10 LIÇÕES DE MARCO AURÉLIO QUE PODEM MELHORAR SUA VIDA

Ele foi um dos últimos “bons imperadores” de Roma – que genuinamente se importavam com o bem-estar de seus cidadãos.

Marco Aurélio viveu em uma época em que a morte prevalecia – e o caos estava em toda parte. Ele escreveu um manual (para si mesmo), que hoje conhecemos como as “Meditações.” Não se sabe se a intenção dele fosse a de um dia publicar tais escritos. Provavelmente ele possa ter escrito para si mesmo – para lidar com seus próprios demônios internos.

Mesmo que ele tenha escrito essas palavras há cerca de 2.000 anos, seus insights ainda têm um peso forte hoje.

Como podemos aplicar sua filosofia à nossa vida cotidiana? Abaixo estão alguns insights que você pode aplicar à sua própria vida:

1. Ignore o que os outros estão fazendo

“Não desperdice o que resta da sua vida ao especular sobre seus vizinhos. Qualquer coisa que o distraia da fidelidade ao Governante dentro de você significa uma perda de oportunidade para alguma outra tarefa. ”- Marco Aurélio

Nós temos um tempo limitado na terra. Por que desperdiçar nossa preciosa energia se preocupando com nossos vizinhos? Por que nos importamos com o que eles estão fazendo e o que pensam de nós?

O que precisamos fazer é nos concentrar em nossa tarefa. Qual é a nossa tarefa? Seja qual for a nossa vocação na terra – quer isso signifique criar arte, capacitar outras pessoas ou ser um pai amoroso.

Com as mídias sociais, somos viciados no que os outros estão fazendo. Nós desperdiçamos nossa energia mental invejando os outros. Nós nos comparamos a eles – nos sentimos frustrados por não sermos tão bem-sucedidos quanto nossos colegas. Nós olhamos para os outros com carros de luxo, câmeras sofisticadas e casas de luxo.

E se passássemos toda a nossa vida ignorando o que os outros estão fazendo – e apenas focados em nós mesmos?

2. A realidade é moldada pela sua opinião

Não existe uma realidade “objetiva” – moldamos nossa própria realidade.

Por exemplo, você pode ser um bilionário com todas as posses materiais que deseja e ainda se sentir como um “fracasso” (você pode se comparar a outros bilionários que são ainda mais ricos do que você).

Você pode ser pobre e viver em uma favela, mas pode ser extremamente feliz – porque seu coração está cheio de gratidão.

Marco Aurélio nos diz:

“A vida é apenas o que você julga.”

Ele também nos lembra:

“A vida é opinião.”

Sempre que se trata de qualquer coisa em nossa vida, depende da nossa própria opinião sobre nós mesmos. Nós julgamos o que é bom e ruim em nossa vida.

Nós moldamos nossa própria percepção do mundo com nossos pensamentos. Nenhuma “realidade” externa existe fora de nossas percepções.

A maneira prática pela qual você pode aplicar esse modo de pensar em sua vida é esta: veja tudo em uma luz positiva .

Por exemplo, digamos que alguém fala merda sobre você na sua cara. Ao invés de se sentir frustrado, você pode dizer a si mesmo: “Fico feliz que alguém está falando merda sobre mim, isso significa que eu não sou chato – e fazendo algo interessante.”

Além disso, quando as pessoas nos insultam, tentam nos prejudicar ou nos criticam – não é o insulto que nos fere. É nossa interpretação do que eles estão dizendo que nos fere. Marco Aurélio nos diz:

“Se eu não vejo a coisa como um mal, não me importo.”

Se interpretarmos as ações dos outros como irrelevantes, como podemos nos sentir magoados?

Marco Aurélio também nos diz:

“Rejeite sua sensação de lesão e a própria lesão desaparece.”

Qualquer “dano” que recebemos na vida é apenas a nossa opinião.

Uma metáfora que eu amo é esta: imagine que você está em um barco no meio de um lago. Está nebuloso e escuro. De repente, você é atingido por outro barco e bate com a cabeça. Você está com raiva e frustrado, e quer amaldiçoar a outra pessoa que acabou de esbarrar em você. Mas quando a neblina clareia, você percebe que o outro barco estava vazio. Agora você não sente mais raiva, porque percebe que o outro barco estava vazio. Perceba que todo mundo que tenta nos prejudicar é apenas um barco vazio.

3. Faça menos

Em uma das meditações de Marco Aurélio para si mesmo, ele se lembra da importância de fazer menos na vida – e cortar as ações supérfluas de sua vida:

Se queres conhecer o contentamento, deixa que os teus feitos sejam poucos – disse o sábio. Melhor ainda, limite-os estritamente aos que são essenciais.”

Quais são os benefícios de se ater a algumas ações e apenas fazer o essencial? Marco Aurélio diz a si mesmo: somos mais felizes quando fazemos poucas coisas, mas as fazemos bem:

“Isso traz o contentamento que vem de fazer algumas coisas, mas fazê-las bem. A maior parte do que dizemos e fazemos não é necessária, e sua omissão economizaria tempo e problemas. A cada passo, um homem deve perguntar a si mesmo: “Essa é uma das coisas que são supérfluas?” Não haverá ação desnecessária.

Muitas de nossas ações e palavras são desnecessárias. Ao não fazer ações supérfluas, ficaremos menos estressados.

Devemos sempre nos perguntar: “Isso é supérfluo?”

Precisamos cortar as coisas desnecessárias em nossas vidas. As ações, palavras, pensamentos e emoções menos supérfluos – mais foco teremos para o que é realmente importante para nós na vida. Pode ser o tempo com sua família, o tempo para fazer seu trabalho criativo ou a chance de ajudar os outro

4. A morte está batendo na sua porta

Eu penso muito sobre a morte. Muitas pessoas esquecem a frase: “memento mori” – lembre-se, você estará morto em breve.

Quando sabemos que a morte está próxima, não perdemos nosso tempo. Nós não perdemos nosso precioso tempo de lazer assistindo TV ou outras formas de entretenimento passivo. Nós nos apressamos a fazer o que somos apaixonados e o trabalho que é significativo para nós. Passamos mais tempo com nossos entes queridos e omitimos pessoas e ações supérfluas de nossas vidas.

Lembrar-nos da morte nos dá foco.

Pense em todas as pessoas que descobrem que têm câncer ou alguma outra doença. Uma vez que eles descobrem isso, deixam de lado toda a merda que não gostam de fazer na vida – e só se concentram no que é importante para eles.

No entanto, todos nós temos a capacidade de apenas fazer o que é importante para nós. Ao meditar sobre a morte diariamente, não desperdiçaremos nem uma gota do nosso tempo.

Até mesmo Marco Aurélio dizia a si mesmo:

“Muito em breve você estará morto; mas mesmo assim você não é obstinado ”.

Precisamos ser sinceros para a tarefa da nossa vida.

Um exercício simples que podemos fazer para nos lembrarmos da vida e da morte é este:

“Considere que você morreu hoje e a história da sua vida acabou; e, a partir de agora, considere o tempo adicional que pode ser dado como excedente não coberto. “- Marco Aurelio

Sempre que vou dormir, imagino que seja a última vez que vou dormir. Eu considero minha vida inteira, meu dia, e se eu fiz tudo ao meu alcance para ajudar a capacitar aqueles ao meu redor. Só procrastino em coisas que não me importaria de ser desfeito se estivesse morto.

E quando acordo na manhã seguinte, jogo minhas mãos para o alto e digo a mim mesmo: “É incrível estar vivo! Eu me pergunto como posso usar melhor hoje para ajudar os outros.”

Todos nós precisamos nos lembrar da morte batendo à nossa porta – ou então nunca teremos foco em nossas vidas.

5. Você é mais forte do que pensa

Se você quer ser um boxeador de classe mundial, você terá que lutar contra adversários difíceis. Você será espancado, quebrará alguns ossos, sangrará e, como resultado, ficará mais forte.

Sempre que alguém tentar prejudicá-lo, pense nessas palavras de Marco Aurélio:

“Que sorte eu tenho, que me deixou sem amargura; inabalável pelo presente, e desanimada pelo futuro. A coisa poderia ter acontecido com qualquer um, mas nem todos teriam surgido sem serem remexidos.

Que sorte eu tenho, que me deixou sem amargura; inabalável pelo presente e não afetado pelo futuro. A coisa poderia ter acontecido com qualquer um, mas nem todos teriam ficado imperturbáveis

Você é mais forte do que pensa. Você não pode impedir que outras pessoas joguem merda em você. Mas você pode mudar sua interpretação da situação.

A vida é muito difícil. Como os sábios disseram: “Às vezes, viver é um ato de coragem”.

E não nos esqueçamos do que nos ensina Marco Aurélio:

“A arte de viver é mais como lutar do que dançar.”

6. Você se levanta para o trabalho da humanidade

Ninguém gostaria de viver na Terra se ninguém mais existisse. A sociedade é a cola que nos mantém unidos e é a razão pela qual estamos vivos e a razão pela qual vivemos.

Há dias em que a vida é difícil. Nós não queremos sair da cama. Nós não temos motivação ou inspiração.

Até mesmo Marco Aurélio (o imperador do império romano) freqüentemente se sentia assim. A meditação que ele se deu para encorajar a si mesmo foi esta:

“Na primeira luz do dia temos em disposição, contra a falta de vontade de deixar a cama, o pensamento de que ‘estou me levantando para o trabalho do homem’. Devo resmungar quando saio para fazer o que eu nasci para fazer, e para o bem de ter sido trazido ao mundo, este é o propósito de minhas criações estarem aqui debaixo de cobertores e se aquecerem? “Ah, mas é muito melhor! Foi por prazer, então, que você nasceu e não para o trabalho, não para o esforço?

Nós não somos colocados na terra apenas para sentir prazer. A maior parte da vida consiste em esforço, em luta. Ficar numa manhã gelada debaixo das cobertas é sim muito mais agradável que sair à luta enfrentando o frio, mas o resultado é apenas um prazer momentâneo. Quem se atreve a sair ao frio terá resultados melhores no futuro.

O que nos traz a verdadeira felicidade na vida? Não é apenas se encher de prazer. Pelo contrário, está ajudando os outros e fazendo o que nos foi feito:

“O verdadeiro prazer de um homem é fazer as coisas para as quais ele foi feito.” – Marcus Aurelius

Para que você foi projetado? Depende.

Qual é o seu presente? Pode ser sua capacidade de socializar, fazer os outros se sentirem amados, sua habilidade de ler ou escrever, sua habilidade de pesquisar, sua habilidade de sintetizar informações e dados, sua habilidade de fazer imagens visuais, sua habilidade de capacitar os outros, sua habilidade para ensino, ou sua habilidade para tornar o mundo um lugar mais bonito.

7. Nunca reclame

“Seu pepino está amargo? Jogue fora. Há espinhos em seu caminho? ache um desvio. Isso é o suficiente. ”- Marcus Aurelius

Por que devemos reclamar do mundo?

Se há alguém que te incomoda – simplesmente ignore-os. Deixar de seguir as mídias sociais ou apenas cortar seus laços sociais com elas.

Você odeia o seu trabalho? Saia do seu emprego ou descubra uma maneira de torná-lo menos doloroso ou miserável.

Muitas vezes não podemos mudar nossas situações externas no mundo – mas sempre podemos mudar nossa atitude em relação a isso.

E não apenas isso, mas a vida é toda sobre fazer o melhor daquilo que temos.

Uma boa meditação para pensar a nós mesmos de Marco Aurélio é esta:

“Qual é o melhor que pode ser dito ou feito com os materiais à sua disposição?”

A maioria de nós não tem muito tempo, energia ou dinheiro. Ainda assim, considerando nossos meios limitados, como podemos aproveitar ao máximo o que temos?

8. Você pode viver feliz em qualquer lugar

“Que fique claro para você que o ritmo dos campos verdes sempre pode ser seu, nisto ou em qualquer outro lugar; e que nada é diferente aqui do que seria nas colinas, ou no mar, ou em qualquer outro lugar que você quiser. ”- Marco Aurélio

O que causa muita miséria para muitos de nós é nosso lar, onde vivemos e o desejo de estar em outro lugar.

Podemos morar nos subúrbios e desejamos que vivêssemos na cidade. Podemos morar na cidade e preferir morar no campo. Vivemos no campo, podemos desejar viver na praia. Nós vivemos na praia, nós desejamos que vivêssemos em uma ilha. Se vivêssemos em uma ilha, talvez pudéssemos preferir a conveniência de morar em um subúrbio

Se você estivesse feliz com o local onde morava e com a casa em que vivia – e não desejasse morar em outro lugar, ou em um lar maior ou melhor, quanto mais energia, dinheiro e atenção você poderia ter por coisas melhores na vida?

Mesmo morando onde você mora, você pode encontrar pontos positivos nele.

Se você mora em um lugar “chato”, isso o forçará a ser mais criativo para encontrar coisas interessantes para fazer. E pode ser uma oportunidade para você começar algo interessante.

Você é o mestre do seu próprio destino – nunca reclame onde mora. Em vez disso, colha todos os benefícios do bairro, da cidade ou do lugar em que você mora.

9. Ajudar o bem comum

Aquele que vive para si mesmo está verdadeiramente morto para os outros.

Como você encontra seu propósito e senso de missão na vida? Simples – pense em como você pode ajudar melhor o “bem comum”. Marcus Aurelius lembra a si mesmo:

“Evite todas as ações que são casuais ou sem propósito; e, em segundo lugar, que toda ação vise unicamente o bem comum ”.

Ser um ser humano honrado e decidido é ajudar os outros. Para ajudar os outros não tão afortunados como nós. Para compartilhar nosso dom, nosso conhecimento e nossos recursos para nós. Significa continuar fazendo bem aos outros, mesmo que eles nos odeiem. Como Marcus Aurelius diz:

“Empilhando boas ações em boas ações até que não haja fendas ou entalhes entre elas.”

É difícil. Precisamos aprender a fazer o bem para os outros, sem esperar qualquer tipo de recompensa. O bom ato em si é bom o suficiente. Ser humano é ajudar a servir os outros:

“Depois de ter feito um serviço a um homem, o que mais você teria? Não é suficiente ter obedecido às leis de sua própria natureza, sem esperar ser pago por isso? Isso é como o olho exigindo uma recompensa por ver, ou os pés por andar. É para esse propósito que eles existem; e eles têm o devido em fazer o que eles foram criados para fazer. Similarmente; o homem nasce por atos de bondade; e quando ele fez uma ação gentil, ou de outra forma serviu o bem-estar comum, ele fez o que ele foi feito, e recebeu sua quitação. ”- Marcus Aurelius

E uma vez que você ajuda os outros, esqueça. Melhor ainda – nem mesmo esteja consciente de que você está ajudando os outros. Marco Aurélio nos diz para não ter “consciência de tudo o que ele fez, como a videira que produz um cacho de uvas não parece mais agradecer do que um cavalo que correu sua raça”.

O prazer de ter ajudado os outros é bom o suficiente.

10. Seja grato por suas bênçãos

“Não se envolva em sonhos de ter o que você não tem, mas considere como bênção o que possui e, então, felizmente, lembre-se de como você gostaria de tê-los se não fossem seus.” – Marcus Aurelius

Não importa o quanto somos ricos ou bem-sucedidos, nunca conseguimos obter tudo o que queremos.

Felicidade não é ter tudo no mundo. Pelo contrário, a felicidade é ser grato por todas as bênçãos que já temos.

O MITO DA CAVERNA DE PLATÃO: A DUALIDADE DA NOSSA REALIDADE

O mito da caverna de Platão nos permitiu entender como o filósofo percebia o mundo. Uma relação entre o mundo físico e o mundo das ideias que criam uma realidade repleta de luzes e sombras. Por um lado, temos a realidade como ela é.

Por outro lado, nos encontramos em uma realidade ficcional onde nossas crenças e ilusões desempenham um papel importante. No entanto, antes de mergulharmos neste universo, não deveríamos saber o que o mito da caverna nos diz?

No mito, encontramos homens que, desde o nascimento, estão acorrentados ao fundo de uma caverna. Deste lugar, eles podem ver apenas uma coisa: uma parede. Eles nunca foram capazes de sair e nunca foram capazes de olhar para trás para saber a origem das correntes que os prendem. No entanto, há uma parede atrás deles e, um pouco mais adiante, um incêndio. Entre a parede e o fogo estão homens carregando objetos. Graças ao fogo, as sombras dos objetos são projetadas na parede e os homens acorrentados podem vê-los.

Eu via imagens que eram apenas mentiras e falsas realidades. Mas como eu poderia olhar para elas se, desde criança, essa é a única realidade que tenho visto?

Uma realidade ficcional

Esses homens sempre viram a mesma coisa desde que nasceram; eles não sentiram nem a necessidade nem a curiosidade de se virar e ver o que refletia essas sombras. Mas era uma realidade enganosa e artificial. Essas sombras os distraíram da verdade. No entanto, um desses homens ousou olhar para trás e ver além das coisas.

No começo, ele se sentiu perdido e perturbado, especialmente a luz que ele via na parte de trás (o fogo). Ele começou a duvidar. Ele pensara que as sombras eram a única coisa que existia quando não era. Toda vez que ele andava, suas dúvidas o faziam tentado a retornar ao seu mundo de ilusões.

Apesar de tudo, com paciência e determinação, ele continuou seu avanço. Acostumando-se pouco a pouco a esse mundo tão desconhecido para ele. Sem ser vencido pela confusão ou ser enganado pelos caprichos do medo, ele saiu da caverna. Mas quando ele correu de volta para contar aos seus companheiros, eles o cumprimentaram com uma zombaria. Um desprezo que refletia a incredulidade dessas pessoas na história do aventureiro.

É curioso ver como a visão oferecida pelo mito da caverna pode ser transposta para as notícias. Esse modelo que todos seguimos e por causa do qual, se sairmos do caminho que nos ditam, começamos a ser julgados e criticados. Considere que aceitamos muitas verdades absolutas sem parar por um momento para questioná-las, sem perguntar se o mundo está realmente próximo ou distante dessa realidade.

Por exemplo, pensar que o erro é uma falha pode afetar o fato de que abandonamos qualquer projeto com o menor contratempo. No entanto, se não nos deixar levar por essa idéia, desenvolveremos nossa curiosidade e o erro deixará de ser um demônio cheio de negatividade. Assim, a mudança de perspectiva não apenas nos impedirá de temê-la, mas também nos fará aprender com esses erros quando os cometermos.

Sair da caverna é um processo difícil

No mito da caverna, o homem que decide libertar-se das correntes que o aprisionam toma uma decisão muito difícil; o segundo, em vez de ser bem visto por seus companheiros, é rapidamente tomado como um ato de rebelião. Algo mal visto e que poderia tê-lo empurrado para abandonar essa tentativa. Quando este homem finalmente decide, ele começa a seguir este caminho sozinho, para ir além dessa parede e do fogo, o que o faz duvidar ao mesmo tempo em que ele o cega. Dúvidas o atacam, ele não pode mais distinguir o verdadeiro do falso.

Ele deve se livrar de crenças que há muito o habitam. Idéias que não são apenas enraizadas, mas também a base da árvore de suas crenças. No entanto, como ele se move em direção à saída da caverna, ele percebe que o que ele acreditava não era verdade. Então, o que resta dele? Ele deve convencer aqueles que zombam dele de que existe uma liberdade à qual podem aspirar se decidirem abandonar o aparente conforto em que vivem.

O mito da caverna retrata a ignorância como a realidade que se torna desconfortável quando nos tornamos conscientes de sua presença. Diante da menor possibilidade da existência de outra visão do mundo, a história nos revela que a nossa inércia nos leva a destruí-la porque a consideramos uma ameaça à ordem estabelecida.

As sombras não são mais projetadas, a luz deixou de ser artificial e o ar já está acariciando meu rosto.

Nossa condição humana pode impedir-nos de nos livrar deste mundo de sombras, mas podemos pelo menos fazer um esforço para tornar essas sombras cada vez mais distintas. O mundo perfeito e icônico das idéias pode ser uma utopia para a nossa natureza, mas isso não significa que renunciar à nossa curiosidade é melhor do que confiar no conforto do que conhecemos hoje (ou o que nós acho que sabemos).

Quando crescemos, dúvidas, inconsistências e perguntas nos ajudam a remover as vendas que às vezes tornam a vida muito mais difícil do que realmente era.
Traduzido do site francês Nos Pensées.

COMO CONHECER PROFUNDAMENTE ALGUÉM? - Dostoievski

Acho que, na maioria dos casos, quando uma pessoa se ri torna-se nojento olharmos para ela. Manifesta-se no riso das pessoas, na maioria das vezes, qualquer coisa de grosseiro que humilha a quem ri, embora essa pessoa quase nunca saiba que efeito o seu riso provoca. Tal como não sabe (ninguém sabe, aliás) a cara que faz quando dorme. Há quem mantenha no sono uma cara inteligente, mas outros há que, embora inteligentes, fazem uma cara tão estúpida a dormir que se torna ridícula.

Não sei por que tal acontece, apenas quero salientar que a pessoa que ri, tal como a pessoa que dorme, não sabe a cara que faz. De uma maneira geral, há muitíssimas pessoas que não sabem rir. Aliás, isso não é coisa que se aprenda: é um dom, não se pode aperfeiçoar o riso. A não ser que nos reeduquemos interiormente, que nos desenvolvamos para melhor e que superemos os maus instintos do nosso carácter: então também o riso poderá possivelmente mudar para melhor. A pessoa manifesta no riso aquilo que é, é possível conhecermos num instante todos os seus segredos.

Mesmo o riso incontestavelmente inteligente é, às vezes, abominável. O riso exige em primeiro lugar sinceridade, mas onde está a sinceridade das pessoas? O riso exige a ausência de maldade, mas as pessoas, na maioria dos casos, riem com maldade. Um riso sincero e sem maldade é uma pura alegria, mas, nos tempos que correm, onde está a alegria? E poderão as pessoas ser alegres?

A alegria é um dos mais reveladores traços humanos, basta a alegria para revelar as pessoas dos pés à cabeça. Por vezes não há meio de percebermos o carácter de uma pessoa, mas basta ela rir para lhe conhecermos o feitio como às palmas das nossas mãos. Só as pessoas desenvolvidas do modo mais elevado e feliz sabem ser contagiosamente alegres, de uma maneira irresistível e benévola. Não falo de desenvolvimento intelectual, mas de carácter, do homem como um todo. Portanto: se quiserdes compreender uma pessoa e conhecer-lhe a alma não presteis atenção à sua maneira de se calar, ou de falar, ou de chorar, ou de se emocionar com as ideias mais nobres, olhai antes para ela quando se ri. Ri-se bem – é boa pessoa.

Observai depois todos os matizes: por exemplo, é preciso que o riso não pareça estúpido, por mais alegre e ingénuo que seja. Mal detecteis a mais pequena nota de estupidez num riso, ficai sabendo que a pessoa que assim ri é intelectualmente limitada, apesar de deitar cá para fora um sem-fim de ideias. Mesmo que o riso não seja estúpido, se vos parecer ridículo, nem que seja um pouquinho, ficai sabendo que não há na pessoa que o ri uma verdadeira dignidade, pelo menos uma dignidade suficiente. Por último, notai que, mesmo que um riso seja contagioso mas por qualquer razão vos pareça vulgar, também a natureza dessa pessoa é vulgar, que toda a nobreza e espírito sublime que tínheis visto nela ou são fingidos ou imitados inconscientemente, e que essa pessoa, no futuro, mudará inevitavelmente para pior, dedicar-se-á ao «útil», abandonando sem pena as ideias nobres como sendo erros e paixões da juventude.

(…) Apenas entendo que o riso é a mais certeira prova da alma. Olhai para uma criança: só as crianças sabem rir com perfeição, por isso são fascinantes. É abominável a criança que chora, mas a que ri alegremente é um raio do paraíso, é o futuro do homem quando ele, finalmente, se tornar tão puro e ingénuo como uma criança.
Fiodor Dostoievski

MEDO ANTECIPADO: SER INFELIZ ANTES DA INFELICIDADE CHEGAR - Sêneca

 Será a ruína do espírito andarmos ansiosos pelo futuro, desgraçados antes da desgraça, sempre na angústia de não saber se tudo o que nos dá satisfação nos acompanhará até ao último dia; assim, nunca conseguiremos repouso e, na expectativa do que há-de vir, deixaremos de aproveitar o presente. Situam-se, de fato, ao mesmo nível a dor por algo perdido e o receio de o perder.

Isto não quer dizer que te esteja incitando à apatia! Pelo contrário, procura evitaras situações perigosas; procura prever tudo quanto seja previsível; procura conjecturar tudo o que pode ser-te nocivo muito antes de que te suceda, para assim o evitares. 

Para tanto, ser-te-á da maior utilidade a autoconfiança, a firmeza de ânimo apta a tudo enfrentar. Quem tem ânimo para suportar a fortuna é capaz de precaver-se contra ela; mas nada de angústias quando tudo estiver tranquilo!

O cúmulo da desgraça e da estupidez está no medo antecipado: que loucura é esta, ser infeliz antecipadamente? Em suma, para numa palavra te resumir o que eu penso e te descrever como são estes homens que, à força de se preocuparem, só conseguem fazer mal a si próprios: tanta falta de moderação eles mostram em plena desgraça como antes dela! 

Quem sofre antes de tempo sofre mais do que o devido.
Sêneca, in ‘Cartas a Lucílio’

MISTÉRIOS DO LEBLON 1 - Edmir Silveira

Eu acabara de sair da academia Lucinha&Cláudio, atravessara a Rua Humberto de Campos, na direção da Rua José Linhares que fica a menos de 50 metros, e já estava  dobrando a esquina quando vi uma senhora idosa vindo na direção contrária a minha. 

Ela dá uma topada na calçada, se desequilibra e começa a acelerar descontroladamente o passo. Não há  como não cair.

Tento correr nem sua direção para tentar ampará-la, mas antes de fazê-lo surge do nada uma mulher esguia de cabelos pretos e a segura, colocando-a de pé e sumindo novamente. Tudo não durou mais que 2 segundos.

Fiquei petrificado com a cena. Me senti muito estranho, um desconforto cerebral desagradável. Como alguém aparece e desaparece do nada?

Sim. Ela não surgiu ou foi embora correndo e foi desaparecendo. Ela apareceu e depois desapareceu, como um flash fotográfico.

A Senhora estava tão petrificada quanto eu. Quando conseguimos trocar olhares, foram de pura estupefação. 

Aproximei-me um pouco maias, perguntei-lhe o que tinha acontecido. Ela me relatou exatamente a mesma coisa que vi. Utilizando, inclusive, as mesmas palavras “apareceu” do nada, e “Desapareceu” do nada. Ela relatou o que eu tinha presenciado com a mesma precisão de detalhes que vi. Ou seja, quase nenhum.

Com apenas uma e fundamental diferença. Ela não vira uma mulher, ela vira um homem fazer exatamente o que eu tinha visto a mulher fazer.

Ficamos em silêncio alguns minutos e depois a levei até a entrada do prédio para onde ela estava indo, na Rua José Linhares.

Despedimo-nos sem tocar mais no assunto, mas ainda visivelmente desconcertados, intrigados...

Nunca contei isso a ninguém. Nunca entendi o que havia acontecido.

A SORTE GRANDE - Edmir Silveira

Os invernos são muito longos em Londres. Nem sei dizer o quanto é frio. Em Putney, parece ainda mais frio. Não nasci para viver nesse frio. Frio de todas as formas. Andar na rua dói. O ar entrando pelas narinas, pela boca, pelas frestas das roupas e casacos.

Há mais de um ano tento voltar para o Brasil. Mas, com o pouco dinheiro que consigo ganhar fazendo bicos mal consigo comer e morar num minúsculo quarto. Não fora uma boa idéia abandonar o navio e uma carreira promissora na marinha mercante. 

O que a princípio me pareceu a sorte grande, foi se revelando o maior engano da minha vida.

Em um ano, eu passara de hóspede dos melhores hotéis para solteiros de Londres a um morador, praticamente de favor, de um cubículo sublocado, a certa distância do centro de Londres.

Com esse trabalho de pintura de uma casa grande com certeza eu conseguiria dinheiro para a passagem de volta para o Brasil.

Seriam três meses de trabalho, até o final de março. Uma conversa com o contratador da mão de obra me garantiu, inclusive, um quarto para morar durante a obra, na própria casa. Esse inverno estava garantido, a sorte estava virando.

 Já era hora, desde que chegara ao Reino Unido minha sorte me abandonara.  Todas as tentativas de me lançar em negócios, que pareciam muito promissores, não deram certo. O momento não era nem um pouco propício. Uma derrota atrás da outra, até que só restassem poucas moedas. 

A partir de então, comecei a trabalhar em pequenos serviços conseguidos aqui e ali, que só me pagavam a comida e um quarto aquecido no inverno. O que, no inverno londrino, pode ser a diferença entre viver e morrer de frio. Ainda mais para um brasileiro em nada adaptado a esse clima.

O quarto na obra era muito maior e mais confortável que o anterior. O aquecimento era perfeito. A casa estava toda reformada e mobiliada. Só faltava a pintura final, e era para isso que eu estava ali.

Depois do primeiro dia de trabalho resolvi ir a um Pub comemorar a virada. Voltar ao Brasil seria uma questão de poucos meses. Bebi mais relaxado do que nunca. A música boa ajudava a animar ainda mais o local. Um ajuntamento perto do balcão me a chamou a atenção. Um homem oferecia uma espécie de rifa. De longe não pude saber do que se tratava. Conforme fui me aproximando, vi fotos de um navio grande e bonito. As pessoas em volta olhavam as fotos do interior luxuoso do navio e comentavam. 

Uma inglesa muito simpática sorria entre todos. Quando cheguei perto vi que se tratava mesmo de uma rifa de passagem para New York, de primeira classe num dos navios mais luxuosos do mundo. O preço barato do número da rifa e o numero de cervejas que eu já havia bebido me fizeram comprar três. Só no dia seguinte percebi que o Navio não iria para o Brasil...

O preço dos números diminuiu minha ressaca, já havia jogado muito mais dinheiro fora nos últimos dois anos. Uma das coisas que aprendi é que depois que foi nunca mais volta, portanto, seguir em frente é o melhor.

Último dia de março. Só mais uma semana pela frente. Esses últimos tempos foram os mais tranqüilos que passei aqui. Talvez, porque tivesse certeza que a minha volta para o Brasil estava assegurada. Pena que o primeiro navio para a América do sul só sairia no final de abril, teria que esperar três semanas para embarcar. Isso significa gastar dinheiro com aluguel de algum lugar para ficar essas três semanas. Lembrei-me da passagem que ganhara na tal rifa que comprara num Pub há três meses. 

Um dos meus números havia sido sorteado e eu ganhara a passagem de primeira classe, e era bom tentar vende-la antes que ficasse muito em cima da hora, ou... poderia utilizá-la e aproveitar uma viagem luxuosa de primeira classe onde teria as refeições incluídas. Praticamente uma semana inteira de Rei.

Sem dúvida, vou para New York. É o destino me compensando pelo mal feito passado. Estava na cara que eu tinha que aproveitar a sorte. É o que resolvi fazer.

Saindo da Victória Station, tirei novamente o ticket da carteira para ter certeza que era verdade. Apenas dois dias depois da chegada a New York um navio partiria de lá para o Rio de Janeiro, e a passagem já estava na minha mão. 

Tudo sincronizado, como num imenso jogo de xadrez. Peça por peça os acontecimentos foram se movendo e o resultado é que eu iria fazer uma viagem de graça para New York, num navio luxuoso e economizando dinheiro que faria toda a diferença quando chegasse no Brasil. Afinal, são Libras esterlinas. Me senti abençoado. Parei, por um instante, e agradeci a Deus por tudo que estava acontecendo comigo desde o dia em que resolvi voltar para o Rio de Janeiro.

Tive que acordar muito cedo para estar em Southampton na hora certa. Cheguei ao porto faltando 15 minutos para o encerramento do embarque. Como se tratava de primeira classe, o horário era diferente das demais classes, o que facilitou muito o desembaraço da minha pouca bagagem.

Vendo esse enorme navio e toda essa multidão tanto dentro quanto do lado de fora do navio, percebi que não era uma partida comum, era algo maior. 

Era a viagem inaugural do navio maior e mais luxuoso do mundo. Como não leio jornais e não tenho rádio não sabia de nada daquilo que estava acontecendo.  E, eu ali, fazendo parte daquilo tudo. Me senti mais sortudo ainda. Gosto de coisas animadas. Sou brasileiro, gosto de dançar e brincar e ali todos estavam festejando bastante. Comecei a gostar daquela viagem antes mesmo que ela começasse.

O ano de 1912 estava sendo muito bom comigo. E, essa primavera mais ainda. Prometia. Aquele dia 10 de abril iria se tornar inesquecível, muito mais do que eu poderia imaginar. Resolvi guardar para sempre as fotos e o bilhete de embarque do navio, achei que iria valer a pena.
 

Quer saber o final dessa história? Clique aqui...



O QUE É CIENTÍFICO? - Rubem Alves

Era uma vez um jovem que amava xadrez. Sua vocação era o xadrez. Jogar xadrez lhe dava grande prazer. Queria passar a vida jogando xadrez. Nada mais lhe interessava. 

Só lia livros de xadrez. Estudava as partidas dos grandes mestres. Só conversava sobre xadrez. 

Quando era apresentado a uma pessoa sua primeira pergunta era: Você joga xadrez? Se a pessoa dizia que não ele imediatamente se despedia. Tornou-se um grande mestre. Mas o seu sonho era ser campeão.

Derrotar o computador. Até mesmo quando andava jogava xadrez. Por vezes, aos pulos para frente. Outras vezes, passinhos na diagonal. De vez em quando, dois pulos para frente e um para o lado. As pessoas normais fugiam dele porque ele era um chato. Só falava sobre xadrez. 

Nada sabia sobre as coisas do mundo como pombas, beijos e sambas. Não conseguia ter namoradas porque seu único assunto era xadrez. Suas cartas de amor só falavam de bispos, torres e roques. Na verdade ele não queria namoradas.

Queria adversárias. Essas coisas como jogo de damas, jogos de baralho, jogo de peteca, jogo de namoro eram inexistentes no seu mundo. Inclusive, entrou para uma ordem religiosa. Eu viajei ao lado dele, de avião, de São Paulo para Belo Horizonte. Cabeça raspada.

Durante toda a viagem rezou o terço. Não prestei atenção mas suspeito que as contas do seu terço eram peões, cavalos e bispos. Sua metafísica era quadriculada. Deus é o rei. A rainha é nossa senhora. O adversário são as hostes do inferno.

As pessoas normais brincam com muitos jogos de linguagem: jogos de amor, jogos de poder, jogos de saber, jogos de prazer. jogos de fazer, jogos de brincar. Porque a vida não é uma coisa só. A vida é uma multidão de jogos acontecendo ao mesmo tempo, uns colidindo com os outros, das colisões surgindo faiscas. Uma cabeça ligada com a vida é um festival de jogos. E é isso que faz a inteligência. Mas o nosso heroi, coitado, era cabeça de um jogo só. Jogava o tal jogo de maneira fantástica. Especializou-se. Sabia tudo sobre o assunto. 

E, de fato, sabia tudo sobre o mundo do xadrez. Mas o preço que pagou é que perdeu tudo sobre o mundo da vida. Virou um computador ambulante, computador de um disquete só. Disquetes são linguagens. O corpo humano, muito mais inteligente que os computadores, é capaz de usar muitos disquetes ao mesmo tempo. Ele passa de um programa para outro sem pedir licença e sem pensar. Simplesmente pula, alta.

Inteligência é isso: a capacidade de pular de um programa para outro, de dançar muitas danças ao mesmo tempo. O humor se nutre desses pulos. O riso aparece no momento preciso em que a piada faz a inteligência pular de uma lógica para uma outra. Há a piada dos dois velhinhos que foram ao gerontologista que, depois de examiná-los, prescreveu uma dieta de comidas e remédios a ser seguida por duas semanas. Passadas as duas semanas, voltaram. 

O resultado deixou o médico estupefato. A velhinha estava linda: sorridente, saltitante, toda maquiada. O velhinho, um caco, trêmulo, pernas bambas, dentadura frouxa, apoiado na mulher. Como explicar isso, que uma mesma receita tivesse produzido resultados tão diferentes? 

Depois de muito investigar o médico atinou com o acontecido. "- Mas eu mandei o senhor comer avêia três vezes por dia e o senhor comeu avéia três vezes por dia?" O riso aparece no jogo de ambiguidade entre avêia e avéia. O nosso heroi nunca ria de piadas porque ele só conhecia a lógica do xadrez, e o riso não está previsto no xadrez. A inteligência do nosso heroi não sabia pular. Ela só marchava. Faz muitos anos, um filósofo chamado Herbert Marcuse escreveu um livro ao qual deu o título de O homem unidimensional . 
O homem unidimensional é o homem que se especializou numa única linguagem e vê o mundo somente através dela. Para ele o mundo é só aquilo que as redes da sua linguagem pegam. O resto é irreal.

A ciência é um jogo. Um jogo com suas regras precisas. Como o xadrez. No jogo do xadrez não se admite o uso das regras do jogo de damas. Nem do xadrez chinês. Ou truco. Uma vez escolhido um jogo e suas regras, todos os demais são excluidos. As regras do jogo da ciência definem uma linguagem. Elas definem, primeiro, as entidades que existem dentro dele. As entidades do jogo de xadrez são um tabuleiro quadriculado e as peças. 

As entidades que existem dentro do jogo lingüístico da ciência são, segundo Carnap, "coisas-físicas", isso é, entidades que podem ser ditas por meio de números. Esses são os objetos do léxico da ciência.

Mas a linguagem define também uma sintaxe, isso é, a forma como as suas entidades se movem. Os movimentos das peças do xadrez são definidos com rigor. E assim também são definidos os movimentos das coisas físicas do jogo da ciência.

Kuhn, no seu livro Estrutura das Revoluções Científicas, diz que os cientistas fazem ciência pelos mesmos motivos que os jogadores de xadrez jogam xadrez: querem todos provar-se "grandes mestres".

Para se atingir o nível de "grande mestre" no xadrez ou na ciência é necessária uma dedicação total. Conselho ao cientista que pretende ser "grande mestre": lembre-se de que, enquanto você gasta tempo com literatura, poesia, namoro, em conversas no bar DALI, há sempre um japonês trabalhando no laboratório noite adentro . É possível que ele esteja pesquisando o mesmo problema que você. Se ele publicar os resultados da pesquisa antes de você, ele, e não você, será o "grande mestre."

O pretendente ao título de "grande mestre" deve se dedicar de corpo e alma ao jogo da ciência. O cientista que assim procede ficará com conhecimentos cada vez mais refinados na sua área de especialização: ele conhecerá cada vez mais de cada vez menos. Mas, à medida que o seu "software" de linguagem científica se expande, os outros "softwares" vão se atrofiando. Por inatividade. 

O cientista se transforma num "homem uni-dimensional": vista apurada para explorar a sua caverna, denominada "área de especialização", mas cego em relação a tudo o que não seja aquilo previsto pelo jogo da ciência. Sua linguagem é extremamente eficaz para capturar objetos físicos. 

Totalmente incapaz de capturar relações afetivas. Se não houvesse homens no mundo, se o mundo fosse constituido apenas de objetos, então a linguagem da ciência seria completa. Acontece que os seres humanos amam, riem, têm medo, esperanças, sentem a beleza, apaixonam-se por ideais. Meteoros são objetos físicos. Podem ser ditos com a linguagem da ciência. 

A ciência os estuda e examina a possibilidade de que, eventualmente, um deles venha a colidir com a terra.
Dizem, inclusive, que foi um evento assim que pôs fim aos dinossauros. A paixão dos homens pelos ideais não é um objeto físico. 

Não pode ser dita com a linguagem da ciência. No entanto, ela é um não-objeto que têm poder para se apossar dos homens que, por causa dela se tornam heróis ou vilões, fazem guerra e fazem paz. Mas um projeto de pesquisa sobre a paixão dos homens pelos idéias não é admissível na linguagem da ciência. Não não seria aceito para ser publicado numa revista científica indexada internacional. Não é científico.

A ciência é muito boa - dentro dos seus precisos limites. Quando transformada na única linguagem para se conhecer o mundo, entretanto, ela pode produzir dogmatismo, cegueira e, eventualmente, emburrecimento.

QUEM INVENTOU O ESPELHO?

Durante milênios, olhar o próprio reflexo não era uma tarefa fácil. Não que as pessoas fossem especialmente feias: o problema era a escassez de bons espelhos. Felizmente, no século 19, a situação começou a mudar.

Em 1835, na Alemanha, o químico Justus von Liebig desenvolveu um método para aplicar uma fina camada de prata metálica sobre vidro, dando origem aos espelhos modernos. Com o passar das décadas, a técnica de von Liebig foi aperfeiçoada e se espalhou pelo mundo, e hoje há espelhos de incontáveis formatos e tamanhos.

Naturalmente, a necessidade de observar o próprio reflexo é muito antiga e as pessoas “davam um jeito” muito antes de von Liebig ter nascido. De acordo com estudo feito por Jay Enoch e publicado no periódico Optometry and Vision Science, há cerca de 8 mil anos habitantes da Anatolia (atual Turquia) teriam criado os primeiros espelhos polindo chapas de obsidiana (“vidro vulcânico”).

De 4.000 a 3.000 a.C., povos da Mesopotâmia (onde hoje fica o Iraque) e do Egito começaram a fabricar espelhos usando chapas de cobre polido. Cerca de mil anos depois, habitantes da América Central e da América do Sul poliam pedras para que pudessem ser usadas como espelhos – na China, usava-se bronze.

Segundo textos do autor romano Plínio, o Velho, no século 1 usavam-se espelhos de vidro (uma prática pouco difundida, porém).

É claro que mesmo os mais antigos espelhos fabricados pelos humanos são “novos” em comparação com aqueles encontrados na natureza. “Os primeiros espelhos muito provavelmente eram calmas poças de água e depósitos de água formados por pedra ou argila”, explica Enoch.
Life's Little Mysteries, Optometry and Vision Science

FERA - Edmir Silveira


Destruir o berço, a mata, a essência,
Que acalenta, com sons , cores e frutos
O futuro que é da vida, não nos pertence.

Matar a mãe, cuspir no prato que alimenta,
Suicidar-se, matar o mundo que é do filho,
Da beleza, do sonho, de si mesmo.

A ganância, grande herança do nada,
Nos torna cegos, sem ver belezas
E rezamos, pagãos hipócritas,
Carrascos do ventre que nos gerou.
    
E perdidos os homens, tão sem caminho,
     Se matam, matando tudo, seu próprio ninho.
Natureza que cria, que cura, que chora,
Pelo filho que lhe devora as próprias entranhas.

3 COISAS QUE NÃO SE DEVE FAZER DURANTE UMA CRISE DE DEPRESSÃO - Carolina Santos

Faz parte do ser humano almejar as suas próprias escolhas. Todos desejam ter a capacidade de escolher o tipo de vida que querem viver. Assim como qualquer indivíduo, aquele que enfrenta uma depressão também possui desejos, vontades, metas, objetivos e sonhos.

Mas há um determinado período em que estas mesmas pessoas devem evitar tomar decisões por conta própria. Isso se justifica pelo fato de que a Depressão é uma doença que afeta a capacidade de tomada de decisão de um indivíduo, à medida que o faz enxergar as situações de forma distorcida.

Por isso, não é de nenhuma forma recomendável tomar decisões durante uma crise de Depressão.

Existem alguns tipos de comportamentos que os indivíduos depressivos apresentam e que particularmente aconselho você, que talvez esteja passando por isso, a não cometer. Quer saber de onde eu tirei tais informações? Da minha própria doença. Eu cometi tais erros, e preocupando-me com você, desejando que tenha mais sucesso do que eu nesse âmbito e que consiga enfrentar melhor uma crise depressiva, é que compartilho minhas experiências.

Dentre os comportamentos eu descrevo três principais:

1. Isolamento: você não quer saber de nada e de ninguém. Se fecha no próprio quarto ou em qualquer outro lugar. Não quer ouvir nem conversar com ninguém. Você se prende na própria caixa e não tem mais interesse em conhecer a vida que existe fora dessa caixa;

2. Desistência: Numa crise você interrompe tudo o que está fazendo. Se está na Faculdade, desiste do período. Se tem um trabalho para entregar na escola, você desiste de fazer por que não liga mais se tirar um zero na nota. Aquela viagem com os amigos parece ser uma tortura, logo você desiste. Enfim, você chuta tudo o que está na sua frente.

3. Indagar-se: Todo mundo uma vez na vida quer obter respostas sobre diversas coisas, mas quando estamos em crise queremos saber o porquê de tudo. Por que estou viva? Por que não me sinto feliz? Por que desejo chorar o tempo todo? Por que as pessoas se sentem felizes e eu não? 

Por que quero morrer? Por que a vida vale a pena? Por que lutar para viver se no fim das contas nós morremos de qualquer jeito? Por que sou tímida ou reservada? 

Por que sou diferente? Existem tantas perguntas que se eu fosse detalhar todas aqui, o artigo transformar-se-ia num livro. Basicamente é isso, não vemos sentido em nada, e em busca de respostas que aliviem nossa dor, nós nos torturamos com perguntas que parecem não ter fim.

Em suma, eu quero dizer a você uma coisa: Se estiver numa crise depressiva, por favor, não se isole de modo algum, busque ajuda. Desabafe. Não desista de nada que está fazendo ou que vai fazer. Em alguns casos é preciso dar uma interrompida para cuidar mais da saúde mental e tal, mas desistir jamais. Faça o que tem que fazer, por mais difícil que pareça ser no momento. 

Eu entendo perfeitamente o quanto é complicado querer fazer alguma coisa quando estamos nessa situação, mas você é forte e capaz de superar qualquer obstáculo. 

E por fim, pare de ficar se questionando. 

Quando você faz isso, surgem frustrações. Você se culpa. Sente-se sem rumo e sem chão. Na grande parte das ocasiões da vida precisamos agir e pensar com mais leveza. Precisamos ser mais despreocupados de certo modo, por que o mundo lá fora é complexo e não é fácil. 

Não complique ainda mais o que já é, por si só, complicado. Apenas siga em frente e viva!

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