LIBERDADE DE EXPRESSÃO NÃO TORNA SUAS OPINIÕES FEIAS MENOS FEIAS - Lara Vascouto

Liberdade de expressão não embeleza 
suas opiniões, não, campeão.

Indivíduo fala algo ofensivo e discriminatório contra um determinado grupo. Pessoas reagem indignadas. Indivíduo se sente imediatamente vitimado.

“Que isso, só tô falando minha opinião! Vocês estão atentando contra a minha liberdade de expressão!”

Essa se tornou uma dinâmica típica de discussões atualmente. Já há um bom tempo a pobre da liberdade de expressão está sendo usada indevidamente para defender “opiniões” ofensivas e discriminatórias de todo tipo, sejam elas misóginas, racistas, homofóbicas, transfóbicas, xenofóbicas, ou o que quer que seja.

É como se, de uns tempos pra cá, todos os cretinos do mundo tivessem descoberto que o direito a liberdade de expressão confere a eles uma espécie de passe livre para comportamentos, piadas e comentários que indiretamente (ou não) promovem a intolerância, a violência, o medo, a intimidação, o ódio e a opressão.

Liberdade de expressão é importante, sim. Não me entenda mal. Sem ela uma democracia simplesmente não funciona.

A questão é que até ela tem limites, e como todas as outras formas de liberdade, a sua acaba onde começa a do outro. É justamente porque nós vivemos em sociedade e a liberdade de todos os indivíduos deve ser respeitada, que todos (mesmo os cretinos) devem aceitar e entender que não dá para sair por aí falando o que bem entender. Isso vale tanto para discurso de ódio – que a lei brasileira proíbe e pune, levantando o dedo do meio bem na fuça da liberdade de expressão – como para falas, práticas e comportamentos cotidianos.

Toda a nossa existência é constantemente regida por pequenas regras sociais que limitam nossas ações e comportamentos de acordo com a situação, contexto ou mesmo local onde nos encontramos. Todo mundo concorda em adequar o próprio comportamento ao local de trabalho, por exemplo. Da mesma forma, ninguém chega em um funeral questionando o valor da vida e obra do falecido.

Mas basta o bom senso, o respeito e a civilidade se meterem na frente de alguém que quer muito disseminar discórdia (ou que não quer perder a chance de fazer uma piada sem graça, imagine só!), para o indivíduo ficar revoltado e puxar do rabo um tratado sobre como está sendo vítima de censura. Isso me deixa realmente confusa. Como é possível a pessoa que ofendeu achar que tem razão ao se sentir ofendida quando o grupo que foi ofendido em primeiro lugar reclama? Como isso faz sentido?

Agora, discurso de ódio contra uma determinada raça, religião, etnia ou procedência nacional já é passível de punição pela legislação brasileira, e existe projeto de lei para incluir aí orientação sexual, gênero e identidade de gênero. Mas existem milhares de outras situações que caem em uma área cinza e dependem da sensibilidade e do bom senso das pessoas. E é aí que a coisa descamba, porque se tem uma coisa que muita gente não gosta de fazer é praticar o bom senso.

Sem falta, alguém sempre vai falar alguma asneira que por pouco não se encaixa na definição de discurso de ódio. O problema é que ao invés de tentar entender por que milhares de pessoas indignadas estão se sentindo tão ofendidas (e pedir desculpas – HAHAHA, essa foi boa, eu sei), essa pessoa vai logo começar a gritar LIBERDADE DE EXPRESSÃO tão alto que soldados lá na Coréia do Norte vão pular da cadeira e prender o primeiro pobre coitado que passar pela frente.

Se você é uma dessas pessoas, pode ficar tranquilo, porque você meio que tem razão. Com exceção do que é realmente discurso de ódio, a liberdade de expressão te dá mesmo o direito de falar a babaquice que quiser. Não tenho como impedi-lo. Mas nada me impede também de apontar o quão babacas são as suas opiniões – ainda mais se o único argumento que você consegue pensar para justificá-las é o fato de poder dizê-las em voz alta sem ser preso.

Porque, sabe… Você tem o seu direito a liberdade de expressão. Mas eu também tenho o meu.
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O Leblon pré-novelas do Manuel Carlos. Contos e crônicas 
onde somos levados a refletir sobre racismo, preconceito, solidão, amizade, descobertas e experiências de criança, de adolescente e, por fim, de um jovem adulto. A relação com cotidiano do bairro. 
Clipper, Pizzaria Guanabara, BB Lanches, Jobi, Bracarense e outros lugares típicos do Leblon são os palcos dessas histórias.

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Edmir Saint-Clair


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