DANUZA LEÃO - Não ver, não ouvir e calar sempre

 E não tenha ilusões: diga você o que disser, 
contra ou a favor, no final a culpa será sempre sua


Você quer ser querida pelos amigos, viver sem problemas, ser daquelas pessoas que são sempre lembradas com alegria e prazer? Em outras palavras: você quer ser feliz? Simples: esqueça essas manias de ver, ouvir e, sobretudo, falar, e sua vida passará a ser um mar de rosas.
Não ouça; isso mesmo, não ouça, salvo, talvez, um pouco de música, quando estiver no carro. Quando perceber que estão contando uma história escabrosa da área política, vá para a janela e olhe para fora com enorme atenção.
E se o assunto envolver a vida particular de quem quer que seja -e quanto mais próxima a pessoa, pior-, seja drástico e finja um mal-estar súbito. Se tiver que se explicar, diga, no máximo, que é vagotônico como era o poeta Vinicius, doença que, aliás, já esteve muito na moda e que ninguém nunca soube muito bem do que se tratava.
Agora, o principal: se uma amiga -principalmente se for a que você mais adora- quiser contar seus problemas pessoais, arranje uma desculpa, seja ela qual for, para não ouvir: simule uma crise nervosa, diga coisas desconexas, dê uns gritos, e se for preciso, desmaie, mesmo que esteja no meio da rua.
Vale absolutamente tudo para não assumir o papel de confidente, pois vai acabar sobrando para você -ou estou dizendo alguma novidade?
Bem, já falamos do primeiro ponto: não ouvir. Agora vamos ao segundo: não ver.
Quando for a uma festa, use óculos, daqueles que os bandidos obrigam os sequestrados a usar -com vidro negro e opaco- para não enxergar; faça essa riquíssima experiência que é não ver absolutamente nada, a saber: quem deu um amasso em quem, de quem é a perna enroscada debaixo da mesa que você flagrou quando foi pegar o isqueiro que caiu no chão, ou as baixarias que costumam acontecer quando as pessoas se descontraem, digamos assim. E se não conseguir os tais óculos negros, não tem importância: é só passar a noite inteira de olhos fechados -ou não sair de casa, claro.
Agora, o terceiro ponto, muito, mas muito mais importante do que não ver e não ouvir: não falar.
Nunca diga nada sobre nenhum assunto, e não dê, jamais, uma só opinião sobre nada. Se alguém diz que a couve-flor está mais cara, ouça com o ar mais sério do mundo; se ouvir o contrário, também -e continue mudo. Não diga nada, não faça nenhuma ponderação, não emita um único som.
Renuncie a bancar o inteligente e fique até o sol raiar, se for preciso, de boca fechada, que é a posição correta na vida, como você já deve ter aprendido -ou devia.
Se alguém mencionar a crise política e tiver uma vontade súbita de dizer alguma coisa, morda a língua e não faça juízo a respeito de nada: nem sobre a queda -ou a alta- do dólar, nem, sobretudo, sobre a CPI. Opinião, nem pensar.
O maior perigo é quando sua maior amiga está passando por uma crise e pede um conselho.
As pessoas só querem que se diga o que elas querem ouvir, e há até quem ache que amigo só existe para dar razão quando não se tem razão -você não sabia?
E não tenha ilusões: diga você o que disser, contra ou a favor, no final a culpa será sempre sua. Aprenda, mesmo que já um pouco tarde, que a sabedoria da vida é não ver, não ouvir e calar.
O que significa, na prática, não viver -o que é meio triste, convenhamos.

NELSON MOTTA - Harmonias e dissonâncias

Todos gostam de música, muitos fazem dinheiro com ela, ninguém imagina a vida sem ela, mas como os seus criadores podem viver do seu trabalho? O assunto interessa não só aos compositores, porque envolve liberdade de associação e de expressão, quando se discute se o Estado deve participar da arrecadação e distribuição de direitos autorais no Brasil.

Aqui, a arrecadação é feita por um escritório central, o Ecad, criado, administrado e controlado por sociedades privadas de autores musicais, como a UBC, a Sicam e outras. O Ecad cobra direitos dos que usam as músicas para ganhar dinheiro com elas (rádio, TV, shows, festas, publicidade, clubes ) e os repassa às sociedades, que os distribuem entre seus autores, proporcionalmente à quantidade de execuções públicas de cada música no período monitorado.

É um sistema correto e efetivo, que dá a cada um a sua parte pela utilização comercial de sua criação. Nos Estados Unidos e na Europa funciona muito bem. Se aqui há falhas, falcatruas ou ineficiência, o problema é de gestão e fiscalização, e deve ser resolvido entre o Ecad e as sociedades que representam os compositores, intermediados pela Justiça. O Estado não entende nada disso, e já morde 25% de impostos sobre direitos autorais sem tocar uma nota.

Quando se canta o velho refrão de uma sociedade arrecadadora estatal, ouvem-se cabide de empregos, aparelhamento partidário, altos custos e burocracia.

No mundo moderno, as sociedades de autores são empresas comerciais, que fazem tudo para ganhar o máximo de dinheiro para seus associados.

Como qualquer empresa, competem no mercado, buscam eficiência administrativa, novas tecnologias, prestam contas, são auditadas, podem ser processadas e liquidadas legalmente. O que é que o Estado tem a ver com isso? Pode soar como pleonasmo ou redundância, mas é uma evidência: quem tem a autoridade é o autor, quem criou é que decide o que se faz ou se deixa de fazer com a sua criação. Cabe à Justiça julgar os conflitos com base na legislação (que precisa ser modernizada), e ao Estado garantir os direitos e o cumprimento da lei. Já é muito.

NUNCA DISSE O QUANTO TE AMEI - Miguel Falabella

A coisa começou por causa de uma mariposa que estava se debatendo na pia, provavelmente queimada depois do choque com a lâmpada – o inevitável encontro entre mariposas e luzes.  Uma das asas desaparecera - nunca mais o vôo ao encontro da chama – sempre na direção da luz, como se ali, engolida por ela, pudesse voltar a ser lagarta, como se ali encontrasse outra vez a segurança do casulo.  Achei que deveria abreviar-lhe o sofrimento e atirei um jato de inseticida sobre seu corpo.   A agonia demorou mais do que supunha e acabei sendo espectador de seus últimos espasmos.

Isso, é claro, mudou definitivamente o rumo da crônica que, a princípio, assim eu acreditava, versaria sobre alguém que cavalgava na direção do sol.  O insólito momento, entretanto - eu, nu, prestes a entrar no banho, e a mariposa morrendo na bacia de pedra polida – afastou a lembrança de quem cavalgava em silhueta para longe, que era a história que eu iria contar, antes do assassinato.

Parado, olhando o estranho balé do inseto na pia clara, eu pensei que o medo começa no desencanto da tarefa incompleta. Ou na raiva da palavra nunca dita. Ou ainda no desespero do amor que foi se embora. E por isso nos assombram o breu, a solidão e a paz fria do esquecimento – só porque acreditamos, em algum momento da história, que o amor nos traria a eternidade.   Mas os nossos pequenos e cotidianos assassinatos estão sempre trazendo a lembrança da finitude dos dias – como os dessa mariposa que se contorce envenenada. Quando enfim desfez-se a miragem na areia, lembramos do tempo e sentimos medo. Depois que a porta se fechou e fez-se silêncio no aposento. Depois que você olhou pelo olho mágico e percebeu que o saguão já estava vazio. Depois que a sua respiração soou como um soluço quebrado. Depois de tudo, vem o medo.

Era nisso que eu pensava, testando a temperatura da água com as mãos, antes de entrar no banho, um pé no tapete, o outro na pedra fria. Debaixo d´água, ultimamente, tenho tido lembranças de medos futuros, eu esfregava a pele e reconhecia a carne.  O momento existencialista no chuveiro não quis que eu murmurasse as canções de sempre, não permitiu que a intimidade do banho liberasse o canto – aliás, os banhos de inverno têm me trazido imagens estranhas que não descem pelo ralo com a espuma, ficam sentadas nas prateleiras, protegidas dos respingos, ao lado das essências.   Alguns instantâneos, entre os frascos, vêm surgindo no meio da bruma em que o banheiro fica mergulhado. Alguns pedaços do mosaico, algumas portas que se abrem.

Há uma grande quantidade de estampas, no quarto que visito – a capa de um romance para moças, a heroína com os cabelos ao vento, amparada pelo galã de casaca. A novela tinha sido abandonada por uma moça de cabelos negros, sobre o banco da praça.  Ela trabalhava na farmácia, vivia pendurada no balcão e tinha o olhar assustado de quem se apercebeu da velocidade com que a vida corre, quando se está atrás de um balcão de subúrbio e a cabeça cheia de amores impossíveis. Pois era sobre isso o livro que a moça esquecia.  Corcéis selvagens, damas e cavalheiros, embriagados de um amor tão sublime, tão cheio de adjetivos e beijos de intensa paixão sob o teto florido de madressilvas. Alguma coisa do gênero.

Eu estava brincando por ali, correndo, e encontrei o exemplar. Ainda sacudi o livro nas mãos, tentando lhe chamar a atenção, mas ela não percebeu e entrou no ônibus.  Levei o livro para casa, uma edição ordinária, meio ensebada, as páginas de papel barato manchadas aqui e ali. Chamava-se Nunca disse o quanto amei e o desenho da capa parece que brilha por entre a névoa, recortado na cerâmica da parede.  Li algumas partes, não consegui ir adiante e, no dia seguinte, devolvi à moça, que me agradeceu e ponto final.

Não sei quanto tempo depois disso, mas, um dia, eu estava subindo no ônibus e alguém comentou que a moça da farmácia tinha morrido. Tinha comido formicida. Lembro que deixei o olhar ficar para trás, enquanto o ônibus avançava, buscando a porta da farmácia, como se ela pudesse aparecer ali, os cabelos ao vento como a moça da capa da novela romântica. Ficou comigo, portanto, essa imagem de mulher debruçada sobre o balcão, o olhar perdido em terras que ela jamais conheceria.  Eu era muito menino. O ônibus sacolejava e eu pensava na agonia da moça da farmácia, sabedor de que jamais conheceria sua história. Pensava nela e na formicida. Meu avô tinha um saco no galpão das ferramentas. A moça comera o veneno, disseram que ela encheu a mão com o granulado vermelho e engoliu um punhado.  Dela, só sei que nunca disse o quanto amou e que corria na direção de seu amado, gritando juras de amor, numa linguagem rebuscada, enquanto o sol morria num crepúsculo faiscante. Deve ter morrido de sonhar. De certo, foi esse o motivo. As coisas que a gente é capaz de pensar depois de matar uma mariposa.

Ah, sim! Só agora me lembrei de quem cavalgava na direção do sol. Mas essa história fica para a próxima semana.  Tem dias que mais difícil do que dizer o quanto amamos é dizer adeus. Por enquanto, fiquemos no até breve. Mas é preciso aprender.  Antes que seja tarde.

O DESEJO DO TEMPO - Márcia Tiburi

Os antigos gregos tinham em Chronos, deus do tempo, a imagem do pai todo poderoso devorador dos filhos. Ele criava, ele mesmo aniquilava. O tempo cronológico é apenas o tempo que passa. Mas a experiência do tempo não passa tão simplesmente, somos nós que passamos por ela. Nos constituímos, em nossa interioridade, a partir dela. Como dizia Santo Agostinho, o tempo é algo complexo demais, sendo muito difícil para cada um explicá-lo. Tanto quanto é fácil de entender, pois estamos nele desde sempre. O tempo nos possui e não o contrário.

Um dia de cada vez
É melhor viver um dia de cada vez? É provável que ouçamos ou pronunciemos esta frase em vários momentos da vida. Quando incertezas e desesperanças se põem em cena é a reflexão sobre o tempo (seja ele dito na forma dos dias, das horas, do tempo ao tempo) que sustenta nossas ponderações. Ou na básica ansiedade que move o cotidiano, quando não compreendemos as próprias direções, quando, sem perspectiva ou foco, parece que não buscamos nada. Ansiosos quando queremos muito, nem sempre sabemos bem o que queremos. E nos angustiamos porque estamos no tempo, medido, e não na eternidade, desmedida. A vida exige solução, mas o tempo é o limite de toda vontade. Por isso, ele também é possibilidade.

A frase traz uma sabedoria básica na forma de um conselho sobre o uso e a compreensão do tempo, do qual depende o desejo, nome que se dá ao modo de nos relacionarmos ao futuro, o nosso e o que compomos junto de outros. A frase nos diz sobre um modo de tratar com a frustração comum na sociedade de hoje: a da ausência do desejo que diz respeito a uma incapacidade de criar projeto de vida. Ou seja, o que fazer da vida dentro de seu limite. “Um dia de cada vez” significa: “vá com calma, aproveite o tempo presente”, mas por outro lado, também diz “esqueça a totalidade da vida”. Aí conhecemos o conflito com a “temporalidade” sobre o qual vivemos cegos. Se pensarmos em termos de vantagens, talvez não seja frutífero ter em mente a vida inteira, o todo do que podemos fazer com o tempo que dispomos, pois não há certeza sobre o que virá. Porém, sem pensar no todo da vida, que é o tempo que temos para viver, talvez fique difícil orientar-se dentro dela. Sem sabermos do nosso tempo, estamos perdidos de nós mesmos, sem futuro. A dimensão do tempo é mais que psicológica e metafísica, ela é também prática. Põe-nos diante de nossa liberdade de decisão, define o destino, ou o tempo, que devemos construir.

A experiência do tempo pode ser uma experiência de angústia, de que algo desconhecido nos espreita. Só o desejo é a cura desta sensação de opacidade da vida. O desejo não é tormento, mas o caminho para sair dele. Ela não vem do nada. Nasce do tempo experimentado em seu limite, do fato de que há a consciência perturbadora da existência que é a morte. Enquanto esperamos seguimos a “viver um dia de cada vez”. No tempo que é sempre medida, a soma dos dias, compõe o sentido da vida, o valor da eternidade.


Os limites da experiência

Assim como damos “limites” às crianças para que possam orientar seus desejos, seus quereres e poderes, nós, mesmo adultos, deveríamos nos reorientar no nosso limite com a vida, a que chamamos tempo. O tempo, todavia, não é a mera duração da vida. A duração é só o tempo do relógio, ela se parece mais com o espaço que percorrem os ponteiros no mostrador. Nosso modo de compreender o tempo é o que nos orienta na vida: o tempo do trabalho, o tempo do lazer, o tempo do conhecimento, do amor, o tempo interior, o tempo domesticado pela vida orientada e administrada que vivemos. O tempo é um radar que nos ensina aonde ir, nossas urgências, os caminhos que precisamos escolher diante da impossibilidade de seguir todos.

A frase sobre o dia a dia a ser vivido de um em um, nos serve de antídoto quando vivemos esta frustração tão específica que é a do tempo que não aprendemos a experimentar em seus dois pólos, o do todo fora de nós (a família, a sociedade, a história, o planeta) e o do que se elabora em nossa interioridade. De um lado, vivemos o nosso tempo pessoal, o tempo de cada individualidade, de cada um que experimenta seu corpo, seu sentimento, medos, anseios, possibilidades, e sua noção de morte. O tempo individual é sempre o tempo da insegurança. Buscamos os outros: filhos, maridos, amigos, trabalho, para participarmos do tempo coletivo onde, ao partilharmos a insegurança com as demais individualidades, a eliminamos. Para tudo isso é preciso sempre muita atenção sobre o que estamos vivendo.

A avareza do tempo

Por outro lado, todos aqueles que sabem o valor do tempo, costumam pensá-lo em analogia com o dinheiro: tempo é dinheiro. Quem dispensa tempo, dispensa dinheiro ou, em termos mais técnicos, dispensa lucro. Mas o que é o lucro senão a vantagem que temos em relação aos outros, ao trabalho, à vida? O lucro é um “a mais”, mas a vida não vai nos dar mais tempo. Logo, tempo não é necessariamente dinheiro, mas justamente o que nos logra se a vida não foi bem vivida. Se o avaro economiza dinheiro, quem economizar tempo não poderá ser avarento, a rigor, o tempo é algo que sempre se multiplica. O tempo se multiplica na generosidade. É uma questão de organização. O desejo só surge como mensagem na garrafa àquele que entendeu a função de seu tempo próprio no tempo coletivo.

ARTUR DA TÁVOLA - Ano Novo

Se você pensa que sabe; que o ano novo mostre o quanto não sabe. Se são sempre os outros que são isso e aquilo; que o ano novo ensine a olhar mais para você mesmo. Que o ano novo ensine que não existe ano novo para a natureza. É tudo um fluxo só. O mundo não sabe que o ano mudou. A gente é que o supõe para abastecer o farnel das esperanças combalidas. Para a natureza, o novo é cada estação, primavera, verão, outono, inverno. Aí tudo muda. O único ente da natureza que comemora o ano novo é o homem. A vida é substantiva, nós é que somos adjetivos. Já viu flor comemorando o ano novo? Então modere a sua comemoração. De qualquer maneira, feliz ano novo.

Se você pensa que viver é horizontal, unitário, definido, monobloco; que o ano novo ensine a aceitar o conflito como condição lúcida da existência. Tanto mais lúcida quanto mais complexa. Tanto mais complexa quanto mais consciente. Tanto mais consciente quanto mais difícil. Tanto mais difícil quanto mais grandiosa. Felicidade é disponibilidade com paz; que o ano novo ensine a aproveitar os raros momentos em que ela surge.

Que o ano novo nos ensine, a todos, a dizer as verdades nunca na hora da raiva. Que desta aproveitemos a forma direta e simples pela qual as verdades se nos revelam por seu intermédio; mas para dizê-las depois, quando os bloqueios voltam e é mais cômodo “deixar pra lá”. Que a lucidez da raiva guardada para depois, quando ganhar a dimensão da calma mas perder a energia agressiva, sirva para expressar nossas franquezas com carinho e cordialidade.

E se ano novo não existe, exceto na imaginação da gente e se nesta tudo é possível, então que ele sirva para transformar tudo em Verbo. Como no princípio. Pois do jeito que o mundo vai, dá vontade de apagar e começar tudo de novo. 

MÁRIO QUINTANA - Fim de Ano, Começo de Ano

Mandei pregar as estrelas
Para velarem teu sono.
Teus suspiros são barquinhos
Que me levam para longe...
Me perdi no céu azul
E tu, dormindo, sorrias.
Despetalei uma estrela
Para ver se me querias...
Aonde irão os barquinhos?
Com que será que tu sonhas?
Os remos batem n’água...
Minhas mãos dormem na sombra,
A quem será que sorris?
Dorme quieto, meu reizinho.
Há dragões na noite imensa.
Há emboscadas nos caminhos...
Despetalei as estrelas,
Apaguei as luzes todas.
Só o luar te banha o rosto
E tu sorris no teu sonho.
Ergues o braço nuzinho,
Quase me tocas...A medo
Eu começo a acariciar-te
Com a sombra de meus dedos...
Dorme quieto, meu reizinho.
Os dragões, com a boca enorme,
Estão comendo os sapatos
Dos meninos que não dormem...

LÊDO IVO - Primeira lição

Esse ano, Lêdo Ivo foi passar o Natal no Céu.
Com certeza, convidado especial do aniversariante.

* 14 de setembro de 1924
+ 23 de dezembro de 2012


Na escola primária
Ivo viu a uva
e aprendeu a ler
Ao ficar rapaz
Ivo viu a Eva
e aprendeu a amar
E sendo homem feito
Ivo viu o mundo
seus comes e bebes
Um dia no muro
Ivo viu o mundo
a lição da plebe
E aprendeu a ver
Ivo viu a ave?
Ivo viu o ovo?
Na nova cartilha
Ivo viu a greve
Ivo viu o povo.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - Os Animais do Presépio



Salve, reino animal:
todo o peso celeste
suportas no teu ermo.

Toda a carga terrestre
Carregas como se
fosse feita de vento.

Teus cascos lacerados
na lixa do caminho
e tuas cartilagens

e teu rude focinho
e tua cauda zonza,
teu pelo matizado,

tua escama furtiva
as cores com que iludes
teu negrume geral,

teu vôo limitado,
teu rastro melancólico,
tua pobre verônica
em mim, que nem pastor
soube ser, ou serei,
se incorporam num sopro.

Para tocar o extremo
de minha natureza,
limito-me: sou burro.

Para trazer ao feno
o senso da escultura,
concentro-me: sou burro.

A vária condição
por onde se atropela
essa ânsia de explicar-me

agora se apascenta
à sombra do galpão
neste sinal: sou anjo.

COMO CORRER ATRÁS DOS SEUS PLANOS - Solange Bittencourt Quintanilha

Como estão aqueles sonhos acalentados há anos? Foram arquivados?

As coisas que você prometeu que iria cumprir esse ano, conseguiu?

Está faltando tempo para você realizar tudo o que deseja?

Parece que andamos de um lado para o outro, gastando tempo e energia sem conseguir encontrar e harmonizar nossas realizações profissional e pessoal. Não dá para abrir mão de nenhuma, pois ambas são importantes para a nossa vida.

Por que postergamos decisões urgentes? Por que deixamos para amanhã o que podemos fazer hoje? As palavras “algum dia” não deveriam existir no nosso calendário.

Na verdade, são vários motivos que nos levam a adiar tantas coisas importantes, que nos paralisam e cujas causas costumam ser primitivas, dos nossos primeiros anos de vida:

- nossas limitações (quantas ainda conservo na minha vida das quais não tenho nem consciência?);

- desânimo, falta de energia;

- descrença em nós (pensamentos como: não sou bom o bastante, não sou capaz, que certamente ocorrem pela falta de amor próprio e baixa autoestima);

- nossos medos;

- postura de passividade (ela nos afoga, e ficamos esperando que surja alguém para fornecer o gás que precisamos);

- não aceitação dos erros (se não podemos errar, não podemos arriscar) ou perfeccionismo...

Sentir medo faz parte da essência do ser humano. Sempre vamos sentir medo em momentos de decisão. Precisamos evitar que o medo nos impeça de agir, ele não pode nos dominar. Respeitar o medo, mas não deixar que ele seja uma barreira para os seus sonhos.

Errar faz parte da vida, tudo o que é importante na vida não fazemos certo da primeira vez. Caímos e levantamos algumas vezes. Quanto melhor aceitarmos nossas falhas, mais vamos aprender com elas para fazer certo da próxima vez.

Fracassar não é perder uma batalha, mas desistir de lutar porque é impossível ganhar sempre.

Aprender a lidar com as nossas limitações, com o desânimo, com a nossa descrença, com a nossa passividade, perfeccionismo... é o caminho.

Poderemos e conseguiremos empregar o nosso tempo de forma a gerar um impacto positivo nas nossas vidas, quando estivermos livres desses pensamentos e sentimentos tão inibidores e limitadores. Assim, fazer um mergulho no nosso interior, tentando realmente conhecer e entender as nossas questões emocionais, e as nossas dificuldades, é o que nos dará a possibilidade de descobrirmos o que é relevante para nós, quais são os nossos maiores propósitos e valores. Se estamos verdadeiramente dispostos a mudar e com boa motivação, vamos encontrar os caminhos.

Um sonho com data é uma meta, então, vamos elaborar por escrito nossos sonhos e planos buscando uma ordem de prioridades, examinando com atenção, seriedade, tenacidade e disciplina. 

É necessário e muito valioso que o nosso planejamento seja factível. Não adianta acumular um monte de metas, pois além de ficar difícil dar conta de tudo, essa situação vai trazer ansiedade. Quando ela fica grande demais, afeta a mente e o corpo, causando dores de cabeça, musculares, aumento da pressão arterial, alterações no sono, gastrite...

Comecemos aos poucos, o importante é começar e não desistir de lutar.

É muito importante aprender a administrar o nosso tempo. Uma rotina equilibrada cria a oportunidade que faltava para retomar velhos desejos. Vale a pena.

Fiquemos receptivos às novas soluções, e mudanças, pois a rigidez impede a criatividade.

Sorte é quando preparação encontra oportunidade.

Os estudiosos dizem que o sucesso é = 1% Inspiração + 1% Sorte + 98% de Transpiração.

GOETHE dizia: “Se você pensa que pode ou sonha que pode, comece”.

Ousadia tem genialidade, poder e mágica. Empenho, persistência e sabedoria são essenciais.

No momento em que mudamos nossas crenças e valores, parece que o mundo nos acompanha. Os problemas continuam existindo, mas passamos a encará-los de uma maneira positiva, como um aprendizado.

É enxergar possibilidades onde outros só enxergam obstáculos e ter coragem de caminhar em direção às realizações.

NOITE FELIZ – Edmir Silveira

O espírito do Natal chegava no dia de armar a árvore. Não me lembro direito se era a mesma árvore ou se a cada ano era uma diferente. Mas, todas eram a árvore de Natal da minha casa. Que eu, meus irmãos e minha mãe tínhamos montado juntos. Às vezes, meu pai estava também, outras ele vinha para a parte final que era ligar o pisca-pisca "do jeito certo”. Minha mãe sempre colocava algodão em cada "galho”da árvore para parecer neve. A cada ano surgiam enfeites novos que se juntavam aos que tinham sobrevivido dos anos anteriores. Lembro claramente de alguns. Era excitante, alegre e divertido.

Tinha o dia de escrever a cartinha para o Papai Noel. Hoje, penso como minha mãe era hábil. Sempre escolhíamos os presentes que eles poderiam nos dar. Não porque pensássemos neste aspecto econômico, mas porque ela ia,aos poucos, nos induzindo. Incrível, quanta habilidade. Eles não tinham dinheiro para nos dar o que quiséssemos ou o que as propagandas sugeriam. Mas, sempre davam o que pedíamos. O que mostra a capacidade de influência que minha mãe tinha sobre nós.

Eram Natais felizes, plenos. Fazíamos listinha com nomes de alguns amiguinhos que gostaríamos de dar presente. Cada uma tinha direito de escolher uns tantos. Eram só lembrancinhas, como dizia minha mãe.

Um dos Natais que mais me marcou foi quando ganhei minha primeira bicicleta. Era o meu maior sonho, aquela bicicleta. Sonhei com ela desde que havia passado de ano por média no colégio e minha mãe e meu pai me sugeriram que pedisse uma bicicleta pro Papai Noel, porque eles achavam que eu merecia e que Papai Noel sabia disso. 

Fiquei confiante e escrevi a carta com a certeza de que meus pais tinham algum conhecimento lá com Papai Noel. Quando eu perguntava para minha mãe o que ela achava, se Papai Noel ia me dar ou não, ela piscava o olho e não dizia nada. Mas dizia tudo. Aquele piscar de olhos, para mim, era como se ela falasse claramente que tinha lá sua influência com o Bom Velhinho. E quando a gente é criança acredita mesmo que mãe seja o ser que chega mais perto dos "seres encantados”.

Foram dias de ansiedade. Quando a gente é criança o tempo demora demais a passar. Perto de aniversário ou natal então chega a ser torturante. Não chega nunca.

Na noite de Natal chegaram meus tios e primos, a ceia posta. E nada de dar meia-noite. Meu pai, mãe, tios, primos, irmãos e eu. Eles conversando com a porta do apartamento aberta, por onde entravam e saiam vizinhos, que também deixavam suas portas abertas e nos recebiam em algum momento da noite.

No Leblon, nas noites de Natal da minha infância, as portas dos apartamentos ficavam abertas e os vizinhos faziam sempre uma visitinha rápida só pra dar Feliz Natal.

Criança não liga para as comidas deliciosas que se faz no Natal. E, pior, ainda são obrigadas a comê-las... Estava tão ansioso que não cabia nem uma ervilha no meu estômago. Minha mãe entendeu e me dispensou daquele martírio.

De repente, algum adulto dá um alarme de que está vendo Papai Noel na janela do quarto, lá dentro.

As crianças correm que nem loucas mas, não chegamos a tempo de ver, ele tinha acabado de passar na direção da janela da sala. Ouvimos um barulho.

Corre todo mundo de novo de volta pra sala e lá estava a minha primeira bicicleta: uma Monark verde, aro 12, freio contrapedal. 


A emoção foi tão forte, a felicidade foi tão grande que a sentirei para sempre em todos os Natais que vieram e vierem. 

Hoje, acredito ainda mais em Papai Noel. Ele é tão importante que cada um tem o seu. Eu tive, em todos os Natais da minha vida, um Papai Noel que, de longe ou perto, era sempre presente.


A bicicleta passou mas o meu Papai Noel viverá para sempre.

FERREIRA GULLAR - Presença de Clarice

MEU primeiro encontro com Clarice Lispector foi numa tarde de domingo na casa da escultora Zélia Salgado, em Ipanema, creio que em 1956. Eu havia lido, quando ainda vivia em São Luís, o seu romance "O Lustre", que me deixara impressionado pela atmosfera estranha e envolvente, mas a impressão que me causou sua figura de mulher foi outra: achei-a linda e perturbadora. Nos dias que se seguiram, não conseguia esquecer seus olhos oblíquos, seu rosto de loba com pômulos salientes.

Voltei a encontrá-la, pouco tempo depois, no "Jornal do Brasil", durante uma visita que fez à redação do "Suplemento Dominical". Conversamos e rimos, mas não voltamos a nos ver num espaço de uns dez anos. De fato, só voltei a encontrá-la logo após voltar do exílio, em 1977. Ela ligou para minha casa: queria entrevistar-me para a revista "Fatos e Fotos", para a qual colaborava naquela época.
Clarice já era então uma mulher de quase 60 anos, marcada por acidente que resultara em sérias queimaduras que lhe deixaram marcas na mão direita. Já quase nada tinha da jovialidade de antes, embora continuasse perturbadora em sua natural dramaticidade. Depois de ouvir dela algumas palavras carinhosas, decidi revelar-lhe como me fascinara em nosso primeiro encontro.
-Você era linda, tão linda que saí dali apaixonado.
-Quer dizer que eu "era" linda?
-E ainda é, apressei-me em afirmar..
Terminada a entrevista, despedimo-nos carinhosamente, mas no dia seguinte ela ligou de novo. Queria encontrar-me para conversar. Fui até sua casa, no Leme, e de lá fomos caminhamos até a Fiorentina, que ficava perto.
Lembro-me que Glauber Rocha, vendo-nos ali, veio sentar-se em nossa mesa e começou a elogiar o governo militar. Clarice me olhava para com espanto, sem entender. Ele, depois daquele discurso fora de propósito, mudou de mesa.
-Ele veio provocar você, disse Clarice. Com que intenção falou essas coisas?
-Glauber agora cismou de defender os milicos. É piração.
Depois dessa noite, voltei a vê-la num encontro que ela promoveu em sua casa com alguns amigos, entre os quais Fauzi Arap, José Rubem...

Foi a última vez que a vi. A roda-viva daqueles tempo me arrastou para longe dela, em meio a problemas de toda ordem, crises na família, filhos drogados, clínicas psiquiátricas. De repente, soube que ela havia sido internada num hospital em estado grave. Localizei o hospital, telefonei para o seu quarto e acertei com a pessoa que me atendeu ir visitá-la no dia seguinte. Mas, ao chegar à redação do jornal, antes de sair para a visita, a telefonista me passou um recado: "Clarice pede ao senhor que não vá vê-la no hospital. Deixe para visitá-la quando ela voltar para casa". E se ela não voltasse mais para casa? Dobrei o papel com o recado e guardei-o no bolso, desapontado.
Àquela noite, quando contei o ocorrido a minha mulher, ela explicou: "Clarice, vaidosa como era, não queria que você a visse no estado em que estava". Pode ser, mas, de qualquer forma, até hoje lamento não ter podido vê-la uma última vez.

Dois ou três dias depois do recado, ela morria. Ao sair do banho, pela manhã, alguém me informou: "Clarice Lispector morreu". De viagem marcada para São Paulo, entrei num táxi que me levou pela lagoa Rodrigo de Freitas. Não poderia ir a seu sepultamento. O táxi corria dentro de uma manhã luminosa, enquanto a brisa balançava alegremente os ramos das árvores. Clarice morrera e a natureza o ignorava. No avião, escrevi um poema falando nisso. Que mais poderia fazer?

Alguns meses atrás, quando aceitei fazer a curadoria da exposição sobre ela, no Museu da Língua Portuguesa, todas essas lembranças me acudiram. Ia ser bom voltar a pensar nela, reler seus livros, pois é neles e só neles que é possível reencontrá-la agora e nunca naquele saárico túmulo do Cemitério Israelita do Caju, aonde certo dia, sob sol escaldante, fui, com Cláudia Ahimsa, visitá-la. Não havia Clarice nenhuma sob aquela laje de pedra, sem flores. E não havia porque, de fato, o que Clarice efetivamente foi, o que fazia dela uma pessoa única e exasperada, era sua patética entrega ao insondável da existência -e a necessidade de escrever, de tentar incansavelmente dizer o indizível, mas certa de que, ao torná-lo dizível, o dissiparia.

Não obstante, isso era tudo o que valia a pena fazer na vida, conforme afirmou: "Quando não escrevo, estou morta".

EPICURO - A Vantagem do Entendimento

A carne considera os prazeres ilimitados e seria mister um tempo infinito para satisfazê-la. Mas o entendimento, que determina o fito e os limites da carne, e que nos livra do temor em face da eternidade, possibilita-nos uma vida perfeita, onde não temos necessidade de duração infinita. 

Ele não foge, contudo, ao prazer e, quando as circunstâncias nos obrigam a deixar a vida, não se crê privado do que a vida oferecia de melhor.

Quem conhece perfeitamente bem os limites que a vida nos traça, sabe quão fácil é obter o que suprime a dor, causada pela necessidade, e faz a vida inteira perfeita, de sorte que não tem mais necessidade de coisas cuja aquisição exija esforço.

Todos os desejos que não provoquem dor quando permanecem insatisfeitos não são necessários, e poderão ser facilmente recalcados se nos parecerem difíceis de ser satisfeitos ou capazes de nos causar danos. 

ROSELY SAYÃO - Filho ausente

Crianças devem decidir se querem ou não 
a companhia de um de seus pais? 
Hoje, elas têm esse poder.

Depois da comemoração do Dia dos Pais, algumas famílias tiveram de enfrentar situações muito parecidas com o que chamamos de ressaca. As famílias em questão têm um ponto em comum: o fato de o casamento ter se dissolvido após o nascimento dos filhos. Vamos a dois exemplos que podem servir de referência para a nossa conversa de hoje.

Num dos casos, o rompimento do casamento é recente. Há menos de um ano, o casal decidiu se separar e os filhos - dois, com menos de seis anos - ficaram com a mãe. O pai é muito presente, encontra-se com os filhos pelo menos dois dias na semana ou mais, quando há oportunidade na rotina de todos.

Mesmo a separação tendo ocorrido por desejo dos dois, ainda paira no ar uma tensão e isso quase sempre se revela com os filhos. Foi o que aconteceu no Dia dos Pais.

O filho mais velho, agora com seis anos, resolveu que queria passar o domingo com a mãe. Por mais que ela tenha tentado convencê-lo das mais variadas formas a ficar com o pai, nada o demoveu de sua decisão. Resultado? A menina mais nova ficou com o pai, e o mais velho, com a mãe.

Agora adivinhe o que aconteceu, caro leitor: restou um sentimento de culpa enorme para essa mãe. E a pergunta dela é: "Eu deveria ter obrigado meu filho a ir com o pai, mesmo com todo o escândalo que ele aprontou?"

O segundo caso tem componentes bem diferentes do primeiro, mas a cena final é muito semelhante. O casal separou-se há mais de dez anos de um modo muito conturbado e uma das consequências foi o afastamento do pai durante anos.

Depois de casar-se novamente e ter filhos da segunda união, esse pai tem tentado se reaproximar do filho do primeiro casamento, agora com 13 anos. Inicialmente, o menino aceitou de bom grado a presença do pai, mas no domingo não quis almoçar com ele e sua nova família por ciúme: queria estar sozinho com seu pai.

O sentimento de culpa, agora, é do menino: ele me perguntou se eu acho possível seu pai perdoar sua atitude. É que até agora o pai não deu notícia e ele acha que será novamente abandonado. Um ponto importante dessa situação: a mãe do garoto, segundo ele, apoiou sua decisão.

Uma pergunta pode nortear nossas reflexões: crianças e adolescentes devem ter o poder de decidir se querem ou não a companhia de um de seus pais?

Atualmente, eles ganharam esse poder e devo dizer que eles não têm condições de exercer o poder que ganharam. Por quê? Vamos à resposta mais simples: porque eles ainda não sabem considerar a complexidade das situações que decidem. E, justamente por isso, irão arcar, agora ou mais tarde, de modo mais ou menos comprometedor para eles, com as consequências de suas decisões.
No primeiro caso citado, o garoto de seis anos já dá sinais de que algo não vai bem: tem tido pesadelos quase todas as noites. O interessante é que a mãe, que sente a culpa por ter deixado o filho recusar a presença do pai, entende que os dois eventos estão associados, já que o primeiro pesadelo foi logo no Dia dos Pais.

Pode ser apenas coincidência, mas a relação que a mãe faz já é um sinal de que ela, no fundo, sabe que deveria ter agido de modo diferente com o filho.

No segundo caso, a situação criada pela circunstância vivida pode provocar uma nova ausência do pai na vida do filho adolescente, já que temos tido a tendência de encarar os mais novos como se fossem adultos. Não seria inusitado na atualidade esse pai se magoar com a atitude do filho e decidir se afastar por acreditar que o filho não quer sua presença.

Bem, os mais novos têm o direito de crescer com a companhia de seus pais, estejam eles casados ou não. A questão é que eles não sabem que isso é um direito: somos nós que precisamos garantir isso a eles.

SOBRE OS ADVOGADOS - Rubem Alves


Sem advogado não se faz justiça” – 
essa frase aparece em adesivos de carros. 
Ela não é verdadeira.

Se um advogado acredita que ela é verdadeira, falta-lhe inteligência. Sugiro a substituição da dita frase por “O advogado, se quiser, pode ajudar a fazer justiça. Se não quiser, pode ajudar a fazer injustiça.”

O “fazer justiça” não pertence à profissão do advogado. Ninguém vira “fazedor de justiça” por ter diploma de advogado. O Lalau que o diga.

A justiça pertence à ordem da ética – que é uma condição espiritual que o indivíduo advogado pode ou não ter.

UM PRESENTE - Danuza Leão

DIA SIM, DIA NÃO, 
eu, que moro no Rio, ando uma hora na Lagoa.
Andar é uma mania dos cariocas, para conservar a saúde.

Meu horário é seis da tarde, mas nesse último mês tem sido difícil. Os dias amanhecem lindos, ensolarados, céu azul, mas a partir das três horas o céu começa a ficar cinza, e daí a pouco começa a chover. Um verão atípico, pois isso tem acontecido quase todos os dias. Na última segunda-feira, quando desci para andar, o céu era um chumbo, e fiquei na dúvida: vai ou não chover? Perguntei a meu porteiro, ao do edifício ao lado, os dois me tranqüilizaram: não, não vai chover. Acreditei, e lá fui eu.
Quando cheguei à Lagoa, o tempo estava meio estranho: olhando para o lado da Barra, céu azul e sol. Do outro lado, nuvens negras anunciavam um temporal.
Como eu já estava indo, resolvi apostar no melhor e comecei a andar. Uns 800 metros depois caiu uma chuva daquelas, mas daquelas mesmo. Dizem que o mundo é dividido entre os que usam e os que não usam guarda-chuva e sou das que acham a chuva uma delícia, sobretudo quando está fazendo calor; mas aquela era demais. Para piorar a situação, tinha ido ao cabeleireiro e feito uma escova naquela manhã, e se meu cabelo molhasse seria uma catástrofe. Mas não havia nada a fazer, a não ser esperar. Sentei num banco debaixo de uma árvore, rezando para a chuva passar. Enquanto esperava, olhei o céu: a mesma coisa. De um lado sol, do outro lado chuva. Foram 15 ou 20 minutos difíceis: se decidisse voltar para casa, ia ficar encharcada. Quanto tempo ainda duraria aquela tortura?
A chuva, daquelas bem de verão, passou. As últimas gotas ainda caíam quando voltei a andar, e quando olhei para o céu, o milagre: um arco-íris. Na verdade não é um milagre, é um fenômeno explicado pela ciência e que acontece às vezes, mas que é tão lindo, mas tão lindo, que é difícil de acreditar que esteja mesmo acontecendo. O enorme arco-íris ligava um morro a outro.
Existem alguns arco-íris que são meio pela metade, e com cores meio desbotadas. Mas aquele era tão lindo, tão inteiro, tão perfeito, que parecia feito a compasso; as cores vivas, nítidas, belas, um verdadeiro presente da natureza -e que presente.
Na volta, comecei a prestar mais atenção ao caminho que faço todos os dias, automaticamente. Algumas árvores haviam florescido e as flores estavam caídas no chão, dando a impressão de serem tapetes amarelos.
E havia outras, nas quais nasce, no tronco, um tipo de flor em vários tons de vermelho; vi turistas estrangeiros maravilhados, pegando as flores, provavelmente para levar para seus países, de lembrança. Elas eram lindas, e eu nunca havia notado que existiam.
Quando fiz o caminho de volta, o sol continuava a brilhar, e voltei para casa feliz; mais feliz do que se tivesse ido a qualquer museu e visto as mais lindas obras de arte.
Feliz e pensativa; como conheço razoavelmente a natureza humana -a minha, sobretudo-, não será impossível que em uns meses, quando estiver fazendo o mesmo percurso, no lugar de prestar atenção nas montanhas, na luz, que muda a cada dia, nas flores, que podem ter caído ou estarem enfeitando as árvores, esteja distraída e tensa, pensando que é hora de declarar o imposto de renda, ou no inevitável novo escândalo que acontecerá no país.
E isso -quando e se acontecer- será muito melancólico.

MIGUEL FALABELLA - O Inesperado do Natal

Elas batiam nos portões trazendo
 as marmitas de alumínio. 
A nossa chamava-se Sidnéia 
e era pontual como um relógio suíço.

Em "Madame Bovary", Flaubert nos brinda com uma passagem que a literatura dramática tomaria emprestada inúmeras vezes, nos anos seguintes, adaptando cenários e personagens. Nela, a heroína, no meio de um fabuloso baile, flagra os camponeses com os narizes espremidos de encontro às vidraças, admirando o fausto e esplendor da ocasião. Na verdade, a cena mais do que denuncia; profetiza um futuro de excluídos que se aglomeram para espiar o objeto do desejo, nas vidraças daquilo que chamamos de civilização, e todos nós sem exceção reconhecemos a situação de imediato.

Sou do tempo em que ações sociais faziam-se todos os dias. Todas as casas da rua tinham seus pobres e, logo depois do almoço, as meninas vinham, em procissão. Geralmente cabia à filha mais velha essa função. Elas batiam nos portões trazendo as marmitas de alumínio. A nossa chamava-se Sidnéia e era pontual como um relógio suíço, como dizia vovô. Era frequente mamãe exclamar: Sidnéia já passou? Meu Deus! Como estou atrasada! Sidnéia era nosso meridiano, por assim dizer.

Sidnéia, ao contrário dos figurantes do século XIX, não espremia o rosto por entre as grades do portão para tentar flagrar uma nesga de jardim. Muito pelo contrário. Ela ficava parada, ali, tentando esconder a vergonha, olhando para a copa da mangueira, enquanto tia Eurídice arrastava seus chinelos de volta à cozinha para encher as vasilhas.

Durante toda a espera, eu ficava à espreita, às vezes sobre o abrigo dos barcos, às vezes, trepado num galho de árvore, tentando flagrar seu olhar e tornar-me solidário com seu constrangimento, mas ela quase nunca permitia algum contato visual. Eu, entretanto, insistia. Não me lembro de ter trocado uma única palavra com ela, mas guardei seu nome, que mamãe repetia, consultando o relógio da parede: Sidnéia ainda não chegou, gente? Vai ver aconteceu alguma coisa... E guardei sua imagem: as pernas magras, o rosto marcado pelo peso de seus 12 anos e um vestido de algodão com a estampa esmaecida, como se as flores tivessem murchado em seu corpo. O cabelo era ralo e curto e o sorriso ela nunca exibiu. Talvez pelos poucos predicados, a lembrança eternizou-se com um luxuriante fundo de buganvílias em flor, aquelas mesmas que bordavam o muro.

É claro que não sei o que aconteceu com ela, se ainda está viva, se lembra daquelas tardes em que aguardava a caridade no portão lá de casa, não sei nada. Mas Sidnéia me deixou, entretanto, a lembrança de um olhar que até hoje é inesquecível. O olhar de quem já não sonha. E eis, tardiamente, a razão da crônica, eu já me lembro!

Tenho a minha frente seis cartas endereçadas a Papai Noel, escritas à mão por crianças carentes. É uma linda iniciativa dos Correios e a campanha cresce a cada ano, com padrinhos que escolhem e presenteiam aquela criança, naquele Natal.

Ingrid tem 10 anos, quer conhecer o pai e pede a Papai Noel uma bicicleta rosa. Ingrid, assim como Sidnéia, também espreme o nariz na vidraça e é justo que alguém um dia a convide para dar uma volta no salão. A campanha chama-se Papai Noel dos Correios e vale a pena participar. O inesperado, acreditem, costuma retribuir as surpresas.

ROER AS UNHAS: INTERPRETAÇÃO E CONSEQUÊNCIAS

-->
Roer as unhas é um hábito que tem início na infância 
e que prevalece até à idade adulta preocupando muitos pais.
Mas quais as consequências? Qual o significado?
Roer as unhas ou também conhecido ao nível técnico como onicofagia é o hábito de morder e ou roer as unhas das mãos e/ou dos pés. Este hábito muitas vezes associado a momentos de ansiedade, stress, fome ou tédio. Também associado a desordens mentais e/ou emocionais, porém menos frequente.
Este hábito é adquirido por volta dos quatro anos. Devido a não ter consequências diretas e visíveis muitas vezes é negligenciado pelos educadores, prevalecendo até à idade adulta. Porém podem existir algumas consequências indiretas desse roer de unhas:
Sangramento – O sangramento é um dos meios mais eficientes de transmissão e contaminação de doenças.
Inflamações – Roer as unhas pode levar a inflamações de alguma gravidade nos dedos e unhas, expandindo a sua prejudicialidade.
Micoses – Roer as unha, deixa os tecidos expostos a fungos, cujo tratamento consequente será demorado e complexo.
Maior propensão à propagação e contaminação de doenças – Os dedos e as unhas, possuem imensas bactérias e até vírus. Leva-los à boca é provocar uma potencial doença.
Maior propensão de intoxicação – Quando mexemos em substâncias tóxicas, se vamos roer as unhas de seguida (o que acontece com frequência) podemo-nos intoxicar, provocando graves danos para o organismo.
Defeitos estéticos – Aparentemente o menos importante, contudo pode ter efeitos a um nível social e até profissional. Consoante com o que estiver associado ao “roer as unhas”.
Roer as unhas é um comportamento, que muitas vezes o individuo não tem qualquer consciência. Isto é, é um comportamento tão repetido, que chega a ser automático e o indivíduo não se dá conta, ou dá-se conta quando já tem os dedos na boca.
Como pode ser interpretado o roer das unhas:
Ansiedade – Roer as unhas pode ser, simplesmente, reflexo de ansiedade. Porém esta pode ter origem em inúmeros motivos, como: insegurança, mentira, medo, stress, etc. Nesta perspetiva o individuo roí as unhas essencialmente em momentos ou períodos de elevada ansiedade.
Agressividade reprimida – Roer as unhas pode ser interpretado como a inibição da agressividade, principalmente quando se convive com pessoas muito autoritárias e não se pode expressar adequadamente a agressividade. Aqui agressividade não é agressão, mas sim posicionar-se com coragem e assertividade, sem medo, dizendo o que pensa e clarificando a sua perspetiva, sem ceder à pressão e às intimidações.
Comportamento Obsessivo-Compulsivo – Nesta perspectiva, roer as unhas faz parte de um ritual, de forma a baixar a sua ansiedade geral. Não tão reativo e extrínseco como na primeira interpretação, mas interno e intrínseco. Neste caso pode nem existir contato com acontecimentos que provocam ansiedade.
Automutilação – Numa interpretação extrema, a pessoa ao roer as unhas está literalmente a comer-se a si própria. Nesta extrema perspectiva, roer as unhas pode significar automutilação ou mesmo desrespeito com um dos progenitores, visto que ao comer-se a si própria parece por em causa a sua própria existência 
(Linguagem do Corpo de Cristina Cairo).
por: Jorge Elói

Anúncio

Anúncio

NEUROCIÊNCIA SUPEROU A PSICANÁLIE - Ivan Izquierdo

NEUROCIÊNCIA SUPEROU A PSICANÁLIE - Ivan Izquierdo
A psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência...