ANO NOVO: É IMPOSSÍVEL SER FELIZ SOZINHO – Edmir Silveira


Já que desejar ganhar na mega sena da virada
 é unânimidade, vamos pular essa parte.

Deseje nesse fim de ano tudo aquilo que realmente importa para você. Não importa que seja brega, apenas deseje. Deseje e faça a sua parte. Quem sabe acontece...

Se já não o tem, tenha coragem de querer um amor pra vida inteira, de querer que o seu trabalho te renda o que você merece. Mas, não se esqueça de querer perceber as oportunidades de facilitar a vida de quem puder e, assim, se fazer melhor como ser humano.

Queira e aja para ter saúde para poder fazer o que precisa. Para poder fazer mais por você e por quem ama.

Se não tem seu grande amor, mas quer, não perca nem o seu tempo e nem faça ninguém perder o próprio ( porque o tempo passa rápido demais!), em relações amorosas que não tenham por base a amizade profunda, a boa-vontade, o carinho, a compreensão, um toque especial em tudo e, também, muita atração, namoro e sedução. Mútua, é lógico. Uma relação feliz e com vontade de se tornar uma linda história de amor. Lembre-se, cada palavra dita será escrita nessa história, por isso, pense em todas que falar.

Se você já tem uma relação feliz, cultive-a com todas as suas forças. Se não, procure alguém que desperte, em você, o seu melhor lado. O Mais atencioso. O que vai te fazer sentir orgulho de amar tão bonito. O que vai fazer com que ame o amor que sente.

Queira que esse amor te faça escrever poesias, fazer músicas e levar essa magia para todos os outros afazeres da vida. Fazendo-os mais leves e dando a tudo um significado; fazer feliz a quem você ama, porque esse é o único caminho para a própria felicidade.

Queira uma vida nova, não apenas porque é Ano Novo, mas, porque tudo é sempre novo. E, às vezes, chega um momento que não se tem escolha. TEM que se ter uma vida nova, o Ano Novo é apenas um marco. Um símbolo.
Todo mundo acredita profundamente nas próprias decisões de Ano Novo. Nem vale a pena citar as mais populares, todo mundo já sabe.
O Importante é ter esperança. Esperança em si. De que vai cumpri-las, senão todas, pelo menos as decisões mais importantes. Principalmente as decisões que levem em conta fazer o bem.
É impossível ser feliz sozinho...

É tão lógico...se você é uma pessoa egoísta, só pensa em si e em suas necessidades e desejos, sua chances de felicidade são mínimas. Porque só poderão vir de você mesmo. Resume-se a uma pessoa só. Que, geralmente, são as que mais comemoram gastando o máximo que podem. É o auge da felicidade. Comemorar suas conquistas com quem não tem ligação afetiva alguma, com quem nem se sabe o nome. A euforia vazia. O que se comemora é o dinheiro. A Felicidade não está presente.  E o vazio é mais forte do que o dinheiro.

Uma pessoa que participa, compartilha, ajuda e se importa, de verdade, com as pessoas a quem ama, aumenta suas chances de felicidade, elas se multiplicam na mesma proporção das pessoas por quem torce. Cada uma delas que for feliz trará felicidade para você também. A felicidade de alguém por quem torcemos é contagiante. Nos faz acreditar num mundo melhor, mais parceiro. E, quanto mais a gente torce por alguém, quanto mais desejamos o sucesso alheio, mais chance temos de ser felizes. É tão lógico.

E, se você tiver tudo isso, não se preocupe. Com essa motivação, cumplicidade, carinho e determinação, qualquer um chega onde quiser com relação a dinheiro.
FELIZ ANO TODO!
SEMPRE!

GENTE É DESCARTÁVEL? - Walcyr Carrasco

Emprego, amizade e até o amor – 
será que tudo agora tem prazo de validade, 
como lata de ervilhas?

Convidado a jantar na casa de uma amiga, estranhei a falta de sua funcionária de muitos anos, sempre responsável por delícias gastronômicas. Estranhei. Perguntei pela cozinheira, sempre sorridente, que eu já cumprimentava com beijinho.

– Ah, demiti.

– Aconteceu alguma coisa?

– Ela passou do prazo de validade. Chamei outra.

A resposta me arrepiou. Cada vez ouço mais que alguém “passou do prazo de validade”. A expressão se inseriu no vocabulário. Como todos os elementos da linguagem, seu significado é maior que as palavras, simplesmente. Empresas costumam ser severas quanto ao que consideram como prazo de validade de um funcionário. Em geral, no máximo aos 60 anos, quando não aos 40, o executivo vai para a rua. Mesmo os de alto cargo. O argumento é sempre o mesmo, como ouvi certa vez de uma diretora de RH.

– A gente precisa renovar.

Alguém de 60 anos ou mais pode ser papa, presidente da República, e não diretor de departamento? Idade é necessariamente fator de renovação? Conheço jovens de cabeça fechada. Homens e mulheres maduros sempre abertos a ideias novas. Empresas, porém, têm esta política: envelheceu, perdeu. Quando alguém dedicou 20, 30 anos da vida a uma grande corporação, vai fazer o quê? Inicialmente, o demitido procura novo trabalho. Com muita frequência, seu currículo é preterido por alguém mais jovem. Às vezes se propõe a ganhar menos, aceita até uma posição menor. Ainda tem de ouvir o argumento:

– Achamos que era um cargo pequeno para você, que não se adaptaria. Merece mais.

Ele ou ela agradece, ganhou um elogio. E sai desesperado, porque o dinheiro no banco está acabando, o condomínio do apartamento de luxo, antes fácil de pagar, agora se tornou altíssimo, os filhos reclamam que querem grana para sair com os amigos, comprar roupas. Muitas vezes, o demitido monta empresa própria. Um grande erro. Em geral, acostumado a uma grande corporação, não consegue se virar com sua pequena empresa, sem estrutura. O dinheiro escoa, porque também não consegue diminuir o padrão de vida. Já vi o antigo CEO de uma empresa da área elétrica transformado em motorista de táxi. Como outros, montara a própria empresa, perdera tudo. Nunca mais conseguiu trabalho. Conheci outro motorista de táxi, antigo gerente, de porte médio. Ao ser demitido, depois dos 40, foi rápido:

– Vi meus amigos procurando emprego e batendo com a cara na porta durante um tempão, gastando o Fundo de Garantia, a grana da demissão. Esperei três meses, não apareceu nada, comprei o táxi e parti para outra.

Dei dois exemplos, a doméstica e o executivo, porque isso acontece em todas as classes sociais. As pessoas se tornaram descartáveis. Muitas vezes, quando entram em crise, por doença, separação, problemas, enfim, sua produtividade cai. Dão uma resposta indevida, demonstram nervosismo. O empregador resolve que passou do “prazo de validade”. No momento em que mais precisam de apoio, perdem o emprego. É difícil.

O mais chocante é que também tenho ouvido a mesma expressão para definir sentimentos e relações. Um amigo explicou sua separação.

– Nosso casamento passou do prazo de validade.

Como é? Então o amor é como uma lata de ervilhas, que vem com data de vencimento na tampa? Amizade também? Há muito tempo, quando minha avó Rosa, tão querida, morreu, fui ao enterro. Fiquei até colocarem o último tijolo no túmulo. De noite, recebi alguns amigos em casa, bati papo, mas com um nó no estômago, vocês sabem como é. De repente um deles se saiu com esta:

– Hoje, você está insuportável.

Nunca me senti tão agredido. Levantei e pedi a todos para saírem.

– Estou insuportável porque minha avó morreu, e isso dói muito – disse. – É melhor ficar sozinho.

Pediram desculpas, mas insisti para nos vermos outro dia. Creio que estava chato, irritado, sem sorrisos. Saíram ofendidos. Hoje, certamente diriam que nosso “prazo de validade” tinha acabado. Mesmo porque ficamos muito distantes a partir de então. Se eu não estava bem para participar da alegria alheia, me tornara descartável.

Tratar funcionários, amigos, amores como se tivessem a durabilidade de um pedaço de bacalhau, no máximo, é uma crueldade incorporada à vida de boa parte das pessoas. Se você acha que as pessoas têm prazo de validade, só precisa se fazer uma pergunta. Como agirá quando alguém disser que chegou o seu?

O SONHO DE TIM MAIA, AZUL DA COR DO MAR .- Mônica El Bayeh

Já viu Tim Maia? Eu já. Duas vezes. Se me chamarem, ainda encaro mais uma. É um bom filme. Não o melhor, nem o mais lindo. Tim Maia faz pensar na vida. Esse é o diferencial. Saí melhor do que entrei.

Ganhei meu primeiro LP do Tim Maia por volta dos dez anos. Adorava, ouvia o dia inteiro.

Desde então Tim Maia marca as festas, as fases da minha vida e já encanta meus filhos. No entanto, o homem que faz todo mundo esquecer a vergonha e correr para as pistas sofria muito. Paradoxo? Talvez não. Dor é moenda. Tira bom suco da gente.

Se Deus vê tudo, deve haver um monte de pontos cegos no caminho. O pensamento de Tim é nosso também. Por que só comigo? Por que Ele não me olha e dá uma ajudinha? É marcação? É pessoal? Taquei pedra na cruz? Se der tempo ainda, Deus, eu me arrependo muito e não faria de novo! Agora dá para dar uma aliviada?

Tim Maia a essa altura do campeonato já deve ter confirmado sua tese. Ou mudado de opinião de vez. Eu por aqui divago. Não creio que Deus tenha pontos cegos. Nós é que somos caolhos. Temos pontos de todo tipo: cegos, surdos, mudos, míopes e daltônicos.

Pontos frouxos que desmancham quando deveriam segurar. Outros tão apertados que nos rasgam por dentro. Nosso bordado é torto. Jogamos no que vemos, acertamos o que não vemos. E isso nem sempre quer dizer boa coisa.
Tropeçamos nos próprios afetos. Nos enforcamos nas relações. E, sim, colocamos a culpa em Deus, no azar, na vida. No fundo sabemos bem que não é. Mas assobiamos e saímos de fininho na hora da conta.

- Meu maior inimigo sou eu mesmo! O caminhão que atropelou a vida tem o meu nome na placa.
Deu vontade de gritar:
- O meu também, Tim! O meu também! Eu te entendo!

Não gritei. A vergonha foi maior. Mas o chapéu me serviu como uma luva. Quantas vezes a gente se boicota? Se esforça de menos, aperta demais, larga de mão quando era para cuidar?

Meu caminhão é daqueles grandes tipo Scania e atropela buzinando. O estrago é medonho. Tenho de varrer os cacos depois. Energia e tempo desperdiçados. Fora o esforço até consertar o mal feito.

Quando se aprende, ainda vale de alguma coisa. Nem sempre aprendemos a lição. Algumas pessoas passam a vida repetindo os mesmos padrões. Se metem nas mesmas roubadas. Se perguntam por que só com elas dá errado. Com um cardápio inteiro pela frente, elas escolhem as mesmas opções.
Somos nossos piores inimigos e nossos melhores amigos também. Quando somos bons, somos ótimos! Difícil é sair do buraco que a gente cava. 

Sebastião Rodrigues Maia, Tim Maia, fez muita besteira na vida. A gente não precisa do filme para saber. Quem é da época lembra. Não ia aos shows, brigava, falava na cara o que pensava. Não soube sustentar a fama que tinha condições de ter.

Essa parte dá pena. Dá raiva. Por que não reagia? Por que não fez diferente se era, reconhecidamente, brilhante? Porque não deu. Porque às vezes a gente não dá conta das dores, dos amores mal amados, dos pés na bunda, do rasgo do que não deu certo. Dos fracassos e das vitórias. A alma esgarça.
Tudo o que se quer é sossego. E onde se compra? É duro achar que está entrando na primavera, se encher de esperança e ver o inverno chegar outra vez. Cada um é que sabe o tamanho das dores que leva no peito. Não cabe julgar.

Julgamos. É do ser humano o vício de olhar o outro já com a sentença escrita de véspera. Jamais saberemos as chagas escondidas e sangrentas de cada um. Tim Maia lutou.  Foi um guerreiro.

Um guerreiro que não conseguia se manter vitorioso. Mas levantava e recomeçava. Nesse sentido ele me representa. Nas falhas, nos vacilos, nos boicotes. E, sobretudo, na coragem de refazer.  E de afirmar que quem sofre tem de procurar razão para viver.

Tim sofreu e criou. Ele conseguia ver na vida algum motivo pra sonhar. Suas músicas são um sonho azul da cor do mar. Quem sabe a vida não é fazer de conta que ainda é cedo e deixar falar a voz do coração? Se é vida, vale tudo!

NOSTALGIA INSTANTÂNEA - Luís Antônio Giron

A corrida tecnológica tanto nos faz avançar 
como nos envelhece em alta velocidade

É uma sensação de perda irresistível. O homem contemporâneo sente como jamais sentiu a saudade de uma hora, um minuto atrás. Não lhe afetam apenas os fatos, como também os objetos e seu aspecto que se esvaem num átimo. Como se ele fosse um Marcel Proust dotado de um processador ultrarrápido, ou de um acelerador de partículas quânticas, identifica o passado no presente recém-chegado, o qual já lhe parece um item dos antiquários do futuro. E o futuro é o passado distante em retroação – o ulterior demônio imemorial como diria nunca mais lembrado Stéphane Mallarmé.

Vivemos, assim, a era da nostalgia instantânea. Ela resulta da corrida tecnológica e do modo como esta moldou novas formas extremamente sensíveis de viver e sentir o mundo e a passagem do tempo. São sistemas operacionais e designs de telefones celulares e computadores, entre outras engenhocas, signos e programas, que se atualizam o tempo todo, não dando tempo aos usuários de se acostumar com a novidade imediatamente anterior, e assim para trás e para diante.

A moda foi o primeiro sistema de comunicação que adotou a novidade como princípio motor – e a descartabilidade como seu contrapeso. O lançamento periódico das coleções de roupas e assessórios se atropelam para impulsionar a indústria e provocar o efeito de ultrapassagem sobre os consumidores. Diante de visualidades inédiaos – recicladas ou inventadas -, as pessoas se sentem elas próprias obrigadas a embarcar na novidade, sob pena de serem decretadas velhas e fora de moda.

A partir dos movimentos de vanguarda do século XX, as outras artes (se considerarmos moda uma forma de arte) seguiram a moda e se apresentaram como fábricas de modelos ou peças que pretendiam ser a última novidade e, dessa forma, apontar tendências. No entanto, as revoluções estéticas foram tão avassaladoras que resultaram em um ambiente de entropia, de caos e saturação de informação tão fortes que as pretensas novidades se igualaram e caíram na vala comum das velhas obras novas.

Hoje, a moda e as artes se sincronizaram e se tornaram servas do design, em especial o design de produtos tecnológicas de ponta. Os designers industriais criam objetos e aplicativos impalpáveis que se vendem como sexualmente sedutores. Nada mais “sexy” do que os produtos da Apple. O fundador da empresa, Steve Jobs, e seu designer mais talentoso, o inglês Jony Ive, elevaram a tal ponto a ânsia pelo ineditisimo, que fundaram uma espécie de religião real da arte pela arte na tecnologia. O livro Jony Ive – o gênio por trás dos grandes produtos da Apple (Companhia das Letras, 310 páginas, R$37,90, e-book: R$ 29,90), do jornalista de tecnologia americano Leander Kahney, tenta explicar como se deu a gênese desta religião que, ao pregar o último grito, instaura a obsolescência como um veneno da alma. Um veneno que se tornou a força maior da transformação da sensibilidade do consumidor.

Kahney demonstra que a atual guerra tecnológica nasceu de uma mudança de paradigma na indústria hi-tec que aconteceu dentro do campus da Apple, sua sede em Cupertino, Califórnia, quando Steve Jobs voltou a ocupar a presidência da empresa, em 1997. Embora sem formação universitária completa, Jobs era dotado de uma intuição e de um conhecimento avançado em design gráfico, especialmente em estilos de tipologia gráfica. Isso lhe permitiu determinar a forma e operação dos aparelhos que geraram a atual revolução dos dispositivos móveis com o iPod, iPhone, iPad etc. Jobs era um esteta. Acreditava que a tecnologia só avançaria se o design industrial guiasse o trabalho dos engenheiros. Até então, a produção de alta tecnologia se dava pelo lado inverso: eram os engenheiros que criavam as máquinas para depois passarem aos designers, então meros joguetes nas mãos dos engenheiros. Invertendo o processo, Steve Jobs forjou os mantras: “O design é como funciona” e “a sofisticação é a extrema simplicidade”.

Foi nesse processo de inversão evolutiva que Jony Ive elaborou, em moldes de isopor, os protótipos do iPod, do iPhone e do iPad: pensava na beleza e na funcionalidade dos objetos, criando modelos que só então passavam a ser discutidos com os engenheiros, agora reduzidos a executores. Eis a razão da excelência estética superior dos objetos da Apple. Por isso viraram objetos de culto. Há poucos meses, Jony Ive foi convidado a desenhar pela primeira vez o sistema operacional do iPhone e companhia. Ele criou os ícones planos, simples e sofisticados do IOS 7, levando para o plano do software o que ele já fazia no hardware. O resultado é de uma extrema beleza, da qual queremos quase desviar os olhos.

Serão os objetos da tecnologia de ponta o resultado de uma arte que agora mostra toda o poder e importância? Certamente sim. E mais: essas modalidades de avanço, que conjuram as estratégias mais eficazes da moda e das outras artes, levam a sensibilidade do consumidor às raias da loucura.

Transformam o descartável em antiguidade, pois, ao tornar obsoleto e inoperante o que mal havia sido uma novidade assombrosa, refugam itens que adquirem um certo miasma de aura, de aparição única de algo imediatamente distante e irrecuperável. Numa inversão do processo de descarte, à medida que refugamos objetos e atualizamos os processos de software, passamos a sentir falta e a cultuar aplicativos, sistemas e modelos do recém-passado. Se o usuário se fascina pelos novos comandos e funções, ele sente saudade dos que acabaram de sair de cena. O IOS 6 já é uma antiguidade rara, e logo abandonará todo smartphone que se preze. Será uma reles obra de arte.

O imperativo da obsolescência em alta velocidade dá origem ao sentimento da nostalgia instantânea e, com ela, o amor e o luto por aquilo que acabou de acontecer. Eis aí um sentimento novo. É como se o envelhecimento pudesse ser abreviado e experimentado em um milésimo de segundo. O fenômeno nos ensina a examinar com maior precisão a obsolescência em todos os níveis: na troca cada vez mais rápida das gerações e das pessoas, dispositivos, aplicativos, linguagens, falas e modas. Percebemos características e defeitos do aspecto do mundo em 2011 e 2012, tão diferente e velho se comparados aos de 2013, que agora abandonamos não sem certa dor passadista. Tudo se converte em “vintage” – ou, mais precisamente, em proto-retrô. A urgência pela novidade e pela morte da novidade se dá como uma erupção da alma destes tempos – ou o espírito desta falta de tempo de nossos tempos. Será que um dia o homem sentirá a nostalgia de uma era em que a eternidade parecia existir? Talvez nunca mais.

CARTOMANTES - Fernanda Torres

Ler e reler os contos de Machado de Assis tem sido um exercício que faço há muitos anos. Uma fonte inesgotável, na qual se bebe o que há de melhor na literatura universal. De alguns deles guardo na memória trechos inteiros. Em muitas das minhas novelas coloquei, entre os personagens, uma dessas mulheres que saciam e seduzem os curiosos do futuro: ficarei rico? Serei amado? Conseguirei o emprego? Serei ou estarei sendo traído? Nos postes do Leblon podem-se ler anúncios com a promessa de uma cartomante de trazer de volta, em menos de 24 horas, os amantes perdidos. É um sucesso. Na pesquisa que foi realizada para uma das minhas novelas — Por Amor, se não me engano —, garante-se que as mulheres é que formam o maior número de interessados.

No último fim de semana reli “A cartomante”, que está entre os meus contos preferidos. E após a releitura me lembrei — como sempre acontece — de uma história no mínimo intrigante pelo desfecho inesperado, ainda que oposto, que eu trago agora até vocês.

Tive um amigo que me contou ter ido um dia a uma cartomante, curioso em saber o que lhe reservava o futuro.

A mulher pôs as cartas na mesa, deu as respostas desejadas e, já no final da consulta, ele quis saber sobre o tempo de vida que ainda teria pela frente. A cartomante demorou alguns segundos olhando as cartas e depois fixou os olhos nele.

— Quer saber mesmo?

— Claro, pode dizer.

— Fique atento ao mês de maio dos anos pares.

— O que você vê nesse período?

— A morte. Não tenho como lhe dizer quando será, mas posso lhe garantir que maio será o mês e o ano será par. E, antes que ele perguntasse mais alguma coisa, ela ainda especificou:

— Entre os dias 5 e 9.

Roberto (era esse o nome dele) me disse que saiu de lá não propriamente preocupado, mas com aquelas informações teimando em permanecer na sua cabeça: maio. Ano par.

Entre os dias 5 e 9.

Estávamos em 1963, alguns dias antes do Natal.

Tínhamos então 30 anos. Ainda que ele não acreditasse nas cartomantes de fundo de quintal, como chamava essas mulheres que se fingem de ciganas, viu passar muitos maios, experimentando sempre certa ansiedade que só acabava no dia 1º de junho.

Era casado duas vezes e tinha três filhos: um menino da Eunice, a primeira mulher, duas meninas da segunda, a Vilminha. E na época em que me contou essa história estava de romance firme com Cristina, com quem pretendia se casar pela terceira vez.

— Ela é a verdadeira mulher da minha vida inteira.

A que veio para ficar. As outras só passaram.

Um mês antes de completar 40 anos, ao lado da Cris, num domingo de Fla-Flu e após um churrasco com amigos, Roberto fechou os olhos para dar um cochilo, mas aconteceu de pegar no sono. Num longo sono do qual nunca mais acordou.

Quando eu soube da sua morte, consultei o calendário para me certificar.

Estávamos em maio de 1973.

Dia 9, precisamente.

MULHER NÃO É CAVALA - Mariana Fusco Varella

O nariz deve ser ligeiramente arrebitado e afilado, permitindo que a distância até o lábio forme um ângulo de 106o. O abdômen não pode ter nenhuma gordura, sua musculatura deve ser hígida. Cintura fina, seios fartos e empinados, coxas grossas, cabelo liso e comprido, um tipo definido como “cavala”.

Não é de hoje que se comparam mulheres a animais, mas o padrão de beleza estabelecido atualmente vai além: separa a pessoa em partes, desprezando o todo.

E as mulheres passam a desejar e perseguir cada item, montando um corpo que nada tem de natural e harmônico. Para isso, abusam de lipoaspirações, próteses, botox, preenchimentos e dietas, colocando a saúde em risco.

Não é possível recriminá-las: na ânsia de serem aceitas, elas seguem aquilo que se espera delas, reproduzindo um comportamento que lhes é imposto desde a infância.

Os meios de comunicação, por sua vez, exploram a imagem da mulher perfeita, linda, realizada e feliz. Sabem muito bem que associar beleza e felicidade é uma receita, há tempos, bastante lucrativa.

A indústria de beleza também lucra com o padrão estabelecido. Somos campeões mundiais de cirurgias plásticas estéticas e o segundo maior mercado consumidor de cosméticos do mundo. Procedimentos estéticos e produtos de beleza vendem a ilusão de que poderemos alcançar, desde que tenhamos dinheiro, um padrão de beleza inquestionável.

Será que realmente desejamos que nossas meninas passem a vida perseguindo o corpo perfeito? Que gastem tempo, dinheiro e a saúde atrás de um padrão de beleza que, na maioria das vezes, nada tem a ver com o delas?

Na verdade, vendemos-lhes uma mentira. A felicidade não está no corpo dito perfeito, elas não serão mais amadas caso o conquistem, nem terão uma vida melhor.

Em vez disso, deveríamos ensinar-lhes a viver com saúde, respeitando o próprio corpo e suas características. A autoestima não é algo dado, mas construído por meio de vivências positivas que reforcem o amor próprio e a confiança em si.

É preciso parar de iludi-las, de comparar mulheres a bichos, bonecas, frutas e outros objetos inanimados, de aceitar que elas sejam vendidas aos pedaços para satisfazer uma sociedade machista que, além de não se importar de fato com elas, será a primeira a descartá-las quando elas não mais servirem a seus propósitos.

Encerro aqui com uma frase famosa da escritora francesa Simone de Beauvoir: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Resta saber que mulher desejamos que nossas meninas se tornem.

AS APTDIDÕES PROFISSIONAIS DOS 12 SIGNOS DO ZODÍACO

ASTROS REVELAM AS APTDIDÕES DOS SIGNOS E 
COMO ISSO PODE MELHORAR SUA VIDA PROFISSIONAL.

Não importa se você está procurando emprego ou buscando ascensão na empresa ou organização onde está. A astrologia pode ser uma boa ferramenta de autoconhecimento e de descoberta de aptidões naturais e potencialidades, segundo alguns consultores.
- A astrologia pode ser importante para as empresas. Fazer o mapa dos funcionários pode ajudar, inclusive, a posicioná-los na função mais adequada, que seja mais coerente com sua essência - diz Vera Gomes, psicanalista e astróloga.
Mesmo que você não acredite em astrologia, vale a pena dar uma conferida no perfil de cada signo do zodíaco. Afinal, em alguns países - como a China - recrutadores chegam ao ponto até de rejeitar ou dar preferência a candidatos a empregos, tendo por base a posição dos planetas no momento do nascimento.


Veja o perfil profissional de cada signo:


Áries (21 de março-19 de abril) - Como tem uma energia de busca de identidade e de afirmação muito forte, apresentam grande criatividade, independência e autonomia. São bastante competitivos e são líderes natos. Com forte espírito empreendedor, são desbravadores e pioneiros. São bons para solucionar problemas e não são do tipo que se contenta em ficar todos os dias atrás de uma mesa, das 9h às 17h. Dinheiro nenhum o compensaria por estar preso a um trabalho rotineiro.
São movidos por obter uma posição valorizada, para satisfazer suas tendências competitivas. Têm necessidade de novos e desafiantes projetos. Tipicamente, gostam de ter um senso de responsabilidade e precisam se sentir necessários. Preferem trabalhar sozinhos ou à frente de pessoas menos experientes.


Touro (20 de abril-20 de maio) - São muito ligados ao valor, especialmente daquilo que produzem. Podem trabalhar incansavelmente, mas, se perceberem que não são valorizados ou bem pagos, desistem e procuram outro emprego. São leais, trabalhadores sensatos e metódicos, do tipo que segue os projetos passo a passo, até o fim. Normalmente são muito cuidadosos e um pouco lentos, mas sempre terminam o que começam.
Não são muito maleáveis. Se têm de trabalhar em um ambiente caótico, não serão felizes e se comportarão como crianças teimosas. Eles podem reagir assim também se tiverem de trabalhar rodeados de pessoas ignorantes ou se tiverem um trabalho onde não há potencial óbvio de crescimento. Eles querem ganhos materiais, aumentos de salário e mais poder. Possuem grande capacidade produtiva e talento estético.


Gêmeos (21 de maio-20 de junho) - Têm grande capacidade para transmitir conhecimentos, comunicar-se, negociar e se articular com as pessoas. Possuem grande agilidade, versatilidade e curiosidade. Costumam ser profissionais perspicazes, que captam rapidamente informações. A troca de informações, para o geminiano, é muito importante. Precisam conviver com diversidade de assuntos e de espaços e têm boa capacidade de realizar e desenvolver várias atividades ao mesmo tempo.
Podem ter dificuldades em se concentrar em uma única coisa por longos períodos de tempo. Eles florescem com interação social . É natural encontrá-los circulando de mesa em mesa, conversando e fofocando. Eles são muito persuasivos, adoram negociar e conseguem realizar o melhor negócio para todos os envolvidos. Seu humor pode flutuar amplamente, bem como sua produtividade. Precisam de novos e frequentes estímulos.


Câncer (21 de junho-22 de julho) - Extremamente sensíveis, sentem primeiro, para depois realizar. Possuem um forte instinto assistencial: gostam de cuidar das pessoas. Sua percepção e intuição são fortes. Para o canceriano, o trabalho não é uma forma de satisfazer o ego, apenas um meio de ganhar a vida. Eles são trabalhadores estáveis. Sua motivação é a segurança. Quanto mais tempo permanecem em um emprego, mais reconhecimento financeiro desejam. Como não querem se preocupar sobre como se sustentarão amanhã, precisam de uma posição estável, sem muito risco.


Leão (23 de julho-22 de agosto) - Quem é deste signo de fogo possui grande autonomia e independência, além de um talento artístico nato. Precisam sentir que no local de trabalho também se divertem, têm alegria. Costumam ser bons gestores: são bons líderes e têm grande poder de comunicação. Apreciam improviso, especulações e riscos. Leoninos precisam se sentir especiais, precisam ser reconhecidos. Costumam ser generosos e carinhosos, mas, se notam que não são reconhecidos, podem demonstrar agressividade.
Mesmo se não puderem liderar, eles procurarão cada oportunidade para aumentar seu próprio status. Desejam tanto progredir que costumam tomar mais responsabilidades e se sobrecarregando. Além disso, sabem se autopromover, contando seus “feitos” a colegas e superiores. Muito vaidosos, demonstram sua coragem em situações complicadas.


Virgem (23 de agosto-22 de setembro) - São extremamente trabalhadores. Equilíbrio e autoestima estão diretamente ligados à sua ocupação profissional. Possuem mentes privilegiadas, analíticas. Têm grande capacidade de organização, de sistematizar processos, bem como grande talento para coisas práticas e para a área de saúde. São detalhistas, críticos e perfeccionistas. Uma de suas maiores motivações é servir aos outros.
Eles se contentam com um trabalho duro, básico e honesto. Seu contentamento, porém, não é sempre aparente, pois muitas vezes reclamam. São francos e honestos e não medem as palavras quando acham que algo não está certo. De certa forma, adoram se preocupar. Precisam de projetos detalhados e cheios de minúcias, e apreciam reconhecimento.


Libra (23 de setembro-22 de outubro) - Focados em relacionamentos e comunicação, são ligados à arte e à estética. Extremamente justos, atuam muito bem em grupo e têm forte habilidade para lidar com o público, além de um forte senso de justiça. Precisam de harmonia e equilíbrio. Se estão fazendo um trabalho de equipe, por exemplo, consideram muito importante que as pessoas estejam em sintonia e com os mesmos objetivos. Idealizam demais.
Detalhistas e dedicados, têm natureza sensível. Gerentes e colegas acham-nos às vezes difíceis de lidar. Num dia, o libriano pode parecer ser o mais brilhante, dedicado e ambicioso funcionário que existe. No dia seguinte, pode estar depressivo, irritado e incapaz de produzir. São capazes de ter pensamentos lógicos profundos e de avaliar todos os lados de uma situação antes de agir, pois estão entre os signos mais inteligentes. São exímios pesquisadores e mediadores. Podem atuar como mediadores de conflitos.


Escorpião (23 de outubro-21 de novembro) - São extremamente sensíveis, embora consigam nem sempre transparecer isso. Dirigem esforços para ter poder, segurança e recompensa financeira. Geralmente conseguem isso, pois têm grande habilidade de administrar recursos, sejam materiais, econômicos, físicos, emocionais e psicológicos. Por isso, costumam ser bons gestores. Sua energia de regeneração e reconstrução é muito forte. Trabalham muito bem sozinhos, em grupo ou liderando. São cautelosos, estrategistas e corajosos. Têm forte determinação.
Emanam uma autoconfiança silenciosa. Eles são autosuficientes e não dependem dos outros para se sentirem importantes. Mantêm sua vida privada separada do trabalho e assumem completa responsabilidade por seus atos e sua situação. Não se incomodam de se manifestar, quando acham que algo está errado.


Sagitário (22 de novembro-21 de dezembro) - Buscam sua identidade e realização pessoal para ampliar seus horizontes intelectuais e compreender a natureza humana. Têm ótima expressão verbal e se comunicam muito bem. Têm visão de longo alcance. Têm talento enorme para comunicação e propagação de novas ideias. Necessitam de expansão, de prestígio. Sempre têm ideias para implementar algum projeto. Acreditam na prosperidade, na esperança, no otimismo. Precisam ter liberdade no trabalho, inclusive para “fugir” de vez em quando. Têm necessidade grande de sucesso, crescimento e expansão.
Cabeças-duras e entusiasmados, estão sempre querendo ajudar. Emanam autoconfiança e encaram as tarefas como se não houvesse amanhã. Eles desejarão encampar até mesmo o mais difícil dos projetos, desde que seja suficientemente desafiante e os tire da rotina. Sua personalidade radiante e honesto entusiasmo atuam como um holofote no ambiente de trabalho - embora alguns colegas possam alimentar uma certa animosidade diante de sua arrogância e/ou extravagância. Gostam de buscar conhecimentos, de pesquisar e analisar. Não costumam cumprir ordens cegamente: precisam entender o método e a razão por trás do processo todo. Precisam de novos desafios e projetos, com frequência, para manterem-se motivados.


Capricórnio (22 de dezembro-19 de janeiro) - Precisam de milhares de projetos e de muita responsabilidade, pois têm necessidade de se sentirem úteis. São ambiciosos, de maneira velada, além de sérios e determinados. Podem arrasar até os mais duros adversários, com sua persistência. Se estabelecem uma meta, trabalham duro até o final. Capricornianos não trabalham de graça - pelo contrário, esperam ser bem pagos - e costumam ter plena consciência do seu potencial. São grandes administradores e planejadores.
Com um forte senso de dever e respeito em relação a seus superiores, é raro que eles se juntem ao grupinho para falar mal do chefe ou do “sistema”. Podem se sentir frustrados, porém, com esquemas gerenciais que desafiem o senso comum, e logo mostram um áspero e crítico senso de humor.


Aquário (20 de janeiro-18 de fevereiro) - Têm grande capacidade intelectual, criatividade e intuição. Acreditam que todos têm o poder da própria liberdade. Adoram trabalhar em grupo, têm forte instinto assistencial e possuem habilidades de antecipar tendências. Estão abertos a novidades. Não toleram injustiças no trabalho e tendem a ajudar todos a ver o lado bom de uma situação ruim.
O que quer que seja que estejam fazendo, eles o farão conscientemente. Sua inteligência e confiabilidade acabam conquistando muitos amigos. Aumentos não são tão importantes para eles quanto aprender coisas novas, ou seja, dinheiro nenhum os fará desejar permanecer numa posição estagnada.


Peixes (19 de fevereiro-20 março) - Muito sensíveis e perceptivos, têm grande capacidade de captar energias externas. Qualquer que seja a sua profissão, ela tem que satisfazê-los intimamente. Têm grande senso estético, lidam bem com imagens. Possuem forte instinto assistencial. Costumam ser funcionários leais e trabalhadores. Na função certa, são capazes de deixar seus sonhos de lado e se dedicar com afinco a um chefe ou organização/empresa.
Por outro lado, um funcionário pisciano mal aproveitado agirá como se sua baia fosse uma cela de prisão, além de ficar sonhando com seu próprio negócio ou com as próximas férias. Geralmente tímidos e introspectivos, eles mantêm sua verdadeira natureza escondida, por temer que ela não se encaixe na cultura corporativa. O que motiva um funcionário de peixes a se fixar em um lugar, além da excelência, é saber que seu trabalho repercute de forma positiva na empresa.
ISABEL KOPSCHITZ

AS HORAS - Elisa Palatnik

Tadeu guardava o tempo para um dia quando precisasse. Juntava todas as horas, minutos e segundos disponíveis e embrulhava-os em pequenos sacos plásticos com suas devidas especificações: horas de descanso, minutos de folga do trabalho, feriados. Assim, se acabava o asseio diário mais cedo, nada fazia com o tempo que sobrava, conservando-o intacto, novo, sem uso, escrevendo em sua embalagem a procedência. Depois de anos de controle, quando evitava qualquer atividade que não fosse o absolutamente necessário, ficando em estado de latência profunda a cada hora vaga, tinha acumulado duas mil, trezentas e vinte horas e dois segundos. Isto sem contar o tempo de um sujeito chamado Ubaldo, que lhe vendeu trezentas horas sem uso.
Ubaldo era um homem que não trabalhava, não tinha família, e sua única paixão era a música, e seus instrumentos de sopro. Tadeu descobriu mais tarde que duas destas trezentas horas estavam gastas e teriam sido usadas para a limpeza de uma gaita de foles — resolveu a partir de então não comprar nem um segundo a mais de quem quer que fosse. Ubaldo, tendo tanto tempo de sobra, abriu uma loja de aluguel.

Ubaldo colocou à disposição as horas do seu dia para aqueles que precisavam mais do que as vinte e quatro habituais. Alugava para as irmãs Contii — xifópagas —, que tinham que dividir seu tempo, ficando apenas 12 horas para cada uma; para o senhor Aumar, que estudava as estrelas e pedia somente as horas noturnas para suas observações. Chegou a alugar para uma noiva desesperada já no altar, à espera do noivo que não aparecia. E finalmente alugava para José Josias, um homem que só tinha 18 horas por dia — que já havia nascido assim, com seis horas a menos do que o normal. Em função desta deficiência congênita, o rapaz era obrigado a fazer tudo sempre ligeiro, para compensar o pouco tempo que lhe cabia.

José Josias tornou-se cliente fixo de Ubaldo, mas quando soube da existência de Tadeu e suas milhares de horas guardadas e novas, manifestou imensa vontade de comprá-las. Preocupado com a insistência do homem, que se mostrara amargo e violento, Tadeu usou 815 minutos para pensar o que fazer. Como precaução resolveu esconder seu tempo, espalhando-o pela casa, em todos os cantos, buracos e frestas. Inclusive dentro do baú de seu bisavô, onde encontrou o tão procurado diário — diário que dizia esconder, em algum lugar do porão, preciosos segundos do século XIX. Só então recebeu José Josias. Inventou uma boa história e convenceu-o de que não podia desfazer-se de nenhum minuto, de que sua causa era nobre; que um dia doaria todas aquelas horas para asilos, instituições de caridade, hospitais. Sensibilizado, José Josias (que embora amargurado não era má pessoa) ofereceu a Tadeu vinte minutos como contribuição. Obrigou toda família a fazer o mesmo e espalhou a história por toda parte. 

Pessoas humildes e simplórias, também iludidas, doaram caixotes e caixotes cheios de horas, minutos, segundos, décimos de segundo. Tadeu começou a receber homenagens, a adquirir fama e prestígio. Mais tarde, considerado um benfeitor, foi eleito chefe de governo.
A cidade nunca se arrependeu tanto. 

Tudo porque Tadeu, mesmo sendo um péssimo governante, com suas milhares de horas guardadas, conseguiu ficar 22 anos no poder.

SEXO E SENTIMENTO - Ivan Martins

Nosso prazer está ligado ao desejo por amor, 
mesmo que a gente não perceba

Sexo casual é uma experiência que boa parte da humanidade desconhece. Quando se conversa sobre o assunto, é fácil perceber que, na maior parte das vezes, aquilo que se chama de sexo recreativo ou casual merece outro nome.

Pode ser sexo aproximativo, por ser a maneira natural de expressar carinho e curiosidade por outra pessoa. Pode se sexo investigativo, porque é uma forma de saber mais sobre nossa afinidade com o outro. Às vezes é sexo equivocado, porque a pessoa parecia bacana. Frequentemente se faz sexo utilitário, porque aquele quarto em silêncio assusta.
Quando foi a última vez que você, leitor ou leitora, transou por simples desejo, sem expectativa emocional, razoavelmente sóbrio ou sóbria? Ou, posto de outra forma, quando você fez sexo com um completo estranho, com base apenas em atração física e circunstâncias? As duas coisas acontecem, mas constituem o padrão de poucos.

Para a maioria de nós, levar alguém para a cama é um ato emocional. O sexo é precedido de anseios afetivos e está encharcado de sentimentos.
Faz parte da sexualidade humana fantasiar sobre a mulher de corpo perfeito ou sobre o estranho de porte viril. Quantas vezes essas fantasias se realizam? A possibilidade existe, mas podemos atravessar a existência sem exercê-la. Na vida real, tiramos a roupa diante de gente que nos toca emocionalmente e se deixa tocar por nós. O desejo passa pelo filtro dos sentimentos, tanto quanto os sentimentos atravessam o filtro do desejo. Como separá-los?

As pessoas mais felizes nem tentam fazer a distinção. Percebem o sexo como uma busca prazerosa por níveis elevados de emoção. Se o ato de transar nos deixa emocionalmente indiferentes, tendemos a descartar o parceiro. A experiência simplesmente se esgota. Quando achamos o sexo bom, os motivos são emocionais. Ele ou ela nos deixa à vontade, nos excita, desperta o melhor ou o pior de nós na cama. Nos faz sentir melhor, enfim. Por isso nos vinculamos, por isso queremos mais. Acontece quando a recompensa emocional do sexo aumenta.

Chamam isso de romantismo. É apenas a descrição precisa dos fatos. Não significa que sexo não seja possível sem amor. Significa que nosso prazer está ligado ao desejo por amor. O sexo é uma celebração, outra vezes uma busca, muitas vezes uma fuga. Do amor. Existe sexo puro, animal, como se feito por bichos? Não sei. Acho que não. Mesmo os momentos intensamente físicos são amparados pelo conforto e a segurança dos afetos. Na ausência deles, instala-se um vazio assustador. É quando as pessoas vestem a roupa, se despedem e voltam para casa.


Perceber que o amor está por toda parte, como o desejo, não muda a forma como a gente vive. Nossa liberdade é soberana. Fazemos com nosso corpo o que achamos melhor. É nosso direito inalienável. Mas talvez seja bom descartar ilusões, como que seja possível separar sentimentos e comportamento sexual. Não é. O sexo nos dará prazer, nos machucará ou nos encherá de alegria ao sabor de nossos sentimentos. Sem eles, não acontece nada. Quando acontece, a gente nem gosta de lembrar.


O QUE É MENTE? - Silvia Helena Cardoso, PhD

O cérebro, ainda que seja a mais complexa estrutura existente na Terra - talvez no universo - é um objeto bem definido: ele é uma entidade material localizada dentro do crânio, que pode ser visualizado, tocado e manipulado. É composto de substâncias químicas, enzimas e hormônios que podem ser medidos e analisados. Sua arquitetura é caracterizada por células neuronais, vias neurais e sinapses. Seu funcionamento depende de neurônios, os quais consumem oxigênio, trocando substâncias químicas através de suas membranas, e mantendo estados de polarização elétrica interrompidos por breves períodos de despolarização.
Mas... e a mente ?
É impressionante verificar que mesmo após vários séculos de refexões filosóficas, árdua dedicação à pesquisa cerebral e notáveis avanços no campo das neurociências, o conceito de mente ainda permanece obscuro, controverso e impossível de definir nos limites de nossa linguagem.
Uma visão fortemente sustentada, é a de que a mente é uma entidade separada do corpo; esta especulação tem suas raízes históricas: teorias antigas, determinaram hipóteses dualísticas da função cerebral, as quais admitiam que o cérebro pode ser visto mecanicamente, mas que a mente é uma entidade com uma característica física não definida. Em tais teorias, a mente era vista como um sinônimo da alma, formando uma parte integrante da cultura religiosa prevalecente. Por exemplo, René Descartes (1596-1650), o filósofo francês, perpetuou o dualismo mente-corpo de Platão (428-348 A.C.), separando filosoficamente a mente e o corpo (1). Ele estimulou o debate "Como a mente não-material influencia o cérebro e vice-versa ?" . Suas idéias permearam visões filosóficas e cientificas até os presentes dias, mudando assim, a abordagem de pesquisa do problema do "eu". Desde que a mente e o cérebro passaram a serem vistos como entidades isoladas, as pesquisas nestas áreas foram, de maneira geral, inerentemente separadas. Bioquímicos têm se preocupado com mecanismos somáticos; psicólogos têm se esforçado com as propriedades subjetivas da mente; filósofos e teólogos trazem com eles o espírito e a alma.
Mente é uma definição que tenta resgatar a essência do homem. A essência de uma pessoa emerge da existência de funções mentais que permitem a ela pensar e perceber, amar e odiar, aprender e lembrar, resolver problemas, comunicar-se através da fala e da escrita, criar e destruir civilizações. Estas expressões estão estreitamente relacionadas ao funcionamento cerebral. Assim, sem o cérebro, a mente não pode existir, sem a manifestção comportamental, a mente não pode ser expressada.
Espírito e alma parecem ser interpretações religiosas e metafísicas da mente. A neurociência tem entendido o cérebro e a mente como resultado da investigação experimental. Aceitação ou rejeição da existência de espírito ou alma depende de fé ou convicção religiosa, as quais não podem ser provadas ou desaprovadas por métodos experimentais. Parece ser mais coerente pensar que crenças são dependentes da atividade fisiológica do cérebro e de nosso ambiente cultural. Nós não podemos ter conceitos religiosos se nós não temos um cérebro funcionante (por ex., como quando a atividade do cérebro é bloqueada por coma ou anestesia profunda), e nós não podemos acreditar em coisas que nós não aprendemos, ouvimos e experenciamos. Não é impossível pensar que algumas pessoas podem "aprender" a acreditar na existência de Deus, vida após a morte e forças sobrenaturais porque o cérebro é provido com centros emocionais afim de satisfazer necessidades psicológicas.
Eu frequentemente pergunto a mim mesma: "Existe alguma região cerebral envolvida com a experiência mistico-religiosa ? Poderiam lesões ou a ausência daquelas regiões abolir crenças religiosas? Ou, ao contrário, poderiam "tempestades elétricas" (hiperestimulação de circuitos neuronais) provocadas por crises psicóticas ou epilépticas estar atuando em circuitos cerebrais que processam um possível sentimento religioso?"
Os cientistas geralmente são relutantes em combinar trabalho experimental com filosofia, e geralmente rejeitam considerações de possíveis implicações teológicas de seus estudos. Entretanto, poucos estudos neste campo começaram a aparecer. Saver & Rabin (2) encontraram que pistas para o substrato neural da experiência religiosa, experiência próxima da morte e alucinações, podem ser deduzidas da epilepsia límbica (o sistema límbico é descrito como o centro emocional do cérebro). Ramachandran (3) reportou que pacientes com crises do lobo temporal (o lobo temporal está envolvido com muitas funções complexas incluindo emoção e memória) algumas vezes experienciam êxtase religioso durante crises e são intensamente religiosos. Assal & Bindschaedier (4) reportaram um caso de delírio religioso em uma mulher de 39 anos de idade que tinha sofrido de injúria cerebral com concussão temporal direita 13 anos antes.
Poucos neurocientistas, tais como o prêmio Nobel Sir John Eccles, admitem que a mente é distinta do corpo, mas a maioria deles agora acredita que todos os aspectos da mente, os quais são frequentemente equiparados com a consciência, provavelmente são explicados como comportamento e química de células neuronais. Na opinião do famoso neurofisiologista José Maria Delgado (5) "é preferível considerar a mente como uma entidade funcional destituída de implicações metafísicas e religiosas per se e relacioná-la somente à existência de um cérebro e à recepção de inputs sensoriais".
Se o cérebro tem explicado a mente, como explicar os eventos mentais como sendo causados pela atividade de um grande conjunto de células neuronais? Os neurocientistas, timidamente, têm começado a combater a idéia de que esta questão é puramente filosófica ou ilusória para estudar experimentalmente, e estão começando a abordar o problema cientificamente. Eles começaram a ganhar algum entendimento sobre possíveis mecanismos cerebrais que podem ser subjacentes à processos mais complexos na experiência e comportamento humano, tais como o fenômeno da consciência, atenção e pensamento.
Um dos mais notáveis exemplos para ilustrar a relação entre o cérebro e a consciência são os achados que assumem que existem "dois cérebros" em cada cabeça (6), ou seja, cada hemisfério (cada metade do cérebro) é anatomicamente uma imagem em espelho do outro hemisfério, desde que a maioria das estruturas estão presentes em ambos os lados e se comunicam por feixes massivos de fibras. Funcionalmente, entretanto, cada hemisfério tem suas próprias áreas de especialização mental, um fenômeno que nós chamamos de "lateralização cerebral". Por exemplo, o hemisfério esquerdo está mais envolvido com funções verbais e racionais, enquanto o hemisfério direito está relacionado com funções artísticas e visuo-espaciais. As fibras interconectantes exibem um papel importante na coordenação das atividades dos hemisférios; sua lesão pode levar o indivíduo a se comportar como se os dois hemisférios fossem responsáveis por duas conciências separadas, como foi inicialmente notado por R. Sperry (o qual foi consagrado com o prêmio Nobel por isso). Em outras palavras, se a "ponte" entre os dois hemisférios é destruída, um hemisfério não pode saber o que o outro está fazendo.
Outro achado significativo nas neurociências é a correlação de eventos mentais, tais como a aprendizagem, com alterações químicas e estruturais das células nervosas (7). Atualmente, nós sabemos que em nosso cérebro novos ramos neuronais crescem em resposta à diversidade cultural, isto é, ao treino e à experiência do dia-a-dia. Cada neurônio parece contribuir para muitos comportamentos e atividades mentais. Técnicas modernas estão agora começando a revelar como o cérebro tem conseguido a notável proeza da aprendizagem. Redes artificiais de neurônios sobre computadores estão ajudando a explicar a habilidade do cérebro em processar e reter informação. Também, as ciências cognitivas modernas, que utilizam um vasto conjunto de técnicas novas, estão sendo capazes de estudar objetivamente muitos componentes do processo mental, tais como atenção, cognição visual, linguagem, imaginação mental, etc., e estão sendo correlacionadas com atividade neural por meio de imagem funcional computadorizada e estão agora abertas à investigação científica.
Finalmente, nós percebemos não somente o brilho e a fascinação exercida pelas funções mentais humanas, as quais são responsáveis pela criação e evolução de nossa sociedade, mas também a escuridão e o desespero das desfunções mentais, as quais afetam e destroem o ambiente interno e externo do ser humano. Também neste campo, os impressionantes avanços na neurociência e genética estão revelando as bases anatômicas, bioquímicas e hereditárias da esquizofrenia, mania, distúrbios afetivos e do humor, ansiedade, déficits intelectuais, distúrbios da memória e muitos outros (8, 9).
Assim, cada vez mais, estamos percebendo o que muitos influentes filósofos e teólogos dos séculos passados não podiam entender: o cérebro é complexo o suficiente para explicar os mistérios da aprendizagem, memória, emoção, criatividade, consciência, experiência místico-religiosa, loucura. Se nós concordarmos em pensar na mente como se ela fosse um conjunto de funções mentais, mais do que espírito, alma ou substância imaterial, será mais fácil continuar com os necessários estudos empíricos e então um progresso ainda mais substancial poderá ser feito não somente na busca para a natureza do homem como um indivíduo cognitivo, mas também no alívio das doenças mentais e no melhor entendimento de crenças culturais e religiosas, as quais, ao longo dos séculos, têm trazido grandes prazeres - e aflições - à humanidade.
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A psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência...