ALBERTO GOLDIN - SOB NOVA DIREÇÃO


Tenho 35 anos, sou casada há oito e tenho um filha de 4. Há três anos, apaixonei-me por Robero, um colega de trabalho. Tivemos um breve relacionamento, mas nos asfastamos. Não queria me seprar com um filha pequena. Há poucos meses, este sentimento voltou, e estamos muito envolvidos. Tenho medo da separação, mas não sou feliz nos casamento. Meu marido não me escuta, não brigamos, ele evita conflitos. O problema sou eu: não sou feliz, quero um companheiro, receber um abraço quando chego em casa, ouvir eu te amo, ter vontade de fazer sexo, coisa que vai de mal a pior. Em Roberto encontrei amor, erostismo, diálogos intermináveis, compreensão e vontade de ter uma vida comum. Ele é casado, também não é feliz, e em pouco tempo, será livre. Moro num bairro nobre e separada não terei o mesmo padrão. Mas não agüento mais ser infeliz. Corremos conra o tempo, a vida passa rápido. Me sinto uma panela prestes a explodir!
Pâmela

SOB NOVA DIREÇÃO
Era m bom filme, contava uma história verossímil, com excelente fotografia e músicas que acentuavam as emoções. A tristeza em tom escuro dramático, e a alegria clara, luminosa, quase eufórica.
A carta de Pâmela também é um bom filme, ou melhor, são dois, com argumentos diferentes: quando se refere a Roberto, seu amante, os refletores se acendem, a música toca alegre e juvenil, como nas belas historias de amor. Já quando o personagem é seu marido, ocorre o oposto, são planos escuros, acordes graves e opacos, um relato em preto e branco, Até aqui é compreensível. A mulher que ama projeta filmes otimistas e , quando deixa de amar, acentua o desgaste de m relação que a prende com pesadas correntes de silêncio e escuridão. O s dois filmes se alte4rnam em sessão continua, porem, não refletem o passado nem descrevem o presente. Invente o futuro que, como todo futuro, é apenas uma hipótese sujeita a confirmação. Pâmela está em conflito, Deve-se se separar na esperança de uma nova vida, ou permanecer vegetando num casamento sem amor? A resposta é tão óbvia que desconfiamos. Se fosse simples e claro, não haveria conflito, nem carta para o jornal.
De nossa parte, sabemos que não devemos intervir na sua decisão. Cabe a ela fazer isso e assumir as conseqüências, felizes ou não.
Ainda assim, nos sentimos autorizados a fazer alguns comentários. São dois filmes, dois caminhos, duas historias simultânea e com sentidos opostos. Um casamento silencioso e desvitalizado e ma relação onde não faltam palavras, atenções, sexo e sentimento. Será que antes do encontro com Roberto o mesmo casamento era mais tolerável, ou foi a paixão clandestina que dividiu as emoções, idealizando um e esvaziando o outro?
De fato, são historias complementares, alimentadas pela mesma fonte, e é por isso que cada virtude do amante corresponde um defeito do marido, porque, como é sabido, todas paixão exagera virtudes e acentua defeitos.
Pâmela tem pressa em resolve seu conflito, mas acreditamos que por enquanto precisa esperar um tempo até qe os dois filmes sejam condensados num só. Além disso, se Roberto permance na sua casa e no seu casamento porque Pâmela deveria sair imediatamente? A hora de fazer isso será quando conseguir perceber os defeitos de Roberto e as virtudes do seu marido.. Nessa hora, estará mais madura e seu novo (e único) filme será um documentário, nau um romance , nem uma comedia, e , muito menos , uma tragédia.
Admito que é difícil esperar, porém, psso lhe garantir que a urgência nunca é prudente e se alimenta de dúvidas e medos de errar. As melhores decisões são as mais realistas, as que aceleram o processo de descoberta: como será o amaaaaantes perfeito quando virar marido? Quando O motel se transforma em residência própria? E, o mais importante, como será a Pâmela sob nova direção? Estas são as verdadeiras incógnitas que tomarão o lugar das certeza atuais. Os bons amores sobreivem a alguns meses de espera. Quando não sobrevivem é porque, infelizmente, não são tão bons amores.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - Receita de Ano Novo


Receita de Ano Novo

Para você ganhar um belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser, novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependidopelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

A REAÇÃO A UM ERRO INFLUENCIA SEUS ACERTOS FUTUROS - Ana Carolina Prado


Quando comete um erro, qual a sua reação? Você pensa “ok, na próxima eu acerto” ou “putz, sou um fracasso e nunca vou conseguir fazer nada direito”? Um estudo publicado no periódico Psychological Science descobriu que a sua atitude nesse momento pode influenciar seus acertos futuros. E mais: a forma como você reage aos erros está diretamente ligada à visão que você tem sobre sua própria inteligência. Algumas pessoas acreditam que a inteligência é algo constante e imutável, que não pode ser desenvolvida. Outras, porém, acreditam que é sempre possível melhorá-la com o tempo. A sua opinião a respeito dessa questão é mais importante do que se pensava.
Para realizar o estudo, pesquisadores da Michigan State University deram aos voluntários uma tarefa chatinha em que era fácil cometer um erro. Eles deveriam identificar a letra do meio de uma série de sequências com cinco letras, como “MMMMM” ou “NNMNN.” É até simples, mas depois que a tarefa se repete várias vezes, a mente se confunde mesmo. E aí a pessoa comete erros bobos, percebe imediatamente e se sente estúpida por causa disso. Durante os testes, os voluntários tinham sua atividade cerebral monitorada. O resultado mostrou que quem acredita que pode aprender com seus erros tem uma reação cerebral diferente de quem vê a inteligência como algo imutável.
Como o cérebro reage a um erro
Quando cometemos um erro, nosso cérebro faz dois sinais rápidos: uma resposta inicial que indica que algo deu errado (e Jason Moser, um dos autores da pesquisa, chama de fator “oh, droga!”) e um segundo indicando que a pessoa está consciente do erro e está tentando consertar o que fez de errado. Os dois sinais acontecem super rápido, cerca de um quarto de segundo após o erro.
Quem acreditava que a inteligência é algo que pode ser desenvolvido com o tempo e que, portanto, pode aprender com os erros, se saiu melhor depois de errar, recuperando-se rapidamente e acertando os testes seguintes. Foi possível observar uma diferença também na sua atividade cerebral: o segundo sinal (aquele que diz “cometi um erro, então devo prestar mais atenção”) foi mais intenso, indicando que elas têm o cérebro ajustado para ficar mais alerta depois de errar.
Isso pode ajudar quem é crítico demais em relação aos próprios erros a tentar dar uma relaxada: afinal, ficar se condenando só piora as coisas.

MAITÊ PROENÇA - A verdade do avesso

Em fevereiro, resolvi me fechar para balanço. O momento é de estudo para preencher lacunas de ignorância, quero aumentar minhas frentes de interesse dando a elas consistência, preciso ter o que dizer na vida, e na arte sobretudo, sem repetir fórmulas conhecidas. Muito fácil fazer de conta que estamos apresentando algo novo ao maquiar velhos modelos para que pareçam o que sabemos intimamente não ser. A preguiça se instala, acomodamo-nos e passamos anos nessa lengalenga sem que os de fora percebam que, há muito, já não criamos nada. Então, esta onda é de silêncio e observação. Estou exausta com uma parte antiga de mim, quero outra. Nesse espírito, passei 20 dias entre Veneza e Londres investigando as artes plásticas e uns quebrados que vieram à reboque. Há tempo sem pisar em Veneza me percebi mais uma vez extasiada com aquele mar que invade a história, quanta história. Por ali, mais do que em qualquer lugar, Oriente e Ocidente se fundiram em hábitos, interesses, folia, segredos trocados... a gente vai sentindo essa batida centenária a cada viela, em toda esquina. Mercadores itinerantes mascararam-se para poderem fazer de um tudo sem serem reconhecidos. É cidade de transgressões, de gandaia e riso fácil. Mas não, eu estava lá para estudar, fiz muxoxo para as tentações, e , depois de uma rodada de Tintorettos e Ticianos - que ninguém é de ferro - me mandei para a sede da 54a. Bienal de Arte, onde deparei com o melhor e também o pior da produção contemporânea. Difícil identificar e compreender os artistas da atualidade, era bem mais simples quando havia normas regendo cada movimento representativo. Hoje há uma constelação de possibilidades sem regras aberta a cada criador, as obras exigem o engajamento de quem olha porque existe um jogo sendo proposto que demanda esforço para tornar interessante a brincadeira. Ainda assim, alguns trabalhos batem na veia de toda a gente. É o caso de The Clock, do suíço americano Christian Marclay, um filme quase pop de tão sedutor. O monumental trabalho de pesquisa resulta em vinte e quatro horas de cenas montadas em sincronia com o tempo real. Marclay editou instantes memoráveis da cinematografia, de forma que o minuto que aparece no relógio da tela é também o mesmo do nosso pulso. Não há o enredo único mas uma montagem de tal sorte fluida, que, tendo o tempo como assunto central, a gente não sente o tempo passar, o tempo todo. É hipnótico!

Evidente que em uma Bienal do porte da de Veneza nem tudo seria encantamento e, assim, ao visitarmos o pavilhão italiano, somos assaltados por um cenário de horrores, como se de repente fôssemos transportados para um pós mundo de arquitetura lasveguiana em ruínas. O curador e célebre crítico Vittorio Scarbi, conhecido por sua aversão às artes contemporâneas, convidou 200 artistas italianos para compor a mostra que ele chama de 'L'arte non è cosa nostra', em alusão a uma suposta máfia dos contemporâneos. As obras selecionadas são grosseiras, feiíssimas, desprovidas de conceitos ou transbordantes de clichês. A atitude de Sgarbi causou escândalo entre artistas do mundo todo, em especial os italianos, a ponto de alguns pedirem para retirar seus trabalhos do conjunto. Como público me senti desrespeitada ao ver aquele espaço concorrido sendo desperdiçado para levantar a polêmica desgastada da necessidade de ser ou não bela a arte, afinal, para que apontar o rei se ele já vai nu há quase cem anos?

De Veneza tomei o rumo de Londres para mais uma batelada de Tate Moderns, National Gallery, Saatchi, e companhia: em cada espaço excelsas maravilhas de épocas variadas. Mas o que impressionou na cidade que eu não visitava havia três décadas, foi algo que observei nas ruas e em conversas com artistas e com um variado tipo de gente. Nesta era globalizante, os ingleses, como povo (mas também cada criatura por si), parecem ter o pensamento independente do resto do mundo. Aquilo é uma ilha, a moeda continua sendo a libra, e as pessoas se apresentam, no que dizem e no vestuário, por exemplo, para evidenciar individualidade. Perdoem se faço aqui um exercício diletante, não houve como me aprofundar na impressão, mas é que me fez pensar a quantidade de homens com ternos impecáveis e o cabelo azul ou rosa, e os rapazes de salto alto vestidos de mulher, e não por serem gays, mas porque se sentem além da questão de gênero; eles são o que está dentro da roupa e a roupa é só uma brincadeira. Vi uma moça dançando de calcinha e sutiã, não era pra mostrar o corpo meio troncho, mas porque ela estava com calor ou simplesmente com vontade, e então, quando saía pra fumar do lado de fora, abotoava um vestidinho romântico, dava seus tragos, voltava, se despia, e se soltava novamente em piruetas, livre. Há mais tribos em Londres do que nas outras grandes cidades e, dentro de cada uma, o céu parece ser o limite da liberdade. No Brasil, na moda, para citar um setor a que todos têm acesso, exalta-se o estilo de quem o tem, mas O Estilo é um faz de conta só, um bocadinho diferente da norma, e sempre antenado com alguma tendência, para que nunca desagrade o grupo. Aqui a roupa é uma forma de camuflagem, lá, ela é um depoimento, aqui, se eu me posicionar com ideias muito independentes, e eu não for o Caetano Veloso, posso penar a caminho de um longo ostracismo, lá quem tem algo novo a afirmar se faz atraente, a provocação não ameaça mas instiga, inspira. O avesso interessa. E a verdade também.

VÍDEO: ROBERTO D'ÁVILA ENTREVISTA FLÁVIO GIKOVATE

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