A FORMAÇÃO DO CARÁTER - Alexandre Salvador

Você já deve ter ouvido alguém chamar uma outra pessoa de mau caráter. Já deve até mesmo ter considerado alguém como bom ou mau caráter. Mas afinal, o que é caráter? Como ele se forma?

Os dicionários também tendem a considerar o caráter como uma forma de julgamento moral.

Caráter: Conjunto de traços morais, psicológicos etc., que distinguem um indivíduo, grupo ou povo; índole; temperamento; qualidade; firmeza de atitudes.

Mau caráter: quem demonstra maldade ou qualidades negativas de caráter; pessoa sem escrúpulo; que engana as pessoas sem o menor constrangimento; desvio de caráter (para o mal); diz-se daquele ou daquela que age sem decência, sem pudor, sem sensibilidade humana.

Freud foi pioneiro ao observar que o caráter e seus traços poderiam ser explicados como sendo transformações permanentes dos impulsos primitivos, infantis. Wilhelm Reich foi o primeiro teórico que se preocupou em formular uma teoria coerente do caráter, onde dizia que “o caráter consiste numa mudança crônica do ego que se poderia descrever como um enrijecimento” (Reich, 1989, p. 151).

Nesse sentido podemos compreender o caráter como algo que se forma para manter uma estrutura necessária ao desenvolvimento do indivíduo, porém, quanto mais rígida e inflexível for a estrutura do caráter, mais esse caráter se transformará em uma resistência que tenta manter o material inconsciente fora de alcance, fazendo com que o indivíduo passe a reagir de modo automático como um mecanismo de defesa. Ou seja, o caráter não é uma escolha deliberada, ele se forma devido a necessidade do indivíduo se proteger do meio externo. O caráter é uma reação àquilo que foi experimentado na infância. Cada caráter é único porque cada experiência é única.

Caráter é a maneira a qual a pessoa se apresenta e se comporta em suas relações. É a atitude psíquica particular em direção ao mundo externo, específica a um dado indivíduo. É determinado pela disposição e pela experiência de vida, assim, podemos considerar tipos de caráteres onde se apresentam comportamentos mais ou menos ajustados à realidade e ao contexto social.

Na visão reichiana, caráter seria a dimensão total das atitudes e ações individuais em relação ao mundo. Sua formação estaria ligada a diversos fatores, entre os quais os processos de identificação com as figuras parentais, o desenvolvimento psicossexual, a relação entre ideal de ego e ego e a receptividade do prazer em relação às restrições e identificações. A variação desses fatores, devido ao contexto social, cultural e sexual, a disposição herdada pelo indivíduo e as defesas que se formam durante a vida, poderia aproximar ou afastar o caráter da neurose.

O caráter é composto por atitudes e hábitos de uma pessoa e de seu padrão consistente de respostas para várias situações. Inclui atitudes, valores conscientes e comportamentos. Ou seja, é a maneira que a pessoa se expressa na vida, tanto na forma (postura, movimentos, expressões corporais, entonação da voz etc.), como no conteúdo (comunicação verbal).

A finalidade do caráter é proteger o ego dos perigos internos e externos e, como função protetora, limita a mobilidade psíquica da personalidade. Essa função protetora podemos chamar de couraça de caráter, que se forma como resultado crônico do choque entre exigências pulsionais, o mundo externo que frustra essas exigências e a censura que impomos a nós mesmos.

Poderíamos dizer que a formação do caráter inicia quando o indivíduo supera o complexo de Édipo (que ocorre na fase fálica), pois haveria a elaboração do conflito entre os desejos genitais incestuosos e a frustração desses desejos, ou seja, os desejos amorosos que a criança experimenta em relação ao genitor do sexo oposto e os desejos hostis que que experimenta em relação ao genitor do mesmo sexo. Se a criança se desenvolveu de maneira saudável, se os impulsos foram parcialmente gratificados e reprimidos de maneira equilibrada e as ações sofridas são incorporadas ao ego, este se torna forte e integrado, dirigido à realidade.

Se os desejos genitais são muito intensos e o ego é fraco, ocorre o medo à punição e o ego se protege através dos recalques, que é um mecanismo de defesa que envia as ideias que são incompatíveis com o ego para o inconsciente. A consequência disso seria a formação de um caráter com atitudes de evitação do medo.

Em ambos os casos, a formação do caráter cumpre funções econômicas de aliviar a pressão do recalque e fortalecer o ego. Essa base de reação na tentativa de proteger o ego torna a pessoa rígida e limitada em suas percepções e ações.

A função econômica do caráter e suas resistências servem para evitar o desprazer e estabelecer e manter o equilíbrio psíquico, mesmo que este equilíbrio seja neurótico e, absorver as energias reprimidas.

O caráter tem relação com a maneira pela qual a pulsão (impulso de excitação corporal) e a frustração são elaboradas nas fases do desenvolvimento psicossexual.

São elas:
Fase oral (ocorre do nascimento até o primeiro ano): envolve a satisfação da fome e da sede e as sensações do contato com a mãe na amamentação, estimulando funções como: sugar, mastigar, comer, morder, cuspir etc.

Fase anal (ocorre do primeiro ao terceiro ano): envolve o controle dos esfíncteres anais e a defecação.

Fase fálica (ocorre do terceiro ao quinto ano): reconhecimento dos órgãos genitais e elaboração do complexo de Édipo.

Fase genital (ocorre na puberdade, que hoje se inicia cada vez mais cedo): seu desenvolvimento se dá durante a adolescência. Ocorrem mudanças corporais, há um retorno da energia libidinal aos órgãos sexuais e uma maior estruturação do ego.

Complementando as fases do desenvolvimento, Reich percebeu também a fase ou estágio ocular, que seria o primeiro segmento, de fato, a entrar em contato com a mãe e com o ambiente. Tem relação com o reconhecimento materno, com a percepção de acolhimento e com o desenvolvimento da visão binocular.

Vale lembrar que as fases citadas não compreendem rigidamente as idades mencionadas. Cada criança possui um desenvolvimento singular.

Para Reich, as possibilidades das quais depende a formação do caráter são:

– a fase na qual a pulsão é frustrada;
– a frequência e a intensidade das frustrações;
– as pulsões contra as quais a frustração é dirigida;
– a correlação entre permissão e frustração;
– o sexo do principal responsável pela frustração;
– as contradições na próprias frustrações.   (Reich, 1989, p. 156).

Essas condições são determinadas pela ordem social dominante no que diz respeito à educação, moralidade, satisfação das necessidades, pela estrutura econômica e psiquismo dos pais e demais cuidadores.

Existem ainda duas situações na constituição de um caráter:
O caráter totalmente reprimido, onde a repressão agiria na diminuição da pulsão fazendo com que o organismo não consiga descarregar sua energia sexual, tornando uma pessoa rígida e imóvel e ainda podendo voltar sua agressividade contra ela mesma. Exemplo disso é a pessoa deprimida, que é incapaz de reagir perante a vida;
E o caráter insatisfeito, onde a energia sexual não é totalmente descarregada. Essa impossibilidade de satisfação será sempre sentida como uma necessidade / impulso e este caráter correrá o risco de viver sempre nos excessos. Exemplo: se a pulsão sexual foi bloqueada / insatisfeita na fase oral, o indivíduo tenderá a se comportar bebendo em excesso, podendo chegar ao alcoolismo, fumando em excesso (tabagismo), comendo excessivamente etc.

Se formos considerar uma avaliação de caráter, podemos pensar no “bom caráter” como um caráter saudável ou genital (sem bloqueios) e “mau caráter” como o caráter neurótico (que sofreu bloqueios durante as etapas do desenvolvimento psicossexual), porém, na visão reichiana, a própria ideia de caráter tem uma conotação negativa, pois indicaria uma estrutura rígida que não é flexível à mudanças.

Caráter é comportamento característico, é expressão psíquica e corporal, seja ela mais contraída ou mais expandida, é uma possibilidade de ser e de estar no mundo. É a manifestação de uma pulsação energética que produz movimento. 
Alexandre Salvador - Psicólogo Clínico e Psicoterapeuta Corporal

EXISTEM PESSOAS QUE FEREM E PESSOAS QUE CURAM - Ivonete Rosa

Existem pessoas que tem o dom de curar, outras, o dom de machucar. Lendo esse texto, acredito que, naturalmente virão à sua mente algumas pessoas, tanto curadoras, como ofensoras. 

Imagine alguém que está sempre sorrindo e que tem sempre uma fala positiva, que sempre elogia, que tem um abraço gostoso. 

Quem veio à sua lembrança? E agora, imagine alguém rabugento, que adora jogar um balde de água fria na empolgação das pessoas. Lembrou de alguém?

Não tem como passarmos pela vida sem nos depararmos com esses dois perfis de pessoa. 

As pessoas amargas sentem-se fortemente recompensadas quando percebem que machucou alguém. Parece que a alegria delas é nutrida pelo desgosto do outro. 

Quer acabar com o dia de uma pessoa amargurada, compartilhe uma alegria sua com ela. Ela vai tratar de te convencer de que você está delirando, que sua alegria não é para tanto, que você pode “cair do cavalo”…que você precisa manter os pés no chão…etc.

É como se a alegria do outro fosse um espinho na alma dela. São pessoas com as quais, se pudéssemos, evitaríamos qualquer contato. E quando estamos fragilizados, essas pessoas causam um verdadeiro estrago no nosso emocional,agindo como verdadeiros vampiros, parece que elas captam a nossa vulnerabilidade e fazem a festa. 

Se você emagreceu e está feliz, ela vai fazer questão de te dizer que você ficou com cara de doente e que estava melhor quando estava gorda. 

Se você foi aprovado num concurso público, ela vai te dizer que ouviu dizer que o concurso teve fraude e que vai ser anulado. Enfim, ela vai ter sempre um problema para cada solução.

Somente quando nos tornamos mais maduros é que vamos adquirindo uma espécie de imunidade à essas pessoas, daí elas não exercem mais nenhuma influência sobre as nossas emoções, pois passamos a enxergá-las como elas de fato são, verdadeiros enfermos espirituais e emocionais. Pessoas feridas ferem outras. Simples assim.

Em contrapartida, existem aquelas pessoas que são puro bálsamo, são um verdadeiro sol mesmo nos dias nublados das nossas vidas. Pessoas que nos estendem a mão, que nos encorajam, que nos trazem à memória o que temos de bom e o que deu certo em nossas vidas. São verdadeiras bússolas divinas que nos norteiam quando estamos desorientados. 

É uma delícia ter por perto quem acredita em nós, quem nos aceita e quem nos acolhe.


Essas pessoas serão as primeiras a serem lembradas por nós quando estamos em alguma dificuldade. Elas nos encorajam e elas nos lembram que a dificuldade vai passar. 

Por vezes, só precisamos nos lembrar disso, que nada é eterno e que dias bons e ruins passam. Quando alguém compartilha algo delicado conosco, nos sentimos honrados, afinal, no mínimo, essa pessoa confia em nós. Que sejamos dignos dessa confiança. 

Que saibamos lidar com a vulnerabilidade do outro. Que sejamos calmaria em dias de tempestade.

PREGUIÇA: AS DIFERENÇAS ENTRE A BOA E A RUIM - Suzana Herculano-Houzel

Falta de motivação pode ser existencial e depressiva, levando a questionar de que adianta a vida. Mas também pode ser temporária e saudável, ajudando o cérebro a descansar

Falta de motivação é algo que todo mundo conhece: aquele estado em que a inércia a ser vencida é enorme, e seu cérebro não vislumbra nenhuma recompensa no horizonte que faça o esforço valer a pena. Nem toda falta de motivação é igual, contudo; ela existe em várias versões.

A versão braba é a falta de motivação existencial. “No final, todo mundo morre mesmo”, como observa o personagem principal em um de meus filmes favoritos do Woody Allen. Sejamos racionais: se o fim é inexorável, para que adianta a vida, então? Sair da cama, pensando assim, não valeria o esforço. Se no entanto levantamos a cada novo dia, ou é porque encontramos um argumento lógico que justifique a empreitada, ou é porque... não é a lógica racional que nos move.

De fato, não é. Somos literalmente movidos pela sensação de prazer e satisfação, nada racional, que nosso próprio cérebro se dá como prêmio quando faz algo que dá certo – e pelo prazer e satisfação que ele antecipa como retorno pelas suas possíveis ações futuras. Quem cuida disso é o sistema de recompensa e motivação do cérebro, informado pela dopamina que sinaliza o sucesso real ou esperado. Todos os animais com um cérebro razoavelmente organizado tem algo parecido, com neurônios dopaminérgicos que, ao dar valor positivo a qualquer coisa que funcione, impulsionam os movimentos – e acabam dando também um sentido para a vida.

Essa versão braba de falta de motivação costuma nos visitar em instantes de reflexão existencial, mas em geral é momentânea, esquecida assim que o cérebro se lembra de alguma tarefa premente, de preferência prazerosa. Ao menos, isso é o que o cérebro saudável consegue fazer; a versão duradoura, crônica, da falta de motivação existencial é, justamente, sinal de doença, chamada depressão. Em depressão, um estado de dificuldade de ativação das estruturas do sistema de recompensa, o cérebro não encontra nem satisfação interna suficiente para suas ações, nem consegue vislumbrar prazeres em seu futuro que façam o esforço valer a pena – apesar de amplas evidências do contrário. A falta de motivação da depressão não é uma escolha; é resultado de um distúrbio que deixa o cérebro preso à evidência racional de que nada vale a pena.

Mas existe ainda uma versão temporária, saudável, e curiosamente diária da falta de motivação: aquela que nos visita todos os dias ao final do dia, e que chamamos de preguiça – de levantar do sofá para buscar os óculos, o controle remoto ou um copo d’água. Também esta falta de motivação é resultado da perda de ação dopaminérgica, aqui no entanto causada pela adenosina que se acumula ao longo do dia no cérebro como resultado do seu próprio funcionamento. Com o cérebro encharcado de adenosina, haja dopamina para dar conta de convencer outras partes do seu cérebro de que o esforço de se mexer vale a pena.

Esta preguiça diária e com hora marcada, ao contrário da existencial e da depressiva, é boa: é ela que nos faz sossegar ao fim do dia, aumentando nossas chances de adormecer. E, dormindo, a adenosina é removida, o que permite que, pela manhã, a dopamina volte a exercer seu papel, premiando o cérebro com sensações positivas a cada ação executada ou apenas planejada. 

Assim você acorda pronto para um novo dia, capaz de navegar pela vida enxergando prazeres e satisfações no horizonte – apesar de toda a evidência racional de que a viagem provavelmente é inútil.

MIRANTE DO LEBLON


O TEMPO ACABA... - CAMÕES


O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
a força, a arte, a manhã, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza,
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança;

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
a pena e o prazer desta esperança.

HÁBITOS QUE AUMENTAM O RISCO DE DEPRESSÃO

A depressão é um transtorno grave que requer a máxima atenção. Infelizmente, muitas pessoas acreditam que é uma condição que deve ser ignorada, pensando que aqueles que estão deprimidos são fracos e que não se esforçam o suficiente para ficar bem. Dizem que isso é um capricho ou uma extravagância como muitas outras. No entanto, o risco de depressão existe para todos.

A depressão não se “cura sozinha”. Pelo contrário: quando os seus efeitos não são tratados no tempo devido, podem levar a um desgaste progressivo e outras doenças mais sérias, tanto física como mentalmente.

O estilo de vida é um fator decisivo para nutrir ou superar os estados depressivos. Os hábitos diários influenciam positivamente ou negativamente essa condição. Alguns hábitos fazem com que você se sinta deprimido com mais facilidade, enquanto outros permitem que os sintomas sejam reduzidos e melhoram o seu humor. Neste artigo falaremos sobre três desses hábitos que aumentam o risco de depressão.

“A depressão é alimentada pelas feridas não cicatrizadas”.
– Penélope Sweet –

Hábitos que contribuem para aumentar o risco de depressão

1. Má utilização do tempo livre
A rotina, especialmente se você vive em uma grande cidade, pode causar um grande desgaste emocional. Todos os dias você está exposto a centenas de estímulos, muitos dos quais são agressivos. Nas grandes cidades existe uma atmosfera de estresse generalizado. Você raramente encontra um rosto amigável e tudo acontece rapidamente.

O tempo livre não é apenas um momento de pausa, mas também um tempo determinante para manter a sua boa saúde mental. O problema é que o mesmo ritmo agitado do dia a dia geralmente nos leva a não saber o que fazer no nosso tempo livre. Muitas vezes, simplesmente buscamos quietude e solidão. É verdade que isso contribui para o descanso, mas também nutre a depressão.

O ideal é que o tempo livre seja utilizado para oxigenar o corpo e a mente. Devemos fazer atividades divertidas e agradáveis; isso renova a nossa energia física e mental, traz vitalidade e melhora o humor. É aconselhável cultivar algum hobby, fazer atividades ao ar livre, praticar esportes.

2. Dormir mal
Nada compensa um sono reparador. Enquanto dormimos, o cérebro dispõe de um tempo para se reorganizar e filtrar as informações. Dormir bem faz parte da higiene mental, mas também da boa saúde. O descanso é fundamental para o corpo e a mente.

Passar a noite “em claro” ou dormir mal afeta o nosso humor. Uma das primeiras manifestações é uma hipersensibilidade, que facilmente se transforma em depressão. Ela se expressa através do desânimo, irritabilidade e falta de energia.

Muitas vezes as dificuldades para dormir são causadas pelos problemas que não foram resolvidos e que se manifestam como ansiedade. Ao mesmo tempo, não descansar adequadamente nos torna mais vulneráveis ​​e torna mais difícil a concentração para resolução dos problemas. Isso forma um círculo vicioso que nos leva à depressão.

3. Descuidar da aparência pessoal
Uma das primeiras manifestações da depressão é o descuido com a aparência pessoal. Isto é um sinal de indiferença consigo si mesmo e com o mundo. Às vezes, são episódios pontuais que se resolvem de forma relativamente rápida. Outras vezes, no entanto, se transformam em uma atitude constante.

É claro que não precisamos nos preocupar exageradamente com o tipo de roupa ou o penteado que usamos. Tomar banho, usar roupas limpas e parecer basicamente arrumado faz parte de uma vida saudável. Isso também se estende ao ambiente, ou seja, dentro da aparência pessoal também se encaixa o cuidado com o espaço onde nos movemos e os objetos que nos rodeiam.

Quando há depressão, tanto a aparência como a ordem do lugar onde vivemos ou trabalhamos passa para um “segundo plano”. As pessoas deixam de lado as suas rotinas básicas de higiene. Da mesma forma, os seus objetos pessoais e móveis são completamente negligenciados. O inverso também é verdadeiro. Cuidar de nós mesmos e organizar o espaço onde vivemos são fatores que melhoram o nosso humor.

A vida nunca está livre de tristezas e dificuldades. Muitas vezes perdemos o interesse em viver e ficamos doentes. Por isso, é importante se cuidar e se proteger, para não permitir que em alguns momentos da vida os sentimentos negativos nos invadam e nos afetem emocionalmente. Adotar hábitos saudáveis e descartar hábitos nocivos é sempre o melhor escudo contra o risco de depressão.

AMIGOS PARA SEMPRE - Miguel Esteves Cardoso

Os amigos cada vez mais se vêem menos. Parece que era só quando éramos novos, trabalhávamos e bebíamos juntos que nos víamos as vezes que queríamos, sempre diariamente. E, no maior luxo de todos, há muito perdido: porque não tínhamos mais nada para fazer.

Nesta semana, tenho almoçado com amigos meus grandes, que, pela primeira vez nas nossas vidas, não vejo há muitos anos.

Cada um começa a falar comigo como se não tivéssemos passado um único dia sem nos vermos.

Nada falha. Tudo dispara como se nos estivera – e está – na massa do sangue: a excitação de contar coisas e partilhar ninharias; as risotas por piadas de há muito repetidas; as promessas de esperanças que estão há que décadas por realizar.

Há grandes amigos que tenho a sorte de ter que insistem na importância da Presença com letra grande. Até agora nunca concordei, achando que a saudade faz pouco do tempo e que o coração é mais sensível à lembrança do que à repetição.

Enganei-me. O melhor que os amigos e as amigas têm a fazer é verem-se cada vez que podem. É verdade que, mesmo tendo passado dez anos, sente-se o prazer inencontrável de reencontrar quem se pensava nunca mais encontrar.

O tempo não passa pela amizade. Mas a amizade passa pelo tempo. É preciso segurá-la enquanto ela há. Somos amigos para sempre mas entre o dia de ficarmos amigos e o dia de morrermos vai uma distância tão grande como a vida.

O SOFRIMENTO É A CAUSA DE MUITOS TRANSTORNOS MENTAIS

A causa de muitos transtornos mentais pode estar no sofrimento, mais especificamente no significado que atribuímos a esse estado emocional. O mais interessante dessa perspectiva é que não se trata de uma elaboração teórica, e sim de uma técnica psicológica conhecida como logoterapia. Ela se baseia no significado da existência humana, assim como na busca desse sentido por parte do ser humano.

Há uma grande variedade de transtornos mentais, cada um com manifestações diferentes. Em geral, se caracterizam por uma combinação de alterações do pensamento, da percepção, das emoções, do comportamento e das relações com os outros. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), os tratamentos eficazes contra os transtornos mentais são as medidas que permitem aliviar o sofrimento que causam.

Por outro lado, a incidência dos transtornos mentais continua aumentando, causando efeitos consideráveis na saúde das pessoas e graves consequências a nível socioeconômico e no âmbito dos direitos humanos em todos os países.

“A dor é o sentimento. O sofrimento é o efeito que gera a dor. Se alguém consegue suportar a dor, poderá viver sem sofrimento. Se alguém consegue resistir à dor, resistirá a qualquer coisa. Se alguém aprende a controlar a dor, aprenderá a controlar a si mesmo.”
-James Fray-

Para quem é maior o risco de sofrer de uma doença mental? 
Uma em cada quatro pessoas vai sofrer ao longo da sua vida com algum problema de saúde mental. A saúde mental é entendida como uma forma harmônica de se relacionar consigo mesmo e com os outros, mantendo uma boa inserção social e uma qualidade de vida de acordo com a fase e as expectativas de cada pessoa.

Pode ser modificada por vários motivos. Por outro lado, os conflitos vitais ou as reações a situações dolorosas com que nos deparamos durante a vida não devem ser entendidos como doenças, salvo quando essas situações se prolongam no tempo ou quando sua intensidade for muito alta.

Os determinantes da saúde mental e dos transtornos mentais incluem não apenas características individuais, como a capacidade de lidar com nossos pensamentos, nossas emoções, nossos comportamentos e nossas interações com os demais. Também incluem fatores sociais, culturais, econômicos, políticos e ambientais, como as políticas nacionais, a proteção social, o nível de vida, as condições de trabalho ou os apoios sociais da comunidade.

Outros fatores que podem agir como causa de muitos transtornos mentais são o estresse, a herança genética, a alimentação, as infecções perinatais e a exposição a riscos ambientais.

“Um desejo de ser responsável pelas nossas próprias vidas, uma necessidade de controle, nasce em cada um de nós. Assumir o controle é essencial para nossa saúde mental e nosso sucesso.”
-Robert Foster Bennett-

Como o sofrimento pode ser a causa de muitos transtornos mentais?
Existem doenças que aparecem com a mesma frequência em quase todas as culturas e todos os países. Em contrapartida, existem outras que estão mais ligadas às condições sociais e familiares, culturais, socioeconômicas, etc. Também há fatores genéticos que são uma predisposição a determinadas doenças e também fatores ligados ao gênero.

No entanto, quando o prejuízo na saúde mental é muito significativo, se deve ao fato de que está produzindo muito sofrimento e esse sofrimento está modificando a maneira de viver, de perceber e de entender da pessoa. Além disso, ressalta-se que o problema pode ser originado por diferentes motivos biológicos, psicológicos ou sociais.

Precisamos ter consciência de que qualquer pessoa pode, em algum momento da sua vida e sujeita a determinadas circunstâncias, sofrer uma alteração emocional e uma grande dor que podem afetar diretamente o curso da sua vida. Mas, para que a doença mental apareça é comum a necessidade da presença de outros fatores que também influenciam, fatores de ordem biológica, psicológica ou social, atuais ou passados. Nestes casos, o sofrimento se torna tão intenso a ponto de se transformar em uma causa de muitos transtornos mentais.

“A dor mental é menos dramática que a dor física, mas é mais comum e também mais difícil de suportar.”
-C. S. Lewis-

COMECE A INVESTIR EM EXPERIÊNCIAS, NÃO EM BENS MATERIAIS

Você já parou para pensar na importância de investir em experiências na sua vida?

Para a maioria de nós, o dinheiro é um recurso limitado. No entanto, os economistas concordam que o importante não é o quanto recebemos todo mês, mas a forma como o administramos e, em particular, no que gastamos o nosso dinheiro.

Na verdade, a maior parte da nossa renda cobre as despesas básicas. Economizando um pouco juntamos dinheiro para comprar um novo telefone celular, uma televisão com uma tela maior, ou uma roupa que está na promoção. As compras sempre nos animam um pouco. A desvantagem é que esse entusiasmo passa rapidamente.

“Não aprecie o dinheiro nem mais e nem menos do que ele vale, porque ele é um bom servo e um mau amo”.
-Alejandro Dumas (filho) –

Existe uma área da economia que se chama “economia da felicidade”. Ela mede, entre outros aspectos, a relação que existe entre a renda recebida, as despesas e sensação de satisfação com a vida. Os estudiosos concluíram baseados em muitas evidências que uma maior quantidade de dinheiro não equivale a mais felicidade. Onde está então o segredo do bem-estar?

O dinheiro e os objetos
Muitas pessoas gastam o seu dinheiro extra em objetos. Elas fazem sacrifícios significativos para obtê-los: reduzem as despesas básicas e chegam até a mesmo a se endividar contraindo empréstimos e pagando juros altos. Hoje em dia, isto acontece com o celular: deixou de ser uma ferramenta de comunicação para se tornar um símbolo de status.

Tempo é dinheiro
Há uma competição feroz em torno de muitos objetos que têm um certo halo de fetiches. Além do telefone pessoal, existem também outros dispositivos eletrônicos. As roupas e os carros também se encaixam dentro dessa lógica. Todos esses objetos têm uma marca muito forte e que chama a atenção: você não tem um carro, mas um BMW, você não tem um telefone celular, mas um iPhone.

A comparação com os colegas influencia muito na maioria dessas compras. Você escolhe uma determinada marca, ou um determinado objeto, para ser igual ou melhor do que alguém do seu convívio. Esses objetos, às vezes, definem o senso de pertencer a um grupo, mas paradoxalmente, eles também marcam uma tensão. Os objetos, especialmente se eles são de luxo, procuram impor distâncias.

O dinheiro e as experiências 
Os economistas da felicidade estão convencidos de que investir em experiências gera muito mais satisfação do que gastar dinheiro com objetos.

Thomas Gilovich, professor de psicologia da Universidade Cornell, estudou o assunto por vários anos e descobriu que as pessoas se acostumam com os objetos com extrema facilidade. Pouco depois de comprados, eles se transformam em algo rotineiro, com pouco atrativo. Em outras palavras, eles se tornam entediantes. A rotina não nos ajuda a ser feliz.

Com as experiências, acontece exatamente o oposto. Quando são significativas, adquirem valor e intensificam ao longo do tempo. As experiências unem as pessoas. Duas pessoas podem ter o mesmo iPhone, mas isso não significa que se identificam uma com a outra. Por outro lado, dois fãs de filatelia se sentem próximos.

Se você for com alguém fazer compras, não estabelecerá laços tão estreitos como se vocês fossem ao cinema ou para uma viagem. Nesse caso, não haverá competição, mas cumplicidade e solidariedade.

Investir em experiências é investir em vida 
Nós somos as nossas experiências; e as experiências que um objeto nos oferece são extremamente limitadas. Dificilmente um objeto terá o potencial para nos embriagar de felicidade e nos fazer experimentar a plenitude. Por sua vez, as experiências conseguem muito mais.

Mesmo as experiências negativas, quando processadas, tornam-se algo ridículo e até engraçado para contar aos amigos. E as positivas são um verdadeiro nutriente do bem-estar emocional. Anos depois, continuamos a lembrá-las e algumas dessas maravilhosas emoções são novamente sentidas, não se desgastam ao longo do tempo. O tempo passa, as coisas se acabam, mas sobram as histórias para contar, as boas risadas, as boas experiências.

Cada experiência é única, ao contrário dos objetos que são fabricados em série. Mesmo que tornemos a viver algo parecido, nunca será o mesmo. Daí o valor das experiências. Existem conversas libertadoras que nunca serão esquecidas, lugares fantásticos que nos levam ao limite da surpresa e da admiração. A cordialidade de um jantar, ou um tempo entre amigos, não tem preço. Nós somos a soma de todas as nossas experiências.

Se quisermos ser mais felizes, será melhor repensar a maneira como usamos os nossos recursos, em particular o nosso dinheiro. Pensando menos nos objetos e passando a investir em experiências, talvez possamos encontrar um caminho seguro para a felicidade.

VOCÊ SABE O QUE SÃO AS RESSACAS EMOCIONAIS E COMO SUPERÁ-LAS?

O que acontece quando bebemos muito álcool? No dia seguinte, sem chances de escapar, sofremos uma terrível ressaca. No entanto, parece que o álcool não é o único capaz de provocar a ressaca. De acordo com várias pesquisas realizadas por neurocientistas da Universidade de Nova York, também existem as ressacas emocionais, experiências produzidas por emoções muito intensas, que nos sacodem e nos intoxicam.

A pergunta obrigatória é: podemos evitá-las? A verdade é que não podemos. As ressacas emocionais são estados profundamente intensos fruto de experiências emocionais inesperadas que, inclusive, podem influenciar na recordação de eventos posteriores e provocar alguns sintomas físicos como dores de cabeça, dores nas costas e cansaço ou fadiga.

Assim como uma ressaca provocada pelo álcool, as ressacas emocionais nos fazem sentir irritação, cansaço e provocam a sensação de estar com a mente confusa.

As ressacas emocionais são inevitáveis
Embora desejemos ter o controle sobre tudo que nos rodeia, isso é impossível. Sempre há coisas que acontecem de maneira inesperada. Pode ser uma demissão do trabalho, a morte de um parente, uma gravidez não planejada, o descobrimento de uma doença, uma dívida familiar ou qualquer situação que não estava nos nossos planos…

Tudo isso vai nos fazer viver emoções muito intensas que podem chegar a desenvolver estados de estresse, depressão, ansiedade e até mesmo ataques de pânico.

Essas emoções inesperadas e intensas geram uma grande ressaca da qual na maioria das vezes não temos consciência, mas que afetam de uma ou outra maneira os nossos pensamentos e nossos processos de atenção e memória.

Assim, as marcas das ressacas emocionais permanecem no nosso corpo e no nosso estado de espírito. Elas são um exemplo de como tudo que é vivido se reflete mais além do que apenas no momento em que acontece.

Ao mesmo tempo, assim como as ressacas provocadas pelo álcool, as ressacas emocionais têm seu fim. No entanto, pode acontecer de, em vez de minimizá-las, acabarmos alimentando-as continuamente se nos submetermos a situações que nos desgastem emocionalmente ou se simplesmente não quisermos sair da zona de conforto na qual nos encontramos. A vitimização é um bom exemplo de uma ressaca emocional permanente.

Como minimizar o impacto das ressacas emocionais?
Por que uma ressaca emocional pode se prolongar voluntariamente? Por que pode fazer com que nos transformemos em vítimas? Quando passamos por uma ressaca nos sentimos mal, e quando nos sentimos mal, tudo ao nosso redor se torna escuro e negativo. É a mesma coisa que acontece quando estamos deprimidos e, de repente, passamos a não enxergar mais o mundo em cores, começamos a enxergá-lo em branco e preto.

Como já vimos, as ressacas emocionais podem contribuir para nos sentirmos tristes, deprimidos ou angustiados, o que vai estar presente na nossa percepção da realidade. O importante é estar consciente de que o impacto de uma experiência intensa para nós pode nos afetar e gerar mal-estar.

A duração das ressacas emocionais pode ser de algumas horas ou até mesmo de mais de um dia. Tudo depende da pessoa que a sente, da sua capacidade de enfrentamento e da sua disposição para seguir em frente diante do turbilhão de emoções que a acometem sem aviso prévio.

Por isso, é muito importante aprender a manter a calma quando estivermos à beira do abismo e evitarmos tomar qualquer decisão importante enquanto durar a ressaca se não quisermos nos lamentar no futuro. Porque, se não conseguirmos agir assim, aquele projeto tão importante para nós pode se desfazer ou podemos perder grandes oportunidades. Assim, estar consciente das nossas ressacas emocionais será o melhor aviso para adiar qualquer decisão importante que afete a nossa vida.

As ressacas emocionais influenciam tanto na nossa percepção da realidade quanto nas nossas reações.

Por fim, queremos esclarecer que as ressacas emocionais são experiências que todos nós vivemos em algum momento das nossas vidas. Com o ritmo de vida acelerado no qual vivemos todos os dias, ficamos mais submetidos a elas. Podemos perceber seu rastro se observarmos como situações que nos causam emoções muito intensas influenciam posteriormente nas nossas decisões e nas nossas vivências.


Fazer um pausa, dar um tempo e descansar para se desconectar do exterior e se conectar consigo mesmo nos ajudará a superar as ressacas que às vezes nos fazem tão mal.

O QUE SÃO OS NOOTRÓPICOS E COMO POTENCIALIZAM A NOSSA INTELIGÊNCIA?

Os nootrópicos também são conhecidos como “fármacos inteligentes” pelos benefícios que prometem, que não são poucos: aumentar o desempenho mental e agir como potencializadores cognitivos. A sua popularidade nos últimos anos disparou a tal ponto que milhares de pessoas já incluem no seu café da manhã essa pílula dourada com a qual ser mais produtivo no trabalho.

Para contextualizar um pouco os nootrópicos, basta lembrar da série “Limitless”. Nela, Bradley Cooper tomava uma droga experimental chamada “NZT-48”. Logo depois de consumi-la, o seu mundo se tornava mais vívido, seus sentidos ficavam mais aguçados e o seu potencial cognitivo passava a 200%, a tal ponto que era capaz de aprender diversos idiomas com fluidez, ser um gênio nas finanças em Wall Street ou se lembrar de tudo que tivesse visto, lido e ouvido.

“Supostamente, o cérebro humano é algo parecido a um caderno que a gente compra na papelaria: pouco mecanismo e muitas folhas em branco”
-Alan Turing-

Algo assim nos permitiria – aparentemente – sermos mais produtivos que Stephen King escrevendo livros, memorizar um documento na metade do tempo ou ativar as estruturas neurológicas capazes de despertar o gênio musical ou matemático que existe em cada um de nós. E digo “aparentemente” porque a realidade é outra, uma realidade sem dúvida mais adequada, mais limitada e menos reluzente mas ainda assim, interessante.

A indústria farmacêutica, por exemplo investe a cada ano quantias milionárias no desenvolvimento de novos nootrópicos, e o faz por uma razão muito simples: a demanda se multiplica.

A pressão profissional é cada vez mais elevada, sabemos disso, é preciso estar alerta, é preciso melhorar a concentração, ser mais ágeis mentalmente, mais criativos, mais produtivos… Todo mundo deseja dar mais de si mesmo sem ter que recorrer a substâncias perigosas, e é aí que entram em ação os nootrópicos ou as “drogas inteligentes”.

Atualmente sabe-se que estes fármacos são muito consumidos pelos universitários, pilotos militares, programadores de informática ou criativos de empresas de publicidade que procuram neles um recurso aparentemente inócuo com o qual expandir a sua mente, focar a atenção e dar o melhor de si nos seus objetivos.

Mas… os nootrópicos realmente funcionam?

Os nootrópicos: uma descoberta acidental que deu lugar a “drogas inteligentes”
Há quem chame os nootrópicos de “a droga do futuro”, um produto de uma sociedade acelerada que deseja ir além das suas próprias possibilidades. Contudo, este termo incomoda, não agrada e não é aceito porque – em geral – não possuem efeitos colaterais e não são “psicoestimulantes”. Por isso são classificados de uma forma muito mais inspiradora: “potencializadores cognitivos”.

Por outro lado, há quem também se aventure a dizer que os nootrópicos serão muito em breve o nosso menu evolucionista, e que graças a eles levaremos o nosso desenvolvimento cerebral a outro nível.

Por mais curioso que pareça, este é justamente o propósito de grandes empresas e conhecidas entidades. De fato, Silicon Valley – capital mundial da indústria de tecnologia – já está há anos trabalhando com os nootrópicos, a ponto de descobrir novos mecanismos por meio dos quais intensificar suas propriedades, seus efeitos, sua duração e até aplicação.

Não apenas servirão para melhorar a atenção e a criatividade, mas também já é possível vivenciar sonhos lúcidos ou atingir um nível de relaxamento semelhante ao que se alcança depois de vários anos de meditação. No entanto, sabemos que para muitos de nossos leitores alguns dados possam parecer pura ciência-ficção e por isso é preciso irmos passo a passo. Vejamos primeiro a sua origem.


Dos indutores do sono aos ativadores da atenção

Estamos nos anos 60 e, em um laboratório belga chamado “Union Chimique Belge”, o neurofarmacologista romeno Corneliu Giurgea trabalha na síntese de diversos compostos químicos com um finalidade muito específica: induzir o sono.

Contudo, ele acabou descobrindo um tipo de molécula muito especial que lhe permitiu criar o primeiro nootrópico da história: o Piracetam. Essa droga, longe de reduzir a excitabilidade neurológica e propiciar o descanso, fazia na verdade justamente o contrário: colocar a mente em alerta e melhorar funções cognitivas como a memória e a concentração.

Isso era possível graças à modulação química de neurotransmissores como a acetilcolina e o glutamato, e além disso, sem efeitos colaterais muito adversos.

O Piracetam de Corneliu Giurgea não demorou a ser comercializado, permitindo que pouco a pouco chegassem outras propostas, como o Oxiracetam, o Aniracetam, o Pramiracetam e o Fenylpiracetam.

O mecanismo de ação dos nootrópicos varia entre eles. Contudo, a maioria deles tem efeitos na vasodilatação, isto é, melhoram o fluxo sanguíneo para o cérebro, proporcionando-lhe mais oxigênio, mais nutrientes e glicose, a fonte de energia essencial que o cérebro usa para nos garantir longos períodos de concentração.

De forma semelhante, e como dado curioso para refletir, sabe-se que o Vale do Silício trabalha com os nootrópicos combinando-os com o biohacking, isto é, procuram “hackear” certas funções cerebrais através de diversos químicos para potencializar assim as funções do pensamento.

Parece que a porta para o salto evolutivo do cérebro humano está começando a abrir a sua maçaneta…

Quais são os efeitos dos nootrópicos? São mesmo tão benéficos quanto parecem?

O objetivo das indústrias farmacêuticas com os nootrópicos é duplo. Por um lado, e como já sabemos, a procura da melhoria dos processos cognitivos básicos, algo que na maioria dos casos, conseguem fazer. O segundo aspecto é que funcionem como neuroprotetores e que seus possíveis efeitos secundários sejam mínimos, para não dizer inexistentes.

Mas, um dos maiores problemas que os especialistas da saúde estão descobrindo é que tanto os estudantes universitários quanto os empresários e demais pessoas com um estilo de vida caracterizado pelo estresse, adquirem os nootrópicos através da internet, sem se preocupar com a sua procedência ou, o que é pior, a forma como devem ser consumidos.

Vejamos um exemplo. A cafeína é um nootrópico natural, assim como os ácidos graxos ômega 3. Se eu consumir 10 xícaras de café em uma noite, é bem provável que eu tenha cefaleias, tonturas e pressão arterial elevada. Do mesmo jeito, o estudante que compra um nootrópico pela internet sem conhecer a sua composição e forma de administração, com o único fim de passar na prova de depois de amanhã, possivelmente irá sentir antes os efeitos adversos dessa melhora na atenção e na memória.

Portanto, é necessário saber que os nootrópicos ajudam, mas não são um milagre. Além disso, estes benefícios serão percebidos se forem consumidos adequadamente e com orientação médica.

Por outro lado, e a título de curiosidade, cabe dizer que os laboratórios russos criaram uma nova família de nootrópicos derivados todos eles da corticotropina, o hormônio do estresse e dos agonistas dos receptores GABA como o Phenibut ou o Tolibut. Estes fármacos tem ultimamente uma grande demanda pelo seu efeito ansiolítico e redutor do estresse, mas cabe dizer que seus efeitos colaterais são sem dúvida os mais perigosos do mercado, já que a longo prazo provocam dependência.

Como usar os nootrópicos
Os especialistas dizem que existem alguns cuidados básicos que é preciso seguir na hora de consumir algum tipo de nootrópico:

• Encontre o nootrópico que melhor se adeque a suas necessidades

• É preciso consultar um especialista que oriente cada pessoa sobre as opções que existem no mercado.

• Cada pessoa tem um tipo de neuroquímica, e em geral, é comum começar com doses muito baixas, experimentando uns e outros até encontrar o adequado.

• Ao sentir qualquer tipo de mal-estar, como cefaleias ou tonturas, é preciso interromper imediatamente o uso desse tipo de nootrópico.

• De forma semelhante, é preciso lembrar que estes fármacos não são de ação imediata. O cérebro precisa se acostumar a eles; de fato, o seu efeito começará a ser notado depois de alguns dias ou semanas.

Só funcionam se forem acompanhados por uma dieta adequada, evitando o sedentarismo

Se quisermos modular a nossa química cerebral para que funcione no melhor nível, será necessário obter uma série de nutrientes adequados para ativar o mecanismo de ação destas drogas inteligentes.

Portanto, uma dieta equilibrada rica em frutas frescas, vegetais, ácidos graxos ômega 3 e ômega 6 é fundamental para que os nootrópicos possam agir.

• De forma semelhante, se levarmos uma vida sedentária teremos um metabolismo mais lento, menos eficiente e, além disso, a função hepática também não conseguirá processar da melhor forma os componentes dos nootrópicos.

A atividade física e a alimentação variada e pobre em gorduras saturadas é fundamental para que estes fármacos cumpram o seu objetivo.

“O verdadeiro sinal de inteligência não é o conhecimento, mas sim a imaginação.”
-Albert Einstein-

Tipos de nootrópicos

É importante apontar aqui que nem todos os nootrópicos são fármacos. Muitos deles não estão sujeitos a receitas médicas porque têm componentes naturais, e porque é muito fácil encontrá-los nas lojas de produtos naturais. Apesar disso, antes de começar a consumir estimulantes cognitivos é sempre melhor consultar um especialista.

Para isso, é preciso definir qual o objetivo, porque como vimos, a oferta de nootrópicos é bastante ampla, e tudo indica que será ainda maior nos próximos anos.

• Nootrópicos para melhorar o estado de ânimo.
• Nootrópicos para melhorar a concentração.
• Nootrópicos para combater a ansiedade.
• Nootrópicos para melhorar a memória.
• Nootrópicos para melhorar o descanso, recuperação e o sono.
• Nootrópicos com foco anti-idade ou longevidade.
Inteligência humana

Para concluir, cabe lembrar apenas que os nootrópicos não são suplementos alimentares. Não é recomendável fazer uso dos mesmos de forma leviana, especialmente porque cada vez a oferta é mais ampla e a eficácia dos mesmos menos confiável. Portanto, mesmo sabendo que todos desejamos otimizar as próprias capacidades cognitivas para nos adequar às demandas atuais do mercado de trabalho, será sempre melhor procurar antes outras estratégias, outros caminhos.

Apesar disso, continuaremos atentos à evolução destes potencializadores cognitivos e do seu impacto em nosso futuro. 
Referências bibliográficas: 
- Ruiz Franco, J. (2005). Drogas Inteligentes. Editorial Paidotribo.
- Evan Brand (2016) The Everything Guide To Nootropics. Berkley Books

3 CASOS CLÍNICOS QUE AJUDARAM A ENTENDER O FUNCIONAMENTO DO CÉREBRO

A neurociência conseguiu progredir graças a uma árdua pesquisa que inclui casos clínicos comuns, mas também outros realmente surpreendentes. Alguns desses casos ficaram em evidência principalmente porque suas contribuições foram decisivas para entender o funcionamento do cérebro.

O ser humano tem se mostrado resistente a admitir que a chamada “alma” ou o chamado “coração” na verdade correspondem a processos que ocorrem no cérebro. O mais importante desses casos clínicos que se tornaram clássicos é que, de uma maneira ou outra, eles evidenciam a ação e o funcionamento do cérebro no nosso mundo psíquico.

 “Todo homem pode ser, se assim se propuser, escultor do seu próprio cérebro.”
-Santiago Ramón y Cajal-

Nós ainda estamos longe de compreender o cérebro. No entanto, passo a passo avançamos, desvendando alguns mistérios e descobrindo outros. Os três casos clínicos que apresentamos a seguir merecem ser lembrados e levados em consideração pelo que representaram nesse sentido.

Casos que desvendaram mistérios sobre o funcionamento do cérebro

Phineas Gage, um dos casos clínicos mais interessantes
Phineas Gage era um trabalhador ferroviário dos Estados Unidos que sofreu um acidente incomum. Em setembro de 1848, o jovem operário tinha que explodir uma rocha, mas cometeu um erro e a explosão aconteceu antes do esperado. Como resultado desse erro de cálculo, Phineas voou mais de 20 metros. Ele também foi atingido por uma barra de metal que ficou alojada na sua bochecha e atravessou seu crânio, saindo pela testa.

O caso de Phineas Gage
Foi o doutor Harlow quem o atendeu e deixou seu depoimento sobre o ocorrido. O médico se mostrou muito impressionado pelo fato de Phineas ter se mantido consciente depois do acidente e não mostrar sinais de ter perdido o contato com a realidade. Ele passou por uma recuperação que durou apenas 10 semanas e em nenhum momento demonstrou ter perdido sua capacidade cognitiva.

Depois da recuperação, Phineas Gage voltou a realizar seu trabalho normalmente, mas começou a mostrar várias mudanças na sua personalidade. Antes ele era um homem tranquilo e se tornou extremamente irritado. A mesma coisa aconteceu com outras características. Esse é um dos casos clínicos que se tornou clássico porque representa uma evidência de que os padrões de comportamento – ou até mesmo o que chamamos de personalidade – estão relacionados fisicamente com o cérebro.

Apesar disso, alguns estudiosos sugerem que o efeito do trauma e o fato de ter ficado com uma deformação no rosto não foram fatores suficientemente estudados. Na opinião de alguns estudiosos, esses fatores também podem ter tido grande impacto na mudança que Phineas sofreu.

O caso do paciente HM
Esse também é um dos casos clínicos que impactaram o mundo da ciência no que diz respeito ao funcionamento do cérebro. Estamos falando de Henry Molaison, que entrou para a história como o “paciente HM”. Quando tinha 27 anos, ele passou por uma cirurgia na qual foi extraída uma parte do seu cérebro, da qual faziam parte o hipocampo e um pedaço da amígdala. O objetivo era colocar um fim aos ataques de epilepsia que esse homem sofria.

O resultado da cirurgia foi, no mínimo, surpreendente. O paciente HM se tornou incapaz de armazenar novas memórias. Ele se lembrava de tudo que tinha acontecido antes da cirurgia, mas nada além disso. Esse homem viveu para sempre, e literalmente, no presente. Ele se esquecia de tudo logo após acontecer. Por exemplo, se alguém entrava, o cumprimentava e logo em seguida saia, quando minutos depois a mesma pessoa voltava, HM era incapaz de reconhecê-la.

Durante toda sua vida, o paciente HM viveu rodeado por médicos e em meio à terrível tragédia de não conseguir formar novas memórias. Ele morreu em 2009. Como seu caso era um dos casos clínicos mais famosos, a autópsia do seu cérebro foi realizada com transmissão ao vivo pela Internet. Nesse processo se descobriu que a área mais deteriorada do seu cérebro era o “córtex entorrinal”, a mesma que fica comprometida nas fases iniciais do Alzheimer.

O caso Donald
Donald foi um homem que assassinou sua namorada sob efeito de PCP (fenciclidina). Depois ele não se lembrava de nada. Perante esses fatos, foi diagnosticada amnésia orgânica. Após sair de um confinamento psiquiátrico, Donald foi atingido fortemente na cabeça e ficou em coma. Quando ele acordou, uma coisa espantosa começou a acontecer.

Donald começou a se lembrar do assassinato, repetidas vezes, até que essa lembrança se tornou incontrolável. Continuamente ele via o assassinato na sua mente e o recriava repetidamente, uma coisa desesperadora para ele. Além disso, Donald apresentava algumas crises e dormência do lado esquerdo do seu corpo.

O caso de Donald é um dos casos clínicos mais misteriosos. A ciência ainda não conseguiu explicar por que uma lembrança perdida retornou. Muito menos sabe por que, quando a lembrança voltou, ela se manifestou de maneira tão conturbada para o paciente, algo que foi mais conturbado que a própria lembrança. 

Esses são alguns dos casos clínicos mais relevantes da história. Cada um deles nos permitiu fazer progressos, às vezes às cegas, no campo do conhecimento do funcionamento do cérebro. Lamentavelmente, as pessoas que tornaram possíveis esses progressos sofreram os efeitos de não possuir “um cérebro normal”, mas deixaram um grande presente da humanidade.

A VERDADE ESTÁ À FRENTE DO NOSSO NARIZ - Dostoievski

Nós já esquecemos completamente o axioma de que que a verdade é a coisa mais poética no mundo, especialmente no seu estado puro.

Mais do que isso: é ainda mais fantástica que aquilo que a mente humana é capaz de fabricar ou conceber... de fato, os homens conseguiram finalmente ser bem sucedidos em converter tudo o que a mente humana é capaz de mentir e acreditar em algo mais compreensível que a verdade, e é isso que prevalece por todo o mundo.

Durante séculos a verdade irá continuar à frente do nariz das pessoas mas estas não a tomarão: irão persegui-la através da fabricação, precisamente porque procuram algo fantástico e utópico.
 Fiodor Dostoievski, in 'Diário de um Escitor'

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