PROCRASTINAÇÃO, VOCÊ NÃO SE ACHA BOM O BASTANTE? - Antônia no Divã

Essa semana um amigo meu me pediu para ajudá-lo a colocar em andamento o seu sonho de escrever. Sentamos e conversamos por mais de uma hora sobre tudo que ele tinha que fazer para alcançar os seus objetivos. Tracei metas para ele, indiquei pessoas que poderiam ajudar, sugeri um cronograma e dei conselhos dos quais eu deveria ouvir, antes mesmo de dá-los. No rosto do meu amigo, vi a mesma sombra dos pontos de interrogação que me fizeram questionar o início do meu processo criativo.

A autocrítica, o medo, a procrastinação, todos os sintomas da auto-sabotagem disfarçados de ponderações. Não conseguia entender como a doença da auto-sabotagem podia infectar algumas das pessoas mais fantásticas que eu já conheci. A situação me botou em autoanálise, como sempre.

Dei-me conta de que a procrastinação é o primeiro obstáculo para a construção de algo. Nossos projetos mais amados começam a ser postergados por metas que julgamos “mais práticas” ou “mais urgentes”. A gente espera que o tempo traga aquela coragem tão necessária na hora de arriscar, mas tudo que ele faz – o tempo – é dar tapa na nossa cara. Afinal, coragem não é a ausência do medo, mas a superação dele. E isso exige atitude.

A procrastinação é um dos piores defeitos dos criativos. E tudo bem que criação e criatividade têm muito a ver com o respeito pelo timing, inspiração, maturação de ideias, e até a revisão delas. Mas acima de tudo tem a ver com trabalho. Sem trabalho não há evolução. E sem evolução não tem aprendizado. E sem aprendizado, bem, sem aprendizado você vira um inútil vendo o tempo passar e as oportunidades morrerem na praia.

PROCRASTINAÇÃO: “Amanhã você vai desejar ter começado hoje.”

A sabotagem ou auto-sabotagem é também algo cultivado pelo ser humano que deveria ser estudado e prevenido em qualquer fase de formação. E quando falo em auto-sabotagem, não falo apenas dela no lado profissional – sabotagem existe, é alimentada e se manifesta em todo tipo de relação. Profissional, pessoal, amorosa. Eu sei disso porque eu sou perita na arte da sabotagem. De tomar o porre da vida na festa do novo emprego que havia começado não fazia três dias. De soltar gafes no primeiro encontro com pessoas importantes. E nem queira me ver comentar sobre auto-sabotagem nas minhas relações amorosas. Tenho certeza que meu cupido me odeia por conta da maneira criativa como eu sempre fodo com o trabalho dele.

Eu tenho uma teoria sobre a auto-sabotagem. Na minha opinião ela surge pela nossa falta de preparo em ver as coisas darem certo. A gente já se acostumou em esperar o pior, e entra em parafuso na eminência do sucesso. Afinal…. vá que dê tudo certo e a gente alcance reconhecimento profissional, relações promissoras e amores avassaladores, né? O que faríamos com o medo de perder tanta coisa importante? Melhor nem ter!

SABOTAGEM: “Aceite/promova as boas coisas que a vida reservou pra você.”

E por último, mas não menos letal na construção de algo, a famosa sina do “eu não sou bom o bastante”. Mas que mania idiota de compararmo-nos com todo mundo, ou de medir os nossos talentos pela régua alheia. Ninguém é tão boa em contar histórias como eu porque ninguém as conta como eu, certo? Ou seja, só eu posso aplicar os meus talentos como eu – ninguém mais – e isso deveria ser o bastante para nos convencer, não é?

O mesmo se aplica ao meu amigo, aquele do início desta reflexão. Não existe um vivente sequer que escreve melhor que ele, porque ninguém pensa como ele. Não há quem cozinhe melhor que a minha mãe, porque a comida dela tem o sabor que é só dela. No mundo inteiro não há quem cante tão bem quanto o meu irmão de 6 aninhos, porque só ele inventa as músicas que ele inventa. E assim vai. Ou seja, talentos não deveriam ser comparados. Apenas compartilhados. E talentos não divididos – já diria uma amiga minha – são a nossa maior prova de egoísmo com o mundo.

SINA DO “NÃO SOU BOM O BASTANTE”: Não seja egoísta com o mundo. Compartilhe seus talentos/sonhos/projetos.

Eu sei que essa mudança não é fácil. Eu tenho uma lista de metas deixadas de lado, e uma gaveta cheia de lindos sonhos engavetados. Mas eu decidi que tudo isso vai mudar. E esta sessão nada mais é que um baita puxão de orelha em mim mesma, e um lembrete que o dia “D” é sempre hoje. E espero que o puxão de orelha chegue aí do outro lado da tela. Vamos lá! Entre nesta luta contra a auto-sabotagem através de três passos:

Comece agora. 
1 - Aceite as coisas boas da vida.
2 - Compartilhe o seu valor com o mundo.
3 - O universo vai agradecer, eu prometo.

Fim da sessão.
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8 SINAIS DE ESGOTAMENTO MENTAL - Marilia de Andrade Conde Aguilar

Você já se sentiu tão esgotado a ponto de não ter mais motivação de fazer nem aquilo de que gosta? Já se sentiu tão pra baixo a ponto de não conseguir ver alegria no que faz e tudo ser motivo de irritação?

Pois eu já…

É muito comum as pessoas confundirem esgotamento mental e depressão porque esses dois problemas têm sintomas em comum.

O esgotamento está geralmente associado ao estresse do trabalho e ao desgaste mental. Depressão pode ou não estar relacionada ao trabalho.

Pessoas com esgotamento mental apresentam problemas de atenção e o nível de esgotamento pode ser medido de acordo com o número de lapsos cognitivos que a pessoa tem em um dia, tais como dizer coisas sem pensar, esquecer nomes, não reparar em um sinal vermelho enquanto dirige…

Estudos têm demonstrado que os homens apresentam mais dificuldade em assumir que estão esgotados. Muitos deles acham que isso é um sinal de fraqueza. Outros estão tão absorvidos em prover as necessidades materiais da família que não admitem que possam já ter passado do próprio limite.

As consequências disso podem ser desastrosas.
Por isso é muito importante que você saiba identificar os sinais de esgotamento em você e nos outros. Entre eles, podemos citar:

1. Tempestade em copo d’água
Quando, mesmo diante do menor dos problemas, a pessoa se descontrola já é um sinal claro de esgotamento.

Nessa situação ela está tão exaurida em suas capacidades mentais que não consegue mais distinguir com clareza um problema simples de algo realmente grande.

2. Cansaço crônico
Sentir-se exausto é um dos principais sintomas do esgotamento.
Não se trata apenas em sentir-se extremamente cansado uma vez ou outra. Mas, em um sentimento constante de cansaço. A pessoa sente-se o tempo todo sobrecarregada e esgotada.

3. Imunidade baixa
A adrenalina que o corpo produz nas situações de estresse ajuda a pessoa a estar em alerta. Mas produz estragos no sistema imunológico.

Com a resistência em baixa, a pessoa tende a ficar doente com mais frequência. Doenças que podem ir desde resfriados, crises de enxaqueca, dores de estômago até palpitações no coração.

4. Sentimento de ineficiência
A pessoa mentalmente esgotada sente que não consegue atingir seus objetivos na vida.

Com esse sentimento, a confiança da pessoa vai pelo ralo, e ela se sente ainda menos capaz diante dos desafios. O que gera efeitos desastrosos na autoestima.

5. Apatia generalizada
O entusiasmo pelo trabalho apaga e parece que tudo e todos são motivos de descontentamento para a pessoa esgotada.

Ela não sente mais motivação no que faz e se contenta em fazer o mínimo. Muitas vezes, não tem motivação nem para fazer as coisas que gosta.

6. Perfeccionismo exagerado
Pesquisas recentes demonstram que as pessoas perfeccionistas têm um risco muito maior de esgotamento. Isso porque o padrão de perfeição criado por elas consome muita energia, o que leva a um desgaste ainda maior.

Esse tipo de pessoa precisa avaliar com sinceridade se a perfeição é realmente essencial para cada projeto específico. A resposta geralmente é “não”.

7. Sem paradas
Um tempo para recuperação é muito importante na prevenção do esgotamento.

É preciso encontrar maneiras de se recuperar durante o trabalho (em pequenos intervalos), mas também após o trabalho (à noite, nos finais de semana, nas férias).

Quando falamos em descanso, não estamos nos referindo a dormir apenas. Mas, também, em dedicar-se a atividades que dão prazer – uma atividade física, um passeio em família, um hobby.

8. Muitas demandas do trabalho X poucos recursos de trabalho
Podemos explicar as “demandas do trabalho” como tudo aquilo que precisa ser feito – e, portanto, que consome esforço e energia.

Por “recursos de trabalho” podemos entender tudo aquilo que motiva, que nos ajuda a atingir os objetivos.

As demandas do trabalho não são necessariamente ruins. Mas, por causa da energia que consomem, precisam ser equilibradas com os recursos de trabalho.

O dinheiro é um recurso de trabalho muito importante – a expectativa da remuneração que vai receber motiva a fazer o que precisa ser feito. Mas esse não deve ser o único recurso de trabalho.

A alegria e a satisfação decorrentes da atividade exercida são muito importantes também (talvez até mais que o dinheiro!).

Entretanto, nem todos têm a oportunidade de fazer profissionalmente aquilo que realmente gostam. Mas todos têm a oportunidade de usar seus dons e talentos no serviço voluntário.

Esse tipo de trabalho não dá um tostão como retorno, mas traz consigo importantes recursos de trabalho como a alegria no serviço, o amor ao próximo e a gratidão. Recursos esses que dão energia para fazer todas as outras coisas.

O esgotamento tem sido descrito como o maior risco profissional do século XXI.

Conhecer seus sintomas e como diminuir seus efeitos é um primeiro passo muito importante rumo a uma vida plena e feliz.
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A LOUCURA CHAMADA AFIRMAR, A DOENÇA CHAMADA CRER, A INFÂMIA… – Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

A loucura chamada afirmar, a doença chamada crer, a infâmia chamada ser feliz — tudo isto cheira a mundo, sabe à triste coisa que é a terra.

Sê indiferente. Ama o poente e o amanhecer, porque não há utilidade, nem para ti, em amá-los.

Veste teu ser do ouro da tarde morta, como um rei deposto numa manhã de rosas, com Março nas nuvens brancas e o sorriso das virgens nas quintas afastadas. Tua ânsia morra entre mirtos, teu tédio cesse então…

E o som da água acompanhe tudo isto como um entardecer ao pé de margens, e o rio, sem sentido salvo correr, eterno, para marés longínquas. O resto é a vida que nos deixa, a chama que morre no nosso olhar, a púrpura gasta antes de a vestirmos, a lua que vela o nosso abandono, as estrelas que estendem o seu silêncio sobre a nossa hora de desengano. Assídua a mágoa estéril e amiga que nos aperta ao peito com amor.

(Meu destino é a decadência.)

Meu destino foi outrora em vales fundos. O som de águas que nunca sentiram sangue rega o modo dos meus sonhos. O copado das árvores que esquece a vida era verde sempre nos nossos esquecimentos. A Lua era fluida como água entre pedras. O amor nunca veio àquele vale e por isso tudo ali era feliz. Nem sonho, nem amor, nem deuses em templo, passando entre a brisa e a hora…
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VIA-LÁCTEA – Olavo Bilac


“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto, Cintila. 
E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.
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ACHO QUE FIZ UM MONTE DE GENTE FELIZ – Rita Lee Jones

Sei que ainda há quem me veja malucona, doidona, porra-louca, maconheira, droguística, alcoólatra e lisérgica, entre outras virtudes.

Confesso que vivi essas e outras tantas, mas não faço a ex-vedete-neo-religiosa, apenas encontrei um barato ainda maior: a mutante virou meditante.

Se um belo dia você me encontrar pelo caminho, não me venha cobrar que eu seja o que você imagina que eu deveria continuar sendo. Se o passado me crucifica, o futuro já me dará beijinhos. […]

Enquanto isso, sigo sendo uma septuagenária bem ‑vivida, bem‑experimentada, bem‑amada, careta, feliz e… bonitinha. Lucky, lucky me free again*.

Tempo para curtir minha casa no mato, para pintar, cuidar da horta, paparicar meus filhos, acompanhar minha neta crescer, lamber meus bichinhos, brincar de dona de casa, escrever historinhas, deixar os cabelos brancos, assistir novela, reler livros de crimes que já esqueci quem eram os culpados, ler biografias de celebridades com mais de setenta anos, descolar adoção para bichos abandonados, acompanhar a política planetária, faxinar gavetas, aprender a cozinhar, namorar Roberto e, se ainda me sobrar um tempinho, compor umas musiquinhas.

[…]Ter a sorte de ter sido quem sou, estar onde estou, não é nada comparado ao meu maior gol: sim, acho que fiz um monte de gente feliz.
– No livro “Rita Lee – Uma autobiografia“.Globo Livros, 2016.
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DE QUE VALE A SABEDORIA? – Erasmo de Roterdam

Os homens que se entregam à sabedoria são de longe os mais infelizes. Duplamente loucos, esquecem que nasceram homens e querem imitar os deuses poderosos, e a exemplo dos Titãs, armados com as ciências e as artes, declaram guerra à Natureza.

Ora, os menos infelizes são aqueles que mais se aproximam da animalidade e da estupidez.

Tentarei fazer-vos entender isto, usando, em vez dos argumentos dos estóicos, um exemplo crasso. Haverá, pelos deuses imortais, espécie mais feliz que os homens a quem o povo chama loucos, parvos, imbecis, cognomes belíssimos, na minha opinião?

Esta afirmação poderá a princípio parecer insensata e absurda e, no entanto, nada há de mais verdadeiro. Tais homens não receiam a morte, e, por Júpiter! Isso já não representa pequena vantagem?

A sua consciência não os incomoda. As histórias de fantasmas não os aterrorizam, nem os afeta o medo das aparições e espectros, nem os males que os ameaçam ou a esperança dos bens que poderão vir a receber. Nada, em resumo, os atormenta, isentos dos mil cuidados de que a vida é feita. Ignoram a vergonha, o medo, a ambição, a inveja e chegam mesmo, se são suficientemente estúpidos, a gozar o privilégio, segundo os teólogos, de não cometerem pecados.

Passai agora em revista, ó louco sábio, todas as noites e infinitos dias em que a inquietação crucifica a tua alma. Olha bem para todos os aborrecimentos da tua vida e tenta compreender, enfim, de quantos males eu liberto os meus loucos. Acresce ainda que não só passam o tempo em divertimentos, risos e canções, como levam a todos os que os rodeiam o prazer, os seus jogos, o divertimento e a alegria, como se a indulgência divina os tivesse destinado a afastar a tristeza da vida humana.

Além disso, quaisquer que sejam as disposições de uns para os outros, todos os reconhecem como amigos; procuram-nos, adoram-nos, acarinham-nos, gostam de conversar com eles, permitem-lhes que tudo digam e tudo façam. Ninguém os tenta prejudicar e os próprios animais ferozes evitam fazer-lhes mal como se instintivamente os soubessem inofensivos. Estão, com efeito, sob a proteção dos deuses e, sobretudo sob a minha égide, rodeados pelo respeito universal. 
Erasmo de Roterdam, in "Elogio da Loucura" (fala a Loucura).
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O BRASIL TEM VERGONHA NA CARA, MAS OS POLÍTICOS CORRUPTOS NÃO – Edmir Silveira

A corrupção no Brasil continua correndo solta por todos os cantos do país sem exceção. 
Alguém tem alguma dúvida disso?

Como um câncer, as atividades marginais se ramificaram por todo o organismo nacional. Se o Brasil fosse um ser humano que dependesse da harmonia entre cada célula para sobreviver, já estaria morto há muito tempo. Essa verdade é inegável e vergonhosa. Por todo corpo, o Brasil está sendo corroído por suas próprias células. Da cabeça aos pés.

O único órgão que parecia ainda não ter sido atingido, já está dando sinais de cansaço. Nem o maior coração do mundo resiste a tanta desilusão e a tanta traição.

Esse parlamento atual não faz outra coisa senão tentar ludibriar diariamente os brasileiros. Eles querem vencer pelo cansaço. Eles sempre venceram pelo cansaço e pelo jogo do corporativismo sujo, marginal e criminoso. Quando são acusados do que são de verdade, o são ainda mais; bandidos. Tramam nas noites, nas sombras. Se compram e se vendem com uma falta de dignidade nojenta.

Se tiver ocorrido um acidente de avião com dezenas de mortos e comoção internacional, melhor. Eles aproveitam e votam, em seção convocada às pressas, alguma lei que os livre da cadeia. Não duvido que alguns tenham estourado champanhes pensando que tinham se dado bem.

Notícias dão conta que Eduardo Cunha anda manipulando movimentações na Câmara dos Deputados mesmo preso. Igualzinho aos traficantes e chefes de quadrilha o fazem. Será que não existe forma de parar esse escárnio?  

Quanta vergonha. Pena que só nós sintamos essa vergonha. Eles não sentem. Dirigem-se a nós com a maior arrogância dando declarações mentirosas, cínicas e debochadas, um escarro moral no rosto de todos os brasileiros.

E pelo jeito, ainda vem muito mais pela frente. Ôooooo... se vem.
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ZYGMUNT BAUMAN: “AS REDES SOCIAIS SÃO UMA ARMADILHA"

 
Desde que colocou, em 1999, sua ideia da “modernidade líquida” – uma etapa na qual tudo que era sólido se liquidificou, e em que “nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso” –, Bauman se tornou uma figura de referência da sociologia. Suas denúncias sobre a crescente desigualdade, sua análise do descrédito da política e sua visão nada idealista do que trouxe a revolução digital o transformaram também em um farol para o movimento global dos indignados, apesar de que não hesita em pontuar suas debilidades.

O polonês (Poznan, 1925) era criança quando sua família, judia, fugiu para a União Soviética para escapar do nazismo, e, em 1968, teve que abandonar seu próprio país, desempossado de seu posto de professor e expulso do Partido Comunista em um expurgo marcado pelo antissemitismo após a guerra árabe-israelense. Renunciou à sua nacionalidade, emigrou a Tel Aviv e se instalou, depois, na Universidade de Leeds (Inglaterra), onde desenvolveu a maior parte de sua carreira.

Sua obra, que arranca nos anos 1960, foi reconhecida com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades de 2010, que recebeu junto com Alain Touraine.

Bauman é considerado um pessimista. Seu diagnóstico da realidade em seus últimos livros é sumamente crítico. Em A riqueza de poucos beneficia todos nós?, explica o alto preço que se paga hoje em dia pelo neoliberalismo triunfal dos anos 80 e a “trintena opulenta” que veio em seguida. Sua conclusão: a promessa de que a riqueza acumulada pelos que estão no topo chegaria aos que se encontram mais abaixo é uma grande mentira. Em Cegueira moral, escrito junto com Leonidas Donskis, Bauman alerta sobre a perda do sentido de comunidade em um mundo individualista.

Em seu ensaio, Estado de crise, um diálogo com o sociólogo italiano Carlo Bordoni, volta a se destacar. O livro da editora Zahar, que já está disponível para pré-venda no Brasil, trata de um momento histórico de grande incerteza.

Bauman volta a seu hotel junto com o filósofo espanhol Javier Gomá, com quem debateu no Fórum da Cultura, evento que terá sua segunda edição realizada em novembro e que traz a Burgos os grandes pensadores mundiais. Bauman é um deles.

Pergunta. Você vê a desigualdade como uma “metástase”. A democracia está em perigo?

Resposta. O que está acontecendo agora, o que podemos chamar de crise da democracia, é o colapso da confiança. A crença de que os líderes não só são corruptos ou estúpidos, mas também incapazes. Para atuar, é necessário poder: ser capaz de fazer coisas; e política: a habilidade de decidir quais são as coisas que têm ser feitas. A questão é que esse casamento entre poder e política nas mãos do Estado-nação acabou. O poder se globalizou, mas as políticas são tão locais quanto antes.

A política tem as mãos cortadas. As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas. É o que está evidenciando, por exemplo, a crise de migração. O fenômeno é global, mas atuamos em termos paroquianos. As instituições democráticas não foram estruturadas para conduzir situações de interdependência. A crise contemporânea da democracia é uma crise das instituições democráticas.

“Foi uma catástrofe arrastar a classe media ao precariat. O conflito já não é entre classes, mas de cada um com a sociedade”

P. Para que lado tende o pêndulo que oscila entre liberdade e segurança?

R. São dois valores extremamente difíceis de conciliar. Para ter mais segurança é preciso renunciar a certa liberdade, se você quer mais liberdade tem que renunciar à segurança. Esse dilema vai continuar para sempre. Há 40 anos, achamos que a liberdade tinha triunfado e que estávamos em meio a uma orgia consumista. Tudo parecia possível mediante a concessão de crédito: se você quer uma casa, um carro… pode pagar depois. Foi um despertar muito amargo o de 2008, quando o crédito fácil acabou. A catástrofe que veio, o colapso social, foi para a classe média, que foi arrastada rapidamente ao que chamamos de precariat (termo que substitui, ao mesmo tempo, proletariado e classe média). Essa é a categoria dos que vivem em uma precariedade contínua: não saber se suas empresas vão se fundir ou comprar outras, ou se vão ficar desempregados, não saber se o que custou tanto esforço lhes pertence… O conflito, o antagonismo, já não é entre classes, mas de cada pessoa com a sociedade. Não é só uma falta de segurança, também é uma falta de liberdade.

P. Você afirma que a ideia de progresso é um mito. Por que, no passado, as pessoas acreditavam em um futuro melhor e agora não?

R. Estamos em um estado de interregno, entre uma etapa em que tínhamos certezas e outra em que a velha forma de atuar já não funciona. Não sabemos o que vai a substituir isso. As certezas foram abolidas. Não sou capaz de profetizar. Estamos experimentando novas formas de fazer coisas. A Espanha foi um exemplo com aquela famosa iniciativa de maio (o 15-M), em que essa gente tomou as praças, discutindo, tratando de substituir os procedimentos parlamentares por algum tipo de democracia direta. Isso provou ter vida curta. As políticas de austeridade vão continuar, não podiam pará-las, mas podem ser relativamente efetivos em introduzir novas formas de fazer as coisas.

P. Você sustenta que o movimento dos indignados “sabe como preparar o terreno, mas não como construir algo sólido”.

R. O povo esqueceu suas diferenças por um tempo, reunido na praça por um propósito comum. Se a razão é negativa, como se indispor com alguém, as possibilidades de êxito são mais altas. De certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são muito potentes e muito breves.

P. E você também lamenta que, por sua natureza “arco íris”, o movimento não possa estabelecer uma liderança sólida.

R. Os líderes são tipos duros, que têm ideias e ideologias, o que faria desaparecer a visibilidade e a esperança de unidade. Precisamente porque não tem líderes o movimento pode sobreviver. Mas precisamente porque não tem líderes não podem transformar sua unidade em uma ação prática.

P. Na Espanha, as consequências do 15-M chegaram à política. Novos partidos emergiram com força.

“O 15-M, de certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são potentes e breves”

R. A mudança de um partido por outro não vai a resolver o problema. O problema hoje não é que os partidos estejam equivocados, e sim o fato de que não controlam os instrumentos. Os problemas dos espanhóis não estão restritos ao território nacional, são globais. A presunção de que se pode resolver a situação partindo de dentro é errônea.

P. Você analisa a crise do Estado-nação. Qual é a sua opinião sobre as aspirações independentistas da Catalunha?

R. Penso que continuamos com os princípios de Versalhes, quando se estabeleceu o direito de cada nação baseado na autodeterminação. Mas isso, hoje, é uma ficção porque não existem territórios homogêneos. Atualmente, todas as sociedades são uma coleção de diásporas. As pessoas se unem a uma sociedade à qual são leais, e pagam impostos, mas, ao mesmo tempo, não querem abrir mão de suas identidades. A conexão entre o local e a identidade se rompeu. A situação na Catalunha, como na Escócia ou na Lombardia, é uma contradição entre a identidade tribal e a cidadania de um país. Eles são europeus, mas não querem ir a Bruxelas por Madri, mas via Barcelona. A mesma lógica está emergindo em quase todos os países. Mantemos os princípios estabelecidos no final da Primeira Guerra Mundial, mas o mundo mudou muito.

P. As redes sociais mudaram a forma como as pessoas protestam e a exigência de transparência. Você é um cético sobre esse “ativismo de sofá” e ressalta que a Internet também nos entorpece com entretenimento barato. Em vez de um instrumento revolucionário, como alguns pensam, as redes sociais são o novo ópio do povo?

R. A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas.

Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado.

Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.
Entrevista ao Jornal El País - Ricardo de Querol
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PARAMOS NA IDADE EM QUE NOS FALTA AMOR - Irina Parfénova

Com muita frequência, me encontro com pessoas que, por fora, parecem ter 20, 30 ou 40 anos, mas, lá no fundo, ficaram na infância e ainda precisam do amor que lhes faltou quando eram pequenas. Elas ficam assim até o momento em que aprendem a encontrar a satisfação nelas mesmas.

Cada etapa se caracteriza por uma necessidade, ou seja, a maneira como precisamos de cuidado e de amor dos pais muda ano após ano.

No começo da infância se forma a confiança, por isso, nesse momento da vida o amor é expresso por meio dos cuidados da mãe e de sua atenção às necessidade do filho. Se, durante essa fase, o carinho da mãe é pouco constante, ou ela rejeita o seu filho, nele podem aparecer a desconfiança e o medo excessivo.

Na vida adulta, é difícil estabelecer contato com esse tipo de pessoa. Quando elas começam uma relação, é comum sentirem a necessidade de provar alguma coisa para a outra pessoa, colocando no outro a necessidade de mostrar fidelidade. Quando se tratam de relações interpessoais mais próximas, podem se sentir vulneráveis e indefesas.

Alguns anos depois, aos 2 ou 3 anos de idade, a criança aprende a ser independente e desenvolve o autocontrole. Se os pais dificultam o desenvolvimento destes aspectos, por exemplo fazendo sempre eles o que a criança poderia fazer sozinha e sem dificuldade, ou, pelo contrário, esperam que a criança faça coisas impossíveis, podem gerar a sensação de vergonha.

Por outro lado, se os pais não param de corrigir os filhos, sem entender as necessidades naturais da idade, é provável que a criança tenha problemas para controlar o mundo à sua volta e, portanto, controlar a si mesma.

Quando são adultos, ao invés de se sentirem seguros de si mesmos, sentem que os outros sempre os estão analisando em detalhes e os tratam com desconfiança ou desaprovação. Também é possível que apresentem sintomas de transtornos obsessivos compulsivos e delírio de perseguição.

Entre 3 e 6 anos o amor se demonstra pelo incentivo à independência, apoiando a iniciativa, a curiosidade e a criatividade. Se os pais não permitem que o filho se comporte de maneira autônoma nesta fase, e respondem sempre com castigos, eles vão criar uma enorme sensação de culpa na criança.

A vida adulta de uma pessoa com este tipo de carência se caracteriza pela falta de foco para resolver problemas, colocar objetivos e metas e alcançá-los. Além disso, o constante sentimento de culpa pode ser a causa de passividade, impotência ou frigidez, além de comportamento psicótico.

Na idade escolar se desenvolvem a diligência e o amor ao trabalho. Se, nesta etapa, existem dúvidas sobre as capacidades da criança, o desejo de continuar estudando será ameaçado, dando lugar ao sentimento de inferioridade que, no futuro, acabará com a sua própria capacidade de ser uma pessoa ativa e produtiva dentro da sociedade.

Se as crianças percebem as vitórias escolares e o trabalho como os únicos critérios que determinam o sucesso, na vida adulta elas provavelmente se transformarão na chamada ‘massa trabalhadora’, caracterizada pela hierarquia preestabelecida.

Proponho, portanto, dar a mão à sua criança interior e ajudá-la a crescer. Para isso, procure uma foto sua de quando era criança, ou apenas pense na criança que vive dentro de você. Quantos anos ela tem? Como ela é? Em que pensa? Quem está ao lado dela? O que a preocupa?

Fale com ela.

Peque uma folha de papel e duas canetas de cores diferentes, uma com a mão esquerda e a outra com a direita. Se você é destro, a mão direita será o seu ‘eu’ adulto e a esquerda o ‘eu’ criança. Se você é canhoto, será ao contrário.

Agora, a conversa é apenas entre você e a sua criança interior. Quem fala primeiro? Como começa a conversa? As respostas podem ser inesperadas e surpreendentes.

Neste momento em que você encontrou a sua criança interior e está falando com ela, chegou a hora de começar uma relação. Converse o tempo que quiser, pergunte se ela precisa de alguma coisa e dê a ela o que ela pedir. Chame-a pelo nome (o seu), fale palavras doces e amorosas, expresse o seu amor e dê sugestões. Seja para ela o pai ou a mãe que você gostaria de ter com essa mesma idade.
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VIVEMOS NA ERA DO NARCISISMO - Cristina Galindo

COMO SOBREVIVER NO MUNDO DO EU, EU, EU

Foi o belo e vaidoso Narciso, personagem da mitologia grega incapaz de amar outras pessoas e que morreu por se apaixonar pela própria imagem, que inspirou o termo narcisista. O conceito foi depois reinterpretado por Freud, o primeiro que descreveu o narcisismo como uma patologia. Nos anos setenta, o sociólogo Christopher Lasch transformou a doença em norma cultural e determinou que a neurose e a histeria que caracterizavam as sociedades do início do século XX tinham dado lugar ao culto ao indivíduo e à busca fanática pelo sucesso pessoal e o dinheiro. Um novo mal dominante. Quase quatro décadas depois ganhou força a teoria de que a sociedade ocidental atual é ainda mais narcisa.

Este comportamento parece expandir-se como uma praga na sociedade contemporânea. E não só entre os adolescentes e jovens que inundam as redes sociais. “A desordem narcisista da personalidade –um padrão geral de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia– continua sendo um diagnóstico bastante raro, mas as características narcisistas estão certamente em alta”, explica a psicóloga Pat MacDonald, autora do trabalho Narcissism in the Modern World (narcisismo no mundo moderno). “Basta observar o consumismo galopante, a autopromoção nas redes sociais, a busca da fama a qualquer preço e o uso da cirurgia para frear o envelhecimento”, acrescenta em uma entrevista por telefone.

As pesquisas realizadas a partir de 2009 por Jean Twenge, da Universidade do Texas, são uma das principais referências para as hipóteses mais catastróficas. Depois de estudar milhares de estudantes norte-americanos, a psicóloga proclamou que esses comportamentos tinham aumentado no mesmo ritmo que a obesidade desde 1980” e haviam alcançado níveis de epidemia. Ela publicou dois livros –The Narcissism Epidemic (a epidemia do narcisismo), com Keith Campbell, da Universidade da Geórgia, e Generation Me (geração eu)—, nos quais afirma que os adolescentes do século XXI “se acham com direito a quase tudo, mas também são mais infelizes”.
  
Os traços narcisistas nem sempre são fáceis de reconhecer e, sendo moderados, não há por que serem um problema. São comportamentos egoístas, pouco empáticos, às vezes um tanto exibicionistas, de pessoas que querem ser o centro da atenção, ser reconhecidas socialmente, que costumam resistir a admitir seus erros ou mentiras e que se consideram extraordinárias (embora sua autoestima seja, na realidade, baixa). Um exemplo extremo, contado por Twenge, é o de uma adolescente que em um reality da MTV tenta justificar assim o bloqueio de uma rua para realizar sua festa de aniversário, sem se importar que haja um hospital no meio: “Meu aniversário é mais importante!”.

“A imagem conta mais do que o que fazemos, e queremos alcançar muitos sucessos sem esforço”, opina o psicanalista J.C. Bouchoux

Em outras ocasiões este tipo de comportamento é mais sutil, mais comum e, às vezes, mais prejudicial. É aquela pessoa que exige uma atenção exagerada a seus comentários e problemas e, se não consegue, conclui que é diferente dos outros e que nunca recebe o respeito que merece. Ou um chefe encantador que, de repente, faz você se sentir culpado por um projeto fracassado que era ideia dele. “Para tampar seus problemas, uma pessoa com elevado nível de narcisismo costuma buscar uma ou duas vítimas próximas, não precisa mais do que isso, mas pode tornar-lhes a vida impossível”, afirma o psicanalista francês Jean-Charles Bouchoux, autor de Les Pervers Narcissiques (os perversos narcisistas), que acaba de ser traduzido para o espanhol e vendeu mais de 250.000 exemplares na França. “Há um aumento do narcisismo porque agora a imagem conta mais do que o que fazemos e porque queremos ter muitos êxitos sem esforço”, opina.

Proliferam os casos na política –é difícil navegar na Internet sem ver o nome de Donald Trump associado ao narcisismo– e na televisão. O assunto fascina, como mostram os índices de audiência dos realities. Talvez a principal novidade sejam as redes sociais, lugar onde os millennials (nascidos entre 1980 e 1997) e os não tão millennials, os famosos e os não tão famosos, transformam o corriqueiro em algo extraordinário. Todos os dias são colocadas no Instagram 80 milhões de fotografias, com mais de 3,5 bilhões de curtidas: “Eu, comendo”, “Eu, com minha melhor amiga”, “Eu em um novo bar”. No Facebook, milhões de usuários dão detalhes de sua vida ao mundo. A Internet está nos convertendo não só em espectadores passivos, mas em narcisistas ávidos pela notoriedade fácil, obcecados por conseguir amigos virtuais e pelo impacto de nossos posts?

Convém ter muito cuidado com as fotos de si mesmo. Nem todos os que tiram selfies são narcisistas, mas um estudo realizado por Daniel Halpern e Sebastián Valenzuela, da Pontifícia Universidade Católica do Chile, concluiu que as pessoas que tiraram mais fotos de si mesmas durante o primeiro ano da pesquisa mostraram um aumento de 5% no nível de narcisismo no segundo ano. “As redes sociais podem modificar a personalidade. Autorretratar-se, quando se é narcisista, alimenta esse comportamento”, explica, por telefone, Halpern. “Nas redes podemos nos mostrar como queremos que nos vejam. Essa imagem perfeita que acreditamos que os demais têm de nós pode alterar a que nós temos de nós mesmos”, adverte. Ter impacto nas redes pode causar dependência e também temor (o medo do vazio de uma postagem sem uma curtida sequer).

Além disso, o narcisismo crescente movimenta dinheiro. Um recente relatório do Bank of America Merrill Lynch calcula que o consumo relacionado com os produtos que nos fazem sentir melhor e tornam possível uma aparência à prova de selfies –chamam a isso de vanity capital– movimenta no mundo 3,7 trilhões de dólares (11,65 trilhões de reais). A lista inclui carros e outros artigos de luxo, cirurgias estéticas, vinhos de qualidade, joias e cosméticos.

Como chegamos até aqui? A inabalável corrida por conquistas pessoais exigida de jovens e adultos explica parte da ânsia narcisista. “A sociedade é hiperdemandante e hiperexigente. Agora, por exemplo, é preciso ter muitos amigos, vivemos hiperconectados. Meu pai não tinha amigos, tinha sua família, e era feliz”, explica Rafael Santandreu, psicólogo e autor de Ser Feliz en Alaska, que vincula o narcisismo –e a frustração que pode provocar– com a depressão, a ansiedade e a agressividade.

Há causas que nascem na infância. As teorias de Twenge tocaram em um nervo cultural ao culpar pais e educadores por terem criado uma geração de narcisistas dizendo-lhes o quanto são especiais, sem se importar com suas conquistas. Um estudo europeu publicado em 2015 na revista PNAS mostra que o narcisismo está relacionado a uma educação parental que sobrevaloriza os filhos, haja ou não fundamento. “São elogiados em excesso e, com o tempo, as crianças se consideram únicas”, explica um dos autores, Eddie Brummelman, do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento Infantil, da Universidade de Amsterdam. “A autoestima é confundida com narcisismo. O que é preciso cultivar é a autoestima, que se consegue com carinho, apoio, atenção e limites”, acrescenta.

Quer dizer que não se deve pensar grande? Não exatamente. Cultivar certo ego saudável é benéfico. É o que afirma Craig Malkin, psicólogo clínico da Escola de Medicina de Harvard. “Um pouco de narcisismo na adolescência ajuda os jovens a suportar a tempestade e o ímpeto da juventude. Só as pessoas que nunca se sentem especiais ou as que se sentem sempre especiais são uma ameaça para elas mesmos ou o mundo. O desejo de se sentir especial não é um estado mental reservado para imbecis ou sociopatas”, afirma em Rethinking Narcissism (repensando o narcisismo).

Craig integra o grupo que considera que a maioria dos estudos sobre narcisismo não tem sido justo com os jovens e que os que falam de epidemia exageram. O Inventário da Personalidade Narcisista, um questionário básico para os pesquisadores do mundo todo, incluindo Twenge, é falho, argumenta Craig. Entre outras coisas, esta ferramenta considera negativo querer ser um líder ou alguém dizer que é decidido. “As pessoas que gostam de dizer o que pensam ou que querem liderar são claramente diferentes dos narcisistas, que costumam recorrer à manipulação e à mentira.” Um exaustivo estudo publicado em 2010 em Perspectives on Psychological Science tenta refutar a teoria da epidemia. Foi realizado com um milhão de adolescentes nos EUA entre 1976 e 2006. Os pesquisadores encontraram pouca ou nenhuma diferença psicológica entre os millennials e as gerações anteriores, a não ser mais autoestima. Em uma tentativa de relativizar o problema, o estudo é aberto com uma frase de Sócrates: “As crianças de hoje [século V a. de C.] são umas tiranas. Contradizem seus pais, engolem a comida e tiranizam os professores”.

De um lado e outro do debate, não parece haver dúvida de que é recomendável fugir das pessoas com elevados níveis de narcisismo. Kristin Dombek resume isso bem em The Selfishness of Others (o egoísmo dos outros), ensaio em que analisa a abundância no mundo virtual anglo-saxão de informações relacionadas com os narcisistas, sobre como reconhecê-los e enfrentá-los: “Um desses blogueiros dizia: o que uma pessoa deve fazer quando conhece um narcisista? Colocar os tênis e sair logo correndo”.
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