MARCIA TIBURI - XXY, ou adivinha quem é a mulherzinha?

As duas engenheiras viviam muito bem dividindo as tarefas em um laboratório da universidade. Uma era a chefe; a outra, aluna e admiradora. Vamos chamar a chefe do laboratório de X e a técnica de X1. 

X1 fora aprovada em um concurso para um cargo técnico por seus méritos como pesquisadora, currículo, experiência, aquelas coisas todas. Como eram doutoras e uma mais estudiosa que a outra, logo X e X1 se tornaram grandes parceiras nos trabalhos do cotidiano acadêmico. E viviam, X e X1, muito felizes.

Até que um dia, havendo uma vaga para o mesmo cargo técnico que X1 ocupava, foi aprovado um homem que veio trabalhar no laboratório.

O homem, vamos chamá-lo de Y, pois é importante que estejamos atentas ao senso de abstração que uma história dessas requer. O homem, daqui para frente chamado de Y, pois bem, era um corintiano praticamente fundamentalista. Sendo corintiana a maior parte da população masculina do Brasil, não há nada demais nisso. Torcedor alucinado do seu time, Y também jogava futebol toda semana e assistia aos jogos de outros times.

Poderíamos dizer que Y é um homem típico, mas isso nos faria cair na perigosa formulação do essencialismo em que os diferentes não são contemplados, por isso é mais adequado dizer que se trata de um “tipo de homem”. Fato é que Y é um tipo de homem muito simples: gosta de cerveja e de mulheres, entendendo, de tanto ter visto as propagandas de cerveja que o formaram subjetivamente, que esta é uma equação em que os termos são necessariamente ligados um ao outro. E isso porque esse tipo de homem que Y é tem um pequeno probleminha relativo ao seu jeito de adquirir conhecimento: ao aprender algo, não aceita mais opiniões diferentes sobre o assunto. Em resumo, isso quer dizer que Y é autoritário.

Aí começa o nosso problema, como espectadores dessa cena. Y, sendo apenas graduado, foi trabalhar num laboratório onde há duas mulheres, X e X1, que são doutoras. Ele não entende que a equação mulher + cerveja não esteja exposta diante dele quando trabalha com elas. Não é apenas a característica gnosiológica de Y que fica comprometida neste momento. Sabemos, nós que assistimos à cena, que todo aprendizado tem relação com os afetos, e, portanto, é mais do que claro que as emoções de Y estão intensamente presentes, inclusive sua compreensão falsa sobre as mulheres e seu autoritarismo fazem parte disso tudo. Pergunta que nos fica: se Y é autoritário, ou seja, aquele que acha que tem razão em tudo, como fica diante de duas mulheres doutoras, ou seja, que têm mais experiência e conhecimento que ele?

Para compreendermos o que se passa, vejamos alguns detalhes importantes.

Já sabemos que X1 é doutora e Y não. Precisamos saber que X1 tem senso de duas coisas que chamaremos aqui de “coleguismo” e “profissionalismo”. Logo, X1 sabe que, mesmo não admirando o modo de ser de alguém com quem convive, ela precisa ser moral ou eticamente correta em relação a esta pessoa, no caso Y. E este senso moral e ético implica ajudar Y no próprio trabalho, posto que estando há mais tempo no serviço, tendo experiência com as máquinas, e tendo feito pesquisa de ponta que lhe rendeu seu doutoramento, X1, de fato, tem como orientar Y nos procedimentos técnicos diários. E assim o faz, mesmo percebendo os vastos limites de Y.

E Y, por sua vez, pode aproveitar tudo isso para seu desenvolvimento profissional e, até mesmo, pessoal. Acontece que sendo Y um tipo de homem autoritário, ou seja, dono de um duplo suposto saber, tanto sobre as mulheres quanto sobre seus conhecimentos adquiridos em geral na ciência onde se graduou, sente-se ofendido por estar justamente sendo orientado ou, em alguns casos, contestado por uma mulher, no caso X1.

No laboratório, vemos Y dar um soco na parede, rasgar formulários, ficar vermelho de raiva, gritar, atirar longe o jaleco e sair pisando firme porta afora… Isso quando X1 se aproxima dele avisando-o de que está cometendo um erro no procedimento.

No outro lado da cena, vemos Y entrando no gabinete de X, após um de seus escândalos. Vemos Y ora de cabeça baixa, ora de olhos fundos a choramingar que se sente chateado, opresso, que é, afinal, um pobrezinho. X fica com pena de Y, afinal, ele está tão magoado…

X, então, evidentemente compadecida, vai até X1 dizendo:

— Pobrezinho de Y, ele ficou tão magoado com o que você fez X1…

— Mas o que eu poderia fazer, X? Precisava avisá-lo do erro, poderíamos perder dias de trabalho.

— Você tem que entender, X1, que você está aqui há muito mais tempo, conhece todos os equipamentos do laboratório. Você é brilhante, tem mestrado e doutorado, tem um desempenho fantástico.

— Ora, obrigada — disse X1 timidamente.

— Só que isso o assusta, X1. Você tem que ajudar Y a lidar com isso.

— Eu?

— Claro, quem mais poderia ajudá-lo?

X1 não entendeu muito bem. Responsável que era, estava sempre atenta a seus próprios limites. Sabendo-se bem jovem, X1 costumava estudar muito e tentar aprender com quem fosse mais experiente do que ela, por exemplo X. Deste modo, ficou pensando no que poderia estar acontecendo entre eles: X, X1 e Y. E não encontrando explicação sugeriu o seguinte:

— X, penso que esta seja uma questão que Y deveria resolver conversando com a mãe dele ou fazendo terapia. Não creio que os problemas emocionais de Y sejam problema meu. Não uso meus atributos e títulos para me posicionar acima de Y. Não lhe trago meus problemas pessoais, não penso que possa responsabilizar Y por algum que eu venha a ter. Ao contrário, estamos no mesmo cargo, apesar de nossa formação diferente, ensino-lhe tudo o que posso para que o trabalho flua da melhor maneira.

— Y está com um problema quanto à sua virilidade no trabalho, você, X1, o humilha ao ganhar mais do que ele, ao saber mais do que ele, ao ser mais brilhante do que ele. Você tem que ajudá-lo para que o trabalho não seja prejudicado — diz X, convencida do papel de X1.

X1 permanece boquiaberta. X se retira olhando para X1 com um pedido de condescendência, cheio de anseios de compreensão, afinal que há um homem do tipo de Y naquele local de trabalho em que a exigência de conhecimento técnico e racionalidade estão sempre em xeque. E, no entanto, aquele homem do tipo de Y tem um problema emocional que vem perturbando a paz coletiva.

X1, perplexa como não poderia deixar de ser, percebe a inversão de valores exposta na percepção de X. X exige de X1 não apenas que seja responsável pelo trabalho, pelo progresso técnico de Y, mas também por suas emoções, como se Y fosse um bebê, uma criança, ou, se quisermos usar um termo politicamente incorreto, mas carregado de significado simbólico: uma mulherzinha.

Em frente ao espelho do banheiro, nós que podemos ver as cenas todas, inclusive a cena por trás da cena, vemos Y olhando em seus próprios olhos. Y chora e chora muito. Então, como se apenas encenasse, Y para de chorar e exibe os músculos dos braços ao espelho para seu próprio deleite. Y dá uma olhada no celular, vê quanto de dinheiro tem na carteira, chupa a barriga pra dentro e, antes de deixar o expediente — afinal o horário já se foi — treina um sorriso no mesmo espelho onde cinco minutos antes, exibia suas lágrimas.

Nós, que observamos a cena e gostamos muito de entender o que se passa, sabemos que Y é histérico. Sabemos que a histeria não é só um problema feminino. Ao contrário, há muitos homens histéricos. Mas os homens mesmos não gostam dessa ideia e, por isso, raramente a ciência até então dominada pelos homens investigou o tema a fundo.

Há um problema com a representação de gênero na questão da histeria. Isso relativamente ao fato de escolher como se faz papel de homem e como se faz papel de mulher. Assim como as famosas mulheres histéricas de que Freud tratou desejariam ser o homem que lhes faltava, o homem histérico desejaria ser a mulher que lhe falta. A falta, é claro, é simbólica. Devemos saber que a histeria é fruto de um oco, de um vazio que o histérico se esforça por esconder. Daí que ele faça cena para desviar a atenção alheia. No caso de Y, trata-se de um vazio do conhecimento que é também um vazio do poder. É bem óbvio que Y se sinta ofendido com X1, mais jovem que ele e mais bem sucedida… Além de tudo, X1 rompe com a equação mulher + cerveja demonstrando, de modo contundente, como Y não entendeu nada da vida. E ele quer esconder isso tudo.

Há cada vez mais homens do tipo de Y em nossa cultura, desde que as mulheres saíram de casa e foram trabalhar, mostraram sua competência em todos os campos, do trabalho à ciência, e cada vez mais em todas as áreas, da economia à política… Estes homens do tipo de Y representam o novo sexo frágil, mas tentam mostrar forças e, quando percebem que não vão conseguir, caem na mesma histeria que as mulheres de antigamente impedidas de realizar-se em outra esfera que do casamento e da maternidade. O homem histérico do tipo de Y pode torcer para o Timão, ter músculos imensos, pode beber todas, “pegar” todas, mas é sempre o homem-mulherzinha dando provas de sua fragilidade, mostrando que o sistema lógico não é tão lógico, que a harmonia não vale a pena. Um histérico gosta de atrapalhar quando tudo parece estar bem. Problema é que, às vezes, a fraqueza seja uma força e que, no extremo os covardes como são os histéricos, se tornem violentos. Daí que nesses tempos a violência passional de homens contra mulheres cresça tanto. O homem que bate e mata é tão histérico quanto o que tem ataques dentro do laboratório ou em qualquer outro ambiente de trabalho ou de casa.

Desejamos que X continue preocupada com o que acontece em seu laboratório. Desejamos que X1 continue sendo uma pessoa responsável e lúcida e siga com seu trabalho sem se deixar enganar pelos falsos pobrezinhos. Nós a apoiamos na sua conduta moral e ética. E desejamos que Y vá fazer uma terapia para poder ser a mulher que ele, como histérico, deseja ser.

Como sempre digo para minhas amigas, o problema nunca é um homem que quer você, mas um homem que quer “ser” você.

FRANCISCO DAUDT - Natureza Humana: Sexo e Erotismo

Está bem que nosso primeiro e mais basal motor para viver é o impulso sexual (o gene egoísta quer reprodução, por isto nos ilude com a isca dos prazeres), como qualquer outro vivente sexuado. Mas a nossa espécie, em sua complexidade, arrumou sofisticações para a coisa, e a maior delas é o amor.

Os campeões de pensar o amor continuam sendo os gregos clássicos, de 2400 anos. Eles reconheciam três formas distintas de amor: Eros, Filia e Ágape.

Eros fala do desejo se expressando nos sentidos, como excitação, e no cérebro, como embriaguez. No coração e nos genitais, ambos pulsantes, na pele que se arrepia, na visão que se turva, na face que enrubece, no equilíbrio que se perde, na voz que falta, na paixão que arrebata, no animal que irrompe, no ímpeto de tomar, na lassidão de se entregar. A um tempo telúrico e delicado, tectônico e sutil, a mais evidente força da natureza em nós. Ainda estão para inventar prazer maior que o da excitação romântica. Nada se compara à felicidade sexual que faz ver passarinhos verdes, e que só acontece quando a chave e a fechadura certas se encontram, coisa rara. Assim é Eros.

Filia é a amizade, o encontro das almas, o porto seguro, a confiança aliada ao respeito. A consideração (que é ter o outro dentro de si), o bem querer e querer o bem. O lugar da intimidade emprestada com gosto, da compreensão, da compaixão (que é o sofrimento partilhado), do acolhimento da alegria e da tristeza, da saúde e da doença, da riqueza e da pobreza pelos tempos afora. Qualquer semelhança com os votos do casamento é totalmente intencional, pois não há um que perdure sem que a filia tenha crescido entre os dois.

Ágape é a camaradagem, a ligação dos companheiros, seja da boa mesa, seja da torcida pelo esporte. É a liga entre correligionários, do partido ou da religião mesmo, que às vezes se confundem. São os contendores do frescobol, o esporte sem contenda, voltados que estão para construir beleza em suas jogadas, um escada do outro. Os colegas de turma, que almoçam nos aniversários redondos de formatura e se atiram bolinhas de pão. Sócios do mesmo clube, os seguidores do mesmo twitter, do facebook, parceiros do baralho na pracinha. Aqueles que se reúnem para tirar um carro do atoleiro, e depois não se encontram mais. Dão passagem no trânsito, lugar para os mais velhos. Colegas de excursão. Colegas.

Os vários tipos de amor se entrelaçam, ou, pelo menos, não são categorias estanques, e é bom que seja assim. Eros surgindo na Filia, Filia no Eros, Ágape passeando entre eles…

A pornografia é curiosa. Em sua origem significa “registro da prostituição”. É, como a outra, comercializável. E pode, como a outra, ser ou não plena de Eros. Carlos Zéfiro da minha adolescência continha Eros, sedução. Os filmes de hoje, que já começam na aeróbica, têm pouco Eros. Ou o fetiche voyeurista é seu próprio Eros?

Mas meu interesse é perceber como a espécie trouxe complexidade ao comando genético que leva à reprodução, e o leque de possibilidades que nosso desejo contempla.

ALBERTO GOLDIN - A falta que nos move

"Tenho 48 anos, sou divorciada há 11, inteligente, bonita, insegura, não trabalho e vivo em função de duas adolescentes lindas e maduras, que não precisam mais de mim. Queria era um colo e mãe, que perdi cedo, e hoje tenho um pai doente. O ano está terminando e me pergunto por que não fiz nada para mim, enfrentando a vida como uma mulher adulta. Minhas filhas dizem: “Faça algo para você, não tem vontade de trabalhar? Procure suas amigas”. Respondo: “Acham que é fácil arrumar trabalho na minha idade depois de anos parada? O dinheiro não dá, queria que estivessem no meu lugar, é fácil falar!” Não posso mais só ser mãe, mas não consigo mudar. Já passei por dificuldades emocionais e, hoje, financeiras. Será que preciso passar por mais algum obstáculo para mudar?" Angela.

A Falta que nos move

Teve um a noite difícil, agitada, seu repouso foi interrompido por um sonho, ou melhor, um pesadelo que parecia real, Estava numa cama de hospital, imóvel, tentava falar, levantar, mas seu corpo não obedecia, esta paralisada, com os olhos abertos e perfeitamente lúcida. Nessa hora, acordou angustiada, e ao mesmo tempo aliviada, quando comprovou que era apenas um sonho ruim. Não conseguiu continuar dormindo, respirou fundo e sorriu na escuridão, entendendo que a imagem era um recado, uma representação de sua vida atual: é verdade que está lúcida e paralisada, de cama, ou em coma talvez, e angustiada com a situação.

Aproveitou o duro recado do seu inconsciente para justificar sua insônia. Reviu a cena várias vezes e, para ter mais certeza de que não era verdade, alongou seu corpo em extenso movimento, sentiu prazer mexendo braços e pernas. Num salto se colocou de pé e, da janela do seu quarto, viu o amanhecer sobre as copas das árvores, ao tranqüilizador som de uns poucos carros que circulavam pela rua. O sonho denunciava o que já sabia: o desejo de entrar em atividade, produzir, caminhar, correr, estar viva novamente. Os paralíticos, pensou, sonham com o movimento; os presos, com a liberdade; os surdos, com o som; os cegos, com a luz. Ela, na contramão por estar sadia e ser capaz de fazer movimentos, sonhava com a paralisia.

Que cordas imaginárias a amarravam? Demorou um pouco a responder, porém não teve dúvidas, tinha medo de errar, ser ridícula. Preferia a impotência subjetiva e clandestina vergonha pública de ser uma principiante. Ser mar de dois adolescentes a fez acreditar que seria adulta para sempre, e, agora, que os filhos ganhavam cada dia mais independência, ficava sem emprego, nem identidade. A maternidade é, sem dúvida, uma ocupação nobre, difícil e intensa, porém não uma profissão e, além disso, termina quando os filhos crescem.

Amanheceu. Começou outro dia, Ângela está em movimento, mesmo que nada tenha mudado ETA menos ansiosa. Procurou e encontrou a agenda que ganhou no começo do ano e decidiu preencher as folhas em branco, com tarefas. Uma hora diária de caminhada, filmes duas vezes por semana, curso de culinária e línguas pela internet, visita a exposições, pesquisa de cursos profissionalizantes e instituições que oferecem terapias ao seu alcance. Comprovou que programa é organizar o tempo, e o tempo é o único bem que se perde a cada minuto. Ângela está em mudança. Não será uma transformação de vida da noite para o dia. Talvez leve um mês, ou um ano. Precisa entender que, depois de duas décadas de trabalho, os filhos lhe deram aviso prévio, e agora, como os desempregados ou aposentados anda jovens, precisa ser ativa e criativa.

Sentir-se imóvel e paralisada é o melhor incentivo para começar a se mexer. Ângela já começou.

VÍDEO - ENCONTRO ENTRE CASAL 33 ANOS DEPOIS DE SEPARADOS...SEM ELA SABER

Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando todo tipo de performances. Quando sentiram que a relação já não valia aos dois, decidiram percorrer a Grande Muralha da China; cada um começou a caminhar de um lado, para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço um no outro, e nunca mais se ver.

33 anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de Nova Iorque dedicou uma retrospectiva a sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem que ela soubesse e... Foi assim.

CULT VÍDEO - CENAS COM 25 ATORES MUITO FAMOSOS ANTES DA FAMA

Jack Nicholson, John Cusack, Sean Conerry,Harrison Ford, Scarlett Johansson, Sarah Jessica Parker, Angelina Jolie, Ben Stiller, Jim Carrey, Sandra Bullock, Keanu Reeves, Natalie Portman e outros.

HOMENAGEM PARA AS EX – Tatiana Canesso

Resolvi postar essa crônica para mostrar que a gente deve enfrentar tudo na vida, (até as situações mais improváveis), com muito bom humor. E claro, para divertir vocês também!

Acho que quase todo mundo que está lendo este texto é ex-namorada(o) de alguém.

Eu, pelo menos, sou e talvez por um milagre divino nunca tenha tido problema com ex-namorada nenhuma. Umas já eram casadas, outras não moravam no Brasil, já estavam em outra, essas coisas. Nunca tive a louca que liga chorando, que dá barraco em festa, e nem fui esse tipo de ex também.

Agora, pensando bem, eu acho que a gente tem muito que agradecer a todas as ex dos nossos namorados. Eu como ex, por exemplo, alterei guarda-roupas, vocabulários e hábitos alimentares de vários namorados. Introduzi a sunga no vestuário moda-praia já que ninguém é obrigada a ver aquela cueca molhada, enrugada e transparente depois que eles tiram a bermuda. Gente, sunga não serve só pra queimar a coxa branca, ok?

Por que a ex, sim, aquela mesma que você chama de vaca, precisa ser necessariamente uma vaca? Pensa bem, ela, de todas as mulheres do mundo, é a única que vai dizer "É, eu seiiii!!", quando você comentar o tanto que irrita ele mudar de canal freneticamente. Ela é o único ser que vai te confortar, esclarecendo que "no jantar era sempre assim, saía da mesa sem eu ter terminado... uma falta de respeito".

E vai saber de quantas outras coisas ela te poupou, porque, se tem cara que não espera você acabar de jantar, tem cara que não espera você gozar. Foi essa coitada, pode ter certeza, que, depois de horas de DR (discutir relação), mostrou a diferença entre homens e mulheres, e é por isso que, hoje em dia, você dorme relaxada.

Gente, pensa bem: um cara que nunca namorou, quando ele te vê chorando, ele se desespera e não faz nada. Muitas vezes vai embora. O cara que já namorou, quando te vê chorando, tenta um "calma linda" com aquela coçada nas costas, sabe? Agora, um cara que já namorou bastante, morou junto ou foi casado, enquanto ele te abraça forte, ele ainda diz que você está mais magra! Quer dizer... Isso são anos de treino. Isso tudo foi ela, a vaca. É justo mesmo chamá-la de vaca?

Pensa bem na TPM... Um novato não consegue achar plausível você chorar na propaganda do Itaú; o médio experiente não se mete; o que namorou anos já tem a sensibilidade de comentar "Foda essa propaganda, né?", enquanto faz as contas mentalmente de quantos dias faltam pra essa loucura de TPM acabar.

Tudo bem, eu sei que tem ex-doida, maníaca perseguidora, mas, tirando essas aberrações, as ex-namoradas foram fundamentais no processo de amadurecimento do seu atual. A ex do meu namorado proibiu as meias brancas. Vou tirar o mérito? Nunca. É meia colorida, listrada. Arrasou!

Foi por ter sempre sido uma namorada e ex-namorada exemplar que resolvi escrever esse texto. Ex-namoradas, vocês são o máximo. Obrigada.

HELOISA SEIXAS - As amigas

 Eram duas amigas – uma feia, outra bonita. Amigas mesmo, desde pequenas. E também, desde pequenas, com aquelas características: uma feia, a outra bonita. Há uma crença de que nas diferentes idades a beleza se alterna com a feiúra (bebê bonito, criança feia, adulto bonito ou, ao contrário, bebê feio, criança bonita, adulto feio), mas no caso delas isso não aconteceu. Houve uma coerência. A feia foi feia sempre. Muito magra, de cabelos pretos, sobrancelhas grossas demais, quase formando um urubu que lhe sobrevoasse os olhos, nariz grande, boca como um traço. E a outra era o oposto. Sempre bonita, desde bebê. Cabelos castanhos claros, com um toque de cobre que cintilava ao sol. O rosto de um oval perfeito. Olhos quase negros contrastando com uma pele clara, sem qualquer sinal, e lábios grossos e vermelhos que pareciam desenhados com lápis de cor.
Brincavam juntas, desde muito pequenas, pois eram vizinhas. Era interessante vê-las de mãos dadas, correndo pela grama, subindo e descendo dos bancos, com seus vestidos rodados, a menina feia e a menina bonita. Numa, o que primeiro chamavam a atenção eram as sobrancelhas cerradas, que lhe pesavam a fisionomia. Na outra, a leveza dos cabelos avermelhados, flutuando.
O tempo passou. Elas cresceram. Sempre assim, uma feia, a outra bonita. E amigas. Sempre amigas. Presentes em todos os acontecimentos importantes da vida de cada uma. Não posso dizer que foram ao casamento de uma e outra porque uma delas, a bonita, nunca se casou. Mas teve grandes paixões. E um filho. A feia se casou duas vezes e teve três filhos, duas meninas e um menino. E o tempo continuou passando.
Até que um dia – de repente, de uma hora para outra – envelheceram. Parece mentira, mas as pessoas envelhecem assim. Principalmente as mulheres. Um dia, você acorda e vê uma nova marca no seu rosto. Não estava ontem, você tem certeza. Mas hoje está. Com elas, não foi diferente.
Uma tarde, tendo ido ao Centro da cidade para fazer compras, as duas amigas decidiram tomar um chá na Confeitaria Colombo. E foi ali, sentadas diante de um daqueles espelhos centenários, que as duas de repente se olharam e viram que tinham envelhecido. Lá estavam. Duas senhoras. E, incrível, na velhice, tinham ficado parecidas. Continuaram se olhando em silêncio por alguns segundos. “A idade nivela tudo, iguala feias e bonitas”, pensou uma delas. E a outra, como se lesse seus pensamentos, completou:
– A velhice é democrática.

FERNANDA TORRES - Orelha não tem pálpebra

 

Tenho horror a barulho. Só consigo raciocinar com a casa em silêncio. Até a música me incomoda, um traço de personalidade do qual não guardo o menor orgulho.

E não há nada que me enerve mais do que o volume abrupto do horário comercial e das chamadas da programação de TV. Os cling, cong, pãpãpãs e tátátátás. Sou o gatilho mais rápido do oeste para acionar o botão do mute. Sei de cor sua localização nos mais diversos controles remotos e gostaria de dar um prêmio ao gênio que inventou o atalho.
Assim como 80% da audiência nacional, acompanhei de boca aberta a saga de Carminha e cia., haja maldade humana, mas toda vez que o oi, oi, oi, oi… gane, anunciando o intervalo, minha espinha se eriça e o dedo corre para o botãozinho analgésico.
Conjecturei com meu esposo a respeito desse ataque-surpresa ao ouvinte desavisado e ele me explicou que a prática tem um nome: stopping power. Trata-se da capacidade que um reclame, ou inserção que seja, tem de prender a atenção do desatento. O objetivo é evitar que o ser humano vá até a cozinha, ao banheiro, brinque de boneca, leia, converse e se esqueça de olhar a TV.
Consultei o oráculo. A Wikipédia afirma que a origem do termo é bélica. Stopping power “representa o poder que um calibre de arma de fogo possui para pôr fora de combate um oponente atingido com um único disparo, preferencialmente sem necessidade de matá-lo”. Curioso que a expressão tenha sido adotada pelo entretenimento e pela propaganda e que a vítima dos cucunssss, quequéuns, plunct, plact e zooms seja o espectador.
O som é o mais invasivo dos sentidos, orelha não tem pálpebra.
O plim-plim da Globo é agudo e penetra nos tímpanos até as zonas mais primitivas do cerebelo, mas não deixa de soar gentil.
A onda de cinema apocalíptico da virada do milênio, com títulos como Armageddon, Vulcano e 2012, causou a surdez precoce em muita gente. Do meio dessas películas para o fim, as cenas se desdobram em explosões e cataclismos naturais, incêndios e colisões impulsionadas pelo vigor dos decibéis THX. O subwoofer embrulha o estômago, o chão treme, os estalos colam a gente na cadeira e, em vez de encontrar no cinema uma forma de elevação, o prazer vem da força desorientadora que chacoalha a razão.
A maioria dos filmes de hoje se compara mais a uma montanha-russa do que a um livro ou uma peça de teatro. Gosto de 007, Missão Impossível e Duro de Matar, mas desisti dos de guerra, de super-heróis e dos sobre o fim do mundo. Esses só me causam alívio quando terminam. Em alguns casos, apenas o Dramin dá fim à zonzeira. O THX tem muito a ver com isso.
O stopping power é um desafio para a internet. A publicidade estuda formas de impor sua presença na rede, o que é com­preen­sível, mas esbarra no caráter independente do usuário de computador. A solução mais agressiva é a das janelas que tomam a página desejada sem pedir licença. Enquanto o mouse não encontra o minúsculo xizinho para encerrar a tortura, o jingle se alastra pelo ambiente. Confesso que me recordo involuntariamente dos anúncios que me foram impostos dessa maneira; o que não sei é se a deselegância agrega uma boa imagem à marca que se vale de tão baixo artifício.
Os filmetes de internet dirigidos por Polanski e Scorsese para a Prada e para uma marca de espumante espanhol são dois grandes exemplos de como conquistar seguidores e não ser grosseiro. Clássicos, inteligentes, irônicos e bem filmados à beça, eles têm uma estratégia de lançamento requintada e silenciosa. Como uma mulher sedutora, os curtas exigem que a gente os procure, deseje, queira ver, e não o contrário. Não há nada pior do que mulher atirada, barulhenta e espaçosa.

UMA FATIA DE VIDA - Miguel Falabella

Em 1960, exilado no México, o grande diretor de cinema Luis Buñuel recebeu um convite oficial do ministro da Cultura da Espanha, ainda sob o jugo da ditadura de Franco. A esta altura, o mestre já era considerado um dos maiores diretores de cinema do mundo e Franco não via com bons olhos o exílio daquele que era um dos mais talentosos filhos da terra. O convite era mais do que generoso: Buñuel podia regressar para realizar qualquer filme que desejasse, reencontrando suas raízes e o olhar de seu povo. O convite foi aceito (acredito que não sem, antes, profundas reflexões) e Buñuel filmou "Viridiana", uma de suas obras-primas.

O filme, é claro, já tinha sido pensado e era peça importante no processo de busca do artista, que lutava para libertar-se da rígida formação católica que ele abominava. Um violento libelo contra a Igreja Católica que apoiava a ditadura franquista, "Viridiana" ainda hoje é um filme impactante. Buñuel, sabedor de que aquela história não teria um final feliz, escapou para Paris, assim que a última cena foi filmada, levando com ele os negativos e deixando para trás um irado ditador, que demitiu o ministro e tentou impedir a exibição do filme no Festival de Cannes, de onde saiu com a Palma de Ouro. O filme foi proibido na Espanha e o Vaticano o condenou violentamente.


Quase uma década depois do escândalo, uma cópia surgiu no cine Itamar, num daqueles programas duplos que juntavam os gladiadores à nouvelle vague sem nenhum pudor. Como eu vivia naquele cinema e já era um rapazinho, o porteiro fez vista grossa para a censura e foi assim que vi Silvia Pinal dar vida à noviça de Buñuel. 

Há muitos anos não vejo o filme e não sei se continua tão impactante quanto foi na época, mas acredito que sim. "Viridiana" é o sagrado coração exposto em sua crueza. Fiquei anos com imagens do filme na cabeça e Silvia Pinal entrou para a galeria das minhas divas. Agora mesmo, enquanto escrevo a crônica, num fim de tarde incendiado, lembro da sensação que tive ao assisti-lo nas cadeiras do Itamar e o quadro vivo dos mendigos recriando a Santa Ceia ainda está guardado em algum lugar do labirinto.

Um dia, eu morava em Copacabana, e estava olhando a tarde morrendo no mar, quando o telefone tocou. A voz bonita, num espanhol cantado, anunciou-se como Silvia Pinal. Demorei um tempo até entender do que se tratava. Ela tinha ouvido falar do sucesso de "A Partilha" em Buenos Aires e queria detalhes sobre a obra. Ficou um pouco desanimada quando soube que não havia exatamente uma protagonista, já que a peça falava de quatro irmãs que dividiam seu passado e a herança da mãe falecida. Não foi uma conversa longa. 

Eu não consegui lhe dizer que sua Viridiana andava comigo, nas noites em que eu não conseguia dormir. Não disse que seu rosto estava no panteão das deusas que eu vi menino na tela prateada. Foi uma conversa formal e objetiva. Ela disse que ia ler, eu me despedi.

Ainda fiquei um tempo com o telefone nas mãos, lembrando do saguão do velho cinema e de minha avó, que nos levantava pela cintura, para beijar os pés do senhor morto. Quando voltei a olhar o mar, a noite já o tinha engolido. Isso foi tudo.
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LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO – Pênis: Estragos e Soluções

Não se sabe qual é a, digamos, inclinação política do pênis. 
Ele é anatomicamente de centro, como todos os políticos na Itália, que se identificam como de “centrosinistra” ou de “centrodestra”, nunca de sinistra ou de destra. O pênis é centrão assumido, mas de que tendência ninguém sabe. Ele ora pende para um lado, ora para outro. Além de ser obviamente um falocrata, que se pudesse falar definiria sua posição como “sou mais eu”, sua ideologia é desconhecida. Raramente é a do seu portador, em relação ao qual mantém uma evidente independência de pensamento e ação.  Há esquerdistas com pênis fascistas, conservadores com pênis sempre atrás de novas experiências sociais, liberais com pênis decididamente intervencionistas.  O pênis é, por assim dizer, um livre atirador. Pênis não tem dono. Ou, dito de outra maneira, não costuma levar em consideração a conveniência dos seus donos. E como a comunicação entre o homem e o seu pênis é precária, o pênis não ouve apelos à razão e não adianta pedir para ele ter uma consciência histórica, o resultado é o estrago que vem causando a carreiras e reputações através dos tempos. Sem querer nem saber.

Veja-se o caso recente do Strauss-Kahn e do seu pênis predador. Deve ter havido uma tentativa de diálogo entre Strauss-Kahn e seu pênis antes do ataque à camareira do hotel. Não é impossível que o ex-provável candidato a presidente do seu país tenha até invocado o futuro da Europa e do mundo para tentar deter o pênis. “Arretez pour la France!”. O pênis não teria dado ouvidos. Espera um pouquinho, esqueça esta frase. O pênis não teria ligado. E fora adiante, sem nenhum prurido patriótico. E SK está politicamente liquidado. Mais uma vítima do próprio pênis.

O que fazer para que coisas assim não se repitam? A primeira solução é radical: a castração como condição para o serviço público masculino e carreiras políticas. Para o pênis aprender. A segunda solução seria a gradual substituição de homens por mulheres no poder, em todo o mundo. Uma solução que já está em curso. Os homens manteriam seu pênis mas sem a possibilidade de causar mais estragos. E pronto.

RUBEM ALVES - As estrelas brilham, os homens sofrem

Retornamos às eternas estrelas do céu e aos efêmeros jardins da terra... Os que olham para as estrelas dizem possuir a verdade. Mas os que olham para os jardins sabem que tudo o que sabem é provisório.

Os olhos da Igreja Católica não vêem jardins; só vêem as estrelas. E é do seu olhar para as estrelas imóveis que ela deseja governar a Terra. Já os jardineiros sabem que há muitos jardins diferentes, nenhum deles é verdadeiro, mas todos são belos...

Todos os que pretendem possuir a verdade estão condenados a serem inquisidores. Para explicar esse ponto vou transcrever um pequeno trecho do filósofo polonês Leszek Kolakowski que tem o título "Em louvor à inconsistência".

"Falo de consistência em apenas um sentido, limitado à correspondência entre o comportamento e o pensamento. Assim, considero como consistente um homem que, possuindo um certo número de conceitos gerais e absolutos, esforça-se honestamente em tudo o que faz, em todas as suas opiniões sobre o que deve ser feito, para manter-se na maior concordância possível com aqueles conceitos. Por que deveria qualquer pessoa, inflexivelmente convencida da verdade exclusiva dos seus conceitos relativos a qualquer e a todas as questões, estar pronta a tolerar idéias opostas? Que bem pode ela esperar de uma situação em que cada um é livre para expressar opiniões que, segundo seu julgamento, são patentemente falsas e portanto prejudiciais à sociedade? Por que direito deveria ela abster-se de usar quaisquer meios para atingir o alvo que julga correto? Em outras palavras: consistência total equivale, na prática, ao fanatismo, enquanto a inconsistência é a fonte da tolerância..."

O SS Bento 16 acredita que Deus revelou à Igreja Católica e somente a ela a verdade total das estrelas. Segue-se, por necessidade lógica, que todos os homens, indivíduos ou igrejas, que têm idéias diferentes das suas, estão privados da verdade. O que torna sem sentido os esforços ecumênicos de aproximação entre as igrejas. O ecumenismo é baseado na crença de que Deus, jardineiro supremo, planta muitos jardins diferentes... Mas quem só olha para as estrelas não pode se deleitar na variedade dos jardins. A Igreja Católica, mãe e mestra de todos, nada tem a aprender.

Segue-se a conclusão ética: compete aos homens encarnar na Terra a verdade eterna das estrelas. Aquilo que deve ser feito é decidido não pela análise da situação qual o comportamento que traria o bem maior ao maior número de pessoas, mas pela imitação da perfeição divina.

A Igreja tem horror à experiência. Experiência é conhecimento que cresce da terra como as plantas. E ela contesta a verdade das estrelas. Roger Bacon, precursor da ciência moderna, por haver afirmado que o conhecimento vem pela experiência, amargou 15 anos na prisão. E a luneta de Galileu quase o levou à fogueira...

Assim, as difíceis questões que a experiência moderna coloca, a AIDS, a camisinha, o aborto, o divórcio, a inseminação artificial, o uso de células-tronco, a ortotanasia, são como se não existissem. Indiferentes ao sofrimento dos homens, as estrelas decretam: é pecado abortar um feto sem cérebro, a despeito da inutilidade da gravidez e do sofrimento dos pais... 

MOACYR SCLIAR - As palavras e o Silêncio

Os últimos diálogos:
18:48:34 Co-piloto: "Desacelera, desacelera!"
18:48:40 Piloto: "Não dá, não dá... Ai, meu Deus!"

Desde criança tinha um sonho: queria ser escritor, autor de livros como aqueles que lia (lia, não: devorava) na escola: as obras de josé de alencar, de machado de assis, de graciliano ramos. Muito cedo começou a rabiscar historinhas que mostrava com orgulho para os professores e para os pais. Todos o encorajavam, diziam que deveria prosseguir, que tinha muito talento. Mas disso ele próprio duvidava. A verdade é que se sentia muito distante dos grandes mestres.

Não tinha fôlego, parecia-lhe, para escrever uma obra como as de Shakespeare, autor que admirava, embora nem sempre o entendesse. Uma constatação que o deixava deprimido. E mais deprimido ficou quando, a conselho dos pais e dos amigos, começou a estudar letras.

Quanto mais autores famosos conhecia, mais se envergonhava de seu próprio trabalho, coisa de simplório amador. Os seus diálogos, por exemplo, eram fracos, banais, nada que chegasse aos pés dos diálogos escritos por Shakespeare, diálogos que traduziam todos os dramas que as pessoas podem viver.

Um dia, e de repente, ocorreu-lhe uma resposta. Um grande tema, era isso o que lhe faltava. Um tema que pudesse ser expresso através de diálogos fortes, transcendentes. Mas que tema poderia ser esse? Na sua própria vida nada acontecia que o motivasse. Era uma vida tranqüila, sem grandes problemas.
Os pais, ele, advogado, ela, médica, não eram ricos, mas podiam sustentá-lo confortavelmente. Moravam numa boa casa, onde ele tinha seu quarto, sua tevê, seu computador.

Nunca passara fome, nem ele nem a irmã mais velha, que aliás era a companheira, a confidente com quem podia contar sempre. Nunca tivera doenças graves, era um jovem atlético (jogava basquete), simpático. Namoradas estavam ao seu alcance à hora que quisesse.

Grandes escritores muitas vezes são pessoas atormentadas, angustiadas. Não era seu caso. E por essa razão, era o que achava, não tinha sobre o que escrever. Faltava-lhe uma tragédia. Então ocorreu o acidente aéreo.

Medonha catástrofe, dezenas de vítimas. Olhando a tevê, ele, como tantos outros, chorou de emoção. Ocorreu-lhe escrever uma história a respeito. Uma história que retratasse a agonia humana numa tragédia como aquela e que a expressasse por meio de diálogos: entre os passageiros, entre os pilotos.
Sem demora, sentou-se ao computador. Mas aí viu, sobre a mesa, o jornal daquele dia, com a transcrição dos últimos diálogos gravados na caixa preta. 

Ele os leu, ou melhor, releu. Eram palavras simples aquelas, palavras que poderiam fazer parte do cotidiano de qualquer pessoa, mesmo que essa pessoa não escrevesse: ""Desacelera, desacelera!", "Não dá, não dá... Ai, meu Deus!"
Desligou o computador. Nada mais havia a ser dito ou escrito. Nesse momento ocorreram-lhe as palavras daquele distante autor inglês, Shakespeare: o resto é silêncio.

CLARICE LISPECTOR - Atenção ao Sábado

Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.

No sábado é que as formigas subiam pela pedra.

Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho.

De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.

Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?

No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde.

Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.

Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã.

Domingo de manhã também é a rosa da semana.

Não é propriamente rosa que eu quero dizer.

DANUZA LEÃO – Sabedoria e Indiferença

Se alguém perguntar se sua vida foi, até agora, um sucesso ou um fracasso, o que você vai responder? Detalhe: dinheiro não tem nada a ver, ser famosa e ter aparecido em capas de revista também não. Então o que é ter tido uma vida de sucesso? Bem, depende de cada um.
Todos nós já ouvimos, da boca de uma mulher modesta, a frase "criei meus filhos, estão todos encaminhados, posso me considerar realizada". E quem nunca ouviu, de pessoas que aparentemente têm tudo - por tudo entenda-se família, saúde, dinheiro, amor, mesmo que não seja verdadeiro, e não necessariamente nessa ordem -, mas vivem eternamente infelizes, tentando, inutilmente, entender o significado da vida?
Temos todos - quase todos - excelentes razões para achar que nossa vida foi gloriosa ou um vale de lágrimas. Você, por exemplo, já deve ter passado por ótimos e por péssimos momentos; quais ficaram na sua cabeça, ou melhor, no seu coração? Os melhores ou os piores?
É difícil fazer essa avaliação; às vezes a gente se acha uma pessoa privilegiada, outras vezes uma pobre coitada. Depende de quais valores naquele momento são os seus, pois dependendo da hora, eles também mudam.
Houve um tempo em que seus sonhos se resumiam a passar a vida viajando pelo mundo, num turbilhão que não deixasse tempo nem para pensar; isso sim, seria a felicidade -só que não foi.
Depois houve um outro momento em que tudo que quis foi encontrar um bom marido, mesmo meio sem graça, mas que tivesse hora certa de chegar em casa, e um bando de crianças em volta perturbando bastante o seu juízo para não ter tempo de pensar se era feliz ou infeliz. Isso sim, seria a felicidade - só que também não foi.
Aí achou que o importante seria a realização pessoal, independente da vida sentimental - ou melhor, de um homem. Isso sim, seria a verdadeira felicidade. Também não foi, mas conseguiu o que parecia impossível: viver sem ter que estar permanentemente apaixonada, ou melhor, sem inventar que estava apaixonada.
Hoje, se alguém perguntar se sua vida foi -até agora- um sucesso ou um fracasso, continuaria sem saber responder.
Foram muitos os bons momentos e tão felizes, tão inesquecíveis, que prefere até esquecer, pra não lembrar. Quanto aos maus momentos, foram também tantos, que faz tudo para esquecer, não lembrar, e às vezes até consegue.
Se houvesse uma maneira de apagar tudo, passar uma borracha, não lembrar nem do bom nem do ruim, zerar - é, zerar tudo, como seria bom.
Agora, pelo menos, já sabe; às vezes acorda feliz, sem nem saber por que, sai de casa, na primeira esquina tropeça e fica no pior humor da vida. Já no dia seguinte acorda péssima, o telefone toca, é alguém de quem você gosta, fala de maneira carinhosa, e a vida se torna, de repente, deliciosa de ser vivida. É essa certeza de que tudo pode mudar em minutos, segundos, que nos ajuda a segurar, quando tudo fica difícil.
Quando as coisas estiverem indo mal, pense em quantas outras vezes elas estiveram tão mal quanto, às vezes até pior -e depois passou. Não se queixe, não reclame, não chore, não se descabele, apenas espere; apenas espere, com aquela quase resignação que parece até indiferença, que vê tantas vezes nos olhos dos mais velhos, que sabem que vai passar - porque sempre passa.
A essa indiferença se pode chamar sabedoria ou experiência - o que, no final, é mais ou menos a mesma coisa.

ENTREVISTA COM FLÁVIO GIKOVATE - "O cotidiano hoje é marcado por egoísmo, vaidade e compras.”



O psiquiatra comenta dilemas atuais, 
como consumismo, redes sociais, família e trabalho.

Por que as pessoas têm hoje tanta necessidade de ser vistas e de comprar coisas?
Esse é um dos graves reflexos da revolução sexual. Achávamos que a liberação desarmaria os seres humanos, traria democracia, já que todo mundo transaria com todo mundo. Mas virou uma corrida para chamar a atenção do outro. Cresceu a busca pela aparência física, que é amiga íntima do consumismo. Os hippies só queriam amor, sexo, paz e aconchego. Nada parecido com autoerotismo e exibição no Facebook.

E o Facebook atiça a inveja?
E mexe com a frustração. Estar ali é como ser dono de uma revista de celebridade que publica as próprias notícias. Você vai à praia e põe lá. Compra e posta. Quem não foi e não tem baba. Olhar a vida alheia gera tensão. Não traz felicidade.

Como está a família?
Há muito egoísmo. Gosta-se dela desde que se possa receber mais do que dar. As alianças são feitas entre o generoso e o egoísta. Mas quem só dá anda cansado desse papel. O desafio é equilibrar, alternar.

Por que trabalhamos tanto?
A vida está mais longa, precisamos de mais dinheiro para custeá-la. Além disso, profissão virou identidade. Você conhece alguém e já quer saber o que ele faz. Nem pergunta se ele ama, se tem filhos, um lazer... O que é ruim. O Renato diz que não haverá emprego para todos e que trabalharemos três dias por semana para sobrar vaga para os outros. E, na folga, cultuaremos o prazer.

Mulheres se queixam de assumir tudo em casa. É irreversível?
Elas não voltarão a lidar só com a casa e continuarão crescendo na carreira. O homem, cada vez mais folgado, mudará. Ele se acomoda pelas facilidades eróticas. Não precisa mais fazer força para ter sexo: chega e leva. O momento é de encrenca geral. Mas minha futurologia é otimista. Estamos em transição: o homem crescerá, se envolverá com casa, filho... Será bom para todos.
Entrevista para Revista CLAUDIA

TRANCOS E BARRANCOS - Denis Russo Burgierman

Nós humanos gostamos de imaginar a História como uma linha reta, que se desenrola sempre para frente, sempre avançando. Mas não é assim que funciona. A História é mais como um bêbado, tentando caminhar enquanto esbarra na parede, tropeça na sombra e, de quando em quando, leva um tombo.

Isso fica especialmente dramático em tempos como os nossos, em que o mundo está mudando profundamente, em que estamos deixando uma era histórica para trás e adentrando outra, sem saber ao certo como será. Não sei se você sente o mesmo, mas eu, nestes tempos de hoje, alterno dias de tremendo otimismo, quando tudo parece possível, com outros de profundo pessimismo, nos quais tudo parece prestes a desabar.

Ontem de manhã, por exemplo, eu estava deprimido dentro do avião, enquanto lia sobre Aaron Swartz, o gênio da internet, empreendedor e ativista, inventor do RSS, fundador do Reddit, um dos líderes do movimento Creative Commons.
Aaron Swartz
 
Swartz era um idealista. Acreditava que, como a pesquisa científica é quase toda feita com dinheiro público, o público tem direito de acessá-la. Por isso, invadiu um grande arquivo de trabalhos acadêmicos, que só pode ser consultado com o pagamento de assinaturas caríssimas, e liberou o seu conteúdo para quem quisesse. Começou aí o inferno em sua vida. Aaron passou a ser perseguido pela polícia, foi acusado de roubo e corria o risco de uma condenação absurda, de até 35 anos. Este mês, acuado, paranóico e depressivo, o gênio Aaron deu fim ao sofrimento. Suicidou-se aos 26 anos.

Aí meu avião chegou a Bogotá. Peguei minha bicicletinha dobrável na esteira, montei-a sob o olhar surpreso de um segurança e saí do aeroporto montado nela. Pedalei 1 quilômetro e cheguei à Ciclovia, a imensa rede de rotas cicloviárias que todo domingo transforma a capital colombiana numa festa, cheia de crianças na rua. Pedalei uns 20 quilômetros, do aeroporto ao meu hotel, sem levar sequer um susto de um motorista, tal a paz que reina no trânsito da cidade.

Na década retrasada, Bogotá era uma das cidades mais perigosas do mundo. A vida por aqui não valia nada. Naquele tempo, o traficante Pablo Escobar aterrorizava o país. Ele havia matado a tiros o candidato favorito à presidência e depois derrubou um avião para tentar assassinar o homem que assumiu o cargo. Em resposta, forças paramilitares mergulharam o país num banho de sangue até matar Escobar.

No início do século 21, Bogotá deu a sorte de topar com uma série de prefeitos corajosos que lideraram o renascimento da cidade. Em vez de se fechar em muros e se armar, a capital deu um basta no medo e tomou as ruas. A cidade se encheu de ciclovias, virou referência de transformação urbana e hoje é um lugar onde é possível chegar de avião, pegar a bicicleta na esteira e ir pedalando até o centro, sem levar susto nenhum.

Estou aqui para participar de um encontro hoje sobre a liderança latino-americana na mudança da política global de drogas. O governo conservador colombiano, cansado de décadas de banho de sangue, está liderando o mundo na crítica à falida guerra às drogas, e exigindo transformações profundas, inclusive a legalização de algumas drogas, para reduzir o poder do tráfico.

Amanhã pretendo ir falar com dois jovens políticos liberais: Juan Manuel Galán e Carlos Fernando Galán. Os dois são irmãos. O pai deles, Luis Carlos Galán, um dos políticos mais populares da história da Colômbia, foi justamente o candidato à presidência que Pablo Escobar matou. Juan Manuel e Carlos Fernando eram crianças, se encheram de ódio e tristeza, prometeram vingança.

Hoje eles estão bem mais tranquilos. Recentemente se encontraram com Sebastián Marroquin, filho de Escobar, que queria pedir desculpas. Eles aceitaram. Os Galán são vistos como fortes presidenciáveis num futuro próximo. Ambos afirmam que querem acabar com a guerra que matou seu pai, para que não haja mais Escobares no futuro. Ambos são favoráveis à legalização de algumas drogas.

E assim a História vai seguindo, aos trancos e barrancos como um bêbado. O velho mundo dos estados e corporações gigantescos segue infernizando nossa vida e tomando a de heróis como Swartz. Mas o mundo novo chega. Pode demorar, mas chega.

NOSSO CÉREBRO TEM UM BUG - Denis Russo Burgierman

Nosso cérebro é uma máquina de processamento espetacular, capaz de coisas incríveis, de deixar no chinelo este computador no qual eu estou batucando. Mas nem por isso ele está livre de alguns bugs. Na realidade, o cérebro humano tem algumas deficiências cognitivas crônicas. Ele é fantástico, mas tem algumas coisas que ele erra quase sempre.

É esse a tese central do excelente livro Rápido e Devagar: Duas formas de pensar, do israelense Daniel Kahneman, um estudioso das finanças e do comportamento humano que ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2002. Um dos bugs do cérebro é mania de confundir “familiar” com “certo”. Quando nosso cérebro se depara com algo que evoca uma lembrança do passado, ele tende a acreditar que essa coisa está correta. Da mesma maneira, sempre que encontramos algo novo, tendemos a desconfiar.

Kahneman acredita que essa estratégia da mente provavelmente foi muito útil para os nossos ancestrais. No mundo selvagem, fazia todo sentido se precaver contra novidades. A cada vez que eles davam de cara com uma fruta que nunca tinham visto antes, um animal desconhecido, uma paisagem estranha, suas mentes se alarmavam e avisavam que a situação era de perigo. Mas, se o perigo não se confirmasse, a memória desse primeiro encontro fazia com que a novidade ficasse familiar. Aí, na próxima vez que aparecesse aquela fruta, aquele animal, aquela paisagem, o cérebro avisaria: “fique tranquilo, está tudo bem”.

Isso fazia sentido naquele ambiente mais ou menos estável da pré-história, mas, no mundo de hoje, em que nosso modelo de civilização precisa urgentemente mudar de direção, esse bug da mente custa caro. Por mais que a razão nos diga que precisamos mudar hábitos, nosso cérebro olha para os problemas e pensa “fique tranquilo, está tudo bem”.

É por isso que, por mais que esteja claro que os políticos tradicionais, com seus ternos bem alinhados e seu discurso escorregadio, deixaram há muito tempo de nos representar, a maioria de nós continua caindo nos mesmos truques eleitoreiros e votando no mesmo tipo de gente.

É por isso também que tendemos a achar normal coisas que não têm nada de normal. Por exemplo, as ruas das cidades estão tão entupidas de carros que hoje a velocidade média de cada veículo é bem mais baixa do que no tempo das carroças. Ou seja, gastamos uma baba de dinheiro e recursos naturais em troca de nenhum ganho de mobilidade, e ainda por cima causamos danos seríssimos ao clima e à saúde – perdemos em todos os aspectos. Mas carros são familiares – e portanto parecem certos. A maioria das pessoas continua achando perfeitamente normal gastar uma fortuna para comprar uma dessas máquinas de se locomover que não se locomovem.

Da mesma forma, nos acostumamos com o fato de que nossas cidades viraram presídios. Vivemos cercados de trancas, câmeras, holofotes, gastamos uma fortuna em equipamentos de segurança e, como resultado, as ruas ficam desertas. Ironicamente, a falta de gente acaba tornando as cidades mais perigosas, porque nada é mais seguro do que uma calçada cheia de gente. Embora essa decisão não faça sentido, continuamos erguendo mais muros e instalando mais câmeras. Afinal, é assim a cidade com a qual nos acostumamos – e, se é familiar, deve estar certo.

A construção do mundo novo depende de corrigirmos esse bug cerebral. Kahneman ensina que o melhor jeito de fazer isso é usar a mente racional. A cada vez que algo parecer familiar e sua mente “rápida” nos disser que aquilo está certo, é nossa obrigação parar para pensar. Assim ligamos a mente “devagar”, essa sim capaz de tomar decisões sem bug algum. É hora de se perguntar: “será que isso está certo?” Ou será que só parece certo?

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NEUROCIÊNCIA SUPEROU A PSICANÁLIE - Ivan Izquierdo

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A psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência...