O QUE SALVA O AMOR - Paulo Coelho

L.Barbosa conta a história de uma ilha onde viviam os principais sentimentos do homem: Alegria, Tristeza, Vaidade, Sabedoria, e Amor. Um dia, a ilha começou a afundar no oceano; todos conseguiram alcançar seus barcos, menos o Amor.

Quando foi pedir a Riqueza que o salvasse, esta disse:
- “Não posso, estou carregada de jóias e ouro”.

Dirigiu-se ao barco da Vaidade, que respondeu:
- “Sinto muito, mas não quero sujar meu barco”.

O Amor correu para a Sabedoria, mas ela também recusou, dizendo:
- “Quero estar sozinha, estou refletindo sobre a tragédia, e mais tarde vou escrever um livro sobre isto”.

O Amor começou a se afogar. Quando estava quase morrendo, apareceu um barco – conduzido por um velho – que o terminou salvando.

- “Obrigado” – disse, assim que se refez do susto.

– “Mas quem é você”?

- “Sou o Tempo” – respondeu o velho. Só o Tempo é capaz de salvar o Amor.

ADRIANA CALCANHOTTO - Feliz ano todo

Feliz mergulho no Arpoador dia 31, 
feliz longa lista de metas para ser toda descumprida

Assisti ao monstro de olhos azuis chamado Tônia Carrero, perguntada em entrevista sobre se era feliz, responder calmamente: “sou feliz e infeliz várias vezes ao dia”. Bingo. A felicidade vai e vem o tempo todo. Ou, convenhamos, seria um tédio de matar. É então nesse espírito, de estar feliz, significando que se estará infeliz daqui a pouco e feliz de novo e infeliz, e assim por diante vida afora, que desejo aos compadres felicidades no ano que vem.

Feliz mergulho no pôr do sol no Arpoador dia 31, feliz longa lista de metas para o ano para ser descumprida inteira. Feliz virada de ano uma hora antes da meia-noite, pobres ouvidos dos bichos, feliz fogos de artifícios. Feliz volta de Copacabana de metrô, feliz carteira batida, feliz ressaca no primeiro dia do ano. Feliz garis achando moedas, celulares, joias, amuletos e calcinhas na areia. 

Feliz alagamentos causados por bueiros entupidos pelo lixo que devia ser jogado no lixo, não no chão. Feliz leitura de “Fim”, o romance de estreia da Fernanda Torres. Feliz deslizamentos nas encostas durante o verão e o estaremos providenciando. 

Feliz quaresmeiras floridas, feliz andorinhas voando em direção ao Norte. Feliz esquenta de carnaval, feliz grito de carnaval, feliz carnaval, feliz saltos quebrados no carnaval, feliz ar-condicionado para não ouvir o carnaval lá fora. Feliz crise no relacionamento por conta do carnaval, feliz desfile das campeãs. Feliz, então, acho que agora sim, ano novo.

Feliz volta às aulas, feliz primeira ida para a primeira aula. Feliz de quem tem aulas para ir. Feliz palmas para os guerreiros professores. Feliz fotos de servidores públicos com maços de dinheiro sob roupas de baixo. Feliz despedida de uma misógina enrustida do comando da comissão dos direitos humanos. 

Feliz psicodélicas previsões de crescimento da economia, feliz contas públicas mais mal maquiadas do que aquelas velhinhas inglesas que não enxergam mais nada e aplicam a sombra verde acima das sobrancelhas e o batom vermelho no buço.

Feliz outono no Rio. Feliz cheiro de jasmim à noite. Feliz páscoa, feliz dieta pós-páscoa, feliz construção do Pavilhão da Esdi, feliz deslumbrante luz de maio, feliz tucanos nas palmeiras, que comem os filhotes dos outros pássaros, mas apanham do bem-te-vi.

 Feliz macacos-prego levando seu bolo de fubá árvore acima. Feliz tigre na cabeça no botequim da esquina. Feliz branquinha no balcão. Feliz inaugurações de piscinões binários. Feliz inaugurações de construções em ruínas. Feliz noites dormidas na rua sob marquise estreita com chuva forte tendo papelão e jornal como cobertor. 

Feliz mês das noivas, feliz provas de vestido, feliz provas de amor, feliz provas de fidelid… Feliz dia das mães. Feliz luz nos morros de manhã bem cedinho, feliz pedras no meio do caminho. Feliz imbecis pichando a estátua do poeta. 

Feliz explosão de bueiros. Feliz muros grafitados. Feliz esperança de que a Rita Lee venha morar no Rio. Feliz anúncio de banco vendendo mais endividamentos a “você, a pessoa mais importante do mundo para nós”. Feliz carga tributária. Feliz estádios com obras atrasadas precisando de mais e mais dinheiro.

Feliz chopinho na esquina, feliz nada pra fazer. Feliz festa na laje, feliz baile funk. Feliz chão, chão, chão, chão. Feliz sorriso do Nelson Sargento. Feliz feijoada da tia Surica. Feliz coalizações lisérgicas para disputar a presidência da pobre República. 

Feliz alianças que dão vergonha na gente. Feliz promessas humanamente incumpríveis, feliz direito de votar. Feliz voto. Feliz melhor projeto para o Brasil. Feliz água de coco no calçadão. Feliz multa por jogar lixo no chão. Feliz compre seu carro novo, compre seu carro novo compre seu carro novo. 

Feliz paciência no trânsito. Feliz trens e ônibus atrasados, abarrotados, feliz vagões femininos. Feliz cadeias piores que o inferno. Feliz salve a seleção. Feliz compre sua TV, compre sua TV, compre sua TV, compre sua TV, compre sua TV. Feliz Copa “do Mundo da Fifa”. Feliz seja lá o que tiver de ser. Feliz Lei Maria da Penha.

Feliz Flip. Feliz crianças atingidas por balas perdidas e sumiços de trabalhadores sem qualquer explicação. Feliz pelada, feliz pedalada, feliz futevôlei na praia. Feliz biscoito Globo, feliz mate gelado. Feliz possibilidade de ver o Ferreira Gullar zanzando por Copacabana.

Feliz sequência de ondas verdes parecendo esmeralda líquida. Feliz ondas, feliz vacas, feliz caldos. Feliz fale mais, fale mais, fale mais, fale mais, fale mais. Feliz “este número de telefone não existe”. Feliz parada gay. 

Feliz feriado de Zumbi dos Palmares. Feliz turistas na favela, feliz meninos jogando bola. Feliz bicicletas roubadas. Feliz juiz filho da puta. Feliz dicas de livros da Cora. Feliz topless em paz. Compadres queridos, um feliz ano todo.

BOA ENTRADA - Martha Medeiros

Vou citar dois filmes antigos. Um é o inglês Mero Acaso, de 1999. Primeira cena: um rapaz bate na porta do vizinho, que é psiquiatra, e diz que precisa desabafar. São 6 horas da manhã, o vizinho ainda está de pijama, mas diante do inusitado da situação, convida-o para entrar e o acomoda numa poltrona.

O outro filme é o francês Confidências Muito Íntimas, de 2003. Um mulher está se separando e procura um psiquiatra pela primeira vez. Entra sala adentro e já começa a contar seu drama, sem dar tempo para o homem respirar. Ele fica absolutamente envolvido pela história dela.

Mesmo que você não tenha visto estes filmes, pode imaginar o que eles têm em comum. No filme inglês, o homem se enganou de porta e bateu na casa de um engenheiro, que ouve tudo quieto e só então avisa que o psiquiatra mora no apartamento ao lado.

Mesmíssima coisa no filme francês. A mulher se enganou de porta e invadiu o consultório de um contabilista. Mesmo depois do engano desfeito, os dois seguem se vendo para amenizar a solidão um do outro.

Ambos os filmes demonstram que terapia é, basicamente, uma via de desabafo, de investigação emocional, de elucidação de si mesmo, e tudo isso se dá quando estamos dispostos a falar.

Então qualquer amigo poderia substituir um profissional? Não. Conversar com amigos é ótimo, porém eles estão comprometidos afetivamente conosco. Conhecem a nossa história e já não prestam atenção nos detalhes. E tomam um tempo para falar deles mesmos, o que é natural. Além disso, estes papos são frequentemente interrompidos pela chegada do garçom, por um telefone que toca, por outras distrações. E, pra culminar, você não está pagando. Faz diferença. Você não é o centro das atenções. É um encontro, literalmente, gratuito. E, em terapia, o foco tem que estar todo em você. Vigilância total para você não fugir de si mesmo.

Longe de mim estimular alguém a bater na casa do vizinho para contar seus sonhos e fantasias secretas. Ele mandará você plantar batatas, com razão. O que interessa disso tudo é o crucial: o quanto é importante falar. E ser profundamente escutado. E, mais profundamente ainda, escutar a si mesmo. Não é fácil ouvir nossa própria voz verbalizando aquilo que sentimos de forma tão confusa e irregular. É quando passamos a reconhecer abertamente nossas inquietudes, medos, vergonhas. E a nos comprometer com o que está sendo dito. A verdade ganha legitimação. Deixa de habitar apenas o silêncio, onde tudo fica protegido demais.

Alguns não acreditam em terapia e dizem que não é qualquer um que merece ouvir nossas intimidades. Mas tem que ser qualquer um, no sentido de qualquer desconhecido, qualquer pessoa que não tenha nada contra e nada a favor de você, que não lhe conheça, para poder lhe ouvir sem uma opinião prévia sobre sua história. De preferência qualquer um com um diploma na parede e competência para ajudá-lo a se conhecer pra valer.

Que lhe faça descobrir os efeitos terapêuticos de ouvir a própria voz assumindo questões que até então não eram enfrentadas. Dá para fazer isso sozinho também, mas com um interlocutor é mais fácil. Ou menos difícil. Tente. Nada como bater na própria porta e entrar.

NOVA VACINA CONTRA CÂNCER FUNCIONA EM 90% DOS PACIENTES

Imagens capturadas de dois tipos de células do sistema imunológico
 (verde e roxo), próximo a um tumor (vermelho) 
Reprodução/Nature

Teste de imunoterapia que usou a bacteria 'Streptococcus pyogenes' para estimular a defesa do organismo encolheu os tumores em 70% dos casos; em outros 20%, a doença entrou em remissão

Imagens capturadas de dois tipos de células do sistema imunológico (verde e roxo), próximo a um tumor (vermelho) Reprodução/Nature

A revista “Nature” dedicou parte de sua publicação desta quarta-feira aos avanços da imunoterapia no tratamento de câncer. Este método que vem ganhando força no meio científico se baseia no estímulo do próprio sistema imunológico para combater os tumores. Na revista, uma das pesquisas destacadas revisita uma técnica ainda do século XIX para o desenvolvimento de uma vacina imunológica.

Por volta de 1890, o médico William Coley buscou em bactérias a forma enfrentar este mal. Ele infectou um de seus pacientes com o Streptococcus pyogenes, a bactéria que causa a doença escarlatina, e em questão de semanas, o doente teve uma recuperação significativa. Coley então começou a usar micro-organismos mortos para tornar o tratamento mais seguro e acrescentou mais um tipo de bactéria ao composto. O trabalho bem sucedido do médico - que pelos relatos conseguiu tratar centenas de pessoas, mas cuja história tinha caído no esquecimento - foi resgatada por pesquisadores da empresa canadense MBVax Bioscience.

A nova versão de vacina desenvolvida pela MBVax contém a mesma S. pyogenes e outra bactéria chamada Serratia marcescens, que contém um pigmento estimulante do sistema imunológico conhecido como prodigiosina. Desta forma, as cepas de bactérias mortas pelo calor ativam esse sistema para que ele lute contra o tumor.

Entre 2007 e 2012, a empresa vacinou cerca de 70 pessoas em estágio avançado de câncer, incluindo pacientes com melanoma (pele), linfoma (sistema linfático) e tumores malignos de mama, próstata e ovário. Os tumores encolheram em 70% dos pacientes, e 20% entraram em remissão.

Tecnologias de ponta contra o câncer
Diversos grupos de pesquisa ao redor do mundo vêm desenvolvendo vacinas a partir de bactérias combinadas. E enquanto alguns pesquisadores buscam métodos de séculos passados, outros lançam mão das mais novas tecnologias disponíveis.

Uma pesquisa das universidades de Stanford, Califórnia e Massachusetts consegue gravar imagens da resposta do sistema imunológico ao câncer de pulmão num camundongo. Com isso, eles conseguem ver tanto como o tumor cresce ou encolhe quanto os detalhes de como e por que isto acontece. Antes disso, os pesquisadores não conseguiam ver o que de fato ocorria no corpo, então eles eram incapazes de identificar por que algumas terapias não funcionavam.

- Nós víamos várias imunoterapias falharem porque éramos cegos - afirmou à “Nature” Christopher Contag, imunologista da Universidade de Stanford, em Palo Alto.

Nos últimos dez anos, cientistas também têm observado células imunológicas e cancerosas utilizando sofisticadas tecnologias de microscopia. Eles aprenderam que as experiências em culturas de laboratório nem sempre conseguem imitar o que ocorreria no corpo.

Um trabalho do Instituto Pasteur, em Paris, conseguiu observar as interações das células tumorais e imunológicas em animais vivos a partir de imagens de um microscópio multifotônico. O alcance deste equipamento é oito vezes maior do que os microscópios usuais.

Duas outras pesquisas (das universidades de Manchester, nos EUA, e Sidnei, na Austrália) usam microscópios com lasers infravermelhos. Com imagens de super resolução, eles detectam as moléculas no momento de contato das células imunológicas e dos tumores.

- Queremos ver onde cada proteína está na superfície destas células, uma informação essencial para a compreensão do que ocorre a nível celular e que determina o prognóstico de um paciente com câncer - explica Daniel Davis, de Manchester.

A LINGUAGEM DO AMOR

Casais com bom relacionamento costumam usar o mesmo tipo de palavras funcionais – preposições, pronomes, artigos e conjunções – e com frequência equivalente.

Casais apaixonados ou que mantêm um relacionamento de longo prazo não raro se atribuem apelidos carinhosos ou mudam o tom de voz quando falam um com o outro. Segundo pesquisadores da Universidade do Texas em Austin, a identidade afetiva por meio das palavras não para por aí. Um estudo conduzido pelo psicólogo James Pennebaker mostra que pares “bem-sucedidos” ou com mais chances de sê-lo costumam usar o mesmo tipo de palavras funcionais – preposições, pronomes, artigos e conjunções – e com frequência equivalente. Usados em vários contextos, esses termos são, em geral, processados de forma rápida e inconsciente.

Para chegar a essa conclusão, o psicólogo reuniu 80 homens e mulheres e solicitou que cada um conversasse com alguém do sexo oposto por alguns minutos. Em seguida, questionou-os sobre a possibilidade de saírem juntos. Curiosamente, os pares que usaram tipos similares de palavras funcionais se mostraram mais inclinados a marcar outro encontro – mesmo aqueles que declararam não ter muitos pontos em comum.

Em outro estudo, Pennebaker analisou o conteúdo de mensagens de celular enviadas por 86 casais e perguntou aos voluntários quão felizes eles se sentiam com o compromisso assumido. Três meses depois, o pesquisador verificou se os pares ainda estavam juntos. Ele observou que os pares estáveis eram os que trocavam torpedos com mais palavras funcionais em comum. O curioso é que isso se aplicou também a quem declarou estar insatisfeito com o companheiro, na primeira fase da pesquisa.

Agora os pesquisadores querem entender se o vocabulário em comum provoca atração ou se na verdade as pessoas adaptam sua forma de falar, ficando parecidas com o outro. Os dois processos são possíveis, mas Pennebaker acredita que o último seja mais provável: “A linguagem prediz o sucesso dos relacionamentos porque reflete a forma como os casais ouvem um ao outro e se entendem”, reforça o psicólogo.
Universidade do Texas, Austin.

DESEJOS FEITOS DE PALAVRAS - Erane Paladino

Poeta tetraplégico constrói relação de 
desejo e afeto com sua terapeuta sexual

Paralisado desde os 6 anos pela poliomielite, o escritor, poeta e jornalista Mark O´Brien só podia mexer a cabeça e passava a maior parte do dia dentro de um tubo de ferro para estimular seus pulmões. Com esses dados, parece fácil deduzir que o filme As sessões, inspirado em uma história real, apresente toques de melodrama. Mas é justamente ao afastar-se desse caminho óbvio que o diretor australiano Ben Lewin – que, aliás, assim como o personagem principal, é também um sobrevivente da pólio – promove a discussão sobre as infinitas possibilidades humanas e lembra que a sexualidade ultrapassa os limites do corpo.

A despeito das dificuldades que enfrenta, aos 38 anos O´Brien é um homem bem-humorado e criativo, embora perseguido pela curiosidade na experiência sexual. Sua formação católica – diz ser religioso “por achar intolerável não acusar alguém por tudo isso” – o leva a longas conversas com o padre da paróquia, na busca de uma autorização espiritual que o livre da culpa pelo desejo. Numa relação afetuosa e despojada, o sacerdote o apoia na árdua tarefa de perder a virgindade.

Estamos, então, no início da década de 80, uma época em que terapêuticas sexuais corporais ganham espaço. É importante lembrar que os anos 60 e 70, marcados pelo pós-guerra e pelas revoluções culturais, foram cenários de verdadeiras explosões sociais, ideológicas e artísticas. Proliferavam estudos voltados ao prazer e à liberação sexual. Autores como Masters e Johnson contribuíram significativamente para aliviar a repressão de alguns tabus arraigados e trouxeram melhora na qualidade de vida das pessoas. Na Califórnia não faltavam cursos e dinâmicas de grupo voltados à autoliberação. Nesse contexto, o atendimento com a terapeuta sexual Cheryl Cohen Greene, especializada em pessoas com sérias deficiências físicas, interpretada no filme por Helen Hunt, é indicado a O´Brien por uma professora universitária que estuda o tema.

Na vida real, Cheryl de fato fazia esse tipo de trabalho. Didaticamente, a personagem do filme esclarece não se tratar de prostituição, mas de processo terapêutico com objetivos específicos, argumentando, por exemplo, que “a prostituta busca manter um vínculo de dependência e nossos encontros têm número de sessões previamente estabelecido”. Mais que essa diferenciação, bastante questionável, chamam a atenção a atitude profissional, a busca da objetividade, o estabelecimento do contrato e os registros feitos após cada sessão. Surpreende o encontro singular e generoso entre o paciente e a terapeuta, sem espaço para a vitimização. Um laço emocional necessário se faz presente durante as sessões de sexo. À medida que olhares e toques se estendem além da fisiologia e dos fluidos do corpo, a ansiedade e a insegurança do iniciante são, aos poucos, aliviadas pela experiência. E a despeito de limitações tão explícitas, os dois constroem uma relação peculiar. “Tudo é ao mesmo tempo inesperado e natural”, descreve O’Brien.

Há mais de um século Freud preocupava-se em descrever as pulsões como forças ligadas às relações de objeto, o que faz inevitavelmente do homem um ser em relação. O que nos torna sujeitos depende da qualidade e da dinâmica dos vínculos estabelecidos desde os primeiros momentos de vida. A ideia do outro está presente mesmo na fantasia. Onde há relação, está inevitavelmente presente algum tipo de afeto. Podemos deduzir, então, que O’Brien soube encontrar em Cheryl aspectos sutis que favoreceram a vivência de empatia e intimidade.

O mundo contemporâneo tem valorizado as imagens num processo que o escritor francês Guy Debord (1931-1994) chamou de “sociedade do espetáculo”. Corpos expostos e apelos sexuais parecem banalizar o contato com o outro, num incentivo ao hedonismo vaidoso. Apesar do acesso à informação e dos apelos do sexo, as questões relativas à sexualidade e subjetividades são menos lembradas. Não é à toa que tantos autores reconhecem e destacam os contornos narcisistas e depressivos da contemporaneidade.

Em As sessões os objetivos tecnicamente previsíveis não mascaram inevitáveis ansiedades e expectativas que acompanham desejos intensos. Apesar do corpo paralisado, a vontade de experimentar permanece viva. O artigo “Encontros com uma substituta sexual”, que inspirou o filme, e as histórias de amor vividas – ou fantasiadas – por O’Brien brotam na sensibilidade de sua poesia: “Deixa-me tocar-te com minhas palavras, pois minhas mãos jazem caídas como luvas vazias, deixa minhas palavras acariciarem teus cabelos, pois minhas mãos leves, mas inertes como tijolos, ignoram minhas vontades e se recusam a realizar meus desejos mais silenciosos”.

VÍDEO - CISNES NEGROS SURFANDO NA AUSTRÁLIA


SEM BUDISMO - Paulo Leminski


Poema que é bom
acaba zero a zero
Acaba com.
Não como eu quero
Começa sem
Com, digamos, certo verso
veneno de letra,bolero. Ou menos
Tira daqui, bota dali
um lugar, não caminho
Prossegue de si
Seguro morreu de velho
e sozinho.

COMO MEDIREMOS ESTE ANO? - Renata Neder

Essa semana, passei pela Lagoa e vi que já estão montando a árvore de Natal. E aí me dei conta que o ano já está acabando. O ano passou, mas ainda me lembro da virada do ano vendo os fogos do Morro dos Macacos como se fosse ontem. Daqui a pouquinho chega outro Reveillon e eu nem digeri tudo que aconteceu neste ano ainda...

Enquanto caminhava pela Lagoa pensando sobre o ano que passou, me lembrei de uma música que pergunta “como se mede um ano?”. Ouvi pela primeira vez “Seasons of love”, do musical Rent, há pouco tempo durante a apresentação de um coral com cerca de 70 adolescentes do ensino médio.

A canção pergunta como se mede um ano. São 525.600 minutos, mas é assim que você mede um ano para viver, um ano na vida de um homem ou uma mulher? Melhor seria medir em copos de café, em risos, discussões?

Como iremos medir o ano?

Poderíamos medir pelo número de pessoas que foram às ruas, em quantidade de manifestações, na quantidade de cidades onde houve protestos. Poderíamos medir pela criatividade dos cartazes expressando uma diversidade de causas, mas muita indignação.

Poderíamos medir pelo número de pessoas detidas arbitrariamente, pelo número de dias que os manifestantes estiveram em Bangu. Pelo numero de pedidos de Habeas Corpus feitos por advogados voluntários para os manifestantes duramente criminalizados pelo governo.

Poderíamos medir pelo número de bombas de gás lacrimogêneo usadas para reprimir os protestos, pelas balas de borracha disparadas pela polícia, pelas balas de verdade também. Pela arma sônica testada durante o despejo violento da Aldeia Maracanã.

Poderíamos medir pelo número de dias que se passaram desde que os filhos de Amarildo viram seu pai pela última vez, quando ele foi levado por policiais na Rocinha e nunca mais voltou. Ou talvez pelo número de pessoas desaparecidas, milhares, anônimas e esquecidas, não procuradas pela polícia.
Poderíamos medir pela violência policial, pelo número de registros de “auto de resistência”, pelo número de policiais denunciados por envolvimento com grupos de extermínio e milícias, pelo número de agentes do sistema socioeducativo respondendo processos por tortura.

Poderíamos medir pelas remoções causadas por grandes obras, pelo valor ridículo das indenizações oferecidas para os moradores do Largo do Tanque removidos para abrir espaço para a Transcarioca. Ou talvez pelo número de casas que receberam a marcação “SMH” nas suas portas, sinalizando a chegada da Secretaria de Habitação que irá removê-los.
Poderíamos medir pelos hectares de terras griladas por fazendeiros, pelos indígenas e quilombolas ameaçados pelos mesmos fazendeiros. Pelo número de pessoas mortas em conflito por terra no campo, assim como Cícero no norte fluminense.

Poderíamos medir pelo número de pessoas que pediram para entrar no Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos porque sua luta por um mundo mais justo as coloca em risco. Pelo número de ameaças e atentados que sofreram, pelo tempo eu tiveram que passar fora de casa devido a essas mesmas ameaças, como os pescadores artesanais de Magé.

A maneira como escolhemos medir um ano reflete com que olhos olhamos a realidade e de que forma queremos contar essa história. A “métrica” que você usa para fazer o seu balanço anual não é neutra nem imparcial. Ela diz de que lado você está.

Antes de embarcar nas compras de Natal ou na euforia dos fogos da virada de Ano Novo, vale a pena pensar como você mediria este ano.

TEMPO DE CORRER. TEMPO DE PARAR - Raquel Carvalho

Quando se vê, já são seis horas
Quando de vê, já é sexta-feira
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
(Mário Quintana)

Ligue para alguém ou chegue numa mesa e pergunte:
- Como ‘cê está? Tudo tranquilo?
Nove entre dez pessoas responderão:
- Tranquilo, nada. Estou é correndo de um lado para outro que nem doido. Nem vejo o tempo passar…

As palavras usadas podem variar, mas o primeiro sentido das frases é: nas 24 horas do dia não cabe nem metade dos meus compromissos! A afirmação é feita por alguns com certo orgulho; subliminarmente há uma convicção de importância, de status especial familiar ou profissional. Outros falam como se reconhecessem uma realidade terrível, da qual estão prestes a desistir, se jogando da primeira ponte. Há os nervosos-amargos, os serenos-conformados, os doidos-de-sempre… Todos correndo, sabe Deus pra onde.

Correr tem lá seus ganhos, é inegável. Quem faz muita coisa bem depressa (ou faz muito de algumas coisas, igualmente rápido) pode receber mais reconhecimento profissional, ter convivência próxima com dezenas de amigos, ganhar bastante dinheiro, estar bem perto da família, obter um corpo saradão, conhecer dezenas de lugares no mundo, comprar bens variados e mais. Muito mais. Torna-se um mantra “Tudo ao mesmo tempo agora”, sempre em correria desenfreada.

A maioria nunca para, não se questiona para onde está indo, nem por que. A vida vai levando, feito na música de Zeca Pagodinho, e a criatura lá, no esforço para manter os pratos escolhidos girando enquanto dança, chupa cana, fala ao telefone, confere o facebook e coça o cachorro com o pé. Boa parte não percebe a vida escoando entre os dedos e sequer experimenta momentos de felicidade, o que torna mais estranho o conjunto da obra.
Se não é raro refletir sobre esse jeito esquisito de levar os dias, poucos somos os que conseguimos interromper o fluxo, diminuir o ritmo e fazer escolhas que permitam realmente estar na própria vida, com relativa calma. Desconfio que a dificuldade em botar o pé no freio não é por inconsciência apenas, mas fundamentalmente por rejeição à perda. Sim. Escolher implica perder. Se você quer ascensão profissional imediata e comprar um apartamento nos próximos dois anos, não é boa hora para providenciar gêmeos. Melhor abrir mão do que não couber e ir mais devagar. Vale curtir os filhotes num apartamento pequeno, com carga de trabalho razoável de 6/8 horas; em outros casos, pode ser o caso de investir logo no trabalho e moradia, deixando o projeto de família para depois, sem ignorar eventuais riscos. Se quer acompanhar o tratamento oncológico de alguém da família, não dá para trabalhar do outro lado do mundo, nem viajar por seis meses consecutivos. Ou perde a possibilidade de apoiar o seu querido, ou perde o trabalho em país estrangeiro e/ou semestre sabático. E sim. Perder é ruim, sabemos.

Desconfio que, no mundo atual, experimenta-se a ilusão de não ser necessário escolher, nem passar pelos dilemas e frustrações inerentes ao processo de optar, abdicar e preferir. É como se cada um acreditasse caber na própria vida, simultânea e aceleradamente, a presidência de uma multinacional e a maternidade de quíntuplos recém-nascidos. Para não abrir mão de nada lá, nem cá, enfrentam-se maratonas diárias. Esquece-se que é possível perder quase tudo, principalmente a saúde, mental, física e/ou espiritual.

O mais intrigante é que, quando alguém começa a peneirar as suas escolhas, é comum surgirem pressões em sentido contrário de diversos lugares. Gente que sequer está feliz com o próprio ritmo começa espernear contra meia dúzia de exclusões razoáveis.

Sobre o grau de insanidade generalizada a respeito desse assunto, recentemente passei por experiência desconfortável e esclarecedora. Tudo começou numa quarta-feira à noite, quando andava normalmente no estacionamento coberto de um shopping. Apesar do chão seco, com a perna direita pisei numa poça em que se misturavam água e óleo, quase um lodo no chão, sem qualquer sinalização no local. Queda feia, urros de dor, joelho como uma bola, atendimento pela brigada dos bombeiros civis, hospital, cadeira de rodas, imobilização da virilha ao pé por sete dias, até novos exames para conclusão do diagnóstico. Não é difícil imaginar os transtornos das mais diversas ordens. No meio do caos de desmarcar compromissos em outras cidades, avisar ao chefe, arrumar substitutos para as funções familiares e etc, constrangida pelos transtornos causados, ouvi unânime nos oito primeiros telefonemas de amigos:
- Que bom, Quel! Assim você descansa. Praticamente férias, né?!

Não. Não são férias. Férias implica poder assistir à TV terça à tarde, mas por escolha e com planejamento. Férias não vêm acompanhadas de dor, e sim de possibilidade de viagem sem culpa.

Cá entre nós, em que mundo esse povo vive? Que maluquice é essa de considerar doença uma merecida folga? E o pior foi escutar no nono telefonema:
- Menina que inveja! Onde é que essa poça está? Eu vou lá ho-je. Aliás, acho que precisava mesmo é de uma fratura externa! (suspiro de exaustão, sem risadas, nem tom de piada)

Minha vontade foi responder, com suave ironia:
- Oi?
Felizmente, para a preservação da amizade, resisti. Preferi falar meia dúzia de palavras reconfortantes e enviar, por email, um tiquinho de Quintana, mais especificamente o poema da epígrafe, que termina assim:
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…”

Fiquei sabendo de um surpreendente pedido de demissão. Não fui eu. Juro. Foi o Quintana, gente. Devargazinho, sempre o Quintana.

A DELICIOSA NUDEZ CASTIGADA - Luiz Felipe Pondé

Se um dia não existir mais mulheres que cobram por sexo, 
a violência no mundo será maior

A repressão ao sexo mudou de lugar, agora ela está ali onde se situa o discurso "por um mundo melhor". As antigas "freiras" e senhoras protestantes de preto, que falavam de pecado e babavam de ódio das mais gostosas, agora propõem a extinção do sexo pago em nome da "justiça social". Ou seja, a puta, a garota de programa, deve deixar de existir. Antes era o pecado, agora é a "exploração do corpo".

O conceito de pecado implica em desejo reprimido (o que dá tesão), o de "exploração" não pressupõe o desejo, mas sim o papo-furado do "capital malvado". Gente chata essa que fala de "controle político do corpo".

Meu Deus, quando é que nos tornamos tão incapazes de entender um mínimo da natureza humana? Já sei: desde que criamos essa noção autoritária de "lutar por um mundo melhor".

Se um dia não existir mais mulheres que cobram por sexo (de modo direto e sem rodeios), a violência no mundo será ainda maior. Sexo e amor sempre custam dinheiro, além de outras coisas. Aliás, a garota de programa é a mulher menos cara do mundo, custa só dinheiro.

Outras relações custam vínculos, jantarzinhos, longas conversas, "DRs", incertezas quanto à retribuição do investimento de desejo, tempo e dinheiro. Entre essas meninas que trocam dinheiro por sexo, as melhores são aquelas que o fazem porque gostam do que fazem. Aliás, como em toda profissão.

Na Antiguidade, em muitos lugares, essas mulheres generosas faziam parte do processo de transformar um menino num homem. Mesmo em rotinas religiosas e espirituais. Na Bíblia, o numero de personagens prostitutas importantes é razoável. Dirão algumas pessoas mais nervosas que isso é "machismo", mas elas não entendem nada de sexo nem de mulher.

Nelson Rodrigues falava de "uma vocação ancestral". Diria eu, um arquétipo. O mundo fica mais pobre cada vez que esta vocação se torna muda. Tranque-a num quarto e seu perfume atravessará as paredes. Seu desejo escorrerá por debaixo da porta. Esconda-a sob véus, ela ressurgirá nos olhos, nos lábios, nos fios de cabelo. Seja nas roupas, na maquiagem, no modo de andar, de se sentar, de cruzar as pernas, de pensar, de sonhar, as melhores mulheres exalam cheiro de sexo como um dos modos de se relacionar com o mundo. Na filosofia se chama isso de erotismo.

A psicologia evolucionista considera a mulher que troca sexo por dinheiro um salto adaptativo. Elas mantêm o poligenismo masculino sob controle porque não exigem investimento afetivo em troca. Antes uma delas do que uma colega de trabalho. Não se pode falar isso, mas todo mundo sabe disso. Com a colega vem o risco da semelhança de interesses, da convergência de gostos, e o pior, a possível sensibilidade compartilhada.

Mas, eis que o Monsieur Normal, leia-se, o chato do François Hollande, presidente da França, resolveu multar quem for pego com uma dessas mulheres generosas. Não vai adiantar, só vai aumentar a violência, o crime, a distancia geográfica entre o homem e a mulher que querem fazer sexo sem complicações.

Mas, seguramente, vai aumentar a arrecadação do Estado, única coisa que socialista entende de economia. No resto, são analfabetos que só atrapalham o mundo. O que alimenta o socialismo como visão de mundo é a inveja dos que não conseguem ganhar dinheiro contra os que conseguem. De novo, o pecado (a inveja), ilumina melhor nossa natureza do que o blá-blá-blá da política como redenção do mundo.

Os "corretos" falam em "profissional do sexo", porque consideram a expressão puta ou garota de programa um desrespeito com essas mulheres. Pura hipocrisia, como sempre, quando se fala de pessoas que querem "um mundo melhor". Como dizia o filósofo Emil Cioran, vizinhos que são indiferentes são melhores do que vizinhos que têm uma "visão de mundo".

Mas, graças a Deus (que nos entende melhor do que esses santinhos de pau oco), essa lei não vai adiantar porque quanto mais se castiga a nudez paga da mulher, mais deliciosa ela fica. Ao final, a mulher que troca sexo por dinheiro, sempre é mais desejada quando encontrá-la fica ainda mais caro.

NOITE EM CLARO - Martha Medeiros

A maioria das pessoas admite ter alguma dificuldade para dormir. Ou elas custam a pegar no sono, ou então dormem assim que desligam o abajur, porém, acordam no meio da madrugada, por nada. Fazemos parte de uma confraria que preza suas cinco a sete horas de descanso (oito é para afortunados), mas que não apaga profundamente como deveria, a não ser com a ajudinha de um Rivotril ou similar. Se é ansiedade, excesso de preocupação ou herança genética, problema para os especialistas ajudarem a resolver. Eu não posso me queixar, durmo cedo e rápido. Mas como se viram os insones clássicos?

Abraham Lincoln realizava caminhadas noturnas, Groucho Marx ligava para estranhos e os insultava, Cary Grant recorria à hipnose, Charles Dickens tinha que posicionar a cabeça para o Norte e Marilyn Monroe se entupia de comprimidos - exagerou, como se sabe.

Já os reles mortais leem enquanto o sono não vem.

No entanto, sei de uma mulher que, em vez de ler, resolveu escrever um livro durante uma noite chuvosa. Nunca havia escrito nada antes. Fez um pacto consigo mesma: enquanto a chuva não parasse, ela não pararia de escrever - e como choveu a madrugada inteira, a cântaros, ela passou a noite em claro, com tempo mais que suficiente para fazer um inventário de sua vida amorosa e sexual, que não tinha nada de vitoriana, como a obra de Dickens, nem de engraçada, como a de Groucho Marx. Era a história de alguém que raramente conseguiu conciliar amor e sexo numa mesma relação, e resolveu por bem escolher entre um e outro. Escolheu o sexo.

O nome dela? Não sei. Não tem. É uma personagem que inventei. Escrevi essa história em 2003 ou 2004. Uma ficção curtíssima que nunca foi publicada, nem teria onde, sendo tão enxuta. Pois bem: depois de eu fazer essa personagem povoar uma madrugada inteira com suas lembranças de amores imperfeitos (todos são), calei-a. Coloquei o ponto final na obra e deixei essa mulher descansar. Ela ficou dormindo dentro do meu computador por cerca de nove anos. Esqueci dela. Até que o Ivan Pinheiro Machado, meu editor, comentou que a L&PM estava lançando uma coleção de bolso chamada "64 Páginas", só para textos breves. Era a chance que eu tinha de deixá-la sair do seu quarto escuro. Acordei-a, dei uma revisada em suas confissões ora melancólicas, ora picantes, e agora ela vai pra rua.

"Noite em claro" já deve estar nas livrarias, supermercados e farmácias, a um preço megapopular: cinco reais. Ideal para deixar na mesinha de cabeceira, ao lado da cama, para o caso de o sono não vir. Mas espero que a leitura seja tão dinâmica que não permita que você pregue os olhos antes do fim.

DEGRAUS DA ILUSÃO - Lya Luft

Fala-se muito na ascensão das classes menos favorecidas, formando uma "nova classe média", realizada por degraus que levam a outro patamar social e econômico (cultural, não ouço falar). Em teoria, seria um grande passo para reduzir a catastrófica desigualdade que aqui reina. Porém receio que, do modo como está se realizando, seja uma ilusão que pode acabar em sérios problemas para quem mereceria coisa melhor. Todos desejam uma vida digna para os despossuídos, boa escolaridade para os iletrados, serviços públicos ótimos para a população inteira, isto é, educação, saúde, transporte, energia elétrica, segurança, água, e tudo de que precisam cidadãos decentes.

Porém, o que vejo são multidões consumindo, estimuladas a consumir como se isso constituísse um bem em si e promovesse real crescimento do país. Compramos com os juros mais altos do mundo, pagamos os impostos mais altos do mundo e temos os serviços (saúde, comunicação, energia, transportes e outros) entre os piores do mundo. Mas palavras de ordem nos impelem a comprar, autoridades nos pedem para consumir, somos convocados a adquirir o supérfluo, até o danoso, como botar mais carros em nossas ruas atravancadas ou em nossas péssimas estradas. Além disso, a inadimplência cresce de maneira preocupante, levando famílias que compraram seu carrinho a não ter como pagar a gasolina para tirar seu novo tesouro do pátio no fim de semana. Tesouro esse que logo vão perder, pois há meses não conseguem pagar as prestações, que ainda se estendem por anos.

Estamos enforcados em dívidas impagáveis, mas nos convidam a gastar ainda mais, de maneira impiedosa, até cruel. Em lugar de instruírem, esclarecerem, formarem uma opinião sensata e positiva, tomam novas medidas para que esse consumo insensato continue crescendo – e, como somos alienados e pouco informados, tocamos a comprar.

Sou de uma classe média em que a gente crescia com quatro ensinamentos básicos: ter seu diploma, ter sua casinha, ter sua poupança e trabalhar firme para manter e, quem sabe, expandir isso. Para garantir uma velhice independente de ajuda de filhos ou de estranhos; para deixar aos filhos algo com que pudessem começar a própria vida com dignidade.

Tais ensinamentos parecem abolidos, ultrapassadas a prudência e a cautela, pouco estimulados o desejo de crescimento firme e a construção de uma vida mais segura. Pois tudo é uma construção: a vida pessoal, a profissão, os ganhos, as relações de amor e amizade, a família, a velhice (naturalmente tudo isso sujeito a fatalidades como doença e outras, que ninguém controla). Mas, mesmo em tempos de fatalidade, ter um pouco de economia, ter uma casinha, ter um diploma, ter objetivos certamente ajuda a enfrentar seja o que for. Podemos ser derrotados, mas não estaremos jogados na cova dos leões do destino, totalmente desarmados.

Somos uma sociedade alçada na maré do consumo compulsivo, interessada em "aproveitar a vida", seja o que isso for, e em adquirir mais e mais coisas, mesmo que inúteis, quando deveríamos estar cuidando, com muito afinco e seriedade, de melhores escolas e universidades, tecnologia mais avançada, transportes muito mais eficientes, saúde excelente, e verdadeiro crescimento do país. Mas corremos atrás de tanta conversa vã, não protegidos, mas embaixo de peneiras com grandes furos, que só um cego ou um grande tolo não vê.

A mais forte raiz de tantos dos nossos males é a falta de informação e orientação, isto é, de educação. E o melhor remédio é investir fortemente, abundantemente, decididamente, em educação: impossível repetir isso em demasia. Mas não vejo isso como nossa prioridade. Fosse o contrário, estaríamos atentos aos nossos gastos e aquisições, mais interessados num crescimento real e sensato do que em itens desnecessários em tempos de crise. Isso não é subir de classe social: é saracotear diante de uma perigosa ladeira. Não tenho ilusão de que algo mude, mas deixo aqui meu quase solitário (e antiquado) protesto.

MOTIVO - Cecília Meireles


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

MARIO QUINTANA - Os Poemas


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…

IMAGEM POPULAR DOS NEANDERTHAIS É COMPLETAMENTE FALSA

‘Primos’ extintos dos humanos modernos 
foram descobertos no século XIX e 
eram bem mais desenvolvidos do que se imaginava

As primeiras evidências deste ramo perdido do gênero Homo foram descobertas em 1856, quando mineiros no Vale de Neander, na Alemanha, encontraram fósseis que pensaram ser de um urso, mas acabaram sendo identificados como de algum tipo de humano antigo;

Apenas três anos depois que os fósseis foram achados, Charles Darwin publicou sua obra-prima “A origem das espécies”. Sob o contexto da evolução, os ossos foram novamente estudados pelo anatomista William King, que batizou a espécie como Homo neanderthalensis, incorretamente sugerindo que ela seria o elo perdido entre primatas e humanos;

Apesar de não serem ancestrais diretos dos humanos modernos, o DNA dos neandertais está presente na população atual de Homo sapiens, com evidências genéticas de que integrantes das duas espécies acasalaram e tiveram filhos quando seus caminhos se cruzaram na Europa há pelo menos 37 mil anos;

Este cruzamento também trouxe benefícios para os humanos modernos, pois cientistas encontraram genes de neandertais em partes de nosso DNA que nos ajudam a combater vírus como o Epstein-Barr, associado ao desenvolvimento de diversos tipos de câncer;

Até 2010, no entanto, praticamente ninguém acreditava que seria possível obter o genoma de um neandertal a partir de seus fósseis, cenário que mudou quando o paleogeneticista Svante Pääbo sequenciou o DNA de três esqueletos de neandertais encontrados na Croácia;

A imagem popular dos neandertais como homens primitivos e de pouca capacidade cognitiva está longe de verdadeira. Eles eram artesões capazes e desenvolveram diversas habilidades práticas. Entre suas grandes ideias, por exemplo, está a fabricação das primeiras lanças a partir da colocação de pedras afiadas na ponta de cabos de madeira, que usavam para caçar bisões, mamutes e rinocerontes;

E quando um neandertal ficava ferido em uma caçada ele não era abandonado pelo grupo, mas tratado para que se recuperasse, em outras duas grandes invenções da espécie, a empatia e a compaixão;

Também há evidências que os neandertais praticavam a medicina, já que restos de camomila e milefólio, duas plantas com propriedades anti-inflamatórias, foram encontrados nos dentes de neandertais;

Assim como os humanos modernos, os neandertais eram omnívoros, balanceando sua dieta predominantemente carnívora com o consumo de vegetais assados em fogueiras;

Os neandertais também eram artistas talentosos, como mostram pinturas encontradas em cavernas na Espanha e datadas em mais de 40 mil anos. E certamente eram melhores pintores que oradores, já que a anatomia de suas gargantas indica que não eram capazes de emitir o som de algumas vogais.

FUMACÊ EM MONTEVIDÉU - Ruy Castro

Calma no Brasil. Só porque o Uruguai acaba de legalizar a produção, o consumo e a distribuição de maconha, ainda não é o caso de os adeptos brasileiros se mandarem em massa para Montevidéu. Ao entrar em vigência, a lei incluirá toda uma liturgia jurídica. Entre outras normas, o consumo pessoal será limitado a 40 gramas por mês e somente para uruguaios ou residentes maiores de 18 anos. Os quais terão de adquiri-la em farmácias autorizadas --será que exigirão receita?--, e não no seu velho e confiável fornecedor.

As pessoas poderão plantá-la, mas só serão permitidos seis pés por cidadão. Ou se associar a "clubes de cultivo", em grupos de 15 a 40 membros por clube. Todas as etapas serão reguladas pelo Estado e significarão um cadastramento monstro de produtores, usuários e locais para se consumir a erva. Por sorte, os uruguaios, em sua maioria, se conhecem uns aos outros, de vista ou pelo nome.

Quarenta gramas, dizem minhas fontes, rendem cerca de 50 baseados. Serão suficientes para um mês? Há quem fume isso por semana. Imagino que, na falta e na fissura, o cidadão baterá à porta da vizinha e pedirá alguns miligramas emprestado, como os caretas pedem uma xícara de açúcar. Falando em caretas, a ideia de se associar a clubes não terá um quê de Rotary ou Lions, incompatível com o mito da liberdade e da rebeldia associado ao fumo?

E, por falar em fumo, logo agora que se descobriu que o cigarro é um veneno e ficou proibido fumar em quase toda parte, vai-se poder fumar maconha em qualquer recinto? E o fumacê sobre os fumantes passivos?

Por fim, sabendo-se que, a depender da potência, a maconha provoca alteração de consciência e uma certa dificuldade motora, será permitido dirigir sob o seu efeito? Haverá algum controle tipo Lei Seca? Ou o Estado se responsabilizará também pelos acidentes?

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NEUROCIÊNCIA SUPEROU A PSICANÁLIE - Ivan Izquierdo

NEUROCIÊNCIA SUPEROU A PSICANÁLIE - Ivan Izquierdo
A psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência...