O NOVO EROTISMO FEMININO - Roberto DaMatta

Não se pode falar de mulheres sem mencionar os homens, do mesmo modo que não há como discutir juventude sem falar da velhice. Há um novo erotismo feminino, e esse erotismo corresponde a novos modos de ser homem, ser jovem e ficar idoso ou, como se diz com uma boa dose de ironia, de entrar na “melhor idade”. 

Outro dia, em conversa com um amigo da minha geração, falávamos – a propósito do erotismo feminino – dos elos entre mulheres e homens neste Brasil sem inflação, mas com alta corrupção, e com um conjunto de imagens e possibilidades de ser mulher.

No Brasil antigo, as mulheres eram mães, virgens ou prostitutas. Hoje, elas podem o que quiserem, tal como os homens, que, hoje, não podem mais ser definidos em termos de machos ou gays. Inimaginável, dizia meu amigo, essa liberdade de aparências e estilos de vestir-se, comportar-se e trabalhar que temos hoje. Os modelos femininos antigos são trocados nas heroínas centrais do drama da novela Avenida Brasil. 

Na trama, um vingador – espécie de Conde de Monte Cristo de saias –, a personagem Nina, tem como projeto de vida ajustar contas com sua oponente, Carminha. E ambas, cada qual a seu modo, representam a mulher que atrai pela liberdade e seduz pelo fingimento.

Nina tem a mobilidade dos homens e anda de lambreta, algo que combina com suas calças compridas e cabelos cortados. Carminha só anda em automóvel de quatro portas, usa joias caras e se desveste lentamente como manda o figurino clássico de quem usa vestido, sutiã e calcinha, nos quadros de um “striptease” tradicional. 

Carminha corresponde ao modelo da mulher brasileira tradicional, que vai à igreja, ajuda os pobres e faz o papel de “dona de casa” e mãe exemplar. Mas ela faz isso com homens diferentes, e a novidade da novela é precisamente esse duplo papel que distingue e iguala Nina e Carminha, ambas sendo duas pessoas em uma, do mesmo modo que as empregadas lindas e oprimidas pelo preconceito da novela Cheias de charme surgem como cantoras, mostrando um talento que a sociedade inibia.

No fundo, concordamos, meu amigo e eu, todas atraem e têm seu erotismo, mas as que vestem o modelo das domésticas que viram cantoras surgem como mais previsíveis (elas querem ascender socialmente), ao passo que Carminha e Nina atraem por uma duplicidade que as torna imprevisíveis. “La donna è mobile”: é volúvel como uma pena ao vento, conforme dizia o grande Giuseppe Verdi em seu Rigoletto.

Se olharmos bem, vemos que, em todos os casos, o erotismo feminino só se realiza quando surgem os homens. Tufão tem Carminha como “esposa fiel”ou “mulher da casa”, mas quem conhece o outro lado dessa figura – seu lado de “mulher da vida e da rua” – é Max, o parceiro que experimenta sua dimensão hipócrita, abusiva e lúbrica. Eis o retorno da mulher como mãe e como prostituta, atuando no fundo de um drama inovador. Fica somente faltando a virgem – que, entretanto, como nota meu amigo, está presente na Suelen, que vai se transformando de uma maravilhosa “periguete” numa incrivelmente linda mocinha, digna do amor de um jovem enrolado por todas essas imagens e modelos, além de se revelar uma brilhante empresária. Aí está um papel profissional que escapa inteiramente dos lugares tradicionais oferecidos às mulheres nas sociedades tradicionais.

A pureza da virgindade, que se misturava a uma candura que nosso mundo globalizado tem banido como ingenuidade e tolice, ainda dá audiência. E surge na inocência das empregadinhas cantoras cheias de charme, a denunciar de modo bem-humorado a saia justa de um papel social e de um emprego que é uma sobrevivência da escravidão: a empregada doméstica que pode tudo, menos competir com a patroa. Algo impossível quando seu papel é realizar aquilo que suas patroas ainda fazem: serviços domésticos.

Ao final desse diálogo, meu amigo e eu chegamos a um ponto revelador. As sociedades não se transformam com a mesma velocidade dos padrões estéticos, das moralidades, das tecnologias e das modas que elas mesmas produzem, mas – mesmo assim – mudam. É justamente nesse diálogo do novo com o antigo que se alteram e alternam, o que mostra a importância da literatura, do teatro, da televisão e do cinema. Os papéis sociais tradicionais femininos e masculinos – e de jovem ou de velho – surgem claramente, mas nos rituais e momentos solenes. Na missa, ninguém duvidará da castidade de um padre; na família, ninguém acusa a mãe de ser uma depravada; na rua, um velho pedinte ganha mais esmolas que um jovem; na sala de aula, o papel de professor obriga a seguir certas normas; e, numa balada, ninguém pedirá uma periguete em casamento. As noivas continuam casando de branco mesmo quando não são mais virgens. Eis a pergunta que o novo erotismo feminino coloca: o que é a virgindade, se tudo tem sempre uma primeira (e uma última) vez?

Como não retomar a ideia de pureza, de consistência, de fidelidade e de lealdade quando as escolhas são tão amplas e baseadas na individualidade? Pensar que esses papéis são determinantes não é um erro. O erro é imaginar que eles não podem ser combinados e exercidos, dentro de certos limites, por uma mesma pessoa. Carminha, Nina, Suelen e as empregadinhas cantoras são exageros sem os quais não há drama ou comédia. Na vida real e neste nosso mundo pós-moderno, uma maior liberdade tem também conduzido a uma maior consciência das inconsistências.

O mulatismo moderno, que nos leva a morar em 
muitos países, a gostar de muitos gêneros musicais e artísticos, que nos leva a ver novelas e Shakespeare, futebol e ópera, a comer caviar e adorar feijão com farofa, ou a ser um híbrido de periguete com virgem-mãe, não nos exime das responsabilidades que esses gostos ou escolhas demandam de cada um de nós. É aí que está o nó da vida social e, quem sabe, da sabedoria.

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