20 LIVRO CLÁSSICOS DE DOMÍNIO PÚBLICO PARA BAIXAR DE GRAÇA.


No Brasil, geralmente um livro cai no domínio público 70 anos depois da morte de seu autor. Quando isso acontece, os direitos comerciais sobre o texto são liberados. algumas obras essenciais da literatura mundial para você não usar a preguiça de procurar no acervo do site como desculpa.
Literatura brasileira e portuguesa:

Literatura brasileira e portuguesa:



Literatura mundial:

MÔNICA MONTONE - Balada do ser errante

Depois de um tempo você descobre que sua vida não passa de uma farsa
Que tudo o que você fez ou faça
É tão somente para ser bem visto e bem quisto pelos outros

Descobre que sua necessidade de trabalhar 20h por dia
Nada mais é do que um pretexto para se esquivar da própria agonia
Da terrível e temível sensação
De não ser aceito
Não ser perfeito

Descobre que até as roupas que USA
São escolhidas por você como um passaporte
Um cartão de ouro
Capaz de abrir as portas do matadouro social

Descobre que alguns amigos estão a seu lado
Não por admiração ou carinho
Mas porque você se esforça para ser especial
E porque eles podem lucrar algo
Nem que seja um telefonema no natal
Um cartão postal de viagens invejadas

Descobre que as pessoas não o conhecem
E não tem a menor idéia de quem você seja
Mas que no fundo elas não têm culpa disso
Pois foi você quem sempre fingiu ser o que não era

Depois de um tempo
Você descobre que nada disso faz sentido
Mas como está distante de tudo o que realmente é importante
Já não consegue voltar atrás!
Vive seus dias como um ser errante
À espera de um “milagre”:
Casamento, parceiro, dinheiro, emprego, filhos, felicidade

E enquanto a cidade se agita
Sozinho, no ninho
Você grita
E sente as dores de um parto que jamais aconteceu:
O seu!!!

ALBERTO GOLDIN - O Globo - coluna de 21/08/2011



"TENHO 30 ANOS, BONITA, INTELIGENTE, casei com um homem que me traiu com a ex-namorada, separei pois não confiava nele. Hoje namoro Julio, um homem interessante, bem-sucedido, carinhoso, separado, sem filhos. Até que vi um email para uma mulher, dizia que precisava vê-la e marcava um encontro. Terminei, ele se desculpou, eu voltei, mas um mês depois, vi um email para outra mulher e descobri que traiu sua ex-mulher. Terminei de vez.
Será que eu estar sempre desconfiada e investigando, até pelo que já me aconteceu no passado, é que eu estou sempre terminando? Ou será que pouco importa como eu sei das coisas e não sei lidar com traição? Seria mais feliz se não saber de nada? Meu maior sonho é ter uma família estruturada... Será que eu mesma estou impedindo que esse sonho se realize? E melhor que eu saiba agora, antes de casar, de ter filhos? Será que todas as mulheres procurassem achariam e nunca viveriam felizes com seus parceiros? Estou triste e sem companhia porque corri o risco de querer saber. Posso parecer uma louca ciumenta, eu não era assim, não sei se minhas atitudes são causa ou conseqüência, até eu ver os emails era um relacionamento maravilhoso.
Nina"

A Internet mudou o planeta, o tornou mais pequeno e transparente. Mais pequeno, porque Leblon, Uruguai ou China estão ao mesmo “click” de distância e mais transparente, porque a privacidade, com seu manto de discrição, agora está exposta em emails, celulares ou redes sociais. A intimidade se tornou pública... Reconheço que a Internet casou muita gente, porém também separou, expondo detalhes íntimos da vida privada que hoje estão – e estarão para sempre – na Rede a um click da curiosidade alheia. A singela frase da Nina “Descobri que Julio enganava sua ex-mulher...” é estarrecedora. Nina retirou do passado um episódio que possivelmente o próprio Julio já esqueceu... Um Juízo Final cibernético atualiza, em tempo real, os pecados dos usuários...
Vozes irritadas me interrompem, dizem que se as pessoas fossem corretas, não haveria problemas, não podemos culpar o mensageiro pelo conteúdo da mensagem. O que é realmente grave, afirmam, é a falta de caráter e seriedade nos compromissos amorosos, as promessas falsas e contraditórias de namorados e maridos... As vozes têm razão, porém me atrevo a refutá-las argumentando que a tecnologia não modificou a essência humana, só a colocou em evidência.
A infidelidade, gostemos ou não, sempre existiu, muitos infiéis de ambos os sexos foram punidos com separações que não desejavam, outros infiéis saíram impunes reforçando o amor pelos seus parceiros. Alguns se arrependeram amargamente por terem perdido o amor da sua vida, outros continuaram infiéis, sem maiores consequências. Paixões repentinas, traições esporádicas, casos inesperados, fantasias escandalosas são material frequente em consultórios psicanalíticos e grande parte destes “desvios”, antes da Internet foram elaborados na terapia sem citar detalhes constrangedores, sem outro julgamento ou castigo que a própria consciência do traidor. Erraram ou acertaram, pecaram, sentiram culpa ou não, porém todos, sem exceção, aprenderam algo da comédia humana antes que a exposição da Internet as transformasse em tragédia.
A Justiça não admite como prova escutas ilegais, contudo a justiça doméstica não se importa com esse detalhe... Foi assim que a Nina perdeu seus dois parceiros, ambos infiéis... Não estava disposta a tolerar o engano, mas as provas documentais, a hora exata do crime, as declarações escritas para suas amantes foram cruas e cruéis demais para imaginar um retorno.
Imagino que uma discussão prolongada e honesta, mesmo que menos documentada, teria outro final...
Reconheço e afirmo que o verdadeiro responsável pelo desastre é a confusa condição humana que, em ambos os sexos não renuncia ao prazer sexual, nem à curiosidade mórbida. Traição e ciúmes se complementam, uns não deveriam pular a cerca, nem os outros entrar na privacidade alheia. Agora somos realistas e vemos que o Rei está nu, on-line e participa de filmes pornôs. Nina e Eva (mulher de Adão) deixaram o Paraíso por saber demais. Ignorar é burro, saber é perigoso e triste. É possível que a humanidade, com o avanço tecnológico esteja migrando em direção a uma nova moral, parecida com a antiga, onde toda traição será flagrada e toda curiosidade atendida, ou seja, um mundo ideal e linear, radicalmente honesto, sem comédias, nem tragédias. Um tédio.

USA APROVAM MEDICAÇÃO INÉDITA PARA INSÔNIA

Remédio é destinado a pessoas que acordam durante a noite 
e não conseguem voltar a dormir

Novo remédio: FDA aprova medicamento destinado para pessoas que acordam durante a noite e não conseguem voltar a dormir (D. Anschutz/Thinkstock)

A agência reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) aprovou pela primeira vez uma medicação destinada especificamente às pessoas que acordam e não conseguem voltar a dormir no meio da noite.

O Intermezzo, fabricado pela empresa farmacêutica californiana Transcept, é uma formulação de baixa dosagem de Zolpidem, aprovado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1992.

"O Intermezzo só deverá ser usado quando a pessoa ainda tiver pelo menos quatro horas de sono. Não deve ser consumido com álcool ou com outro indutor de sono", anunciou a agência em um comunicado.

"Com esta dosagem mais baixa, há um risco menor de que a pessoa desperte ainda com excesso de medicamento no corpo, o que pode causar adormecimentos perigosos e prejudicar a capacidade de dirigir", explicou Robert Temple, do centro de avaliação e pesquisas da FDA.

Opinião de uma especialista brasileira:
Dalva Poyares
Neurologista do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

"Ainda não existia um remédio destinado ao problema específico de quem acorda no meio da noite e não consegue voltar a dormir. Esse problema é mais comum do que dificuldades para dormir.
O que existe são medicamentos que servem para uma pessoa pegar no sono e, por liberar substâncias durante a noite, realizam uma manutenção do sono, impedindo que o indivíduo acorde."

CONSELHOS QUE SEMPRE DÃO ERRADO 00 -

Só vence na vida quem não admite erros, principalmente os próprios!

Conceitos errados de uma pseudo-psicologia que estão espalhados por aí disfarçados de conselhos bem-intencionados.
P/Ana Carolina Prado 


“Acredite em si mesmo e não aceite uma derrota!” 


Você já perdeu a conta de quantas vezes ouviu essas frases, certo? É claro que boas doses de autoconfiança e disciplina são necessárias para atingirmos nossos objetivos. Mas a ciência já descobriu que é preciso pegar leve com essa exigência toda.
Estudos recentes revelaram que quem cobra demais de si mesmo apresenta níveis mais altos de depressão e ansiedade. Enquanto isso, quem é mais compreensivo com as próprias falhas é mais feliz, otimista e, de quebra, ainda tem mais saúde.
A professora de desenvolvimento humano da Universidade do Texas em Austin Kristin Neff, uma das pioneiras nesse novo campo da psicologia chamado autocompaixão, diz que muita gente não é compreensiva consigo mesma porque teme cair na autoindulgência ou baixar seus padrões de excelência. “Eles acham que a autocrítica é o que os mantêm na linha”, disse ela ao New York Times. Tudo culpa da ideia difundida de que se deve ser extremamente exigente e autocrítico para ter sucesso. Mas a verdade é que, segundo Neff, a autocompaixão estimula as pessoas porque as leva a se cuidarem melhor. Quanto mais você se cuidar – e quanto menos energia gastar se criticando – melhor se sairá.
Agora, como é que vamos saber a medida exata de autocompaixão? Uma boa saída é nos perguntarmos se tratamos nós mesmos tão bem quanto tratamos nossos amigos e familiares. E isso é mais difícil do que parece. Um estudo recente descobriu que, no geral, as pessoas que costumam apoiar e compreender as falhas dos outros são muito mais rígidas com suas próprias falhas.
Em termos práticos: como você agiria se tivesse um filho com dificuldades na escola? Muitos pais dariam apoio e ajudariam com aulas extras. 
Mas e quando você é quem está nessa situação, talvez com problemas no trabalho ou com dificuldade para emagrecer? Aí o tratamento muitas vezes é diferente: cai-se num ciclo de negatividade e excesso de crítica. Se essa estratégia é inútil na hora de ajudar outra pessoa, por que haveria de funcionar com nós mesmos?
Um estudo de 2007 da Universidade de Wake Forest mostrou que um pequeno incentivo à autocompaixão já produz resultados. Os pesquisadores convidaram 84 mulheres para uma experiência de degustação de alguns doces engordativos que são proibidos para quem deseja manter a forma. Um instrutor pediu a algumas voluntárias que não fossem duras consigo mesmas, já que todo mundo naquele estudo comeria aqueles doces e não havia razão nenhuma para se sentirem mal ao fazerem isso também.
No fim, as mulheres que costumavam ter sentimento de culpa a respeito de alimentos proibidos e que ouviram aquela mensagem comeram menos do que as outras. Os pesquisadores acreditam que isso aconteceu porque, ao se permitirem apreciar os doces, elas os apreciaram melhor e ficaram satisfeitas com menos. Já quem estava com sentimentos de culpa acabou comendo mais para tentar se sentir melhor. Coisa que, no máximo, permitiu só um prazer momentâneo e aumentou o sentimento de culpa posterior, num círculo vicioso. Isso também pode funcionar com o vício na internet, por exemplo. Ou com problemas de concentração.

CARLOS HEITOR CONY - Receita padrão de adultério

Não suportou mais e foi procurar o amigo escritor. Era amizade antiga, mas distante. De há muito o considerava um péssimo caráter, capaz de cometer qualquer miséria desde que tivesse lucro com uma mulher ou com um assunto que lhe desse inspiração. Aproveitava-lhe a sabedoria, mas evitava contagiar-se com a devassidão de sua vida abominável.
Ele desejava mudar o nome do prédio onde morava (Babilônia), aconselhara-se com o amigo, haveria uma reunião de condomínio e o escritor incentivou-o, que fosse formidando ao fazer a proposta.
- Formidando? Quê que é isso?
- Uma expressão clássica, Raul Pompéia usava muito em "O Ateneu", o professor Aristarco era formidando. Significa formidável, feroz, tonitruante.
- É isso aí! Serei formidando!
A reunião foi numa sexta-feira, à noite, nada teve de formidanda. No sábado, ele voltou ao amigo.
- Como é? Você foi formidando?
- Formidando uma ova! Foi um desastre!
- Mas por que diabo você quer mudar o nome do prédio?
Abriu-se. Pela primeira vez na vida, abria-se.
Tinha medo de ser traído. Sabia que as mulheres depois de certa idade sofriam crises, as tentações eram muitas. Ele achava que o nome "Babilônia" era um péssimo agouro. Mas reconhecia que não adiantava mudar o nome do prédio.
- É. Não resolve mesmo, admitiu o amigo.
- Você seria capaz de dar em cima da minha mulher?
A pergunta, à queima-roupa, desorientou o escritor, que apesar de cínico não estava preparado para ela.
- Não. Ela é muito magra.
- Era. Agora engordou um pouco.
Para ser fiel ao papel de cínico, o amigo novamente admitiu:
- Bem, se está no ponto, por que não?
- Você gosta de mulher gorda?
- Nada disso. Mas mulher magra foi uma impostura dos costureiros, dos modistas. São, em geral, pederastas. Odeiam a mulher. Querem os homens todos para eles e o melhor modo de eliminar a concorrência é obrigar a mulher a ficar ossuda, sem carnes. As idiotas fazem regime, ficam com as pernas que parecem palitos, a bunda vira uma tábua. Não é à toa que os homossexuais terminam levando vantagens. Agora, veja, as fêmeas bíblicas, a mulher das Escrituras, as mulheres de Renoir, de Rubens, as madonas, a "Fornarina" de Rafael...
- Bem, eu não entendo muito disso, mas acho que você tem razão.
- Uma porrada de razão! Os homens gostam e se casam com mulheres magras para a exibição, o jogo social. Na hora de rebolar na cama, preferem as gordinhas, as falsas magras...Todas as amantes dos meus amigos são assim...
- Eu não tenho amantes, Otávia me basta.
O amigo ia dizer qualquer coisa, freou-se a tempo.
- Você acha que sua mulher seria capaz de um adultério?
- Sei lá.
- Bom, em princípio todas as mulheres são capazes disso. Elas têm a matéria-prima do adultério: o sexo e o marido. Falta apenas o beneficiamento, que é o terceiro elemento, o amante, que não é difícil de encontrar. Mas fique sabendo, nenhuma mulher nasce adúltera, como os poetas que nascem poetas. Ela se faz, como os oradores. Ou melhor, o marido é que a faz adúltera.
- Você já cometeu adultério?
O amigo fingiu que não ouvira bem, mesmo assim tirou o corpo fora:
- Eu sou solteiro!
- Não é isso que quero dizer. Pergunto se você já cometeu adultério com alguma mulher casada?
- Que eu saiba, não. Não gosto de adultérios. Eles precisam de hotéis sórdidos, exigem códigos ridículos, praticam ritos abomináveis, dificilmente se comete adultério em paz de espírito.
- Isso é necessário? Essa paz de espírito?
- Tanta mulher no mundo, porque escolher uma que pode dar problema?
- O problema pode compensar.
Calaram-se por um tempo. O escritor ofereceu um uísque.
- Bem, por hoje chega. Aprendi bastante. Outro dia apareço.
- Você tem lido meus livros? -a pergunta foi também à queima-roupa.
- Não. Otávia acha-os indecentes e eu termino escondendo-os. Na última mudança, sumiram.
- Ainda bem. Qualquer que seja a solução do seu caso, mantenha-me informado. Você pode me dar bom assunto.

ARNALDO JABOR- O ataque do ''vírus da irrelevância"

Um amigo meu, muito culto, tem um filho muito "conectado" na internet. E o menino disse a ele: "Pai, você sabe tudo que já aconteceu, mas não sabe nada do que está acontecendo". O pai, como todos nós, embatucou. A mutação cultural dos últimos anos foi tão forte, a turbulência no mundo pós-industrial dissolveu tantas certezas, que caímos num vácuo de rotas.

Não só no Brasil, mas no mundo inteiro, artistas e pensadores vivem perplexos - não sabem o que filmar, escrever, formular. Em geral, recorrem às atitudes mais comuns nas turbulências: desqualificar os fatos novos e reinventar um "absoluto" qualquer. Sinto em mim mesmo como é difícil criar sem esperança ou finalidade. Como era gostoso nosso modernismo, os cinemas novos, os movimentos literários, as cozinhas ideológicas. Os criadores se sentiam demiurgos falando para muitos. 

Agora, na falta das "grandes narrativas" do passado, estamos a idealizar irrelevâncias, como se ali estivessem pistas para novas "verdades" a desvelar - a aura deslizou da obra para o próprio autor.

Hoje, as palavras que eram nosso muro de arrimo foram esvaziadas de sentido e ficamos à deriva. Por exemplo, "futuro". Que quer dizer? Antes, era visto como um lugar a que chegaríamos, um lugar no espaço-tempo, solucionado, harmônico, que nos redimiria da angústia da falta de "Sentido". 

Agora, no lugar de "futuro", temos um presente incessante, sem ponto de chegada. Pela influência insopitável do avanço tecnológico da informação, turbinado pelo mercado global, foram se afastando do grande público as criações artísticas e literárias, as ideias filosóficas, os valores. 

Em suma, toda aquela dimensão espiritual chamada antigamente de cultura que, ainda que confinada nas elites, transbordava sobre o conjunto da sociedade e nela influía, dando um sentido à vida e uma razão de ser para a existência. Mais ou menos isso Vargas Llosa escreveu outro dia no El País, num ensaio chamado A Civilização do Espetáculo.

A verdade é que passamos da ilusão para o desencanto.

Temos hoje uma "horrenda liberdade" sem fins, porque (vamos combinar) os criadores querem mesmo é ser eternos, inesquecíveis, mesmo os mais radicais "instaladores" contemporâneos.

Nunca tivemos tantos criadores, tanta produção cultural enchendo nossos olhos e ouvidos com uma euforia medíocre, mas autêntica. Há uma grande vitalidade neste cafajestismo poético, enchendo a web de grafites delirantes. Não sei em que isso vai dar, mas o tal "futuro" chegou; grosso, mas chegou.

Talvez este excesso de "irrelevâncias" esteja produzindo um acervo de conceitos "relevantes", ainda despercebidos. Podemos nos dedicar ao micro, ao parcial, podemos nos arriscar ao erro com mais alegria; mas, isso não pode justificar um desprezo pela excelência. E o pior é que as tentativas de "grande arte" são vistas com desconfiança, como atitudes conservadoras, diante da cachoeira de produções que navegam no ar. Isso me lembra o tempo em que achávamos que o "fluxo da consciência", "the stream of consciousness" ou até o discurso psicótico encerravam uma sabedoria insuspeitada. 

Será que houve a morte da "importância"? Ou ela seria justamente esta explosão de conteúdos e autores? O "importante" seria agora o quantitativo? Não sei; mas, se tudo é "importante", nada o é. A importância de uma obra reside no grau de decifração da vida de seu tempo e para onde ela aponta, mesmo no túnel sem luz.

Se olharmos as obras-primas de, digamos, Jan Van Eyck, o gênio holandês, vemos ali todo o espírito da Idade Média, revelada nos detalhes mais banais, mesmo nas encomendas de príncipes ou cardeais.
Escrevo estas coisas porque meu artigo de hoje é a propósito de um "importante" ensaio de Alcyr Pécora de 23 de abril, no Prosa e Verso de O Globo, sobre a crise de nossa literatura. Alcyr acha que fomos atacados por "um vírus de irrelevância".

Ele escreveu:
"É como se o presente se absolutizasse e não mais admitisse um legado cultural como patamar exigente de rigor para sua produção(...) é como se alguma coisa se introduzisse na cultura e a tornasse inofensiva, doméstica. (...) A ação já se apresenta como narrativa, como ocorre nos reality shows, em que as pessoas, antes de agir, representam ou narram a ação que lhes cabe, como se todo mundo fosse interessante o bastante para ser visto/lido (...) Não basta haver conhecimento; tem de se produzir o que não é e o que não há (...) Na arte, não há nenhum valor simbólico que substitua o objeto (...) não há atitude ou opção ideológica que permita saltar sobre os mecanismos da composição (...) Perdida a noção de herança cultural, perde-se a de crítica, de autocrítica, e naturalmente a de criação (...) Escrever literatura é um gesto simbólico que traz uma exigência: a de ser de qualidade (...) A recusa de muitos escritores de sequer considerar o impasse atual tem qualquer coisa de cegueira deliberada (...) Atitude resolve problemas do roqueiro, mas não resolve a questão da literatura".

No entanto, as questões levantadas pelo professor não tiveram repercussão teórica maior, além de reclamações mal-humoradas de que ele seria um crítico "estraga-prazer, um intrometido".

Contudo, é preciso que esses tópicos sejam discutidos, com ou sem polêmicas, pois, na tal conversa do pai erudito com o filho conectado, a resposta do pai poderia ser: "Você acha que sabe tudo que está acontecendo e nada sabe sobre o que já aconteceu".

Por isso, dou uma pequena contribuição ao assunto: tenho um filho de 11 anos, João Pedro. Eu, zeloso pai, botei o Quarteto de Cordas op. 133 de Beethoven para que ele ouvisse um momento máximo da história da música. Ouviu tudo atentamente enquanto, no ritmo exato do quarteto, jogava um game, o Hell Kid no iPad.

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