DECISÕES DE ANO NOVO – Edmir Silveira

Já que desejar ganhar na mega sena da virada é unânimidade, 
vamos pular essa parte.


Deseje nesse fim de ano tudo aquilo que realmente importa para você. Não importa que seja brega, apenas deseje. Deseje e faça a sua parte. Quem sabe acontece...

Se já não o tem, tenha coragem de querer um amor pra vida inteira, de querer que o seu trabalho te renda o que você merece. Mas, não se esqueça de querer perceber as oportunidades de facilitar a vida de quem puder e, assim, se fazer melhor como ser humano.
Queira e aja para ter saúde para poder fazer o que precisa. Para poder fazer mais por você e por quem ama.

Se não tem seu grande amor, mas quer, não perca nem o seu tempo e nem faça ninguém perder o próprio ( porque o tempo passa rápido demais!), em relações amorosas que não tenham por base a amizade profunda, a boa-vontade, o carinho, a compreensão, um toque especial em tudo e, também, muita atração, namoro e sedução. Mútua, é lógico. Uma relação feliz e com vontade de se tornar uma linda história de amor. Lembre-se, cada palavra dita será escrita nessa história, por isso, pense em todas que falar.

Se você já tem uma relação feliz, cultive-a com todas as suas forças. Se não, procure alguém que desperte, em você, o seu melhor lado. O Mais atencioso. O que vai te fazer sentir orgulho de amar tão bonito. O que vai fazer com que ame o amor que sente.

Queira que esse amor te faça escrever poesias, fazer músicas e levar essa magia para todos os outros afazeres da vida. Fazendo-os mais leves e dando a tudo um significado; fazer feliz a quem você ama, porque esse é o único caminho para a própria felicidade.

Queira uma vida nova, não apenas porque é Ano Novo, mas, porque tudo é sempre novo. E, às vezes, chega um momento que não se tem escolha. TEM que se ter uma vida nova, o Ano Novo é apenas um marco. Um símbolo.

Todo mundo acredita profundamente nas próprias decisões de Ano Novo. Nem vale a pena citar as mais populares, todo mundo já sabe.

O Importante é ter esperança. Esperança em si. De que vai cumpri-las, senão todas, pelo menos as decisões mais importantes. Principalmente as decisões que levem em conta fazer o bem.
É impossível ser feliz sozinho...

É tão lógico...se você é uma pessoa egoísta, só pensa em si e em suas necessidades e desejos, sua chances de felicidade são mínimas. Porque só poderão vir de você mesmo. Resume-se a uma pessoa só. Que, geralmente, são as que mais comemoram gastando o máximo que podem. É o auge da felicidade. Comemorar suas conquistas com quem não tem ligação afetiva alguma, com quem nem se sabe o nome. A euforia vazia. O que se comemora é o dinheiro. A Felicidade não está presente.  E o vazio é mais forte do que o dinheiro.

Uma pessoa que participa, compartilha, ajuda e se importa, de verdade, com as pessoas a quem ama, aumenta suas chances de felicidade, elas se multiplicam na mesma proporção das pessoas por quem torce. Cada uma delas que for feliz trará felicidade para você também. A felicidade de alguém por quem torcemos é contagiante. Nos faz acreditar num mundo melhor, mais parceiro. E, quanto mais a gente torce por alguém, quanto mais a gente deseja o sucesso alheio, mais chance temos de ser felizes. É tão lógico.

E, se você tiver tudo isso, não se preocupe. Com essa motivação, cumplicidade, carinho e determinação, qualquer um chega onde quiser com relação a dinheiro.
FELIZ ANO NOVO!
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PASSAGEM DO ANO - Carlos Drummond de Andrade

 
O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral,

Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.


A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

SOLITÁRIOS PRAZERES - Cristina Romualdo

Cercada de preconceitos, muitas vezes interpretada como ato
pecaminoso ou capaz de fazer mal à saúde, atualmente 
a masturbação é considerada importante para o conhecimento 
do próprio corpo e para o desenvolvimento da sexualidade

Danae, 1907-1908, óleo sobre tela de Gustav Klimt Falar sobre masturbação costuma provocar constrangimentos, mesmo nos dias de hoje. Apesar de bem informados muitos homens e mulheres não tratam do assunto com naturalidade, seja na intimidade da relação com seus parceiros ou na educação dos filhos. Sem dúvida, falar sobre assuntos relacionados a sexo ainda é difícil para a maioria das pessoas – e a masturbação é um dos temas que mais provoca inibições. Para melhor entendermos o porquê dessas reações é preciso, em primeiro lugar, definir o significado dessa prática.

A masturbação pode ser entendida como uma excitação, habitualmente rítmica, efetuada com as mãos, na zona genital, própria ou do parceiro, com ou sem orgasmo, segundo o psicólogo Juan Carlos Kusnetzof. Já o médico William Howell Masters e a psicóloga Virginia Eshelman Johnson, que na década de 50 iniciaram pesquisas sobre a sexualidade humana, destacam como um dos aspectos definidores deste comportamento a auto-satisfação sexual obtida não só por meio da manipulação dos genitais, mas também pela estimulação de outras partes do corpo.

Conhecer a evolução histórica da sexualidade humana nos ajuda a desmistificar o tema e a entender o papel da prática no desenvolvimento sexual de homens e mulheres como forma de conhecer o próprio corpo – até para tornar o ato sexual partilhado mais prazeroso.

A palavra masturbação parece ter sua origem na expressão latina manusstuprare, que significa “manchar com a mão”, e sempre esteve, erroneamente, associada ao onanismo. Na verdade, o termo refere-se à prática do coito interrompido. Onan foi um personagem bíblico cujo irmão morreu sem ter tido filhos no casamento. Segundo costume do povo hebreu, o irmão que sobrevivia tinha a obrigação de se casar com a viúva para lhe dar filhos. Onan cumpriu a lei, mas por um motivo desconhecido praticava o coitus interruptus, ejaculando fora da vagina da parceira. Por isso, Deus o teria castigado – não por ter se masturbado e sim por não ter fecundado a mulher de seu irmão.

TEMA FREQÜENTE nas artes, representado às vezes com sutileza, a masturbação chegou a ser descrita como “atentado à humanidade” Desde os primórdios da humanidade, muitos mitos surgiram em torno do ato masturbatório e foram transmitidos de geração a geração. Alguns perderam-se ao longo do tempo, mas outros são mantidos até hoje. É o caso, por exemplo, da crença de que a masturbação freqüente traria aos jovens problemas sexuais no futuro; ou ainda, de que a produção de sêmen é limitada e, se esse “estoque” for gasto, o homem não poderá ter filhos. Para compreendermos como falsas concepções foram associadas à prática é necessário contextualizá-la nas diferentes épocas históricas, vislumbrando o cenário no qual se inseria.

Na Antigüidade, festivais egípcios celebravam a vida garantida pelos rios Nilo, Tigre e Eufrates. Nesses rituais, atribuía-se o poder da criação aos deuses e se creditava a eles a capacidade de manter a água corrente, fertilizando as terras por meio da masturbação – um ato considerado sagrado.

ENTRE MULHERES
Já os gregos não viam na prática nenhuma ligação com as divindades, mas também não a tinham como pecaminosa: acreditavam ser um comportamento natural, praticado mais pelas mulheres do que pelos homens, pois naquela cultura, em geral, havia pouco interesse dos homens em ter relações com suas companheiras, a não ser que fosse para gerar herdeiros. Portanto, não cabia a elas nenhum tipo de satisfação sexual, daí a idéia de que buscavam prazer pela masturbação praticada por elas mesmas ou por outra mulher.

Na Idade Média a Igreja Católica conquistou não apenas enorme poder econômico e político, como também predominância ideológica, instituindo mentalidade teocêntrica. Nesse período, em geral somente os padres eram alfabetizados e mantinham o controle das bibliotecas. Conseqüentemente, delimitavam o conhecimento ao qual a população em geral teria acesso. O matrimônio, nessa época, era recomendado pela Igreja por duas razões principais: por propiciar a única situação em que os filhos podiam ser concebidos sem a mácula do pecado e por manter os homens mais “regrados” e distantes de práticas consideradas pecaminosas – como homossexualidade, sexo anal ou oral, zoofilia e masturbação.

Já na Idade Moderna, época de grandes descobertas científicas, o poder sobre o conhecimento passou para as mãos dos médicos e a ciência se colocou a serviço da moral e de questões sociais. A masturbação era vista como atentado contra a humanidade, pois persistia a idéia de que ao “desperdiçar” o sêmen, a perpetuação da vida era impedida. No final do século XIX, uma outra forma de entender o homem e, conseqüentemente, sua sexualidade começou a se delinear. Neurologistas e psiquiatras apresentavam suas concepções sobre o funcionamento mental humano e a sexualidade passou a ser compreendida não apenas em seu aspecto físico, mas também psíquico.

Sem dúvida, o maior representante dessa nova forma de conceber as manifestações sexuais foi Sigmund Freud. Ele demonstrou interesse pelo tema da masturbação em 1892, buscando compreender o papel dessa atividade na vida do indivíduo, sua relação com os distúrbios psíquicos e questionando se a prática poderia originar traumas sexuais. Freud não via a masturbação como um vício a ser eliminado por meio de tratamento, mas a entendia como um comportamento inerente ao desenvolvimento sexual, que traria danos ao indivíduo, somente se sua estrutura psíquica já fosse propensa a distúrbios. Contudo, também acreditava que sua continuidade na vida adulta levaria à diminuição da potência sexual.

Em 1920, Wilhelm Stekel, colaborador de Freud até uma década antes, publicou o livro Impotência masculina – Perturbações psíquicas na função sexual do homem, no qual afirma que a masturbação, em si, não causa dano à saúde física ou psicológica. Tal atividade só provocaria distúrbios neuróticos que poderiam afetar o desempenho sexual quando vivenciada com culpa e sentimentos de autopunição provocados por proibições morais e religiosas.

Essa nova visão da sexualidade, que se afastava de uma óptica moralista e procurava se aproximar de uma concepção anatomofisiológica do funcionamento sexual, contribuiu para que surgisse uma proposta de tratamento para as disfunções sexuais, desenvolvida por Masters e Johnson no fim da década de 50. A proposta terapêutica baseava-se em uma seqüência de tarefas prescritas aos pacientes, cujo objetivo era devolver a eles a capacidade de concretizar, satisfatoriamente, a relação sexual. Posteriormente, a sexóloga Helen Singer Kaplan utilizou técnicas de compreensão psicodinâmica da problemática sexual, procurando identificar resistências intrapsíquicas e motivações inconscientes, bem como problemas de relacionamento conjugal que poderiam originar disfunções sexuais.

O psiquiatra e antropólogo Phillippe Brenot sintetiza bem a evolução pela qual a prática masturbatória passou ao longo da história da humanidade, em seu livro Elogio da masturbação. De pecado a ser condenado e doença a ser tratada, o ato transformou-se em recurso utilizado por especialistas para melhor conhecer a sexualidade humana e, cada vez mais, tem se tornado aceito como comportamento inerente ao desenvolvimento sexual saudável – que permitiu avanços científicos no estudo da sexualidade humana.

DURANTE A PUBERDADE
A primeira observação de espermatozóides num microscópio, feita no século XVII pelo holandês Anton van Leeuwenhoek, por exemplo, só foi possível graças à masturbação. Masters e Johnson conseguiram descrever a fisiologia da resposta física sexual graças a pessoas que consentiram em participar do estudo – se masturbar. E, por fim, tanto o exame de espermograma como a fecundação in vitro, usados respectivamente para diagnosticar e para contornar problemas de esterilidade, utilizam o esperma obtido pela masturbação.

A prática costuma ocorrer em diferentes fases do desenvolvimento humano. Na infância, é entendida como manipulação que assume caráter de autoconhecimento. Nesse processo descoberta de si, os pequenos buscam repetir as vivências prazerosas e evitar as que causam algum tipo de sofrimento, seja ele psíquico ou físico. Com a exploração do próprio corpo a criança descobre as regiões que lhe dão prazer ao serem tocadas. Sensações e emoções experimentadas durante essa exploração servirão de base para vivências sexuais futuras. Nessa fase, ela ainda não tem a mesma capacidade do adulto para compreender o que faz e por que o faz; não consegue identificar o toque em seus genitais como prazer erótico; não tem intenção de se estimular sexualmente. Se há algo de errado nessa situação é somente aos olhos do adulto que, confrontado com as próprias questões sexuais, pode se incomodar com a atitude da criança. Na verdade, podemos dizer que, nessa etapa, ela apenas se manipula para obter satisfação – esse ato somente se transformará de fato em masturbação quando atingir a puberdade.

Na adolescência, as alterações hormonais levam ao amadurecimento dos genitais, provocando novas sensações, o que intensifica a busca de prazer por meio da estimulação do próprio corpo. A maior conquista dessa fase é a aquisição do pensamento abstrato, o que possibilita o uso de fantasias como fonte de excitação sexual. Neste sentido, a masturbação antecipa a realidade no plano imaginário, abrindo caminho à concretização de futuras relações afetivo-sexuais e favorece o processo de amadurecimento sexual.
Ainda é muito comum ouvirmos homens e mulheres afirmando, equivocadamente, que a masturbação só é praticada por adultos que não têm vida sexual ativa, pois ainda prevalece a crença generalizada de que o amadurecimento do indivíduo leva à primazia e à exclusividade do ato sexual. Entretanto, não há nenhum motivo que justifique tal concepção; cada prática traz diferentes sensações prazerosas, não excludentes entre si.

Em geral, o início da vida a dois é cheio de novidades e existe muita energia para ser investida no relacionamento sexual. Nesta etapa da vida, a masturbação solitária pode tornar-se para alguns uma atividade rara. Contudo, é possível se beneficiar dessa prática por meio da estimulação mútua, o que pode ser um interessante instrumento de descoberta erótica para o casal, pois permite que cada um dos parceiros conheça melhor o corpo e a sexualidade um do outro.

UM JEITO DE APRENDER
Uma outra situação na qual a masturbação costuma ser utilizada como forma de manter a atividade sexual é quando um dos parceiros adoece ou sofre acidente que o impossibilite de ter relações de maneira convencional. Tal incapacidade não implica, necessariamente, privação de prazer para o casal. Na velhice, a manutenção do comportamento também costuma ser muito saudável.

Há ainda um longo caminho a ser percorrido para que as pessoas possam reconhecer a masturbação não apenas como uma manifestação sexual, mas também como um processo de aprendizado que o indivíduo tem sobre si mesmo.

Afinal, a excitação se apresenta com inúmeras variedades de ritmos e intensidades; está presente a todo o momento em nossa vida: por exemplo, ao saborearmos um alimento gostoso; ao ouvirmos um som suave; ao inspirarmos um aroma agradável; ao apreciarmos a beleza da natureza; ao sentirmos o calor do contato da pele de uma pessoa querida. Com a masturbação não é diferente, o ato possibilita a descoberta da própria sexualidade, por meio da experiência do auto-erotismo. Quando praticada sem culpas ou temores, fortalece a autoconfiança, eleva a auto-estima e proporciona o autoconhecimento.

CONCEITOS-CHAVE
- Muitas vezes vista como pecado ou doença ao longo da história, a masturbação transformou-se em recurso usado por médicos e especialistas em saúde mental para melhor compreender a sexualidade humana, desmistificar o tema e entender o papel da prática no desenvolvimento sexual.

- Segundo o psicólogo Juan Carlos Kusnetzof, a masturbação pode ser entendida como excitação sexual provocada por movimentos ritmados na zona genital.

- Freud questionou a relação do comportamento com os traumas sexuais, como se julgava no fim do século XIX (e até hoje ainda se acredita em alguns meios). Para ele, não se tratava de “vício” a ser curado, mas sim de comportamento inerente ao desenvolvimento sexual, que somente traria danos ao indivíduo se sua estrutura psíquica já fosse precocemente propensa a distúrbios.

Durante muito tempo predominou a intensa preocupação com a sexualidade – e principalmente com sua repressão. Nesse contexto, a masturbação deveria ser evitada a qualquer custo, até mesmo com o uso de trajes que dificultassem a prática. Ao analisar as formas de exercício de poder, o filósofo francês Michel Foucault ressaltou que no século XVIII a Igreja Católica cedeu, gradativamente, seu lugar ao saber médico e o corpo humano tornou-se objeto de novas técnicas de controle: além de culpabilizar aqueles que se deleitavam com a manipulação dos próprios genitais, o saber dominante os ameaçava com os mais terríveis prognósticos a respeito de sua saúde física e mental. No Dicionário das ciências médicas, de Serrurier, considerado obra de referência do início do século XIX, “o jovem masturbador” era descrito como um ser de “pele terrosa, língua vacilante, olhos cavos, gengivas retraídas e cobertas de ulcerações que anunciavam uma degeneração escorbútica. Para ele, a morte era o termo feliz de seus longos padecimentos”.

PELOS MEANDROS DA CULPA
Pode-se falar em um retorno terapêutico à masturbação. Muitos, como eu, terão efetuado a experiência que representa um grande progresso quando o paciente, no decorrer do tratamento, volta a se permitir a masturbação, ainda que sem a finalidade de permanecer nessa fase infantil”, escreveu Sigmund Freud, em 1912.

Ainda hoje, na clínica, relatos de pacientes referentes a masturbação freqüente aparecem vinculados não só à vergonha, mas também à culpa. Tocar de forma erotizada o próprio corpo expressa a busca do prazer – sem o álibi da reprodução ou do ímpeto de satisfazer o desejo do outro – e revela o caráter subjetivo da sexualidade. Já a culpa decorre do reconhecimento, ainda que a contragosto, da lei à qual somos subordinados e se insere numa dimensão simbólica. No caso da masturbação, é preciso assinalar a estreita relação da culpabilidade com o mito da impossibilidade de gerar descendentes. A culpa sempre traz a impotência: haja vista o gesto simbólico de “lavar as mãos”, praticado por personagens (fictícios ou não) assolados por esse sentimento, como Lady Macbeth e Pilatos. O ato “limparse” também pode ser associado à idéia de que há algo de muito sujo no próprio sexo.

POSSO SER SINCERO? - Márcia Tiburi

Quem hoje em dia é capaz de perceber algo estranho na pergunta “quando posso ser sincero?”. Ela traz uma dúvida importante quanto ao sentido da permissão exposto no uso do verbo “posso”.

A pergunta oculta outra pergunta bem simples de ponderar: por que eu “não poderia” ser sincero? As questões definem que há muito tempo nossa intenção de sinceridade se tornou um problema.

Quando os seres humanos inventaram a sinceridade? O que ela significa entre nós hoje? A sinceridade é uma intenção, uma ação ou mais que isso?

Dizer é fazer
Quando falamos em sinceridade sempre pensamos na ação de dizer algo desagradável a alguém. Iniciamos uma crítica muitas vezes com a expressão “sinceramente”. Inaugura-se com isto a exposição de uma opinião que não está disposta a ser falsa e se declara de antemão com a autoridade da verdade. Junto com ela encena-se certo ar de coragem, como se a sinceridade fosse alguma sorte de franqueza grosseira. O sincero lembra o “grosseiro”, porta-voz de uma verdade bruta – tanto assustadora quanto obrigatória -, como se o delicado fosse falso na exata medida de sua polidez. Com isto demarca-se a sinceridade como um esforço que, além de desagradável a todos, tanto para quem o pratica quanto para quem o recebe, pode ser tanto inútil quanto comprometedor.

Pensa-se, para escapar disso, a sinceridade como algo que não se deveria “praticar”. Algo que é, em si mesmo, ruim. Que só com muito cuidado deveria ser usada. A pergunta que precisamos fazer diante desta evitação da sinceridade é bem óbvia: por que a prática da exposição das opiniões não pode ser vista como uma coisa boa, algo que deveria ser exercido livremente? Que nos faria crescer ética e mesmo psicologicamente? Que ajudaria a descobrir boas experiências, de alegria, de satisfação na convivência com o outro, aquele a quem se dirige nossa sinceridade?

Falsa sinceridade?
A acepção atual da sinceridade que sustenta a idéia de um caráter que deveria ser escondido, por não fazer bem a ninguém, ou por não trazer vantagens numa sociedade organizada em relações de troca tanto objetivas quanto afetivas, é precária ao não revelar a riqueza do conceito.

Muitos pensam que, se sou sincero com alguém hoje, posso receber de volta a sinceridade amanhã e isso não define vantagem alguma. Ou posso ser punido por sua ressonância: perder uma oportunidade, um negócio, um emprego, porque sou sincero. A sinceridade parece ser algo que apenas se pode temer, que só estraga a vida, espécie de talismã ao contrário, moeda falsa. Seria a sinceridade aquilo que os gregos chamaram “Phármakon”, uma substância venenosa que apenas parcimoniosamente usada se tornaria curativa?

A história da questão mostra, porém, o significado valioso do conceito. Um dos momentos mais importantes na história da sinceridade são as Confissões de Jean Jacques Rousseau, obra que inicia pela explicação do autor de que mostrará aos seus semelhantes um homem em toda a verdade de sua natureza. Conforme suas palavras “este homem serei eu”. Rousseau opta pelo “desnudamento de si” em sentido filosófico: falar do homem universal, mas na diferença que ele, o próprio Rousseau, torna real em sua própria vida.

Uma confissão
Sinceridade é, portanto, sinônimo de confissão. Quem se confessa dá testemunho, ou seja, conta algo porque o viveu, porque presenciou um fato e pode narrá-lo. O olhar do sujeito sincero é essencial na elaboração do que ele pode dizer. A confissão religiosa é originariamente um ritual de autoconsciência que envolve um exame de si, uma análise da própria pessoa por conta própria. Aquele que se confessa, porém, deve ter a disposição para libertar-se de si mesmo. Ao mesmo tempo, este gesto implica entregar-se ao outro, seja aos seus olhos, aos seus ouvidos, ao seu cuidado ou, negativamente, ao seu poder.

Infelizmente o poder como dominação não abandona a vida comum. A confissão do outro, seja na religião, seja na política, pode ser usada como arma contra aquele que se confessa. A confissão tem um poder equivalente ao do segredo que lhe é contrário. Alguém apenas entrega o que lhe é íntimo como uma generosa dádiva, ou, ao contrário, sob pressão emocional ou ameaça. Se nas relações mais íntimas os segredos confessados são usados por um contra outro é o valor da sinceridade como o mais íntimo que se pode compartilhar que cai por terra. A sinceridade não pode ser confundida com a mera desculpa diante do que acaba por ser dito sem pensar. A violência verbal e a maledicência muitas vezes são aceitas sob a máscara de sinceridade.

É porque a sinceridade diz respeito ao universo próprio do que pode ser expresso por cada um em seus limites que ela jamais é absoluta, pois ninguém pode saber tudo de si, nem revelar tudo a outrem. O sujeito humano vive do conhecimento de si em tensão com o que, de si, não pode ser conhecido, com o que nele é mistério e silêncio. Aquele que pudesse ser totalmente sincero – falar absolutamente de si ou do sue ponto de vista - ou estaria mentindo ou teria banalizado o poder da sinceridade. 

A VIDA REAL É MELHOR - Ivan Martins

As nossas relações não precisam 
se parecer com o que se vê nas telas

No último fim de semana, sem que eu tivesse planejado, assisti a dois filmes românticos. Estava na sala, liguei a televisão e apareceu um deles. Fiquei e vi. No dia seguinte, em outro horário, deparei com o segundo. Também fui fisgado. Ambos eram bonitos, sensíveis, envolventes. Ambos capazes de me deixar melancólico e intrigado. Pensei: que diabo nos acomete quando vemos esse tipo de filme? As pessoas se beijam, as pessoas se apaixonam, as pessoas se deixam e choram – e conosco, vendo aquilo tudo, acontece o quê?
Não sei. Ao menos não exatamente.

Descobri o sentimento sem nome provocado pelos filmes aos 11 anos de idade, vendo Melody – quando brota o amor. A história dos adolescentes que fogem da escola para se casar me pôs em transe. Saí do cinema apaixonado pela personagem – a Melody do título – e, pela primeira vez na vida, tomado por uma sensação de melancolia do qual não desejava me livrar. Talvez tenha sido minha primeira emoção romântica inteiramente consciente – a mesma que, passadas várias décadas, e em circunstâncias diferentes, ainda me aflige no escuro do cinema ou na frente da televisão. Sem que eu saiba o que ela significa.

Os dois filmes que eu vi no fim de semana nada têm de especial. Ao entardecer conta a história de um amor que se consuma numa noite e se estende na forma de lembrança pela vida inteira. Em busca do amor narra o encontro entre duas pessoas de mundos diferentes, que parecem destinadas uma a outra desde o primeiro momento. São dois mitos poderosos - o amor inesperado e o amor eterno – cujos efeitos transbordam da televisão, encharcam os nossos pés e, de forma insidiosa, entram na nossa vida.

Eu me pergunto, essencialmente, se esses filmes adocicados ou arrebatadores descrevem as nossas verdadeiras emoções, (e por isso nos afetam tão profundamente), ou se eles nos contam, de maneira idealizada, como a nossa vida romântica deveria ser (e na vida real nunca é!) e por isso nos fazem sentir tão exaltados e tristes. Enquanto o garoto de 11 anos ainda reúne coragem para simplesmente falar com a menina de quem ele gosta, o filme diz a ele que é hora de amar, fugir e casar contra a vontade dos adultos. Não é à toa que a vida dele parece mesquinha e melancólica. Menor.

O psiquiatra Jurandir Freire Costa escreveu, num livro maravilhoso e difícil chamado Sem fraude e sem favor – estudos sobre o amor romântico, que “o amor é uma crença emocional e, como toda crença, pode ser mantida, alterada, dispensada, trocada, melhorada, piorada ou abolida”. Contra a ideia de um amor natural, eterno e universal, ele propõe um amor cultural. “O amor”, diz ele, “foi inventado como o fogo, a roda, o casamento, a medicina, o fabrico do pão, a arte erótica chinesa, o computador, o cuidado com o próximo, as heresias, a democracia, o nazismo, os deuses e as diversas imagens do universo”.

Seguindo a lógica do Jurandir, o que os filmes fazem é recontar, diante da sua audiência emocionada, as lendas correntes do amor romântico. Eles realimentam um mito que fomos ensinados a admirar e a desejar para as nossas próprias vidas, com consequências potencialmente destrutivas. Se o amor é aquele arrebatamento tempestuoso de um filme, ou o sentimento pétreo e permanente do outro, que nome dar (e, sobretudo, que valor dar) à sensação fugidia e cheia de dúvidas que me liga à Fulana ou ao Sicrano? O que eu sinto seria amor de verdade ou não passa de mera cópia pirata? Nos filmes, afinal, o amor é grandioso, pleno de certeza, permanente...

Este parece ser um dos casos em que a arte não nos prepara para lidar com a vida. Para entender o amor de verdade, na forma possível que ele toma na existência de cada um de nós, talvez seja preciso se livrar da grandiosidade. O romantismo pode ser uma prisão cheia de filmes e músicas, no interior da qual as pessoas adoecem –ou envelhecem - esperando por algo que não existe. Fujamos disso.

A vida real é melhor. Nela, apesar da precariedade da incerteza, tudo pode ser refeito, recomeçado. Os personagens dos filmes são prisioneiros de roteiros que não constrangem a nossa vida de verdade. Nós podemos nos mudar para o Rio, pintar os cabelos de vermelho, escrever um blog ou passear na chuva, com ou sem cachorro. Ao nosso redor, milhões de pessoas partilham as mesmas calçadas e os mesmos desejos por afeto, sexo, companheirismo. Tem aí material suficiente para bilhões de relações humanas. Eles podem não ser tão perfeitos quanto nos filmes. Podem não durar tanto e nem ter tantas estrelas no céu. Talvez nem sejam amor. Mas elas existem e isso faz toda a diferença.
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FUTEBOL DE RUA - Luis Fernando Verissimo

 Pelada é o futebol de campinho, de terreno baldio. Mas existe um tipo de futebol ainda mais rudimentar do que a pelada. É o futebol de rua. Perto do futebol de rua qualquer pelada é luxo e qualquer terreno baldio é o Maracanã em jogo noturno. Se você é homem, brasileiro e criado em cidade, sabe do que eu estou falando. Futebol de rua é tão humilde que chama pelada de senhora. Não sei se alguém, algum dia, por farra ou nostalgia, botou num papel as regras do futebol de rua. Elas seriam mais ou menos assim:

DA BOLA – A bola pode ser qualquer coisa remotamente esférica. Até uma bola de futebol serve. No desespero, usa-se qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia ou a merendeira do seu irmão menor, que sairá correndo para se queixar em casa. No caso de se usar uma pedra, lata ou outro objeto contundente, recomenda-se jogar de sapatos. De preferência os novos, do colégio. Quem jogar descalço deve cuidar para chutar sempre com aquela unha do dedão que estava precisando ser aparada mesmo. Também é permitido o uso de frutas ou legumes em vez da bola, recomendando-se nestes casos a laranja, a maça, o chuchu e a pêra. Desaconselha-se o uso de tomates, melancias e, claro, ovos. O abacaxi pode ser utilizado, mas aí ninguém quer ficar no gol.

AS TRAVES – As traves do gol podem ser feitas com, literalmente, o que estiver à mão. Tijolos, paralelepípedos, camisas emboladas, os livros da escola, a merendeira do seu irmão menor, e até o seu irmão menor, apesar dos seus protestos. Quando o jogo é importante, recomenda-se o uso de latas de lixo. Cheias, para agüentarem o impacto. A distância regulamentar entre uma trave e outra dependerá de discussão prévia entre os jogadores. Às vezes esta discussão demora tanto que quando a distância fica acertada está na hora de ir jantar. Lata de lixo virada é meio gol. Não existe travessão em futebol de rua.

O CAMPO – O campo pode ser só até o fio da calçada, calçada e rua, calçada, rua e a calçada do outro lado e – nos clássicos – o quarteirão inteiro. O mais comum é jogar-se só no meio da rua.

A DURAÇÃO DO JOGO – Até a mãe chamar ou escurecer, o que vier primeiro. Nos jogos noturnos, até alguém da vizinhança ameaçar chamar a polícia.

A FORMAÇÃO DOS TIMES – O número de jogadores em cada equipe varia, de um a 70 para cada lado. Algumas convenções devem ser respeitadas. Ruim vai ser goleiro. Perneta joga na ponta, a esquerda ou a direita dependendo da perna que faltar. De óculos é meia-armador, para evitar os choques. Gordo é beque.

O JUIZ – Não tem juiz.

AS INTERRUPÇÕES – No futebol de rua, a partida só pode ser paralisada numa destas eventualidades:

a) Se a bola for para baixo de um carro estacionado e ninguém conseguir tirá-la. Mande o seu irmão menor.

b) Se a bola entrar por uma janela. Neste caso os jogadores devem esperar não mais de 10 minutos pela devolução voluntária da bola. Se isto não ocorrer, os jogadores devem designar voluntários para bater na porta da casa ou apartamento e solicitar a devolução, primeiro com bons modos e depois com ameaças de depredação. Se o apartamento ou casa for de militar reformado com cachorro, deve-se providenciar outra bola. Se a janela atravessada pela bola estiver com o vidro fechado na ocasião, os dois times devem reunir-se rapidamente para deliberar o que fazer. A alguns quarteirões de distância.

c) Quando passarem pela calçada:

1) Pessoas idosas ou com defeitos físicos.

2) Senhoras grávidas ou com crianças de colo.

3) Aquele mulherão do 701 que nunca usa sutiã.

Se o jogo estiver empate em 20 a 20 e quase no fim, esta regra pode ser ignorada e se alguém estiver no caminho do time atacante, azar. Ninguém mandou invadir o campo.

d) Quando passarem veículos pesados pela rua. De ônibus para cima. Bicicletas e Volkswagen, por exemplo, podem ser chutados junto com a bola e se entrar é golo.

AS SUBSTITUIÇÕES – Só são permitidas substituições:

a) No caso de um jogador ser carregado para casa pela orelha para fazer a lição.

b) Em caso de atropelamento.

O INTERVALO PARA DESCANSO – Você deve estar brincando.

A TÁTICA – Joga-se o futebol de rua mais ou menos como o Futebol de Verdade (que é como, na rua, com reverência, chamam a pelada), mas com algumas importantes variações. O goleiro só é intocável dentro da sua casa, para onde fugiu gritando por socorro. É permitido entrar na área adversária tabelando com uma Kombi. Se a bola dobrar a esquina é córner.

AS PENALIDADES – A única falta prevista nas regras do futebol de rua é atirar um adversário dentro do bueiro. É considerada atitude antiesportiva e punida com tiro indireto.

A JUSTIÇA ESPORTIVA – Os casos de litígio serão resolvidos no tapa.

O QUE VOCÊ REVELA SOBRE VOCÊ NO FACEBOOK - Ruth de Aquino

Coloquei o apartamento do meu pai para alugar no carnaval do Rio. Um rapaz respondeu. Simpático, educado. Achou o preço ótimo. Pelo que me falou sobre ele, eu disse OK, vou reservar para você.

Perguntei quais eram as idades do grupo. Ele respondeu que faria o depósito do sinal. Insisti perguntando as idades do grupo. Respondeu que mandaria logo e me pediu o contrato de temporada para assinar rapidamente e fechar negócio. Pedi de novo os nomes e as idades dos interessados. Tudo por email.

Quando eu percebi que havia uma certa enrolação, telefonei para o celular do candidato. O rapaz, engenheiro formado, paulistano, aparentemente rico e de boa família, tinha 26 anos. Dois eram amigos de 28 e 29 e havia uma trinca – “ou mais” – de 20 a 23 anos. “Primos”.

Bom, aí a coisa começou a emperrar.

Resolvi olhar os perfis nas redes sociais. Eram bonitos, fortes e saudáveis os dois mais “velhos”. O que me contatou tem, como foto principal, uma imagem sem camisa, músculos bem definidos, numa mesa de bar, rodeado por latas de cervejas.

Nada demais, um cara festeiro, curte a vida, não?
Outra foto o mostra no meio da Fiel do Corinthians. OK, um cara apaixonado por seu time, uma torcida “aguerrida”...quem não ama seu clube de futebol, né?

A outra foto o mostra rindo, de boné, com uma camiseta com os seguintes dizeres: SEX & PILLS & DRUGS & TATTOO & MUSIC & SEX = Rehab+iMode.

Nesse momento, eu agradeci o interesse e desejei boa sorte a todos.

Fico pensando.

Será que as moças e os rapazes que se despem física e emocionalmente nas redes sociais acham que “tudo bem”?

O meu candidato pode ser uma pessoa muito legal mesmo e as fotos talvez apenas traduzam a personalidade de um jovem popular, feliz, sedutor e cheio de vida.

Mas, na hora de entregar o apartamento dos pais a um grupo de inquilinos, ou na hora de se contratar alguém ou de chamar um profissional para uma empreitada, dificilmente a pessoa opta pelo risco.

A primeira coisa que se faz hoje é verificar o perfil do candidato na rede social.

Tem gente que faz essa “verificação” virtual até mesmo antes de correr o risco de se apaixonar...

E as fotos podem dizer mais do que mil palavras.


Menos, pessoal. Menos.

MALDADE - Flávio Gikovate

Talvez uma boa definição de maldade seja a prática de um ato em que outra pessoa é prejudicada de forma consciente. Ou seja, aquele que pratica a maldade sabe das consequências danosas do seu ato, sabe que se trata do uma ação indevida e a pratica assim mesmo. A maldade se distingue das reações agressivas a que todos nós estamos sujeitos tanto no papel ativo como passivo: quando alguém é agredido existe uma tendência natural para reagir a ela de uma forma ou de outra. A ação agressiva pode ou não ser intencional e não é raro que a reação venha a corresponder a um ato maldoso; porém, houve uma agressão que a antecedeu.

Um exemplo peculiar de reação agressiva é a inveja, não raramente maldosa: uma pessoa se compara com outra, sente-se por baixo e isso provoca uma sensação de humilhação que é vivenciada como agressão; reage a essa suposta agressão de forma sutil e desleal, tentando rebaixar ou diminuir aquele que despertou a inveja. Esse tipo de maldade pode vir a ser praticada por qualquer um de nós.

Na grande maioria dos casos de maldade, o ato é motivado pelo desejo da pessoa de obter algum benefício que não lhe é devido. Assim, uma pessoa egoísta fará o que for necessário para alcançar seus objetivos materiais, intelectuais ou sentimentais sem se preocupar com os danos que porventura venha a causar nos interlocutores. Estará agindo em defesa dos seus interesses, desprovida de sentimento de culpa e de uma forma nada empática. Não irá se incomodar com a dor provocada. Porém, não é essa sua primeira intenção; a real motivação é a de se apropriar daquele dado benefício; o dano ao outro é um desdobramento do objetivo inicial e não é fonte de satisfação e nem de dor.

Em alguns casos, o ato agressivo está claramente associado ao erotismo. Há décadas venho afirmando que o sexo, especialmente nos homens, tem importantes conexões com a agressividade, de modo que isso explica comportamentos sádicos, consentidos ou não, assim como os mais dramáticos atos eróticos relacionados com o estupro, exibicionismo, pedofilia… A associação entre sexo e agressividade pode explicar alguns comportamentos machistas, assim como algumas formas de maldade feminina – ser muito provocante para seu parceiro e, mais ou menos regularmente, rejeitar sua abordagem! A maldade nem sempre envolve violência ou apropriação indevida de objetos ou cargos. Por vezes pode se exercer de forma sutil, provocando dor psíquica, como é o caso do ato de humilhar deliberadamente outra pessoa.

Nas crianças que batem nas mais fracas ou que praticam o bullying, tenho a impressão de que o que está em jogo é a autoafirmação: a criança se avalia como mais forte ao rebaixar física ou moralmente alguma outra. Não é fácil explicar os atos violentos contra alguns animais domésticos que são objeto de maus tratos por parte de algumas poucas crianças. Alguns acham que isso indicaria a existência de algum tipo de predisposição biológica para a prática de ações agressivas e maldosas.

Não estou convencido de que essa seja uma boa explicação. Sim, porque se houver uma predisposição para a maldade, aquele que a pratica não pode ser responsabilizado; estará “apenas” exercendo sua natureza (segundo o dicionário de filosofia de Comte-Sponville)! Talvez seja mais uma manifestação do tipo da autoafirmação, especialmente se estiver sendo exercida diante de outras crianças. Seria também uma exibição de coragem, de “sangue frio”, de ser mais competente para o exercício da violência.
É mais ou menos nessa linha que acredito que se possa explicar certas condutas que parecem exclusivamente maldosas, desprovidas de benefício para quem a pratica, próprias dos psicopatas. 

Sendo pessoas destemidas, muitos gostam de se exibir como mais ousados para executar qualquer ato violento. Isso pode parecer gratuito, mas está a serviço da vaidade, de se sentir superior aos outros membros do grupo a que pertence.

A vaidade consiste no prazer (erótico) relacionado ao ato de se destacar; e num grupo de marginais, talvez o destaque ganhe essa forma, qual seja, a de ser capaz de maldades mais ostensivas e desnecessárias.

Além da vaidade de ser um membro destemido do grupo, o que costuma determinar um posto de liderança perante aqueles que sejam portadores de algum medo, o ato violento aparentemente gratuito também costuma estar a serviço de intimidar os membros do grupo, reforçando e definindo de modo claro e definitivo o papel de liderança daquele que é totalmente destemido e, claro, desprovido de qualquer tipo de culpa ou empatia.

Aliás, esse gosto pela maldade pode ser chamado de “empatia negativa”: o prazer de se afirmar praticando o mal.

VOVÓ GAROTA - Fernanda Torres

Não nasci para anfitriã. Abro as festas tensa, receosa de que não apareça ninguém. Depois, quando a casa lota, rezo para os convidados irem embora para eu poder dormir em paz. Outro dia, um casal de amigos veio em casa.

Fiquei com sede e bebi água de um copo, aparentemente intacto, que estava na mesinha ao lado do sofá. Não sobrou nem uma gota. Era da visita, já estava até tomado. Fiz isso na hora em que eu confessava o meu pouco talento para receber. Minha amiga foi obrigada a concordar comigo.

Mas os aniversários se sucedem e a pressão de fazer algo que preste no dia do cumpre anos volta a atormentar. Nos últimos tempos, apelei para o mesão no restaurante, que é prático, acaba cedo e salva o lar do dia seguinte. Mas não quis repetir a dose neste ano.

Completei 48 anos, tomei coragem e chamei alguns amigos para um almoço, seguido de pôr do sol. A meia-idade é uma grande fase da vida. Os conhecidos se espalham por diversas gerações, é muito interessante. Vieram bebês recém-saídos da barriga, audazes rapazes de 20, balzacas da minha safra e setentões do mais alto calibre.

Paula Lavigne me salvou de uma deprê há três anos.

Na sua casa, na Bahia, conheci Cézar Mendes, violonista extraordinário, a quem já dediquei, aqui, uma crônica. Cezinha compareceu com Dadi Carvalho e Pretinho da Serrinha e passamos a noite cantando sem compromisso.

O apagão, presente do acaso, nos deixou a sós com a luz da lua.

Tom e Vinicius, documentário de Miguel Faria Jr., traz um filme caseiro do poetinha na roda de cantoria de um apê em Ipanema. Estão todos altos. Ele, rodeado por uma pirâmide de mulheres estonteantes, segura o copo de uísque na mão e solta a voz no “vai, vai, vai, vai, vai…” do Canto de Ossanha. De vez em quando, Vinicius interrompe a levada para declamar um poema, retornando, em seguida, para o vai, vai cada vez mais épico e transcendental.

Corei de inveja.

Cantar com os amigos cura qualquer problema sério. Mesmo desafinando, vale. Meus enteados e a turma deles foram os últimos a abandonar a roda. Amantes de Caymmi, dos Novos Baianos, de Raul, Gil e Caetano, eles dividiram a tarde com os boleros da terceira idade, sem saber que muitas das músicas que escutam foram produzidas por André Midani, também presente à comemoração.

Hector Babenco, Daniel Filho, Domingos de Oliveira e Cacá Diegues são diretores com quem já trabalhei e fiz testes. Sempre os encarei de baixo para cima. Mas, agora, que já passei um bom naco de tempo na Terra e compartilho com eles histórias em comum, já não os olho com a tensão de saber se me darão, ou não, um papel; se aprovam, ou não, minhas escolhas profissionais. É outra a razão que nos une.

É o próprio testemunho de termos visto os outros vivos. Somos todos dinossauros.

Para curar a ressaca, fui ao mar no dia seguinte. Praia apinhada, mar azul e areias limpas. Presentão de aniversário da campanha Lixo Zero.

O escritor angolano José Eduardo Agualusa me escreveu para agradecer a tarde: “Acho que certas geografias melhoram as pessoas, e o Rio, com os seus morros, puxando nosso olhar para cima, é uma dessas geografias”.

Ele tem razão, a Guanabara é um grande criadouro de vovós garotas. Espero não ser exceção.

ABAIXO O SENTIMENTO DE REJEIÇÃO - Danuza Leão



O que fazer quando se adora uma pessoa e ela não acredita? Você pode se ajoelhar, cair de quatro, jurar, cortar os pulsos, atravessar o oceano a nado, mas não adianta: para cada um desses atos, ela vai encontrar uma razão – aliás, uma excelente razão – para dizer que é tudo mentira. E o pior é que não é. É a tal da rejeição, essa tragédia que existe dentro de todos nós e nos faz achar que ninguém gosta da gente o suficiente. Ou melhor: como a gente precisa e merece ser gostado.

Começando pelo básico: alguém acha que é – ou foi – amado suficientemente por pai e mãe? Claro que não. E o dia em que os dois saíram para jantar fora e ir ao cinema, enquanto você, com 5 anos, queria que eles ficassem ao seu lado contando uma história? Há prova maior de que eles jamais gostaram de você? E quando os pais se separaram e um deles se apaixonou, mas o namoro não deu certo e pintou aquela tristeza? 

Alguém pode conversar com o filho pequeno, carinhosamente, dando toda a atenção do mundo, numa situação dessas? E quando, no auge da paixão, pinta um convite para um fim de semana de sonho e você propõe trocar o sábado e o domingo que ia passar com seu filho, ele acha o quê? Que é mais rejeitado e abandonado do que um menino de rua.

E vai tentar explicar: ele não vai entender nunca! Só que essa criança cresce, se apaixona, se casa, se separa, tem seus filhos e, quando age com eles exatamente como você já agiu no passado, nem assim compreende. Aos 50, 60 anos, o filho continua na análise, se queixando de ter sido rejeitado, como se fosse um bebê de colo, oh, vida! E por que razão o analista não abre os olhos daquele homão para mostrar que a vida está passando e ele continua atormentado, pensando no que acha que a mãe fez quando estava com 1, 2, 3 anos e ela agia com mais indiferença a ele do que a um cachorro vira-lata. 

Ah, Freud, não dava para ser mais simplesinho? Mostrar que tudo faz parte, que a vida deve ser aproveitada a cada segundo e a busca da felicidade é bem mais importante do que ficar chafurdando no passado por causa daquele dia em que sua mãe olhou atravessado para você? E daí se olhou? Quem não olha às vezes? Ah, quanto tempo perdido. Quantos momentos teriam sido tão ricos se mãe e filho pudessem falar francamente um para o outro: “Ah, naquele dia quase te matei de tanta raiva”.

E aí dar uma boa risada lembrando. Ou vai dizer que isso nunca aconteceu de mãe para filho e de filho para mãe? E todos os outros momentos em que a mãe amou – e ama – esse filho loucamente, mais que qualquer coisa na vida, mas ele cresceu e nunca mais isso foi dito, porque não é da nossa educação e da nossa cultura fazer declaração de amor a filho grande? Até porque ele é o primeiro a não querer ouvir depois que cresce. Que mundo mais louco... 

Ah, se a gente pudesse botar os filhos grandes no colo quando desconfia que estão tristes e abraçar, apertar, cobrir de beijos, como quando eram pequenos e tudo acabava em gargalhadas – deles e nossas. Mas agora que são enormes, adultos, Freud não aconselha mais. Agora, os problemas devem ser resolvidos com o diálogo – o que acaba não resolvendo nada. 

Ah, se eles soubessem; ah, se a gente conseguisse dizer. Se isso acontecesse, dava para ir no Aurélio e apagar, para sempre, a palavra REJEIÇÃO. Do dicionário só, não. Da nossa mente e, sobretudo, do nosso coração.
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SOMOS DIFERENTES - Márcia Tiburi

Pais e filhos idealizam o aconchego da semelhança, 
mas é preciso aprender que diferença não é desigualdade

Mães e filhas são sempre muito parecidas como peixes e seus filhotes: eu e minha filha, por exemplo. Só que ela é mais bonita e desenha melhor que eu. Talvez continuemos cada vez mais iguais, sobretudo se pensarmos nas nossas coincidências astrológicas e confiarmos na evolução dos mesmos gostos pelo desenho, pelos livros, por ficar em casa em plena vida contemplativa.

Porém, toda regra só é regra porque existem as exceções. O igual só é igual porque existe o diferente. E vice-versa. Sobre o futuro das semelhanças nunca é possível fazer muitas apostas. No caso dos pais de filhos pequenos, tem-se pela frente a adolescência - que modifica, em geral, toda a vida de uma pessoa. Este tempo trará a força das diferenças que devem ser elaboradas, sobretudo no que se refere ao comportamento, à moral, à sexualidade. O que ainda não conhecemos dos nossos filhos - a diferença - deverá ser o novo encanto do nosso encontro.

Não podemos sustentar que o futuro de nossos filhos seja a nossa continuação. O futuro que esperamos para eles precisa ter o nome da diferença entre o que somos e o que eles serão. A diferença sempre se elabora no tempo. As mães mais típicas esperam que a vida de suas filhas seja melhor: que sejam mais bonitas, tenham o sucesso, realização profissional, que estabeleçam relações matrimoniais mais justas, sejam felizes no amor, que possam escolher e decidir sobre seus destinos. Querem que as filhas sejam mais felizes. Mas devem saber que isso implica mudanças no modo de vida que conheceram. Que terão de aprender a olhar para outro mundo. Mas, no fundo, o que desejamos é ser iguais.

Ao contemplar imagens de famílias animais, muitas vezes temos a sensação de que com os humanos ocorre o mesmo mimestismo da natureza. Esse sentimento toca principalmente mães e crianças, pois é entre mães e seus filhos que o desejo de unidade é corpóreo e primitivo. A mãe, no seu sentido mais comum, é aquela que quer aconchegar. Por isso ela dá alimento, colo e carinho. A mãe é corpo. Ela é a primeira manifestação do mimetismo humano, o da proximidade sem a qual não nos tornamos pessoas capazes de uma vida boa e justa.

Temos a sensação muito agradável que uma girafa e a girafinha, a ursa e seu ursinho, a vaca e seu bezerro correspondem a um ideal humano. Lembremos o filme sobre o pingüim imperador, cuja abordagem humanizava os animais. Os pingüins não sabiam nada sobre "ser ou não ser" humanos, mas os humanos sentem um radical desejo de projetar na natureza seus sentimentos. O filme, na visão do diretor, mostrava como queríamos ser como os pingüins. Estes eram como familiares. O que ele esqueceu de dizer é que projetamos na natureza o desejo de continuarmos participando dela e que ela seja o nosso verdadeiro ideal. O nosso desejo de ser igual ao outro, à natureza, equivale a querer o colo da nossa mãe.

A capacidade de nos tornarmos iguais nos move. O segundo mimestismo humano é evidente na moda, ideais e princípios que compartilhamos. A democracia é o nome político do mimestismo. É uma vontade de proteção, mas também de mistura, que adquirimos no colo da mãe. Mas é preciso atingir o respeito à diferença e entender que ela não é desigualdade no sentido político dos direitos. Depois do colo, todo mundo aprende a andar sozinho. O colo vira uma lembrança que queremos atualizar com amigos e amores, mas também com a nossa profissão, nossos projetos. A gente acaba sempre em busca do paraíso perdido que era o colo da nossa mãe.

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