com o resto da nação, a classe média carioca, que sempre colocou os filhos nos bons colégios que o Estado oferecia (porque é assim que deve ser), começou a fazer das tripas coração para pagar as escolas particulares, na tentativa de dar uma formação decente à prole, pois é esse o desejo de todo pai e toda mãe do planeta. 

Dar à cria uma chance de sobrevivência, enfim. A falência do ensino público causou-nos um estrago tão grande que, mesmo que se tome alguma iniciativa eficaz neste sentido, ainda vamos precisar de muito tempo para recuperar a palavra e seus tantos sentidos.


Acredito que nossa presidente conhece a importância da educação na vida dos povos e certamente tomará medidas que deem oportunidades iguais a todos, tal qual tínhamos num passado não tão remoto, quando floresciam por toda parte os abricós-de-macaco, guardados intactos nos arquivos de um jovem escritor.

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O INTERIOR DA ALMA – Victor Hugo

O olho do espírito em parte nenhuma pode encontrar mais deslumbramentos, nem mais trevas, do que no homem, nem fixar-se em coisa nenhuma, que seja mais temível, complicada, misteriosa e infinita. Há um espetáculo mais solene do que o mar, é o céu; e há outro mais solene do que o céu, é o interior da alma.

Fazer o poema da consciência humana, mas que não fosse senão a respeito de um só homem, e ainda nos homens o mais ínfimo, seria fundir todas as epopéias numa epopéia superior e definitiva. A consciência é o caos das quimeras, das ambições e das tentativas, o cadinho dos sonhos, o antro das idéias vergonhosas: é o pandemônio dos sofismas, é o campo de batalha das paixões.

Penetrai, a certas horas, através da face lívida de um ser humano, e olhai por trás dela, olhai nessa alma, olhai nessa obscuridade. Há ali, sob a superfície límpida do silêncio exterior, combates de gigante como em Homero, brigas de dragões e hidras, e nuvens de fantasmas, como em Milton, espirais visionárias como em Dante. Sombria coisa esse infinito que todo o homem em si abarca, e pelo qual ele regula desesperado as vontades do seu cérebro e as ações da sua vida!
 Victor Hugo, in 'Os Miseráveis'
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O Dom de ser Mulher depois dos 40 – JOSÉ SARAMAGO



Nos encontramos em um momento no qual nos permitimos crescer e curar aquelas feridas e questões que haviam ficado sem resolver na primeira metade da nossa vida.

***

Quantos anos tenho?

Tenho a idade em que as coisas são vistas com mais calma, mas com o interesse de seguir crescendo.

Tenho os anos em que os sonhos começam a acariciar com os dedos e as ilusões se convertem em esperança.

Tenho os anos em que o amor, às vezes, é uma chama intensa, ansiosa por consumir-se no fogo de uma paixão desejada.

E outras vezes é uma ressaca de paz, como o entardecer em uma praia.

Quantos anos tenho?

Não preciso de um número para marcar, pois meus anseios alcançados, as lágrimas que derramei pelo caminho ao ver minhas ilusões despedaçadas…

Valem muito mais que isso

O que importa se faço vinte, quarenta ou sessenta?!

O que importa é a idade que sinto.

Tenho os anos que necessito para viver livre e sem medos.

Para seguir sem temor pela trilha, pois levo comigo a experiência adquirida e a força de meus anseios.

Quantos anos tenho? Isso a quem importa?

Tenho os anos necessários para perder o medo e fazer o que quero e o que sinto.





Wayman Tisdale - Um Som – Acoustic Alchemy – Peter White – 
Pat Metheny&Lyle Mays – Wind Machine – Tim Bowman – Craig Chaquico 


Jaheim - Acoustic Alchemy - Alex Bugnon
Marcus Johnson - Earl Klugh - Wind Machine - Banda Zil

David Benoit – Chuck Mangione
Richard Bona & Pat Metheny – Wayman Tisdale    



CHICO ANYSIO - SILÊNCIO, HOSPITAL!

Nos primeiros tempos de casamento ele aparentava uma saúde de ferro mas, de uns anos pra cá, mostrava-se tão frágil, tão suscetível às doenças, que Dona Belinha, sua esposa, intranqüilizava-se cada vez mais.
— Qualquer coisinha o Pirilo hospitaliza-se — choramingava às amigas. — Tão frágil, tão doentinho...
E assim era. Por um simples sintoma de gripe ou resfriado, o Pirilo pegava um pijama, escova de dentes, pente e chinelos, metia-os numa maleta branca e hospitalizava-se.
— O que é que você tem, Pirilo? — perguntava a esposa preocupada, vendo o marido fazer a mala para mais uma ida à casa de saúde.
— Nada, minha velha.
— E se não tem nada, por que você vai para o hospital, Pirilo? — insistia Dona Belinha, mais preocupada do que nunca.
— Com saúde não se facilita. Não tenho nada agora, mas estou esperando uma gripe de uma hora para outra.
E se internava por quatro, cinco dias. Proibia as visitas e não aceitava flores ou maçãs. "Se eu morrer, não quero ninguém no velório. Na doença e na morte, longe os parentes", era a teoria que defendia e a que a família obedecia.
— Chama-se isso de hipocondria — explicou um médico a quem Dona Belinha secretamente visitou:
— Hipocondria?
— É uma ansiedade habitual relativa à própria saúde — decifrava o médico. — É muito comum, um caso assim. Há pessoas que não vivem sem tomar remédio. Seu marido é um caso desses. Só que em estado mais grave, porque ele chega a ir para o hospital. Mas não se preocupe. Os hipocondríacos são os que vivem mais.
— Isso pega, doutor? — inquiriu Dona Belinha, quase desejando que sim, para poder acompanhar o marido, de quem sentia muita falta, durante os dias de nosocômio.
— Pegar, não digo, mas quem convive com um hipocondríaco, sendo de espírito fraco, pode-se contagiar por esta mania.
E ela muito rezava e pedia que lhe fosse dado este contágio.
— Belinha, traz a mala.
— Pra onde você vai, Pirilo?
— Vou-me hospitalizar.
— O que é que você está sentindo?
— Hoje, fazendo as unhas, tirei sangue da cutícula. Isso pode infeccionar, dar tétano, gangrenar, sei lá. Com saúde não se brinca.
E, de mala branca na mão e infalível chapéu preto à cabeça, lá ia o Pirilo para o Hospital dos Estrangeiros, onde tinha conta corrente (pagava por semestre) e apartamento quase fixo.
— O apartamento de sempre, Sr. Pirilo? perguntava a enfermeira, como se aquilo fosse um hotel.
— Não. Desta vez quero um no terceiro andar, com vista para a encosta.
E por uma semana, muitas vezes, curtia o seu hospitalzinho, de camisola e tudo, com exames de pressão arterial, termômetros sob a axila, colheita de urina, sangue, fezes, escarro, etc. Uma semana depois, sentindo-se recuperado, voltava ao seio da família, dizendo-se outro homem.
Ao mesmo tempo em que os filhos cresciam, desenvolvia-se a hipocondria do Pirilo, que se internou pelos motivos mais burlescos, de tão banais: furúnculo, cisco no olho, mau jeito no braço, aerofagia, topada.
A conselho médico a mulher nem tocava mais no assunto, tentando meter na cabeça do marido que ele não sofria de coisa alguma ("Isso pode piorar, porque ele fica irritado e..."). Ao ver Pirilo chegar e entrar em casa sem tirar o chapéu preto, a mulher já sabia que era caso de hospital. E, por conta própria (disso o médico não teve culpa), já até colaborava com a hipocondria do marido.
— Não está passando bem, Pirilo?
— Ainda bem que você notou. Hoje arrotei duas vezes, depois de tomar uma Coca-Cola. Faz a mala.
E o pijama, com pente, chinelo e escova de dentes, era enfiado na mala branca que Pirilo conduzia ao Hospital dos Estrangeiros, onde era mais conhecido do que muitos dos médicos que lá operavam ou davam plantão.
— Terceiro andar, para a encosta?
— Segundo andar, de frente.
— 214 — informava a enfermeira, dando-lhe a chave.
Tantas foram as vezes que Pirilo se internou que, ultimamente, já ia sozinho da portaria para o quarto. Ir uma enfermeira com ele para quê, se ele conhecia os corredores e apartamentos mais do que a maioria delas? De hospital, ele dava aula. E era um custo para aceitar a alta do médico.
— Pode ir embora hoje, Sr. Pirilo.
— De jeito nenhum. Antes de quinta-feira ninguém me tira daqui.
— Mas o senhor já está bom. Os gases...
— Os gases acabaram, mas... e essa unhazinha?
— Que tem a unha? — perguntava o médico, segurando-lhe a falange do pé que Pirilo lhe exibia.
— Repare na unha, veja bem.
— Está bem.
— Ora, doutor, enganar ao Pirilinho? A unha está encrava, não encrava. Antes de quinta-feira eu não saio, a não ser que a unha se resolva.
De tanto Pirilo se ausentar para os hospitais, apareceu um arquiteto desquitado com ótimos planos e projetos para Dona Belinha com os quais ela concordou, de tanta distância que já sentia do marido hipocondríaco.
Saiu ganhando, pois amava agora um homem formado, enquanto Pirilo continuava amante de uma ajudante de enfermeira do Hospital dos Estrangeiros, que um dia dava plantão no terceiro andar, de frente para a encosta, no outro dia no segundo andar, de frente para a frente...
Os hipocondríacos merecem cuidados!
Chico Anysio

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CASA DO SABER - Exibição do documentário BUDRUS + DEBATE C/ DIRETORA JÚLIA BACHA - GRÁTIS


Budrus

Exibição do documentário e bate-papo com:

Julia Bacha, Bernardo Sorj e Murilo Soede.

Moderação: Michel Gherman




A CASA DO SABER RIO e a Copacabana Filmes convidam para a exibição do documentário Budrus, dirigido e produzido por Julia Bacha. Em seguida, a diretora conversa com o sociólogo Bernardo Sorj e o historiador Murilo Soede, num bate-papo moderado pelo historiador Michel Gherman. Com mais de 15 prêmios internacionais, o longa-metragem retrata a resistência pacífica do vilarejo palestino Budrus, situado na fronteira entre a Cisjordânia e Israel. Em 2003, Budrus ocupou as manchetes ao ser palco de um inusitado protesto não-violento. A causa foi o anúncio da construção de um muro pelos israelenses que destruiria oliveiras históricas e economicamente importantes para a comunidade. Ayed Morrar e sua filha Iltezam estavam à frente do movimento, que conseguiu unir facções palestinas rivais, como o Fatah e o Hamas, e judeus progressistas. Ouvindo os lados envolvidos, a cineasta Julia Bacha monta um amplo painel de uma situação explosiva no Oriente Médio que encontrou solução por via pacífica.

Dia 21 de outubro, sexta-feira, às 19h30
Evento gratuito – Vagas limitadas
Inscrições pelo telefone (21) 2227-2237
Av. Epitácio Pessoa 1.164 Lagoa

Julia Bacha
Brasileira radicada em Nova York, é produtora sênior e diretora de mídia na Just Vision. Estudou história e política do Oriente Médio na Universidade Columbia. Escreveu, dirigiu e editou filmes exibidos e premiados nos festivais de cinema de Sundance, Tribeca, Berlim, Jerusalém e Dubai, entre os quais os documentários Encounter Point e Control Room.

Michel Gherman
Historiador. Professor de história Judaica e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos judaicos da UFRJ

Bernardo Sorj
Sociólogo. Professor titular aposentado da UFRJ e diretor do Centro Edelstein de Pesquisas Sociais e do Projeto Plataforma Democrática.
Murilo Soede
Historiador. Pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa.

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