O MACHISMO É O MAIOR INIMIGO DO HOMEM – Flávio Gikovate

tese da superioridade masculina esteve em vigor ao longo dos séculos e só passou a enfrentar resistência feroz e crescente a partir do século XX.

Além de fisicamente mais fortes, os homens sempre se acharam mais inteligentes, criativos e portadores de maior bom senso. Isso lhes dava o direito de mando sobre toda a família. Sentiam-se muito confortáveis para rebaixar e humilhar suas esposas. Atribuíam a si uma liberdade social e sexual proibida para elas.

Tais direitos implicavam também em deveres: tinham que ser os protetores e provedores de suas famílias. Deveriam cuidar da castidade de suas filhas e de afastar outros homens de suas esposas. Tinham que protegê-las contra ladrões e aventureiros. Para ganhar o pão se sacrificavam muito e sua honra dependia dos bons resultados, o que sempre onerou emocional e fisicamente os homens – que vivem, em média, 7 anos a menos que as mulheres.

Acontece que o rol das obrigações masculinas só tem crescido ao mesmo tempo que os direitos especiais estão desaparecendo. Vou dar apenas alguns exemplos:

1. Eles sentem que tem que estar sempre disponíveis sexualmente para suas esposas – e também para as outras mulheres (no passado elas não manifestavam claramente seus desejos, de modo que tal pressão não existia);

2. Qualquer fracasso nessa área arruína a autoestima deles, sendo que este evento se torna cada vez mais comum (até porque as mulheres agem de forma mais direta e intimidante);

3. Devem tentar abordar sexualmente todas as mulheres disponíveis (que agora são muitas) sob pena de serem objeto de chacota dos amigos;

4. Não podem se recusar sexualmente em casa e muito menos na rua;

5. Têm que ser competentes para conduzi-las ao orgasmo (preocupação que inexistia em homens e mulheres até há poucas décadas);

6. Têm que estar à altura das expectativas eróticas delas, o que implica inclusive em um maior cuidado com o próprio corpo (elas agora são as que os julgam também como machos).

A lista poderia ser maior. É fato que as mulheres também estão sendo muito mais exigidas do que antes.

Os homens deveriam mesmo é aproveitar o momento, rico em mudanças, para melhorar sua condição e não para se afundar ainda mais em deveres.

O lema da emancipação masculina deveria ser: “Abaixo o machismo!”.

ACALANTO – W. H. Auden (Bilíngue)


ACALANTO 

Pousa, amor, a cabeça sonolenta,
Humana sobre o meu braço inconstante;
A beleza das crianças pensativas
Tempo e febres consomem lentamente
E cabe à tumba mostrar quão efêmeras
Essas mesmas crianças vêm a ser:
Mas que em meu braço, até que nasça o dia,
Possa repousar a viva criatura,
Mortal e culpada, e, no entanto, para
Mim a coisa mais bela de se ver.

Nem a alma nem o corpo têm amarras:
Para os amantes, quando eles se deitam
No seu declive indulgente e encantado,
Tomados da languidez costumeira,
Intensa é a visão que Vênus manda
De uma simpatia sobrenatural,
De esperança e amor generalizado;
Enquanto uma abstrata intuição desperta,
No meio das geleiras e das pedras,
Do eremita o êxtase carnal.

Certeza e fidelidade se estiolam
Quando bate meia-noite o relógio
Como se fossem vibrações de um sino,
E lançam seu pedante palavrório,
Aos gritos, os delirantes em voga:
Os últimos centavos a pagar
– Assim o prevê o baralho mofino –
Serão saldados; porém, desta noite,
Que não se perca nenhum pensamento,
Nenhum suspiro, nenhum beijo ou olhar
A beleza, a meia-noite e a visão morrem:
Deixa os ventos do amanhecer, que sopram
Suaves em tua sonhadora cabeça,
Exibirem um dia de tal forma
Propício que o olho e o coração o saúdem,
Satisfeitos com o mundo mortal;
Quer a secura meridiana te veja
Nutrida pela força involuntária
E permita-te ir a noite adversária
Guardada pelo amor universal.
_________

LULLABY

 Lay your sleeping head, my love,
Human on my faithless arm;
Time and fevers burn away
Individual beauty from
Thoughtful children, and the grave
Proves the child ephemeral:
But in my arms till break of day
Let the living creature lie,
Mortal, guilty, but to me
The entirely beautiful.

Soul and body have no bounds:
To lovers as they lie upon
Her tolerant enchanted slope
In their ordinary swoon,
Grave the vision Venus sends
Of supernatural sympathy,
Universal love and hope;
While an abstract insight wakes
Among the glaciers and the rocks
The hermit’s carnal ecstasy.

Certainty, fidelity
On the stroke of midnight pass
Like vibrations of a bell
And fashionable madmen raise
Their pedantic boring cry:
Every farthing of the cost,
All the dreaded cards foretell,
Shall be paid, but from this night
Not a whisper, not a thought,
Not a kiss nor look be lost.
Beauty, midnight, vision dies:
Let the winds of dawn that blow
Softly round your dreaming head
Such a day of welcome show
Eye and knocking heart may bless,
Find the mortal world enough;
Noons of dryness find you fed
By the involuntary powers,
Nights of insult let you pass
Watched by every human love.

- W. H. Auden, no livro "Poemas – W. H. Auden". [seleção João Moura Jr.; tradução e introdução José Paulo Paes, João Moura Jr.; ensaio Joseph Brodsky]. Edição bilíngue. 1ª ed., São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

PESQUISA: HÁ PESSOAS QUE, POR SEU CRONOTIPO, NUNCA DEVEM LEVANTAR CEDO.

O cronotipo reflete o horário do dia em que o indivíduo preferencialmente encontra-se mais disposto à realizar diversas tarefas.

Há pessoas que, antes de o sol nascer, tomam o café da manhã, limpam a casa e organizam a sua agenda. No entanto, para a maioria das pessoas, sair da cama com os primeiros raios do sol é um sacrifício. Na verdade, algumas pessoas são exatamente o oposto: eles são muito mais eficientes e produtivos durante a noite.

Os genes determinam as enzimas de síntese, os quais, por sua vez, aceleram ou desaceleram as reações químicas no interior das células do hipotálamo. Estas reações químicas são reciclados e determinam o período do nosso “relógio interno”. Mas, lembre-se, dia e noite ajustam-se continuamente a velocidade do ciclo. Outro fator poderoso é a sociedade que dita padrões de horários de trabalho, determina quando a pessoa deve ser produtiva, mas isso é um processo biológico polar de grupos de indivíduos. Todos os empresários, industriários, banqueiros e etc deveriam ler esta pesquisa e começarem a fazer estudo do cronotipo de seus funcionários e fazer a escala de trabalho de acordo com os horários de melhor produção de cada grupo.

Você é uma cotovia ou uma coruja?

Os cientistas criaram dois grupos opostos: os cotovias, que acordam cedo e tiram o máximo proveito de manhã e os corujas da noite, que aumentam o seu desempenho ao longo do dia e têm explosões de energias exclusivas à noite. Mas agora um estudo realizado no Instituto de Pesquisa de Biologia Molecular e Biofísica da Academia de Ciências da Rússia revelou que, na realidade, há muito mais por trás desses chronotypes e que certas pessoas nunca devem cedo.

Para biólogo Arkady Putilov e seus colegas da Academia Russa de Ciências pediu 130 pessoas para não dormirem por 24 horas seguidas. Os sujeitos indicariam por meio de um questionário, como eles se sentiram após tantas horas sem dormir e como foi o desempenho de suas atividades durante a experiência.

Assim, eles descobriram que há pessoas que passam o dia todo com baixo consumo de energia, são os categorizados como “letárgicos”, enquanto outros ficam ativos apesar da privação do sono e, independentemente da hora em que eles acordaram, estes foram chamados de “enérgicos”.

Estas pesquisas indicam que para as pessoas letárgicas – com menos energia  – seria desastroso para elas serem obrigadas a se levantarem cedo, mas elas podem ser muito produtivas à noite. É provável que seu problema é porque o seu ritmo circadiano não é bem sincronizado com o ciclo natural de luz e escuridão. Basicamente, a luz solar é uma espécie de relógio natural que estimula o nosso corpo a produzir melatonina, o hormônio que provoca sono e algumas pessoas são exclusivamente produzem melatonina com mais velocidade e assim ficam com sono durante o dia mesmo que tenham dormido a noite inteira.

As pessoas energéticas atingem picos de atividade ao meio-dia. A luz solar, quando mais intensa, mais se sentem energizadas. No entanto, à noite essas pessoas não seriam produtivas,  seu desempenho é aumentando lentamente ao longo do dia e diminui no final da tarde. O que muitos chamam de “melancolia do entardecer” é por causa disso.

Estas diferenças são devido, entre outros fatores, ao nosso DNA. De acordo com uma pesquisa realizada no Centro Nacional de Neurologia e Psiquiatria, em Tóquio, o gene PER-3, um dos genes do nosso relógio biológico, determina a propensão a subir mais tarde ou mais cedo, assim como o nosso nível de energia durante todo do dia e/ou à noite.

Os chamado “corujas” depois de 24 horas acordados, eles ainda sentem que seu “dia doméstico” não terminou, então eles estão dispostos a trabalhar mais tempo e ir para a cama mais tarde. “Cotovias”, por outro lado, alcançam seu “dia doméstico” antes do final astronômico, mas porque eles são propensos a uma atividade mais cedo. Podem acordar, por exemplo, às 5 da manhã e sentirão bem dispostos até o final da tarde.

Geralmente o cronotipo de cada pessoa é colocado ao nível genético. Por exemplo, os cientistas descobriram um gene que faz com que a pessoa tenha o ritmo de sono perturbado. Isto já é conhecida como DSPD (Delayed Disorder Sleep Phase) que afeta cerca de 3 pessoas em cada 2000.

Mas se o seu cronotipo não se encaixa em cotovia e nem  coruja?

Muitas pessoas não podem ser atribuídas aos cronotipos de “corujas” ou  “cotovia”. Para eles, outro cronotipo fornecido.

Um terceiro cronotipo é chamado de “Pombas” – aqueles que facilmente reorganizam o ritmo da vida em quaisquer circunstâncias. Este grupo de pessoas ainda está em estudos.

Você deve conhecer e adaptar o seu estilo de vida para o seu cronotipo

Conhecer o seu cronotipo lhe permitirá trabalhar seguindo o seu ritmo circadiano natural, que não só afeta sua produtividade, mas também o seu humor e sua saúde. Na verdade, tem sido mostrado que quando um ritmo circadiano é incompatível com o ritmo de atividade da pessoa, ela fica mais propensa a obesidade, diabetes e alguns tipos de câncer. Além disso, se a você estudar o seu cronotipo e adaptar seus horários de atividades ao seu ritmo circadiano, resultará positivamente no seu estado de espirito e sua saúde mental e emocional.

Na verdade, o ritmo circadiano é tão importante que os médicos do Hospital Paul Brousse, em Paris afirmaram que a quimioterapia deve ser aplicada em conformidade com este ciclo, pois é sabido que as células de certos tipos de linfoma tendem a dividir mais entre 9 e 22:00. Pelo contrário, as células intestinais tendem a fazê-lo às 7 da manhã e medula óssea ao meio-dia. Portanto, se a quimioterapia é aplicada no momento, seria mais eficaz e menos tóxico.
Publicado originalmente por Julia Ruzmanova – Tradução e livre adaptação de Portal Raízes

NOSSA TOCANTE PRECARIEDADE - Ivan Martins

É bonito perceber que precisamos 
de gente frágil como nós

Eu desisti da simplicidade das pessoas. Faz algum tempo, percebi que não há gente serena e bem resolvida. Não neste mundo. Somos, na verdade, uma massa confusa e dolorosa de emoções em busca de expressão e equilíbrio. Permanentemente. A paz que a gente exibe ou que nos mostram é pouco mais que uma fachada. Ela não dura e não resiste. Por baixo da superfície calma há um mar turbulento, em cada um de nós.

É isso que torna tão difícil viver com os outros, e tão desesperadamente necessário.

Sozinhos, nos perdemos nas nossas dores e angústias, sufocamos nos nossos medos. O outro oferece referência, prumo, consolo. Feito da mesma carne confusa e latejante, ele está fora de nós. Não nos enxerga exatamente. Intui, mas não sabe o que nos habita. E isso é bom. Escolhemos contar a ele, mas não tudo. Dizer tudo é impossível. Nem sabemos. Mesmo assim, ele recebe a nossa confusão na dele. Consola a nossa dor com a dor dele. Mistura sua confusão na nossa. Assim formamos um casal.

Não é assim que aparece nos filmes, mas essa enfermaria com dois doentes me parece, cada vez mais, uma justa definição do amor.

Às vezes, temos a impressão de ser malucos num mundo de pessoas perfeitamente racionais. Dentro de mim mora um tumulto, mas ele e ela são calmos e bem resolvidos. Mentira. A confusão é coletiva. O tumulto é universal. O mundo organizado ao nosso redor, com faróis que abrem e fecham, com filas que andam e catracas que giram, é apenas uma tentativa desesperada – e bem sucedida – de nos cercar de ordem e racionalidade. Na natureza original não tinha isso. Na nossa natureza humana também não.

Quando se ama alguém, quando se transpõe a distância imensa que separa um ser humano do outro, a gente começa a perceber que a nossa precariedade também está no outro, que a nossa ansiedade também vive nele, que a angústia que nos consome tem par na angústia dele. É uma tremenda lição de humanidade. Depois dela, o nosso amor se mistura com pena, mas não dele. De nós mesmos, de todos que somos assim frágeis e perdidos, que precisamos tanto do outro.

Se a gente assume que o outro é tão complicado quanto nós, as coisas não ficam mais fáceis, mas tornam-se mais densas e mais bonitas.
Em vez de acordar num comercial de margarina, onde tudo é perfeito mas nada é verdadeiro, a gente desperta enroscado num ser humano que teve sonhos terríveis e acordou assustado. De noite, a gente vai encontrar uma pessoa que está profundamente frustrada porque não sabe lidar com a agressividade da colega de trabalho. Quando ele fala com a mãe dele, quando ela fala com o pai dela ao telefone, fica triste invés de feliz. Acontece. As relações familiares de verdade são uma droga. É por isso que você está lá, para abraçar sua metade.

Esse é o momento em que a pessoa deixa de ser a personagem de uma história para os amigos e passa a ser um ser humano real, que ocupa a sua intimidade, com capacidade de alegrar e arrebentar com a sua vida.
Mas chegar a isso exige relacionamentos de verdade. É preciso ter confiança, milhagem, experiências comuns. Não adianta gostar de longe, não adianta transar de vez em quando. Não se entra no mundo dos outros apenas batendo na porta. Tem de estar lá quando chove e quando faz sol. Tem de estar lá. Ponto.

Muitos preferem não se envolver. Acham melhor ficar na superfície dos casos, onde todo mundo é simples, perfeito, bacana. Onde só há novidades e nenhum problema. É legal, mas também tem preço. Se despertar angustiada, uma pessoa assim vai estar sozinha – mesmo que durma alguém ao lado dela. Alguém que ela não pode chamar, abraçar, em quem não pode confiar.

Alguém que, na verdade, já deveria estar dentro de um táxi há duas horas.

O ARQUÉTIPO DO ETERNO ADOLESCENTE - Sérgio Alves

Quem não conhece alguém, ou até mesmo depois dessa leitura se identifique, com o arquétipo do adulto que se comporta igual a um adolescente? Esse comportamento não se restringe a visão de que se deve encarar a vida com regalias e humores desmedidos, ele vai aos confins do desapego afetivo, da desordem financeira, profissional e moral. Conhecido como Puer Aeternus, expressão Latina para Eterno Adolescente, esse comportamento traz grandes atrasos e impedimentos no desenvolvimento do sujeito.

A RELAÇÃO COM O MEIO SOCIAL

O Puer é praticamente um antisocial. Ele se vê na condição de gênio, de inatingível, de intelectual poderoso o qual ninguém está à altura de compreendê-lo. Isso faz com que se isole e por outro lado, as pessoas tendem a ignorar atitudes que se mesclam com a arrogância. Quando fala, se percebe os conflitos e revoltas que interagem no seu interior, quanto a esses sentimentos, vamos tentar convergir para uma única fonte causadora mais adiante.

A ESCOLHA DA PROFISSÃO DO PUER AETERNUS

No contexto profissional ele também sofre, e muito. Quando trabalha, é com dificuldade de adaptação e baixo rendimento, a preguiça é parte da sua sombra, reclamando sempre que não nasceu pra se submeter a nenhum chefe e que se contentaria em viver apenas com o mínimo desde que não precisasse trabalhar. A escolha da profissão é sempre um apoio para o seu comportamento. Uma das profissões que mais escolhem e a de aviador — que os mantém no mundo das nuvens e sem o contato com a terra que lembra a difícil realidade concreta — ou alpinistas — também ligados à extrema liberdade. Nota-se que a morte prematura é uma derivada das escolhas profissionais do Puer.

 A FUGA DO CASAMENTO

A vida afetiva do Puer é carregada de infortúnios causados por ele mesmo. Em busca da perfeição que lembra a figura da mãe, ele busca em várias mulheres a sua satisfação. Porém, isso é algo muito difícil para ele sabendo que um relacionamento afetivo demanda responsabilidade, cuidado e apego. Tem sempre um cabelo na sopa, tem sempre um mas… que o impede de se aprofundar num relacionamento e em vão ele faz novas tentativas pois ao descobrir que as mulheres são seres errantes, desiste e não raro volta para a Grande-Mãe. Esta tem grande envolvimento nesse comportamento do Puer, geralmente é uma mãe dominadora, uma cruel devoradora que o mantém num cativeiro afetivo em nome da proteção, assim, o Puer é incapaz de andar com as próprias pernas, daí o fato de ser ausente em todos os aspectos da vida adulta e sem responsabilidades inclusive consigo próprio.

UM DOS MAIS CONHECIDOS PUER AETERNUS

Assim foi com o criador do “Pequeno Príncipe” Saint Exupéry. Um homem que se recusou a viver a vida adulta e fez do personagem suas projeções. Era aviador, teve alguns relacionamentos conjugais infrutíferos e uma mãe devoradora. Construiu o personagem que vem de outro planeta, que abandona uma rosa e deseja que seu último contato na terra seja com a morte. Seu pedido é atendido pela cobra que o morde após dar a garantia de que o principezinho estaria voltando para a Grande-Mãe. Saint Exupéry teve uma morte prematura num acidente de avião e morreu aos 44 anos. Também não raro encontramos pessoas que fazem desse livro sua bíblia, o que ocorre nestes casos é a identificação inconsciente com o personagem do pequeno com vestes de Napoleão.

O TRATAMENTO NA CLÍNICA

Para tratar do Puer na terapia, Jung — e ele próprio chegou a desconfiar do prognóstico ao ver que era extremamente simples — propôs que o melhor tratamento neste caso é o trabalho, através deste contato o sujeito tenderá a assumir as responsabilidades que o levarão a se desenvolver no mundo adulto, criando laços e trazendo segurança — item indispensável na remodelação desse Sujeito. É necessário que haja perseverança em algo que lhe traga independência e auto-aceitação, incorporando o sujeito adulto à sua consciência.
 Referências: Puer Aeternus – A Luta do Adulto contra o Paraíso da Criança de Marie-Louise Von Franz

FILOSOFIA E PSICOLOGIA: AS RAÍZES - Gustavo Alves Pereira de Assis

Filosofia e Psicologia não raras vezes percorrem um caminho semelhante, mesmo que com métodos diferentes, mas sempre em busca da compreensão do ser humano. Faz-se necessário distinguir ambas sem perder a essência que é Una, conforme o pensamento de Plotino.

A filosofia como uma esfera do conhecimento busca compreender o ser humano e o mundo que o integra. A história da filosofia ocidental está dividida cronologicamente pelo período cosmológico, antropocêntrico, teológico e novamente antropocêntrico, sempre buscando em seu cerne um fascínio pelos mistérios da vida. Constitui-se, portanto de um valioso conhecimento teórico a ser aplicado na prática humana como ferramenta para a transcendência de um ser autêntico.

A palavra psicologia vem do grego antigo psyché (alma, mente) e logia (estudo, razão) que etimologicamente significa o estudo da alma ou da mente. Atualmente entende-se por psicologia o estudo do comportamento humano e animal e os processos mentais ou cognitivos, sendo esta uma definição simplista, mas adequada ao contexto. Inicialmente pode-se entender a psicologia como uma ponte entre a filosofia e a fisiologia, que ao longo de sua história evoluiu, surgindo várias áreas e abordagens, podendo-se dizer que existe psicologias, no plural, um campo de conhecimento cientifico que busca como objetivo primordial a saúde como definida pela Organização Mundial de Saúde ( OMS, 1946 ) como um ”estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na ausência de doença ou enfermidade”. Sendo assim, espera-se das psicologias uma visão integrada do ser humano como um ser biopsicossocial.

Todas as ciências evoluíram da filosofia, sendo usual chama-la de “mãe de todas as ciências”; aplicando métodos e técnicas estritamente cientificas á problemas e questões humanas, chegam-se ao conceito amplo e crítico de ciência. As psicologias existentes receberam várias influências e dentre elas a da filosofia, como busca á sabedoria. É preciso voltar ás raízes, á gênese, aos primórdios do que chamamos de psicologia.

Segundo Bock, Furtado e Teixeira (1999) é entre os filósofos gregos que surge a primeira tentativa de sistematizar a psicologia como o estudo da alma, começando pelos filósofos pré-socráticos que estudaram o homem em relação ao mundo segundo a percepção, e mais adiante com Sócrates passa-se a estudar a razão(consciência); com Platão haverá uma divisão humana ente corpo e alma, atribuindo características distintas a estas, e já Aristóteles postulava o corpo e a alma como integrados e não separados. Santo Agostinho apoiado em Platão como São Tomás de Aquino apoiado em Aristóteles, ambos filósofos e teólogos, irão em suas teorias cristianizar as principais ideias platônicas e aristotélicas. E respectivamente, a maioria das demais escolas filosóficas  irão influenciar o surgimento da psicologia como ciência, iniciada por Wundt na Alemanha.

Voltar ás raízes significa revistar o caminho feito pela psicologia e perceber uma presença filosófica neste trajeto. Algumas áreas da ciência psicológica distanciam da filosofia, enquanto outras a reconhecem como conhecimento essencial e a incorpora em suas teorias. É necessário ressaltar que a filosofia e a psicologia são campos teóricos e práticos distintos, embora possuam semelhanças que as levam ao conceito de Unidade, elemento essencial á existência humana. A filosofia prática, uma área bastante comum nos territórios norte americanos, busca levar o conhecimento filosófico ao cotidiano das pessoas nas diversas áreas da vida, como a filosofia clinica que pretende levar o cliente através do aconselhamento á uma vida harmônica e genuína.  Portanto, constitui-se um método diferenciado da psicologia, que é cientifica.

Ser filósofo e ser psicólogo são atuações diferentes. Ser filósofo é percorrer um caminho desconhecido na busca da Sabedoria, da Integração que existe na vida humana, é mergulhar dentro de si mesmo espantando-se com os abismos encontrados e procurando um sentido moral para a existência. Ser psicólogo é trabalhar em si mesmo para trabalhar o outro, é ver-se limitado, ver-se humano, mas com potência a ser explorada e transformar em ação, é utilizar-se de um conhecimento cientifico para proporcionar bem-estar ás pessoas. Filosofia e psicologia, campos inacabados, em constante evolução, fazem-se necessária para a compreensão do que é mais sutil em nós, a condição de Ser Humano.

A MARCA DO ABANDONO DE UM PAI

A marca que o abandono do pai cria em um filho provoca um vazio emocional de grandes dimensões. Este enorme buraco acaba isolando, deprimindo e propiciando a desestruturação emocional da nossa realidade pessoal em todos os níveis.

Graças a décadas de pesquisas sobre o apego, sabemos que os vínculos afetivos saudáveis garantem o desenvolvimento de uma vida plena na qual reinarão os relacionamentos sadios, a autoestima saudável e a segurança e a confiança dos outros. Por outro lado, o apego inseguro conduz à insegurança, à baixa autoestima e à desconfiança nas pessoas que nos rodeiam.

Um vínculo afetivo negativo entre pais e filhos gera comportamentos destrutivos e uma enorme angústia. Portanto, realizar um exercício de introspecção e de posterior distanciamento sobre este fato nos ajudará a compreendê-lo e elaborá-lo para garantir uma maior libertação emocional e estruturação da nossa personalidade (isto é, do nosso jeito de nos comportarmos com nós mesmos e com o entorno).

Por isso, neste artigo, vamos procurar esclarecer isto para realinhar nossa realidade emocional.

A dificuldade de definir um pai e a relação de abandono

Atualmente falamos dos relacionamentos familiares com mais facilidade do que antigamente. Contudo, quando tivemos que lidar com a figura de um pai ausente que, além disso, abandonou o lar familiar pelo motivo que fosse, precisamos lidar com uma definição do indescritível.

Assim, nestes casos, quando perguntam para alguém sobre o seu pai talvez a pessoa titubeie, abaixe o olhar e responda de forma difusa e evasiva. Isto deixa claro a dificuldade que possui para definir o vazio sentimental e administrar as cicatrizes que o abandono provoca.

Com relação a isto, é preciso destacar que existem muitos tipos de abandono. De fato, poderíamos falar de tantos tipos quanto casos que existem no mundo. Entre os mais comuns estão:

O pai ausente emocionalmente, mas presente de forma física. Se examinarmos a realidade socioambiental ao nosso redor, entenderemos que esta forma de criação tem sido muito comum ao longo dos anos.

O pai que nos abandonou antes, durante ou posteriormente a nossa infância. A dor do abandono físico e emocional por escolha das figuras de referência planta importantes sementes em nossa maturidade. É difícil administrar a realidade que cada um tem que viver nestes casos. Porque… como você imagina que uma pessoa que deveria acompanhá-lo muitos anos da sua vida escolha de alguma forma se afastar de você?

O pai que nos abandona física ou afetivamente na juventude ou na idade adulta. Este abandono será encarado, muito provavelmente, como uma traição. Por isso requer uma elaboração verbal muito consciente.

A ausência da figura paterna em quase a sua totalidade. Aqui nos deparamos com várias opções:

O pai que morreu cedo e que não teve a possibilidade de assumir o seu papel na vida do filho.

O pai que morreu, mas que o filho conheceu.

A gestão de um vínculo destruído ou destrutivo.

A elaboração psicológica a nível emocional e a nível de pensamento não apenas depende do filho, mas também do seu entorno. A sombra do pai ausente sempre remete, de uma forma ou de outra, à vida familiar.

Não é fácil assumir que o pai, vínculo de referência por excelência junto com a mãe, não permaneça em nossas vidas. Por isso a sua ausência determina fortemente a nossa própria evolução emocional.

Por outro lado é possível que, dependendo da nossa posição na hierarquia familiar, alguns dos familiares assumam o papel de pais sem o serem, por compaixão ou por necessidade. Também pode acontecer de sermos nós os que sentimos a pressão de administrar certas circunstâncias.

O normal é que o pai emocional seja também o pai biológico; contudo, como vemos, nem sempre isto é assim.

Desta forma, precisamos destacar que dependendo do momento evolutivo e das circunstâncias que rodeiam o abandono, assumiremos certas qualidades, tarefas, obrigações ou papéis que não nos correspondem. Portanto, precisamos destacar que:

Se essa figura nos falta de uma forma ou de outra na primeira infância (0-6 anos), será difícil conseguir a plenitude emocional que esta etapa requer, na qual fundamentamos o nosso crescimento.

Se o abandono aconteceu na segunda infância (6-12 anos), a dificuldade de consolidar a base do apego saudável também se verá comprometida (ou até destruída). De forma semelhante, na adolescência, etapa na qual é fundamental ter um apoio, uma referência e certos limites muito precisos, é fácil que a aquisição de uma identidade sólida seja desestruturada.

No caso da infância e da adolescência, momentos evolutivos nos quais a personalidade não está estruturada, a ansiedade, a tristeza e a dor de uma perda marcarão de forma profunda nosso jeito de ser e de nos relacionarmos com o mundo. Isto é, a formação de uma falta de estrutura interior que naturalmente não deveria ter acontecido.

Por isso, é um fato especialmente traumático que marcará nossa própria essência e nossa forma de nos relacionarmos com os outros.
Quando o abandono acontece na juventude, e inclusive na idade adulta, a elaboração necessária adquire dois tons, pois a ausência e o abandono do pai provocam incongruências em nós mesmos e na forma como os relacionamentos precisam ser estabelecidos.

É normal ser invadido pela insegurança, a desconfiança e o medo de sermos traídos. Porque o abandono autêntico na idade adulta acaba sendo rapidamente elaborado como uma traição. Neste momento precisamos fazer uma leitura emocional muito mais consciente e, por isso, sentiremos a necessidade de colocá-lo em palavras.

Quando o colocamos em palavras, os tons do abandono são mais crus, pois não anestesiamos a realidade mas, provavelmente, a escurecemos ainda mais. Seja como for, nossa armadura se torna mais dura e, ao mesmo tempo, mais frágil, tornando a reconstrução mais complicada.

Conhecemos os segredos, entendemos a realidade e sabemos
ler as entrelinhas, mas a gente nunca está preparado
para se desligar da ideia do pai como mentor, protetor e herói.

Aliviar a dor para conviver com a perda

Note que não falamos de superar a perda, mas sim de conviver com ela. É possível superar a perda de uma carteira, e mesmo do nosso brinquedo favorito, mas superar a perda de um pai é impossível.

Isto precisa ser compreendido assim, porque se pretendemos nos convencer de que a perda do nosso próprio pai não importa, estaremos construindo castelos no ar. É um delírio achar que uma coisa com tamanha carga afetiva possa não nos importar em absoluto.

Elaborar e administrar a marca do abandono de um pai requer um perdão individual e familiar que nem sempre é fácil de conseguir. Se nosso entorno castiga constantemente a figura do nosso próprio pai, se observamos uma grande dor na nossa própria mãe, em nossos irmãos ou em nossos avós, provavelmente iremos projetar esse mesmo luto em nosso próprio interior.

Tornarmo-nos conscientes disso se traduz em avanços, pois iremos separar a dor dos outros da nossa. Obviamente ambos fazem um coquetel que nos tornará vulneráveis, de certa forma, para sempre.

Mas se cercarmos o vínculo de sofrimento e encapsularmos cada fato de forma isolada, conseguiremos alcançar uma maior compreensão dos fatos. Isto nos ajudará a não armazenar a dor nem as emoções que o acompanham para continuar dando passos leves em nosso caminho emocional.
Fonte: A mente é maravilhosa

NALGUM LUGAR EM QUE EU NUNCA ESTIVE - E.E. Cummings (Bilíngue)

Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas
(tradução: Augusto de Campos)
______________

Original


Somewhere I have never travelled, gladly beyond

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands.

A DOR QUE MAIS DÓI - Martha Medeiros

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.

Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

CULT MOVIE - CHEQUE-MATE - PAULO JOSÉ, ZEZÉ POLESSA - CURTA METRAGEM

Ficção | De Ricardo Bravo | 1996 | 12 min 
Com Paulo José, Zezé Polessa 

Um cheque bancário entra numa cidade, 
paga várias contas e desaparece 
sem virar dinheiro. Muito bom!

A PRISÃO DA IDENTIDADE - Eliane Brum

Prefiro me desinventar 
do que assinar minhas certezas em três vias.

Antes, a pergunta que determinava nosso lugar no mundo era: “De que família você é?” ou “Qual é o seu sobrenome” ou “Você é filho de quem?”. Depois, a pergunta migrou para: “O que você faz?”. Tanto que, junto ao nome, em qualquer matéria jornalística, segue a profissão e, de preferência, a filiação profissional. Não é mais a filiação paterna, mas sim a filiação da instituição ou da empresa que confere legitimidade a um indivíduo e o autoriza a falar e a ser escutado. “O que você faz?” ou “Onde você trabalha?” é também a segunda ou a terceira pergunta que você escuta de quem acabou de conhecer em uma festa ou evento social. Só não é a primeira porque ainda faz parte da boa educação se apresentar pelo nome antes, ou fazer algum comentário sobre a qualidade da comida ou qualquer outra banalidade. 

A questão que se impõe, antes ou agora, é a mesma: a partir de que lugar você fala. A partir do lugar de onde alguém fala, prestamos atenção ou não naquilo que diz. O lugar de onde falamos é, portanto, o que nos confere identidade. E a identidade é uma exigência do nosso mundo. 

 
Escrevo sobre isso porque tenho tentado escapar da prisão da identidade. Ou da prisão de uma identidade imutável como a impressão digital do meu polegar. E esbarro no funcionamento do mundo. Há um ano e meio vivo sem emprego. Por opção. A pergunta que mais escuto é: “Por que você deixou de ser repórter?”. Respondo que nunca passou pela minha cabeça deixar de ser repórter. Eu apenas deixei de ter emprego, o que é muito diferente. “Então você está frilando?”. Não exatamente. Não foi apenas uma troca de cadastro, de pessoa física para jurídica. Foi uma mudança mais profunda.

Explico que, a partir de uma investigação sobre a morte, compreendi que precisava me reapropriar do meu tempo e, desde então, venho fazendo uma mudança radical no meu jeito de viver. “Mas então você nunca mais vai ter emprego?”. Sei lá. Como saber? Não tenho nenhum interesse em assinar qualquer declaração de intenções em três vias. “Mas você agora trabalha mais do que antes!”, é o comentário seguinte. Sim, mas eu não mudei para trabalhar menos, pelo contrário. Eu adoro trabalhar e não me sinto oprimida pelo trabalho, porque, para mim, trabalhar é criar. Eu mudei para experimentar outras possibilidades de me expressar e de viver, o que para mim é quase a mesma coisa. “Mas você não separa trabalho da vida pessoal?” Não. Trabalho é bem pessoal para mim. “Mas você trabalha mais e ganha menos?”. Sim. “Hum.”

Eu faço várias coisas que quero fazer, tento explicar. “Então você se tornou documentarista?”, é a próxima pergunta, quando descobrem que estou no meu terceiro documentário. Às vezes, mas é mais como uma experiência de contar histórias do que como uma profissão. “Mas por que você decidiu parar de contar histórias reais para escrever ficção?”, é o questionamento mais recente, desde o lançamento do meu primeiro romance. Eu não deixei de contar histórias reais, apenas senti necessidade de escrever ficção. É mais uma voz na tentativa de dar conta do que me escapa (e continuará escapando) – e não minha única voz. “Mas então agora você é ficcionista?”. Sim e não.
Sou várias coisas ao mesmo tempo. “Hum.”

Estes são diálogos frequentes no meu cotidiano. A partir deles – e da necessidade persistente do mundo de me encaixotar em alguma identidade fixa e fácil de compreender – comecei a me indagar sobre isso. Afinal, o que as pessoas perguntam é: “Quem você é?”. E antes era fácil dizer: “Sou jornalista”. Só que isso dizia muito pouco sobre mim, já que ser jornalista é só o começo da resposta sobre quem sou eu. Assim como ser pedreiro, enfermeiro, morador de rua ou CEO é o começo superficial de uma resposta sobre quem é qualquer pessoa. Mas ter uma resposta simples para algo complexo deixava todo mundo satisfeito. Agora, minhas respostas sobre quem sou eu não satisfazem ninguém. Porque o melhor e mais honesto que posso oferecer ao meu interlocutor são mais pontos de interrogação. E, definitivamente, pontos de interrogação não são populares. O mundo exige respostas com pontos finais e, de preferência, exclamações peremptórias. 
 
Ora, quem sou eu? Não sei quem sou eu. E, quando penso que sei, me escapo. Alguém já conseguiu responder a esta pergunta com alguma quantidade razoável de certeza? Ainda assim, por não ter uma resposta fácil para uma pergunta que define as relações do nosso mundo, tornei-me um incômodo. Mas, como a questão é legítima, tenho me aprofundado nela. E, nessa busca para compreender a questão da identidade, deparei-me com uma ótima história de Michel Foucault.

Em uma passagem pelo Brasil, em Belo Horizonte, Foucault foi questionado sobre o seu lugar: “Mas, finalmente, qual é a sua qualificação para falar? Qual é a sua especialidade? Em que lugar o senhor se encontra?”. Foucault ficou chocado com a “petição de identidade”. A exigência, constante em sua trajetória, motivou uma resposta de grande beleza em seu livro Arqueologia do Saber (Forense Universitari): “Não estou, absolutamente, lá onde você está à minha espreita, mas aqui de onde o observo, sorrindo. Ou o quê? Você imagina que, ao escrever, eu sentiria tanta dificuldade e tanto prazer, você acredita que eu teria me obstinado em tal operação, inconsideradamente, se eu não preparasse – com a mão um tanto febril – o labirinto em que me aventurar, deslocar meu desígnio, abrir-lhe subterrâneos, soterrá-lo bem longe dele mesmo, encontrar-lhe saliências que resumam e deformem seu percurso no qual eu venha a perder-me e, finalmente, aparecer diante de quem nunca mais tivesse de reencontrar? Várias pessoas – e, sem dúvida, eu pessoalmente – escrevem por já não terem rosto. Não me perguntem quem eu sou, nem me digam para permanecer o mesmo: essa é uma moral do estado civil que serve de orientação para elaborar nosso documento de identidade. Que ela nos deixe livres no momento em que se trata de escrever”.

Lindo. Michel de Certeau que, como Foucault, foi alguém que conseguiu escapar dessa identidade de túmulo e, ao mesmo tempo, construir um sólido percurso intelectual, analisa essa questão em um dos textos de um livro muito instigante: História e Psicanálise – entre ciência e ficção (Autêntica). Certeau diz o seguinte sobre o episódio vivido por Foucault em Belo Horizonte:
Ser catalogado, prisioneiro de um lugar e de uma competência, desfrutando da autoridade que proporciona a agregação dos fiéis a uma disciplina, circunscrito em uma hierarquia dos saberes e das posições, para finalmente usufruir de uma situação estável, era, para Foucault, a própria figura da morte. (...) A identidade imobiliza o gesto de pensar, prestando homenagem a uma ordem. Pensar, pelo contrário, é passar; é questionar essa ordem, surpreender-se pelo fato de sua presença aí, indagar-se sobre o que tornou possível essa situação, procurar – ao percorrer suas paisagens – os vestígios dos movimentos que a formaram, além de descobrir nessas histórias, supostamente jacentes, ‘o modo como e até onde seria possível pensar diferentemente’”.

A resposta de Foucault para a plateia de Belo Horizonte foi: “Quem sou eu? Um leitor”.

Quando me perguntam sobre o lugar de onde eu falo, tenho dito nos últimos tempos: “Quem sou eu? Sou uma escutadeira”. E agora posso até citar Foucault para a resposta ficar mais chique.

Na semana passada, participei de um debate na Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo (RS), com Edney Silvestre e Nick Monfort. Terminava minha apresentação dizendo:
A vida é um traçado irregular de memórias no tempo. Quero que, como inventário do vivido, meu corpo tenha as marcas de todas as histórias que fizeram de mim o que sou. E, se meus netos e bisnetos forem me contar, espero que jamais cheguem a qualquer conclusão fechada sobre a minha identidade. Esta seria a maior prova de que vivi”.

Depois, a certa altura do debate, repeti que minha identidade era fluida. E que hoje estava mais interessada em me desinventar do que em me inventar, em me desidentificar do que em me identificar. À noite, quando me preparava para deixar a universidade, fui cercada por um grupo de garotas: “Obrigada pelo que você disse sobre a identidade”.

Percebi que, no mundo líquido em que a internet nos lançou, há algo sobre a compreensão do que é identidade que começa a mudar. É neste mundo novo que os mais jovens tentam dar passos de astronauta, mas a gravidade da antiga ordem os prende no chão. Ainda que por razões e tempos diferentes, eu e aquelas garotas, assim como muitos outros por aí, nos conectamos nas esquinas voláteis de um mundo que ainda é determinado por padrões de cimento.

Ao pegar o avião que me levaria de volta para São Paulo, olhei para a carteira de identidade descolada, parcialmente apagada e um tanto esfarrapada que apresentei no embarque. E finalmente entendi por que não consigo me convencer a substituí-la por uma nova. Enquanto me permitirem, é com ela que vou embarcar. Porque é nela que me reconheço. Quando me obrigarem a trocá-la, vou obedecer. Mas as autoridades jamais saberão que é em uma identidade que se desprende de si que reside minha verdade.

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