RESGATE O ‘EU CRIANÇA’ EM TRÊS PASSOS - Patricia Gebrim

 
“Hoje eu gostaria de falar sobre o seu Eu Criança. É claro que, quando falo da criança interior, existe muito a ser dito. Existem muitas facetas dessa criança que mora dentro de você e, acredite, muitas delas precisam ser urgentemente curadas.

Mas neste artigo quero falar da “Criança Sagrada”, porque sem ela nos tornamos meros homens-robô cumpridores de tarefas. Sem ela a vida se torna chata e monótona e nada parece nos interessar de verdade. Um dia você foi pequenininho, lembra? E tudo ao seu redor era novo, grande e encantador. Talvez até mesmo assustador!

Naquele tempo, as coisas que hoje você acha pequenas eram os “grandes eventos” do seu dia a dia: a gota de água escorrendo na janela, o feijão que magicamente brotou do algodão, o gosto horrendo daquele óleo de fígado de bacalhau (sorte sua se não teve que passar por isso!). Naquele tempo, antes de ter desaprendido a viver naturalmente, você era simplesmente… você. É claro que o mundo parecia um infinito campo de descobertas, cheio de mistérios, mas era exatamente a presença dos mistérios que tornava tudo tão interessante e divertido.

Você cresceu, e foi aprendendo a nomear tudo, a entender tudo e os mistérios foram sendo desvendados. Você foi se sentindo mais esperto ao dominar o mundo, as contas, as palavras, a biologia, etc, mas o que aconteceu é que você foi se perdendo daquela magia. Deixou de perceber os círculos que o vento traçava na superfície de um lago solitário. Deixou de perceber o som das asas dos beija-flores, deixou de perceber que, agora mesmo, enquanto você lê estas palavras na tela do seu computador, infinitas estrelas brilham em um inexplicável universo ao seu redor. Você deixou de perceber o quanto tudo era sagrado. Você deixou de sorrir para as pessoas, de pisar na grama, de acreditar e de chorar. Talvez você tenha até mesmo deixado de amar, com medo de que não correspondessem ao seu amor.

Sem a presença da criança sagrada, a vida vai ficando cada vez mais chata, cinza e sem graça. Mas, acredite, não precisa ser assim. Você pode agora mesmo fazer como antes, e sair por aí olhando as pessoas nos olhos e sendo exatamente quem você é sem se importar tanto com o que elas pensam de você. Mas para isso você precisa reencontrar essa criança e trazê-la para bem pertinho de você. Ela não está longe… bastam três passos! Eu convido você a dar cada um deles comigo, agora. Está pronto??? Então vamos lá!

1º) O primeiro passo é: DIVERTIR-SE MAIS!

Entenda, você não está aqui, no planeta, para fazer tudo certo. Só o que você precisa é viver as experiências que a vida lhe trouxer e aprender com elas! Ora, toda criança sabe disso!!! As crianças brincam, e assim aprendem um monte de coisas. Já nós, adultos, levamos tudo tão a sério, e queremos ser sempre tão perfeitos, que tiramos toda a graça da vida. Preste atenção: Quando você estiver indo para uma reunião muito importante, ou para uma entrevista de emprego, ou para um primeiro encontro com alguém por quem você esteja interessado; faça de conta de que tudo se trata de uma brincadeira, e que o que realmente importa é a experiência e o aprendizado, “e não o resultado”. Relaxe, seja simplesmente você mesmo e tente se divertir. Abra mão do peso, porque quando carrega esse peso nas suas costas você faz as coisas com muito mais dificuldade do que faria se estivesse leve e livre para simplesmente fluir com a vida.

Ok? Então vamos para o passo número 2… que é….

2º) TER A CORAGEM DE ARRISCAR!

Eu sei, esse é um passo um pouco mais avançado. Estamos tão acostumados a buscar segurança que contratamos o medo como nosso guia para as decisões de nossa vida. Mas que sentido faz viver uma vida conduzida pelo medo? Temos medo de errar, medo de nos frustrar, medo do futuro, medo até mesmo de acertar… Mas a verdade é que não há vida sem risco. Não mesmo! Sem risco a vida é apenas uma repetição monótona daquilo que já conhecemos. Você precisa sair do curso de vez em quando, escolher um caminho diferente, provar novos sabores, agir de maneiras diferentes. Arrisque dizer o que sente, ir atrás do que quer, acreditar que é capaz! Certa vez li em um livro algo assim: “Loucura é querer obter resultados diferentes fazendo sempre a mesma coisa”. É verdade. Olhe para a sua vida! Ela é resultado daquilo que você sempre fez. Se quiser mudar algo nela, trate de arriscar fazer algo diferente!

Pronto para o último passo???

3º) AMAR …

Simples assim. Quantas vezes ficamos presos em bifurcações sem saber o que decidir? E nessa indecisão acabamos causando dor. Machucamos a nós mesmos e aqueles que estão ao nosso redor. Mas as coisas ficam mais simples quando nos dispomos a simplesmente amar. Talvez você possa simplesmente se perguntar: “Qual é a decisão mais amorosa? ” Entenda que uma decisão amorosa sempre acaba sendo a melhor para todos os envolvidos, mesmo que não pareça ser assim.

É incrível a enorme quantidade de força que recebemos quando começamos a exercitar isso em nossa vida. De repente descobrimos que não precisamos mais ficar paralisados frente a cada escolha, a cada bifurcação em nosso caminho de vida. Nos movemos, e no movimento aprendemos, crescemos e nos sentimos novamente vivos. A Criança Sagrada desperta de novo em nossa vida, e o mundo se torna subitamente cheio de mistérios a serem desvendados. Tenha certeza, a vida estará a seu lado!

Agora é com você!

Lembre-se: São apenas três passos: D.A.A. (Divertir-se, Arriscar, Amar).

SESSENTONA - Manoel Carlos

 
Minha mãe não mentia, mas escondia a idade. E a melhor maneira de conseguir essa omissão era evitar o assunto. E, se fosse inevitável abordá-lo, disfarçar o tempo com os artifícios que estivessem à mão. Assim, em novembro de 1950, no dia em que ela comemorava aniversário, eu comentei durante o almoço festivo:

— Mãe! A senhora faz hoje meio século de vida! Já pensou?

— Já pensei e não gostei.
Eu insisti.

— Mas, mãe, todo mundo sabe que a senhora está fazendo 50 anos.

— Mas precisa associar a meio século? Assim parece muito mais. Tenho 50, tudo bem, não nego, mas não meio século. A conotação é dispensável.
Minha mãe era muito vaidosa. Linda e vaidosa. Numa crônica de novembro de 2005, aqui neste mesmo espaço da Vejinha, saudei as mulheres de 50 anos, encerrando o texto com estas palavras: Bem-aventuradas as cinquentonas! As que se renovam a cada dia, a cada instante, e que podem renascer incessante e indefinidamente, repetindo os versos de Cecília Meireles: “Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”.

Na ocasião, recebi mensagem de uma senhora que agradecia a maneira positiva como eu me referia às mulheres de 50 anos. Pois bem: nesta semana recebi nova mensagem da mesma leitora e gostei tanto do que ela escreveu que li em voz alta para a minha mulher. E reproduzo aqui, certo de que ela (a leitora) me autorizaria a fazê-lo. Leiam, abrindo aspas:

“Passaram-se quase dez anos desde o dia em que lhe mandei um e-mail agradecendo pelo seu olhar delicado. Agora estou comemorando muito o fim dos meus 50. Comprei uma bike, sempre que me dá vontade paro no Bracarense para tomar um chope com bolinho de feijoada (sozinha ou acompanhada), voltei a andar de patins, falo com todo mundo que puxa papo (pois meu tempo está parado e eu é que caminho por ele). Decreto feriados em minha homenagem, vou à praia, faço stand-up paddle, trabalho nos horários que me interessam e quando tenho vontade, pois meu compromisso agora é com o que vejo, o que sinto e o que me interessa. Não tenho nem relógio, portanto nunca sei a hora nem o dia. Não é fantástico? Aguardo um novo texto seu, agora com um olhar mais generoso ainda: para as mulheres de 60! Posso esperar até 2015. Enquanto isso, vou nas manobras e nas marolas com que a vida me presenteia. Um grande beijo. Elizabety Mirannda”.

Terminada a leitura, vi que minha mulher estava comovida por ouvir alguém que declarava com tanta franqueza a sua felicidade aos 60 anos.

— É minha xará — comentou ela.

E ficamos assim, por um tempo em silêncio, embarcados numa imensa nave de sonhos. De sonhos e pesadelos que temos vivido juntos nesses 37 anos em que estamos casados.

*
Bety, minha mulher, fez 60 anos na semana passada. Tenho, portanto, também uma sessentona em casa. Uma sessentona que a vida muitas vezes tem envergado, mas que não consegue derrubar.

— Tim-tim, meu amor!

— Tim-tim!

A CARTA QUE GANDHI ENVIOU A HITLER

Ela nunca chegou a seu destino final – e seria arriscado dizer que, se tivesse chegado, teria alguma possibilidade de mudar o curso da história (terrível) que estaria por vir. Mas não podemos dizer que ele não tentou: Mahatma Gandhi, o líder pacifista que comandou o processo de independência da Índia, mostrou que era capaz de sonhar mais alto do que qualquer música de John Lennon e enviou uma carta para Adolf Hitler, pedindo que este evitasse a guerra. A correspondência foi escrita em 23 de julho de 1939, quando a Alemanha do Führer estava prestes a invadir a Polônia e dar início à Segunda Guerra Mundial.

A carta, que nunca chegou ao seu destino, pois foi interceptada pelo governo britânico, diz o seguinte:

" Índia, 23 de julho de 1939

Querido amigo,

Amigos têm insistido que eu lhe escreva para o bem da humanidade. Mas eu tenho resistido ao pedido deles, pois sinto que qualquer carta escrita por mim seria uma impertinência. Algo me diz que eu não devo hesitar e devo fazer meu apelo, pois talvez ele tenha alguma utilidade.

Está claro que hoje você hoje é a única pessoa no mundo que pode evitar uma guerra capaz de reduzir a humanidade a seu estado mais selvagem.

Devemos pagar esse preço por algo, por mais valioso que lhe pareça? Você vai ouvir o apelo de alguém que deliberadamente deixou de lado métodos de guerra e obteve considerável sucesso? De qualquer forma, peço desculpas antecipadamente, caso tenha errado em escrever para você. 
Permaneço seu amigo,
M. K. Gandhi "

Júlia Matravolgyi *Tradução livre.
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PERDOE SEUS PAIS - Isabel Clemente

Deixe de culpá-los e estará livre para ser mãe ou pai da sua maneira

Chega de culpar seus pais. Você pode ter constatado inúmeras lacunas na relação de vocês, mas é hora de dar um passo além dessa conclusão e assumir as rédeas da própria vida. A bem da verdade, esse é um difícil passo. É quase um cacoete humano buscar em algum lugar (menos dentro de si mesmo) explicações para os problemas. Culpar os pais é uma variação dessa tendência.

Ela só pensa assim porque é mãe, você pode dizer. E estará certo. Ser pai e mãe não é exatamente aquele despertar que nos leva a concluir “nossos pais tinham razão“. Porque pode ser que eles não a tivessem, vai saber. Quando nascem os filhos, o desafio é fazer a coisa da nossa maneira, construir o nosso modelo familiar, algo que não brota do vaso das nossas ideias de uma hora para outra. É um processo lento e reavaliado, conscientemente ou não, de acordo com fases, necessidades, crenças e dificuldades. 

Admitir que nossos pais tinham ou não razão significa muitas vezes optar por nos aproximar ou nos distanciar das raízes. E essa dicotomia pode nos induzir ao erro. Explico por quê.

O que eu vejo, daqui do meu posto de observação da vida, é muita gente se esmerando numa espécie de contraprova daquilo que os pais supostamente fizeram de errado. Um comportamento facilmente identificável em frases como “minha mãe nunca tinha tempo para mim“, ou “eu recebia muitas críticas do meu pai por isso resolvi que, com minha filha, será na base do elogio“.

Não tenho dúvidas de que nossa consciência aprimorada é um poderoso aliado na construção de uma relação profunda com os filhos. Ao mesmo tempo, entendo que as escolhas calcadas no ressentimento criam uma interdependência com a origem que se busca negar. Nenhum antídoto tem serventia se não estiver na presença do veneno.

Não vejo saída melhor do que o perdão, irrestrito, incondicional. Perdoe seus pais, pelas falhas, pelas mancadas, pelas ausências, pelas ignorâncias, e sinta-se livre para ser pai e mãe da sua maneira. Um amigo bem humorado recorda rindo as surras que ele e o irmão levavam da mãe. Incapaz de encostar o dedo no filho, por mais levado que seja, ele optou por um modelo autêntico de paternidade. “Mas não é que eu ache que mamãe errou. Ela tinha razão quando batia. A gente desobedecia à beça. Aprontava. Eu sou apenas diferente“, diz, sem mágoa no coração, diante do meu olhar inicialmente abismado.

Durante algum tempo, achei que sabia muito pouco da minha infância. Minhas manias, meu aprendizado. Você sabe que os pais lembram tudo do primeiro filho, a primeira febre, o primeiro dentinho, o segundo. Tudo anotado. No segundo, rola um esforço para registrar as gracinhas e a memória pródiga ainda consegue reter muita informação. No terceiro, a história começa a mudar. 

Episódios são trocados, geralmente o que se acredita ter sido gracinha do terceiro foi, na verdade, do primeiro. É muito cansaço para dar conta de detalhes. Agora eu deixo para sua imaginação traçar o perfil da quarta filha (meu caso).Se estiver com pressa, mamãe consegue dizer os nomes das minhas irmãs, e antes que ela diga o do meu irmão ou alguma sobrinha, eu digo o meu. “Bebel, mãe“.

Dizem as tias mais velhas e os primos que eu era tão tagarela quanto minha caçula. Tinha resposta pra tudo, desde pequenininha. Devia ser engraçado. É uma pena eu não ter como acessar aquilo.

Eu, no papel de mãe, anoto quase tudo o que se passa com minhas filhas. Escrevo histórias e reproduzo diálogos para que eles se tornem memoráveis. Você pode ler alguns desses textos aqui.

Um dia vou entregar todo esse material a elas e espero darmos boas risadas. Mas não parei por aí. Boa parte dos meus registros tratam mais da forma como eu me sinto. É uma confissão sobre a maneira como eu me percebo nessa função de mãe e o quanto tudo isso me transformou e me ensinou. 

A ironia da vida é que foi dessa maneira que eu pude conhecer mais a fundo os sentimentos da minha mãe como mãe. Ao se identificar com a forma como eu me sinto hoje, ela ri solidária, concorda, comenta que se sentia da mesma maneira. Ela apenas não tinha o hábito ou a vontade de fazer como eu faço, o que não quer dizer que ela não sentisse igual emoções que transbordam de mim para o papel. Somos apenas diferentes. Foi assim que eu a perdoei por ter esquecido as minhas tiradas.

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