TIJOLINHOS - Caetano Veloso

Bogotá é quase tão cheia de tijolos aparentes quanto Londres. Na verdade há trechos de ruas que parecem exemplos de arquitetura inglesa. Mas mesmo os prédios modernos e retilíneos são majoritariamente de tijolinhos visíveis. O tom do barro é, em geral, mais claro do que o londrino, mas não dá para não pensar na Inglaterra ao ver as ruas da capital da Colômbia.

Prometi a mim mesmo que estudaria (na Wikipédia, sei lá) a história da possível influência da arquitetura inglesa sobre a bogotana, mas, para variar, escrevo sem ter tido tempo de me preparar. Dei uma parada aqui e olhei, correndo, umas fotos que surgiram quando dei enter em “arquitetura inglesa em bogotá” no Google: trechos de rua puramente ingleses escolhidos por um fotógrafo local provam que houve mais construções em estilo britânico em Bogotá do que eu pude perceber a caminho do hotel ou do teatro (este tem acústica excelente, aspecto elegante e está bem equipado de tudo).

Eu já tinha ido à cidade, com o show “Cê”, e me lembrava de ver muitos tijolinhos. Desta vez confirmei a impressão. Na verdade os tijolos me pareceram dominar a paisagem urbana agora mais do que antes. Os prédios novos seguem o figurino do sem-reboco. Da janela do meu quarto de hotel eu via muitos desses novos edifícios, alguns deles rodeando uma plaza de toros igualmente em tijolos aparentes. Isso tudo dá um ar de elegância sóbria à cidade. Sóbria mas leve e mesmo alegre, já que a argila tende sempre para um vermelho alaranjado. O fato é que, apesar do relativo desconforto por causa da altura, me senti muito bem em Bogotá.

Aproximo-me dos palcos de cidades onde sei que sou apenas conhecido de alguns poucos interessados com pena dos que saem de casa para me ver. Sempre faço o show que estou apresentando no Brasil, predominantemente relativo ao último disco lançado, e suponho que as pessoas estejam, no máximo, preparadas para reencontrar exemplos já conhecidos do meu repertório de várias décadas. Cantar canções inéditas — e talvez em estilos discordantes da ideia que muitos podem fazer da minha música — parece-me que resultará em tortura para o público. Bem, no “Cê” estavam “Sampa”, “O leãozinho”, “You don’t know me”, sei lá. Mas no “Abraçaço” as canções antigas parece-me que só são conhecidas no Brasil. Ou melhor: há canções que podem ser conhecidas de gravações de Bethânia ou de Daniela Mercury mas que o ouvinte não relaciona necessariamente a mim. Ou, como é o caso de “Alguém cantando”, está num álbum que gravei, mas nela faço apenas uma segunda voz, no refrão final, para o canto de minha irmã mais velha, Nicinha. Temi aborrecer demais os bogotanos. Mas, se “Cê” foi recebido respeitosamente (com as naturais intensificações dos aplausos para as músicas já conhecidas), “Abraçaço”, por razões que vou aprendendo com o desenrolar de seu histórico, parece capaz de agradar por si mesmo. A plateia simplesmente elege “A bossa nova é foda”, “Quando o galo cantou”, “Parabéns” ou “Abraçaço”, de cara. E o som da banda.

Por causa de minha preocupação, decidi não cantar “Um comunista”, que dura dez minutos, é lenta e fala de coisas que só os brasileiros entendem. Depois me arrependi: eles teriam gostado do tratamento dado ao tema pela banda Cê — e respeitariam o tom de “canção de protesto” tipo anos 1960, tão reconhecível para plateias hispanoamericanas. Em vez disso, quis cantar um bolero de Bola de Nieve, que adoro, e terminei, no esforço de relembrar letra e melodia, tomando talvez os mesmos dez minutos da canção que evitara.

As repetições e os comentários deram aquele tom de proximidade que agrada a alguns, mas os aplausos finais não foram dos mais calorosos. Bom mesmo foi no bis (onde sempre posso recompensar com sucessos — embora eu não tenha cantado “Sozinho”, como pediam) — quando decidi cantar a “Tonada de luna llena”, de Simón Díaz (nunca agradecerei o suficiente a Márcia Rodrigues), pela primeira vez somando alguns acordes de violão ao meu canto. Me surpreendi. Algo se revelou ali. O público reagiu à altura. Pude voltar pro Brasil satisfeito. Ainda bem que Genoino pôde ir pra casa.

Li com gosto o primeiro artigo do livro “No jornalismo não há fibrose”, de Felipe Pena. Os Racionais MCs (li na “Rolling Stone”) são pela exigência de aprovação prévia das biografias (tendência geral dos artistas de origem popular, certamente pela desconfiança de indenizações e por serem vacinados contra as certezas das manchetes). Mano Brown é o único que diz não querer falar sobre esse assunto que, para ele, não é do interesse do povo e sim um tema classista. Será?

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