ANA LUCIA ANAISSI - Pergaminho

Nem acredito que estou aqui contando essa história, gente. Parece um milagre que eu tenha escapado com vida dos quintos dos infernos. Não pensem que eu estou me referindo à alguma situação terrível que eu vivi (casamento, competição no trabalho, visita fora de hora, etc...), nada disso; eu estava messssmo nos quintos dos infernos! Vai ser fácil contar tudo pois minha memória era a única coisa que eu podia exercitar enquanto estive mergulhada no caos. Me lembro bem que morri por volta de 860 d.C. de uma peste qualquer. Naqueles tempos tudo era Peste, hoje, tudo é Virose. Mas aí, morri. Tudo bem. Desencarnei com minha alminha debaixo do braço, olhando em volta, pra ver quem era o parente que viria me buscar e me servir de guia. Vivi cinco minutos de ansiedade. Os melhores cinco minutos da minha vida no além. Depois veio a realidade. E a realidade veio em forma de uma grande harpia cor de abóbora e marrom. Misericórdia! Colocou suas garras em mim, tipo vem cá minha nega, e, por mais que eu fincasse meus pezinhos enlameados no lodo fedorento, ela alçou vôo comigo, com lama, capim e tudo. Eu parecia uma árvore arrancada, com raiz, numa noite de ventania. Pensem numa pessoa gritando...era eu. E enquanto eu gritava podia ver todos os círculos do Inferno por onde a danada da harpia me transportava. Fui conhecendo cada recantinho do “forninho mágico”. Vi passar o braseiro dos traidores, a estufa dos invejosos, a churrasqueira dos ladrões, etc. E, como um refém que se familiariza com o sequestrador, cada vez que ela ameaça estacionar num desses círculos, eu me agarrava nas suas peninhas encardidas e berrava: Oh, aqui não, não, não!!! Já estava gostando do vôo. Pelo menos tinha um ventinho batendo na minha cara. Mas, o que é ruim dura pouco e a ave bandida acabou pousando. Ah meu Deus, pra que? Eu vi a plaquinha; Quinto andar (Pra baixo). Tentei desesperadamente não pousar mas ela me largou e se foi e eu fiquei no quinto dos infernos com uma pena na mão e na maior escuridão. Depois de uns três dias minha vista começou a se acostumar com a escuridão. Tentei voltar atrás mas já estava enxergando o troço todo. Misericórdia dois; Pra vocês terem uma idéia, o quinto andar do Inferno é aonde assam os Irados, aquelas pessoas que , na Terra, se deixaram dominar pela ira, pelo ódio, pela cólera, pela vontade de empurrar os lerdos que andam na frente e pela vontade de sacudir alguns motorista gritando: BOTA A SETA, DIACHO!! Vou te contar...os Irados sofrem no Inferno. E eu, injustamente, fui parar logo ali. Mas resolvi tomar providências; Bati em uns sete Irados até chegar no chefe.
- Escuta aqui sua besta quadrada, aquela harpia idiota me trouxe pro lugar errado!!!
O chefe do local, com uma cara de quem já ouviu a mesma história oitenta milhões de vezes, me olhou com um dos seus oito olhos e disse:
-Minha filha, pula!
Falou isso e me atirou num buraco que tinha como fundo uma fogueira de São João. Passei de quatro a cinco anos ali, pulando, chamando pela harpia quando a via passar, lá longe, carregando outro passageiro esperneando. Porém, um belo dia, (Isso é uma insana força de expressão), ouvi passos, e ouvi vozes, e ouvi o motor de um avião, (o motor do avião é mentira) bem, mas as vozes foram se aproximando e eu pude ver, lá no alto do buraco em que eu estava, duas carinhas mais fofas.
-Oi, podemos conversar?
Achei meio insensível da parte dos dois homens quererem conversar com quem estava pulando a mais de quatro anos num buraco no quinto dos infernos mas balancei a cabeça afirmativamente.
-Por que você está aí?
Graças a Deus de tanto pular eu já não era mais uma Irada mas confesso que quase tenho uma recaída.
-Eu estou aqui porque algum insensato confundiu meu nominho e me encaminhou pra esse lugarzinho errado. Não é chato isso? (...Nossa, como eu estava calma, me surpreendi até).
-Como podemos ajudá-la?
-Ah amiguinhos, com muita oração, uma corda e um disfarce pra eu poder sair daqui com vocês.
E não é que deu certo? Em termos. Eles me deram a oração. Porém... sem que eles percebessem, me agarrei em suas capas e, como estava muito levinha (ficar pulando emagrece), consegui ficar atrás dos dois e passei despercebida na fronteira entre o quinto e o sexto dos infernos. E assim foi, colada neles, como uma sombra de pés de bolha, fui passando de círculo em círculo do Inferno até que consegui alcançar o Purgatório, yes!
Sei que meus dois inocentes salvadores seguiram adiante até o Paraíso mas eu achei que o Purgatória estava bom demaissssssss pra mim. E hoje, nessa nova encarnação, eu fico me perguntando se eles, Dante e Virgílio, não sabiam realmente que eu estava entre eles o tempo todo. Pelo sim, pelo não, eles viraram meus eternos heróis. E esse maravilhoso quadro que fiz é dedicadíssimo a eles. Tudo bem que não esteja à altura de tão nobres figuras e nem à altura da magnífica obra, A Divina Comédia, de Dante, onde ele conta tudo que ele viu na viagem que fez pelos círculos do Inferno, do Purgatório e do Paraíso, viagem magnífica. Porém.... pra quem era uma Irada o quadro já mostra uma sensibilidade adquirida e está muito bom.

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