DE SACOLINHAS E PIEGUICES - Danuza Leão

Se forem proibidas, você pode comprar uma no próprio supermercado. Que bom para os donos

Há uma eternidade venho lendo nos jornais a polêmica sobre as sacolinhas de plástico dos supermercados e confesso que nunca me interessei muito pelo assunto.

Houve uma trégua, agora falam de novo, e continuo sem refletir, quando vou ao supermercado, se devo levar sacola ecológica ou não.

É claro que todos queremos um mundo menos poluído, que um saquinho de plástico leva 400 anos para desaparecer etc. etc., mas não posso deixar de pensar.

Praticamente todos os produtos que se compram em qualquer supermercado já vêm embalado, da fábrica, em plástico; se eu comprar duas mangas e uma bandejinha de frango, as mangas serão colocadas dentro de um saquinho de plástico e o frango já estará embrulhado em plástico, numa bandejinha de isopor. Mas para levar as mangas e o frango para casa, devo ter uma sacolinha de palha, é isso?

Se a compra é grande, e eu peço para levarem em casa, tudo o que eu tiver comprado -absolutamente tudo- chegará, separadamente, em sacolas plásticas, as mesmas que não se deve usar quando se leva o produto. Então, que história é essa de sacolinhas biodegradáveis?

Algum plástico deixará de ser usado nas feiras, nos hortifrútis, nas papelarias, nas embalagens de louça, de quadros, onde o plástico bolha é fundamental?

Os plásticos continuarão cobrindo os alimentos na geladeira, os sacos de lixo continuarão sendo de plástico, e mais 1 milhão de coisas de que não me lembro vão continuar exatamente como são, mas há quem ache que as sacolinhas dos supermercados, se eliminadas, vão salvar a vida do planeta.

Se as sacolinhas forem proibidas, você pode comprar uma, no próprio supermercado, mas vai pagar por ela R$ 0,17, e aí tudo bem. Mais um produto a ser vendido, que bom para os donos.

Está aí uma discussão que me escapa, que não consigo compreender, por favor, que alguém explique.

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É muito bom um governo que cuida dos mais necessitados, que pensa nas crianças, na moradia para os mais pobres etc. etc. Mas será que é mesmo necessário que cada uma das bondades que o governo atual proporciona seja chamada por títulos tão piegas?

Não seria possível melhorar essa nova renda para os que têm filhos de até seis anos sem precisar chamá-lo de Brasil Carinhoso?

Mais do que nunca, deve-se perguntar quem é o criativo autor encarregado de inventar esses nomes.

Isso se chama pieguice, coisa que existe para provocar, nos mais ingênuos, a sensação de "ah, como esse governo é bonzinho" -se possível, com os olhos marejados. Mas no dia em que esses mesmos ingênuos tiverem mais escola, mais educação e lido os livros, vão entender que a pieguice é um apelo (excessivo) aos sentimentos; é o sentimentalismo ainda pior do que o sentimentalóide, beirando o ridículo.

Por falar nisso, ainda não ouvi nenhum ministro da Educação anunciar a abertura de escolas para atualizar professores que estudaram no século passado, e outras para que os futuros professores possam ensinar aos alunos todas as modernidades do mundo atual, única maneira de fazer um país crescer. Eles acham que comprar computadores para as escolas -e mostrar na televisão- é ser Primeiro Mundo.

Mas se isso um dia acontecer, tremo em imaginar que essa "bondade" virá -se vier- com a foto de uma criança sorrindo, com um slogan no qual prefiro não pensar.


O pieguismo é muito brega.

SOBRE FREUD E SUAS MULHERES - Marina Massi

Obra recém-lançada, As mulheres de Freud, 
propõe uma viagem histórica pelo universo feminino; 
o criador da psicanálise e sua teoria são apresentados sob novos ângulos

Sigmund Freud e Anna Freud, 1929, em Berlim, na Alemanha. A romancista e escritora Lisa Appignanese e o professor de história e filosofia da ciência da Universidade de Cambridge John Forrester, acadêmico que já publicou várias obras psicanalíticas, uniram-se para investigar e narrar a trajetória das mulheres que participaram da vida de Freud. 

Em uma obra de fôlego, a dupla revela o impacto feminino no desenvolvimento das ideias relativas à feminilidade e ao legado dessa produção intelectual para a cultura contemporânea. Em virtude das diferentes áreas de especialização, pareceu aos autores que seria lógico dividir o material de modo que Forrester tratasse das personagens que foram “descobertas” pelo olhar de Freud: parentes, figuras de sonhos, pacientes e suas ideias sobre feminilidade. Já Appignanese trataria das primeiras analistas, tradutoras e escritoras próximas ao pensador.

Os escritores reconhecem que o desafio era potencialmente infinito, uma vez que tantas mulheres tiveram importância na história da psicanálise e o debate sobre feminilidade nessa área vem se desenrolando até hoje. “Decidimos limitar nossa narrativa às personagens que tiveram contato direto e continuado com Freud. Em consequência disso, não tratamos particularmente de Karen Horney ou Melanie Klein, para citar apenas duas, embora elas figurem nas páginas do livro.”Infelizmente, a decisão de não incluir uma pensadora do porte de Klein, por exemplo, traz problemas estruturais, que implicam a sensível perda do entendimento de toda uma vertente do debate sobre a mulher. É inegável, porém, que As mulheres de Freud tem muitos pontos positivos.

Entre eles, está o fato de que ajuda o leitor a rever as acusações de que o criador da psicanálise teria sido “um misógino, um patriarca conservador que via como principal função das mulheres servir à reprodução da espécie”. Os autores creem que uma das questões esclarecidas por essa pesquisa foi que “a concentração excessiva nos fracassos de Freud era, em si, uma maneira de negar às mulheres que figuram na história da psicanálise seu lugar de direito. Uma vez restituído este lugar, tanto Freud quanto a psicanálise adquiriram um aspecto sutilmente diverso”. E essa talvez seja uma das mais importantes conclusões desse imenso trabalho de pesquisa histórica, que instiga tantas discussões teóricas.

A pesquisa reúne dados anteriormente esparsos e revela de modo histórico-científico que muitas outras além de Salomé e da princesa Bonaparte eram amigas e analistas ativas. Entre elas estão Ruth Marck Brunswick, Muriel Gardiner, Eva Rosenfeld, Jeanne Lampl Groot, Hilda Doolittle e mais todo o círculo de analistas da filha Anna Freud. No início do livro são apresentadas as mulheres-chave da família de Freud: a mãe, a noiva que virou esposa e as filhas. A segunda parte trata da colaboração das pacientes histéricas no desenvolvimento da prática e teorias freudianas. 

Na etapa seguinte são focalizadas as mulheres que se tornaram as primeiras analistas do círculo de Freud, como Sabina Spieelrein, Lou Andreas-Salomé, Helene Deutch, Marie Bonaparte e Joan Riviere. Num livro de 16 capítulos extensos, com rigoroso levantamento bibliográfico, que revela um sério trabalho de pesquisa, alguns trechos históricos são especialmente significativos e curiosos. É o caso de “Primeiras amigas, primeiros casos, primeiras seguidoras” (cap. 6), no qual o leitor fica sabendo, por exemplo, que o divã foi presente de uma paciente agradecida, por volta de 1900. 

No capítulo 13, “A amizade das mulheres”, é surpreendente constatar o quanto as mulheres se desenvolveram dentro da psicanálise – o que nos convida a rever a ideia do círculo de amigos formado apenas por homens (como Carl Jung, Wilhelm Fliess, Alfred Adler, Karl Abraham) ao redor de uma mesa para discussão psicanalítica, às quartas-feiras.

O capítulo 15, “O debate sobre a mulher”, com abordagem mais teórica, evoca as figuras de Helene Deutch, Karen Horney e Melanie Klein para tratar da constituição do feminino. Os autores apontam a importância de uma discussão correlata acerca do peso atribuído aos fatores traumáticos (ambientais) ou constitutivos e de disposição (hereditários), temas atuais não somente para a feminilidade, mas também para todos os aspectos de constituição psíquica do sujeito. Para Freud, o campo da psicanálise é o acidental, o traumático por natureza.

Segundo ele, o que fica de fora, “o que permanece inexplicável, o que é temporariamente atribuído à constituição, não é o mais importante, o mais fundamental, mas sim o ponto no qual as explicações fracassam, o ponto em que a ciência emudece”.

Por fim, somos surpreendidos pelo último capítulo, “Feminismo e psicanálise”, no qual feministas ultrapassam a hostilidade visceral em relação a Freud, o que torna possível evidenciar uma relação mais complexa que abarque novos desdobramentos. Uma vez que as feministas perceberam “a revolução sexual” do século XX como uma força positiva e libertadora, a associação de Freud com esse movimento garantiu-lhe um lugar de respeito entre os antecessores dos movimentos progressistas contemporâneos.
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CASAR PARA QUÊ? - Walcyr Carrasco

Estava escrevendo a novela Gabriela, inspirada na obra de Jorge Amado. Estava justamente nos capítulos em que Nacib pede Gabriela em casamento.
- Casar pra quê? Precisa não diz ela.

A personagem é um espírito livre que antecipou as mudanças no modo de pensar e agir das gerações seguintes à publicação do livro, no final da década de 1950. Penso:

- Gabriela é que tinha razão. O que significa casar hoje em dia?

As fronteiras entre o namoro e o casamento andam cada vez mais confusas. Outro dia encontrei uma amiga que me anunciou vitoriosa:

- Estou casada!

Durante o papo, descobri que estava saindo com um rapaz havia quatro meses. Não moravam juntos, nem tinham qualquer compromisso formal. Para ela, tratava-se de um casamento. Ao contrário, muitas vezes o casal até mora junto, mas diz que está "se conhecendo". Ou seja: as palavras namorar e casar significam mais ou menos a mesma coisa. Depende de quem as pronuncia. No passado os termos eram mais precisos. Havia a "concubina", que vivia sob o mesmo teto sem papel passado. Se eu chamar alguma amiga de concubina, levo um tapa na cara. E "amásio"? Céus, quem fala em amasiar-se atualmente? Eram boas palavras, porque definiam situações específicas. As vezes, a confusão é tanta que a mulher acha que está casada e seu parceiro pensa que está namorando!

Hoje, as palavras namorar e casar significam mais ou menos a mesma coisa. O importante é o amor

O cinema americano resolveu essa questão brilhantemente: a dupla vive sob o mesmo teto, se ama. O compromisso é assumido quando ele oferece um anel no meio de um sorvete durante um jantar (com direito a merchandising da Tiffany"s). Nos filmes, casar é igual a assumir compromisso.

Uma balela, que só vale para filmes. No Brasil, se duas pessoas vivem juntas, o compromisso já existe. Queiram ou não. Pelo menos do ponto de vista legal. Quem prova uma relação estável pode até sair de um processo com mais vantagens econômicas do que alguém que se casou no papel, com direitos especificados. Tem mais: o casamento deixou de ser uma relação para toda a vida. Divórcio é fácil. Conheço mulheres que se casaram uma vez, duas, depois nem se deram mais ao trabalho. Só juntam os trapos, como se dizia antigamente. Há uma que anuncia:

- Tive cinco maridos.

É uma forma de valorizar o currículo!

E o vestido branco? Nenhum símbolo perdeu tanto o sentido. Era a cor das virgens. Viúvas se casavam de azulzinho, rosa pálido... Hoje, noivas de qualquer idade casam de branco. Não importa a quilometragem. Por que não aderem ao vermelho, verde, roxo? Há uma indústria enorme em torno de vestidos, festas, fotos, lembrancinhas. Milionários gastam mais de milhão para casar suas herdeiras, em festas suntuosas. E às vezes o casamento dura menos que sua preparação. Conheço um casal que se separou ao voltar da lua de mel. A outra já o esperava no aeroporto.

Ser padrinho virou um mico. Era uma honra, uma relação quase de parentesco. Hoje, convida-se um batalhão. Uma vez quase despenquei do altar de tanto empurra-empurra. A aglomeração de padrinhos era pior que metrô às 6 da tarde. O objetivo dos noivos era ganhar bons presentes, já que, supõe-se, padrinhos são mais generosos. Eu, hein?

A cerimônia religiosa era ganhar a bênção divina. Como a Igreja Católica Romana não admite a separação, os casais recorrem a credos mais flexíveis. A Igreja Anglicana admite casar divorciados. Nada contra. Mas, se a pessoa é católica,recorrer a outra religião nãoé dar um truque no Ser Supremo? Hummm... Ele, que tudo sabe, vai cair nessa?

Já fui a dois casamentos sem ministro. Os noivos inventaram a cerimônia, com amigos discursando. No Japão, é comum contratarem atores para oficiar como padres. Antes fazem uma cerimônia xintoísta, mais íntima. Depois, a ocidental, com vestido branco e padre fake.

Segundo o filósofo francês Luc Ferry, no livro A revolução do amor, "a experiência do amor é o único valor absoluto, o único que dá sentido a todos os outros". Minha geração pregou o amor livre. Muitas conquistas da década de 1960 foram absorvidas pela sociedade. Laços formais não têm mais tanta importância, como defendíamos. O casamento perdeu significado, mas continuou a existir como uma cerimônia oca, para grande parte dos casais. O espetáculo é superficial e tira de foco o mais importante. O amor, simplesmente.

Somente o amor pode dar sentido a uma união, sem necessidade de festa e vestido branco. E me pergunto outra vez: nos dias de hoje, para que casar, afinal?

VÍDEO - ZYGMUNT BAUMAN - Laços Afetivos, Redes Sociais, Liberdade e Segurança


A EPIDEMIA DA INSÔNIA - Chiara Palmerini

São muitos os distúrbios que tornam insatisfatório o descanso noturno, às vezes de maneira discreta, outras, dramática. De qualquer forma, é cada vez maior o número de pessoas que sofrem com noites maldormidas.

Nunca foi fácil lutar contra a insônia. No século XVII, pessoas com distúrbios do sono recebiam uma prescrição inusitada do médico e poeta gaulês William Vaughan: "corte, na extremidade de seu gorro de dormir, um buraco pelo qual o vapor possa sair". A receita sugere que todos os remédios disponíveis já haviam sido experimentados. Atualmente, a Classificação Internacional De Distúrbios Do Sono (Cids) enumera cerca de 90 distúrbios, numa lista que contém desde os mais comuns, como a insônia, até os mais raros, quase desconhecidos.

Entre 10% e 20% das pessoas afirmam dormir pouco e mal. Nesse universo, há mais mulheres que homens e mais idosos que jovens. A insônia parece ser uma verdadeira epidemia nos países industrializados, muito difícil de curar, se for verdade que - como afirma Elio Lugaresi, um dos pioneiros da medicina do sono e diretor do Instituto de Clínica Neurológica da Universidade de Bolonha, Itália - "cada insone é um problema em si". Marcel Proust, por exemplo, não podia ir para a cama se suas ceroulas não estivessem presas na cintura por um determinado alfinete, conta o pesquisador da Universidade de Cambridge Paul Martin em Counting Sheep: The Science And Pleasures Of Sleep And Dreams. Junto com o alfinete, proust perdia o sono.

Regras elementares, geralmente bem conhecidas dos insones - não beber café e dormir sempre no mesmo horário -, e os fármacos, especialmente aqueles de última geração, podem funcionar quando o distúrbio ainda está no começo. A insônia crônica, porém, escreveu Jean-Anthelme Brillat-Savarin, advogado e gourmet francês do século XVIII, é "uma verdadeira maldição". Muitos especialistas concordam.

NOITES DE PESADELO
Dificuldade para dormir à parte, o sono é também o berço de fenômenos realmente bizarros. Os vídeos dos pacientes submetidos a polissonografia no laboratório da clínica neurológica de Bolonha ao longo dos anos mostram um repertório daquilo que pode acontecer durante a noite. Homens e mulheres, crianças, adultos ou idosos levantam-se repentinamente, pulam da cama, agitam-se até arrancar os eletrodos, contorcem-se em estranhas danças envolvendo pernas e braços ou imitam gestos da vida cotidiana. Sempre dormindo.

A medicina do sono, que começou a explorar esse mundo desconhecido somente a partir dos anos 60, desvelou muitos aspectos em um ritmo impensável. "Naquele tempo - conta Lugaresi -, em muitos ramos da medicina era necessário revolver toneladas de terra para encontrar a pepita de uma descoberta. No estudo do sono, bastava apenas raspar o terreno para descobrir uma jazida."

Um distúrbio que somente há alguns anos foi reconhecido como problema médico, o segundo mais difundido depois da insônia, é a apnéia obstrutiva, chamada também "síndrome de Pickwick". O nome vem de um personagem de Charles Dickens, o gordo e guloso Joe, que era tomado por uma sonolência invencível durante o dia. A pessoa que sofre desse mal pode acordar, sem dar-se conta, até cem vezes por noite.

Devido a uma asfixia momentânea, pára de respirar por um intervalo que vai de poucos segundos a mais de um minuto, até o momento em que dispara um mecanismo fisiológico de alarme. Então arqueja, retoma o fôlego e volta a dormir até a crise seguinte. Esse contínuo quase despertar torna o sono fragmentado e descontínuo, tanto que o sintoma principal, além do ronco que muitas vezes acompanha o distúrbio, consiste em uma grave sonolência durante o dia.

Também a "síndrome das pernas inquietas" pode atormentar as noites de muitos, 4% da população, segundo estimativas. Assim batizada nos anos 40 pelo neurologista sueco Karl Ekbom, foi descrita com base em diagnósticos precisos somente há alguns anos. As pessoas que sofrem desse distúrbio queixam-se de uma sensação de desconforto nas pernas, geralmente na panturrilha, e de uma necessidade irresistível de mexê-las para aliviá-la. A falta de ferro e uma anomalia no funcionamento dos sistemas dopaminérgicos do cérebro são possíveis causas.

FENÔMENOS ENIGMÁTICOS
As verdadeiras protagonistas da noite são, porém, as parassonias, que representam 10% de todos os distúrbios do sono. A essa categoria pertencem os fenômenos mais misteriosos e desconcertantes. Alguns são conhecidos desde a Antigüidade, como o sonambulismo, os terrores noturnos e a paralisia do sono, mas só recentemente foram definidos com clareza. E outros são novos, como o distúrbio comportamental do sono REM ou a epilepsia noturna.

Hoje, sabe-se que o sonambulismo e o sonilóquio são produtos da fase não-REM do sono, a de ondas lentas. Assim como os terrores noturnos, esses fenômenos são, geralmente, típicos da infância. A aterrorizante paralisia do sono é uma experiência que 5% a 6% das pessoas experimentam pelo menos uma vez na vida. Em Moby Dick, Herman Melville descreve o fenômeno que, segundo especialistas, deriva de um despertar parcial anômalo do sono REM, aquele em que se sonha.

Característico da fase REM do sono, é um tipo particular de distúrbio, que acarreta movimentos bastante agitados durante uma fase normalmente marcada por relaxamento do tônus muscular. Michel Jouvet já observara que gatos dos quais determinados centros nervosos haviam sido cortados moviam-se, pareciam caçar e perseguir presas imaginárias ou começavam a lavar-se. O mesmo acontece com pessoas portadoras desse distúrbio: encenam seus sonhos. A patologia foi descrita, pela primeira vez, em 1986, por Mark Mahowald e Carlos Schenk, da Universidade de Minnesota, Estados Unidos, depois de estudarem os casos de quatro pacientes que agrediram suas companheiras durante o sono. Um deles quase estrangulou a esposa que dormia a seu lado, durante um sonho em que lutava contra um veado e queria quebrar o pescoço do animal.

Uma parassonia recém-descoberta é a epilepsia noturna do lobo frontal, estudada no laboratório bolonhês a partir dos anos 80. Um vídeo mostra um jovem que repete, dezenas de vezes durante a noite, um movimento do braço sempre idêntico. Em outro, aparece uma mulher que, a intervalos regulares, levanta-se e senta na cama de um só impulso.

Pode acontecer também que o sono invada os territórios da vigília de forma patológica. A narcolepsia, que alguns devem conhecer devido à descrição de Jonathan Coe em seu romance A Casa do Sono, é o exemplo mais dramático. Quem sofre da doença pode adormecer durante uma conversação, na sala de aula, enquanto come ou espera o ônibus. Qualquer emoção, uma risada, uma surpresa, um impulso de raiva, pode levar o portador do distúrbio a perder, de repente, o tônus muscular até encontrar-se na impossibilidade de mover-se ou falar, mesmo estando consciente. Essa doença, considerada por muitos quase uma curiosidade, tem, provavelmente, a mesma incidência da esclerose múltipla e do mal de Parkinson: afeta uma pessoa em 2 mil. Hoje, sabe-se que, na origem dessa síndrome, há um grupo de neuropeptídeos com o nome curioso de hipocretinas. Uma equipe de pesquisadores da Universidade Stanford, EUA, identificou a anomalia genética que provoca a narcolepsia nos cães. No caso do homem, o mecanismo da doença ainda não foi totalmente esclarecido, apesar de estar aparentemente associado à incapacidade do hipotálamo de produzir hipocretina, um dos hormônios que regulam o sono e a vigília.

Insônia Fatal
A privação do sono representa um tormento tão grande que foi usada até como instrumento de tortura. Talvez isso baste para dar uma idéia de quanto pode ser trágica e sinistra uma doença que priva da capacidade de dormir até levar à morte. A insônia familiar fatal, doença rara e de caráter hereditário, foi descoberta na Universidade de Bolonha, pelo grupo de Elio Lugaresi, em 1986, mas a história começou muito antes. Em 1973, uma mulher da província de Treviso começa a perceber estranhos distúrbios que parecem ser de origem neurológica, tanto que os médicos falam de demência ou Alzheimer, sem nunca chegar a um diagnóstico preciso. A mulher morre em 12 meses, aos 49 anos, e no fim pesa apenas 30 quilos.

Cinco anos depois, sua irmã, de 54 anos, manifesta os mesmos sintomas, e a história de sua doença é uma réplica do primeiro caso. Ignazio Roiter, o médico da família, decide enviar o cérebro da mulher a um neuropatologista suíço, que não detecta nenhuma anomalia no cérebro, a não ser uma pequena lesão do tálamo.

Em 1983, o irmão das duas mulheres começa a exibir os mesmos sintomas assustadores. No começo, parece ansioso e deprimido e reclama de dormir mal. Depois passa a comportar-se como sonâmbulo. Tomado por um cansaço invencível, procura deitar-se de qualquer jeito. Com o tempo, cai em uma espécie de torpor, do qual desperta raras vezes, quando é solicitado. Enquanto isso, suas funções vitais parecem entrar em curto-circuito: transpira continuamente, sofre de pressão alta, come com voracidade. Segundo o dr. Roiter, o sintoma-chave, mascarado pela sonolência do paciente durante o dia, parece ser a impossibilidade de dormir, mas ninguém está disposto a dar-lhe atenção. Determinado a resolver o problema, o médico empreende uma busca nos arquivos da paróquia para reconstruir a genealogia da família.

Roiter encontra registros narrando casos de parentes que morreram por um estranho "esgotamento" e reconstrói a árvore genealógica até o século XVIII. Descobre que muitos outros membros da família foram atacados por esse mal que os médicos tomam por encefalite, demência, alcoolismo. Ele decide então telefonar para Lugaresi para dizer-lhe que acreditava estar lidando com um caso de insônia letal de caráter familiar. "Em vez de rir na minha cara, como outros haviam feito, me convidou para encontrá-lo no dia seguinte", conta.

Quando decidem internar o paciente, os exames confirmam aquilo que parecia inacreditável: o eletroencefalograma mostrava um estado de vigília contínua, interrompida apenas por breves fases de sono REM. O paciente parecia acometido pela mesma "peste da insônia", descrita por Gabriel García Márquez em Cem Anos de Solidão. O distúrbio, como foi esclarecido mais tarde, consiste justamente na incapacidade de gerar o sono lento. Algumas imagens do homem filmadas na fase terminal da doença o mostram com as pálpebras caídas, a ponto de adormecer sentado. Mas o sono verdadeiro nunca chegava para ele. Depois de alguns meses, caiu em um estado de torpor contínuo, interrompido somente por breves momentos de sonhos revelados por gestos. Em uma imagem, o homem faz o gesto de abotoar o paletó: quando lhe perguntam o que estava fazendo, responde que se preparava para ir a uma festa. Com a morte do paciente, Lugaresi envia o cérebro a Cleveland, nos Estados Unidos, para Pierluigi Gambetti, seu antigo colaborador. Gambetti nada encontra de anormal, exceto uma lesão do tálamo. Essa estrutura, até então considerada pouco importante para os mecanismos do sono, revela-se um nó crucial nos circuitos que o governam. A hipótese de Lugaresi, elaborada ao longo dos anos, depois de ver outros membros da família morrer por causa da insônia fatal é simples. As lesões do tálamo, espécie de estação intermediária, desconectariam o hipotálamo - o regulador das funções autônomas e promotor do sono - estrutura que controla seu funcionamento, o córtex cerebral. Enfim, é como se o organismo nunca recebesse um sinal "pare" dos estímulos e, com isso, superaquecesse até a exaustão.

Mas a descoberta tem outros desdobramentos. Já nos primeiros anos, Lugaresi percebe que o eletroencefalograma do doente de insônia fatal se assemelha ao das pessoas que sofrem da doença de Creutzfeldt-Jakob. Além disso, as características da lesão fizeram Gambetti pensar que se tratava de uma doença causada por príons, proteínas que Stanley Prusiner, prêmio Nobel em 1997, estudava naqueles anos. No fim, Gambetti, a quem Prusiner forneceu os anticorpos necessários para confirmar o diagnóstico, demonstrou, com uma série de experiências, que a partir do material extraído do cérebro das pessoas mortas por insônia fatal pode-se desenvolver a doença nos ratos. O mesmo acontece quando injetamos nos animais material cerebral de vítimas da doença de Creutzfeldt-Jakob. É a demonstração de que os príons são agentes infecciosos.

A insônia fatal encontra-se, portanto, no cruzamento de dois importantes campos de pesquisa: o estudo do sono e as doenças causadas por príons. Nos últimos tempos, foram identificadas 27 famílias, no mundo todo, nas quais a doença se transmite de geração em geração. Sabe-se também qual gene está em sua origem, e um teste permite identificá-lo. Infelizmente, ainda não existe cura.

CARLOS CASTAÑEDA - EXPERIÊNCIAS DE ESTRANHAMENTO - Ulisses Capozzoli

Depois de 40 anos do lançamento de A erva do diabo, primeiro livro de Carlos Castañeda – e após um década de sua morte – se mantêm as controvérsias sobre realidade e ficção em sua obra

Há 40 anos, um livro publicado pela editora da Universidade da Califórnia relatando pesquisas antropológicas de um estudante da instituição, dividiu opiniões e desdobrou-se para outros campos como psicologia, psiquiatria, filosofia e literatura, ainda hoje causando impacto no que aprendemos a reconhecer como realidade. The teachings of don Juan (Os ensinamentos de d. Juan) foi publicado em algumas traduções – incluindo a brasileira – como A erva do diabo, o que pode ter contribuído para aumentar as vendas numa época em que uma diversidade de drogas literalmente fazia a cabeça de muita gente. Mas certamente a escolha do título teve seu preço e contribuiu para multiplicar controvérsias sobre o conteúdo da obra.

 O autor do livro, o antropólogo Carlos Castañeda, pode ser brasileiro – falava português com acento inconfundível para um pretenso dissimulador – ainda que tenha omitido este dado em pouquíssimas entrevistas, quando também se recusou a ser fotografado. Esse comportamento – á primeira vista bizarro, levando em conta e que se espera de um autor que entra nas listas de sucesso – é parte inseparável do conteúdo de seus livros. 



Na sequencia desse primeiro vieram outros 11 volumes, até a morte de Castañeda há 10 anos – em 27 de abril de 1998. Nessa coletânea ele relata os ensinamentos que diz ter obtido de um velho índio yaqui que havia encontrado pela primeira vez em fins de junho de 1961, na fronteira entre o Arizona, nos Estados Unidos, e Sonora, no México. Castañeda fazia pesquisas de campo com plantas medicinais.

The teachings of don Juan foi recebido com certo entusiasmo pelo antropólogo Edward Holland Spicer (1906-1983), da Universidade do Arizona, reconhecido como o maior especialista na história e cultura dos yaquis de Sonora e do deserto que se estende a sudoeste, avançando em direção a Sierra Madre Ocidental, próximo à costa do Pacífico. Spicer publicou seu artigo na American Anthropologist, porta-voz da American Anthropological Association.

Spicer diz que os relatos não estabelecem relação significativa entre o que ele conhece dos yaquis e d. Juan – que Castañeda aponta como seu mentor. Mas elogia o livro e faz, pela primeira vez, a consideração que ainda hoje divide opiniões: o antropólogo, de fato, passou por todas as experiências que reproduz ou é um escritor de extraordinário talento, capaz de criar um universo repleto de histórias fantásticas?

ESTÉTICA LITERÁRIA
Apenas dois meses depois do artigo de Spicer, a quase sempre corrosiva New York Review of Books publicou um artigo do especialista inglês em antropologia cultural Edmund Ronald Leach (1910-1989), professor da Universidade de Cambridge. Na avaliação de Leach, o que Castañeda viveu foi apenas “uma experiência pessoal incomum”. Ainda que tenha se rendido às considerações filosóficas atribuídas a d. Juan, Leach considera o livro mais um trabalho literário que científico, ou, mais especificamente, “menos de etnografia e mais de estética literária”.

Entre Spicer e Leach, Walter Rochs- Goldschmidt – professor-emérito da Universidade da Califórnia e ex-presidente da American Anthropological Association – defende uma terceira posição. Segundo Gold-schmidt, que escreve o prefácio do primeiro livro, os relatos de Castaneda (com a consciência alterada pelo uso de plantas alucinógenas – peiote, datura e cogumelos coletados no deserto ou em Sierra Madre) – “não são uma simples narrativa de experiências alucinógenas”. Para ele, “as sutis manifestações de d. Juan conduzem o viajante, enquanto suas interpretações dão significado ao fato e nós, por intermédio do aprendiz de feiticeiro, temos a oportunidade de experimentar”.

Como antropólogo, Goldschmidt defende o funcionalismo comparativo, idéia de que uma comparação entre culturas leva em conta funções universais de costumes e instituições, em busca de sistemas sociais, em vez de expressões próprias e específicas de cada uma dessas instâncias. Assim, para ele, consequentemente “o mundo tem definições diversas em diversos lugares”. Goldschmidt argumenta que isso não significa apenas que os povos tenham costumes e deuses diferentes e esperem destinos diversos após a morte. O que ocorre, sustenta, é que “os mundos dos povos diferentes têm diferentes formas e os próprios pressupostos metafísicos variam: o espaço não se conforma com a geometria euclidiana, o tempo não constitui um fluxo contínuo de sentido único, as causas não se conformam com a lógica aristotélica, o homem não se diferencia do não-homem, nem a vida da morte, como no nosso mundo”.

PARA O ANTROPÓLOGO Walter R. Goldschmidt, as descrições do uso de plantas como o peiote, nos dá, por meio da vivência do aprendiz de feiticeiro, a oportunidade de acessar as realidades de outras culturas.

Goldschmidt defende ainda que “conhecemos alguma coisa da forma desses outros mundos pela lógica dos idiomas nativos e pelos mitos e cerimônias, conforme registrados pelos antropólogos”. E ele considera que “d. Juan nos mostrou vislumbres do mundo de um feiticeiro yaqui e, como o vemos sob influência de substâncias alucinógenas, o captamos com uma realidade totalmente diversa daquelas outras fontes”. 

Nisso, considera, está a principal virtude do trabalho de Castañeda: afirmar com razão que “este mundo [exposto por d. Juan] com todas as diferenças de percepção, tem sua lógica interna”. Para ele, Castañeda procurou fornecer explicações dessa lógica desde o interior desse estranho mundo.

LIMITAÇÕES CULTURAIS
O fato de Castañeda não ter tido sucesso completo nesse empreendimento, na interpretação de Gold-schmidt deve-se a uma limitação que nossa cultura e nossa língua impõem sobre a percepção, e não a uma limitação pessoal do pesquisador/autor. Ainda assim, considera, “em seus esforços, ele [Castañeda] funde o mundo de um feiticeiro yaqui com o nosso, o mundo da realidade não-convencional com o mundo da realidade convencional”.

Na visão de Goldschmidt, “a importância primordial de penetrar mundos que não sejam os nossos – e consequentemente da própria antropologia – está no fato de que essa experiência nos leva a compreender que o nosso próprio mundo é um complexo cultural”. Experimentando outros mundos, compara, “vemos o nosso como ele é e assim também podemos ver, de relance, como deve ser o mundo verdadeiro, aquele situado entre o nosso próprio complexo cultural e aqueles outros mundos; daí a alegoria, como a própria etnografia”.

Para Goldschmidt, a sabedoria e poesia de d. Juan e a habilidade e poesia de Castañeda “fornecem uma visão de nós mesmos e da realidade e, como em todas as boas alegorias, o que se vê está com o expectador e dispensa interpretação”. O antropólogo considera ainda que temos uma dívida para com Castañeda, “por sua paciência, coragem e perspicácia ao procurar e enfrentar os desafios de seu duplo aprendizado, e por nos relatar os detalhes de suas experiências”. Isso lhe confere, avalia, “a habilidade essencial da boa etnografia – a capacidade de ingressar num mundo estranho”.

EXPOSIÇÃO DIDÁTICA
No 30º aniversário do lançamento de A erva do diabo e às vésperas de sua morte, Carlos Castañeda se ocupou de preparar um resumo para facilitar a compreensão do que expõe como os fundamentos do aprendizado sob tutela de seu mentor. 

De acordo com suas palavras, “a descrição irredutível do que fiz em campo seria dizer que o índio yaqui feiticeiro, d. Juan Matus, me introduziu à cognição dos xamãs do México antigo”. Por cognição ele conceitua um conjunto de processos envolvidos com a percepção do cotidiano, o que inclui memória, experiência, consciência e utilização de qualquer sintaxe, como recurso de conexão lógica.

Castañeda revela que justamente a idéia de cognição, num primeiro momento, foi seu maior obstáculo, pois, “como homem ocidental e erudito participava da idéia de que só existe cognição como um grupo de processos gerais”. Acrescenta, no entanto, que para seu mentor existe tanto a cognição do homem moderno como a dos xamãs do México antigo, sendo cada um deles mundos completos de vida cotidiana e intrinsecamente diferentes. Nesse contexto, revela que, a partir de um momento, que não consegue identificar precisamente, sua tarefa “mudou de mera coleta de dados antropológicos para a internalização de novos processos cognitivos”.

Como parte desses processos cognitivos, Castañeda relata que foi levado a aceitar a idéia de que é fundamental, para os seres humanos, compreender que o único fato que realmente importa é o que d. Juan chamou de “encontro com o infinito”. E isso ainda que seu próprio mentor tivesse dificuldades para reduzir essa expressão a algo mais inteligível. Ainda assim, como parte de seu aprendizado, ele diz ter aceitado o fato de que “somos seres a caminho da morte”, mesmo que isso não tenha qualquer relação com o conceito mórbido com que a morte é interpretada na cultura ocidental. 

Se vamos morrer – e essa é a única certeza de que dispomos – conclui Castañeda sob a lógica da cognição que incorporava, “a verdadeira luta do homem não é a disputa com seus semelhantes, mas com o infinito, o que não chega a ser luta, mas aquiescência”. Devemos voluntariamente nos submeter ao infinito “porque nossas vidas terminam exatamente onde se originaram: no infinito”, considera.

Carlos Castañeda mostra ainda que a maior parte dos processos que registrou em uma dúzia de livros, relatando cada etapa de seu aprendizado, esteve relacionada ao “intercâmbio natural de minha personalidade, de um ser socializado sob o impacto de novas racionalizações” e que, após certo tempo, suas resistências foram minadas.

O alicerce da cognição para os xamãs, segundo Castañeda, é o “fato energético”, o que significa que, para eles [os xamãs] “cada nuance do cosmos é uma expressão de energia”. Eles concebem que “o cosmos inteiro é composto de forças gêmeas que são, ao mesmo tempo, opostas e complementares: a energia animada e inanimada”. 

A energia inanimada, nesta concepção, não tem consciência. Castañeda define consciência como “condição vibratória da energia animada”. A condição essencial da energia animada – orgânica ou inorgânica – segundo a linhagem de xamãs de seu mentor “é transformar a energia do universo como um todo em dados sensoriais”. No caso dos seres orgânicos, “esses dados sensoriais são transformados em um sistema de interpretação no qual a energia como um todo é classificada e há uma resposta designada para cada classificação, qualquer uma que possa ser”. 

Em contrapartida, para os seres inorgânicos, “os dados sensoriais devem ser interpretados por eles mesmos em qualquer que seja a forma incompreensível na qual possam fazê-lo”.

OVO DE LUZ
Castañeda sustenta em suas descrições que os seres humanos são percebidos pelos xamãs da linhagem de seu mentor como “conglomerados de campos de energia com a aparência de bolas luminosas”, e cada uma delas está “individualmente conectada a uma massa energética de proporções inconcebíveis que existe no universo, chamada mar escuro de consciência”. 

Um ponto específico, na altura das omoplatas, destaca-se nesse ovo luminoso, descreve Castañeda, e esse é o ponto de aglutinação. Segundo ele, o deslocamento desse ponto por onde os seres humanos recebem energia cósmica é o responsável pela alteração do padrão de consciência.

Outra categoria que emerge neste contexto, no quadro de ensinamentos que recebeu de seu mentor, é o intento, algo que ele define como equivalente a inteligência. Assim, a conclusão que integra o mundo cognitivo do seu sistema de aprendizado é a de um “universo de suprema inteligência”. 

Ainda neste caso, Castañeda esclarece que xamãs da linhagem de seu mentor, d. Juan Matus, “consideram consciência como o ato de estar deliberadamente consciente de todas as possibilidades perceptivas do homem e não apenas das possibilidades perceptivas ditadas por qualquer determinada cultura, cujo papel parece ser o de restringir a capacidade perceptiva de seus membros”.

Ao longo dos últimos 40 anos em que a obra de Castañeda foi publicada – ele assegura que a publicação é parte de suas tarefas para se tornar um homem de conhecimento, e não uma forma de exposição pessoal, daí o contato restrito com a imprensa e a recusa em ser fotografado –, as mais diferentes personalidades se envolveram com ela de diferentes formas. O cineasta italiano Federico Fellini foi uma delas, como registra em Block-Notes di um Regista.

No capítulo “Viaggio a Tulun” Fellini, interessado num filme sobre Castañeda, relata em detalhes o encontro/desencontro que teve com o personagem que buscou e expressa sua convicção de que nele há algo mais além da habilidade literária destacada por Spicer e Leach.

EGOCENTRISMO INFANTIL
Ao longo de sua vida Castañeda concedeu raríssimas entrevistas – uma delas à revista americana Time, outra à Psycolo-gy Today e, em 1975, falou à revista Veja, edição 356, por meio de um estudante brasileiro, então bolsista na Universidade da Califórnia, Luiz André Kossobudzki. 

Num diálogo com perguntas e respostas publicadas nas tradicionais páginas amarelas da revista, Castañeda explicou sua postura reservada e as razões para se comportar dessa maneira. Disse que atribuir importância a si próprio torna a pessoa tão imatura quanto uma criança: “O ser incompleto nasce da incessante procura por reconhecimento social.”

Nessa entrevista procurou definir uma série de outros conceitos herméticos em seus escritos e condena enfaticamente o uso de drogas, alegando que a administração de psicotrópicos, no início de seu aprendizado foi parte de um método e nada mais que isso. Castañeda assegurou, ainda, que uma pessoa considerada psicótica na realidade em que vivemos, no universo dos xamãs a que pertence seu mentor seria apenas alguém que “interrompeu a corrente do bom senso [elos que nos prenderiam a esta realidade] e não conseguiu encontrar o caminho de volta”. 

Para sair da realidade a que estamos confinados, segundo Castañeda, é necessário contar com a ajuda de um guia. Sem esse auxílio “eu não seria capaz de encontrar o caminho de volta a esta realidade”, ressaltou.

Castañeda se referiu ainda a uma capacidade de utilizar os sonhos como exercício de domínio e controle da própria vontade no percurso de se tornar um homem de conhecimento, aprendizado descrito em Porta para o infinito – quarto de seus 12 livros. 

Para Castañeda, a arte de sonhar exige “o mesmo domínio da vontade para sair e voltar da realidade ordinária”. Ele declara: “Com d. Juan aprendi a deixar de ser criança profissional e me tornei um guerreiro. Ficar sentado, esperando que me dessem tudo, ou sonhando acordado com a glória de minha auto-importância, não me trouxe nada. Tive de ir procurar coragem e disciplina”.

CONCEITOS-CHAVE
Não se sabe ao certo a nacionalidade do antropólogo Carlos Castañeda, morto em abril de 1998. Ele narra as experiências vividas no encontro com seu mentor, o índio yaqui d. Juan, com quem teria se encontrado pela primeira vez em 1961, na fronteira entre os desertos do Arizona, nos Estados Unidos, e Sonora, no México. 

Ainda hoje são cercados de mistério, os experimentos feitos com plantas alucinógenas daquela região os quais contribuíram para discussões sobre alteração de estado de consciência, diferenças culturais e estética literária.

Em sua vida deu raras entrevistas, sendo uma delas à revista Veja, em 1975. Na ocasião, explicou sua postura reservada. Disse que atribuir importância a si mesmo torna a pessoa tão imatura quanto uma criança: “o ser incompleto nasce da incessante procura por reconhecimento social”, declarou.

Castañeda acreditava no potencial e na capacidade humana de, por exemplo, utilizar os sonhos como exercício de domínio e controle da própria vontade no percurso de se tornar um “homem de conhecimento”.

TRAIÇÃO DA PSICOLOGIA SOCIAL - Luiz Felipe Pondé

Antes, eram as esferas celestes, agora, 
são as esferas sociais as culpadas por roubarmos os outros

 Olha que pérola para começar sua semana: "Esta é a grande tolice do mundo, a de que quando vai mal nossa fortuna -muitas vezes como resultado de nosso próprio comportamento-, culpamos pelos nossos desastres o Sol, a Luz e as estrelas, como se fôssemos vilões por fatalidade, tolos por compulsão celeste, safados, ladrões e traidores por predominância das esferas, bêbados, mentirosos e adúlteros por obediência forçada a influências planetárias". William Shakespeare, "Rei Lear", ato 1, cena 2 (tradução de Barbara Heliodora).

Os psicólogos sociais deveriam ler mais Shakespeare e menos estas cartilhas fanáticas que dizem que o "ser humano é uma construção social", e não um ser livre responsável por suas escolhas, já que seriam vítimas sociais. Os fanáticos culpam a sociedade, assim como na época de Shakespeare os mentirosos culpavam o Sol e a Lua.

Não quero dizer que não sejamos influenciados pela sociedade, assim como somos pelo peso de nossos corpos, mas a liberdade nunca se deu no vácuo de limites sociais, biológicos e psíquicos. Só os mentirosos, do passado e do presente, negam que sejamos responsáveis por nossas escolhas.

Mas antes, um pouco de contexto para você entender o que eu quero dizer.

Outro dia, dois sujeitos tentaram assaltar a padaria da esquina da minha casa. Um dos donos pegou um dos bandidos. Dei parabéns para ele. Mas há quem discorde. Muita gente acha que ladrão que rouba mulheres e homens indo para o trabalho rouba porque é vítima social. Tadinho dele...

Isso é papo-furado, mas alguns acham que esse papo-furado é ciência, mais exatamente, psicologia social. Nada tenho contra a psicologia, ao contrário, ela é um dos meus amores -ao lado da filosofia, da literatura e do cinema. Mas a psicologia social, contra quem nada tenho a priori, às vezes exagera na dose.

O primeiro exagero é o modo como a psicologia social tenta ser a única a dizer a verdade sobre o ser humano, contaminando os alunos. Afora os órgãos de classe. Claro, a psicologia social feita desta forma é pura patrulha ideológica do tipo: "Você acredita no Foucault? Não?! Fogueira para você!".

Mas até aí, este pecado de fazer Bullying com quem discorda de você é uma prática comum na universidade (principalmente por parte daqueles que se julgam do lado do "bem"), não é um pecado único do clero fanático desta forma de psicologia social. Digo "desta forma" porque existem outras formas mais interessantes e pretendo fazer indicação de uma delas abaixo.

Sumariamente, a forma de psicologia social da qual discordo é a seguinte: o sujeito é "construído" socialmente, logo, quem faz besteira ou erra na vida (comete crimes ou é infeliz e incapaz) o faz porque é vítima social. Se prestar atenção na citação acima, verá que esta "construção social do sujeito" está exatamente no lugar do que Shakespeare diz quando se refere às "esferas celestes" como responsáveis por nossos atos.

Antes, eram as esferas celestes, agora, são as esferas sociais as culpadas por roubarmos os outros, ou não trabalharmos ou sermos infelizes. Se eu roubo você, você é que é culpado, e não eu, coitado de mim, sua real vítima. Teorias como estas deveriam ser jogadas na lata de lixo, se não pela falsidade delas, pelo menos pelo seu ridículo.

Todos (principalmente os profissionais da área) deveriam ler Theodore Dalrymple e seu magnífico "Life at The Bottom, The Worldview that Makes the Underclass", editora Ivan R. Dee, Chicago (a vida de baixo, a visão de mundo da classe baixa), em vez do blá-blá-blá de sempre de que somos construídos socialmente e, portanto, não responsáveis por nossos atos.

Dalrymple, psiquiatra inglês que atuou por décadas em hospitais dos bairros miseráveis de Londres e na África, descreve como a teoria da construção do sujeito como vítimas sociais faz das pessoas preguiçosas, perversas e mentirosas sobre a motivação de seus atos. Lendo-o, vemos que existe vida inteligente entre aqueles que atuam em psicologia social, para além da vitimização social que faz de nós todos uns retardados morais.

TRAUMAS DA PERDA - Anette Kersting

No Brasil, em média, duas em cada dez crianças morrem ainda na barriga da mãe, em decorrência de aborto espontâneo. Mães e pais que passam por essa situação sofrem durante longo tempo, pois embora não tenham tomado seus bebês nos braços, desenvolvem com eles uma relação íntima de afeto

“Estou na cozinha e de repente começo a sangrar. No entanto, hoje ao meio-dia ainda estava tudo bem no ultrassom. Tudo acontece muito rápido: meu marido chama a ambulância e vejo a poça de sangue embaixo de mim; tenho um pressentimento terrível. Acho que meu filho não vive mais. Fico desesperada. Quando os enfermeiros me deitam na maca, fico calma – tudo parece irreal. 

No hospital, todos que me atendem parecem agitados. Um médico me examina com um instrumento de metal gelado. A ultrassonografia confirma o que eu já sabia, mas insistia em não acreditar: meu bebê está morto. É preciso fazer logo uma curetagem. O médico diz que eu ainda poderei ter muitos filhos. Mas meu bebê está morto. Ele não pode ser substituído por nada nem por ninguém. Nunca.” (Depoimento de paciente do Hospital da Universidade de Münster que sofreu um aborto.)

A morte do filho antes do nascimento joga a maioria das mães e pais em uma profunda crise. Se os médicos supunham há 30 anos que o melhor para os casais seria esquecer o evento o mais rápido possível, hoje – graças à psicologia e à psicanálise – se sabe que as reações à perda de um filho antes do nascimento só se diferenciam fracamente das que ocorrem em outros casos de luto. No entanto, sua magnitude raras vezes é percebida por aqueles que rodeiam as pessoas que passam por essa situação e, não raro, os homens encontram ainda menos espaço para viver sua tristeza. 

Dependendo do estudo, entre 10% e 30% das crianças morrem ainda antes de nascer. No fundo, isso pode ocorrer em qualquer período de uma gravidez. Até a 16a semana, os médicos falam em aborto precoce, depois; em aborto tardio. Mais da metade de todos os abortos espontâneos ocorre, no entanto, antes do terceiro mês de gravidez. E somente os bebês com peso corporal de 500 gramas que morrem antes ou durante o parto são considerados “crianças nascidas mortas”. Embriões menores não têm registro civil nem direito a enterro.

O estresse psicológico sofrido pelos pais pelo abortamento ou pelo nascimento de um bebê morto já foi muitas vezes estudado cientificamente. Nesses trabalhos, as mulheres geralmente eram focadas de maneira mais intensa que os homens. Em 2005, nosso grupo de trabalho do Hospital da Universidade de Münster estudou os dados de pacientes mulheres que haviam perdido um filho antes do nascimento entre 1995 e 1999. Descobrimos que dois terços delas ainda experimentavam um grande trauma, mesmo quando já haviam se passado dois a sete anos da perda. A intensidade de sua dor pouco se diferenciava dos sentimentos de perda em mulheres cujo abortamento ocorrera havia apenas 14 dias.

Esses resultados não sugerem processos de luto excepcionais ou mesmo patológicos, mas mostram, isso sim, que antes do nascimento já existe uma relação intensa entre mãe e filho. Em comparação com mães de bebês saudáveis, as mulheres que perdem o filho no último trimestre de gravidez enfrentam alto risco de sofrer de depressão. Isso foi comprovado em 2003 por Jesse Cougle e seus colegas da Universidade do Texas, em Austin. Em 2007, nossa equipe finalizou um estudo próprio sobre as sequelas psicológicas de pacientes cuja gravidez teve de ser interrompida por motivos médicos já na fase tardia: quase 17% das mulheres ainda sofriam 14 meses depois de depressão ou ansiedade.

Outro risco frequentemente subestimado diz respeito ao próximo filho gerado após um aborto. Em geral a perda não influencia a probabilidade de a mulher dar à luz um bebê saudável. Mas a gravidez fracassada pode influenciar a ligação da mãe com a criança gestada em seguida, conforme descobriram em 2001 pesquisadores do Departamento de Psiquiatria do Hospital Escola St.George, em Londres. 

Assim, por medo de uma nova perda, quando engravidam outra vez muitas mulheres assumem um relacionamento menos intenso com os filhos que estão gestando. Em comparação com crianças de um grupo de controle, esses bebês apresentam por volta dos 12 meses, em alguns casos, apatia e, em outros, irritação e ansiedade, o que reflete a fragilidade da ligação afetiva com a mãe, podendo surgir mais tarde problemas de autoestima e distúrbios comportamentais.

À primeira vista, poderíamos pensar que os pais desenvolvem uma relação menos estreita com seus filhos que não chegaram a nascer, em comparação às mães. Estudos recentes, porém, contrariam essa suposição. Os psicólogos britânicos Martin Johnson e John Puddifoot observaram, por exemplo, que homens que viram uma imagem de ultrassom de seus filhos e ouviram seu coraçãozinho bater sofriam mais intensamente com a perda do que aqueles que não tinham essas experiências – e lembranças. 

Aparentemente, a existência de exames médicos mais sofisticados estimula a ligação entre pai e filho.

Já em 1995 psicólogos da Universidade de Rochester, no estado americano de Nova York, tentaram descobrir se mães e pais apresentam diferentes sintomas quando não conseguem lidar com a morte de seu bebê. Eles acompanharam 194 mulheres e 143 homens nessa situação e constataram que elas sofriam mais frequentemente de depressão e medos, enquanto mais da metade deles recorria ao álcool.

SOFRIMENTO DIVIDIDO
Um estudo de 2003 coordenado por Kirsten Swanson, da Universidade de Washington, em Seattle, corrobora a conclusão de que, dependendo do sexo, as pessoas lidam de forma diferente com sua dor. Segundo os autores, as mulheres frequentemente têm necessidade de falar sobre a perda; já os homens tendem a se voltar para o trabalho ou a buscar distração em outras atividades.

Swanson investigou também se essas estratégias de superação específicas de cada gênero sobrecarregavam o relacionamento do casal. De fato, muitas vezes ocorrem mal-entendidos, como se surgisse (ou se tornasse mais acentuada) a dificuldade de comunicação. Por exemplo, as mulheres tendem a interpretar o mutismo e o retraimento do parceiro como egoísmo e falta de empatia.

Homens, por sua vez, sentem-se muitas vezes indefesos diante da tristeza intensa e explícita de suas parceiras. Para não sobrecarregá-las ainda mais, eles controlam as próprias emoções e evitam falar abertamente sobre elas.

PSICOTERAPIA PELA INTERNET
 Com base em nossa experiência clínica de acompanhamento e tratamento de pais após a perda de um filho, desenvolvemos em 2008 um programa preventivo que inclui cinco sessões de terapia. 

Nos encontros são abordados temas importantes como a retrospecção à época da gravidez e do nascimento, a despedida do filho, a relação do casal e a importância do ambiente social. Para ajudarmos também os pais que moram longe ou não podem participar de uma terapia presencial, buscamos uma alternativa para o atendimento costumeiro, cara a cara. 

Foi assim que desenvolvemos um conceito de tratamento pela internet para pais que haviam perdido um filho durante a gravidez ou pouco após o nascimento: o projeto será patrocinado durante três anos pelo Ministério da Família, Mulheres, Idosos e Adolescentes da Alemanha. Portanto, não há custos para os pacientes. Diferentemente dos tratamentos tradicionais, a terapia on-line permite a comunicação exclusivamente por escrito. 

Obviamente, nessa situação a interação não verbal entre paciente e terapeuta – por meio da postura corporal, o contato visual ou a voz – não ocorre no caso desse método. 

No entanto, essas informações emocionais importantes podem e devem ser destacadas pelo uso de diversas fontes ou variações do pano de fundo na tela. Outra característica dessa forma de terapia são as pausas na comunicação, que devem ser olhadas com atenção pelo profissional. Uma vantagem: o paciente pode refletir com calma sobre as perguntas do terapeuta antes de respondê-las. Costumamos argumentar que, nesse momento, as inibições que talvez impeçam a pessoa de comunicar os pensamentos dolorosos ou que ela considere vergonhosos são eliminadas. 

Reconhecemos, no entanto, que demora pode também levar a mal-entendidos difíceis de ser percebidos na comunicação escrita. Por isso, o terapeuta se orienta pela forma de expressão e estilo do paciente – o que, de fato, nem sempre é fácil. Apesar das dificuldades (e críticas) a respeito da psicoterapia pela internet, a proposta é justamente avaliar se esse tipo de intervenção é eficaz.

Mas há também evidências de que mães e pais se ajudam intuitivamente quando perdem um bebê. Pesquisadores coordenados por Marijke Korenromp, do Centro Médico Universitário, em Utrecht, na Holanda, analisaram inúmeros estudos sobre o comportamento de pais em luto após a interrupção da gravidez por motivos médicos. Surpreendentemente, os parceiros raramente mostraram fases de tristeza intensa concomitantes. 

Os psicólogos holandeses supõem que os pais se alternavam de forma inconscientemente na superação da dor, para que aquele que estivesse especialmente sobrecarregado em um momento fosse apoiado e aliviado de suas tarefas rotineiras nesse período.

Até agora, porém, desenvolveram- se apenas poucos conceitos de tratamento específicos para pais após perdas durante a gravidez, e sua eficácia não foi investigada a fundo. Mas todas as abordagens têm em comum o fato de estimular a comunicação franca entre os membros da família. O principal objetivo da terapia consiste, inicialmente, em fazer com que os afetados tenham consciência de sua perda e formulem seu sofrimento espiritual em palavras para que, por fim, possam se despedir do bebê morto, bem como das expectativas, das esperanças e dos desejos associados a ele. 

De qualquer forma, é fundamental que, independentemente do fato de serem homens ou mulheres, pessoas que passaram pela experiência dolorosa de um aborto (muitas vezes até mesmo de um aborto provocado, que pode deixar sequelas emocionais e culpa) possam ter um espaço de acolhimento. E encontrar um ambiente propício e seguro para viver esse luto, falar sobre sentimentos e frustrações. Ou apenas para chorar.

Causas e sintomas
Em muitos casos, alterações genéticas são responsáveis pela morte do feto. Nesses casos, o bebê não estaria apto a sobreviver e por isso é expelido pelo corpo da mãe. Às vezes, a falta do hormônio progesterona pode provocar o aborto. Nesse caso, o óvulo não se aninha na membrana mucosa do útero. Infecções e doenças maternas também facilitam a morte da criança durante a gestação. Mulheres grávidas de múltiplos têm um alto risco de perder o bebê. Os indícios de um possível aborto vão desde sangramentos vaginais até fortes dores no abdômen e costas. Se esses sintomas surgirem, grávidas devem procurar um médico imediatamente. Muitas vezes, o aborto pode ser evitado com medicamentos ou intervenção cirúrgica.

VÍDEO: EDGAR MORIN - A Complexidade do Eu



BENDITA DÚVIDA! - Way Herbert

Fixar a mente em uma meta única pode ser contraproducente; 
com certeza, traçar objetivos é importante, 
mas questioná-los pode ser decisivo para obter sucesso

Manter o foco para atingir objetivos. Essa é uma das orientações que mais se ouvem nos cursos de treinamento de profissionais das mais diversas áreas e se leem em livros de gestão empresarial e até nos manuais de autoajuda. 

É preciso estabelecer metas claras, mas, principalmente, é fundamental ter força de vontade. Este último conceito, aliás, é bastante enfatizado nos programas de recuperação de dependentes químicos, nos quais as pessoas devem se comprometer com o desejo de se manter afastadas da adicção. Ou seja: é preciso estar disposto a se recuperar – e focar nesse ponto.

Mas agora talvez a ciência possa ajudar. O psicólogo Ibrahim Senay, da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, descobriu uma forma intrigante de criar em laboratório uma versão de obstinação e disposição – e explorar possíveis conexões com a intenção, motivação e estabelecimento de metas. Ele identificou algumas características necessárias não só para abstinência de longo prazo, mas também para atingir qualquer objetivo pessoal, desde perder peso até aprender a tocar violão.

Senay conseguiu esse resultado explorando a “autoconversação”. A acepção do termo é exatamente essa: trata-se daquela voz interna que articula aquilo que você está pensando, expondo em detalhes opções, intenções, esperanças, medos etc. O pesquisador acredita que a forma e o sentido dessa conversa consigo mesmo expressos na estrutura da frase podem ter grande importância na formulação de planos e ações. Além disso, a autoconversação deve ser uma ferramenta para revelar intenções e reafirmar o que desejamos.

Senay testou esse conceito com um grupo de voluntários que trabalhavam com anagramas – por exemplo, mudando a palavra “prosa” para “sopra, ou “fala” para “alfa”. Mas, antes de começar a tarefa, metade dos voluntários era instruída a ponderar se de fato queria e achava que cumpriria a tarefa, enquanto a outra parte simplesmente era informada de que ia trabalhar nos anagramas em alguns minutos. 

A diferença é sutil, mas marcante, pois ao começarem a atividade os primeiros voltavam seu pensamento à curiosidade (não só em relação à tarefa, mas também à própria disposição em realizá-la); já os integrantes do segundo grupo basicamente se predispunham a cumprir o que lhes seria pedido. Seria a mesma diferença entre se perguntar “será que vou fazer isso?” e afirmar “eu vou fazer isso”.

Os resultados foram intrigantes. As pessoas que antes haviam se questionado sobre o desejo de participar do trabalho se mantiveram mais criativas, motivadas e interessadas nele, completando um número significativamente maior de anagramas, em comparação ao dos voluntários que apenas foram instruídos a cumprir a atividade. 

Por que as intenções de pessoas tão determinadas – e sem muito espaço para questionamentos – sabotam metas preestabelecidas em vez de favorecê-las? “Talvez porque as perguntas, por sua própria natureza, transmitem a ideia de possibilidade e liberdade de escolha, e meditar sobre elas pode estimular sentimentos de autonomia e motivação intrínseca, criando uma mentalidade que favorece o sucesso”, sugere Senay. Ou seja: saber que não somos “obrigados” a algo nos coloca numa posição de maior responsabilidades sobre nossos atos.

Senay elaborou outro experimento para analisar a questão de forma diferente: recrutou voluntários sob o pretexto de que estavam sendo convocados para um estudo sobre caligrafia. Alguns deveriam escrever as palavras “Eu quero ” várias vezes; e outros, “Será que eu quero?”. 

Depois de preparar os voluntários com essa falsa tarefa de caligrafia, Senay pediu que trabalhassem nos anagramas. E, exatamente como no caso anterior, os participantes mais determinados (que haviam escrito a frase afirmativa) tiveram pior desempenho que aqueles que tinham redigido a sentença interrogativa.

Pouco depois, Senay realizou mais uma versão desse experimento, mas dessa vez claramente relacionado a hábitos de vida saudável. Em vez de propor o uso de anagramas, avaliou a intenção dos voluntários de iniciar e manter um programa de exercícios físicos. Nesse cenário real ele obteve o mesmo resultado básico: aqueles que escreveram a frase interrogativa “Será que eu quero?” mostraram comprometimento muito maior com a prática regular de exercícios do que os que escreveram no início do teste a frase afirmativa “Eu quero.”.

Além disso, quando foi perguntado aos voluntários se achavam que estariam mais motivados a ir à academia com maior frequência, os que foram preparados com a frase interrogativa justificaram declarando, por exemplo: “Quero cuidar mais de minha saúde”. Aqueles que escreveram a frase afirmativa deram explicações como: “Porque me sentiria culpado ou envergonhado de mim mesmo se não o fizesse”, mostrando-se mais perseguidos e culpados do que realmente comprometidos.

Esta última descoberta é crucial: indica que pessoas mais flexíveis, com menor receio de rever os próprios conceitos, estavam mais intimamente motivadas, buscando uma inspiração positiva interior – e não tentando prender-se a um padrão rígido, autoimposto em algum momento. 

Essa inspiração interna faltou aos aparentemente “mais decididos”, o que explica, pelo menos em parte, a fraca determinação para futuras mudanças, ainda que vantajosas a médio prazo. Considerando a recuperação de dependentes químicos e o autoaperfeiçoamento, em geral, aqueles que declaravam sua força de vontade sem contestações estavam, na verdade, fechando a mente e estreitando sua visão de futuro. 

Aqueles que se perguntavam sobre os rumos a seguir e conjecturavam possibilidades reafirmavam sua escolha – e se comprometiam com ela.

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NEUROCIÊNCIA SUPEROU A PSICANÁLIE - Ivan Izquierdo

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A psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência...