HERMANN HESSE - Degraus


Assim como as flores murcham
E a juventude cede à velhice,
Também os degraus da Vida,
A sabedoria e a virtude, a seu tempo,
Florescem e não duram eternamente.
A cada apelo da vida deve o coração
Estar pronto a despedir-se e a começar de novo,
Para, com coragem e sem lágrimas se
Dar a outras novas ligações. Em todo
O começo reside um encanto que nos
Protege e ajuda a viver

Serenos transpondo o espaço após espaço,
Não nos prendendo a nenhum elo, a um lar;
Sermos corrente, parado não nos quer o espírito do mundo
Mas de degrau em degrau elevar-nos e aumentar-nos.
Apenas nos habituamos a um círculo de vida,
Íntimos, ameaça-nos o torpor;
Só aquele que está pronto a partir e parte
Se furtará à paralisia dos hábitos.

Talvez também a hora da morte
Nos lance, jovens, para novos espaços,
O apelo da Vida nunca tem fim ...
Vamos, Coração, despede-te e cura-te!

ARRUMAR SÓTÃOS E PORÕES - Lya Luft

Quem acompanha o que penso há décadas sabe que o centro de minhas perplexidades tem sido a família, esse chão inaugural sobre o qual caminharemos pelo resto de nossa vida, mais sólido ou mais esburacado, propiciando que se ande melhor ou se tropece mais. 

Acontecimentos espantosos mostrados na mídia testemunham que precisamos ser menos românticos e mais lúcidos para que se salve uma semente de humanidade ali onde a família deixou de existir. Bandos de crianças e pré-adolescentes fazem arrastões em hotéis ou lojas numa grande cidade. 


Alguns, presos, são devolvidos às mães. Ouve-se claramente uma dessas pseudomães criticar a filha, não por ter roubado, mas por ter "roubado no mesmo lugar, sua besta". Uma autoridade insistia brandamente em que ainda se devia apostar na família. Sinto muito: nesses casos extremos, não acredito nisso. 


Algumas famílias são a origem do mal (e não só entre os mais desvalidos). Ali não existem colo, abraço, escuta ou palavra: existem brutalidade. obscenidade e crueldade. Ali não se formam pessoas, e é insensato devolver crianças ou pré-adolescentes a esse tipo de mãe. É uma desesperada, dirão alguns, e pode ser. Mas ali o conceito "família" não existe.


Nem acredito que essas crianças enfurecidas, pequenos selvagens que apanhados destruíram, literalmente, postos de polícia e salas de atendimento de menores infratores, chutando policiais, atirando objetos longe, quebrando e rasgando o que chegava ao alcance de sua violência, tenham possibilidade de melhoria, se devolvidas a sua pseudofamília. 

Retomadas às ruas, são um perigo para si e para todos. A lei deveria ser muito firme nesses casos, para socorrer esses fantasmas com carinha de criança e alma de sombra, acalmando sua violência, incutindo-lhes o que seja convívio, dignidade, respeito por si e pelo outro: longo caminho, longo aprendizado, longo esforço da sociedade em compensar essas pessoinhas pelo abandono em que as deixou.

Quando se fala em redimir os miseráveis do país retirando-os desse contexto, deve-se incluir, de imediato, o trio moradia, saúde e educação, sem o qual somos quase bichos. Perdoem-me os ainda líricos, mas o que se viu mais de uma vez nessas crianças foi violência nua e crua. Talvez estivessem drogadas. Certamente não conhecem outra coisa no ambiente insano no qual nasceram. Mas precisam, por isso mesmo, de contenção, limite, autoridade amorosa mas firme, orientação e, antes de tudo, cuidados básicos consigo mesmas.

Onde a família virou apenas um mito distante, mais essencial é a ideia da educação, que não se restringe a caderno e lápis, mas começa com a tentativa de salvar essas crianças do seu meio com um atendimento básico em saúde e higiene, conceitos bem fundamentais de vida, afeto, respeito, o que, naturalmente, inclui limites, disciplina, restrições e encaminhamento paulatino, paciente mas com autoridade, a uma condição de vida mais humana. Educação começa aí, inclui essas coisas, é muitíssimo maior do que isso que chamamos ensino, e é condição dele.

Erradicar a miséria onde ainda se vive em condições inimagináveis é ainda mais urgente do que ordenar o sótão da casa, procurando expulsar os ratos e os insetos daninhos ali instalados, reestruturar funcionamentos, dar novo sentido, deixar entrar claridade, botar em ação espanadores, panos, água limpa, enceradeiras e ordenação dos objetos. 

Mas talvez as duas coisas sejam essenciais e não sejam incompatíveis, embora exijam força e empenho quase sobre-humanos: o país olha com alguma esperança para essa possibilidade. 


Quem assistiu ao espetáculo daquelas crianças ferozes aposta em se juntarem as duas pontas numa grande arrumação de casa visando aos espectros do porão e aos ratos e lacraias do sótão, custe o que custar, entretanto oposições, reclamações,. superando jogos de poder e cobiça de cargos, encarando o principal: limpeza, luz, ordem, eficiência, decência, fazendo funcionar melhor a dramática engrenagem social em que nos debatemos.

À Bunda - Fernanda Young

Olha, dessa vez você passou das medidas. Só não boto você para fora, agora, porque é a sua cara dar escândalo.

Estou cheia de você atrás de mim o tempo todo. Fica se fazendo de fofa, enquanto, pelas minhas costas, chama a atenção de todo mundo para meus defeitos. Você está redondamente enganada se pensa que eu vou me rebaixar ao seu nível – o que vem de baixo não me atinge. Mas faço questão de desancar essa sua pose empinada.

Você é, e sempre foi, um peso na minha existência – cada papel que me fez passar...Diz-se sensível e profunda, mas está sempre voltada para aquilo que já aconteceu. Tenho vergonha de apresentar você às pessoas, sabia?

Por que você nunca encara as coisas de frente, bunda? Fica parecendo que, no fundo, tem algo a esconder. Por acaso, faz alguma coisa que ninguém pode saber? O que há por trás de todo esse silêncio?

Você diz que está dividida e que eu preciso ver os dois lados da questão. Ora, seja mais firme, deixe de balançar nas suas posições.
Longe de mim querem me meter na sua vida privada, mas a impressão que dá é que você não se enxerga. Porque está longe de ter nascido virada para a lua e costuma se comportar como se fosse o centro das atenções.

Bunda, você mora de fundos, num lugar abafado. Nunca sai para dar uma volta, nunca toma um sol, nunca respira um ar puro. Vive enfurnada, sem o mínimo contato com a natureza. O máximo que se permite é aparecer numa praia de vez em quando, toda branquela.

Não é de admirar que esteja sempre por baixo. Tentei levar você para fazer ginástica, querendo deixar você mais para cima, mas fingiu que não escutou.
Saiba que você não é mais aquela, diria até que anda meio caída. E vai ter que rebolar para mexer comigo, de novo, da maneira que mexia.

Lembro do tempo em que eu, desbundada, sonhava em ter um pouquinho mais de você. Agora, acho que o que temos já está de bom tamanho. E, pensando bem, é melhor pararmos por aqui antes que uma de nós acabe machucada.

Sei que qualquer coisinha deixa você balançada, então não vou expor suas duas faces em público. Mas fique sabendo que, se você aparecer, constrangendo-me diante de outras pessoas, levarei seu caso ao doutor Albuquerque.

Lamento, isso dói mais em mim do que em você, mas você merece o chute que estou lhe dando. Duplamente decepcionada.

O LOBO E O CORDEIRO: VERSÕES - Affonso Romano de Sant'Anna

Dizem que a primeira versão desta fábula é de Demétrios de Phalerum e que Esopo (Grécia), Fedro (Roma), La Fontaine (França) e até Monteiro Lobato (Brasil) apenas a reescreveram. Se abrirmos os jornais essa fábula continua atual. Narro a versão divulgada por La Fontaine e dou minha feroz e mansa contribuição a esse fabulário.

Versão clássica

Dizem que um cordeiro pôs-se a beber num regato de águas limpas. Apareceu por ali um lobo, que parecia estar faminto e, em vez de beber água, foi logo dizendo ao cordeiro:

Como ousas te meter nessa água que é minha? Vou te castigar por isso.

O cordeiro, respeitosamente chamando o outro de vossa majestade, pediu que o lobo não se irritasse, pois, afinal, o lobo é que estava na parte de cima do riacho, o cordeiro, mais abaixo, e não poderia turvar a água.

O lobo ficou ainda mais furioso e alegou que, além do mais, o cordeiro andava falando mal dele há um ano.

Como? disse o cordeiro surpreso, se há um ano eu nem havia nascido.
Ah, então foi seu irmão.
Mas eu não tenho irmão…
Então foi algum dos seus, o pastor, os cães e, de qualquer forma, eu vou me vingar.
E assim dizendo, deu um bote no cordeiro, carregou-o para o fundo da floresta e o devorou.

Segunda versão

Um cordeiro estava bebendo água, porém na parte alta de num riacho, quando, de repente , mais abaixo, apareceu um lobo, que começou também a beber da mesma água.

O lobo virou-se para o cordeiro e disse:

Você está emporcalhando a água que estou bebendo.
Mas eu cheguei aqui primeiro, disse o cordeiro, você é que se meteu aí embaixo.
Vocês cordeiros não aprendem nunca. Já tive que comer seu pai e sua mãe por causa disso, no ano passado.
Por que você não bebe a sua água e me deixa beber a minha em paz?, disse o cordeiro.
É, vocês cordeiros não leem as fábulas antigas, não estudam história.
E assim dizendo, deu um bote, arrastou o cordeiro para o fundo da floresta e o devorou.

Terceira versão

Um lobo chegou à beira de um riacho, instalou-se na parte de cima e começou a beber água, pois estava meio cansado.

Mal começou a beber, notou que outro lobo se aproximava, instalando-se na parte de baixo do riacho, onde começou a beber água.

Iam bebendo, cada um do seu jeito. A água corria, matava-lhes a sede e era abundante.

Mas o lobo que estava abaixo começou a achar que o lobo que estava acima estava sujando sua água.

Incomodado, o lobo olhou o outro:

Você bem que podia ir beber longe daqui, meu velho, porque esse riacho é meu.
Sem essa, “ brother,” vê como fala, porque não sou nenhum cordeiro.

E a conversa foi ficando tensa, cada vez mais agressiva, até que os dois se atacaram e se estraçalharam mortalmente. (ARS)

Quarta versão

Um cordeiro chegou à beira de um riacho, instalou-se na parte de baixo começou a beber água.

Estava ali tranquilo quando, na parte de cima do mesmo riacho, surgiu um outro cordeiro que começou a beber da mesma água.

Não se sabe quem começou a implicar com quem. Ambos se achavam com direito à água. Não teve jeito, atracaram-se e se feriram mortalmente.
E ambos eram cordeiros.

ESTAMOS EVOLUINDO? - Edmir Silveira

Tinha acabado de chegar de São Paulo e precisava ir do aeroporto Santos Dumont ao Leblon. O ônibus especial estava prestes a sair e a fila estava bem grande e atrás de mim cresceu mais ainda. Lógico que TODOS embarcaram o que resultou em muitos passageiros em pé. Sentei-me e logo passou por mim uma mulher grávida.  Óbvio que cedi o lugar.

O que me chamou a atenção é que não fui o único nem o primeiro a ter essa atitude naquele mesmo ônibus. Pessoas que estavam ou não em poltronas preferenciais ofereceram seus lugares aos de direito ou por pura delicadeza. Percebi ali que certas gentilezas estão sendo recuperadas no nosso dia a dia, mesmo em cidades grandes como o Rio.

Há alguns anos havia mais gentileza no trato entre as pessoas. Na década de 1970 era comum ceder-se o lugar na fila para os mais velhos, gestantes e mulheres em geral, simplesmente por gentileza. Não precisava de lei para que isso acontecesse. Era normal carregarmos as sacolas de compras da mãe de qualquer amigo até a casa dela, caso cruzássemos com alguma pelas ruas do Leblon.

Na década de 1980 a realidade se inverteu completamente. Era a cultura do "levar vantagem em tudo”, onde ninguém levou vantagem em nada e o Brasil todo perdeu muito. Ninguém cedia lugar para ninguém em lugar nenhum. As grávidas, às vezes, ainda davam sorte. E começava ali o declínio ético e moral que levaria nosso país a calamitosa situação atual.

A lei que obriga os bancos e locais de atendimento ao público a ter um local exclusivo para preferenciais teve que obrigar todos a serem bem educados e a agirem de uma forma que deveria ser espontânea. É triste nosso país ser um lugar onde tenha que existir uma lei para algo tão básico. 

Hoje, parece que a sociedade já incorporou essa atitude simples. A lei surtiu efeito educativo e se estendeu a outros setores da vida cotidiana. É claro que isso não aconteceria sem a internet e a força das mídias sociais.

Estamos redescobrindo o valor de coisas simples como a gentileza e a solidariedade. Estamos resgatando nossas raízes.
Ser o país que queremos vai requerer décadas de um trabalho silencioso e ininterrupto; o de cada cidadão consigo mesmo.

O brasileiro está praticando a autocrítica como nunca havia feito antes.
Já temos a consciência da culpa nossa de cada dia. Da corrupção moral que contaminou todos os níveis da convivência humana em nosso país.

Hoje, quem fura fila é vaiado. Quem antes comprava ingresso para o teatro com carteira de estudante falsa, hoje pensa muitas vezes antes. Essas malandragens agora são vistas como o que são em sua essência: desonestidade.
Voltou a ser feio fazer isso.

Parece que, apesar da descoberta desse oceano de lama que nos engole diariamente, estamos começando a nos reconstruir como sociedade. Estamos resgatando nossos valores éticos fundamentais.
Essa tendência está crescendo e se disseminando a cada dia.
No mundo virtual já está a pleno vapor e espero que invada cada vez mais o nosso mundo real. 
Afinal, sonho que se sonha junto vira realidade.
Pelo menos é o que dizem.

JORGE LUIS BORGES - Aqui. Hoje.


Já somos o esquecimento que seremos.
A poeira elementar que nos ignora
e que foi o ruivo Adão e que é agora
todos os homens e que não veremos.
Já somos na tumba as duas datas
do princípio e do término, o esquife,
a obscena corrupção e a mortalha,
os ritos da morte e as elegias.
Não sou o insensato que se aferra
ao mágico sonido de teu nome:
penso com esperança naquele homem
que não saberá que fui sobre a Terra.
Embaixo do indiferente azul do céu
esta meditação é um consolo.
(Tradução: Charles Kiefer)
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DEVOLVE - Mário Lago


Devolve toda a tranqüilidade
Toda a felicidade
Que eu te dei e que perdi

Devolve todos os sonhos loucos
Que eu construí aos poucos
E te ofereci

Devolve, eu peço, por favor
Aquele imenso amor
Que nos teus braços esqueci

Devolve, que eu te devolvo ainda
Esta saudade infinda
Que eu tenho de ti.

A MÚSICA DA MINHA VIDA - Fernando Brant

A memória nos revela, como filme, pedaços esquecidos de nossa vida. Vejo-me de calças curtas em Diamantina, saindo de um parque de diversões e o som da praça tocando uma canção de Luiz Vieira, Menino de Braçanã: “É tarde, eu já vou indo, preciso ir embora, té manhã; mamãe, quando eu saí, disse meu filho não demora em Braçanã”. Essa é uma característica da música, linguagem universal que é trilha sonora da existência de quase todo mundo. Mas existe gente, como o poeta João Cabral de Melo, que dizia detestar o que a tantos agrada.

Como não recordar a tristeza que senti ao pegar, junto com minha mãe e irmãos, o ônibus que nos traria definitivamente para Belo Horizonte? Ao longo das quase 12 horas de viagem por estrada de terra, vim cantando coisas que ouvia na Rádio Nacional. Especialmente uma ocupou o meu tempo, Recuerdos de Ypacaray: “una noche tíbia nos conocimos junto al lago azul de Ypacaray”. Menino, eu chorava, mentalmente, a certeza de que estava perdendo algo valioso, aquela vida folgada de brincadeiras e amizades, em troca de outro ambiente que, por desconhecido, parecia-me assustador.

A realidade, porém, foi muito melhor do que eu esperava e logo já tinha novos amigos, novos jogos e outras canções. Encontrei aqui, nessa cidade, um belo horizonte. Correndo para cima e para baixo, nas ladeiras, atrás de bola, suando em busca de gols e vitórias nas peladas diárias, eu escutava o som que vinha das casas. Dorival Caymmi, violão e voz entoando sua saudade da Bahia.

Na trilha sonora pessoal nem sempre importa a qualidade do que ouvimos. Mais importante é o acontecimento, o fato, a situação que vivemos no momento em que a canção surge no ar. Não posso, por exemplo, ouvir Call me sem me lembrar de minha namorada e mulher. Era o que tocava no tempo de nossos primeiros encontros.

E assim, de música e com música vou vivendo. Se ela é vital para mim, sei que é indispensável para a maioria das pessoas. E fico chateado quando me deparo com grandes organizações, órgãos de comunicação que têm na música um elemento essencial para que produzam suas novelas, filmes e uma infinidade de programas de entretenimento, empresas que tiram daí seus lucros enormes e merecidos – não consigo entender que seja civilizado o fato de elas não pagarem o que lhes é cobrado por utilizar o que não lhes pertence. Se não querem pagar, que não usem a criação, o talento e as vozes de compositores, cantores e músicos. Será que, sem música, teriam o público de hoje?

UM HOMEM COM UMA DOR -Paulo Leminski


Um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante


Carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha


Ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra.

A DANÇA DA VIDA - Edmir Silveira

Ela chegou de novo, de repente, 
de longe, de sempre.

Nossas vidas são assim, feitas de surpresas impossíveis.
Desde os 15 anos (ela 14) de idade, antes de estarmos poluídos pela vida, resolvemos que iríamos nos amar pra sempre. Como só duas crianças podem sonhar. Pra sempre.

Sempre não é aqui, não é agora. Mas, pode até ser porque sempre não tem hora, é sempre.

E nosso tempo sempre foi bem diferente.
De repente, presente, sempre não mais que de repente. Quando necessário.

Ela é bailarina. Foi escolhida. Sua alma nasceu maior que ela: para dançar.

Toda mulher escolhe a dança, a dança escolhe poucas.
Minha bailarina chegou, de novo, quando da sua dança preciso.

Não faz tanto tempo, mas fazia muito tempo que eu não precisava tanto dessa dança. Dos silêncios de quem se conhece pelo olho. 

Seu abraço e seu silêncio. Eu precisava ouvir. Música imaginária que dança. Clássica, elegante, perfeita, possível apenas para um corpo que vive para aquele propósito e, por isso, perfeito no detalhe de cada movimento. Sublinhando as palavras não ditas.  

E de novo a mágica se faz. De novo para sempre. Até nos despedirmos de novo. Para sempre?

COMO VENCER OS FANTASMAS DO FINAL DO ANO - Christian Ingo Lenz Dunker

A chegada de dezembro desperta, em muitas pessoas, desde angústia e ansiedade até sentimentos de euforia relacionados às expectativas de um novo ano. Para enfrentar o período de "loucura", o autor sugere um "manual de sobrevivência" em 7 passos

Psicanalistas, psicoterapeutas e aqueles que de alguma forma lidam com o sofrimento psíquico são unânimes em reconhecer que o “final do ano” é uma época particularmente perigosa. Talvez a “loucura” desse período devesse ser incluída nas síndromes traumáticas do cotidiano -– ao lado da angústia de domingo à noite e da euforia vazia e efêmera das sextas-feiras. Essas ocasiões estão associadas a situações de risco social iminente pela ruptura da rotina, da organização do tempo e pela variação caótica de encontros, desejados e indesejados que pode desencadear.

Assim como as sextas e as segundas-feiras, o final de ano marca um ponto de passagem, mas diferentemente das duas primeiras, sua localização temporal é indeterminada. Para alguns o período começa em novembro; para outros, na semana do Natal; há ainda aqueles que confundem a loucura de fim de ano com complexo das férias perfeitas. Estabelece-se assim uma seqüência de retraumatizações que às vezes só se resolvem pela pacificação representada pelo reinício do ano. Aliás, também o início desse novo ciclo parece representar mais um estado de ânimo que uma data precisa no calendário.

Adormecida, a loucura de fim de ano permanece latente até ser acordada pelas campanhas publicitárias e o apelo às compras. E assim é com o sofrimento neurótico em geral: como não se sabe de onde ele veio espera-se que vá embora por si mesmo. Nessa época convivem dois sentimentos opostos: de que algo já se faz presente, mas ainda não vigora plenamente, como se não houvesse chegado sua hora. Por isso tememos esse período – e também o esperamos ardentemente. Seu retorno insidioso, ano após ano, traz à luz as mais fortes experiências infantis. As lembranças de tantos desejos se apossam de nós combinando a saudade e a fantasmagoria do passado. O esforço para nos reunirmos e comemorar nos coloca sempre uma pergunta silenciosa: afinal por que nessa época não me sinto tão feliz como deveria? Por que surge essa angústia às vezes crônica, às vezes aguda? Recordar, repetir e elaborar – eis a difícil travessia que o final do ano nos propõe. Esses três movimentos que coordenam o tratamento psicanalítico são exigidos de forma concentrada e assistemática ao término de cada ciclo de 12 meses.

Imaginemos que no final do ano – assim como nos fins de semana, em menor escala – temos de nos haver com a difícil tarefa de reconstruir narrativamente vivências passadas de tal forma que elas se completem como uma experiência da qual possamos nos apropriar. A perda progressiva da experiência tornou-se a tal ponto um problema que muitas vezes recorremos aos discursos pré-fabricados nas reuniões e festas de Natal.

DISCURSOS VAZIOS

Três tipos de loucura são bastante comuns nessa época. Lembrando Jacques Lacan, podemos dizer que esses enlouquecimentos encampam discursos específicos: da histérica, do universitário e do mestre. O primeiro promove o deslocamento da experiência de tal forma que seu agente seja uma terceira pessoa, técnica mais conhecida como fofoca. Ao falarmos de atitudes condenáveis de outra pessoa, com os mais picantes ingredientes acrescidos por nossa imaginação ou maledicência, vivemos a aventura da transgressão de forma deslocada e segura, uma espécie de “transgressão light”. Geralmente, o fofocado simplesmente realiza aquilo que, no fundo, gostaríamos de ter feito – que nossa covardia, preguiça ou ética impediu. Assim, parasitamos histericamente a experiência potencial do outro, propiciando a nós mesmos uma vivência pobre de satisfação. Vivemos – sem de fato viver – a aventura transgressiva do outro e ao mesmo tempo temos a sensação ilusória de que participamos de uma situação coletiva. Falsa coesão demonstrada pelo fato de que aquele que deixa o grupo será objeto imediato e preferencial de tal prática.

O segundo tipo de discurso que mimetiza a experiência, na loucura de final de ano, é usado pelos “experts”. Aqui o falso coletivo é composto pela exclusão daqueles que “não sabem como é bom”. A conversa é feita para deixar claro que quem dela participa tem gosto ou saber diferenciado, inacessível aos mortais, e possui vivências mais preciosas que o tornam alguém especial. Surgem as “elevadas” considerações sobre a qualidade do vinho servido, a respeito dos charutos fumados, dos últimos eventos culturais freqüentados, conversas sobre os bens adquiridos e a superioridade do sistema aeroportuário de outros países ou ainda sobre as inenarráveis qualidades daquele prato degustado no sofisticado restaurante da moda. Os comentários giram em torno das curiosas discussões sobre a qualidade insubstituível do bacalhau de antigamente ou se detêm nas queixas a respeito da imperícia culinária do anfitrião. A tirania do gosto, envolta num discurso universitário que pode ser tediosamente descritivo, assume a perspectiva professoral de autoridade constituída. Resta, nesses casos, só a aparência de que se compartilha algo.

O terceiro tipo de discurso, com marcado caráter pseudo-experiencial, diz respeito à retórica do planejamento. Neste caso incluímos aqueles para os quais o final do ano não é a suspensão da guerra, mas o seu clímax: a grande batalha. Os ritos se impõem a seus praticantes, parecendo adquirir vida própria – com cartões escritos em grande escala, felicitações por atacado, presentes distribuídos como se atendessem à demanda de uma linha de montagem, práticas filantrópicas executadas milimetricamente, segundo as últimas técnicas de gerenciamento de tempo e de recursos humanos. O objetivo é chegar vivo até o início do próximo ano – mas sem viver a experiência, apenas reduzindo-a a um conjunto de tarefas. Para essas pessoas, aqueles percebidos como fora do circuito estão literalmente atrapalhando. Se a ocupação comandava a vida até aqui, surge um redobramento: a sobreocupação. Preocupados em manter osistema funcionando, esses “mestres de fim de ano” estão permanentemente irritados e atrasados. Sua posição sacrificial os autoriza a se irritar profundamente com os incautos, seu olhar é temido pela culpa que pode provocar. A conversa é reduzida à localização incógnita daquela lata de ervilhas ou à fiscalização do cumprimento de ordens. A prática é, no fundo, uma técnica de esquecimento, espécie de “fuga para frente”. Repetir em vez de lembrar: desta maneira os afetos podem ser retidos e substituídos por ações.

A fofoca, o superentendimento e a sobreocupação são maneiras de nos desviarmos, são estratégias para não recordar, seja porque nos dedicamos a lembrar criticamente dos outros, porque transformamos a lembrança em descrição de acontecimentos passados ou porque substituímos o lembrar pelo fazer. O fato é que esses três discursos -– da histérica (fofoca), do universitário (experts) e do mestre (sobreocupação) – são táticas para fugir do desprazer, mais do que meios para usufruir da satisfação esperada no final do ano.

LEMBRAR PARA ESQUECER

O prazer do “retorno para casa” não é um efeito automático e sim fruto de um tipo específico de trabalho psíquico a que a reconstrução da experiência nos convida; trabalho que Freud chamava de elaboração (Ducharbeiten, literalmente “trabalho através de”), ou seja, uma forma muito específica de lembrar que traz consigo o afeto e a integração do que é lembrado no presente, bem como a projeção de um futuro. Lembrar para poder esquecer.

Vejamos então como situações similares podem ser bons provocativos para uma verdadeira experiência. Nesse caso podemos incluir, por exemplo, a épica do lombo seco, o complexo dramático dos bolinhos de bacalhau ou ainda a lírica – ou cômica – entrega dos presentes. Note-se como, nesse caso, aquela travessa fora de moda com cara de Papai Noel é um detalhe imprescindível: sem ela o Natal não seria Natal. O juízo especialista do gosto autorizado é suspenso em prol do valor simbólico rememorativo de um elemento arbitrário.

Fora daquela comunidade, a travessa de plástico seria apenas mais um caso de mau gosto e não um evocador de histórias. Ao contrário da retórica descritiva da exclusão, a épica da experiência é inclusiva. Aquela tia falecida reaparece como modelo a ser seguido, o fracasso retumbante dos fios de ovos daquele ano volta à memória, a face forçada de satisfação daquele namorado em primeira visita natalina é rememorada com graça. Ou seja, torna-se mais importante a história lembrada, o fato de que estávamos juntos, do que o que foi consumido ou quem pagou a conta. A experiência traz outra dimensão do tempo vivido.

Os idosos se tornam mais sábios, as crianças se tornam mais crianças, os adultos interrogam sua própria maturidade. Isso ocorre porque além da própria posição cada qual se reconhece nas demais, avaliando em si mesmo o que poderia ter sido ou o que poderá vir a ser. Como mensagens deixadas em uma garrafa, recolhidas 20 ou 30 anos depois, essas histórias nos devolvem a nossa própria mensagem, agora de forma invertida pelo processo da experiência. Sabe-se que o tempo passa mais devagar para a criança, e teoricamente isso tem relação com o fato de que suas conexões sinápticas estão em formação ou sua capacidade de aprender com a experiência é maior. A experiência lentifica o tempo; a vivência o comprime – é por isso que em uma viagem o caminho de ida parece ser mais longo que o caminho da volta.

A primeira regra de um possível “manual de sobrevivência psíquica de fim de ano”, portanto, deveria contribuir para tornar crítica a consciência de nossa própria loucura − uma experiência trágica ou cômica, não importa, desde que seja digna de ser narrada.  A primeira orientação, portanto, é: passar da vivência à experiência.

Mas por que seria o nosso passado imediato, representado pelo ano que passou, algo a ser tão fortemente evitado? Qual a natureza de sua força traumática? O primeiro erro consiste em subestimar o “adversário”, achar que esse é um período do ano como qualquer outro e como tal deve ser vivido. A insanidade do final de ano se infiltra insidiosamente por meio dos detalhes: pequenos adiamentos, evitações, ansiedade flutuante ou inúmeras atuações desordenadas. É a ação da amnésia, esperada em qualquer evento traumático repetitivo.  Depois vem o súbito encontro com a coisa traumática, o que Freud chamava de Schreck (terror-pânico) e Lacan de “encontro com o Real”. Muitos são seus desencadeantes: o presente misteriosamente “esquecido”; a notícia abrupta de que aquela tia virá mesmo... e com os sobrinhos; a notícia, retinta de alívio e inveja, de que aquele cunhado de fato não virá pois se evadiu para o abrigo antiaéreo da colônia de férias. Sem falar na pergunta decisiva: quem fará o peru desta vez?  Fato é que o fim de ano nos coloca em estado de alta reatividade e atenção prevenida. Comentários banais se transformam em ofensas insuportáveis; como os soldados que voltam do front, somos tomados por uma espécie de “neurose de guerra transitória”.

Subitamente começamos a agir como se fôssemos vítimas de nosso próprio destino. Não importa se o mártir se oferece ou é convocado, o pânico lhe parece uma nuvem flutuante prestes a explodir. O pânico foi um sentimento bastante estudado pelos teóricos da guerra, principalmente pelo fato de que é um sentimento coletivo e contagioso, instabiliza a ordem e sugere que não há mais ninguém no comando. A ruptura entre a linha de frente e os generais interrompe a cadeia simbólica necessária para a guerra e torna difuso quem é e onde está o inimigo – o adversário confunde-se agora com qualquer um. Daí a solução do pânico em medo. Diferentemente do que acontece em situações de pânico, na de medo temos um objeto, sabemos o que temer. Nesse caso está em questão o medo do futuro. Esse é o terceiro momento da loucura de final de ano: irritabilidade difusa, explosões despro---porcionais de raiva, dramáticas efusões afetivas além de decisões intempestivas.

Essa desorientação de referências pode surgir sob a forma do afeto inverso ao pânico, ou seja, o tédio. Apesar de aparentemente opostos, pânico e tédio têm a mesma gramática, em ambos há uma suspensão da orientação simbólica do sujeito. Há ainda no tédio uma espécie de fuga para fora da cena, de descolamento do sujeito em relação a sua própria experiência, como se a pessoa se sentisse estranha, sem lugar diante de tanta “felicidade” no ar. Para o entediado tudo parece artificial, repetitivo e sem graça, pois apesar de ele estar ali, não se sente naquele lugar.Ele está ou gostaria de estar em outro local.

Assim como o pânico evolui para o medo, o tédio evolui para a melancolia. De fato, a loucura de final de ano admite a figura do melancólico, que se sente excluído e se recrimina por isso. Como dizia o poeta Nerval, o melancólico é antes de tudo um realista, acha que percebe as coisas como realmente são. Vê na troca amorosa de presentes apenas mais uma manobra da lógica do capital; nos amigos que o procuram, apenas uma operação de networking; nas iniciativas solidárias, apenas o alívio para a culpa dos mais favorecidos. A crua verdade, certamente. Mas não toda ela.

No fim do ano estabelece-se, portanto, esta tríade composta pela ansiedade da expectativa, pelo terror maníaco ou traumático e pela ressaca moral carregada de decepção e tédio melancólico. Se quisermos contribuir para a sobrevivência subjetiva nesse tempo de fraternidade compulsória, devemos examinar mais de perto as tarefas psíquicas que o momento apresenta.

CONTABILIDADE DE SONHOS

Comecemos pelo fato de que o final de ano convoca a experiência do tempo. O tempo não percebido da ocupação cotidiana é suspenso. Sentimo-nos improdutivos. De repente nos damos conta de que o tempo passou, sem que nos déssemos conta. Todavia, saber que isso acontece é diferente de realizar essa informação.  Se o tempo passou num instante e se compreendemos que esse tempo se foi, é então o momento de concluir. A maneira mais simples – e mais pobre – de fazer isso é planejar. Formal ou informalmente colocamos o ano transcorrido em certos crivos: metas, realizações, fracassos, decepções, empates, honrosos ou não.

Esta espécie de ajuste de contas com o passado geralmente nos convida a um exercício de objetivação da experiência. Fatos, datas e resultados surgem como métricas espontâneas que nos permitem, de forma simples e rápida, saber se estamos em débito ou crédito com nossos sonhos. Atenção, aqui vem o engano. A contabilidade reduz processos a produtos. Como simples vivência, aquela longa batalha com a trigonometria transforma-se apenas em um “passei de ano” e cumpri minha obrigação. A densa experiência representada pelo término de um namoro torna-se apenas mais um fracasso na lista de tantos outros. Cria circularidades: “A vida ficou me devendo uma este ano? Vou comer aquela porção extra de rabanada... afinal eu mereço”. Ou “Consegui aquilo que queria este ano? Também vou comer a tal porção extra de rabanada, afinal... eu mereço”. Ou seja, independentemente do resultado, fracasso ou sucesso, a prática da contabilidade empobrece nossa experiência, sentimo-nos vazios depois de fazê-la, com ou sem rabanadas adicionais. Ela só nos diz se estamos no positivo ou no negativo, escondendo, por efeito de método, se foi um fracasso interessante ou um sucesso sem graça.

A segunda regra é, portanto, desconfiar dos poderes da contabilidade e evitar o cálculo neurótico do gozo.

 O “balanço” de fim de ano infelizmente pode ser piorado por outra circunstância: o encontro com parentes e amigos – ou o não encontro com parentes e amigos, tanto faz. Tido como momento de confraternização e reencontro, o período tem potencial altamente explosivo, especialmente se acrescido de contabilidade negativa. Neste caso, ao refazer a memória e a história coletiva, em vez de reafirmação e comemoração de um destino comum, a tendência será encontrar um culpado altamente disponível: o outro.

Quer porque nosso balanço se mostre tímido diante das grandes realizações alheias, quer porque elas sejam atribuídas diretamente às vicissitudes de nossos próprios laços familiares, a insatisfação flutuante encontra terreno fértil para se transformar em culpa. A culpa é sempre uma decorrência do fato de que não estamos à altura de nossos desejos, ou seja, que na verdade não nos empenhamos como deveríamos ou gostaríamos para torná-los realizáveis. Além disso, é sempre um subterfúgio preferível à angústia. Assim, este sentimento de traição encontra logo um depositário. Em vez de refletir sobre a pergunta capital: “Será que, neste ano, realmente agi em conformidade com meu desejo?”, substituimos a reflexão pela resposta rápida: “É claro que não, afinal o outro não me deixou”. E não importa quem seja o outro: o marido ou a mulher, os filhos, o chefe, a empresa ou a situação econômica e política do país.

O fragmento de satisfação da qual me sinto frustrado é imediatamente imputado a esse outro, segundo as próprias fantasias fundamentais. Foi ele quem raptou aquele pedacinho que faltou para a realização de meu próprio desejo. Ao mesmo tempo é o outro que nos lembra que estamos em falta, a começar pelo fato de que não o encontramos há tempos – aliás, esqueci dos amigos? Isso dá margem tanto a comparações depressivas quanto à pirotecnia exibicionista nos conhecidos excessos de fim de ano.

Quando adaptamos nossos desejos a uma imagem e transformamos qualquer objetivo e bobagens em metas, a fantasia que se articula neles sofre uma curiosa mutação. Passa de sua função regulatória, como horizonte semi-indeterminado de aspirações, para a condição de obrigação compulsória. Se escolhemos querer, estamos então obrigados a continuar querendo. É assim que nos tornamos prisioneiros e escravos de nossos próprios desejos, de tal forma que rapidamente eles se tornam um fardo.

Logo, terceira regra, não convém fazer desejos caberem em metas.

APLAUSOS E CASA EM ORDEM

Não há loucura de final de ano sem os banquetes. Lautos e exagerados, eles são pretexto tanto para o encontro comemorativo como para o remorso com relação àqueles que estão excluídos. Excluídos são tanto os que se encontram privados de nossa companhia quanto aqueles que já se foram e que, como fantasmas, benévolos ou malévolos, retornam nessa hora. Aqui entra em jogo outro fenômeno próprio da loucura de final de ano: a interpassividade. Todos nós conhecemos aquele truque de televisão que consiste em utilizar risos artificiais ou aplausos de auditório em comédias medíocres. Alguém levanta uma placa e todos riem no momento em que devem rir, aplaudem quando ordenado ou vaiam.

Um similar nacional deste truque são as carpideiras. Profissionais do choro, elas desempenham a função de alguém que “chora por nós”, assim como a claque de auditório “ri por nós”. O resultado é que mesmo diante de uma comédia chata sentimos que afinal nos divertimos um pouco, quando na verdade “alguém se divertiu por nós”.  Aplique-se o conceito à loucura de fim de ano. Precisamos mostrar boa vontade porque afinal “mamãe acha isso tão importante”, ou então “as crianças acreditam em Papai Noel” – logo não podemos decepcioná-las. Ou seja, há alguém que “acredita por nós” e, para não desfazer o truque, nos comportamos como se acreditássemos.

Mas aqui há um efeito inesperado. A crença não é apenas um sentimento interno e individualizado que experimentamos em nosso íntimo. A crença é uma prática. Como dizia Pascal: ajoelha e reza, a crença virá por si mesma. Portanto, quando praticamos desengajadamente os rituais exigidos pela loucura de fim de ano, em nome de “alguém que acredita por nós”, como se estivéssemos excluídos e a salvo do consumismo, da hipocrisia e da ganância segregatória, estamos de fato acreditando. O que se demonstra pela conhecida situação na qual as crianças continuam a acreditar em Papai Noel, mesmo que não acreditem, pois, afinal, quem quer decepcionar os adultos? O problema da crença interpassiva é que ela impede que nos apropriemos de nossas próprias crenças – a ponto de criticá-las ou reinventá-las.

Portanto, quarta regra de sobrevivência: leve os rituais a sério, eles são mais importantes e eficazes do que você pensa.

TEMPO DE SOLIDÃO

Findo o ano, que fazer no próximo? Que fazer com o futuro? Aqui, a insanidade de fim de ano porta o grão de verdade contido em cada forma de loucura. A loucura que afinal nos torna humanos ao oferecer o limite de nossa liberdade, segundo a tese de Lacan. Quem começou confiando na contabilidade fatalmente será presa fácil do dispositivo das promessas de ano-novo. Feitas com base em metas e objetivos, são facilmente derrubadas ao primeiro contato com o cotidiano real. Elas redundam na decepção com nosso presumido poder de praticar a liberdade. Isso já aparece de forma muito inicial na forma como depositamos, nesse período, a expectativa de que poderemos, enfim, colocar a casa em ordem.

O tempo de férias é rapidamente mobilizado para a resolução de questões em atraso. É preciso resolver o passado para criar um novo futuro, sem pendências. Essa fantasia de renascimento se apóia na ancestral prática cultural de comemorar a mudança de ciclo das estações. O solstício e o equinócio correspondem a momentos de passagem, logo de potencial desequilíbrio, entre um modo de vida e outro, entre o dia e a noite, entre a colheita e o plantio, entre a juventude e a velhice. Durante muito tempo, aprendemos a simbolizar a transição compartilhando, rememorando e reescrevendo a história conforme certos dualismos primários.

A festa, o fim do ano (mas também, em menor escala, o fim de semana e o fim do dia) são exemplos, mais ou menos coletivos, desses “pontos de suspensão”. Nossa época, entretanto, não aceita muito bem que tal ponto, justamente onde se anuncia algo de nossa liberdade, esteja sujeito a tamanha coerção social. Isso ajuda a entender por que, apesar do espírito de confraternização, a loucura de fim de ano nos convoca tão facilmente para a expe-riência da solidão. No fundo, desconfiamos do destino coletivo que comemoramos e sabemos que, mais que um desígnio, o destino é uma tarefa profundamente solitária.

A quinta regra de sobrevivência psíquica inspira-se na sabedoria bíblica que reza guardar sábados e festas. O mandamento não diz gozar ao máximo sábados e festas, nem mesmo penitenciar-se ou culpar-se em sábados e festas, apenas guardar. Guardar significa manter uma certa distância, cuidar ao longo do tempo, manter a atenção... para com nossa própria loucura.

Para muitos a insanidade do final de ano assume dimensão sagrada, mística ou religiosa. Seria possível criticar a teoria da experiência supondo que ela é, no fundo, uma forma de saudosismo e de valorização regressiva do passado, como um mero escapismo das dificuldades do presente. Afinal não vivemos mais nem os ciclos dos agricultores sedentários, nem as aventuras dos marinheiros viajantes.

Os ciclos das bolsas de valores nos afetam mais que tempestades ou secas. Neste sentido é anacronismo imaginar que a verdadeira experiência seria uma espécie de reatualização do tipo de laço que supomos presente nas antigas comunidades orgânicas. Melhor seria olhar para essa força simbólica da cultura sem tentar resgatar a essência de um passado que talvez nunca tenha existido. Como na história do pai que ao morrer diz aos filhos que há um tesouro enterrado em suas terras. Em busca do tesouro os filhos reviram a propriedade, não encontrando mais que raízes e troncos, além de decepção. Todavia, como efeito deste trabalho, naquele ano a terra se mostrou mais fértil do que nunca, produzindo assim o tesouro que o pai prometera.

Aqui o truque é simples: em vez de mimetizar o passado, como se sua repetição fosse garantia de felicidade e segurança, arriscar-se a viver o novo produzassim um tesouro que não estava lá. É pelo mesmo princípio pelo qual uma ficção pode produzir efeitos reais que se opera a transferência no tratamento psicanalítico. Boa parte da loucura de fim de ano se aviva com a promessa de um passado essencial que nos colocaria em linha com um futuro previsível, geralmente anunciado nos pedidos e promessas de ano-novo.

Portanto, sexta recomendação: encontre a repetição produtiva, caso contrário achará apenas tocos, raízes e mais algumas minhocas.     

No fundo, a loucura de final de ano apenas potencializa a loucura que já estava lá, encoberta pela nuvem do esquecimento e da ocupação. Erasmo de Roterdã, pensador do século XVI, tinha uma classificação muito atual da loucura. Dizia haver dois tipos: a loucura louca e a loucura sábia. A primeira é aquela que desconhece que os assuntos humanos são uma comédia de representações na qual cada um diz uma coisa, pensa outra e age de acordo com uma terceira. Louco louco é aquele que toma o teatro humano pelo valor, esperando dele o que ele não pode dar. O louco sábio, ao contrário, é aquele que tem conhecimento de que toda loucura é louca e, sem se isentar dos assuntos humanos e de sua estrutura trágica e cômica, olha de frente para a verdade do teatro que a ele se apresenta. Não para desmascará-lo como hipocrisia mentirosa, sob a qual se esconderia a sórdida verdade essencial, mas para habitá-lo como espaço possível de liberdade e criação.

A sétima regra de sobrevivência psíquica em tempos de loucura de fim de ano, a regra de ouro, é, portanto, não levar demasiadamente a sério sua própria loucura. Guardá-la com carinho é suficiente.

A CONQUISTA DA FELICIDADE - Bertrand Russel


O espírito é uma máquina estranha que pode realizar as combinações mais extraordinárias com os materiais que lhe são oferecidos, mas sem esses materiais do mundo exterior é impotente; ao contrário da máquina de salsichas, é ele que os tem de colher, pois os acontecimentos só se tornam experiências graças ao interesse que por eles tomamos: se não nos interessam, não nos dão nada deles.

Por isso o homem cuja atenção se desvia para dentro de si nada encontra digno de observação, ao passo que o homem atento a tudo o que o rodeia pode encontrar em si próprio, nos raros momentos em que contempla a sua alma, um conjunto de elementos, os mais variados e interessantes, para serem examinados e reunidos em motivos belos ou instrutivos.

SONHAR NÃO CUSTA NADA - MIguel Falabella

Há sonhos que nascem prematuros. 
Como é o caso de alguns bebês. 
Afoitos, eles gritam sua existência.

Recebo mensagem de um velho amigo que vive fora, mudando seus planos de viagem por causa da crise aérea deflagrada pelo vulcão da Islândia, que ruge sua fúria outra vez, escurecendo os céus do norte da Europa. Já não poderemos nos ver como tínhamos combinado, porque as datas vão acabar se perdendo, mas, quando a natureza cobra seu preço, não há o que se fazer. Não poderemos mais nos abraçar e lembrar como sonhávamos, porque os laços mais fortes de uma geração de amigos são os sonhos compartilhados, sem dúvida alguma. 

E somente aqueles que viveram a mesma fatia de vida são capazes de entendê-los ou, em última análise, de adivinhar os caminhos trilhados até eles, porque as gerações mudam as modas, as gírias, os costumes, mas mudam principalmente os sonhos ou a maneira de sonhá-los.

É mesmo curioso observar as novas gerações e a estruturação de seus sonhos. Não iniciei a crônica com o rugir do vulcão impunemente. Acredito que a consciência de que o planeta anda gravemente ferido e a constatação de que o tempo parece se esgotar muito rapidamente, agora, têm transformado radicalmente os sonhos da nova geração, tornando-os mais objetivos, mais concretos, sem nenhuma chance para aqueles sonhos-que-não-podem-ser que, outrora, preenchiam nossos dias. Talvez seja assim mesmo, eu penso, com vontade de rever o amigo.

Talvez já não haja lugar para utopias delirantes e aspirações etéreas. Mas se, por um lado, a objetividade e as ambições herdadas dos vorazes yuppies do final do século passado têm seus aficionados, por outro, sinto que esse olhar para um material tão delicado acaba nos aprisionando num espaço cada vez menos tolerante. 

Seja como for, sonhos, ainda que de formas diferentes, são feitos da mesma matéria e vale o lembrete para aqueles que ainda não desistiram deles.

Há sonhos que nascem prematuros. Como é o caso de alguns bebês. Afoitos, eles gritam sua existência em algum lugar da mente e abrem caminho por entre a massa enevoada, querendo fazer-se ouvir, ignorantes do fato de que ainda não estão fortes o bastante para justificar o alarde. Geralmente são abandonados à própria sorte e acabam desaparecendo na bruma. 

Eu abandonei um bom número deles à beira da estrada e, anos depois, passo grande parte do meu pouco tempo livre tentando resgatá-los. Passamos todos, no final das contas. A tal maturidade de que tanto falavam nada mais é do que aceitar a nossa galopante fragilidade. Mas voltemos ao sonho, matéria da qual somos feitos. Aprendi que um sonho prematuro, com cuidado, desejo e afeto, pode sobreviver e tornar-se uma daquelas raras alegrias eternas. 

O problema é saber como organizar-se para chegar a eles, porque os costumes impõem novas regras até mesmo para esse nobre esporte que não custa nada.

Como dizia Emily Dickinson, a poetisa norte-americana, “Nunca falei com Deus/Nunca fui até o céu/Para ir lá adivinho/Qual é o melhor caminho!” É assim que se faz! Bons sonhos!

HERMANN HESSE - Dias do Destino


Quando são de espantar os dias turvos
e o mundo hostil e frio se apresenta,
amedronta-se a confiança tua
a depender de ti completamente.

Mas fechado em ti mesmo, desterrado
do país da relembrada alegria,
vais entrevendo paraísos novos
em que a crença tua se repatria.

Já reconheces como afim de ti
o que antes parecia adverso e estranho,
e passas a chamar com novo nome
o destino que tu vais aceitando.

O que fora ameaça de esmagar-te,
mostra-se afável, a respirar luz:
é qual um mensageiro, qual um guia
que bem alto e mais alto te conduz.

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