A MULHER QUE PERDEU SEU AMOR - Arthur da Távola


A mulher que perdeu o seu amor é alguém de quem amputaram o ar e ela não morreu. Carrega a marca da amputação no ritmo da respiração e num certo modificar do olho. Fica pesado, mais manso e lento, nega-se a olhar o mundo, a rir, a ver cores. A mulher que perdeu o seu amor é alguém cujo riso virou soluço e a recordação faz-se suspiro.

A mulher que perdeu o seu amor é alguém com óculos de ver eclipse na alma. Fica com olhar de rinoceronte em olho de cambaxirra.
Estranho e lindo esse ar sofrente de que ficam todas as mulheres que perderam seu amor. É marca que as acompanha como ruga ou expressão, pelo resto da vida. Marca irreversível, chaga, cicatriz, verruga espiritual. Podem amar de novo, melhor até. Mas jamais deixará de doer uma pontinha daquele sentimento feito impossível e daquela esperança fermentada.

A mulher que perdeu o seu amor sofre mais do que a que (ainda) não pôde viver o seu amor. Esta vive a dor do que não tem. Aquela, vive a dor de já não ter. Quem não tem e quem ainda não tem sofre menos do que quem já não tem.O terrível é que a perda do amor é o preço inevitável e doloroso do pedágio pago para a estrada do conhecer-se.

A mulher que perdeu seu amor é alguém que melhora depois, pois se descobre, abre a cabeça, os músculos, os poros. Começa a entender a vida, a ficar mais livre, a punir-se menos e a saber que vale algo.

Passado o luto moral, a fase da fossa, a fossa da fase, o fechado pra balanço, o balanço vem. A ferro e fogo, à amargura e desvario, mas vem. E traz uma visão melhor de si mesma e de tudo o que é e representa. Instala-se um saudável egoísmo e muito mais altruísmo, paradoxalmente.

A mulher que perdeu o seu amor é um paralítico que sai pra luta e nela se cura. Se o amor era a deliciosa cegueira, a perda dele ensina a ver no escuro. A ler nos solavancos do ônibus da vida, a aprender a lição das greves interiores, entender que é preciso melhorar mesmo sabendo que nunca mais será igual.

Mistura de vítima e ressureta , a mulher que perdeu seu amor é alguém muito lindo, porque é um ser com a delicadeza de sentir feita carne no açougue existencial, no qual pendura as suas verdades e ofertas: ali aquela angústia; no outro gancho, a lembrança daquela tarde; na vitrine aquele sorriso e a lembrança do momento em que se descobriu amando; no frigorífico aquela delicadeza interior não-entendida ou aquela falta de medo de sofrer; no gancho maior aquela capacidade de se entregar inteira.A mulher que perdeu o seu amor é linda não por sofrer, mas porque sofre por ter sabido ser feliz...

A mulher que perdeu o seu amor é uma mergulhadora preocupada com a beleza e a entrega do salto sem a preocupação de saber se há água embaixo. A capacidade de amar o salto e o vôo fá-la merecedora de ternura e admiração. Enamorada, ela fica pássaro. Abandonada, ela vira gente melhor. Terrível disjuntiva!

Ah, se fosse possível dizer para cada mulher que perdeu o seu amor que mesmo sofrendo assim, valeu a pena! Que a dor vai passar e com cicatrizes ela será melhor e mais bonita amanhã, amará melhor o seu amor, aquém redescobrirá sem hipnose e a quem valorizará ainda mais porque capaz de o sentir e viver sem cobrar, exigir ou sofrer.

Ah, se fosse possível nada lhe dizer e apenas oferecer o ombro para que no ninho dele se sinta protegida e segura, porque a mulher que perdeu seu amor é a criança em busca dos pais, da casa. É a menina fugindo do bicho-papão que existe e assusta, mas que some e se dissolve se há proteção sincera. Por uma estranha disposição do carinho humano, a mulher que perdeu o seu amor é sempre chamada por diminutivo ou pelo apelido carinhosos por quem a consola. Ela fica criança na ante-sala do amadurecer.

A mulher que perdeu o seu amor é , por fim, alguém que descobre seu erro e delírio para crescer no acerto doloroso de se saber incompleta e imperfeita, por isso mais mulher.

Ela era melhor e saiu perdendo. Piorou. Mas ficou pior para sair ganhando, logo, melhorou graças à piora, nessa eterna dialética do ser no sentido da integração. A mulher que perdeu o seu amor é o enigma encarnado.

A mulher que perdeu o seu amor traz, ademais, essa grande lição de vida: é capaz de contemplar o nunca mais, de frente e , ainda e uma vez, dizer-se, sonhando: pode ser.

E sempre pode. Tudo começa outra vez.

Para ficar com a própria verdade talvez seja necessário perder um amor que não corresponda a verdade profunda do ser.

Sugestão da leitora e amiga Laura Rito. Muito obrigado!

A HISTÓRIA QUE TANTO DESPREZAMOS - Marcelo Rubens Paiva

Toda mudança de regime precede a desqualificação do anterior. Enquanto reis e czares são decapitados, fuzilados e exilados, a máquina de propaganda dos novos governantes reescreve a história, satiriza antigos governantes e cria um novo álbum de ícones.

De Lucrécia Bórgia, ficou a fama de uma bastarda incestuosa, manipuladora e descontrolada. Maria Antonieta virou a deslumbrada palaciana, que fez o povo passar fome para suprir seus caprichos. Os Romanovs estavam hipnotizados pela barba e magia negra de Rasputin, enquanto o império ruía estepe abaixo.

A monarquia brasileira sofreu na mão da historiografia republicana. De Pedro I, ficou a fama de um mulherengo incorrigível. Teria proclamado a Independência numa mula, depois de uma parada para se aliviar, vítima de uma diarreia, a caminho de um prostíbulo às margens do Ipiranga. Pedro II, tímido, infeliz e solitário, manipulado pela oligarquia agrária, era um exótico rei num continente de novas repúblicas.

A República resgatou da Inconfidência Mineira o herói de que precisava, Tiradentes. O Golpe de 64 não teve como usar a iconografia do movimento que clamava liberdade. Deu sorte, porque estava em campo a geração Pelé, e foi buscar na ignorada família real lacunas que legitimassem o projeto de soberania nacional - numa grande operação, no sesquicentenário da Independência, os despojos de Pedro I foram trasladados do panteão de São Vicente de Fora para a cripta do Monumento à Independência, no Museu do Ipiranga.

O regime militar também financiou através da estatal Embrafilme o primeiro épico do cinema nacional, Independência ou Morte, de 1972, que foi proclamada por Tarcísio Meira desembainhando uma espada sobre um cavalo ao estilo da tela de Pedro Américo. Glória Menezes era Marquesa de Santos, retratada não como uma pulada de cerca que escandalizou os súditos, mas como o amor impossível do príncipe aprisionado por suas obrigações. Não foram mostrados outros affaires.

Carlota Joaquina, filme que representa a retomada do cinema nacional, depois do desmantelamento do entulho militar, é uma gozação sem dó da vinda da família real e de seus membros. Fez um baita sucesso entre nós, republicanos que anos antes votamos no plebiscito que decidiu se o País seria monarquista ou republicano controlado por um sistema presidencialista ou parlamentarista.

Laurentino Gomes traça um perfil menos tendencioso da Casa de Bragança do Brasil. Mostra em 1889 que Pedro II, alto e loiro, "Pedro da Mala", como Eça de Queiroz o chamou, pois nunca largava uma valise, não era a figura apagada e inerte que a República pintou. Conseguiu manter o Brasil unido e o Exército sob controle civil, enquanto os vizinhos se implodiam em repúblicas. Esteve no front de batalha da Guerra do Paraguai, gastava pouco, falava várias línguas, inclusive tupi, lia sem parar, usava adornos indígenas na roupa imperial, era amigo de Victor Hugo, Graham Bell, dispensava protocolos, nada rancoroso e vingativo, admirador dos positivistas que o derrubaram, foi tratado como estrela na viagem aos EUA em 1876 e pedia a jornalistas estrangeiros que o chamassem de Pedro Alcântara. Que avô de FHC propôs ser fuzilado.

A decisão para mudar o governo em 1889 estava tomada. Civis e militares não chegavam a um consenso se o que viria era um golpe contra a monarquia, alimentado pelo descontentamento na caserna, mudança ministerial, deposição ou a República. Em 6 de novembro, um grupo de revoltosos se reuniu na casa de Benjamin Constant, entre eles, o alferes Joaquim Inácio Batista Cardoso, do 9.º Regimento de Cavalaria em São Cristóvão.

Sem o apoio do descontente Deodoro da Fonseca, não dariam um passo. Planejaram agitação nos quartéis, estoque de armas. Constant, ex-professor dos filhos do rei, perguntou o que fazer com Pedro II. Joaquim Inácio, com 29 anos, propôs o fuzilamento, caso resistisse.

Joaquim Inácio era avô de um futuro presidente da República proclamada dias depois, o pacato, calmo, sociólogo de fala mansa, agora imortal da Academia Brasileira de Letras, Fernando Henrique Cardoso. Prevaleceu a proposta de Constant. Pedro II partiu para o exílio, onde morreu dois anos depois, aos 66 anos de idade, numa modesta casa em Paris.

Laurentino não se restringiu a uma ordem cronológica. Dividiu os capítulos por temas. E, como nos livros anteriores, 1808 e 1822, mostrou que a história brasileira, desprezada por muitos, foi, sim, feita com atos de heroísmo e derramamento de sangue. Muito sangue, por sinal.

Conseguiu traçar um retrato completo dos bastidores da Corte e da queda do imperador, que, apesar de ser um homem culto e com prestígio internacional, vivia uma contradição insolúvel, um monarca que defendia o republicanismo, num Brasil difícil de entender, que experimentou um período de muita liberdade, inclusive de expressão, sob os garrotes da escravidão, num mundo que se transformava rapidamente com as novas invenções do Século das Luzes, que tinham um entusiasta, o rei do Brasil - navio a vapor, telégrafo, cabos submarinos, eletricidade, fotografia, telefone, trem e carros.

Outra revelação de 1889: a agitada vida fora do casamento de dom Pedro II. Foram 14 amantes catalogadas, entre atrizes, damas de corte, mulheres casadas, paixões platônicas e concretizadas, que se aconchegaram nas barbas do imperador. "Que loucura cometemos na cama de dois travesseiros", escreveu em 1880 para Ana Maria de Albuquerque, condessa de Villeneuve, mulher de Constâncio de Villeneuve, dono do Jornal de Commercio. "Não consigo mais segurar a pena, ardo de desejo de te cobrir de carícias."

Outras: Anne de Baligand, Vera de Haritoff, Eponine Octaviano, ex-mulher do amigo de infância, e a mais notória, a baiana Luísa Margarida Portugal de Barros, condessa de Barral, morena de grandes olhos negros, filha de fazendeiro do Recôncavo, que deixou 300 íntimas cartas de dom Pedro II para ela sem queimá-las, como tinha sido solicitado. "Olho sempre com imensas saudades para o quartinho do anexo do Hotel Leuentorh", escreveu Pedro II em 1876, indicando o lugar em Petrópolis em que se encontravam.

Puxou o pai, mas preservou a imagem de marido fiel. Um come quieto.

COMO ESCOLHER SEU PSICANALISTA - Francisco Daudt

Há profissionais não comprometidos com a melhora 
dos seus clientes, que dirá com a cura dos sintomas.

Meu assunto é como escolher um psicanalista, alguém que vai cuidar de você com o instrumental que Freud inventou. Você o contrata e consome um serviço de saúde.
"Que barbaridade, pensar no cliente como consumidor!" Sinto muito se feri suscetibilidades, mas acompanhe.
Clínica: do latim, "inclinar-se", para observar e entender. Pratico clínica psicanalítica há 35 anos. Fui consumidor do serviço por oito, com dois psicanalistas diferentes. É prestação de serviço mesmo: eu pagava (caro) e recebia 50 minutos de suposta atenção. Assim como quando fui pai tentei me lembrar do que, quando criança, funcionava ou não no jeito de meus pais, quando me tornei analist prestei atenção no que me fez bem e mal como cliente. Aprendi com erros e acertos de meus psicanalistas.
Gosto de clareza, transparência, do que é lógico, razoável. Se você gosta de obscuridades e esoterismos pule este artigo. Não é tua praia.

Afinal, psicanálise veio para explicar ou confundir? A coisa é simples: quantos psicanalistas são necessários para trocar uma lâmpada? Um só, mas é preciso que a lâmpada queira muito ser trocada.

Procurei a psicanálise porque me sentia mal comigo mesmo e queria me sentir bem. A pergunta seguinte era: o profissional teria o mesmo objetivo? Queria me fazer sentir melhor com o seu instrumento terapêutico? Parece uma pergunta besta? Não é! Há vários psicanalistas não comprometidos com a melhora dos seus pacientes (que dirá com a cura dos seus sintomas).
Eles têm como meta "a reflexão sobre os enigmas do seu funcionamento psíquico" ou, pior, "a sua aceitação da castração" (calma, explico, é assim: "O mundo é duro mesmo e você deve aceitá-lo como é, sem esperar colinho de mãe, que é o mesmo que querer roubá-la de seu pai, representante do mundo cruel. Tenha horror do incesto, o complexo de Édipo"). 

Escolher um psicanalista não é mesmo fácil. Aqui vão algumas sugestões, se você ainda não largou a leitura deste blasfemo insolente, desta pessoa desprezível pela sua linguagem chã que qualquer um pode compreender.

INDICAÇÃO
Pode vir de um amigo que tem se sentido melhor com seu tratamento. Pode vir de artigos que você leu e te deram alívio e compreensão, assinados pelo cara. Ou de livros que ele escreveu, entrevistas que ele deu etc.

PRIMEIRO CONTATO
Em geral, é pelo telefone. Impressionante o que se pode aprender sobre o outro num telefonema: se é acolhedor; se é pomposo ou simples; se você se sente bem ou constrangido; se vai te atender logo ou "talvez, se abrir uma vaga nos próximos meses". Só vá à entrevista se você se sentir bem com ele ao telefone. De desconforto basta a tua vida, você não precisa pagar (caro) por ele!

PERPLEXIDADE
Se o doutor Fulano te disser algo que você não entenda, se falar complicado a ponto de você achar que é burro, desista: não serve para você.

MUDEZ
Se doutor Fulano ficar te olhando quando você quiser saber algo na entrevista, as chances são de que ele ficará mudo durante a terapia. Por que você há de pagar (caro) para quem não diz nada? É teu trabalho se entender? Então fale para o espelho. É mais barato.

CONTRATO
Sinta-se confortável com um contrato claro sobre tempo de sessão e custos. Pergunte sobre férias (suas e dele). Pergunte sobre pontualidade (há poucas coisas mais constrangedoras do que encarar colegas numa sala de espera). Você tem mais o que fazer na vida, e é uma falta de respeito fazer cliente esperar tendo hora marcada.

AO FIM DA SESSÃO
Não deixe ninguém te convencer que sair aos prantos e arrasado significa que a sessão foi "funda e produtiva". Só significa que o terapeuta colocou mais dor naquilo de que você já se acusava. Ele quer que você se arrependa. É mais barato procurar o confessionário da igreja católica.

SENSO DE HUMOR
Se sentir falta de humor na sua terapia, significa que seu analista gosta de drama, e o drama é parte integrante e agravante dos seus sintomas. Vá embora! Parte da cura é não se levar tão a sério, não se achar (e a ninguém) tão importante. Dentro de cem anos, lembre-se, estaremos todos mortos. E faz parte do meu imaginário aparelho humildificador: amanhã este artigo será papel de embrulhar peixe... 
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AFINAL, OS ANIMAIS SÃO OU NÃO CAPAZES DE PENSAR?

Imagine um animal em situação de perigo. Antes de se aproximar do objeto ameaçador, ele apenas observa de longe seus movimentos. Depois, vencido pela curiosidade, se aproxima, não sem saltar para trás em apreensão – e precaução. Quando considera que não há perigo, ganha confiança e volta a agir normalmente.

Esse comportamento certamente parece inteligente. Os humanos poderiam muito bem se comportar de forma similar quando se deparassem com algo estranho e potencialmente perigoso. Mas o que realmente acontece com os animais: um processo de pensamento deliberado ou mero instinto animal?

A questão é antiga. Aristóteles e René Descartes acreditavam que o comportamento animal era governado puramente por reflexos. Já Charles Darwin e o psicólogo William James argumentaram que os animais deveriam ter uma vida mental complicada.

Agora, estamos mais perto do que nunca de resolver esse debate. Uma grande quantidade de relatos de comportamentos animais está fazendo muitos biólogos acreditarem que certas criaturas realmente têm pensamentos rudimentares.

Enquanto isso, as últimas imagens cerebrais de experimentos estão ajudando os cientistas a compreender que tipo de anatomia é necessária para um cérebro pensante.
Embora seja improvável que as vidas mentais dos animais sejam tão complexas quanto a nossa, há muito mais acontecendo em suas cabeças do que se pode imaginar.

Na década de 1970, o zoólogo americano Donald Griffin começou a esquentar esse debate. Ele foi uma das primeiras pessoas a descobrir a “ecolocalização” dos morcegos, e comportamentos tais como a capacidade dos castores de cortar pedaços de madeira para encaixar precisamente nos furos particulares de suas barragens, bem como a capacidade dos macacos de usar suas vozes (chamadas diferentes) para enganar os outros – tudo sugeria que os animais podiam pensar.

Os céticos achavam que isso era muito subjetivo. As observações de Donald perderam credibilidade por ele achar que todos os animais eram conscientes – ele queria provar que, cada vez que qualquer animal fazia qualquer coisa com qualquer ingenuidade, tão primitivo quanto um vaga-lume brilhando no escuro, ele estava consciente.

Hoje, no entanto, apesar do valor do trabalho de Donald, a pesquisa está mais objetiva e sistemática. Mais popular é a ideia de que as experiências mentais de outros animais se encontram em uma espécie de espectro, variando de um tipo primitivo de consciência ao fluxo rico e complexo de pensamentos da mente humana.

A mosca da fruta é o animal perfeito para explorar uma das extremidades desse espectro. Ao longo dos últimos anos, cientistas mostraram que esses insetos têm um pré-requisito essencial para a consciência: ao invés de responder aleatoriamente a tudo à sua volta, eles podem selecionar em que prestam atenção com base em suas memórias.

Por exemplo, as moscas são mais propensas a explorar novos objetos adicionados ao ambiente do que coisas que estiveram lá por um tempo. Quando os pesquisadores reduziram a capacidade da mosca da fruta de formar memórias, isso prejudicou sua capacidade de atender a novidade, de modo que os insetos responderam mais ao acaso.

Atenção flexível existe, provavelmente, até no mais simples cérebro, o que significa que muitas criaturas, incluindo peixes, anfíbios e répteis, também pode ter esse tipo de consciência. Sendo assim, quais animais, se houver algum, mostram sinais mais avançados de experiência mental?

Os melhores indícios até agora são de animais que exibem formas particularmente complexas de comportamento, como a capacidade de planejar o futuro.

Até recentemente, os cientistas acreditavam que essa característica era unicamente humana. No final de 1990, pesquisadores descobriram que o pássaro gaio-azul pode usar memórias específicas de acontecimentos do passado para fazer planos para os tempos à frente.

Em 2006, pesquisadores descobriram que essa capacidade se estendia aos beija-flores. Eles podem se lembrar da localização de certas flores e quão recentemente estiveram em um local, e usar essas informações para orientar seu comportamento futuro.

Desde então, os estudos sugerem que primatas, ratos e polvos mostram alguma aptidão para o planejamento futuro, também.

O problema é se esse comportamento é flexível. Se não, o ato pode ser apenas um instinto evoluído, por mais complexo que pareça ser. Por exemplo, corvos conseguem usar uma ferramenta “antiga” para um novo uso (um galho para verificar objetos potencialmente perigosos foi usado mais tarde para pegar comida dentro de um tubo).

Corvídeos podem até ser capazes de adivinhar o comportamento de outra ave. Por exemplo, experiências constataram que os corvos tomam medidas para proteger alimentos de outros corvos que poderiam tê-los visto escondendo-os, mas ficam despreocupados com corvos presos atrás de um obstáculo que teriam bloqueado a sua visão (e assim não teriam visto onde eles esconderam a comida). Em outras palavras, eles têm uma “teoria da mente” básica, que não é possível sem algum tipo de processo de pensamento.

Algumas outras criaturas também devem ter essa capacidade; não surpreendentemente os primatas estão entre essa elite. Se os chimpanzés roubam comida, por exemplo, são extremamente silenciosos se outro membro do grupo estiver ao alcance de sua voz. Mais impressionante ainda, eles parecem ser capazes de adivinhar como outro pode ter agido no passado.

Durante uma caça à comida, os chimpanzés tentam adivinhar onde seus concorrentes poderiam ter procurado primeiro, para que eles possam procurar em locais menos óbvios. Baleias, ursos e cães ainda não provaram suas habilidades neste tipo de tarefa, mas não deixam de mostrar alguns sinais de empatia que sugerem que eles também devem ter uma vida mental relativamente avançada.

No entanto, ainda falta uma característica importante do pensamento humano nos animais, chamada de “metacognição”: a habilidade de monitorar e controlar memórias e percepções, permitindo-nos pensar, por exemplo, “eu sei que eu sei isso” ou “eu não tenho certeza de que estou certo”, ou ainda sentir que o nome de alguém está na ponta de sua língua.

A importância disso para o pensamento humano é comparável ao uso da linguagem e das ferramentas. Evidência de metacognição em outros animais, portanto, seria uma grande prova da existência da mente animal.

Alguns cientistas começaram a explorar o assunto no início de 2000. Por exemplo, em um experimento, um grupo de macacos observou uma imagem e, depois de um tempo, tiveram que tentar selecionar a imagem de um grupo de quatro. Para quem acertasse, o prêmio era um amendoim.

Em um fluxo de experiências, no entanto, os macacos poderiam perder a chance de ganhar o amendoim, em troca de um prêmio garantido – um alimento processado de macaco menos desejável. Os cientistas suspeitam que os macacos deixavam “passar” essa opção quando não tinham certeza da resposta.

Ele estava certo. Macacos que tinham a oportunidade de “passar” para a frente desempenharam muito melhor nos testes do que 0s do experimento “tudo-ou-nada”. Isto sugere que, quando dada a oportunidade, eles eram totalmente capazes de avaliar a sua confiança na tarefa, fornecendo evidências convincentes para a metacognição no macaco.

Novas pesquisas sugerem que eles são parte de um conjunto selecionado com essa capacidade. Os chimpanzés, como os macacos, demonstraram metacognição, mas os macacos-prego, embora inteligentes em outras áreas, parecem cair nesse obstáculo. Os resultados para os golfinhos não são claros, mas já ficou certo que criaturas como o pombo não estão à altura do desafio.

Descobrir se outras espécies inteligentes como os golfinhos e, talvez, os corvos, possuem metacognição é crucial para nosso entendimento da mente.

Os cientistas precisam saber se a metacognição desenvolveu apenas uma vez, na linha dos primatas (que leva a macacos e humanos), ou se a característica se desenvolveu repetidamente e convergentemente, com picos de sofisticação cognitiva, em golfinhos, corvos, macacos e pessoas. Se esse for o caso, mudaria toda a nossa compreensão da evolução do cérebro dos primatas.

Muitos cientistas, entretanto, continuam achando que os humanos estão em um nível completamente diferente e muito maior de pensamento. Os chimpanzés, por exemplo, simplesmente não entendem conceitos físicos abstratos, como peso, gravidade e transferência de força.

Tente colocar uma banana perto da gaiola um chimpanzé e fornecer-lhe algumas ferramentas para alcançar seu potencial lanche. Ele estará tão propenso a tentar usar um material desajeitado e mole quanto um objeto rígido para alcançar a banana.

Ou seja, os chimpanzés podem raciocinar sobre coisas diretamente perceptíveis, mas somente os seres humanos têm um nível superior de pensamento que não depende apenas de estímulos sensoriais, permitindo-os formar conceitos mais abstratos, como gravidade ou força.

Esses cientistas céticos são minoria, mas continuam achando que os animais não têm consciência. Como Descartes, eles chegaram à conclusão de que a linguagem é essencial para o pensamento. Isso porque mesmo um comportamento engenhoso – que não envolva linguagem – pode ser feito sem estar consciente (veja os humanos dirigindo um carro sem nem pensar nisso). Os comportamentos que eles não concebem fazer inconscientemente são os que envolvem o uso de linguagem.

Um dos problemas nessa área é que os estudos de comportamento só podem chegar a um cerrto ponto: você poderia mostrar um animal como uma mosca colocando chapéu e vestindo roupas, e ainda algumas pessoas poderiam dizem que é apenas uma série de reflexos.

Por essa razão, alguns pesquisadores estão tentando novas abordagens que possam resolver o argumento de uma vez por todas. Imagens do cérebro é uma das possibilidades mais promissoras.

Por exemplo, pesquisadores usaram ressonância magnética funcional para estudar assinaturas de consciência do cérebro humano. Eles descobriram que existe um padrão similar de atividade neural cada vez que nos tornamos conscientes da mesma imagem de uma casa ou de um rosto, mas não processamos a informação da imagem inconscientemente. O trabalho sugere que o pensamento consciente não depende de qualquer região exclusivamente humana do cérebro, ou seja, não há nenhuma razão anatômica para dizer que o pensamento é exclusivo das pessoas.

Outro trabalho neurocientífico revelou alguns pré-requisitos importantes para a consciência que podem estar presentes em alguns animais. Conexões neurais que permitem que o tálamo transmita informações de sentidos para o córtex, por exemplo, parecem ser vitais para a percepção consciente. Outros mamíferos além de nós possuem tal conexão, por isso, eles têm pelo menos substratos para a consciência. Provavelmente podemos dizer o mesmo sobre as aves, o que parece se encaixar com as conclusões dos estudos comportamentais.

Algumas pessoas nunca vão se convencer do pensamento animal, já que acham que não há dados que possam responder a essa pergunta. Já outros estão otimistas com a procura dos equivalentes animais ao tálamo e córtex para resolver de vez o argumento. O que você acha?
Por Natasha Romanzoti [NewScientist]

CHINA – UMA VIAGEM AO FUTURO - Rick Ricardo


Shangai - 2016

Shangai - 1990


Na minha juventude quando pensava em China e nos chineses me surgiam as seguintes imagens; do pais comunista e opressor fomentada pela propaganda americana. O chinês imigrante, assustado e com pouca escolaridade que mal falava português mas ambicioso e trabalhador que acabava abrindo uma pastelaria ou um bar, além de outras imagens mais poéticas que também me ocorriam, como as dos versos de Lao Tzo ou de filmes como "O Ultimo Imperador" e "O Império do Sol".

Quando comecei a visitar a China no inicio dos anos 90 motivado não só pela minha curiosidade de viajante mas também pelo interesse no Budismo, encontrei não somente um pais muito mais fascinante do que podia imaginar mas também uma sociedade muito mais livre e amigável do que esperava encontrar. 

Como naquela época havia muitas restrições a movimentação de um estrangeiro e aonde podíamos ou não ficar, deparei me, muitas vezes, ao chegar numa cidade, com uma única possibilidade, que era no hotel de categoria superior, com preços acima do que as minhas despesas de viagem podiam comportar, mas nunca faltou aquela porta aberta e o amigável sorriso de um desconhecido me convidando para ficar.

Quando viajo, sempre que possível, vou por terra, e a China não foi uma exceção. Percorri o pais muitas vezes e visitei suas regiões mais remotas, geralmente de trem, por sua extensa rede ferroviária, e também de ônibus, de bicicleta e mesmo de carona para regiões da Inner Mongólia ou do Platô Tibetano onde apenas de caminhão se podia chegar.

Aquela China que conheci nos anos 90, onde muitos ainda usavam terno azul estilo Mao e onde em pequenos povoados fui um dos primeiros estrangeiros dos tempos de hoje a pisar, foi desaparecendo rapidamente.


Nos últimos 30 anos a economia tem crescido num ritmo surpreendente e a velocidade com que surgem novas construções é inacreditável. Com investimento em infraestrutura num patamar nunca antes visto na história da humanidade. 

Para se ter uma ideia, nos últimos cinco anos a China construiu 30 novos aeroportos , sistemas de metrô para 25 cidades, 42 mil Km de autoestradas, 10 mil Km de ferrovia de trem bala, as 3 mais longas pontes do mundo e um novo arranha-céu a cada cinco dias.

Visitar as grande cidades da China, hoje em dia, é como fazer uma viagem ao futuro, e de fato, cidades como Shenzhen ou Shanghai são ótimos panos de fundo para filmes de ficção científica. 

Recentemente, o celebrado cineasta Spike Jonze usou as ruas de Shanghai como cenário de seu Último e premiado filme de ficção futurista"Ela".

Claro que todo processo de industrialização tem seu preço e, às vezes, um preço muito alto a pagar, foi assim na Inglaterra vitoriana, no Japão dos anos 70 e etc. 

No caso da China, houve uma perda irreparável de parte de seu patrimônio histórico e natural, sem falar nos níveis de poluição das áreas industrializadas.

Pequim e outras cidades do nordeste da China tem sido vítima de smogues causados por usinas a carvão que remontam à Londres do século 19 e início do século 20.

Mas nem tudo esta perdido, Beijing e Shanghai não são mais poluídas do que Rio, São Paulo ou a Cidade do México e quem imagina Beijing como uma cidade caótica , poluída e suja, vai encontrar uma cidade muito organizada, limpa e com o trânsito bem melhor que São Paulo.

A intensificação da poluição atmosférica que vimos muito nas noticias, no fim do ano passado, tem a ver com a chegada do Inverno que causa um aumento na queima de carvão e inversão térmica. 

Mas, já há sinais de que a fome chinesa por carvão está diminuindo, e juntamente com regulamentos ambientais mais rígidos espera-se uma grande redução na poluição.

O pais é imenso e dispõem de recursos naturais capazes de deslumbrar qualquer viajante, sem contar nas centenas de cidades históricas, muitas delas cuidadosamente restauradas, alem de uma enorme quantidade de parques nacionais e de áreas naturais protegidas, que somente perde para a Itália em numero de locais tombados pela UNESCO como patrimônios da humanidade.

Rick Ricardo - O Monge Ocidental
Exclusivo para o CULT CARIOCA

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TEU SONHO NO MEU SONHO - Pablo Neruda


Já és minha. 
Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobra suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como âmbar dormido.

Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.

Nenhuma mais viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo,
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas.

Enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.

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DIVERSÃO DE ADULTO - Martha Medeiros

Uma leitora que assistiu à entrevista que dei recentemente para Marília Gabriela diz não ter entendido eu ter sido enfática sobre a importância de se valorizar a diversão num relacionamento, já que no primeiro bloco eu afirmei que não era de balada e preferia encontros mais privados. A ela, isso soou como uma contradição.

A leitora, que vou chamar de Carmem, não disse a idade, mas deduzi que ainda estivesse naquela fase em que diversão é sinônimo de festa – uns 19 anos, no máximo. Em tempo: eu gosto de festa. Um aniversário, um casamento, uma comemoração especial. Uma aqui, outra acolá, com algum espaçamento entre elas. Gosto.

Só que, quando falei em diversão, Carmem, falei antes de tudo num estado de espírito. Existe uma frase ótima, que não lembro de quem é, que diz que rir não é uma forma de desprezar a vida, e sim de homenageá-la. Mas atenção pra sutileza: isso não significa passar os dias feito uma boba alegre, dando bom dia pra poste. Trata-se de rir por dentro. De achar graça nas coisas. Mesmo as que não dão muito certo. A essa altura você já deve ter descoberto que nem tudo dá certo.

Parece um insulto falar de diversão com quem, aos 19 anos, deve ser expert no assunto, mas minha tese de mestrado, se eu tivesse que defender uma, seria: gente madura é que sabe se divertir. A verdadeira liberdade está em já ter feito vestibular, já ter terminado a faculdade, já ter casado, já ter tido filhos, já ter conquistado estabilidade profissional, já ter separado (é facultativo) e, surpreendentemente, ainda não ter virado um fóssil.

Com o resto de vida que se tem pela frente, sem precisar provar mais nada pra ninguém, muito menos pra si mesmo, é hora de arrumar a mochila e conhecer lugares que você sempre sonhou conhecer (Fernando de Noronha, quem sabe) e alguns que você nunca imaginou colocar os pés (Mongólia, digamos). Aprender um idioma só pela paixão por sua sonoridade: italiano, claro. Aprender a jogar pôquer ou ter umas aulas de sinuca. Aprender a cozinhar. Caso já saiba, aprender a cozinhar com intenção de abrir um restaurante um dia.

Você deve estar se perguntando: isso diverte um relacionamento? Ô.

Óbvio que é preciso trabalhar feito um escravo para custear toda essa programação, mas nada melhor para um casal do que se manter ocupado em seus ofícios e depois realizar juntos atividades desestressantes e hiperprazerosas, que deixarão ambos mais leves e, não duvide, mais jovens.

Carmem, se divertir é dormir cedo, acordar cedo, trabalhar, suar e arriscar. Pareço louca? Se divertir é isso também, enlouquecer. Festa é bom de vez em quando. E festa toda noite é coisa de gente triste. A vida mundana, ela mesma, é que tem que ser uma farra diária.

CONTRA O IMEDIATISMO - Roberto DaMatta

Os nobres eram sempre calmos. 
Até mesmo quando metiam a chibata, 
o faziam por meio de capatazes tranquilos

premiado livro de Suzanne Chantal, "A vida quotidiana em Portugal depois do terremoto de Lisboa de 1755" (Hachette, 1962), diz-se que os juízes lusitanos eram astuciosos. Eu cito: "Sabiam que o delito não contava. O que mais importava era saber quem o cometera, por conta de quem, quem prejudicava e quem beneficiava e qual era, dentre todos os partidos em causa, o mais poderoso, aquele que se devia esperar mais ou que mais se havia de temer. Por isso tomavam o maior cuidado em não agir com demasiada precipitação. Era frequente um processo esperar quatro ou cinco anos antes de ser instruído; mais ainda para ser julgado" (pag. 252).

Isso ocorria num Portugal do tempo dos "terramotos", como lá se diz. Nós, cá de um Brasil sem terremotos, somos imunes a tais malfeitos, justamente porque não nos precipitamos. Somos — independentemente do delito e do devido processo legal — contra o imediatismo e a voz das "multidões".

Nada deve ser imediato. Muito menos a prisão ou a luz elétrica. A boa educação obriga a esperar. Protele-se, pois, a velocidade das corridas de cavalo e do forno de micro-ondas. Condenar sem conceder todos os direitos aos criminosos donos poder, é contra a nossa natureza de país pautado pela lei. Terra adorada na qual jamais os poderosos ( "gente boa") — jamais foram para a cadeia.

Ultra-legalistas, amamos a lei pela lei. Somos a favor do processo legal lento e grandioso em tamanho e absurdo. Tomemos a policia. Ela deve primeiro testemunhar com absoluta certeza que algumas propriedades foram vandalizadas para agir. E mesmo assim, levar em conta que a depredação de bancos e lojas podem ser sinais de uma nova era. Não sabemos ainda que mensagem é essa, mas ela certamente vai surgir com mais clareza tal como em março (ou seria abril?) de 1964; tal como ocorreu com o Estado Novo e na Alemanha a partir de 1933. Somos seguros e gradualistas. Demoramos mais ou menos 60 anos para abolir a escravidão e mais um outro tanto para retomar a democracia. Aliás, considerando o mensalão, hoje vemos com mais serenidade que ele foi um deslize banal. É mais um mero caso de corrupção, semelhante à dúzias de outros exemplos ocorridos em todos os governos, realizados por quase todo mundo. Diante disso, a Abolição da Escravatura foi um milagre de Nossa Senhora Aparecida.

Tudo o que é rápido e que produz resultados instantâneos e sem a intermediação dos compadres, dos ex-secretários e dos ex-advogados que nos julgam de modo ponderado e isento, deve ser pensado e evitado ou até mesmo — reitero — proibido. Mas proibido com tranquilidade, sem rompantes reveladores de má-educação e de gosto duvidoso.

O imediatismo — como dizia um velho e sábio professor favorável a uma "sociologia da calma" — era o problema do nosso tempo. Claro que esse "nosso tempo" deveria ser igualmente ponderado senão ele se transformaria num indesejável imediatismo o qual fatalmente levaria a um arriscado "colocar o carro adiante dos bois".

A pressa é inimiga da perfeição. O corre-corre é uma característica definitiva inferiores: dos criados e dos serviçais. E com o perdão que invoca os velhos e bons tempos nos quais cada qual tinha (não existia ainda essa novidade burguesa e liberal de saber) o seu lugar — como na escravidão — os nobres eram sempre calmos. Até mesmo quando metiam a chibata, o faziam por meio de capatazes tranquilos. Eles decidiam com consciência, tendo na memória os princípios perenes da desigualdade. Por isso prendiam suspeitos e com ajuda de alguns mecanismos, sabiam como transformar um "não" num "sim" em certas circunstâncias e com o justificado uso de certos mediadores como uns bofetes na cara, o choque elétrico e o pau de arara. Ou realizando julgamentos duplos, triplos ou múltiplos — ou melhor ainda, sem julgamento — esse direito fundamental que, em certas circunstâncias pode ser substituído por instrumentos mais eficazes como o fuzilamento sumário, desde que a causa seja justa como parir a justiça social, aplacar o ciúme da mulher bonita, inibir a competição de um colega brilhante, ou garantir a proteção do país contra alguma nação, "raça" ou classe como essa famigerada mídia comprada que hoje faz uma campanha vergonhosamente anti-esquerdista. Essa esquerda que é inimputável, feita de cruzados; que a tudo renunciou em nome do povo e que jamais roubou, corrompeu ou pecou. Essa esquerda que por sua total inexperiência no poder — onde está faz mais de uma década — tem cometido pequenos exageros. Erros dilatados pela mídia corrupta, liberal e imediatista, a ser posta de quarentena para que, numa apreciação mais detida e sem o clamor da multidão ensandecida possam ser reavaliados à luz do nosso exemplar direito luso-brasileiro.

Claro que o imediatismo tem tudo a ver com grandes injustiças. Talvez pior que a agilidade seja esperar sentado. Mas, conforme sabemos, quem espera, sempre alcança.

O PAÍS NÃO É UMA IGREJA - Fernando Brant

O domingo deveria ser de descanso, de repouso dos guerreiros. Depois de trabalhar toda a semana, o cidadão imagina poder se entregar aos braços de Morfeu, sem culpa. Ficar igual celular, quando é ligado, procurando rede. No bem-bom do à toa, lendo os jornais volumosos ou um livro, escutando música boa, ou simplesmente pensando. Melhor ainda, quando chega a família com os netos e a conversa corre solta, descontraída e amorosa. Esses momentos de chinelo e bermuda eu não troco por nada. E quem trocaria? Talvez esses desmiolados que só pensam em dinheiro, consumir e distribuir incivilidade pela cidade.

Nem sempre o previsto acontece. Pois há sempre a possibilidade mais que provável de se acordar com o som altíssimo que vem da igreja em frente. O pastor e os fiéis não entendem que nem todos querem ouvir aquelas preces coletivas entoadas em altos decibéis.

Depois das orações, um longo período de ensaio musical (quem disse que queremos ouvir isso?), que impede que as pessoas possam conversar dentro de casa.

E depois do duradouro tocar embolado de canções que mais primam pela altura do que pela qualidade, finda a tarde, vem a sessão noturna. Tudo o que foi treinado volta agora revigorado por vozes e instrumentos. 

E tem um sermão altissonante que, pelo volume, parece ser uma esculhambação geral nos ouvintes que não querem prestar atenção à palavra divina. Berrar não é a melhor maneira de convencer, é o que penso humildemente. Se o ensinamento for bom, os bons de espírito o acatarão mesmo se sussurrado. Melhor principalmente se sussurrado.

Aceito todas as religiões, respeito todas as doutrinas e ideias. É uma questão de princípio, mas também a constatação do que reza a Constituição, livro de todos os brasileiros. Sempre lembrando que o Estado é laico, sou a favor da liberdade de crença, de expressão, de ir e vir, tudo o que é essencial em uma democracia. Infelizmente, vejo, com temor, a cada ano que passa, a invasão dos políticos ligados às crenças religiosas. Tudo certo eles defenderem seu pensamento religioso, seguir em suas vidas particulares os conceitos de sua fé.

Mas não julgo correto que os deputados, vereadores e senadores, em nome do credo religioso que abraçam, queiram impor a todos os brasileiros a sua convicção.

Assuntos de igreja se resolvem pela e na igreja. Se não querem se casar, se acham a bebida um absurdo, se são contra o uso de preservativos, não casem, não bebam e cultivem a abstinência sexual. 

Quando eleitos representantes do povo, porém, não confundam o país e os cidadãos com a sua seita e seus fieis. Cada um com sua crença e suas ações, desde que não prejudique o próximo. Isso é civilizado.

O CÉREBRO VAZIO (uma tradução)


O seu cérebro não processa dados, recupera conhecimento
 ou armazena memórias. Resumindo: seu cérebro não é um computador
 .por Robert Epstein*
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Tradução de Marina Legroski, disponível aqui. O original está disponível aqui.

Por mais que tentem, neurocientistas e psicólogos cognitivistas nunca encontrarão uma cópia da 5ª sinfonia de Beethoven no cérebroou cópias de palavras, imagens, regras gramaticais ou de qualquer outro tipo de estímulo ambiental. O cérebro humano não é vazio, de verdade, é claro. Mas ele não contém a maioria das coisas que as pessoas acham que contémnem mesmo coisas tão simples quanto “memórias”.

Nossos pensamentos limitados sobre o cérebro têm profundas raízes históricas, mas a invenção dos computadores nos anos 1940 nos deixou especialmente confusos. Por mais de meio século, psicólogos, linguistas, neurocientistas e outros especialistas no comportamento humano vêm dizendo que o cérebro humano funciona como um computador.
Para ver o quão vazia essa ideia é, considere o cérebro de bebês. Graças à evolução, os recém-nascidos, assim como os filhotes de outros mamíferos, chegam ao mundo preparados para interagir com ele efetivamente. A visão de um bebê é borrada, mas ela presta atenção especial em rostos, e é capaz de identificar rapidamente o da sua mãe. Ele prefere o som de vozes a sons que não sejam de fala e pode distinguir os sons básicos de fala de outros. Nós somos, sem dúvidas, feitos para criar conexões sociais.
Um recém-nascido saudável é também equipado com mais de uma dúzia de reflexosreações pré-preparadas para certos estímulos que são importantes para a sua sobrevivência. Ele vira a cabeça na direção de algo que roce a sua bochecha e suga qualquer coisa que entre em sua boca. Ele segura o fôlego quando submerso em água. Ele agarra coisas colocadas na sua mão forte o suficiente para quase suportar seu próprio peso. Talvez o mais importante seja que recém-nascidos vêm equipados com mecanismos de aprendizagem tão poderosos que permitem que eles rapidamente melhorem a sua interação com o mundo, mesmo que esse mundo seja muito diferente daquele que seus ancestrais enfrentaram.
Sentidos, reflexos e mecanismos de aprendizagemé com isso que começamos, e é bastante coisa quando se pensa a respeito. Se nós não tivéssemos essas habilidades ao nascer, provavelmente teríamos problemas para sobreviver.
Mas aqui temos coisas com as quais não nascemos: informações, dados, regras, aplicativos, conhecimento, léxico, representações, algoritmos, programas, modelos, memórias, imagens, processadores, sub-rotinas, codificadores, decodificadores, símbolos ou bufferselementos que permitem que computadores digitais se comportem de uma maneira meio inteligente. Nós não apenas não nascemos com essas coisas, mas nós não as desenvolvemosnunca.

Nós não armazenamos palavras ou regras que nos dizem como manipulá-las. Nós não criamos representações de estímulos visuais, os armazenamos em um buffer de memória de curto prazo e então transferimos essas representações para a memória de longo prazo. Nós não recuperamos informações ou imagens ou palavras de registros de memória. Computadores fazem todas essas coisas, mas organismos não.

Computadores, bem literalmente, processam dadosnúmeros, letras, palavras, fórmulas, imagens. A informação tem que, primeiro, ser codificada em um formato que computadores possam usar, o que significa padrões de zeros e uns (“bits”), organizados em pedacinhos (“bytes”). No meu computador, cada byte contém 8 bits, e um certo padrão desses bits corresponde à letra ‘g’, outro à letra “a”, outro à letra “t” e outro ainda à letra “o”. Lado a lado, esses 4 bytes formam a palavra “gato”. Uma simples imagem, como a foto do meu gato Henry no papel de parede, é representada por um padrão muito específico de milhões desses bytes (um “megabyte”), rodeado de alguns caracteres que digam ao computador para que espere por uma imagem, e não por uma palavra.

Computadores, ainda bem literalmente, mudam esses padrões de lugar em diferentes áreas físicas de armazenamento gravados em componentes eletrônicos. Algumas vezes eles também copiam esses padrões, e algumas vezes os transformam de várias maneiraspor exemplo, quando estamos corrigindo erros em um rascunho ou estamos retocando uma fotografia. As regras que os computadores seguem para mover, copiar e operar esses arranjos de dados são também armazenadas dentro do computador. Junto, um conjunto de regras é chamado de “programa” ou “algoritmo”. Um grupo de algoritmos que trabalham juntos para nos ajudar a fazer alguma coisa (como comprar ações ou arrumar um encontro online) é chamado de “aplicativo”o que hoje a maioria das pessoas chama de “app”.
Me perdoe por essa introdução à computação, mas eu preciso ser claro: computadores realmente operam com representações simbólicas do mundo. Eles realmente armazenam e recuperam. Eles realmente processam. Eles realmente têm memórias físicas. Eles realmente são guiados em tudo o que fazem, sem exceções, por algoritmos.
Humanos, por outro lado, nãonunca fizeram isso, nunca farão. Dada essa realidade, porque tantos cientistas falam da nossa vida mental como se fôssemos computadores?
Em seu livro “In Our Own Image” (2015), o especialista em inteligência artificial George Zarkadakis descreve seis diferentes metáforas que as pessoas empregaram nos últimos 2 mil anos para tentar explicar a inteligência humana.
Na mais antiga, ainda preservada na Bíblia, humanos foram formados da terra ou de argila, e um deus inteligente nos infundiu com seu espírito. Esse espírito “explica” a nossa inteligênciagramatical, pelo menos.
A invenção da engenharia hidráulica no século 3 d.C. levou à popularização de uma representação hidráulica da inteligência humana, pela ideia que o fluxo de diferentes fluidos no corpoos “humores”dava conta de nosso funcionamento físico e mental. A metáfora hidráulica persistiu por mais de 1.600 anos, fragilizando a prática médica por todo esse tempo.
Por volta de 1.500, autômatos que funcionavam por molas e engrenagens foram desenvolvidos, eventualmente inspirando grandes pensadores como René Descartes a afirmar que humanos eram máquinas complexas. Em 1.600, o filósofo britânico Thomas Hobbes sugeriu que o pensamento emergia de pequenos movimentos mecânicos dentro do cérebro. Por volta de 1.700, descobertas sobre eletricidade e química levaram a novas teorias sobre a inteligência humanade novo, grandemente metafóricas. Em meados do século 19, inspirado pelos avanços recentes nas telecomunicações, o físico e médico alemão Hermann von Helmholtz comparou o cérebro a um telégrafo.
Cada metáfora reflete o pensamento mais avançado da era que o gerou. Previsivelmente, poucos anos depois do surgimento da tecnologia computacional, nos anos 1940, foi dito que o cérebro operava como um computador, com o papel do hardware sendo desempenhado pelo próprio cérebro e os pensamentos funcionando como os softwares. O evento que marcou o lançamento do que hoje é chamado de “ciência cognitiva” foi a publicação de “Language and Communication” (1951) pelo psicólogo George Miller. Miller propôs que o mundo mental poderia ser estudado rigorosamente usando conceitos da teoria da informação, computação e linguística.
Esse tipo de pensamento foi levado à expressão máxima no livro “The Computer and the Brain” (1958), em que o matemático John von Neumann assumiu, rasteiramente, que a função do sistema nervoso humano é “prima facie digital”. Embora ele tenha admitido que muito pouco era conhecido sobre o papel que o cérebro desempenhava no raciocínio e memória humanos, ele traçou paralelos entre os componentes de computadores da época e os componentes do cérebro humano.

Impulsionado pelos avanços subsequentes tanto na tecnologia da computação quanto nas pesquisas sobre o cérebro, um esforço multidisciplinar ambicioso para entender a inteligência humana gradualmente se desenvolveu, firmemente apoiado na ideia que os humanos são, assim como computadores, processadores de informação. Esse esforço reúne agora milhares de pesquisadores, consumindo bilhões de dólares em financiamentos, e tem gerado uma vasta literatura, tanto técnica quanto de divulgação, em artigos e livros. O livro de Ray Kurzwiel, “How to Create a Mind: the Secret of Human Thougth Revealed” (2013), exemplifica essa perspectiva, especulando sobre os “algoritmos” do cérebro, como ele “processa dados”, e até como a sua estrutura se assemelha superficialmente a circuitos integrados.
A metáfora do processamento de informação (PI) para a inteligência humana agora domina o discurso, tanto nas ruas quanto na ciência. Virtualmente não existe forma de discurso sobre a inteligência humana que siga sem o emprego desta metáfora, assim como nenhuma forma de discurso sobre o comportamento humano inteligente poderia proceder em outras eras e culturas sem se referir a um espírito ou deidade. A validade da metáfora PI no mundo cotidiano é assumida sem questionamento.
Mas a metáfora PI é, no fim das contas, só outra metáforauma história que contamos para que alguma coisa que não entendemos faça sentido. E, como todas as outras metáforas que a precederam, ela certamente será deixada de lado em algum pontosubstituída por outra metáfora ou, no final, por entendimento real.
Apenas há um ano atrás, numa visita a um dos institutos de pesquisa mais prestigiados do mundo, eu desafiei os pesquisadores de lá a tratarem da inteligência humana sem fazerem referência a nenhum aspecto da metáfora do processamento de informação. Não conseguiram e, então, quando eu educadamente toquei no assunto em comunicações via e-mail que se sucederam, meses depois, eles ainda não tinham nada. Eles viram o problema. Não rejeitaram o desafio como sendo trivial. Mas não conseguiram oferecer alternativas. Em outras palavras, a metáfora PI é “grudenta”. Ela sobrecarrega nosso pensamento com linguagens e ideias que são tão poderosas que temos dificuldade em pensar para fora delas.

A lógica defeituosa da metáfora do processamento de informação é bastante fácil para ser exposta. É baseada em um silogismo falsocom duas premissas razoáveis e uma conclusão falsa. Premissa razoável 1: todos os computadores são capazes de funcionar de maneira inteligente. Premissa razoável 2: todos os computadores são processadores de informação. Conclusão falsa: todas as entidades que são capazes de se comportar de maneira inteligente são processadores de informação.
Deixando de lado a linguagem formal, a ideia de que humanos precisam ser processadores de dados apenas porque computadores são é bastante boba e, quando, um dia, a metáfora PI for finalmente abandonada, ela certamente será vista assim pelos historiadores, da mesma maneira que agora nós achamos bobas as metáforas hidráulica e mecânica.
Mas se a metáfora PI é tão boba, porque é tão grudenta? O que está nos impedindo de afastá-la para o lado, assim como afastaríamos um galho que está bloqueando nosso caminho? Existe uma maneira de entender a inteligência humana sem nos apoiarmos em uma muleta intelectual frágil? E que preço temos pagado por nos apoiarmos nessa muleta, em particular, por tanto tempo? A metáfora PI, afinal de contas, tem guiado a escrita e o pensamento de um grande número de pesquisadores, em muitas áreas, por décadas. A que custo?
Em um exercício em sala de aula que eu conduzi, muitas vezes, ao longo dos anos, eu começava recrutando um aluno para desenhar uma imagem detalhada de uma nota de um dólar“tão detalhista quanto possível”, eu diziano quadro negro em frente à turma. Quando o aluno terminava, eu cobria o desenho com uma folha de papel, retirava uma nota de dólar da minha carteira, colava-a no quadro, e então pedia que ele repetisse a tarefa. Quando terminava, eu removia a cobertura do primeiro desenho e pedia à turma que comentasse as diferenças.
Como talvez você nunca tenha visto uma demonstração assim, ou porque talvez você possa ter dificuldades para imaginar o resultado, eu pedi a Jinny Hyun, uma das estagiárias do instituto onde pesquisava, para fazer os dois desenhos. Aqui está o primeiro desenho dela “de memória” (note a metáfora):
E aqui está o desenho que ela fez em seguida, vendo a nota de dólar:
Jinny ficou tão surpresa com o resultado quanto você provavelmente ficou, mas é assim mesmo. Como você pode ver, o desenho feito na ausência da nota é horrível comparado ao feito a partir um exemplar, mesmo que ela tenha visto uma nota de um dólar milhares de vezes.
Qual é o problema? Nós não temos uma “representação” da nota de dólar “armazenada” em um “registro de memória” em nossos cérebros? Nós não podemos simplesmente “recuperá-la” e usá-la para fazer nosso desenho?
Obviamente não, e nem mil anos de neurociência irão localizar uma representação de uma nota de um dólar armazenada dentro do cérebro humano pela simples razão que não há nada para ser encontrado.
A riqueza de estudos do cérebro nos diz, na verdade, que múltiplas e, às vezes,grandes, áreas do cérebro estão frequentemente envolvidas na mais trivial das tarefas de memória. Quando emoções fortes estão envolvidas, milhões de neurônios podem ficar mais ativos. Em um estudo de 2016 com sobreviventes de uma queda de avião, feito pelo neuropsicólogo Brian Levine e outros, na Universidade de Toronto, notou-se que a ativação da memória do acidente aumentou a atividade neural na amígdala, no lobo médio-temporal, linha média anterior e posterior e no córtex visual desses passageiros.

A ideia, defendida por vários cientistas, de que memórias específicas estão, de alguma maneira, armazenadas em neurônios individuais é ridícula. Caso contrário, essa afirmação apenas empurra o problema da memória para um nível ainda mais desafiador: como e onde, afinal, a memória é armazenada na célula?
Então o que acontecia quando a Jinny desenhava a nota de dólar na sua ausência? Se a Jinny nunca tivesse visto uma nota de dólar antes, seu primeiro desenho provavelmente não teria nenhuma semelhança com o segundo. Tendo visto notas de dólar antes, ela foi modificada de alguma maneira.
 Especificamente, o cérebro dela foi mudado de uma forma que a permitisse visualizar uma cédulaisto é, a re-experienciar a visão de uma cédula, pelo menos até certo ponto.
A diferença entre os dois desenhos nos lembra que visualizar alguma coisa (isto é, ver algo que não está presente) é muito menos preciso do que ver algo que está presente. É por isso que nós somos muito melhores em reconhecer do que em lembrar. Quando nós relembramos alguma coisa, nós temos que tentar retomar uma experiência; mas quando nós reconhecemos algo, nós precisamos meramente estar conscientes do fato que nós já tivemos essa experiência perceptual antes.
Talvez você conteste essa demonstração. A Jinny tinha visto notas de dólar antes, mas ela não tinha feito um esforço deliberado para memorizar os detalhes. Se ela tivesse feito isso, você poderia argumentar, ela teria presumivelmente desenhado a segunda imagem sem ver a nota. Mesmo nesse caso, nenhuma imagem da cédula de dólar teria sido, em nenhum sentido, “armazenada” no cérebro da Jinny. Ela simplesmente teria se preparado para desenhar de modo mais preciso, assim como, através da prática, um pianista se torna mais habilidoso em tocar um concerto sem de alguma maneira inalar a cópia da partitura.
A partir desse exercício simples, podemos começar a construir a moldura de uma teoria do comportamento inteligente humano sem metáforasuma em que o cérebro não seja completamente vazio, mas pelo menos livre da bagagem da metáfora do processamento de informações.

Enquanto navegamos pelo mundo, nós somos modificados por uma variedade de experiências. Especialmente notáveis, existem experiências de três tipos: (1) nós observamos o que acontece ao nosso redor (o comportamento de outras pessoas, sons musicais, instruções dirigidas a nós, palavras em páginas, imagens em telas); (2) nós somos motivados a parear estímulos irrelevantes (como sons de sirene) a estímulos relevantes (como a aproximação de carros de polícia); (3) nós somos punidos ou recompensados por nos comportarmos de determinadas maneiras.
Nós nos tornamos mais eficientes em nossas vidas se mudamos para maneiras que são consistentes com essas experiênciasse agora somos capazes de recitar um poema ou cantar uma música, se somos capazes de seguir instruções que nos deram, se respondemos a estímulos desimportantes menos do que o fazemos a estímulos importantes, se nos contemos de nos comportarmos de maneiras pelas quais já nos puniram, se nos comportamos mais frequentemente de maneiras pelas quais nos recompensaram.
Exceto por manchetes enganosas, ninguém realmente tem a mais remota ideia de como o cérebro muda depois de ter aprendido a cantar uma música ou a recitar um poema. Mas nem a música nem o poema ficou “armazenado” lá dentro. O cérebro simplesmente mudou de uma maneira ordenada que agora nos permite cantar a música ou recitar o poema em determinadas condições. Quando nos pedem para apresentar, nem a música nem o poema é de nenhuma forma “recuperado” de algum lugar do cérebro, não mais do que os movimentos dos meus dedos são “recuperados” quando eu os tamborilo sobre a mesa. Nós simplesmente cantamos ou recitamos: nenhuma busca foi feita.
Poucos anos atrás, eu perguntei a Eric Kandel, neurocientista da Universidade de Columbiavencedor de um Prêmio Nobel por ter identificado algumas das mudanças químicas que acontecem nas sinapses neuronais da Aplysia (um caracol marinho) depois que ela aprende alguma coisaquanto tempo ele achava que levaria para que entendêssemos como a memória humana funciona. Ele rapidamente respondeu: “Cem anos.” Eu não pensei em perguntar a ele como a metáfora do processamento estava atrasando a neurociência, mas alguns neurocientistas estão começando a pensar o impensávelque a metáfora não é indispensável.

Poucos cientistas da cogniçãonotadamente Anthony Chemero, da Universidade de Cincinnati, o autor de “Radical Embodied Cognitive Science” (2009), rejeitam, atualmente, completamente a visão de que o cérebro humano trabalha como um computador. A visão mais geral é que, nós, como computadores, atribuímos sentido ao mundo realizando cálculos em representações mentais dele, mas Chemero e outros descrevem outra maneira de entender o comportamento inteligente: como uma interação direta dos organismos e do mundo.
Meu exemplo favorito da diferença dramática entre a perspectiva do processamento de informação e o que atualmente alguns chamam de visão “anti representacional” do funcionamento humano envolve duas formas diferentes para explicar como um jogador de baseball consegue pegar uma bola no arbelamente explicado por Michael McBeath, atualmente na Universidade Estadual do Arizona, e seus colegas, em 1995, em um artigo publicado na Science

A perspectiva do processamento de informação requer que o jogador formule uma estimativa de várias condições iniciais do voo da bolaa força do impacto, o ângulo da trajetória, esse tipo de coisae então crie e analise um modelo interno do caminho pelo qual a bola provavelmente irá se mover, então use esse modelo para guiar e ajustar movimentos motores continuamente no tempo de maneira a interceptar a bola.


Tudo muito bom e muito bem se nós funcionássemos como computadores, mas McBeath e seus colegas deram uma explicação mais simples: para pegar a bola, o jogador apenas precisa continuar se movendo de maneira a manter a bola num relacionamento visual constante entre o home plate e o cenário ao redor (tecnicamente, em uma “trajetória linear óptica”). Isso pode soar complicado, mas é, na verdade, incrivelmente simples, e completamente livre de computação, representações e algoritmos.

Dois professores de psicologia determinados da Universidade Leeds Beckett no Reino UnidoAndrew Wilson e Sabrina Golonkaincluíram o exemplo do baseball entre muitos outros que podem ser observados simples e sensivelmente fora da moldura do processamento de informações. 

Há anos eles vem blogando  sobre o que eles chamam de “um tratamento mais coerente e naturalizado ao estudo científico do comportamento humano (…) que contrasta com o tratamento dominante da neurociência cognitiva”. Isso está longe de ser um movimento, no entanto; a ciência cognitiva mais disseminada continua a chafurdar sem críticas à metáfora do processamento de informações, e alguns dos pensadores mundiais mais influentes fizeram grandes previsões sobre o futuro da humanidade que dependem da validade desta metáfora.


Uma previsãofeita pelo estudioso do futuro Kurzweil, pelo físico Stephen Hawking e o neurocientista Randal Koene, entre outrosé que, porque a consciência humana é supostamente parecida com softwares de computador, será possível, em breve, fazer o “download” de mentes humanas para computadores, em circuitos, com o que nós nos tornaremos imensamente poderosos intelectualmente e, muito possivelmente, imortais. Esse conceito guiou o enredo do filme distópico Transcendence (2014), estrelando Johnny Deep como o cientista kurzweiliano cuja mente foi transferida para a internetcom resultados desastrosos para a humanidade.

Felizmente, porque a metáfora do processamento de informações não é nem remotamente válida, nós nunca teremos que nos preocupar com uma mente humana indo parar no cyberespaço; além disso, nós nunca alcançaremos a imortalidade por meio do download. Isso não é apenas pela ausência do software da consciência no cérebro; existe um problema mais profundo aqui: vamos chamá-lo de problema da unicidadeque é tanto inspirador quanto deprimente.

Porque nem “bancos de memória” nem “representações” de estímulos existem no cérebro, e porque tudo o que é necessário para nós funcionarmos no mundo é que o cérebro mude em uma forma ordenada como resultado de nossas experiências, não existe razão para acreditar que quaisquer dois de nós fomos modificados da mesma maneira pela mesma experiência. Se nós dois assistimos ao mesmo concerto, as mudanças que acontecem no meu cérebro quando eu ouço a 5ª sinfonia de Beethoven serão, certamente, completamente diferentes das que ocorrem no seu cérebro. Essas mudanças, quaisquer que sejam elas, são construídas na rede neuronal particular que já existe, sendo que cada estrutura se desenvolveu sobre uma vida de experiências particulares.

Essa é a razão pela qual, como demonstrou Sir Frederic Barlett em seu livro “Remembering” (1932), duas pessoas não vão repetir da mesma maneira uma história que elas ouviram da mesma maneira e pela qual, com o passar do tempo, as suas versões da história irão divergir mais e mais. Nenhuma “cópia” da história jamais foi feita; ao invés disso, cada indivíduo, ouvindo a história, muda em algum sentidoo suficiente para que, quando perguntado sobre ela mais tarde (em alguns casos, dias, meses ou mesmo anos depois que Barlett tenha lido a história pela primeira vez), pudesse re-experienciar a leitura da história em alguns trechos, embora não muito bem (veja o primeiro desenho da nota de dólar, acima).
Isto é inspirador, eu imagino, porque significa que cada um de nós é verdadeiramente único, não apenas na nossa forma genética, mas também na maneira em que nosso cérebro muda com o passar do tempo. Isso também é deprimente, porque torna o trabalho dos neurocientistas assustador além da imaginação. Para cada experiência dada, a mudança ordenada pode envolver milhares ou milhões de neurônios ou, ainda, o cérebro inteiro, sendo que o padrão de mudança é diferente para cada cérebro.
Ainda pior: mesmo que nós tivéssemos a habilidade de tirar uma foto de todos os 86 bilhões de neurônios cerebrais e então estimulássemos os estados desses neurônios em um computador, o vasto padrão poderia não significar nada fora do corpo em que o cérebro o produziu. Essa é talvez a forma mais escandalosa pela qual a metáfora do processamento cerebral distorceu nosso pensamento sobre o funcionamento humano. Enquanto computadores armazenam cópias exatas de dadoscópias que podem persistir sem alterações por grandes períodos de tempo, mesmo se a energia tiver sido desligadao cérebro mantém nosso intelecto apenas enquanto ele se mantém vivo. Não tem botão de liga e desliga.
 Ou o cérebro continua funcionando ou ele desaparece. Além disso, assim como o neurobiólogo Steven Rose apontou em “The Future of Brain” (2005), uma fotografia do estado atual do cérebro poderia ser também sem sentido a não ser que conhecêssemos a história de vida inteira do dono daquele cérebrotalvez até o contexto social em que ele ou ela foi criado.
Pense no quão difícil o problema é. Para entender mesmo o básico de como o cérebro mantém o intelecto humano, nós precisaríamos conhecer não apenas o estado atual de 86 bilhões de neurônios e de suas 100 trilhões de interconexões, não apenas a variação das forças pelas quais eles estão conectados, e não apenas os estados de mais de mil proteínas que existem em cada ponto de conexão, mas como a atividade momento a momento do cérebro contribui para a integridade do sistema. Adicione a isso as particularidades de cada cérebro, trazidas em parte por conta das particularidades da história de vida de cada pessoa, e a previsão de Kandel começa a soar extremamente otimista. (Em um editorial aberto recente no New York Times, o neurocientista Kenneth Miller sugeriu que levará “séculos” apenas para descobrirmos a conectividade neuronal básica).

Enquanto isso, grandes quantias de dinheiro estão sendo levantadas para pesquisas cerebrais, baseadas, em alguns casos, em ideias com problemas e promessas que não podem ser mantidas. A instância mais ruidosa da neurociência enviesada, conforme documentado recentemente em uma reportagem na Scientific American, diz respeito ao Projeto Cérebro Humano, de 1.3 bilhões de dólares, lançado pela União Europeia em 2013. Convencidos pelo carismático Henry Markram de que ele poderia criar uma simulação completa do cérebro humano em um computador até o ano de 2023, e de que este modelo revolucionaria o tratamento do Mal de Alzheimer e de outras doenças, os oficiais da EU financiaram seu projeto sem, virtualmente, qualquer restrição. Menos de dois anos depois, o projeto se tornou um “quebra-cabeças” e Markram foi convidado a se retirar.

Nós somos organismos, não computadores. Supere. Vamos começar com o negócio de tentar entender a nós mesmos, mas sem sermos sobrecarregados com bagagem intelectual desnecessária. A metáfora do processamento de informações já teve seu meio século, produzindo poucos insights pelo caminho, se é que os produziu. Chegou a hora de apertar DELETE.

(*) Pesquisador sênior de psicologia no Instituto Americano de Pesquisa e Tecnologia do Comportamento na Califórnia. Autor de 15 livros e ex-editor chefe da Psychology Today.

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NEUROCIÊNCIA SUPEROU A PSICANÁLIE - Ivan Izquierdo

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A psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência...