A DOENÇA DE SER NORMAL - Eliane Brum

Com medo da liberdade, 
preferimos aderir à manada.

Na semana passada, li uma entrevista do professor José Hermógenes de Andrade Filho, uma lenda no mundo da ioga no Brasil. No texto, ele conta ter criado uma palavra – “normose” – para dar conta daquele que talvez seja o grande mal do homem contemporâneo. “Normose” seria a “doença de ser normal”. O professor explica: “Como diz o título de um documentário que fizeram sobre mim: ‘Deus me livre de ser normal!’. Pois, na dita normalidade em que vivemos, somos constantemente alimentados pelo que nos aliena de nós. Com isso, perdemos a noção das coisas, do sentido de nossa vida, deixando que o mundo interfira muito mais do que deveria. (...) Essa normalidade nunca esteve tão distante da verdade”.

A entrevista faz parte de uma coletânea de boas conversas com pessoas ligadas ao universo da espiritualidade – não necessariamente religiosa – no Brasil e no mundo, escrito em dois volumes pelo jornalista mineiro Lauro Henriques Jr., com o título “Palavras de poder” (LeYa, 2011). Ganhei os dois livros de uma pessoa especial na minha vida e por isso comecei a ler com curiosidade. Me deparei com a “normose” do professor Hermógenes. E fiquei instigada a pensar sobre ela.

No mesmo período, o psicanalista e romancista Contardo Calligaris fez na Flip, em Paraty, um comentário bem provocador: "Quando desistimos da nossa singularidade para descansar no comportamento de grupo, aí está a origem do mal. O grupo, para mim, é o mal."

Acredito que, por caminhos diferentes, Hermógenes e Calligaris nos estimulam a pensar em algo que vale a pena, que um chamou de “normose” e o outro de “comportamento de grupo”. Daqui em diante, enveredo pelas minhas reflexões a partir das provocações de ambos – que possivelmente sejam diversas do que eles pensaram ao propô-las. A responsabilidade, portanto, é minha.

No passado, a vida no Ocidente era determinada pela tradição. O destino de cada um era imutável, definido pela sua origem, pela categoria social a qual pertencia, e não havia dilemas sobre o que seria a sua passagem pelo mundo: se você fosse homem, seguiria os passos do pai; se fosse mulher, os da mãe. De todos era esperado o cumprimento de um roteiro previsível, que, se você nascesse homem, consistia em dar sequência aos negócios ou ao ócio da família, ou trabalhar para o mesmo patrão ou senhor do pai; e, se nascesse mulher, casar-se com alguém do mesmo nível social, em contratos arranjados previamente, reproduzir-se e cuidar da sua própria casa ou servir na casa em que a mãe serviu. Além disso, esperava-se que cada novo núcleo familiar seguisse a religião dos pais e participasse da comunidade do jeito de sempre, cada um no seu lugar determinado pelo estrato social.

A modernidade embaralhou tudo isso. E fomos, como disse Sartre, “condenados a ser livres”. É o preço que o indivíduo paga para ser indivíduo. Ainda que, em países desiguais como o Brasil, a classe social na qual se nasce influencie as chances que cada um vai ter, mesmo aqui estamos muito longe de ter o lugar cimentado da tradição do mundo de ontem. E cada governo democrático, se quiser garantir a continuidade de seu projeto no poder, precisa agora prometer trabalhar para igualar as bases de onde cada cidadão partirá para construir sua história. No mundo contemporâneo, cada um é o principal responsável pelas suas escolhas, pelos seus desejos e pelas suas desistências.

Embora existam muitos órfãos da tradição, suspirosos de nostalgia, penso que a prisão daquela vida determinada desde antes do nascimento era mais assustadora do que a liberdade de se estrepar que a modernidade nos deu. É verdade, porém, que para viver hoje é necessário um outro tipo de coragem, já que cada homem ou mulher virou em si um projeto em constante construção e desconstrução. Não é que não exista mais chão, mas ele é pantanoso, e cada um precisa escolher diante de um emaranhado de trilhas. E, se cada uma delas leva a lugares diferentes, é fato que nenhuma é segura.

É aí que a “normose” ou o “comportamento de grupo” se encaixa. Qual é o desafio de cada um de nós hoje? Desde que você não esteja na faixa da população em que toda energia e talentos são gastos na luta pela sobrevivência mais básica, o desafio que se impõe diante de cada um é a busca da sua singularidade. E esta é a busca de uma vida inteira. Não como se você tivesse uma essência que precisasse encontrar e, tão logo encontrada, estivesse tudo resolvido. Pelo contrário, esta procura leva à invenção de nós mesmos – e nunca está nada resolvido, já que sempre podemos nos reinventar. Não sem limites, mas às voltas com eles.

A proposta da modernidade e da ideia de indivíduo, muito mais libertária do que nossos antepassados amarrados pela tradição jamais sonharam, parece ótima. O problema é que dá uma angústia danada, já que, a rigor, não haveria ninguém para culpar por uma escolha equivocada ou porque o enredo que inventamos para a nossa vida saiu diferente do nosso desejo. Então, com medo de nos “enforcarmos nas cordas da liberdade”, como diz o ator Antônio Abujamra no programa “Provocações” (TV Cultura), em vez de nos arriscarmos a criar uma vida, nos responsabilizando por ela, aderimos à manada. E aqui, é importante deixar bem claro, não estou me referindo a lutas coletivas movidas por indivíduos unidos por suas singularidades, mas à adesão que implica se deixar possuir pelo grupo para não se arriscar a ser possuído por si mesmo.

Nesta adesão à manada, a “normose” ou o “comportamento de grupo” substituiria ilusoriamente o vazio deixado pela tradição. Com medo da liberdade e dos riscos inerentes a ela, muitos de nós colam no grupo. Seja ele do tipo que for: religioso, corporativo, profissional, cultural, intelectual, político, de orientação sexual ou até esportivo. Cada um deles garante, ainda que de forma muito mais frágil do que a tradição, um certo jeito de se comportar e de se vestir, um tipo de ambiente a frequentar, temas que merecem ser debatidos, gêneros de lazer e de viagens para as férias e para os fins de semana, crenças para compartilhar e até bens para adquirir. Um tipo de “normose” – que, paradoxalmente, mas com muita lógica, dentro do grupo é tratada como “diferentose”, já que, como coletivo, contrapõe as suas verdades a dos outros grupos, em geral vistos como inferiores ou limitados.

E como estas são as pessoas com quem se convive, torna-se meio inevitável namorar e ter filhos com gente da mesma turma. Assim como a tendência é reproduzir mais e mais os mesmos padrões e visão de mundo. Sem questionar, porque questionar possivelmente levaria a uma ação. E todos nós conhecemos gente, quando não nós mesmos, que prefere deixar tudo como está, ainda que doa, para não se arriscar ao desconhecido. É assim que muitos de nós abrem mão da época histórica mais rica de possibilidades de ser em troca de uma mercadoria bem ordinária: a ilusão de segurança. Mas, como sabemos, lá no fundo sentimos que algo está bem errado. Especialmente quando fica difícil levantar da cama pela manhã para seguir o roteiro programado.
Suspeito que o mal-estar contemporâneo tem muito a ver com não estarmos à altura do nosso tempo. 


No passado, havia “outsiders”, gente que desafiava a tradição para inventar uma outra história para si. Hoje, com a (bendita) falência da tradição, talvez o que se exija de nós seja que todos sejamos “outsiders” à nossa própria maneira – não no sentido de contrariar o mundo inteiro, mas de encontrar o que faz sentido para cada um, arriscando-se ao percurso tortuoso do desejo. Ciente de que, logo adiante, vamos perder o sentido mais uma vez e teremos de nos reinventar de novo e de novo, num processo contínuo de construção e desconstrução movido pela dúvida – e não pelas certezas.

Vivemos numa época de intenso movimento interno, em que se perder seja talvez o melhor caminho para se achar, mas nos agarramos à primeira falsa promessa como desculpa para permanecermos imóveis. Voltados sempre para fora e cada vez com mais pressa, porque olhar para dentro com a calma e a honestidade necessárias seria perigoso. Queremos garantia onde não há nenhuma, sem perceber que o imprevisível pode nos levar a um lugar mais interessante. Podemos finalmente andar por aí desencaixotados, mas na primeira oportunidade nos jogamos de cabeça numa gaveta com rótulo. Ainda que disfarçada de vanguarda.

Mas o que pode ser mais extraordinário do que inventar uma vida, ainda que com todas as limitações do existir? E que utopia pode ser maior do que nos igualarmos pela singularidade do que cada um é?
Acho que vivemos um momento histórico muito rico. Só precisamos de mais coragem. Como diz o professor Hermógenes, do alto dos seus 90 anos, “Deus (seja ele o que for – ou não – para cada um) me livre de ser normal!”. 

FELICIDADE E LUCIDEZ - Andrè Comte-Sponville

O que é a sabedoria? É a felicidade na verdade, ou «a alegria que nasce da verdade». 

Esta é a expressão que Santo Agostinho utiliza para definir a beatitude, a vida verdadeiramente feliz, em oposição ás nossas pequenas felicidades, sempre mais ou menos factícias ou ilusórias.

Sou sensível ao fato de que é a mesma palavra beatitude que Espinoza retomará, bem mais tarde, para designar a felicidade do sábio, a felicidade que não é a recompensa da virtude mas a própria virtude...

A beatitude é a felicidade do sábio, em oposição às felicidades que nós, que não somos sábios, conhecemos comumente, ou, digamos, às nossas aparências de felicidade, que às vezes são alimentadas por drogas ou alcoóis, muitas vezes por ilusões, diversão ou má-fé. Pequenas mentiras, pequenos derivativos, remedinhos, estimulantezinhos...

Não sejamos severos demais. Nem sempre podemos dispensá-los. Mas a sabedoria é outra coisa. A sabedoria seria a felicidade na verdade.

A sabedoria? É uma felicidade verdadeira ou uma verdade feliz. Não façamos disso um absoluto, porém. Podemos ser mais ou menos sábios, do mesmo modo que podemos ser mais ou menos loucos. 

Digamos que a sabedoria aponta para uma direção: a do máximo de felicidade no máximo de lucidez.

DEFINIR OS LIMITES É A VERDADEIRA ARTE DA ASSERTIVIDADE - Eva Maria

 
A assertividade é uma habilidade fundamental para lidar diplomaticamente com as situações nas quais os outros assumem mais liberdade do que deveriam. Esta definição pouco ortodoxa atende a uma realidade que todos nós enfrentamos: a falta de consideração pelos direitos do outro, inclusive a falta de respeito. Definir limites de forma firme e pacífica é a chave para não sermos pisados, para que nos respeitem sem perder o respeito.

Uma das vantagens de aprender a definir limites é que fazendo isto também estamos reconhecendo os direitos dos outros, nossos limites com relação aos demais. Isto significa que ser assertivo seguindo esta dica também nos transforma em pessoas mais respeitosas.

“Atrever-se a estabelecer limites significa ter o valor de amar a si mesmo, inclusive quando corremos o risco de decepcionar os outros.” 
-Brene de Brown-

Identifique onde estão os seus limites

O que é longe demais para você? O que você está disposto a tolerar das outras pessoas, dependendo do tipo de relacionamento que você tiver com elas? Defina quais são os limites, tanto para você quanto para os outros. Que sejam estes ou aqueles vai depender de vários fatores, e entre eles da sua personalidade, mas também dos seus valores, das suas crenças e das suas expectativas na vida.

É possível que existam pessoas que se sintam incomodadas pela sua determinação, mas isso não é problema seu. Talvez isso aumente as dificuldades de você se “enquadrar”, mas se o preço é você trair a si mesmo, talvez você tenha que pensar em qual o sentido de continuar por esse caminho.

A boa notícia é que, com o tempo, se você for capaz de preservar os seus limites de forma pacífica, falando as coisas com calma, as pessoas acabam se acostumando, respeitando, e entendendo as linhas vermelhas do que você estabeleceu.

Tenha uma folga, seja flexível

Apesar de ser importante definir limites e deixá-los claros, também é preciso ter uma certa tolerância e ser flexível. Nem todo mundo irá concordar com suas opiniões e isso pode dar lugar a mal entendidos. Nem todo mundo que ultrapassar a sua linha estará com más intenções. Inclusive, pode ser que o façam com a melhor das intenções.

Nesses casos você precisa ter um certo jogo de cintura e considerar a boa intenção do outro. Sempre aja como se não houvesse maldade nas suas intenções. Sim, às vezes para isso é preciso fazer um trabalho de suprimir a incredulidade maior do que se você estivesse assistindo a um filme de Marvel, mas é muito mais saudável e fácil de levar.

“Quando a gente sabe dizer não,
o sim tem um sabor muito diferente.”
-Alejandro Jodorowsky-

Perdão demais pode ser ruim

Apesar da flexibilidade que pode ser demonstrada, os limites existem para serem respeitados. Mas se constantemente alguém está ultrapassando a marca, então estará dificultando a solução do problema. Por isso, é preciso deixar as coisas claras o mais cedo possível.

O bom é que as coisas, se forem bem ditas, só precisam ser ditas uma vez. Mas quanto mais você deixar passar, mais complicado será, e mais risco você está correndo de que o outro se ofenda, mesmo que você se dirija ao outro com bons modos.

Por outro lado, não esqueça de que, quanto mais você ceder nas suas linhas vermelhas, mais difícil será recuperar o terreno que entregou de mãos beijadas e mais você estará exposto a conflitos. Portanto, se você quer respeito, precisa começar se respeitando. Perdoe, sim, mas não se faça de bobo. Uma vez, no máximo duas, é mais do que suficiente.

“Falemos o que for preciso dizer. Podemos falar suavemente, mas com firmeza, falando com o coração. Não precisamos ser críticos ou insensíveis, nem culpar ou se mostrar cruel quando falamos nossas verdades.”
-Melody Beattie-

Dicas para falar as coisas com assertividade

Para falar as coisas com assertividade não basta soltar a lista de limites que você quer deixar claros e que não podem ser ultrapassados, ou dizer para o outro simplesmente, “você está atravessando a linha, por favor, respeite o meu espaço”. Além de ter as coisas claras e ter a capacidade para dizê-las com serenidade, também é preciso saber o que dizer.

Estas são as quatro dicas para falar as coisas com assertividade, de forma que os limites estabelecidos tenham mais probabilidade de serem respeitados:

Avise a outra pessoa que você tem uma coisa a lhe dizer, sem demonstrar uma reação emocional ou mandando uma mensagem de acusação. Se você está no meio de uma conversa e ela lhe deu um coice, peça uma pausa.

Diga qual é o problema e por que ele é um problema. Explique o que incomoda você e exponha os seus motivos.

Explique como você gostaria que ela se comportasse com você e os benefícios que ambos obterão com isso.

Procure chegar a um acordo e a um entendimento. Se ela disser que não entende você ou que não gosta da sua atitude, você pode enfatizar os seus motivos.

Este tipo de comunicação pode ser um poderoso corretivo para um mal comportamento. Procure a proximidade com o outro, de forma firme mas ao mesmo tempo aberta, honesta e sincera. Claro, sempre existe a possibilidade de que o outro não mude a sua atitude, mas pelo menos você terá criado a oportunidade de um entendimento pacífico.

De qualquer forma, evitar o confronto violento ou com maus-tratos sempre é uma boa ideia. Se o outro tem vontade de discutir, não entre no jogo. Desse jeito vocês não chegarão a lugar nenhum. Portanto, não vale a pena continuar. Diga-lhe com tranquilidade que é melhor deixar o assunto para outro momento no qual os estados de ânimo não interfiram para alcançar um ponto em comum.
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A TUA PONTE - Nietzsche


Ninguém pode construir em teu lugar 
As pontes que precisarás passar, 
para atravessar o rio da vida.  
Ninguém, exceto tu, só tu.

Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, 
e semideuses que se oferecerão para levar-te 
além do rio; 

mas isso te custaria a tua própria pessoa; 

tu te hipotecarias e te perderias. 
Existe no mundo um único caminho 
por onde só tu podes passar. 
 
Onde leva? 
Não perguntes, segue-o!

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SÊNECA - Correr riscos

TRABALHAR MAIS DE 39 HORAS POR SEMANA FAZ TÃO MAL QUANTO FUMAR

Pesquisa divulgada pelo The Guardian afirma:
 longas horas no escritório e inatividade física 
são tão danosos à saúde quanto fumar.

O regime de trabalho regular do brasileiro com carteira assinada é de 44 horas semanais. Como nem todos os trabalhadores estão em empregos com essa jornada de trabalho semanal, a média no país foi de 39,3 horas trabalhadas por semana em 2017, segundo dados do IBGE.

A realidade é que a jornada de trabalho de 9h às 5h parece uma realidade distante para muitos trabalhadores brasileiros – especialmente nas regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro, onde a média chega a 41 horas semanais.

Mesmo com jornadas mais flexíveis e dinâmicas de home office, em muitas companhias longas horas de trabalho passaram a ser a regra, e não a exceção. E a tecnologia, que em teoria teria o poder de nos libertar da sobrecarga, pode ter piorado a situação pior: em 2002, menos de 10% dos trabalhadores checavam seu e-mail fora do horário de trabalho – número que hoje chega a 50%.

Exatamente por essa supervalorização das longas horas de trabalho que uma pesquisa realizada pelo Medical Center da Universidade de Columbia tem um sabor tão amargo. Os dados – extraídos do monitoramento de mais de 8 mil profissionais – apontam que aqueles sedentários por mais de 13 horas por dia tinham o dobro de chance de morrer prematuramente do que aqueles inativos por 11 horas e meia (a média de jornada entre os entrevistados era de 12 horas).

A conclusão dos autores é que a mortalidade por ficar longas horas no escritório é similar à de fumar.

Esta não é a primeira pesquisa a apontar esta conclusão. Em julho do ano passado, pesquisadores da University College London acompanharam 85 mil trabalhadores, em especial homens e mulheres de meia idade, e encontraram uma correlação entre carga pesada de trabalho e problemas cardiovasculares. A pesquisa apontava que trabalhar mais de 55 horas por semana aumentava em 40% a chance de desenvolver arritmia cardíaca.

Além disso, os trabalhadores que ficavam mais horas no escritório tinham mais sobrepeso, pressão mais alta e consumiam mais álcool que os outros.

Outra pesquisa da Australian National University aponta que qualquer carga de trabalho acima de 39 horas por semana é um risco ao bem estar.

Muito trabalho a ser entregue e, por vezes, metas ambiciosas parecem justificar noites viradas, xícaras de café e fins de semana trabalhando. Porém, outra pesquisa aponta que a produtividade média dos trabalhadores atualmente no mercado é de quatro horas. Segundo o autor da pesquisa, Alex Soojung-Kim Pang, a jornada de trabalho semanal poderia ser drasticamente reduzida sem que, necessariamente, a produção ou prosperidade econômica da região ou país seja prejudicada.

Este argumento foi verificado em pelo menos um caso real – na Suécia. O governo aprovou um experimento no qual enfermeiros passaram a trabalhar seis horas por dia, ainda recebendo o salário de 8 horas.

Como resultado, caíram os índices de estresse, ausências por doenças e ocorreu um aumento significativo de produtividade.
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ATRAÇÃO FÍSICA NÃO BASTA, TEM QUE HAVER ATRAÇÃO MENTAL - Marcel Camargo

Algumas pessoas nos atraem, de primeira, somente pela aparência, sem nem sabermos explicar o porquê direito. É a chamada atração física, que muitas vezes aproxima as pessoas, de início, para aventuras iniciais. No entanto, caso o físico não nos revele uma essência interessante, o relacionamento não dura, não se sustenta.

Embora hoje as aparências e superficialidades sejam supervalorizadas, em meio à rapidez que permeia todos os setores de nossas vidas, transformando-nos em robôs ligados no modo automático, na maioria das vezes insensíveis, não existe relacionamento capaz de sobreviver somente pautado sobre a materialidade. Se sobreviver, será aos pedaços, desconexo, inverídico.

Viver não é fácil, ainda mais com as dificuldades que crescem a cada dia. Sem que tenhamos alguém que nos receba com verdade e transparência ao final do dia, tudo ficará pior. Os pesos de fora se acumularão aos que nos aguardarão no lar, onde o amor não estará. Ou ficamos com a nossa própria companhia, ou com alguém que nos seja recíproco, porque, ao menos em nosso tempo livre, teremos que nos distanciar do que é falso, vazio e irreal.

O amor é muito mais do que atração física
Conviver com alguém requer entrega, partilha, sinceridade, o que não se sustenta sob aparências e frivolidades. A atração física pode até servir para a aproximação, porém, o que faz o amor durar é exatamente o que não se vê, o que é de dentro, íntimo e pessoal. Somente quem se desnuda para além do corpo é capaz de se entregar e de receber sentimentos verdadeiros. A superficialidade é como um muro que barra o que vem de dentro.

O corpo envelhece, a pele enruga, os cabelos vão ficando brancos, a força física se esvai aos poucos, porém, sentimentos verdadeiros e recíprocos permanecem acesos e renovados a cada amanhecer. No final de nossas vidas o sexo já não fará diferença alguma, mas sim as conversas entre nós e a pessoa amada. E é assim que o amor fica. E é assim que o para sempre não acaba.
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ÀS VEZES É PRECISO SEGUIR EM FRENTE, COMO SE NADA TIVESSE ACONTECIDO…

Às vezes é preciso seguir em frente, não como uma opção, mas como uma obrigação. Um elo psíquico indiscutível. A fusão de um material luminoso e resistente que deve cobrir o nosso coração para nos permitir avançar, como se nada pudesse tirar a nossa esperança, como se ninguém fosse tão poderoso para nos tirar a oportunidade de sermos felizes mais uma vez.

Todos nós já passamos por isso, todos nós já ficamos presos em um momento específico da nossa vida. Quando isso acontece, o nosso universo fica distorcido, ficamos perdidos e fora de sintonia, ancorados em uma dimensão estranha e sufocante. Sabemos muito bem que tudo que fica parado ou se agarra a algo deteriora, assim como água estagnada começa a cheirar mal.

“O segredo para seguir em frente é começar a caminhar”.
– Mark Twain –

Quando passamos por momentos complicados e adversos, há uma parte do nosso cérebro que nos encoraja a avançar. É a voz da lógica, essa que se alinha ao que as pessoas mais próximas nos dizem, quando tentam nos encorajar e se preocupam conosco: nos oferecem o melhor suporte e as melhores palavras. No entanto, há outra parte do nosso cérebro que é resistente à mudanças e está completamente ligada aos eventos dolorosos que lhe tiraram a calma, e acima de tudo, ao sentimento de segurança.

Afastar-se de algo ou alguém, abandonar tudo o que nos identifica como um emprego ou uma amizade, nos coloca em um estado de alerta. Uma situação complexa que é necessário gerenciar adequadamente, meticulosamente e com sabedoria.

Além de afastar todo esse acúmulo de emoções negativas que nos atormentam, é conveniente entender antes esse nó emocional para compreendê-lo e desvendá-lo. Uma situação tão complexa que, se conseguirmos controlar e decifrar, nos oferecerá o impulso necessário para entendermos que é preciso seguir em frente.

Avançar é a única opção válida

Às vezes subestimamos a maravilhosa capacidade de resistência e superação que cada um de nós tem no seu interior, dentro do nosso coração. Um diamante bruto indestrutível capaz de iluminar os nossos caminhos. Para aprofundar esta ideia, vale a pena conhecer uma pequena história que, sem dúvida, nos fará refletir.

Todos nós já vimos o famoso cartaz que traz a seguinte frase: “Keep Calm and Carry On”. Manter a calma e avançar é possivelmente uma das mensagens mais vendidas no campo do crescimento pessoal. No entanto, a sua origem é bastante curiosa. Para conhecê-la é preciso viajar até a Segunda Guerra Mundial na capital britânica, para a Londres de 1940.

O governo sabia que a situação no Reino Unido não poderia ser mais complicada. A guerra estava no seu pior momento e as bombas do exército alemão estavam atingindo as cidades regularmente. Eles precisavam de instrumentos defensivos, não apenas referentes ao armamento, mas precisavam elevar a moral da população, alimentar a famosa fleuma britânica para que os ânimos não se desintegrassem nesse contexto.

Para isso, criaram vários cartazes para colocá-los nas ruas. Dessa forma, foram criadas várias propostas como: “Your Courage, Your Cheerfulness, Your Resolution will bring us Victory” (Sua coragem, alegria e determinação nos darão a vitória) e “Keep Calm and Carry On”, (“Mantenha a calma e siga em frente”). Este último foi o cartaz escolhido e foram impressas mais de dois milhões de cópias. Podemos dizer que, para este projeto, foi investido uma boa parte do orçamento geral.

Fique calmo e siga em frente

A questão é, essa ajuda impressionante e bem-intencionada teve alguma utilidade? A resposta é simples: não era necessária. Esses cartazes nunca apareceram nas ruas. Winston Churchill considerou que não eram adequados porque os ingleses não precisavam de mensagens paternalistas. As pessoas já sabiam muito bem que a única opção possível era seguir em frente, lutar e confiar. O ser humano já possui esse mecanismo próprio para tirar forças da adversidade, resistir e avançar…

Colocar essas mensagens nas ruas seria pouco mais do que uma piada ou uma brincadeira. Por isso esconderam, ocultaram e destruíram boa parte deles, para que ninguém descobrisse que haviam investido uma quantidade considerável de dinheiro em algo que simplesmente não era necessário.

No ano 2000 encontraram acidentalmente uma parte deles em uma livraria antiga. A descoberta foi tão surpreendente que não demorou muito para que uma frase criada há várias décadas se tornasse conhecida e popularizada…

“O sucesso está em ir de fracasso em fracasso
sem perder o entusiasmo”.
– Winston Churchill

É preciso seguir em frente com entusiasmo e confiança

O ser humano é feito de um material indestrutível e está em seus genes resistir e persistir. No entanto… o que podemos fazer quando perdemos o entusiasmo? Como reagir quando temos os nossos pés presos, o nossos corações tristes e as nossas mentes habitadas por pensamentos negativos?

Chaves para continuar sem perder a coragem

Conheça as suas emoções. Como dissemos no início, devemos ser capazes de nos aprofundarmos nesse nó emocional, tomar consciência das emoções negativas e compreendê-las, desintegrá-las, torná-las nossas e canalizá-las para que, pouco a pouco, elas percam a intensidade.

O que você merece? 
Pense nisso, reflita sobre essa questão e faça uma lista do que você merece como pessoa: ser feliz, ter outra oportunidade, ser mais livre, assumir a responsabilidade por si mesmo, amar e ser amado, alcançar o sucesso, novos objetivos…

Veja como os seus pés tocam o chão. 
Pode parecer bobagem, mas algo tão simples como sentir nossos pés tocando o chão nos dá uma sensação de segurança e mobilidade.

Não estamos presos, temos a capacidade de nos movermos, de seguir em frente…

Pratique a respiração profunda e a meditação. Conectar-nos com nós mesmos e com tudo o que nos rodeia é fundamental. Essas práticas nos ajudarão a focar, canalizar as emoções e deixar a mente consciente de outras perspectivas.

Forme um grupo de pessoas resilientes. Provavelmente entre os seus amigos e familiares, há pessoas que passaram por situações complicadas e que, sem dúvida, seguiram em frente. Permita-se aprender com elas.

Crie um mantra. Crie uma frase que sirva de incentivo e motivação no seu dia a dia. Aqui estão alguns exemplos: “Eu mereço”, “Eu sou corajoso”, “Coisas incríveis me esperam, estou preparado para elas”.

Finalmente, falta o passo mais importante: tomar impulso. Seguir em frente é um ato de fé, de confiança em si mesmo e nos próprios recursos.

Algo que todos nós podemos fazer para alcançar uma realidade mais plena e satisfatória. A realidade que merecemos.

AS NOSSAS POSSIBILIDADES DE FELICIDADE - Sigmund Freud

 É simplesmente o princípio do prazer que traça o programa do objectivo da vida. Este princípio domina a operação do aparelho mental desde o princípio; não pode haver dúvida quanto à sua eficiência, e no entanto o seu programa está em conflito com o mundo inteiro, tanto com o macrocosmo como com o microcosmo. Não pode simplesmente ser executado porque toda a constituição das coisas está contra ele; poderíamos dizer que a intenção de que o homem fosse feliz não estava incluída no esquema da Criação.

Aquilo a que se chama felicidade no seu sentido mais restrito vem da satisfação — frequentemente instantânea — de necessidades reprimidas que atingiram uma grande intensidade, e que pela sua natureza só podem ser uma experiência transitória. Quando uma condição desejada pelo princípio do prazer é protelada, tem como resultado uma sensação de consolo moderado; somos constituídos de tal forma que conseguirmos ter prazer intenso em contrastes, e muito menos nos próprios estados intensos.

As nossas possibilidades de felicidade são assim limitadas desde o princípio pela nossa formação. É muito mais fácil ser infeliz.

O sofrimento tem três procedências: o nosso corpo, que está destinado à decadência e dissolução e nem sequer pode passar sem a ansiedade e a dor como sinais de perigo; o mundo externo, que se pode enfurecer contra nós com as mais poderosas e implacáveis forças de destruição; e, por fim, a relação com os outros homens.

A infelicidade que esta última origina é talvez a mais dolorosa de todas; temos tendência para a considerar mais ou menos um suplemento gratuito, embora não possa ser uma fatalidade menos inevitável do que o sofrimento que provém das outras fontes.

Não é de admirar que, debaixo da pressão destas possibilidades de sofrimento, a humanidade esteja habituada a reduzir as suas exigências de felicidade, nem que o próprio princípio do prazer se modifique para um princípio da realidade mais acomodado sob a influência do ambiente externo. Se um homem se julga feliz, fugiu simplesmente à infelicidade ou a dificuldades. Em geral, a tarefa de evitar o sofrimento atira para segundo plano a de obter a felicidade. A reflexão mostra que há várias formas de tentar cumprir esta tarefa; e todas estas formas foram recomendadas por várias escolas de sabedoria na arte da vida e posta em prática pelos homens.

A satisfação desenfreada de todos os desejos impõe-se em primeiro plano como o mais atractivo princípio orientador da vida, mas implica preferir o gozo à prudência e penaliza-se depois de uma curta satisfação. Os outros métodos, nos quais o evitar do sofrimento é o principal motivo, distinguem-se segundo a fonte de sofrimento contra a qual estão dirigidos. Algumas destas medidas são extremas e outras moderadas, algumas são unilaterais e outras tratam vários aspectos do assunto ao mesmo tempo.

A solidão voluntária, o isolamento dos outros, é a salvaguarda mais rápida contra a infelicidade que possa surgir das relações humanas. Sabemos o que isto significa: a felicidade encontrada neste caminho é a da paz. Podemos defender-nos contra o temido mundo externo, voltando-nos simplesmente para uma outra direcção, se a dificuldade tiver que ser resolvida sem ajuda.

Há na realidade um outro caminho melhor: o de cooperar com o resto da comunidade humana e aceitar o ataque à natureza, forçando-a a obedecer à vontade humana. Trabalha-se então com todos para o bem de todos.

FALAR CONSIGO MESMO: UMA PRÁTICA MUITO TERAPÊUTICA

Falar consigo mesmo em voz alta tem pouco a ver com insanidade, bem como estabelecer um diálogo interno para diminuir tristezas e abrandar preocupações. Para além disso, poucas práticas são mais terapêuticas. Porque, afinal, todos vivemos com nós mesmos e se comunicar com seu próprio ser é algo vital, algo catártico e emocionalmente necessário para nos cuidarmos como merecemos.

Com grande acerto, Aldous Huxley dizia que há apenas uma pequena parte do universo que podemos conhecer em profundidade e melhorá-la, essa parte é nossa e nos pertence: nós mesmos. No entanto, por mais curioso que pareça, nem sempre damos a atenção que essa parte merece. Nós nos descuidamos como alguém que deixa seu diário pessoal na gaveta, como quem deixa as chaves de casa em bolsos alheios.

“Nem sequer o melhor explorador do mundo faz viagens tão amplas como o homem que desce às profundezas de seu coração.”
– Julien Green-

Além disso, conforme os psicólogos explicam, todos nós fazemos uso do diálogo interno; porém, fazemos da pior maneira possível. Um exemplo: Ethan Kross, conhecido cientista da psicologia emocional da Universidade de Michigan, se deu conta de que o ser humano é irremediavelmente propenso à auto conversação negativa.

Ele mesmo percebeu isso uma manhã enquanto estava atento ao seu celular. Sem se dar conta, ele atravessou uma faixa de pedestres com o semáforo vermelho. Depois de se esquivar por pouco de um carro que estava prestes a atropelá-lo, ele se surpreendeu ao pronunciar seu próprio nome em voz alta, recriminando o quão estúpido ele poderia ser.

A maioria de nós faz isso. Quando algo não sai como esperamos ou quando cometemos um erro, não demora para sair essa ávida voz da consciência dizendo o quão desajeitados ou inúteis somos. E é esse persistente diálogo interno negativo que nos leva a sérios estados de desamparo e a contornar perigosamente o abismo da depressão. Vamos evitar isso: mudemos o discurso.

Falar consigo mesmo, o segredo para a saúde

O professor Ethan Kross, mencionado acima, realizou uma série de experimentos na Universidade de Michigan, com os quais concluiu algo tão interessante quanto útil: as pessoas que conversavam consigo mesmas e que começavam seus diálogos pronunciando seu nome tinham mais sucesso em suas vidas, mostravam maior segurança pessoal e aparentavam ser mais felizes.

Isso pode parecer ingênuo à primeira vista. Entretanto, conversar com si mesmo nos permite algo que não podemos deixar de lado. O cérebro funciona muito melhor, sua capacidade de percepção torna-se mais habilidosa e também administramos de forma adequada nosso mundo emocional. Portanto, não estamos frente a nenhuma fórmula sem embasamento. O diálogo interno tem um benefício claro comprovado pela ciência, e há muitos estudos que nos demonstram isso.

O diálogo consigo mesmo melhora nossa capacidade intelectual

Falar consigo mesmo não nos tornará mais inteligentes de um dia para o outro. O que vai acontecer é que melhoraremos nossa capacidade intelectual. Ou seja, potencializaremos nossa atenção, nossa capacidade de reflexão, decidiremos melhor, nossa concentração estará mais focalizada e controlaremos as distrações.

Algo tão simples quanto dizer a nós mesmos “Maria, concentre-se mais e pense sobre o que você vai fazer com esse problema” ou “Carlos, você está desperdiçando seu tempo inutilmente, acalme-se e reflita sobre o que está acontecendo” nos ajudará sem dúvidas a melhorar muitos de nossos processos cognitivos.

“Há três coisas extremamente duras: o aço,
os diamantes e conhecer a si mesmo.”
– Benjamin Franklin –

Falar consigo mesmo melhora a autoestima

Cada um de nós vive em um determinado ambiente e com uma série de pessoas com as quais o mesmo fica melhor ou pior. No entanto, além de todo esse contexto, compartilhamos a vida com nós mesmos. Por que nos excluir então dessa equação? Por que não sairmos com nós mesmos durante o dia para tomar um chá ou um café e falar sobre como estão as coisas?

Ninguém nos chamará de loucos, e quem o faz certamente perde uma das melhores técnicas de autoajuda e de crescimento pessoal. Estas são algumas pequenas amostras disso:

Falar consigo mesmo nos permite “focar o momento presente com as emoções presentes” para tomar consciência delas, compreendê-las e gerenciá-las.

O diálogo interno também é uma poderosa fonte de motivação, a mais sincera, a mais confiável e a que nunca deve falhar. Então, mesmo nas situações mais adversas, nada pode ser mais energético do que dizer a si mesmo “Vá em frente, Angela, você está tendo dificuldades, mas você não pode desistir agora, vamos lá”.

Por outro lado, algo que também nos explicam em uma publicação do “Quarterly Journal of Experimental Psychology” é que, ao falar em voz alta, ativamos um “interruptor” no córtex cerebral, onde se baseia a consciência do “eu”. Desse modo, desenvolvemos um controle psicológico melhor para pensar com maior clareza e de forma mais eficiente.

Igualmente, ao dar lugar a essa voz interior mais calma e segura, ganhamos perspectiva e relativizamos os pensamentos negativos e persistentes.

Para concluir, algo que convém ter em mente sobre os benefícios de falar consigo mesmo é que isso só será possível se formos capazes de controlar a conversação interna negativa em primeiro lugar. Essa que pouco a pouco nos sussurra que “por mais que você tente vai dar errado” ou que “você se equivocou novamente, está claro que você não tem solução”.

Vamos evitar isso. Afinal, não há nada pior do que nos transformarmos em nossos piores inimigos. Recordemos, por exemplo, a maneira como Sócrates definiu os pensamentos: “são uma conversa honesta que a alma tem consigo mesma”. Procuremos então não maltratá-la. Vamos cuidar dela como o bem precioso que é e falemos com ela de forma positiva, construtiva e afetiva.

QUANDO A OVELHA NEGRA É A PESSOA MAIS SAUDÁVEL DA FAMÍLIA - Marcel Camargo

É muito difícil encontrar um parâmetro do que possa ser considerado normal ou não. Para alguns, a normalidade está atrelada a comportamentos padronizados socialmente; para outros, tem a ver com preceitos religiosos, e por aí vai. Fato é que, muitas vezes, confunde-se normalidade com calmaria, quietude e obediência, sendo que uma coisa não necessariamente depende da outra.

Quantas vezes nós mesmos não temos uma impressão errada sobre alguém que se veste de uma forma totalmente peculiar, ou possui um corte de cabelo diferente, alguém que, aparentemente, foge ao que é considerado normal? Ou sobre alguém que abraça as causas em que acredita de uma maneira efusiva, brigando por elas sempre que necessário, até mesmo empunhando cartazes e saindo às ruas?

Pois é, a aparência não tem nada a ver com a essência humana, mas parece ser tão difícil entender isso.

Difícil porque o mundo de hoje se baseia naquilo que se vê, naquilo que se ostenta, nas grifes que se vestem, no poder de compra, no tanto que se consome. Com isso, torna-se cada vez mais difícil enxergar o essencial de cada um, aquilo que a pessoa realmente possui dentro de si e consegue viver, praticar, sem machucar ninguém pelo caminho

É o que fazemos que importa, não o que falamos e aparentamos por aí.

E, nos núcleos familiares, não raro se tomam como ovelhas negras justamente as pessoas que contestam, que ousam, que enfrentam o que, embora já esteja estabelecido há muito tempo por várias gerações, trata-se de algo que precisa ser mudado, oxigenado, a fim de se quebrar uma falsa base da zona de conforto que se perpetua há anos. Porque ninguém é obrigado a manter um casamento fracassado ou a se vestir seguindo a moda, somente porque sempre foi assim entre os familiares.

Os ousados é que promovem avanços que abrem novos caminhos a muita gente sem coragem.

Portanto, é preciso muita cautela ao julgar alguém que já foi julgado, pelas pessoas ou pelos familiares, como sendo uma ovelha negra, visto que somente a convivência e o tempo é que mostram realmente o que cada um é de fato.

Muitas vezes, apenas se trata de alguém que não se sujeitou a regras e comportamentos ditos como normais, sabe-se lá por quem ou por quê, e resolveu viver de acordo com as batidas do próprio coração.

Trata-se, enfim, de alguém que não se permitiu ser aceito pelos outros em troca da própria felicidade.

O AMOR NUNCA MORRE DE MORTE NATURAL – Fabrício Carpinejar

Morre porque o matamos ou o deixamos morrer.

Morre envenenado pela angústia. Morre enforcado pelo abraço. Morre esfaqueado pelas costas. Morre eletrocutado pela sinceridade. Morre atropelado pela grosseria. Morre sufocado pela desavença.

Mortes patéticas, cruéis, sem obituário e missa de sétimo dia.

Mortes sem sangramento. Lavadas. Com os ossos e as lembranças deslocados.

O amor não morre de velhice, em paz com a cama e com a fortuna dos dedos.

Morre com um beijo dado sem ênfase. Um dia morno. Uma indiferença. Uma conversa surda. Morre porque queremos que morra. Decidimos que ele está morto. Facilitamos seu estremecimento.

O amor não poderia morrer, ele não tem fim. Nós que criamos a despedida por não suportar sua longevidade. Por invejar que ele seja maior do que a nossa vida.

O fim do amor não será suicídio. O amor é sempre homicídio. A boca estará estranhamente carregada.

Repassei os olhos pelos meus namoros e casamentos. Permiti que o amor morresse. Eu o vi indo para o mar de noite e não socorri. Eu vi que ele poderia escorregar dos andares da memória e não apressei o corrimão. Não avisei o amor no primeiro sinal de fraqueza. No primeiro acidente. Aceitei que desmoronasse, não levantei as ruínas sobre o passado. Fui orgulhoso e não me arrependi. Meu orgulho não salvou ninguém. O orgulho não salva, o orgulho coleciona mortos.

No mínimo, merecia ser incriminado por omissão.

Mas talvez eu tenha matado meus amores. Seja um serial killer. Perigoso, silencioso, como todos os amantes, com aparência inofensiva de balconista. Fiz da dor uma alegria quando não restava alegria.

Mato; não confesso e repito os rituais. Escondo o corpo dela em meu próprio corpo. Durmo suando frio e disfarço que foi um pesadelo. Desfaço as pistas e suspeitas assim que termino o relacionamento. Queimo o que fui. E recomeço, com a certeza de que não houve testemunhas.

Mato porque não tolero o contraponto. A divergência. Mato porque ela conheceu meu lado escuro e estou envergonhado. Mato e mudo de personalidade, ao invés de conviver com minhas personalidades inacabadas e falhas.

Mato porque aguardava o elogio e recebia de volta a verdade.

O amor é perigoso para quem não resolveu seus problemas. O amor delata, o amor incomoda, o amor ofende, fala as coisas mais extraordinárias sem recuar. O amor é a boca suja. O amor repetirá na cozinha o que foi contado em segredo no quarto. O amor vai abrir o assoalho, o porão proibido, fazer faxina em sua casa. Colocar fora o que precisava, reintegrar ao armário o que temia rever.

O amor é sempre assassinado. Para confiarmos a nossa vida para outra pessoa, devemos saber o que fizemos antes com ela.

COMO É UMA RELAÇÃO SAUDÁVEL? – Augusto Cury

Ser individualmente inteligente não significa construir uma relação inteligente e saudável. Pessoas cultas podem construir uma relação irracional, falida emocionalmente, saturada de atritos, destituída de sensibilidade e troca. Casais saudáveis amam-se com um amor inteligente e não apenas com a emoção. Quem usa apenas o instrumento da emoção para sustentar um relacionamento corre o risco de ver os seus sentimentos a flutuar entre o deserto e os glaciares. Num momento, a pessoa vive as labaredas da paixão, noutro vive os glaciares dos atritos. Numa altura troca juras de amor, noutra troca golpes de ciúme. Hoje é dócil como um anjo, amanhã implacável como um carrasco.

A relação «desinteligente» é intensamente instável, enquanto a relação saudável, ainda que golpeada por focos de ansiedade, tem estabilidade. A relação desinteligente é saturada de tédio, enquanto a saudável tem uma aura de aventura. Na relação desinteligente, um é perito em reclamar do outro, enquanto, na relação saudável, um curva-se em agradecimento ao outro. Na relação desinteligente, os atores são individualistas, pensam apenas em si, enquanto, na saudável, os participantes são especialistas em tentar fazer o outro feliz. Na relação doente cobra--se muito e apoia-se pouco, na saudável dá-se muito e cobra-se pouco. Que tipo de casal o leitor forma: saudável ou doente, inteligente ou desinteligente?

Casais inteligentes têm uma mente madura, focam-se no essencial, na grandeza do afeto, na preferência pelo diálogo, pelo espetáculo do respeito mútuo, enquanto casais desinteligentes valorizam o trivial, discutem por tolices, dissipam a sua energia psíquica com pequenos estímulos stressantes, são rápidos a acusar-se e lentos a abraçar-se.

Casais inteligentes enriquecem o território da emoção, valorizam o que o dinheiro não pode comprar, enquanto casais desinteligentes, mesmo quando enriquecem, empobrecem. Como? Empobrecem dentro de si, pois dão uma importância excessiva àquilo que o dinheiro consegue conquistar e não a si próprios.

Casais inteligentes mapeiam e domesticam os vampiros emocionais que sugam a sua alegria, espontaneidade e romance, enquanto os casais desinteligentes escondem os fantasmas nos porões da sua mente.

SINCERICÍDIO: OS RISCOS DE SE TORNAR UM KAMIKAZE DA VERDADE

 Oscar Wilde disse que um pouco de sinceridade é algo perigoso, mas muita sinceridade é absolutamente fatal.

Sem dúvida, existem grandes diferenças entre ser honesto e fazer um "sincericídio". Uma palavra que ainda não existe em português, mas reflete perfeitamente a maneira de se comportar daqueles que poderiam ser classificados como "Kamikazes da verdade". E há uma grande diferença entre falar a verdade e usá-la para causar danos, tanto para si mesmo como para os outros.

Os limites entre sinceridade e sincericídio

O século de ouro espanhol estava correndo quando, em uma pousada de Madri, no calor das bebidas, surgiu uma aposta interessante entre vários cavalheiros. Alguém tinha que se atrever a dizer à rainha em seu rosto que ela estava aleijada.

Dona Isabel, a rainha da Espanha, era famosa por sua beleza, mas uma condição de infância deixou sua perna esquerda semi-imobilizada. Esse defeito era notável ao andar, e a rainha odiava ser mencionada.

Diz-se que Francisco de Quevedo, cavaleiro da corte e famoso tanto por seus versos quanto por suas brigas e aventuras, aceitou a aposta. Antes do olhar atônito de todos, ele apareceu diante da rainha com dois buquês de flores e disse com grande aprumo: "Entre o cravo branco e a rosa vermelha, sua majestade é... coxa..."

Não sei se a anedota é autêntica, mas a verdade é que nos mostra a diferença entre dizer a verdade e cometer sincericídio, isso nos diz sobre a importância de escolher as palavras. No entanto, na vida nem sempre temos essa sutileza e ingenuidade, então, quando brandimos a espada da verdade, podemos causar muitos danos.

O perfil do sincericida

É provável que todos nós já tenhamos nos comportado como sincericidas. No entanto, se dizer a verdade de forma desnuda, ferir os outros, torna-se nossa norma de comportamento, seria conveniente perguntar-mo-nos por que nos tornamos kamikazes da verdade.

Em muitas ocasiões, o apego suicida à verdade é a expressão de algo muito mais profundo, que pode ser um desejo de "punir" o outro ou mesmo a si mesmo. Na verdade, o sincericida é geralmente uma pessoa que acredita que está sendo tratado injustamente, sente que ele não é suficientemente valorizado ou está sendo submetido. Nesses casos, ele usa a verdade como uma arma "legítima" para atacar o mundo, que o decepcionou profundamente.

No entanto, há também o que poderíamos qualificar como "sincericidas nascidas", aqueles que consideram que só eles estão certos e que seu apego à verdade lhes permite passar por qualquer tipo de sutileza social. Eles consideram que o fato de que é "uma verdade como um templo" é razão suficiente. No final, essas pessoas estão convencidas de que só elas são sinceras e todos os outros estão mentindo, se apenas porque "adornam" a verdade para reduzir parte do seu impacto.

A dicotomia do sincericida

Os sincericidas tem uma crença equivocada porque pensam que "ser sincero" equivale a "ser bom". Essas pessoas acreditam que ser "direto", "dizer as coisas como estão" é uma expressão de sua coerência, mas, na realidade, causando prejuízo com sua sinceridade, suas ações revelam uma intenção destrutiva, o que significa que Há um conflito moral porque eles realmente não agem como eles dizem que são.

Por esta razão, a sincericidade costuma ocultar a incapacidade de ser empática e colocar-se no lugar do interlocutor. Na verdade, uma das frases favoritas de sincericidas é: "Eu digo-lhe porque eu gostaria de ser informado".

Isso mostra que o sincericida geralmente decide e age a partir de suas coordenadas, sem levar em conta o que o interlocutor quer ou precisa. O fato de que uma verdade nos faz não significa que isso faça bem aos outros.

3 condições em que a verdade não é lucrativa

Sincericídio é sinceridade sem prudência, a verificação de uma realidade objetiva que se realiza sem um toque de bondade ou beleza. Esse tipo de verdades se torna uma arma que causa danos.

Na verdade, existem algumas situações nas quais é importante ter especial cuidado quando diremos uma verdade porque isso pode ser mais prejudicial do que benéfico.

1. Quando a verdade não agrega valor. No caso da rainha, que estava perfeitamente consciente de sua condição, lembrá-la da verdade só acrescentaria informações inúteis que causariam desconforto. Portanto, quando a pessoa está ciente da verdade, mas a dói, não é necessário lembrá-la porque seria como colocar o dedo na ferida de forma inútil.

2. Quando a pessoa não está pronta para lidar com a verdade. Há situações em que a pessoa não está preparada para ouvir a verdade, então isso pode causar um enorme prejuízo psicológico. Na verdade, uma das tarefas do psicólogo é precisamente preparar a pessoa durante toda a terapia para que você tenha as ferramentas necessárias para enfrentar certas verdades.

3. Quando o tempo não está certo. Muitas vezes, a verdade é difícil, então, para que a pessoa se aproveite, é importante dizer isso no momento certo. Se liberarmos uma verdade em um momento inoportuno, como no meio de um argumento acalorado, é muito provável que cause uma ferida e não gera nenhum bem, mas fará com que essa pessoa se apegue.

Como evitar o sincericídio sem precisar mentir?

A verdade é sempre melhor do que a mentira, mas há casos em que é necessário esclarecer para que não cause danos desnecessários. Não há beleza nem bondade em uma verdade dolorosa e dura expressada de maneira ruim.

Vale à pena esclarecer que não se trata de mentir, mas sim de escolher palavras com prudência, como se fossemos especialistas na desativação de bombas.

Se cotarmos o cabo errado, a "verdade" causará mais estragos do que sua ausência. Portanto, o melhor é avaliar a situação com cuidado e atuar com cautela.
Fonte: Rincón de la Psicologia

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