UMA NOITE FELIZ – Edmir Saint-Clair

O espírito do Natal chegava no dia de armar a árvore. Não me lembro direito se era a mesma árvore ou se a cada ano era uma diferente. Mas, todas eram a árvore de Natal da minha casa, que eu, meus irmãos e minha mãe tínhamos montado juntos. Às vezes, meu pai estava também, outras ele vinha para a parte final, que era ligar o pisca-pisca "do jeito certo”. Minha mãe sempre colocava algodão em cada "galho” da árvore para parecer neve. A cada ano, surgiam enfeites novos que se juntavam aos que tinham sobrevivido nos anos anteriores. Lembro claramente de alguns. Era excitante, alegre e divertido.

Tinha o dia certo de escrever cartinha para o Papai Noel. Hoje, penso como minha mãe era hábil. Sempre escolhíamos os presentes que eles poderiam nos dar. Não porque pensássemos neste aspecto econômico, mas porque ela ia, aos poucos, nos induzindo. Incrível, quanta habilidade. Eles não tinham dinheiro para nos dar o que quiséssemos ou o que as propagandas sugeriam, meu pai era muito novo, militar do exército, capitão ainda. Mas, sempre davam o que pedíamos. O que mostra a capacidade de influência que minha mãe tinha sobre nós.

Eram Natais felizes, plenos. Fazíamos listinha com nomes de alguns amiguinhos que gostaríamos de dar presente. Cada uma tinha direito de escolher uns tantos. Eram só lembrancinhas, como dizia minha mãe.

Um dos Natais que mais me marcou foi quando ganhei minha primeira bicicleta. Era o meu maior sonho, aquela bicicleta. Sonhei com ela desde que havia passado de ano por média no colégio e minha mãe e meu pai me sugeriram que pedisse uma bicicleta pro Papai Noel, porque eles achavam que eu merecia e que Papai Noel saberia disso. 

Fiquei confiante e escrevi a carta com a certeza de que meus pais tinham algum conhecimento lá com Papai Noel. Quando eu perguntava para minha mãe o que ela achava, se Papai Noel ia me dar ou não, ela piscava o olho e não dizia nada. Mas dizia tudo. Aquele piscar de olhos, para mim, era como se ela falasse claramente que tinha lá sua influência com o Bom Velhinho. E, quando a gente é criança acredita mesmo que mãe seja o ser que chega mais perto dos "seres encantados”.

Foram dias de ansiedade. Quando a gente é criança o tempo demora demais a passar. Perto de aniversário ou natal então chega a ser torturante. Não chega nunca.

Na noite de Natal, chegaram meus tios e primos, a ceia posta. E nada de dar meia-noite. Meu pai, mãe, tios, primos, irmãos e eu. Eles conversando com a porta do apartamento aberta, por onde entravam e saiam vizinhos, que também deixavam suas portas abertas e nos recebiam em algum momento da noite. 

No Leblon, nas noites de Natal da minha infância, as portas dos apartamentos sempre ficavam abertas e os vizinhos faziam visitinhas rápidas só pra dar Feliz Natal e comer uma rabanada.

Criança não liga para as comidas deliciosas que se faz no Natal. E, pior, ainda são obrigadas a comê-las... Estava tão ansioso que não cabia nem uma ervilha no meu estômago. Minha mãe entendeu e me dispensou daquele martírio.

De repente, algum adulto dá um alarme de que está vendo Papai Noel na janela do quarto, lá dentro.

As crianças correm que nem loucas mas, não chegamos a tempo de ver, ele tinha acabado de passar na direção da janela da sala. Ouvimos o barulho.

Corre todo mundo de novo de volta pra sala e lá estava a minha primeira bicicleta: uma Monark verde, aro 12, freio contrapedal. 

A emoção foi tão forte, a felicidade foi tão grande que a senti para sempre, em todos os Natais que vieram e vierem. 

Hoje, acredito ainda mais em Papai Noel. Ele é tão importante que cada um tem o seu. Eu tive, em todos os Natais da minha vida, um Papai Noel que, de longe ou de perto,
era sempre presente.

A bicicleta passou mas o meu Papai Noel viverá para sempre.
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Entre sutilezas, brincadeiras e aparentes elogios, a violência simbólica se amplia quando expressões como estas são repetidas:

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