PARA QUE SERVE A CELEBRIDADE? - Roberto DaMatta

Quero começar com uma nota sobre a celebrização como um problema e como um valor. A ultima besteira aprontada pelo jovem cantor Justin Bieber, que minhas netas mais novas idolatram (ou idolatravam), ajuda e, intrigantemente, coincide com o que elaborei na semana passada sobre esse tema.

Uma sociologia da modernidade avançada, globalizada e marcada pelo hiperconsumo não pode deixar de meditar sobre a celebrização e o sucesso como paradoxos. Pois como distinguir e buscar a fama que inevitavelmente leva as pessoas para cima ou para baixo numa sociedade fundada num individualismo igualitário que horizontaliza?

Deste ponto de vista, a celebrização traz à tona a hierarquia (ou um centro desejado) como um valor implícito ou até mesmo envergonhado num sistema que, idealizadamente, se pensa como descentralizado porque é feito de iguais. A celebrização revela também como o sistema oscila entre a ênfase no individual (ou nas suas peças ou partes) e em como essas partes se relacionam entre si formando um tecido ou uma totalidade. A regra é salientar a parte, mas a celebrização não nos deixa esquecer o todo. Talvez essa seja sua principal função e ela está contida na pergunta: por que ele (ou ela) e não eu?

Não se trata, como bem viu Tocqueville, de achar que o regime igualitário suprima a excelência ou a singularidade extraordinária que dimensionam o ideal da aristocracia; mas de ter suficiente lucidez para compreender que a igualdade não suprime a gradação; e que a ênfase no individuo ou na parte não acabam com o todo. O numero um em alguma esfera das artes não liquida os elos entre as pessoas. As coletividades humanas são reconhecidamente humanas, justamente porque preservam essas dimensões.

Há o momento da celebrização e o momento em que ela, como o Justin Bieber condenado, revela o jovenzinho banal, igualzinho aos nossos filhos e netos.

Num mundo igualitário, o processo de celebrização legitima a crença de que todos são iguais e alguns se diferenciam pelo talento. É o caso especifico do esporte e das artes musicais e cênicas, mas isso não exclui paternalismos, favores, preferências e familismos que marcam todos os campos, sobretudo o do poder.

O que chama a atenção hoje em dia é o acasalamento às vezes patológico entre uma hiperdistinção (caso de alguns astros da música popular e do esporte) e uma espécie de autoflagelação por meio do uso abusivo da liberdade. Um menino que fica milionário aos 15 anos e vive numa sociedade que lhe garante o espaço de ser feliz a seu modo corre o risco de ser engolido e, eventualmente, morto pelo seu tão desejado sucesso!

Como naquela famosa capa da “New Yorker”, comentada nesta coluna, na qual os Oscars comiam como sobremesa os artistas premiados. Afinal, se os cavalos não são domados, eles acabam nos guiando.

Para que serve então a celebridade? Ela agencia uma diferenciação num mundo que se deseja construído de iguais. Os seus perigos são claros: toda pessoa célebre tem uma superespecialização que se confunde com um dom. O famoso é a tela na qual as pessoas comuns projetam os que lhes falta. Os mitos das celebridades insistem em dizer como elas foram pessoas simples e pobres antes de obterem a tão desejada fama. O astro é, entre outras coisas, um especialista no que faz e um modelo do que faz. Daí a tendência a confundir o seu papel público com a sua intimidade. A suposição de uma excepcionalidade em tudo se desfaz e decepciona quando ocorre um desvio entre a figura que aparece no palco e a figura que surge — bêbado, burro, arrogante, desonesto, corrupto e, acima de tudo, infeliz como todo mundo — na vida real. Isso é acentuado pela nossa busca de coerência, a qual inventou sua tecnologia.

Do outro lado do universo das celebrizações para cima, há o conjunto de empregados e de inferiores que congrega as “celebridades para baixo”. Os garçons, engraxates, motoristas, porteiros e empregados em geral que fazem a nossa comida, lavam a nossa roupa, vigiam nosso lar e nos protegem do mundo. Esses fornecedores de amor, atenção e carinho preenchem um espaço que não ocupamos e passam a impressão de que vivem apenas para o que fazem. Para muitos, ver a empregada namorando é tão surpreendente quanto descobrir que a sua celebridade favorita tem um péssimo caráter.

Esse time de empregados: secretários, assessores e subdiretores que, na política, desculpam-se pelos seus superiores quando a Fifa ou Comité Olímpico Internacional ou uma chuvarada revela como nada está pronto e há um atraso crônico e insuportável na infraestrutura nacional.

No Brasil, as autoridades não pedem desculpas. No máximo, elas dãodesculpas por meio dos seus “peles” ou asseclas. As obras que jamais ficam prontas em tempo e o cara de pau ministro diz que as empreiteiras precisam ser mais responsáveis. Mas quem contrata essas empresas?

Se as celebridades não podem ser escusadas dos seus delitos, o mesmo deve ocorrer com a autoridade que, na maioria dos casos, lamentavelmente torna-se uma celebridade pelo que não fez; ou, pior que isso, pela sua inestimável contribuição ao atraso do país.

MARCELO CRIVELLA CHUTOU A ALMA CARIOCA – Edmir Silveira

Para todo cargo público, existe uma coisa chamada cerimonial. No exercício de seu mandato, em todas as cerimônias inerentes ao cargo, a presença do eleito está representando o povo, não a ele próprio.

Goste ou não de carnaval, todo carioca sabe da importância dessa festa, de repercussão mundial, para a cidade. É sinônimo de Rio de Janeiro e da celebração do espírito carioca.

É, também, o período de maior faturamento turístico, trazendo aumento de receita para a cidade como um todo. Mais necessários ainda nesses tempos de economia falida. Resumindo, o carnaval não é só uma tradição carioca, representa um evento importante para a arrecadação pública e desenvolvimento da atividade turística da cidade. É o evento popular mais importante do País. É conhecida internacionalmente como a maior festa popular do mundo.

Pois bem, hoje, sexta-feira, dia da abertura oficial do carnaval carioca, o Rei Momo, suas rainhas, representantes da velha guarda de todas as escolas de samba e outras figuras tradicionais do carnaval, tiveram a maior decepção de suas vidas. Foram feitos de palhaço pelo prefeito do Rio, Marcelo Crivela.

Ele não cumpriu seu papel, inerente ao cargo que ocupa, de entregar as chaves da cidade ao Rei Momo. Não enviou representante ou mesmo emitiu uma nota oficial sobre o motivo dessa enorme falta de respeito e consideração com a cidade do Rio de Janeiro e seu povo.  

A tradicional cerimônia de entrega das chaves da cidade pelo prefeito ao Rei Momo e sua corte não aconteceu. Na hora prevista, todos os personagens da festa estavam em seus lugares. A cerimônia estava pronta. Mas, ele não deu as caras. Deu um perdido na galera.

O evento não aconteceu, nem mereceu, por parte da prefeitura, nenhum comentário ou justificativa. Nenhuma declaração ou nota oficial, nem bilhete em papel de pão rolou. 

Crivella deixou no ar um recado claro, tipo: “não tenho o menor respeito por vocês!” Numa atitude semelhante a do pastor que chutou a padroeira do Brasil no dia dela. 
Não sei que repercussão terá na mídia. Mas, é muito grave.


No carnaval de 2017, Marcelo Crivella chutou a alma carioca.

*Mais de duas horas e meia após a hora marcada e depois da grande repercussão negativa do fato nas mídias sociais, Crivella mandou uma secretária municipal representá-lo e mandou dizer que sua esposa estava resfriada e, por isso, ele não foi. 

Aconteceu, então, uma cerimônia constrangedora sem a menor graça ou alegria. 
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5 COISAS QUE OS FILHOS JAMAIS ESQUECERÃO SOBRE SEUS PAIS – Edith Casal

 Todos os pais querem ter filhos maravilhosos. Querem que eles sejam afáveis enquanto crianças e, quando crescerem, se comportem como pessoas responsáveis e úteis para a sociedade. No entanto, eles se esforçam muito mais em pensar no amanhã do que em semear suas bases durante o presente em que caminhamos. Alguns pais pensam que quando seus filhos são pequenos, eles só devem obedecer e que a criação é apenas isso.

O resultado é que temos cada vez mais crianças inconformadas e adultos infelizes. Quando não há critério para a criação consistente, lógica e estável, a probabilidade de que os filhos mostrem comportamentos rebeldes e/ou herméticos aumenta. Talvez caprichosos, talvez autoritários e, em todos os casos, instáveis. Eles não conseguem estabelecer um vínculo afetivo e próximo com seus pais, pelo contrário, eles vivem em uma guerra indireta ou aberta com eles.

“O problema com a aprendizagem de ser pais é que os filhos são os professores.”
-Robert Braul-

Uma das partes mais importantes de nossa vida é a infância. É onde se constroem os alicerces de uma mente saudável e de um coração limpo. Desta forma, algumas atitudes dos pais deixam uma marca para sempre: às vezes positiva, às vezes negativa, mas na maioria das vezes profunda. Aqui estão cinco destas condutas que os filhos poucas vezes esquecem.

Os filhos jamais esquecem os maus-tratos
Nenhuma relação é perfeita, e muito menos uma tão intensa como a dos pais com seus filhos. Sempre haverá momentos de contradição ou de conflito, e isso é algo perfeitamente normal. O que muda é a maneira de superar essas dificuldades e, lamentavelmente, muitos pais assumem erroneamente que os maus-tratos são uma ferramenta para educar.

Pode ser que, com os maus-tratos, o pai ou a mãe consiga intimidar o filho para que ele faça exatamente o que ele/a quer. Mas esses maus-tratos também irão se transformar no gérmen da falta de autoestima e em uma fonte de rancor. Eles colocam o filho em uma situação muito complexa: ele ama e odeia ao mesmo tempo, e também aprende a temer. O coração de um filho é muito sensível, e se for ferido de forma constante, com o tempo ele irá se transformar em uma pessoa insensível.
  
A forma como os pais tratam um ao outro
A relação entre o pai e a mãe é o padrão que a criança terá para formar uma atitude perante os relacionamentos amorosos. É muito provável que, quando for adulto, ele repita com sua parceira de forma consciente ou inconsciente o que viu em casa entre seus pais. Antes disso, ele provavelmente irá repetir com as pessoas que ama.

Pense que os conflitos entre os pais geram angústia no filho. Uma das possíveis consequências será que ele irá se envolver em problemas simplesmente para atrair a atenção de um dos pais, que não ligam para ele porque estão centrados no conflito em que estão envolvidos. Além disso, ele irá apreciar ou não os relacionamentos amorosos com base nesses padrões aprendidos.

Os momentos em que se sentiram protegidos
Os medos das crianças são maiores e mais insidiosos do que os dos adultos. Os pequenos não conseguem distinguir bem a fronteira entre a realidade e a imaginação. Os pais são as pessoas em quem eles mais confiam para obter a sensação de segurança de que precisam para aprender e explorar o desconhecido. Assim, se são os pais os que causam este medo, eles vão se sentir totalmente desprotegidos.

Os pais devem escutar com atenção esses medos, sem criticá-los nem minimizá-los. Eles devem fazer com que os filhos entendam que não estão em perigo. Isto irá aumentar o sentimento de segurança dos filhos e irá fortalecer muito mais o vínculo de amor e de respeito com os pais.

A falta de atenção
Para um filho, o amor que os pais lhes dão está intimamente relacionado à atenção que recebem deles. Para os filhos não existem expressões de afeto como trabalhar horas extras para poder lhe pagar um colégio caro. Eles não irão acreditar que você os ama se você não passar tempo com eles para os conhecer e estar presente no mundo deles.

Os filhos nunca esquecem que o pai e a mãe deram uma camisa verde de presente, quando haviam dito até enjoar que queriam uma roxa, ou que prometeram algo que jamais cumpriram. Eles encaram isso como uma forma de abandono, como uma mensagem que diz: “você não é importante o suficiente”. Por isso ficará uma marca de dor em seus corações.

A valorização da família
Os filhos vão sempre lembrar que seu pai ou sua mãe foram capazes de colocar a família como prioridade em diversas circunstâncias. As crianças precisam e gostam das celebrações, não importa se é com mais ou menos presentes. Também é muito importante para eles que o pai e a mãe levem o Natal a sério.

Se os pais colocam a família acima de tudo, o filho irá aprender o valor da lealdade e do afeto. Quando for adulto, ele também será capaz de deixar de lado outros compromissos para ir ver seus pais quando precisarem dele. Ele se sentirá compensado e terá uma maior capacidade para dar e receber afeto.

Todas essas marcas deixadas durante a infância nos acompanham pelo resto de nossas vidas. Muitas vezes elas representam a diferença entre ter uma vida saudável mentalmente e uma vida cheia de conflitos. Uma criação repleta de amor e de carinho é o melhor presente que um ser humano pode dar a outro.
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ZUENIR VENTURA - O Dia em que eu morri

O presidente Lula tinha acabado de discursar quando recebi a notícia de minha morte. Eu estava na cerimônia de inauguração do Instituto Moreira Salles e vi Marcos Sá Corrêa vindo em minha direção com o cabelo molhado de quem saiu do banho às pressas e a cara de quem estava vendo fantasma. De fato, eram as duas coisas. Viera correndo de casa, ali perto, para me avisar que infelizmente eu tinha morrido.

Acho que cheguei a esboçar um ar compungido ao ouvir o relato e devo ter dito que o falecido era um cara legal.

O boato fora divulgado na Internet, on-line, pela Agência Estado, que se baseara no telefonema que um repórter deu para um antigo número meu: 267-0415. Quem atendeu disse que eu morrera num desastre de carro na Lagoa. O próprio repórter me contou depois: “a mulher deve ser uma louca, porque me atendeu chorando, dando detalhes de sua morte e dizendo que trabalhava com a família há 14 anos; 'coitada da Mary, dos filhos', chegou a dizer”.

O equívoco correu redações, chamou de volta quem já estava em casa, ameaçou desarrumar páginas prontas, congestionou linhas telefônicas e chocou amigos e parentes. Meu filho, por exemplo, que custou a ser localizado, conviveu com o boato como se ele fosse verdade por mais de uma hora. Por ser irresponsável, a tal maluca do telefone com certeza não consegue imaginar o que uma brincadeira dessas pode causar.

Lá pelas 9 horas da noite – eu tinha morrido às 16h – a imprensa descobriu que eu estava no IMS e não no IML. Do lado de fora, dezenas de repórteres e fotógrafos aguardavam atrás de um cordão de isolamento a saída do presidente. Veio então uma ordem das redações para que falassem comigo; não valia mais versão, eu tinha que ser ouvido ao vivo, se é que a expressão se aplicava ainda a mim.

Naquele momento, eu era mais importante do que o presidente, o governador, o prefeito e quem mais estivesse lá dentro. Afinal, não é todo dia que se vê alguém morrer e ressuscitar em cinco horas. O recorde era três dias, mas fora batido há muito tempo.

Lá fora os colegas apontavam suas armas para mim: microfones, gravadores, câmeras, canetas. Nunca tinha me sentido desse lado e aprendi o que é ficar na frente daquilo que a gente mesmo chama de "batalhão de jornalistas". Era uma entrevista coletiva inédita, de um ex-morto. Quando me perguntaram como é que eu estava me sentindo, quase respondi: “estava melhor no Além”.

Já de madrugada abri o computador e vi a descrição de minha morte; era tão precisa que não tive dúvida, devia ser verdade. Uma agência séria não colocaria no ar um boato desses. Seria muita irresponsabilidade. Uma falsa notícia de morte pode ter conseqüências desastrosas. Além do mais, o morto era figurinha fácil na cidade, de apuração rápida. Se a Agência resolvesse esperar um pouco, os repórteres conseguiriam desfazer o boato, como aliás desfizeram logo depois, só que aí eu já estava morto. Será que notícia em tempo real é isso, primeiro divulga e depois apura?

Não pode ser. A hipótese mais provável era a de que eu estava mesmo morto. Se um vivo é capaz de se imaginar morto, um morto pode muito bem se imaginar vivo lendo a notícia da própria morte. Era o que eu fazia ali, agora. Com material parecido, um outro defunto, o machadiano Brás Cubas, esse, genial, escreveu uma obra-prima. Com a ajuda do vinho que havia tomado para comemorar, passei a acreditar no que estava lendo. Leiam o que li:

“Morre o escritor Zuenir Ventura – Rio de Janeiro – A empregada do jornalista Zuenir Ventura, Maria Antônia, afirmou agora à noite que ele morreu hoje, após sofrer um acidente na Lagoa, na zona sul do Rio de Janeiro, por volta do meio-dia. Segundo a empregada, que há 14 anos trabalha com a família, Zuenir, autor de 1968 – o ano que não terminou, Cidade partida e Inveja faleceu às 16 horas. Ele era colunista do jornal O Globo, e sua última coluna vai ser publicada amanhã.”

Colegas dizem que nos Estados Unidos isso daria processo e indenização. No Brasil não deu nem pedido oficial de desculpas da Agência, muito menos flores para o enterro, sequer uns cravos de defunto.
Zuenir Ventura, Maio de 2010.
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ZYGMUNT BAUMAN - 30 anos de orgia consumista nos deixaram com a sensação de urgência sem fim.

 A frouxidão de nossa era está novamente sob escrutínio 
do sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

Criador do conceito de modernidade líquida, que acusa a fragilidade das relações atuais, ele se volta às angústias destes “dias de interregno”: quando os velhos jeitos de agir já não servem, mas os novos não foram inventados. “Trinta anos de orgia consumista resultaram em um estado de emergência sem fim”, diz – e indica uma saída: “O que pensávamos ser o futuro está em débito conosco. Para superar a crise, temos de ‘voltar ao passado’, a um modo de vida imprudentemente abandonado”

Zygmunt Bauman presenciou os principais acontecimentos do século 20 e na virada do milênio criou uma teoria que levaria seu nome para além do campo da sociologia e o tornaria um escritor best-seller – sobre a liquidez da sociedade, das relações, do nosso tempo. Um dos principais pensadores da modernidade, este polonês prestes a completar 91 anos não perde um debate, e tudo que o inquieta é transformado em livro. Ele está lançando agora Babel – Entre a Incerteza e a Esperança.

Babel fala do interregno – termo usado por Bauman e pelo jornalista Ezio Mauro, seu interlocutor na obra – em que estamos vivendo. Um tempo entre o que não existe mais e o que não existe ainda. De incertezas e instabilidade. Para eles, não há, no momento, movimento político que ajude a minar o velho mundo e esteja preparado para herdá-lo. Um período em que testemunhamos uma guinada conservadora geral, a instalação do medo devido a ameaças terroristas constantes – a ponto de um grupo de espanhóis confundir uma flashmob com um ataque e entrar em pânico – e as crises diversas – econômica, política, migratória, e, sobretudo da democracia que, depois de muito esforço para derrotar ditaduras, ainda precisa lutar diariamente por sua supremacia e para provar sua legitimidade, como apontam os autores. […]

O interregno em que estamos vivendo e o que acontece depois

“Como medir a relativa excelência do nosso estilo de vida? Em que aspectos, por quais critérios? E quem são os “nós” cuja vida queremos analisar? Entre os diferentes setores da sociedade nem o ritmo e nem as direções tomadas são coordenadas (pense no fabuloso crescimento da renda e da riqueza dos 1% que estão no topo da hierarquia social frente à estagnação ou mesmo piora do nível de vida dos restantes 99%, e a outrora confiante classe média se juntando ao ‘proletariado’ ortodoxo para formar uma nova categoria, do ‘precariado’ – notória pela posição social frágil e suas perspectivas indefinidas). No geral, podemos dizer que 15 anos depois da publicação de Modernidade Líquida, a nova era, ainda incipiente e pouco percebida em meio a 30 anos de orgia consumista, de gastar dinheiro não ganho e de viver o pouco tempo que resta em novos bairros já moribundos está chegando à sua total fruição: estamos vivendo à sombra de suas consequências.

E isso significa incerteza existencial, medo do futuro, uma perpétua ansiedade e uma sensação de urgência sem fim, com a primeira geração do pós-guerra sentindo a queda do nível de bem-estar social conseguido por seus pais e, na vida pública, a perda total de confiança na capacidade dos governos cumprirem suas promessas e o dever de proteger os direitos dos cidadãos e atender aos seus interesses. O fim desta confiança engendra, por outro lado, um ambiente em que ‘ninguém assume o controle’, em que os assuntos do estado e seus sujeitos estão em queda livre, e prever com alguma certeza que caminho seguir, sem falar em controlar o curso dos acontecimentos, transcende a capacidade humana individual e coletiva. O ‘interregno’ significa que velhas maneiras de agir não dão mais resultado, contudo, as novas ainda precisam ser encontradas ou inventadas. Ou: tudo pode acontecer, mas nada pode ser feito e visto com certeza”. […]

Sobre a virada conservadora do mundo

“A probabilidade dos fenômenos foi sugerida – na verdade, inferida – pelos sintomas que se acumulam da cada vez mais ampla separação, beirando o divórcio, do poder (ou seja, a capacidade de realizar as coisas) e da política (a capacidade de decidir quais coisas necessitam ser feitas). Essas duas condições indispensáveis para uma ação efetiva até mais ou menos 50 anos atrás caminhavam de mãos dadas no Estado-nação, mas se separaram e seguiram destinos diferentes: enquanto o poder em grande medida ficou ‘globalizado’ – e se tornou ‘extraterritorial’, livre de controles, direção e orientação por instituições políticas – a política permaneceu como antes, local, confinada ao território do Estado e impotente diante da influência importante dos poderes que não se submetem a controles e que são os que importam na escala global.

Hoje, os poderes emancipados do monitoramento e da supervisão política enfrentam políticos pé no chão e sofrendo o contínuo, e até agora incurável, déficit de poder. Vivemos uma crise institucional permanente. Os instrumentos de ação coletiva herdados dos nossos ancestrais e cujo fim foi servir à causa da independência de estados territorialmente soberanos não são mais adequados nesta situação de interdependência mundial criada pela globalização do poder”. […]

A ameaça que enfrentamos e a origem da crise

“Uma advertência: ‘crise de democracia’ é uma abreviação, uma noção limitada. Em países com constituições democráticas, a crise de um Estado-nação territorialmente confinado, é culpa (afirmação fácil, mas não muito competente) de seus órgãos e características definidos constitucionalmente, com a divisão de poderes, liberdade de expressão, equilíbrio de poderes, direitos das minorias, para citar alguns. Mas se a democracia está ‘em crise’ é porque o Estado-nação territorialmente soberano (concebido em 1648 pelo Tratado de Westfalia e cuja fórmula é cuius regio eius religio – os súditos obedecem ao governante) está em crise, incapaz de atacar e enfrentar, sem falar em solucionar, problemas gerados pela nova interdependência da humanidade.

Houvesse um governo autoritário ou ditatorial substituindo um regime democrático, os órgãos políticos resultantes não estariam livres da fragilidade dos órgãos de governos democráticos que ele substituiu e pela qual a democracia hoje é acusada. Quero acrescentar que o veredicto atribuído a Winston Churchill (“democracia é o pior dos sistemas políticos, à exceção de todos os outros”) continua verdadeiro até hoje. Para não dar confusão, acho que é aconselhável evitar atribuir responsabilidades pela impotência observada hoje dos Estados territorialmente soberanos e, em vez disso, analisar a incongruência fundamental do nosso tempo ansiando por uma revisão radical das ideias e uma reformulação das formas de coabitação da humanidade na Terra. Segundo Ulrich Beck, essa incongruência deriva do fato de que nós todos, gostemos ou não, já estamos inseridos numa situação cosmopolita, mas não nos preparamos seriamente para a tarefa extremamente urgente de desenvolver e assimilar a consciência cosmopolita”. […]

Sobre nossas utopias e a nossa capacidade de sonhar 

“Acho que uma mudança transcendental é provável. Ao sonharmos com uma sociedade mais acolhedora e uma vida decente e significativa, avançamos gradativamente da utopia (lugar ainda inexistente, mas à espera no futuro) para o que chamo de ‘retrotopia’ (‘volta ao passado’, ao modo de vida que foi exageradamente, irrefletidamente e imprudentemente abandonado). Trato disso no meu novo livro, Retrotopia, a ser publicado pela Polity Books em 2017. Podemos concluir que passado e futuro estão nesse quadro intercambiando suas respectivas virtudes e vícios. Agora é o futuro que parece ter chegado ao tempo de ser ridicularizado, sendo primeiro condenado pela falta de confiança e dificuldade de manejar e que está em débito. E agora o passado é o credor – um crédito merecido porque neste caso a escolha ainda é livre e o investimento é na esperança na qual ainda se acredita.

A esperança é mesmo imortal?

Procuro seguir o preceito de Antonio Gramsci: ser pessimista a curto prazo e otimista a longo prazo. Afinal, esta não é a primeira crise na história da humanidade. De alguma maneira, as pessoas encontraram meios para superá-las no passado. Eles podem (e é essa capacidade que nos torna humanos) repetir a façanha mais uma vez. A única preocupação é: quantas pessoas pagarão com suas vidas desperdiçadas e oportunidades perdidas até que isto ocorra?”.
Tradução de Terezinha Martino
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MUDAR É MUITO DIFÍCIL, MAS NÃO MUDAR É FATAL - Leandro Karnal

  
Independente da minha ação tudo muda.  Tudo muda a todo instante. Tudo muda.  É bom pensar nisso.  E tudo mudando eu posso ter duas opções: A mudança passa por mim ou a gerencio; ou eu faço ou ela fará por mim. Não importa, porque se eu ficar bem paradinho a mudança continua porque ela atinge até o que não tem consciência, como pedras e plantas. Esta é a mudança – precisa reconhecer isso – que pode ser um lema de vida. Mudar é difícil, não mudar é fatal. Mudar é muito difícil. Mudar hábitos, mudar relações, mudar propostas, mas não mudar é fatal.

Será que este ano você resolve aquele probleminha com o seu inglês?  Você vai resolver o fato de você ter problemas com o uso da crase?  Estude, faça exercícios, tente, mude. Não mudar é fatal. Usando o quadro de Matisse: Mudar, mudar-se. Mudar as coisas que nos cercam. Mudar e reinventar-se. Quem não se reinventa na amizade, no emprego ou no casamento esgota essa possibilidade rapidamente. A pessoa com quem se casou há vinte, dez, quinze, trinta anos não existe mais. Nem as células são as mesmas.  Infelizmente os neurônios são os mesmos, cada vez em menor quantidade. Mas as células se renovam constantemente.

A imagem da escultura americana Carlyle diz que o homem com consciência e ação está se esculpindo como a sua grande obra. Você se torna na sua própria obra, torna-se na pessoa que investe nisso. Este o momento de pensar nisso.  Fim de ano.  Há uma poesia de Antônio Machado, o espanhol – não o nosso Machado de Assis, mas o Machado espanhol – que é conhecida de todos: “Caminhante, são tuas pegadas o caminho e nada mais; caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar”.

O problema de eu comprar o livro A cabeça de Steve Jobs é que ele não leu esse livro para fazer o que fez. O problema de pedir conselho é que quem venceu não pediu conselhos. É a velha história de Mozart que, perto de morrer, recebe a carta de um menino de 15 anos, de Praga, que pergunta a ele como fazer uma ópera. E Mozart responde: “E muito cedo para você fazer isso”. O menino responde na terceira carta entre os dois: “O senhor fez a primeira com nove anos”.  E Mozart responda na quarta carta: “É verdade, mas eu não perguntei a ninguém como se fazia”.

Essa é a diferença. Ouvir conselhos de pessoas que não os praticam. Têm uns casamentos destroçados, mas elas dão conselhos. Ouçam todo mundo. Segundo Hamlet: “A todos, teu ouvido; a voz, a poucos; ouve opiniões, mas forma juízo próprio“. Em qualquer sentido. A todos ofereça o ouvido, ouçam o que as pessoas têm a dizer.  Nós estamos falando sempre delas. Façam isso. Tornem-se diferentes ou achem felicidade na repetição que também é possível.

Achem felicidade em ser comum. Achem felicidade na repetição do óbvio. Achem felicidade em fazer a felicidade de outro como minha avó que faz o menu do Natal há trinta anos, colocando os mesmos pratos nos mesmos lugares da mesa. Até o cheiro da casa é o mesmo. E ela era feliz assim. Achem a felicidade na repetição ou na renovação. E este é o momento, fim de ano, para fazer essa reflexão. A reflexão do quanto eu quero aprofundar, de que eu quero transformar o que está ao alcance da minha mão. Uma das coisas mais fascinantes da vida é isso.

Quando eu tinha dezoito anos, estava do meio para o fim da faculdade, em entrei muito cedo, eu fui fazer o primeiro estágio em sala de aula, na 5ª Série. Hoje não existe mais essa nomenclatura. Eu e uma colega vimos uma aula na 5ª Série. Eu saí de lá horrorizado. Eu disse: “Eu não quero isso, que horror. São uns demônios, eles gritam, estão possuídos por Satanás”. Aquilo era um horror. Eu saí de lá e disse para a minha colega: “Eu vou fazer tudo para acabar a minha faculdade, mas eu não quero dar aula para a 5ª Série”.  Acabei dando por algum tempo, mas eu queria escapar disso. Eu queria dar aula para adultos e não para crianças. Terminou a faculdade e eu me inscrevi para ser professor. Passados mais de 30 anos disso, esta mesma minha amiga estava dando aula para a 5ª Série.  Ela sempre disse que eu tive sorte.

Sorte é o nome que se dá para a pessoa que leva adiante o seu plano. Sorte é o nome que se dá a quem se empenha. Mas a minha sorte foi atravessar as madrugadas estudando. A minha sorte foi vir para São Paulo com uma mão na frente e outra atrás. A minha sorte foi um projeto longo, o custo do sacrifício em construir uma carreira. Essa foi a minha sorte que levei adiante.

Este é o momento para pensar na sorte ao invés de estar comendo lentilhas no Ano Novo. Não tem um pobre que não coma lentilhas. Rico não come lentilhas, é uma coisa fascinante. E o pobre continua comendo. No ano seguinte come de novo. Ao invés de investir na lentilha ou em alguma coisa assim, se preferir troque superstição por religião, mas pense num projeto para 2017, leve este projeto adiante. Nesse projeto faça tudo o que você possa fazer. O tempo linear é uma invenção nossa.  Mas como eu dizia antes, o tempo pode ser circular e, assim, pode ser um recomeço a qualquer instante, de qualquer ponto.

O tempo linear é uma invenção do Ocidente. E pode ser de fato, um Ano Novo. Pode ser, de fato, um novo momento. Basta uma ação de quem vai enfrentar o mundo. O mundo não vai querer,  vai nos obrigar a refazer a ação e insistir como tudo que é importante na vida tem que se insistir muito. Muitas vezes. A recompensa por essa escolha é a vida que vale a pena ser vivida.


Perguntaram-me uma vez, num debate sobre felicidade, se eu era feliz. Eu respondi que o único objetivo que posso ter, a única ideia que eu posso ter é que eu já fui infeliz e hoje eu sou feliz. É a comparação. Ninguém pode saber se de fato é feliz. Mas eu já fui infeliz. E hoje o ponto maior da minha felicidade é saber que ela depende de mim. Exclusivamente de mim. Então, esta é a vida válida para mim. Nem sempre é fácil. Algumas coisas eu estou querendo abrir mão porque não adiantou insistir, minha energia não foi suficiente. Mas aquela que foi possível se tornou numa vida válida.  
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A DIFÍCIL ARTE DE DIZER NÃO - Cláudia Penteado

“Desde que me cansei de procurar, aprendi a encontrar; Desde que o vento começou a soprar-me na face, velejo com todos os ventos.” (Nietzsche)

A semana passou dolorosa na região da cervical, abalando minhas estruturas – emocional e física. Uma cartela de antiinflamatório depois, ainda sinto dores principalmente ao me virar na cama ou tentar as habituais torções na aula de ioga. 

Há algumas semanas, tirando uns dias de férias, estive nas mãos de uma massoterapeuta que me alertou: sua cervical necessita de cuidados. 

Demanda cuidado permanente para acabar com aquelas dores de cabeça que eu não sabia de onde vinham e evitar consequencias mais sérias no futuro – seja lá o que isso quer dizer. Tudo fruto de uma rigidez que tomou conta dessa região castigada por anos diante do computador e toda sorte de experimentações corporais – das pesadas aulas de ginástica localizada à Ashtanga. 

Mas não é só isso: a cervical carrega quase tudo. A consciência e a inconsciência, as emoções, a culpa, o medo, a raiva, a frustração, a histeria, a inércia, o excesso de esforço. Carrega tudo o que nos vai pela cabeça e todas as preocupações de uma rotina diária – e de uma vida inteira.

Percebi que a dor se acentua quando viro o pescoço para os lados, tentando realizar o simples gesto de dizer não com a cabeça. Parece simples, mas dizer sim é muito mais fácil. O travamento no pescoço dificulta o não, tão difícil no dia a dia – e na vida.

Dizer não tem sido tema frequente no meu processo de autoconhecimento. É no mínimo curioso e simbólico que exatamente enquanto discuto a capacidade – e a necessidade vital – de dizer não na hora certa, a região responsável por comandar esse simples gesto se trave completamente.

O travamento marca o momento em que decido exercitar o Não.  Porque dizer não quando se quer dizer não – ainda que seja difícil – é manter a coerência em dia com o que se sente. Basta perceber como tudo muda na vida de uma criança no momento em que ela descobre que é capaz de dizer não. Liberdade!

Você já reparou como se diz o Sim – o gesto, em si? Dizer sim é abaixar a cabeça, repetindo o ancestral gestual dos rituais religiosos…uma espécie de servidão e conformismo. 

O gestual do Sim é submissão, uma entrega representada pela postura curva de quem consente. Em que momento da nossa história isso virou consenso – o gesto de dizer sim, o de dizer não, me atiça a curiosidade.

O fato é que dizer não depende da postura altiva e de um esforço extra que, no meu caso, está dolorido. A dor física irá passar, claro, mas o desafio que permanece é ajustar a trava interna – aquela espécie de Poliana que habita secretamente cada um de nós – e que privilegia o Sim no lugar do Não.

O VALOR DO TEMPO – Sêneca

Fico sempre surpreendido quando vejo algumas pessoas a exigir o tempo dos outros e a conseguir uma resposta tão servil. Ambos os lados têm em vista a razão pela qual o tempo é solicitado e nenhum encara o tempo em si - como se nada estivesse a ser pedido e nada a ser dado.

Estão a esbanjar o mais precioso bem da vida, sendo enganados por ser uma coisa intangível, não aberta à inspeção, e, portanto, considerada muito barata - de fato, quase sem qualquer valor.

As pessoas ficam encantadas por aceitar pensões e favores, pelos quais empenham o seu labor, apoio ou serviços. Mas ninguém percebe o valor do tempo; os homens usam-no descontraidamente como se nada custasse.

Mas se a morte ameaça estas mesmas pessoas, vê-las-ás a recorrer aos seus médicos; se estiverem com medo do castigo capital, as verá preparadas para gastarem tudo o que têm para se manterem vivas. Tão inconsistentes são nos seus sentimentos!

Mas se cada um de nós pudesse ter um vislumbre dos seus anos futuros, como podemos fazer em relação aos anos passados, como ficariam alarmados os que só podem ver com alguns anos de antecedência e como seriam cuidadosos a utilizá-los! E, no entanto, é fácil organizar uma quantidade, por pequena que seja daquilo que nos está garantido; temos de ser mais cautelosos a preservar o que cessará num ponto desconhecido.

Mas não deves pensar que tais pessoas não sabem como é precioso o tempo.

Dizem com regularidade àqueles de quem são particularmente chegados que estão dispostos a dar-lhe alguns dos seus anos. E dão-lhos sem estarem conscientes dele; mas a dádiva é tal que eles próprios perdem sem acrescentar nada aos outros. Mas o que de fato não sabem é que estão a perder; assim, podem suportar a perda do que não sabem que se foi.
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O MAIS INFALÍVEL VENENO É O TEMPO – Ralph Waldo Emerson

Tabaco, café, álcool, ácido prússico, estricnina — todos não passam de poções diluídas: o mais infalível veneno é o tempo. Essa taça, que a natureza nos põe nos lábios, possui uma propriedade maravilhosa que supera qualquer outra bebida. 

Ela abre os sentidos, adiciona poder e povoa-nos de sonhos exaltados, a que chamamos esperança, amor, ambição, ciência. Em particular, ela desperta o desejo por maiores doses de si. Mas aqueles que tomam as maiores doses ficam embriagados, perdem estatura, força, beleza e sentidos, e terminam em fantasia e delírio. 

Nós adiamos o nosso trabalho literário até que tenhamos maturidade e técnica para escrever, mas um dia descobrimos que o nosso talento literário não passava de uma efervescência juvenil que perdemos.
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VERDADE E MENTIRA – Cormac McCarthy

Sei que há imensas coisas na história de uma família que são pura fantasia. Qualquer família. As histórias vão passando de geração em geração e a verdade vai-se perdendo. Quem conta um conto acrescenta um ponto, como se costuma dizer.

Alguns talvez achem que isto significa que a verdade não consegue competir com a mentira. Mas eu cá não acredito nisso. Cá para mim, depois de todas as mentiras terem sido contadas e esquecidas, a verdade perdura ainda. Não anda a fugir de um lado para o outro e não muda com o passar do tempo.

É impossível corrompê-la, assim como é impossível salgar o sal. É impossível corrompê-la porque é pura, sem adornos. É a matéria de que são feitas as nossas palavras. Já ouvi compará-la à rocha - talvez a bíblia - e não discordo dessa ideia.

Mas a verdade permanecerá, mesmo quando a rocha tiver desaparecido. Tenho a certeza que certas pessoas discordam isto. Bastante, aliás. Mas nunca cheguei a perceber em que é que nenhuma delas acredita.
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A IMPORTÂNCIA DA LAVA-JATO - A oportunidade de desmontar o mecanismo de exploração da sociedade brasileira. - JOSÉ PADILHA

1) Na base do sistema político brasileiro, opera um mecanismo de exploração da sociedade por quadrilhas formadas por fornecedores do estado e grandes partidos políticos. (Em meu útimo artigo, intitulado Desobediência Civil, descrevi como este mecanismo exploratório opera. Adiante, me refiro a ele apenas como “o mecanismo”.)

2) O mecanismo opera em todas as esferas do setor público: no Legislativo, no Executivo, no governo federal, nos estados e nos municípios.

3) No Executivo, ele opera via superfaturamento de obras e de serviços prestados ao estado e às empresas estatais.

4) No Legislativo, ele opera via a formulação de legislações que dão vantagens indevidas a grupos empresariais dispostos a pagar por elas.

5) O mecanismo existe à revelia da ideologia.

6) O mecanismo viabilizou a eleição de todos os governos brasileiros desde a retomada das eleições diretas, sejam eles de esquerda ou de direita.

7) Foi o mecanismo quem elegeu o PMDB, o DEM, o PSDB e o PT. Foi o mecanismo quem elegeu José Sarney, Fernando Collor de Mello, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer.

8) No sistema político brasileiro, a ideologia está limitada pelo mecanismo: ela pode balizar políticas públicas, mas somente quando estas políticas não interferem com o funcionamento do mecanismo.

9) O mecanismo opera uma seleção: políticos que não aderem a ele têm poucos recursos para fazer campanhas eleitorais e raramente são eleitos.

10) A seleção operada pelo mecanismo é ética e moral: políticos que têm valores incompatíveis com a corrupção tendem a ser eliminados do sistema político brasileiro pelo mecanismo.

11) O mecanismo impõe uma barreira para a entrada de pessoas inteligentes e honestas na política nacional, posto que as pessoas inteligentes entendem como ele funciona e as pessoas honestas não o aceitam.

12) A maioria dos políticos brasileiros têm baixos padrões morais e éticos. (Não se sabe se isto decorre do mecanismo, ou se o mecanismo decorre disto. Sabe-se, todavia, que na vigência do mecanismo este sempre será o caso.)

13) A administração pública brasileira se constitui a partir de acordos relativos a repartição dos recursos desviados pelo mecanismo.

14) Um político que chega ao poder pode fazer mudanças administrativas no país, mas somente quando estas mudanças não colocam em xeque o funcionamento do mecanismo.

15) Um político honesto que porventura chegue ao poder e tente fazer mudanças administrativas e legais que vão contra o mecanismo terá contra ele a maioria dos membros da sua classe.

16) A eficiência e a transparência estão em contradição com o mecanismo.

17) Resulta daí que na vigência do mecanismo o Estado brasileiro jamais poderá ser eficiente no controle dos gastos públicos.

18) As políticas econômicas e as práticas administrativas que levam ao crescimento econômico sustentável são, portanto, incompatíveis com o mecanismo, que tende a gerar um estado cronicamente deficitário.

19) Embora o mecanismo não possa conviver com um Estado eficiente, ele também não pode deixar o Estado falir. Se o Estado falir o mecanismo morre.

20) A combinação destes dois fatores faz com que a economia brasileira tenha períodos de crescimento baixos, seguidos de crise fiscal, seguidos ajustes que visam conter os gastos públicos, seguidos de novos períodos de crescimento baixo, seguidos de nova crise fiscal...

21) Como as leis são feitas por congressistas corruptos, e os magistrados das cortes superiores são indicados por políticos eleitos pelo mecanismo, é natural que tanto a lei quanto os magistrados das instâncias superiores tendam a ser lenientes com a corrupção. (Pense no foro privilegiado. Pense no fato de que apesar de mais de 500 parlamentares terem sido investigados pelo STF desde 1998, a primeira condenação só tenha ocorrido em 2010.)

22) A operação Lava-Jato só foi possível por causa de uma conjunção improvável de fatores: um governo extremamente incompetente e fragilizado diante da derrocada econômica que causou, uma bobeada do parlamento que não percebeu que a legislação que operacionalizou a delação premiada era incompatível com o mecanismo, e o fato de que uma investigação potencialmente explosiva caiu nas mãos de uma equipe de investigadores, procuradores e de juízes rígida, competente e com bastante sorte.

23) Não é certo que a Lava-Jato vai promover o desmonte do mecanismo. As forças politicas e jurídicas contrárias são significativas.

24) O Brasil atual esta sendo administrado por um grupo de políticos especializados em operar o mecanismo, e que quer mantê-lo funcionando.

25) O desmonte definitivo do mecanismo é mais importante para o Brasil do que a estabilidade econômica de curto prazo.

26) Sem forte mobilização popular é improvável que a Lava-Jato promova o desmonte do mecanismo.



27) Se o desmonte do mecanismo não decorrer da Lava-Jato, os políticos vão alterar a lei, e o Brasil terá que conviver com o mecanismo por um longo tempo.
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AMOR - Frases Famosas

“Amar é sofrer. Para evitar sofrer, não devemos amar. Mas, dessa forma vamos sofrer por não amar. Então, amar é sofrer, não amar é sofrer, sofrer é sofrer. Ser feliz é amar, ser feliz, então, é sofrer, mas sofrer nos torna infelizes, então, para ser infeliz temos que amar, ou amar para sofrer, ou sofrer de tanta felicidade.”
Woody Allen – “A última noite de Boris Gruschenko.

“Não ser amado é falta de sorte, mas não amar é a própria infelicidade.”
Albert Camus

“Aquilo que provamos quando estamos apaixonados talvez seja o nosso estado normal. O amor mostra ao homem como é que ele deveria ser sempre.”
Anton Tchekhov

“O amor tem a virtude, não apenas de desnudar dois amantes um em face do outro, mas também cada um deles diante de si próprio.”
Cesare Pavese

“Lembra-te que quando um homem sai do quarto, deixa tudo o que aconteceu... e quando é uma mulher que sai, leva tudo com ela.”
Alice Munro

“O amor não é recíproco, é pessoal, nasce no mais íntimo da nossa identidade. Não é metade de nada, é um todo. Precisa do outro como fim, não como princípio.”
José Luís Nunes Martins

“Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada!”
Freud

“Tudo o que amamos profundamente converte-se em parte de nós mesmos.”
Helen Keller

“O amor não se manifesta no desejo de fazer amor com alguém, mas no desejo de partilhar o sono.”
Milan Kundera

“O amor não tem idade porque pode sempre renascer.”
Pascal

“Que o amor não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.”
Vinícius de Moraes
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SAUDADE – Mia Couto


Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu 
que longe de ti sou fraco
eu 
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono.

UM AMOR PARA ANDAR DE MÃOS DADAS - Ju Farias

Sem castelos, sem coroa, sem luxo. O amor que desejo não tem valor estimado, mas é simples, tão simples feito casinha de madeira no meio do mato, repleta de flores transbordando o jardim.

Não preciso de uma declaração de amor com rosas caindo de um helicóptero que voa alto lá no céu. Troco tudo isso por sua voz que diz um bom dia baixinho, preguiçoso, sem pressa. Não espero carro de som e nem você cantando na televisão. Mas não dispenso o seu cantar alegre no chuveiro durante aquele banho demorado de sábado.

Abro mão das noitadas caras por uma festa particular com você no meio da sala. Troco a viagem incalculável por um final de semana naquela pousada sem luxo, mas com um sol que bate na janela e nos acorda para a vida.

Quero ver você dançar sem motivo, de roupa desarrumada, de cabelo desgrenhado. Sem base, sem pó, sem batom. Você na sua beleza mais plena, que é quando lhe acho ainda mais bonita. Quero o brilho dos olhos ao ver você naquele vestido azul no casamento da sua melhor amiga.

Aquele que você insistiu para eu ir, pois queria mostrar para todo mundo como a gente combina. Quero poder dizer como você fica melhor perto de quem você ama. E agradecer em silêncio por poder fazer parte disso. E ser grato não só por isso, mas por todas as outras coisas que você me causa.

Como o arrepio louco que provoca no meu pescoço quando me beija daquele jeito. E de como minha boca retribui involuntariamente seu toque. E a gente faz amor como nunca fez um dia e todo dia faz igual.

Adoro quando você coloca a mão na minha perna enquanto dirijo. E como reclama do sinal vermelho e de como me atraso sempre para tudo, até quando chego na hora. Gosto de como você segura o garfo, de como retorce a sobrancelha direita quando lê aquela notícia triste. E de como chora quando percebe que não vai mudar o mundo.

Gosto de como você é tudo aquilo que sempre esperei, e de como mudou o fato de que nunca acreditei que a encontraria. Adoro quando pega minha mão no meio da noite e como busca meus pés tateando a cama com os dedinhos dobrados.

Não preciso que você tenha dois diplomas, nem mestrados, nem doutorados, nem coisa nenhuma. É na faculdade da felicidade que busco meu amor. E esse amor não precisa ter o armário cheio de roupas de marca ou viver plantado no salão de beleza querendo mudar a cor de tudo.

Quero a simplicidade da olheira depois de um dia pesado, dos pés jogados no sofá quando a preguiça fizer sala e da torrada com ovo se não tivermos tempo para fazer o mercado. Nada é tão importante como o jeito que você me olha ou a forma como meu olhar a busca só para ter certeza de que nada disso é um sonho.

Não quero amor de revistinha de novela, nada disso. Quero alguém que tenha mil defeitos, mas que conheça todos eles. E que me permita ressaltar suas qualidades só para lhe arrancar o sorriso mais bonito do dia inteiro.

Quero um amor sem luxos, mas cheio de brilho. Desejo um amor sem carro conversível, mas com pés dispostos a desbravar a vida. Que seja sereno, mas não morno. Que seja de delicadezas diárias, pequeninas, sem solenidade na hora da gentileza.

Quero andar de mãos dadas no parque sem medo de quem vai esbarrar na gente. Quero sua cabeça em meu colo, sua perna na minha canela, seu braço enroscado no meu pescoço. Quero sua versão mais singela e a mais quente também. Quero tudo que o que você é de verdade, do zero ao dez. Do dez ao mil. Do mil ao infinito.

Não precisa vir no cavalo branco, no disco voador ou agarrada na ponta da lua. Venha de pés descalços mesmo, sem grilos, sem gritos, sem caos. Chegue cantando sua música preferida, aquela que faz você dançar.

Juro acompanhar a rima, a dança, o ritmo. Juro encostar meu rosto no seu bem na hora em que a canção fizer você fechar os olhos. Juro cantar baixinho aquela parte que mais gosta. E juro não perder a graça quando beijar você durante o refrão mais bonito.

Venha pronta para amar, mas mais ainda para ser amada. Chegue querendo ver as estrelas, pois não espere nada menos do que o céu como cenário para nosso melhor encontro. Venha feito semente querendo brotar no meu jardim.

Venha inteira, seja plena e me queira sem fim.
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