VÍDEO - CRIANÇA CONTRA A MORTE DE ANIMAIS EMOCIONA A MÃE...

O choque de uma criança, quase um Bebê, 
diante da descoberta de que matamos animais para comê-los.
Independente da crença nutricional de cada um, 
esta é uma emocionante e espontânea manifestação de 
amor à toda forma de vida .

VEJA ATÉ O FINAL.
A EMOÇÃO DA MÃE É TOCANTE.


PAULO MENDES CAMPOS - Cana Amarga

Um dia, o engenheiro Salgado estava aqui no Rio, por acaso diante de um colégio na hora da saída, quando uma irmã de caridade, fungando desconfiança, perguntou-lhe:

— O senhor está esperando criança?

— Não, senhora, sou gordo assim mesmo; distúrbio glandular, dizem os médicos.

Mas o diálogo insustentável de sua vida nada teve a ver com o seu corpo enorme. Foi em uma estrada de rodagem no interior de Pernambuco. O caminho se adentrava em um canavial, e Salgado, menino de engenho no Ceará, sentiu vontade de chupar cana, parou o carro, afastou os arames da cerca. Cortar cana, enramá-la num feixe é coisa que todo bom nordestino faz em um átimo. Com o molho às costas, preparava-se de novo para sair, quando ouviu uma voz cantada à maneira da terra e de frieza metálica:

— Moço.

Entre os pés de uma touceira, espingarda na mão, estava um caboclo de olhar tão impessoal e gelado quanto a voz que o chamara.

— Às suas ordens, conterrâneo.

— Que está fazendo aqui, moço?

— Ia passando de automóvel...

— Passando por onde, moço?

— Aí pela estrada.

— E o que está fazendo então aqui dentro, moço?

— O senhor queira me desculpar...

— Desculpar o que, moço?

— Eu ter entrado e apanhado um pouco de cana.

— A cana era sua, moço?

— Mas o senhor vai compreender...

— Compreender o que, moço?

— Estou indo pra casa de um irmão e meus sobrinhos gostam muito de cana.

— Cana dos outros, moço?

— Um pouquinho de cana de nada...

— Como é que vai entrando em terra dos outros pra roubar cana, moço?

— Bem, eu não queria roubar.

— Queria roubar, sim, moço.

— Ia procurar alguém e pagar.

— Mentira, moço.

— Pois então eu pago agora.

— Pagar o que, moço?

— A cana. Quanto é?

— Quanto é o que, moço?

— A cana.

— Quem está vendendo cana, moço?

— Ora, meu irmão, escute uma coisa: essa conversa está ficando aborrecida, já não sou mais criança, vou dar o fora. Pode ficar com a cana.

— Espere aí, moço.

— Diga logo.

— Leve a cana, moço.

— Não quero cana.

— Leve a cana, moço.

— Só pagando.

— Não estou vendendo; leve a cana, moço.

— Então, muito obrigado, desculpe o mau jeito.

— Não há de que, moço.

RUBEM BRAGA - O Desaparecido

Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico.

Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.



Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

NELSON RODRIGUES - Frases

- O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: — o da imaturidade.

- Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém.

- Nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de "ilustre", de "insigne", de "formidável", qualquer borra-botas.

- A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem.

- O brasileiro não está preparado para ser "o maior do mundo" em coisa nenhuma. Ser "o maior do mundo" em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade.

- Há na aeromoça a nostalgia de quem vai morrer cedo. Reparem como vê as coisas com a doçura de um último olhar.

- Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.

- O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas.

- Assim como há uma rua Voluntários da Pátria, podia haver uma outra que se chamasse, inversamente, rua Traidores da Pátria.

- Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza.

- O boteco é ressoante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele.

- A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades.

- Outro dia ouvi um pai dizer, radiante: — "Eu vi pílulas anticoncepcionais na bolsa da minha filha de doze anos!". Estava satisfeito, com o olho rútilo. Veja você que paspalhão!

- Em nosso século, o "grande homem" pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta.

- O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.

- Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão da alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma.

- Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.

- Chegou às redações a notícia da minha morte. E os bons colegas trataram de fazer a notícia. Se é verdade o que de mim disseram os necrológios, com a generosa abundância de todos os necrológios, sou de fato um bom sujeito.

FERNANDA TORRES – Hugo e o papa

Tenho horror a ver filmes baseados em obras da literatura antes de ler o original. É como se me roubassem o delírio. Resisti cinco minutos na plateia de Anna Karenina, desastrosa versão bufa do romance de Tolstoi para o cinema. Tapei os olhos, se pudesse teria tapado os ouvidos, para evitar que o semblante do elenco se grudasse ao dos personagens.

Os poucos trechos que vi das chamadas do Oscar de Os Miseráveis já foram suficientes para deixar a marca. O tijolo me olhava havia meses da cabeceira da cama, Andréa Beltrão me atiçava a ler, mas a mídia maciça do musical acelerou o ímpeto de encarar as mil e tantas páginas antes que fosse tarde demais. Mesmo sem ter ido ao cinema, na minha imaginação Javert insiste em ser Russell Crowe e Valjean desfila ares de Wolverine.

Mas Victor Hugo é Victor Hugo, é maior que tudo. É Janete Clair e tratado socialista, é melodrama e narrativa histórica. Victor Hugo salvou a Notre Dame da ruína com o Corcunda, atraindo fundos para a recuperação do monumento. Na porta lateral esquerda da catedral, um corcundinha de pedra adorna a fachada em agradecimento.

Victor Hugo é a França e a humanidade. É o povo. De vez em quando acontece de um extraordinário talento explicar não só o seu tempo, mas o porvir.

Impossível, depois de conhecer Cosette, olhar para uma criança de rua e não sentir repulsa pela própria indiferença, a mesma dos burgueses de Montfermeil, que fazem vista grossa para a escravinha dos Thénardier.

Na abertura do conclave que escolheria o novo papa, acompanhei na TV as imagens ao vivo do Vaticano, enquanto lia a descrição de Victor Hugo do convento de Petit-Picpus, onde Valjean se esconde do oficial Javert.

O autor dedica um longo capítulo à condenação do claustro. Faz duras críticas à austeridade monástica e à adoração da morte: “O regime monacal, bom no começo da civilização, útil para a redução da brutalidade, é pernicioso à virilidade dos povos. [...] Os mosteiros, bons no século II, discutíveis no século XV, são detestáveis no século XIX”.

Eu, ali, admirando a Cúria em pleno século XXI, olhando com desconfiança a inexistência das mulheres e o celibato dos eclesiásticos, ciente dos últimos escândalos, me encontrei na repulsa de Victor Hugo.

Mas, depois de afirmar que “a tomada de hábito é um suicídio recompensado com a eternidade”, de cobrir o leitor de razões para renegar “uma filosofia que resume tudo no monossílabo não”, no apagar do sétimo livro de Cosette, o autor lança mão de um pequeno capítulo intitulado “Fé e lei”, no qual diz:

“Censuramos a Igreja quando saturada de intrigas, desprezamos o espiritual que não poupa o temporal, mas honramos sempre o homem que pensa.

Saudamos quem se ajoelha. Uma vez ao menos isso é indispensável ao homem. Desgraçado de quem não crê em nada”.

Para fechar, Hugo enaltece a fé.

Dois dias depois, meu orgulho patriótico sofreria o baque com a notícia de que o papa era argentino. E olha que eu adoro a Argentina. A vaidade besta desapareceu quando fui apresentada a Francisco.

Bento XVI era sinistro até quando sorria, faltava nele o carisma. Francisco o tem de sobra. Passei a admirar Bento XVI depois da renúncia. Não havia por que repetir o papel de santo mártir que João Paulo II encarnou como ninguém. A abdicação de Bento XVI faz da exceção a regra. Os futuros papas, uma vez privados de sua força física, se sentirão no direito e, até, no dever de se aposentar.

Francisco tem bochechas grandes, um sorriso relaxado, quebra protocolos e anda de van. Escolheu Francisco de Assis como guia depois que o cardeal brasileiro Claudio Hummes o aconselhou a não esquecer os pobres. O calor humano da figura de Francisco produziu, em mim, o mesmo efeito do capítulo VIII de Cosette, o de reconciliação.

A presença de João Paulo II nas canecas, chaveiros e retratos das vitrines das lojas de suvenir do entorno do Vaticano é esmagadora. Tenho certeza de que Francisco, já, já, vai dominar o comércio local.

E termino agradecendo a Nossa Senhora Cármen Lúcia a graça concedida ao Espírito Santo e ao Rio de Janeiro na questão dos royalties do petróleo.
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ANGELINA JOLIE – Porque retirei meus seios

Minha mãe lutou contra o câncer de mama por quase uma década e morreu aos 56 anos. Ela estendeu ao máximo seu tempo e viveu o suficiente para conhecer e segurar em seus braços apenas o primeiro de seus netos. 
Mas meus outros filhos nunca vão ter a chance de conhecê-la e sentir como ela era amorosa e graciosa. Falamos muitas vezes da 'mamãe da mamãe', e encontro-me tentando explicar a doença que a levou para longe de nós. Eles perguntaram se o mesmo poderia acontecer comigo. Eu sempre lhes disse para não se preocupar, mas a verdade é que eu carrego um gene 'defeituoso', BRCA1, que aumenta drasticamente o meu risco de desenvolver câncer de mama e câncer de ovário.

Meus médicos estimaram que eu tinha um risco de 87 por cento de desenvolver um câncer da mama e um risco de 50 por cento de ter câncer no ovário, embora o risco seja diferente no caso de cada mulher. Apenas uma fração dos casos de câncer de mama é resultado de uma mutação genética herdada. Aquelas com um defeito no gene BRCA1 têm um risco de 65 por cento de te-lo, em média. Uma vez que eu sabia que esta era a minha realidade, decidi ser proativa para minimizar o risco tanto quanto eu pudesse.

Tomei a decisão de fazer uma dupla mastectomia preventiva. Comecei com os seios, já que o meu risco de câncer de mama é maior do que o meu risco de câncer de ovário e a cirurgia é mais complexa. Em 27 de abril, terminei os três meses de procedimentos médicos relativos às mastectomias. Durante esse tempo, fui capaz de manter tudo em caráter privado e continuei com o meu trabalho. Mas, estou escrevendo sobre isso agora porque espero que outras mulheres possam se beneficiar da minha experiência.

Câncer ainda é uma palavra que provoca medo nos corações das pessoas, produzindo um profundo sentimento de impotência. Mas, hoje é possível descobrir, por meio de um exame de sangue, se você é suscetível ao câncer de mama e ovário e lhe dar tempo para agir. Meu processo começou em 02 de fevereiro com um procedimento para excluir a possibilidade de já estar com a doença nos ductos mamários, atrás do mamilo. Isso traz um pouco de dor e um monte de hematomas, mas aumenta muito a chance de descobrir a tempo e se salvar. Duas semanas depois, fiz a cirurgia de grande porte, onde o tecido mamário foi totalmente removido e expansores temporários foram colocados. A operação demorou oito horas.

Você acorda com drenos e expansores em seus seios. Parece uma cena de um filme de ficção científica. Mas, dias após a cirurgia você já pode estar de volta a uma vida normal. Nove semanas depois ,a operação final foi completada com a reconstrução dos seios, com um implante definitivo. Houve muitos avanços neste processo nos últimos anos e os resultados podem ser muito bons. 

Estou escrevendo isso para dizer a todas as mulheres que a decisão de fazer uma mastectomia não foi fácil. Mas, estou muito feliz por ter feito. Minha chance de desenvolver câncer de mama caiu de 87 por cento para menos de 5 por cento. Posso dizer a meus filhos que eles não precisam mais temer, não vão me perder para um câncer de mama. Isso é reconfortante. Eles podem ver as minhas pequenas cicatrizes, e isso é tudo que ficará. Todo o resto é apenas a mamãe, a mesma que ela sempre foi. E eles sabem que eu os amo e farei qualquer coisa para estar com eles, enquanto eu puder.

Eu não me sinto menos mulher. Me sinto segura de ter feito uma escolha radical, mas que não diminui, em nada, a minha feminilidade. Tenho a sorte de ter um parceiro, Brad Pitt, que é muito amoroso e solidário. Então, para quem tem uma esposa ou namorada passando por isso, saiba que você é uma parte muito importante do processo de transição. Brad estava no Pink Lotus Breast Center, onde fui tratada, em cada minuto das cirurgias. E conseguimos até encontrar momentos para rir juntos. Sabíamos que essa era a coisa certa a fazer para a nossa família e que iria nos aproximar ainda mais. E aproximou.

Para qualquer mulher lendo isso, espero que ajude você a saber que tem opções. Eu quero encorajar toda mulher, especialmente se você tem um histórico familiar de câncer de mama ou de ovário, a procurar os médicos especialistas que podem ajudá-la a fazer suas próprias escolhas. 
Reconheço que há muitos médicos holísticos maravilhosos que trabalham com métodos alternativos tentando evitar a cirurgia.Eu não quis arriscar.

Meu prontuário será publicado, oportunamente, no site do Pink Lotus Breast Center. Espero que isso seja útil para outras mulheres. O câncer de mama sozinho mata cerca de 458 mil pessoas a cada ano, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, principalmente em países de baixa e média renda.

Tem de ser uma prioridade garantir que todas as mulheres possam ter acesso aos testes genéticos e tratamentos preventivos, independente de sua condição econômica, onde quer que vivam. O custo dos testes para BRCA1 e BRCA2 ultrapassa os US$ 3.000 (três mil dólares) nos Estados Unidos, o que é um grande obstáculo para muitas mulheres. 

Eu optei por não manter a minha história privada porque há muitas mulheres que não sabem que podem estar vivendo, agora,  sob a sombra do câncer. Minha esperança é que elas, também, tenham acesso ao  teste genético e que,  se  tiverem um alto risco como eu, saibam que têm opções definitivas de tratamento. A vida vem com muitos desafios. Os que não devem nos assustar são os que podemos enfrentar e controlar.
Angelina Jolie 
Maio / 2013

ANGELINA JOLIE E O MERCADO DO MEDO - Debora Diniz

O resultado positivo para alta probabilidade de câncer de mama
transformou Angelina Jolie em cliente da mercadoria Risco

Não há sobrevivência humana sem a experiência do adoecimento. E não se trata de uma resignação passiva diante do corpo que insiste em falhar, pois essa é nossa condição. O encanto da medicina está no poder de nos oferecer tratamento para as aflições e as dores. O câncer é uma delas – "uma palavra que impõe medo nos corações das pessoas", disse Angelina Jolie. Talvez tenha sido o medo que a fez se submeter a uma cirurgia de mastectomia radical: retirou os dois seios como medida preventiva para desautorizar o destino anunciado em seus genes. Angelina não estava doente – o câncer era uma probabilidade. A estatística genética a sentenciou à morte e o mesmo bisturi que a mutilou reconstruiu seu corpo.

Angelina contou sua história em um jornal de circulação mundial. A narradora do texto – em um misto de confidência e apelo às outras mulheres – seduz pela autoridade de atriz e pacifista da Organização das Nações Unidas. A mãe de Angelina morreu aos 56 anos de um câncer de mama. Um teste genético identificou a herança materna do gene defeituoso. "Assim que soube do risco, decidi ser proativa e minimizá-lo", justificou-se. Risco não é somente um fenômeno estatístico, mas uma categoria moral e uma mercadoria. Minimizar o risco do adoecimento genético ofereceu a Angelina um sentimento de controle sobre o futuro e acerto de contas com o passado: os filhos não vivenciariam sua história de orfandade. Ou, ao menos, assim o mercado dos testes genéticos a faz crer.

O teste sanguíneo para a identificação do gene defeituoso de Angelina custa US$ 4 mil nos EUA. É produzido por uma única empresa, a mesma que busca patentear o sequenciamento genético na Suprema Corte americana. No Brasil, não está disponível na rede pública de saúde por duas razões. A primeira é que a genética clínica ainda não foi seriamente implementada como política pública do SUS. A segunda, e mais importante, é o custo exorbitante do exame, dado o controle econômico da patente e do sequenciamento do gene por uma única empresa. É a ciência que cartografa nossos genes a que vende o teste para classificar alguns deles como "defeituosos". O de Angelina tem nome, BRCA1. Mas a história da mastectomia radical para tratamento do câncer de mama conheceu matriarcas distantes da atriz de Hollywood: em 1894, William Stewart Halsted, médico do Hospital Johns Hopkins, propôs o revolucionário tratamento de mutilação dos seios para o câncer. A diferença é que a mastectomia do século 19 era feita após o câncer dar sinais de presença no corpo.

Os médicos de uma mulher com risco genético alto para o câncer de mama podem indicar a mastectomia preventiva. Diferente do passado, não há uma doença instalada no corpo, apenas seu espectro de probabilidade. O admirável mundo novo da genética não apenas provocou a ficção científica dos embriões em tubos de ensaio de Aldous Huxley, mas atiçou um extenso mercado de medos e novas necessidades. O teste genético passou a ser uma necessidade de saúde para Angelina. O resultado positivo para a alta probabilidade a transformou em cliente do mercado do medo. Os números eram fortes: com os seios, seu risco de desenvolver o câncer eram de 87%; mutilada, de 5%. A mutação genética está em seu corpo e o mercado que a identificou oferece promessa de solução.

Se Angelina se salvou da ficção como a garota interrompida, é agora uma mulher sobrevivente de um câncer que nunca teve. Mas é também uma celebridade genética. Angelina lançou-se como ativista de mais uma causa: a do teste preditivo para o câncer de mama e da mastectomia preventiva. Suas boas intenções humanitárias favoreceram o crescente mercado genético. Em poucos dias, as ações comerciais da Myriad Genetics, a única que controla o teste preditivo para o BRCA1, cresceram nas bolsas de valores. A missão agora é convencer outras mulheres a despir-se do apego ao corpo e lançar-se à hipótese da antecipação da doença. Para isso, apresentou-se como rosto e voz da necessidade da mutilação e descreveu suas próteses como bonitas. Porém, não há escolha simples. A de Angelina foi favorecida pelo poder de consumo médico, animada pela orfandade da mãe e pelo cuidado dos filhos.

Mas probabilidade não é predestinação. Nem na genética nem em nenhum outro campo da medicina. A diferença é que a medicina genética se move por um poder de sedução que revolucionou as políticas populacionais – a métrica estatística. Angelina é não somente uma mulher com gene defeituoso, mas também uma mulher laudada pela genética como de alto risco para desenvolver a doença e morrer precocemente. Ser uma mulher com genes defeituosos foi insuportável para ela, como é para tantas outras. Esse novo estatuto faz circular uma ampla rede de produtos, profissões e consumos. Por isso, nosso estranhamento não deve ser à história de Angelina Jolie, sua mutilação e reconstrução corporal, mas ao discurso médico e de consumo que nos oferece destinos. Mesmo que a escolha pela mutilação venha a ser considerada a mais razoável, ela é apenas uma tentativa de controlar o acaso da vida humana e seu eterno jogo com o adoecimento.
* DEBORA DINIZ É ANTROPÓLOGA, PROFESSORA DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA E PESQUISADORA DA ANIS – INSTITUTO DE BIOÉTICA, DIREITOS HUMANOS E GÊNERO

A VOLTA POR BAIXO - Carlito Maia

De Dom José Cavaca(*), 
humorista inesquecível:
"Criminosos brasileiros brilham na Inglaterra, 
cuja polícia só está preparada para crimes inteligentes".

Verdade: somos especialistas em crimes burros, irreparáveis; tal a grandeza das perdas que acarretam. Sem falar da impunidade. Crimes contra a Pátria, contra o povo, contra a Humanidade. Como no tempo da Inventona de 1° de abril de 64, quando a ditadura militar deitou e rolou, sem que os criminosos fossem punidos e, em muitos casos, sequer identificados. Caso de Sete Quedas, hoje só uma saudade para os que conheceram aquela maravilha da Natureza, que foi por água abaixo, literalmente, porque os milicos no poder (e bota poder nisso) assim o quiseram. Resolveram (resolviam tudo) fazer a hidrelétrica de Itaipu, de parceria com os donos do Paraguai, e mandaram alagar tudo. O fim da picada. Em nome do sinistro binômio "segurança & desenvolvimento", que os levou também à loucura das usinas atômicas, feitas só para salvar da falência a indústria nuclear alemã, jogando fora (boa parte na Suíça) bilhões de dólares.

Os jovens que me honram com a sua leitura não fazem idéia do que foi aquele tempo, embora estejam sofrendo como todo mundo — as conseqüências do desvario do "Brasil potência". Ou onde vocês acham que teve início a rebordosa em que estamos, heim? E o pior é que a pusilanimidade aqui reinante botou uma pedra em cima da imundície e nunca mais se tocou no assunto.

Outro crime monstruoso, e igualmente irreparável: a morte de Henfil. Paradigma da dignidade, da coragem, do patriotismo, Henfil foi assassinado. Hemofílico, como seus irmãos homens, submetia-se a freqüentes (e caríssimas) transfusões de sangue para sobreviver. Numa dessas — em busca da salvação — encontrou foi a morte. Injetaram nele sangue contaminado pela Aids. Também em Chico Mário e Betinho, seus manos. Mas a viúva de Chico Mário acaba de ser reconhecida pela Justiça, que condenou a União e o Estado do Rio pelo seu desaparecimento. E, claro, também pelo de Henfil.

Mas o juiz teve uma recaída e não reconheceu o direito de Lúcia Lara, brava e digna companheira de Henrique por mais de dez anos, impedindo-a de fazer jus a indenização pela brutal perda sofrida. A verdade é que Lucinha não cogitou jamais de receber dinheiro em troca da vida de Henfil, o que não o traria de volta. Mesmo que — num acesso de loucura, dando uma de amoral nato — exigisse a execução dos responsáveis pelo crime nefando, não teríamos de novo o exemplar cidadão. Crime irreparável e, portanto, impunível. Mas Henfil acaba de dar a volta por baixo, se deu! Henfil vive! "Se não houver frutos/ valeu a beleza das flores/ Se não houver flores/ valeu a sombra das folhas/ E, se não houver folhas, valeu a intenção da semente". Suas lições não serão esquecidas jamais. Valeu, Henfil!
Outubro 1991

O PENSAMENTO IMORTAL DE DOM ROSSÉ CAVACA


Na promiscuidade dos bairros que crescem em sentido vertical, 
há binóculos de comprovada experiência sexual.

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A Bíblia conta à sua maneira que Adão também comia maçãs em outra macieira.

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O solteirão sem atrativos segue o destino: 
Cibalena à noite para dormir com algo feminino.

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Na reunião de cúpula do Centro de Pesquisas, a ciência revelou aspectos
surpreendentes: descobriram doze moléstias até então inexistentes.

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Morreu de enfarte o João. Comentário geral: um ótimo coração.

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Chinelo em baixo da cama conforto é. Mas cadê o outro pé?

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Graças à liberdade de ir e vir, assegurada pela Constituição, o nordestino tem
oito milhões, quinhentos e vinte e cinco mil quilômetros quadrados para morrer de inanição.

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Vendo para Seleções um conto neo-realista bem do tipo Seleções. Tanto que
narra a história de um soldado destemido que perdeu pernas e braços, ficou
cego, surdo e mudo. Azar inqualificável: até neurose incurável. Voltou da guerra e internou-se no Centro de Readaptação de Ex-Combatentes. Lá se casou por amor com a filha do diretor, que lhe tirou da cabeça todas as coisas complexas. Hoje ele é UM FELIZ FAZENDEIRO NO TEXAS.

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Na situação em que me encontro, se puserem um revólver na minha frente 
eu o vendo imediatamente.

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É tanta polícia que a gente fica sem a mínima garantia.

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A sífilis e as capitanias eram hereditárias.

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Bons tempos aqueles! Como se ganhava pouco!

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Não é para te elogiar não, mas o enterro do teu pai estava um show.

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Humoristas lutam agora por um mundo menos engraçado.

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É a quinta massa fria vinda do Sul que o Rio desmoraliza.

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Agora gostaria que as senhoras fizessem silêncio, 
mas todas ao mesmo tempo.

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Os dois são Deuses, mas o da direita tem mais experiência.

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Letra V da cartilha contemporânea? Vina viu vovô se virando.

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Alguns átomos também se consideravam íntegros.

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Depressa, Pedro! Grite logo, que estamos às margens do Ipiranga
 e a letra do hino já está pronta.

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Há milhares de notas falsas em circulação, 
mas tão prestativas que conquistaram a confiança de todos.

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Que corrupção é esta que a gente morre sem conseguir atingi-la?

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Flagrei minha mulher me pegando em flagrante.

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Um destes viveiros que matam de inveja os passarinhos livres.

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Acredito na sua honestidade mas a quadrilha já está formada.

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Tem cura, doutor? Se tem, vamos desenterrá-lo.

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Bebeu veneno e o legista descobriu que era uma solução.

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Só sabe contar pré-histórias.

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Que foi que você sentiu quando soube que havia nascido no Brasil?

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EDGAR ALLAN POE - O Coração Delator

 
É verdade! Nervoso, muito, muito nervoso mesmo eu estive e estou; mas por que você vai dizer que estou louco? A doença exacerbou meus sentidos, não os destruiu, não os embotou. Mais que os outros estava aguçado o sentido da audição. Ouvi todas as coisas no céu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno. Como então posso estar louco? Preste atenção! E observe com que sanidade, com que calma, posso lhe contar toda a história.

É impossível saber como a idéia penetrou pela primeira vez no meu cérebro, mas, uma vez concebida, ela me atormentou dia e noite. Objetivo não havia. Paixão não havia. Eu gostava do velho. Ele nunca me fez mal. Ele nunca me insultou. Seu ouro eu não desejava. Acho que era seu olho! É, era isso! Um de seus olhos parecia o de um abutre - um olho azul claro coberto por um véu. Sempre que caía sobre mim o meu sangue gelava, e então pouco a pouco, bem devagar, tomei a decisão de tirar a vida do velho, e com isso me livrar do olho, para sempre.

Agora esse é o ponto. O senhor acha que sou louco. Homens loucos de nada sabem. Mas deveria ter-me visto. Deveria ter visto com que sensatez eu agi — com que precaução —, com que prudência, com que dissimulação, pus mãos à obra! Nunca fui tão gentil com o velho como durante toda a semana antes de matá-lo. E todas as noites, por volta de meia-noite, eu girava o trinco da sua porta e a abria, ah, com tanta delicadeza! E então, quando tinha conseguido uma abertura suficiente para minha cabeça, punha lá dentro uma lanterna furta-fogo bem fechada, fechada para que nenhuma luz brilhasse, e então eu passava a cabeça. Ah! o senhor teria rido se visse com que habilidade eu a passava. 

Eu a movia devagar, muito, muito devagar, para não perturbar o sono do velho. Levava uma hora para passar a cabeça toda pela abertura, o mais à frente possível, para que pudesse vê-lo deitado em sua cama. Aha! Teria um louco sido assim tão esperto? E então, quando minha cabeça estava bem dentro do quarto, eu abria a lanterna com cuidado — ah!, com tanto cuidado! —, com cuidado (porque a dobradiça rangia), eu a abria só o suficiente para que um raiozinho fino de luz caísse sobre o olho do abutre. 

E fiz isso por sete longas noites, todas as noites à meia-noite em ponto, mas eu sempre encontrava o olho fechado, e então era impossível fazer o trabalho, porque não era o velho que me exasperava, e sim seu Olho Maligno. E todas as manhãs, quando o dia raiava, eu entrava corajosamente no quarto e falava Com ele cheio de coragem, chamando-o pelo nome em tom cordial e perguntando como tinha passado a noite. Então, o senhor vê que ele teria que ter sido, na verdade, um velho muito astuto, para suspeitar que todas as noites, à meia-noite em ponto, eu o observava enquanto dormia.

Na oitava noite, eu tomei um cuidado ainda maior ao abrir a porta. O ponteiro de minutos de um relógio se move mais depressa do que então a minha mão. Nunca antes daquela noite eu sentira a extensão de meus próprios poderes, de minha sagacidade. Eu mal conseguia conter meu sentimento de triunfo. Pensar que lá estava eu, abrindo pouco a pouco a porta, e ele sequer suspeitava de meus atos ou pensamentos secretos. 

Cheguei a rir com essa idéia, e ele talvez tenha ouvido, porque de repente se mexeu na cama como num sobressalto. Agora o senhor pode pensar que eu recuei — mas não. Seu quarto estava preto como breu com aquela escuridão espessa (porque as venezianas estavam bem fechadas, de medo de ladrões) e então eu soube que ele não poderia ver a porta sendo aberta e continuei a empurrá-la mais, e mais.

Minha cabeça estava dentro e eu quase abrindo a lanterna quando meu polegar deslizou sobre a lingüeta de metal e o velho deu um pulo na cama, gritando:

— Quem está aí?

Fiquei imóvel e em silêncio. Por uma hora inteira não movi um músculo, e durante esse tempo não o ouvi se deitar. Ele continuava sentado na cama, ouvindo bem como eu havia feito noite após noite prestando atenção aos relógios fúnebres na parede.

Nesse instante, ouvi um leve gemido, e eu soube que era o gemido do terror mortal. Não era um gemido de dor ou de tristeza — ah, não! era o som fraco e abafado que sobe do fundo da alma quando sobrecarregada de terror. Eu conhecia bem aquele som. Muitas noites, à meia-noite em ponto, ele brotara de meu próprio peito, aprofundando, com seu eco pavoroso, os terrores que me perturbavam. Digo que os conhecia bem. Eu sabia o que sentia o velho e me apiedava dele embora risse por dentro. Eu sabia que ele estivera desperto, desde o primeiro barulhinho, quando se virara na cama. Seus medos foram desde então crescendo dentro dele. Ele estivera tentando fazer de conta que eram infundados, mas não conseguira. Dissera consigo mesmo: "Isto não passa do vento na chaminé; é apenas um camundongo andando pelo chão", ou "É só um grilo cricrilando um pouco". 

É, ele estivera tentando confortar-se com tais suposições; mas descobrira ser tudo em vão. Tudo em vão, porque a Morte ao se aproximar o atacara de frente com sua sombra negra e com ela envolvera a vítima. E a fúnebre influência da despercebida sombra fizera com que sentisse, ainda que não visse ou ouvisse, sentisse a presença da minha cabeça dentro do quarto.

Quando já havia esperado por muito tempo e com muita paciência sem ouvi-lo se deitar, decidi abrir uma fenda — uma fenda muito, muito pequena na lanterna. Então eu a abri — o senhor não pode imaginar com que gestos furtivos, tão furtivos — até que afinal um único raio pálido como o fio da aranha brotou da fenda e caiu sobre o olho do abutre.

Ele estava aberto, muito, muito aberto, e fui ficando furioso enquanto o fitava. Eu o vi com perfeita clareza - todo de um azul fosco e coberto por um véu medonho que enregelou até a medula dos meus ossos, mas era tudo o que eu podia ver do rosto ou do corpo do velho, pois dirigira o raio, como por instinto, exatamente para o ponto maldito.

E agora, eu não lhe disse que aquilo que o senhor tomou por loucura não passava de hiperagudeza dos sentidos? Agora, repito, chegou a meus ouvidos um ruído baixo, surdo e rápido, algo como faz um relógio quando envolto em algodão. Eu também conhecia bem aquele som. Eram as batidas do coração do velho. Aquilo aumentou a minha fúria, como o bater do tambor instiga a coragem do soldado.

Mas mesmo então eu me contive e continuei imóvel. Quase não respirava. Segurava imóvel a lanterna. Tentei ao máximo possível manter o raio sobre o olho. Enquanto isso, aumentava o diabólico tamborilar do coração. Ficava a cada instante mais e mais rápido, mais e mais alto. O terror do velho deve ter sido extremo. Ficava mais alto, estou dizendo, mais alto a cada instante! — está me entendendo? Eu lhe disse que estou nervoso: estou mesmo. E agora, altas horas da noite, em meio ao silêncio pavoroso dessa casa velha, um ruído tão estranho quanto esse me levou ao terror incontrolável. Ainda assim por mais alguns minutos me contive e continuei imóvel. Mas as batidas ficaram mais altas, mais altas! Achei que o coração iria explodir. E agora uma nova ansiedade tomava conta de mim — o som seria ouvido por um vizinho! Chegara a hora do velho! Com um berro, abri por completo a lanterna e saltei para dentro do quarto. Ele deu um grito agudo — um só. Num instante, arrastei-o para o chão e derrubei sobre ele a cama pesada. Então sorri contente, ao ver meu ato tão adiantado. Mas por muitos minutos o coração bateu com um som amortecido. Aquilo, entretanto, não me exasperou; não seria ouvido através da parede. Por fim, cessou. O velho estava morto. Afastei a cama e examinei o cadáver. É, estava morto, bem morto. Pus a mão sobre seu coração e a mantive ali por muitos minutos. Não havia pulsação. Ele estava bem morto. Seu olho não me perturbaria mais.

Se ainda me acha louco, não mais pensará assim quando eu descrever as sensatas precauções que tomei para ocultar o corpo. A noite avançava, e trabalhei depressa, mas em silêncio. Antes de tudo desmembrei o cadáver. Separei a cabeça, os braços e as pernas.

Arranquei três tábuas do assoalho do quarto e depositei tudo entre as vigas. Recoloquei então as pranchas com tanta habilidade e astúcia que nenhum olho humano — nem mesmo o dele — poderia detectar algo de errado. Nada havia a ser lavado — nenhuma mancha de qualquer tipo — nenhuma marca de sangue. Eu fora muito cauteloso. Uma tina absorvera tudo - ha! ha!

Quando terminei todo aquele trabalho, eram quatro horas — ainda tão escuro quanto à meia-noite.
Quando o sino deu as horas, houve uma batida à porta da rua. Desci para abrir com o coração leve — pois o que tinha agora a temer? Entraram três homens, que se apresentaram, com perfeita suavidade, como oficiais de polícia. Um grito fora ouvido por um vizinho durante a noite; suspeitas de traição haviam sido levantadas; uma queixa fora apresentada à delegacia e eles (os policiais) haviam sido encarregados de examinar o local.

Sorri — pois o que tinha a temer? Dei as boas-vindas aos senhores. O grito, disse, fora meu, num sonho. O velho, mencionei, estava fora, no campo. Acompanhei minhas visitas por toda a casa. Incentivei-os a procurar — procurar bem. Levei-os, por fim, ao quarto dele. Mostrei-lhes seus tesouros, seguro, imperturbável. No entusiasmo de minha confiança, levei cadeiras para o quarto e convidei-os para ali descansarem de seus afazeres, enquanto eu mesmo, na louca audácia de um triunfo perfeito, instalei minha própria cadeira exatamente no ponto sob o qual repousava o cadáver da vítima.

Os oficiais estavam satisfeitos. Meus modos os haviam convencido. Eu estava bastante à vontade. Sentaram-se e, enquanto eu respondia animado, falaram de coisas familiares. Mas, pouco depois, senti que empalidecia e desejei que se fossem. Minha cabeça doía e me parecia sentir um zumbido nos ouvidos; mas eles continuavam sentados e continuavam a falar. O zumbido ficou mais claro — continuava e ficava mais claro: falei com mais vivacidade para me livrar da sensação: mas ela continuou e se instalou — até que, afinal, descobri que o barulho não estava dentro de meus ouvidos.

Sem dúvida agora fiquei muito pálido; mas falei com mais fluência, e em voz mais alta. Mas o som crescia - e o que eu podia fazer? Era um som baixo, surdo, rápido — muito parecido com o som que faz um relógio quando envolto em algodão. Arfei em busca de ar, e os policiais ainda não o ouviam. Falei mais depressa, com mais intensidade, mas o barulho continuava a crescer. Levantei-me e discuti sobre ninharias, num tom alto e gesticulando com ênfase; mas o barulho continuava a crescer. Por que eles não podiam ir embora? Andei de um lado para outro a passos largos e pesados, como se me enfurecessem as observações dos homens, mas o barulho continuava a crescer. 

Ai meu Deus! O que eu poderia fazer? Espumei — vociferei — xinguei! Sacudi a cadeira na qual estivera sentado e arrastei-a pelas tábuas, mas o barulho abafava tudo e continuava a crescer. Ficou mais alto — mais alto — mais alto! E os homens ainda conversavam animadamente, e sorriam. Seria possível que não ouvissem? Deus Todo-Poderoso! — não, não? Eles ouviam! — eles suspeitavam! — eles sabiam! - Eles estavam zombando do meu horror! — Assim pensei e assim penso. Mas qualquer coisa seria melhor do que essa agonia! Qualquer coisa seria mais tolerável do que esse escárnio. Eu não poderia suportar por mais tempo aqueles sorrisos hipócritas! Senti que precisava gritar ou morrer! — e agora — de novo — ouça! mais alto! mais alto! mais alto! mais alto!

— Miseráveis! — berrei — Não disfarcem mais! Admito o que fiz! levantem as pranchas! — aqui, aqui! — são as batidas do horrendo coração!
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CARLOS HEITOR CONY - O suor e a Lágrima



Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.

Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei desolado de um reino desolante.

O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando posso estou sempre de tênis.

Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que era abundante.

Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.

E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente suados.

Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.

Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima.

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