LIBERDADE É TRANSAR QUANDO QUER. MATURIDADE É NÃO TRANSAR QUANDO NÃO QUER – Karen Curi

Muito se fala sobre a liberdade. Sempre pensei que o sujeito livre era aquele que tinha a capacidade de sair da zona de conforto, de fugir do óbvio, que era macho o bastante para se esquivar do rebanho e se aventurar pelo desconhecido. Eu, que tenho alma de pássaro, nem sempre consegui voar além da periferia das minhas prisões.

Na infância, era preciso obedecer aos mais velhos, respeitar os horários, cumprir com os deveres. Meu maior sonho era crescer e ganhar autonomia, e foi assim que tanto quis ser livre, para depois me ver confinada às minhas escolhas prematuras. A profissão definida cedo demais, os incontáveis carnês de prestações, a carreira, o casamento na igreja, os filhos. Os anos nos forçam a seguir um manual de felicidade generalizado no qual só se obtém sucesso criando vínculos. Não importa “ser feliz de mentirinha” se você tem um bom emprego, um marido, um carro, um apartamento e, obviamente, posta tudo isso nas redes sociais.

Ser livre é uma forma de autenticidade. É ser você mesmo e não perder o sono por causa disso. É mudar de opinião, de rumo, e voltar atrás quando bem entender. Ou nunca mais regressar. Liberdade é transar quando quer. Na maturidade, não. Você não transa quando não está a fim. E ponto final. Não existe lugar melhor no mundo que a própria casa, não há cama melhor do que a sua. Nunca um pijama vestiu tão bem. Seus filmes e livros são melhores companhias do que muita gente. Balada nem pensar, só se for o aniversário da melhor amiga. E olhe lá.

Mas diferente do que muita gente pensa, nem todos os passarinhos são felizes. Juventude e liberdade não são pré-requisitos para se tornar um afortunado. Só o tempo e os ventos nos trazem o verdadeiro sentido do amadurecimento, da libertação e da plenitude. Passamos a nos conhecer mais profundamente e a liberdade perde o sentido de fuga, ganhando conotação de livre arbítrio. Maduro é aquele que decide ficar por espontânea vontade, que não precisa seguir um paradigma, que encontra a verdadeira felicidade na singeleza da vida.

Portanto, para ser feliz não é necessário criar vínculo e para ser livre não há de ser irresponsável. Já dizia Fernando Sabino que a “liberdade é o espaço que a felicidade precisa”. Para ser feliz não existe idade, não existe fórmula, basta ser livre. Para ser livre, primeiro é preciso crescer, e para crescer é imprescindível viver. Mais dia, menos dia, a felicidade chega, a liberdade fica e a maturidade assenta.
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BISCOITO GLOBO:
 a história de um ícone carioca
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CARAS E BOCAS: A VERDADEIRA FACE DAS EMOÇÕES

Como sentimentos e palavras são expressos no rosto das pessoas;
Elas dizem mais do que as palavras. Para quem sabe ver, dizem até aquilo que as palavras às vezes escondem. Por isso, a ciência procura tanto decifrar o código das expressões faciais.

Diante da expressão de zanga do gordo Oliver Hardy e do ar de choro do magro Stan Laurel é difícil conter o riso. Para saber a sério o que esse riso tem a ver com a sensação de alegria, pesquisadores americanos convidaram dois grupos de estudantes para uma sessão de filmes da mais bem-humorada dupla da história do cinema. Enquanto suas trapalhadas se sucediam na tela, as reações fisiológicas dos jovens eram monitoradas por meio de eletroencefalogramas. Foi possível verificar assim que os membros de um dos grupos saíram da sala literalmente menos felizes - não por acaso, talvez, tratava-se daqueles a quem se havia pedido que procurassem não esboçar sequer um sorriso durante a exibição das comédias.
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Era onde os pesquisadores queriam chegar, comprovando a surpreendente e controvertida teoria de que a expressão facial não apenas traduz um sentimento mas também o estimula. Ou seja, quem ri porque está feliz fica ainda mais feliz porque ri. Essa experiência faz parte de um fecundo campo de estudo da Psicologia contemporânea, que pretende decifrar o mais ostensivo dos mistérios do comportamento humano - o sentido das expressões faciais, como o riso e o choro, o espanto e o desdém, a raiva e o nojo. A linguagem do rosto é provavelmente a forma mais comum de comunicação entre as pessoas: fala-se mais com caras e bocas do que com palavras. Com certeza, falam-se também mais verdades. Os sinais visíveis do que vai dentro de cada um muitas vezes contradizem a arrumação racional das palavras.

Sentir determinada emoção é sempre experimentar determinada reação fisiológica. Entre outros sintomas, por exemplo, a tristeza é a diminuição do ritmo respiratório; a raiva e o medo têm em comum a secreção do hormônio adrenalina, que dispara o coração preparando o organismo para o ataque ou a fuga; por sua vez, a sensação de alegria, a emoção testada naquela experiência americana, é um aumento na produção de endorfinas, hormônios analgésicos e calmantes naturais, que criam o bem-estar da felicidade. A quantidade desse hormônio era muito maior no organismo dos estudantes que puderam rir à vontade nos filmes do Gordo e o Magro.

Alguns pesquisadores acreditam que os nervos do rosto, ao informar o cérebro da posição exata dos músculos faciais, desencadeiam as reações fisiológicas correspondentes às diversas emoções. A idéia é instigante mas não é nova. O psicólogo e filósofo americano William James (1842-1910) propôs que, diante de um perigo, uma pessoa não se põe a correr propriamente porque sente medo, mas sente medo porque corre - e a teoria tem seguidores até hoje. O fato é que atualmente a maioria dos cientistas admite o caminho de mão dupla: O que se expressa no rosto pode afetar a reação do cérebro, concorda o neurologista Luiz Augusto Franco de Andrade, da Escola Paulista de Medicina. Mas a recíproca, segundo o médico, é verdadeira.

Pacientes com mal de Parkinson, em que falta no cérebro a substância dopamina, têm bastante dificuldade de fazer expressões faciais, exemplifica Andrade. Do mesmo modo, suponho que, se a atividade bioquímica do cérebro estiver acentuada, a pessoa mostrará melhor no rosto aquilo que sente. Mas afirmar que um jogo preciso dos músculos da face reforça ou mesmo cria uma sensação é algo que pode fazer muita gente torcer os lábios de desconfiança. Pois, se fosse assim, argumenta-se, um japonês educado para não expressar sentimentos negativos ficaria menos triste ao encarar uma situação pesarosa com aquele sorriso que os ocidentais dizem ser tipicamente amarelo.
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A discussão, na verdade, existe desde 1872, quando o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) defendeu em seu livro A expressão das emoções em homens e animais que algumas expressões faciais são comuns ao gênero humano. Estudos sistemáticos comprovando a tese de Darwin, porém, se firmaram só há uns trinta anos. O psicólogo americano Paul Ekman, que estuda caras e bocas desde 1953, é autor de uma famosa experiência a respeito. Em Tóquio, ele convidou pessoas para assistir, uma a uma, a um documentário com cenas de acidentes, queimaduras e cirurgias, enquanto filmava suas reações - sem elas saberem, é claro.

Na piores cenas do documentário, o espectador japonês, ao lado de quem Ekman estava sentado, dava um sorriso; então o psicólogo se levantava, fingindo que ia dar um telefonema. O resultado apareceu com nitidez no filme feito às escondidas: toda vez que ficava sozinho, o espectador não sorria, mas contorcia o rosto de horror diante das imagens sangrentas, como faria qualquer pessoa não guiada por uma cultura que manda disfarçar sentimentos negativos. Segundo Ekman, toda cultura impõe as chamadas regras de exibição, normas que inibem ou enfatizam determinada expressão facial.

Entre os brasileiros uma clássica regra de exibição é a de que homem não chora, exemplifica o psicólogo Ailton Amélio da Silva, da Universidade de São Paulo, autor de uma tese sobre as expressões faciais das emoções. De acordo com ele, os psicólogos afirmam que a cara de no mínimo sete emoções é idêntica em quaisquer seres humanos. À medida que as enumera, o rosto de Ailton, um psicólogo que passou mais de um ano treinando músculos faciais em frente ao espelho, vai se transfigurando. Enquanto fala, monta traço a traço as máscaras do medo, da raiva, da surpresa, do nojo, do desprezo, da tristeza e, finalmente da alegria. Como notas musicais que compõem infinitas melodias, as expressões básicas se misturam, formando outras muito complexas, compara.

O que torna mais difícil decifrá-las, porém, é seu tempo de vida - muitas vezes não duram mais de 1 segundo. Brevidade, contudo, não quer dizer escassez: quanto mais complexa for uma espécie do ponto de vista evolutivo, maior será a capacidade de seus membros de criar expressões diferentes com o rosto. Por isso, de todos os seres deste mundo nenhum é tão careteiro como o homem, cujos 22 pares de músculos faciais - metade do lado esquerdo, metade do lado direito - podem formar mais de mil expressões. Se alguém conseguisse demonstrar voluntariamente toda essa habilidade, o espetáculo terminaria porém em alguns minutos, tão ágeis são esses músculos.

A capacidade de distinguir expressões parece ser herdada, fazendo parte do que os cientistas chamam memória biológica. Numa experiência pioneira realizada por pesquisadores americanos, macacos criados em regime de isolamento, sem verem sequer rostos humanos, postos diante da fotografia de outro macaco com expressão agressiva, apresentavam reações típicas do medo. Pesquisas como esta reforçam a teoria de que a compreensão da linguagem silenciosa da face é fundamental à sobrevivência. Tanto nos animais como nos seres humanos, essa compreensão pode variar. 

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Está provado que tóxicos como o álcool e a maconha - esta com a injusta fama de aguçar a sensibilidade - confundem o indivíduo no reconhecimento das expressões faciais. Um fato curioso, comprovado mas ainda não muito claro para os cientistas, é que a bebida alcoólica tende a atrapalhar a percepção de duas expressões específicas - a do desprezo e a da raiva. Também é comum a crença de que a criança, por não compreender bem o significado das palavras, perceberia melhor trejeitos faciais do que o adulto. Tudo indica que isso é falso. Há pessoas mais sensíveis do que outras, independentemente da idade, explica a psiquiatra Maria Cristina Ferrari, da Universidade de São Paulo.


Especialista em crianças, ela reconhece a importância do rosto na educação. Conta, a propósito, o caso de uma garotinha de 4 anos que nas sessões de terapia sempre desenhava uma bruxa para representar a mãe - por sinal, uma mulher muito bonita. Por acaso, certo dia a psiquiatra viu a mãe dar uma bronca na filha e, ao observar seu rosto transtornado de raiva, matou a charada dos desenhos da menina. Comenta Maria Cristina: Uns tapas no bumbum não fazem mal, desde que o adulto não expresse raiva no rosto. Caso contrário, a criança entende que está sendo punida não porque fez algo errado mas porque não é amada.

No entanto, a própria psiquiatra, mãe de dois filhos pequenos, reconhece que é preciso muito autocontrole para não exibir raiva diante de uma malcriação. Se é verdade que tudo que está na cara é um sentimento. Posso mostrar no rosto o meu cansaço, diferencia o psicólogo Arno Engelmann, da USP. Nascido na Alemanha, há 59 anos, ele vive há 51 no Brasil e há 25 estuda o que chama estados subjetivos - um conceito que se aplica tanto às emoções quanto às sensações não muito localizadas, sono, interesse, distração, como define.

Após longa e criteriosa pesquisa, Engelmann conseguiu determinar nada menos de 370 estados subjetivos. Agora, ele está entusiasmado com um novo projeto - gravar o rosto de entrevistados, na tentativa de captar expressões faciais, se é que existem, relacionadas a cada um daqueles estados. É uma pesquisa pioneira no Brasil, revela, os olhos brilhando de orgulho. Engelmann lembra que há expressões não provocadas por emoções, como os emblemas - gestos mudos que substituem palavras. Exemplos: mostrar a língua no lugar de xingar, piscar os olhos em sinal de aprovação, abrir a boca em vez de dizer que ficou boquiaberto de espanto e por aí afora. Engelmann também cita os chamados sinais de conversação, a pontuação de um diálogo que aparece no rosto. As vezes, só pelo olhar do outro dá para notar que ele quer nos interromper para fazer uma observação, diz o psicólogo.

O olhar, de fato, é a expressão suprema. Geralmente, enquanto se fala, não se olha o tempo inteiro para o interlocutor. Este, de seu lado, também ora desvia os olhos, ora volta a encarar. Desconfortável sempre é o olhar fixo do outro, com toda probabilidade uma herança do medo experimentado pelos ancestrais. Psicólogos observaram macacos Rhesus reagirem com violência apenas porque o pesquisador os encarava olho a olho. Não só quando sustentados ou quando zanzam de um lado para outro os olhos se exprimem. As pupilas, garantem os cientistas, também revelam segredos. Em condições idênticas de luz - portanto, sem razões fisiológicas para se contrair ou se dilatar -, as pupilas diminuem diante de uma imagem desagradável e aumentam diante de algo prazeroso, por exemplo, uma pessoa atraente. Esse é, aliás, um dos indicadores mais comuns do flerte. Outros sinais de namoro que transparecem na face - habitualmente identificados como a expressão viva de quem está amando - resultam do fato de os músculos ficarem mais tensos, com isso retendo mais sangue.

Mas é na boca que nasce a mais humana das expressões: o sorriso. A careta de raiva, por exemplo, é muito semelhante tanto na aparência quanto nos músculos envolvidos à exibição dos dentes que caracteriza o focinho de qualquer mamífero antes de partir para o ataque. Já o sorriso - e não só o da Mona Lisa - é sempre enigmático. Ao menos o sorriso genuíno, que derrama alegria. Isso porque o movimento facial do riso aparece apenas nos primatas, mas com a função de apaziguar outro animal; ao se sentir ameaçado, o macaco repuxa os lábios para cima e emite um som, parecido com o de uma risada. Segundo estudiosos, tal sorriso simiesco promove um efeito calmante na macacada.

Esse mesmo sorriso pálido e sem graça também aparece no rosto humano. Há histórias de guerra relatando episódios de soldados que se sentiram desarmados quando o inimigo lhe sorriu. Mas é um mistério como, na evolução do homem, do riso inseguro brotou a risada feliz. Outra particularidade humana é fingir no rosto aquilo que não sente. E o sorriso é a arma mais usada da mentira, porque, segundo os cientistas, além de ser uma expressão positiva, de todos os componentes do rosto o homem tem mais controle sobre a boca. Assim, o sorriso mascara a tristeza, aumenta na aparência a dose de satisfação de rever alguém, esconde rancores, afirma o desprezo. Reconhecer o verdadeiro riso é uma das últimas etapas de um treinamento para identificar expressões faciais, informa o psicólogo Ailton Amélio, da USP.

No entanto, se todos podem controlar a boca, apenas uma em cada dez pessoas consegue impedir a formação de rugas na testa quando o sorriso vem disfarçar a tristeza. Mais difícil ainda é camuflar sorrisos falsos, ditados pelas convenções sociais. A verdadeira risada contrai os músculos orbiculares, em torno dos olhos, formando pequenas rugas laterais, feito pés-de-galinha. De acordo com os especialistas, mesmo os mentirosos profissionais, como os atores, que reproduzem esses movimentos menos sujeitos ao controle da vontade, não o fazem no ritmo natural.Pois um riso nasce aos poucos, se sustenta e esmorece - tudo isso em cerca de 10 segundos. O falso sorriso pode surgir do nada e desaparecer de repente. O austríaco Sigmund Freud, fundador da Psicanálise, que sabia das coisas, sabia também que a face humana é um baú de informações sobre os sentimentos mais íntimos. Quem tem olhos para ver pode se convencer de que nenhum mortal consegue guardar um segredo, escreveu ele. A traição brota pelos poros. O que ele queria dizer está na cara.
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Retratos das emoções

Quando se olha alguém, um dos erros mais comuns é ver medo em um rosto apenas surpreso. Isso porque, mesmo quando as emoções não se misturam no semblante, há músculos que trabalham em mais de uma expressão. Mas o olhar atento não se engana, pois cada sentimento traça sua máscara própria no rosto humano, como mostra a seqüência de caras do psicólogo Ailton Amélio da Silva, da Universidade de São Paulo.

Medo - As sobrancelhas também se erguem, mas se aproximam por causa da contração do músculo piramidal do nariz - o único da face que nenhum treino ensina a dominar - e assim formam rugas verticais na testa; as pálpebras inferiores e superiores sobem, diminuindo os olhos; a boca, aberta ou fechada, fica tensa.

Nojo - As sobrancelhas se abaixam, sem se aproximar; o lábio superior é puxado para cima, empurrando as bochechas na mesma direção; assim, podem aparecer rugas no nariz; o lábio inferior se contrai para fora.

Surpresa - Ao se erguerem, as sobrancelhas costumam formar rugas horizontais na testa; as pálpebras superiores sobem, sem tensão; o maxilar relaxa, deixando a boca entreaberta e abaixando as pálpebras inferiores - daí os olhos se arregalarem.

Tristeza - Apenas o canto interno das sobrancelhas se eleva; os cantos da boca caem; de modo geral, todos os músculos faciais perdem tônus, criando a expressão típica do abatimento.

Alegria - Os lábios são puxados para trás e para cima, empurrando as bochechas; as pálpebras inferiores também se elevam e aparecem rugas na parte externa dos olhos, feito pés-de-galinha; um detalhe fundamental é que não existe tensão na testa.

Raiva - As sobrancelhas se aproximam, só que abaixadas; a tensão em torno da boca comprime os lábios.

Desprezo - Os lábios se comprimem, um contra o outro, e um canto é puxado para cima.

Primeiras caretas
Com menos de duas semanas, o recém-nascido já tenta imitar expressões faciais do adulto. Assim, abre a boca e faz beicinho, franze o cenho, arregala os olhos. Aproximadamente no terceiro mês, o bebê aprende a sorrir sempre que alguém se aproxima. Na verdade, nessa fase ele reage com um sorriso, como se agradecesse a companhia, toda vez que enxerga o que os cientistas chamam T - as linhas formadas pelos olhos, nariz e boca. Numa experiência clássica, cientistas aproximaram de uma criança um T esculpido em madeira e obtiveram o mesmo sorriso. Por volta do oitavo mês, porém a criança já reconhece rostos. Então sua face começa a revelar todos os matizes do humor, mostrando que aprendeu o bê-á-bá da fisionomia.
Por Lúcia Helena de Oliveira
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O QUE É SAÚDE MENTAL? - Rubem Alves

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei.

Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia.Eu me explico. Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se.Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se.
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Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.

Pensar é uma coisa muito perigosa… Não, saúde mental elas não tinham… Eram lúcidas demais para isso.Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata.Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvir falar de político que tivesse depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente “equipamento duro”, e a outra denomina-se software, “equipamento macio”. Hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades “espirituais” – símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software.

O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo “espirituais”, sendo que o programa mais importante é a linguagem.
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Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software.Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam.

Não se conserta um programa com chave de fenda.Porque o software é feito de símbolos e, somente símbolos, podem entrar dentro dele.Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção!

Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio:
A música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou… Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, “saúde mental” até o fim dos seus dias.

Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes.
A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música… Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contra-indicados. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Tranquilize-se há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago?
Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.

Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal.

Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. 

Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram…

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