VIAJAR TORNA VOCÊ MAIS INTELIGENTE E SAUDÁVEL.

 ESTUDOS REVELAM: Viajar pode melhorar sua saúde como um todo e aumentar sua inteligência.

Poucos percebem, mas a verdade é que umas boas férias podem te fazer trabalhar muito melhor. Com elas, você ganha disposição mental e física, além de impulsionar seu lado criativo, resolvendo mais problemas no dia a dia.

Entenda, a partir de agora, como uma viagem pode melhorar a saúde do seu cérebro, do seu coração e até dos seus músculos.

Viajar pode destravar sua criatividade

Você já percebeu que a criatividade nasce das novas experiências?

Quando a parte mais empolgante do seu dia é ficar sentado em frente ao computador ou tomar um café enquanto fala de trabalho, você está impedindo sua mente de buscar inspiração.

O professor e autor Adam Galinsky diz que: 
Experiências em países estrangeiros aumentam a flexibilidade cognitiva, a profundidade e a integração dos pensamentos.

E destaca: 
Isso melhora nossa capacidade de fazer novas conexões entre assuntos diferentes.

Isto significa basicamente que novos sons, cheiros e paisagens ativam sinapses criativas no cérebro.

E como você pode despertar tudo isso? Simples: viajando.

Muitas pessoas criativas, como os escritores Ernest Hemingway e Mark Twain, utilizaram suas experiências internacionais para aprimorar o seu trabalho.

Os romances de Hemingway são fortemente inspirados pelo tempo que ele passou na França e na Espanha, por exemplo. Sua exposição a novas e diferentes culturas permitiu que ele escrevesse alguns dos seus melhores trabalhos.

Se não é possível sair para outro país, não tem problema, tente ao menos sair para outro estado ou para uma cidade que possua uma cultura um pouco diferente da sua. Isso ajudará abrir sua mente, pois saindo você poderá experimentar outros tipos de comidas, visitar monumentos históricos, fazer amizade com os moradores locais ou mesmo caminhar por outras ruas.

Enfim, conviver um pouco em um ambiente diferente por alguns dias pode inspirar fortemente suas habilidades criativas. E você não só terá mais criatividade, mas também será mais saudável e mais feliz.

Viajar impulsiona sua capacidade cerebral

Saiba que entre os benefícios da viagem, como mencionamos acima, está uma boa saúde mental. Uma pesquisa realizada pela Associação de Viagem dos EUA mostrou que as viagens, especialmente para os aposentados, evitam a demência e o mal de Alzheimer.

A pesquisa também revelou que 86% das pessoas que viajam estão satisfeitas com a sua vida, em comparação com 75% das pessoas que não viajam.

Viajar torna seu coração mais forte

E os benefícios não param, saiba que viajar, além de enriquecer sua capacidade cerebral, também reforça a sua saúde cardíaca.

De acordo com a associação Framingham Heart Study, as pessoas que não tiram férias durante vários anos são mais propensas a sofrer ataques cardíacos do que aquelas que viajam anualmente.

Isso acontece porque pessoas que viajam anualmente diminuem o estresse e ansiedade, reduzindo por consequência, a pressão cardíaca. Os viajantes também informaram que os sentimentos de relaxamento e felicidade continuaram por diversas semanas, mesmo depois de voltar das férias.

Viajar também mantem você em forma

Neste ponto, com tantos benefícios, você já está quase achando que viajar faz milagres, não é? Pois é, mas saiba que sim, a viagem pode te ajudar a emagrecer.

O motivo é que quando você está de férias, seu corpo tende a ficar mais ativo: você explora novos lugares, passeia pelas lojas da cidade, faz trilhas e caminhadas, nada no mar ou piscina e por aí vai.

E mesmo que, porventura, você fique sentado por algumas horas fazendo um tour em um ônibus, ainda assim você ainda estará se movimentando mais do que se estivesse preso no escritório ou assistindo TV em casa.

Em suma, viajar irá te fazer feliz, até mesmo antes da viagem acontecer

De acordo com um estudo da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, as pessoas que sabem que vão sair de férias se sentem mais felizes do que as pessoas que estão indo comprar algum bem material.

Outra pesquisa feita na Universidade de Surrey também revelou que as pessoas são mais felizes quando sabem que têm uma viagem chegando. Ou seja, apenas o ato de planejar uma viagem de férias já melhora significativamente o seu humor e bem-estar.

Imagine você tirando férias, pense em como é divertido fazer o roteiro, arrumar a mala, contar para os seus amigos e família sobre a viagem. Todas essas coisas impactam positivamente o seu estado de espírito.

Então, aproveite. Deixe para comprar um novo celular em outro momento e planeje sua próxima folga, compre a passagem para o destino que você quer conhecer e deixe sua mente e seu corpo aproveitaram todas as vantagens que uma viagem traz. 

Se estiver com bastante tempo e saúde, nem compre a passagem, vá em seu carro ou moto, curta também o trajeto.
Artigo traduzido e adaptado, do original “Studies Show How Travel Can Make You Smarter And Healthier” publicado no site americano, Life Hack.
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VOCÊ CONSEGUE VIVER SEM DROGAS LEGAIS? - Eliane Brum

Como Pedro descobriu que tinha se tornado uma
“máquina humana” – ou um “bombado psíquico”. 
E como sua história fala do nosso tempo e de muitos de nós.

Pedro – o nome é fictício porque ele não quer ser identificado – é um cara por volta dos 40 anos que adora o seu trabalho e é reconhecido pelo que faz. É casado com uma mulher que ama e admira, com quem tem afinidade e longas conversas. Juntando os fundos de garantia e algumas economias os dois compraram um apartamento anos atrás e o quitaram em menos de um ano. 

Este é o segundo casamento dele, e a convivência com os dois filhos do primeiro é constante e marcada pelo afeto. Ao contrário da regra nesses casos, a relação com a ex-mulher é amigável. Pedro tem vários bons amigos, o que é mais do que um homem pode desejar, acha ele, porque encontrar um ou dois bons amigos na vida já seria o bastante, e ele encontrou pelo menos uns dez com quem sabe que pode contar na hora do aperto. A vida para Pedro faz todo sentido porque ele criou um sentido para ela.


Ótimo. Ele poderia ser personagem de uma daquelas matérias sobre sucesso, felicidade e bem-estar. Mas há algo estranho acontecendo. Algo que pelo menos Pedro estranha. Há dois anos, Pedro toma Lexapro (um antidepressivo), Rivotril (um ansiolítico, tranquilizante) e Stilnox (um hipnótico, indutor de sono). Dou os nomes dos remédios porque os psicofármacos andam tão populares que se fala deles como de marcas de geleia ou tipos de pão. E o fato de nomes tão esquisitos estarem na boca de todos quer dizer alguma coisa sobre o nosso tempo.

Pedro conta que a primeira vez que tomou antidepressivo, anos atrás, foi ao perder uma pessoa da família. A dor da perda o paralisou. Ele não conseguia mais trabalhar. Queria ficar quieto, em casa, de preferência sem falar com ninguém. Nem com a sua mulher e com os filhos ele queria conversar. Pedro só queria ficar “para dentro”. E, quando saía de casa, sentia um medo irracional de que algo poderia acontecer com ele, como um acidente de carro ou um assalto ou ser atingido por uma bala perdida. 

Ele mesmo pediu indicação de um bom psiquiatra a uma amiga que trabalha na área. Pedro sentia que estava afundando, mas temia cair na mão de algum charlatão do tipo que receita psicofármacos como se fossem aspirinas e acredita que tudo que é do humano é uma mera disfunção química do cérebro.


O psiquiatra era sério e competente. Ele disse a Pedro não acreditar que ele fosse um depressivo ou que tivesse síndrome do pânico, apenas estava em um momento de luto. Precisava de tempo para sofrer, elaborar a perda e dar um lugar a ela. Receitou um antidepressivo a Pedro para ajudá-lo a sair da paralisia porque o paciente repetia que precisava trabalhar. 

A licença em caso de luto – dois (!!!!) dias, segundo a legislação trabalhista – já tinha sido estendida por um chefe compreensivo. Por Pedro ser muito bom no que faz recebera o privilégio de duas semanas de folga para se recuperar da perda de uma das pessoas mais importantes da vida dele. Pedro não queria “fracassar” nessa volta. E não “fracassou”. Com a ajuda do antidepressivo, depois de algumas semanas ele voltou a produzir com a mesma qualidade de antes. Três meses depois da morte de quem amava, ele já voltara a ser o profissional brilhante.


Pedro tomou o antidepressivo por cerca de um ano, com acompanhamento rigoroso e consultas mensais. Como não agradava nem a ele nem era o estilo do psiquiatra que escolheu, pediu para parar de tomar o remédio. O psiquiatra concordou, e Pedro foi diminuindo a dose da medicação até cessar por completo. Tocou a vida por mais ou menos um ano e meio.

Neste intercurso, ele se tornou ainda mais criativo. Aumentou o número de horas de trabalho, que já eram muitas, porque se sentia muito potente. Pedro multiplicou o seu sucesso, que sempre foi medido por ele não pela quantidade de dinheiro, mas de paixão. E achava que tudo estava maravilhoso até começar a ter insônia. Pedro dormia e acordava, sobressaltado. 

Sem conseguir voltar a dormir, pensamentos terríveis passavam pela sua cabeça. Pedro pensava que perderia todo o seu sucesso, a sua possibilidade de fazer as coisas que acreditava e às vezes temia morrer de repente. As noites de Pedro passaram a ser povoadas por catástrofes imaginárias, mas bem reais para ele.


E, toda vez que saía de casa pela manhã, voltara a ter medo de ser atingido por alguma fatalidade, por algo que estaria sempre fora do seu controle.


Algumas semanas depois do início da insônia, Pedro paralisou de novo. Não conseguia trabalhar – e este, para Pedro, era o maior dos pesadelos reais. Voltou ao consultório psiquiátrico e há dois anos toma os três remédios citados. Pedro, que sempre tinha olhado com desconfiança para a prateleira de psicofármacos, começou a achar natural precisar deles para enfrentar os dias e também as noites. “Que mal tem tomar uma pílula para dormir?”, dizia para a mulher, quando ela o questionava. “Ou tomar umas gotas de tranquilizante para não travar o maxilar de tensão? Ou 15 mg de antidepressivo para vencer a vontade de se atirar no sofá e ficar apenas olhando para dentro?” Sua mulher conta que ele parecia o Capitão Nascimento, em “Tropa de Elite”, tomando comprimidos no banheiro e dizendo à esposa: “Isso aqui não tem problema nenhum. Todo mundo faz isso. Não tem problema nenhum”.

Em 2011, Pedro teve momentos em que achou que tudo estava muito bem mesmo. E, se para tudo ficar tão bem era preciso tomar algumas pílulas, não tinha mesmo problema nenhum. Pedro talvez nunca tenha produzido tanto como neste ano e, por conta disso, até ganhou um aumento de salário sem precisar pedir. Mas, às vezes, não com muita frequência, ele se surpreendia pensando que algumas dimensões da sua vida tinham se perdido. 

Pedro não tinha mais o mesmo desejo pela sua mulher, e o sexo passou a ser algo secundário na sua vida. Não tinha mais tanto desejo pela sua mulher nem desejo por mulher alguma. “Efeito colateral do antidepressivo”, conformou-se.


Pedro trabalhava tanto que tinha reduzido às idas ao cinema, os encontros com os amigos e a pilha de livros ao lado da cama continuava no mesmo lugar. Ele também tinha perdido o interesse por viagens de lazer com a família, porque estava ocupado demais com seus projetos profissionais. 

Pedro constatou que os momentos de subjetividade eram cada vez mais escassos na sua vida. E, embora o trabalho lhe desse muita satisfação, ele tinha eliminado uma coleção de pequenos prazeres do seu cotidiano. Por volta do mês de setembro, Pedro começou a sentir uma difusa saudade dele mesmo que já não conseguia ignorar.


Devagar eu comecei a perceber que tinha criado uma vida que não podia sustentar sem medicação. E tinha aceitado isso. Como, acho, boa parte das pessoas que conheço e que tomam esse tipo de remédio”, conta. “Eu só consigo fazer tudo o que faço porque tenho essa espécie de anabolizante. Sou um bombado psíquico. Vivo muitas experiências todo dia e não tenho nenhum tempo para elaborar essas experiências, como não tive tempo para elaborar o meu luto. É uma vida vertiginosa, mas é uma vida não sentida. 

Às vezes tenho experiências maravilhosas, mas, na semana seguinte, ou na mesma semana, já não me lembro delas, porque outras experiências se sobrepuseram àquela. E sei que só durmo porque engulo pílulas, só acordo porque engulo pílulas. Só suporto esse ritmo porque engulo pílulas. Até pouco tempo atrás eu achava que tudo bem, então eu ficaria tomando pílulas pelo resto da vida. Em vez de mudar meu cotidiano para que ele se tornasse possível, eu passei a esticar meus limites porque sabia que podia contar com os medicamentos e, se voltasse a cair, me iludia que bastaria aumentar a dose. Eu me tornei uma equação: Pedro + medicamentos. 


Aos poucos, porém, comecei a perceber que não é essa vida que eu quero para mim. Tem algo errado quando a vida que você inventou para você só é possível porque você toma três comprimidos diferentes para poder vivê-la. E, talvez, daqui a pouco, eu esteja tomando Viagra para ter desejo pela mulher que amo. Isso aos 40 anos. E, com o tempo, os efeitos colaterais desses remédios vão causar, pelo prolongamento do uso, doenças em outras partes do meu corpo. 


Eu sei que muita gente, como eu, já se habituou a achar que é normal viver à custa de pílulas. Mas, se você parar para pensar, isso é uma loucura. Isso, sim, é doença. E os médicos estão nos mantendo doentes, mas produtivos, usando os remédios para ajustar a máquina a um ritmo que a máquina só vai aguentar por um certo tempo. De repente, percebi que eu era uma máquina humana. 


E que eu estava usando remédios legais como se fossem cocaína e outras drogas criminalizadas. E o mais maluco é que todo mundo acha que tenho uma vida invejável e que está tudo ótimo comigo. Por serem drogas legais, por causa da popularização de coisas como depressão e síndrome do pânico, todo mundo acha normal eu tomar pílula para ter coragem de sair da cama de manhã e pílula para conseguir dormir sem ter medo de morrer no meio da noite. De repente, me caiu a ficha, e eu comecei a enxergar que estamos todos loucos, a começar por mim. Loucos por achar que isso é normal.”


Com a autorização de Pedro, procurei o psiquiatra dele para uma conversa. É um profissional inteligente e sério. E foi de uma honestidade rara. Perguntei a ele porque receitava psicofármacos para gente como Pedro. “Porque vivemos num mundo em que as pessoas não têm tempo para elaborar o que é do humano. Muitas vezes eu me deparo com essa situação no consultório. Vejo uma pessoa ali me pedindo antidepressivo porque não consegue mais trabalhar, não consegue mais tocar a vida. 

Eu sei que ela não consegue mais trabalhar nem tocar a vida porque é a sua vida que se tornou impossível, porque precisa de um tempo que não tem para elaborar o vivido. É óbvio que não é possível, por exemplo, elaborar um luto ou uma separação em uma semana e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. 


Assim como não é possível viver sem dúvidas, sem tristezas, sem frustrações. Tudo isso é matéria do humano, mas o ritmo da nossa vida eliminou os tempos de elaboração. Essa pessoa não é doente – é a vida dela que está doente por não existir espaço para vivenciar e elaborar o que é do humano. 


Só que esse cara precisa trabalhar no dia seguinte e produzir bem ou vai perder o emprego. Então eu dou o antidepressivo e faço um acompanhamento sério, com psicoterapia, para que esse cara possa dar um jeito na vida e parar de tomar remédios. 


É um dilema e não tem sido fácil lidar com ele, mas é neste mundo que eu exerço a profissão de psiquiatra. Porque no tratamento da depressão, de verdade, a doença, de fato, é muito difícil obter resultados, mesmo com os medicamentos atuais. Assim como outras doenças psíquicas, quando são doenças mesmo.


Os resultados são muito mais lentos – e às vezes não há resultado nenhum. A maioria das pessoas que estamos medicando hoje não é doente. E por isso o resultado é rápido e parece altamente satisfatório. Estas pessoas só precisam dar conta de uma vida que um humano não pode dar conta.”


Pedro, que nunca foi adepto das famosas resoluções de Ano-Novo, desta vez se colocou uma que talvez seja a empreitada mais difícil que já enfrentou. 

“Estou reduzindo progressivamente a dose dos medicamentos e vou parar até março. 

Minha meta, em 2012, e talvez leve muitos réveillons para conseguir alcançar isso, é criar uma vida possível para mim. Uma vida e uma rotina que meu corpo e minha mente possam dar conta, uma vida em que seja possível aceitar os limites e lidar com eles, uma vida em que eu tenha tempo para sofrer e elaborar o sofrimento, e tempo para usufruir das alegrias e dos pequenos prazeres e da companhia dos que eu amo. 
Sei que vai ter um custo, sei que vou perder coisas e talvez tenha até de mudar de emprego, mas acho que vai valer a pena. Não quero mais uma mente bombada, nem ser uma máquina bem sucedida. Quero só uma vida humana.”

Torço por Pedro, torço por nós.

CLAUDIA PENTEADO - Nós e o tempo

Alice: - Quanto tempo dura o eterno?
Coelho: - Às vezes apenas um segundo.
(Lewis Carroll / Alice no País das Maravilhas)

Administrar o tempo é o grande paradoxo da nossa “modernidade líquida”, onde tudo é fluido e a vida parece escorrer pelos nossos dedos distraídos. 

Neste cenário levariam vantagem as mulheres, que costumam ser chamadas de “mulheres-polvo”, capazes de realizar várias tarefas de uma só vez. Mentira. Ou melhor, talvez uma meia-verdade. Tenho que admitir que somos mesmo capazes de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Mas o fato é que sofremos um bocado no processo.

 Fazemos coisas pela metade, às vezes mal-feitas, perdemos o foco do que realmente é importante e essencial, ficamos na superfície de muitas coisas, transformamos nossa rotina num verdadeiro caos – e consequentemente, nos tornamos caóticas nos nossos desejos, relacionamentos, no trabalho. 

Fazemos uma coisa já pensando na que vem a seguir ou na que ainda não deu tempo de fazer. Meditação? Quem tem “tempo” para isso?

Abracei a missão de fazer uma agenda semanal para mim mesma, como um exercício organizacional. A sugestão foi de uma amiga, com quem tive um longo papo sobre organização e prioridades. Achei graça na missão aparentemente simples: agenda semanal é algo que costumo fazer para a minha filha. 

Fazer isso pra mim – e por mim – não pareceu tão difícil, mas o fato é que já parto para a missão meio derrotada, achando que não vou conseguir cumprir tudo o que estará escrito. Chega a dar um certo friozinho na barriga a ideia de ter uma ROTINA. O que parecia simples torna-se, de repente, o maior desafio da minha vida.

Rascunhei algo que virá a ser o meu Planejamento de tempo semanal e fico animada com a ideia me tornar uma pessoa disciplinada e organizada. 

Volta e meia me pego pensando no que vou escrever e, claro, incorporar à minha “rotina” diária.

 Não posso correr o risco de pôr ali algo que não possa cumprir. Será que não deveria também definir o cardápio da semana? Lembrar de comer certos alimentos, tomar algumas vitaminas essenciais, minha geléia real pela manhã, o óleo de coco, o suco verde, em horários definidos e eternizados numa agenda de compromissos com a minha longevidade?

O resultado disso tudo é que me sinto realmente disposta a fazer o exercício de eleger o que é essencial e principalmente o que me é possível realizar com qualidade. Tomo a liberdade de alterar uma frase de Bismarck e afirmo, categoricamente, que a vida é a arte do possível. 

Reconhecer isso já ajuda as “mulheres-polvo” – como eu, claro – a perceberem que não se pode, mesmo, desejar realizar tantas coisas sem de fato ter os muitos braços do tal do polvo.

E humana que sou, mesmo diante do reconhecimento da inalcançável onipotência, sei que vez por outra terei, claro, recaídas. Como a que me fez, certa noite, ler Dostoievski para a minha filha de nove anos, pois precisava concluir a leitura de um livro para a minha pós-graduação, e desejava, também, botá-la para dormir. Resumo da ópera: ela adormeceu profundamente ouvindo frases como “um rancor terrível contra ela ferveu de chofre em meu coração; era capaz de matá-la ali mesmo, parecia-me.

 Para me vingar dela, jurei mentalmente não lhe dizer mais nenhuma palavra enquanto estivesse ali.” 

Não foi O Pequeno Nicolau, conforme combinado, mas isso pouco importou: minha presença a acalentou e a mulher-polvo foi dormir feliz, com a sensação de dever cumprido e a certeza de uma atuação brilhante. De vez em quando, a gente consegue.

ESCOLHAS DE UMA VIDA - Pedro Bial

A certa altura do filme Crimes e Pecados, 
o personagem interpretado por Woody Allen diz:
 "Nós somos a soma das nossas decisões".

Essa frase acomodou-se na minha massa cinzenta e de lá nunca mais saiu. Compartilho do ceticismo de Allen: a gente é o que a gente escolhe ser, o destino pouco tem a ver com isso.

Desde pequenos aprendemos que, ao fazer uma opção,estamos descartando outra, e de opção em opção vamos tecendo essa teia que se convencionou chamar "minha vida".

Não é tarefa fácil. No momento em que se escolhe ser médico, se está abrindo mão de ser piloto de avião. Ao optar pela vida de atriz, será quase impossível conciliar com a arquitetura. No amor, a mesma coisa: namora-se um, outro, e mais outro, num excitante vaivém de romances. 

Até que chega um momento em que é preciso decidir entre passar o resto da vida sem compromisso formal com alguém, apenas vivenciando amores e deixando-os ir embora quando se findam, ou casar, e através do casamento fundar uma microempresa, com direito a casa própria, orçamento doméstico e responsabilidades.


As duas opções têm seus prós e contras: viver sem laços e viver com laços...
Escolha: beber até cair ou virar vegetariano e budista? Todas as alternativas são válidas, mas há um preço a pagar por elas.

Quem dera pudéssemos ser uma pessoa diferente a cada 6 meses, ser casados de segunda a sexta e solteiros nos finais de semana, ter filhos quando se está bem-disposto e não tê-los quando se está cansado. Por isso é tão importante o auto conhecimento. Por isso é necessário ler muito, ouvir os outros, estagiar em várias tribos, prestar atenção ao que acontece em volta e não cultivar preconceitos. 

Nossas escolhas não podem ser apenas intuitivas, elas têm que refletir o que a gente é. Lógico que se deve reavaliar decisões e trocar de caminho: Ninguém é o mesmo para sempre.


Mas que essas mudanças de rota venham para acrescentar, e não para anular a vivência do caminho anteriormente percorrido. A estrada é longa e o tempo é curto.Não deixe de fazer nada que queira, mas tenha responsabilidade e maturidade para arcar com as conseqüências destas ações.

Lembrem-se: suas escolhas têm 50% de chance de darem certo, mas também 50% de chance de darem errado. 

A escolha é sua...!

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"A VIDA" - UMA PROFUNDA REFLEXÃO DE BERT HELLINGER

Profunda reflexão de Bert Hellinger, o alemão que já foi padre, largou o celibato e tornou-se psicoterapeuta e escritor. Atualmente está com 93 anos.

Bert Hellinger, além de terapeuta é um pensador e pesquisador magnífico.

Bert é reconhecido mundialmente pelas Constelações Familiares, e em algumas comunidades ele não é aceito, por trazer afirmações duras sobre temas polêmicos. Ele afirma que seu compromisso é a orientação e o cuidado com as pessoas, e não com os ideais. Portanto, ele não tem medo de não ser aceito, desde que acredite que esteja contribuindo para o crescimento e desenvolvimento das pessoas, através do seu trabalho!

“A vida” por Bert Hellinger

“A vida decepciona-o para você parar de viver com ilusões e ver a realidade.
A vida destrói todo o supérfluo até que reste somente o importante.
A vida não te deixa em paz, para que deixe de culpar-se e aceite tudo como “É”.
A vida vai retirar o que você tem, até você parar de reclamar e começar agradecer.
A vida envia pessoas conflitantes para te curar, pra você deixar de olhar para fora e começar a refletir o que você é por dentro.
A vida permite que você caia de novo e de novo, até que você decida aprender a lição.
A vida lhe tira do caminho e lhe apresenta encruzilhadas, até que você pare de querer controlar tudo e flua como um rio.
A vida coloca seus inimigos na estrada, até que você pare de “reagir”.
A vida te assusta e assustará quantas vezes for necessário, até que você perca o medo e recupere sua fé.
A vida tira o seu amor verdadeiro, ele não concede ou permite, até que você pare de tentar comprá-lo.
A vida lhe distancia das pessoas que você ama, até entender que não somos esse corpo, mas a alma que ele contém.
A vida ri de você muitas e muitas vezes, até você parar de levar tudo tão a sério e rir de si mesmo.

A vida quebra você em tantas partes quantas forem necessárias para a luz penetrar em ti.
A vida confronta você com rebeldes, até que você pare de tentar controlar.
A vida repete a mesma mensagem, se for preciso com gritos e tapas, até você finalmente ouvir.
A vida envia raios e tempestades, para acordá-lo.
A vida o humilha e por vezes o derrota de novo e de novo até que você decida deixar seu ego morrer.
A vida lhe nega bens e grandeza até que pare de querer bens e grandeza e comece a servir.
A vida corta suas asas e poda suas raízes, até que não precise de asas nem raízes, mas apenas desapareça nas formas e seu ser voe.
A vida lhe nega milagres, até que entenda que tudo é um milagre.
A vida encurta seu tempo, para você se apressar em aprender a viver.
A vida te ridiculariza até você se tornar nada, ninguém, para então tornar-se tudo.
A vida não te dá o que você quer, mas o que você precisa para evoluir.
A vida te machuca e te atormenta até que você solte seus caprichos e birras e aprecie a respiração.
A vida te esconde tesouros até que você aprenda a sair para a vida e buscá-los.
A vida te nega Deus, até você vê-lo em todos e em tudo.
A vida te acorda, te poda, te quebra, te desaponta… Mas creia, isso é para que seu melhor se manifeste… até que só o AMOR permaneça em ti”

“CARPE DIEM” - O ENCANTADOR POEMA DE WALT WHITMAN

Carpe Diem é uma frase em latim de um poema de Horácio, e é popularmente traduzida para colha o dia ou aproveite o momento. É também utilizada como uma expressão para solicitar que se evite gastar o tempo com coisas inúteis ou como uma justificativa para o prazer imediato, sem medo do futuro.

Vindo da decadência do império Romano o termo Carpe diem era dito para retratar o “cada um por si”, devido o império estar se desfazendo, naquele momento a visão de que cada dia poderia ser realmente o último era retratado pela frase que hoje é utilizada como uma coisa boa, porém sua origem vem do desespero da destruição de um grande império antigo.

No filme “A Sociedade dos Poetas Mortos”, o personagem de Robin Williams, Professor Keating, utiliza-a assim:

“Mas se você escutar bem de perto, você pode ouvi-los sussurrar o seu legado. Vá em frente, abaixe-se. Escute, está ouvindo? – Carpe – ouve? – Carpe, carpe diem, colham o dia garotos, tornem extraordinárias as suas vidas.”

O poema relacionado à ideia de Carpe Diem, de autoria de Walt Whitman, utilizado como mote no filme:

Aproveita o dia (Walt Whitman)

Aproveita o dia,
Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, e nem fujas.
Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.
Não atraiçoes tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida em um inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda a diante.
Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.
Não permitas que a vida se passe sem teres vivido…

Walter Whitman (1819 – 1892) foi um jornalista, ensaísta e poeta americano considerado o “pai do verso livre” e o grande poeta da revolução americana.

20 FRASES REALISTAS QUE O FARÃO MAIS FORTE

Estar frente a frente com a realidade da vida pode propiciar-nos uma feliz oportunidade de nos fortalecermos, de crescer intimamente e evoluirmos.

Por isso, trouxemos aqui 20 frases que serão verdadeiros “safanões” em nosso íntimo. Algumas certamente são muito doloridas, mas farão com que acordemos para a realidade das coisa.

1- “A mais lamentável de todas as perdas é a perda do tempo”. Philip Chesterfield

2- “Realidade é aquilo que, mesmo quando você deixa de acreditar, continua a existir e não desaparece.”- Philip K. Dick

3- “A maior parte das pessoas fica feliz com a inferioridade dos seus melhores amigos.” -Philip Chesterfield

4- “Podemos fugir da realidade, mas não podemos fugir das consequências de fugir da realidade” – Ayn Rand

5. “A catástrofe que tanto o preocupa é menos horrível na realidade do que na imaginação” Wayne W. Dyer

6- “A dura verdade é que quanto mais você fica preso na sua história se culpando pelas circunstâncias, mais você vai repetir essa história e mais se apegará a ela” – Andrea Owen

7- “As pessoas dizem que você está indo no caminho errado, quando este é simplesmente seu próprio caminho.” Angelina Jolie

8- “Se um homem não descobriu nada pelo qual morreria, não está pronto para viver.” Martin Luther King

9-“Eu aprendi que você não pode voltar atrás, que a essência da vida está indo para a frente. A vida, na realidade, é uma via de mão única “- Agatha Christie

10-Incerteza é a única certeza que existe. Aprender a viver com insegurança é a única segurança que podemos alcançar “- John Allen Paulos

11-“Se você não gosta de onde você está, mova-se, você não é uma árvore” – Jim John

12-“Você não está no mundo para satisfazer as expectativas dos outros, mas também não deve esperar que o mundo satisfaça as suas” – Fritz Perls

13-“Não importa o quão ruim as coisas fiquem, você sempre pode piorá-las” – Randy Pausch

14- “Preocupe-se mais com seu caráter do que com sua reputação, porque seu caráter é o que você é, enquanto a reputação é apenas o que os outros pensam que você é” – John Wooden

15-“A razão pela qual as pessoas acham tão difícil ser feliz é porque elas sempre se lembram melhor do passado do que eram, veem o presente pior do que é e acham que o futuro é mais complicado do que será” – Marcel Pagnol

16- “Nunca é tarde para se tornar a pessoa que você quer ser”- George Eliot

17 -“Se algum desejo seu não for atendido, não se surpreenda. Nós chamamos isso de vida.” Anna Freud

18 – “Não podemos mudar, não podemos nos afastar do que somos, enquanto não aceitarmos profundamente o que somos”
Carl Rogers

19 – “Olhe para dentro, para as suas profundezas, aprenda primeiro a se conhecer.” Sigmund Freud

20 – “Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas.” Hilda Hilst

FELIZ ANO NOVO! - Rubem Alves

Para termos um Feliz Ano Novo temos que estar dispostos a “matar” o que fomos e nascer de novo em cada momento da vida. Está aí um grande desafio. Dos maiores, senão o maior de todos!

As cigarras passam a maior parte de suas vidas debaixo da terra, alimentando- se das raízes das árvores. Disseram-me que há certas espécies de cigarras que chegam a viver 15 anos debaixo da terra. 

De repente, alguma coisa acontece, e surge dentro delas um impulso irresistível para mudar. Saem então dos seus túneis, sobem pelos troncos das árvores, arrebentam suas cascas, subterrâneas gaiolas, e se transformam em seres alados. 

Se elas não abandonarem suas cascas não se transformarão em seres alados. Continuarão a ser seres subterrâneos. Nossos demônios são nossas cascas.

Abandonar as cascas é esquecer a forma subterrânea de ser. A grande transformação das cigarras acontece quando a morte se aproxima. É a proximidade da morte que lhes diz: ‘Chegou a hora de voar, cantar e fazer amor, para continuar a viver…’ Eu acho que a morte é o único poder capaz de nos trazer vida nova. 

A consciência da morte nos força a sair de nossas sepulturas, nos dá asas, nos convida a voar e a amar.

VIDA - Charles Chaplin


Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.
Já abracei pra proteger,
Já dei risada quando não podia,
Já fiz amigos eternos,
já amei e fui amado,
mas também
já fui rejeitado,
Já fui amado e não soube amar.
Já gritei e pulei
de tanta felicidade,
já vivi de amor
e fiz juras eternas,
mas "quebrei a cara"
muitas vezes!
Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
Já liguei só pra escutar uma voz,
Já me apaixonei por um sorriso,
Já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e...
...tive medo de perder alguém especial
(e acabei perdendo)! Mas sobrevivi!
E ainda vivo!
Não passo pela vida...
e você também não deveria passar. Viva!!!
Bom mesmo é ir a luta com determinação,
abraçar a vida e viver com paixão,
perder com classe e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é muito para ser insignificante.

NÃO, A VIDA NÃO COMEÇA AOS 40 - Eliane Brum

Quando o marketing publicitário 
vira filosofia da vida cotidiana.

Parece uma epidemia. Não paro de ouvir e de ler que “a vida começa aos 40”. A frase não é nova, talvez tenha até uns 40 anos... Hoje, porém, ela parece ter deixado o marketing publicitário para virar filosofia da vida cotidiana. E em bocas que costumam dizer coisas que valem a pena. 

De uns tempos para cá, atrizes e escritoras interessantes têm repetido esse slogan, depois de passar dos 40. Nesse verão, li várias vezes essa frase em revistas femininas diferentes, ditas por mulheres diferentes, mas incluídas no pacote do “bonita-e-bem-sucedida”... e com mais de 40.


Entendo que a frase é simpática. E bem intencionada. E tenha sido até revolucionária no passado recente. Afinal, mesmo durante boa parte do século XX acreditava-se que a vida acabava aos 40 – a vida das mulheres, pelo menos. Ou, pelo menos, acreditava-se que, depois dos 40, o mais emocionante que uma mulher poderia esperar seriam os netos (que, acredito, sejam mesmo algo bem emocionante). 

Entendo também que é uma conquista existirem protagonistas de novelas com mais de 40 anos e mulheres em todas as áreas criando depois dos 40. Receio, porém, que estejamos enfiando o nosso pé em uma nova armadilha. E, em vez de uma frase meio marqueteira, meio lugar comum, que se diz aqui e ali quando falta assunto, ao ser levada a sério torne-se uma sentença.


O que significa “a vida começa aos 40”? Fiz uma pequena pesquisa em blogs e revistas e parece que significa o seguinte: a vida começaria aos 40 porque as mulheres ainda estariam bonitas, já seriam donas de uma carreira consolidada e financeiramente estáveis, teriam passado por percalços suficientes para se sentirem mais confiantes e, então, sem as pressões e inseguranças dos 20 e até dos 30, estariam mais livres para inventar novos rumos para suas vidas – e novos rumos que estariam mais próximos de seus desejos.

Significava também que, aos 40, as mulheres já estariam com os filhos crescidos e, portanto, teriam superado certo peso da maternidade. Mas acho que essa parte do pacote já perdeu força, na medida em que hoje muitas mulheres estão justamente tentando engravidar ou com filhos pequenos ao completar 40 anos. Nesse sentido, o mais correto a afirmar nesses dias é que, em muitos casos, a vida dos filhos começa quando suas mães têm 40 anos. E acho que este é um bom tema para outro momento.

Por que eu desconfio da afirmação de que “a vida começa aos 40”? Primeiro, porque nela está implícito que existe uma espécie de “vida de verdade”, enquanto a outra, a que veio antes, seria uma vida menor. Eu acho que é preciso ter medo, muito medo, da tal da “vida de verdade”.

Seja aos 40 ou em qualquer idade, a tal da “vida de verdade” é fonte de muito sofrimento desnecessário. Ela coloca nossas vidas imperfeitas – e tudo e todos que dela fazem parte – como sendo sempre insuficientes diante de alguma outra vida imaginária. Ou nos instala no modo de espera de algo extraordinário que ainda vai acontecer e nos arrancar do que interpretamos como uma mesmice aquém do que merecemos. 

A “vida de verdade” é uma grande mentira. E a história de que “a vida começa aos 40” a reforça. Nesse ritmo, talvez a vida não comece nunca. E acho que há gente demais – mulheres e homens – vivendo à espera de que a vida comece, sem reparar que ela já vai pelo meio.


Se formos levar na literalidade da letra que a vida começa aos 40, seria muito triste. Seria mesmo desesperador. Se, ao alcançar os 40 uma mulher chegasse à conclusão de que o que se passou antes foi apenas um preâmbulo para uma vida – e não a vida em si, com toda a sua quantidade de drama e de nadas – haveria um motivo bastante legítimo para se matar aos 40. Afinal, o que foi que você fez antes se não era vida o que estava acontecendo?

Mas, digamos que essa mulher hipotética seja intrépida o suficiente para pensar: “Oquei, tudo o que veio antes foi tempo perdido, ou apenas uma preparação para o que está por vir, mas agora a vida de verdade começa”. Nesse caso, ela também chegaria à conclusão de que seria uma existência muito curta. Com a expectativa de vida de 77 anos, segundo o último censo do IBGE, as brasileiras teriam aí, em média, uns 37 anos pela frente.

Nesses 37 anos, mesmo que essa mulher seja saudável como uma vaca de leilão, teria de lidar com problemas de saúde aqui e ali, depois aqui, ali e em toda parte. Teria de lidar com as letras que vão diminuindo de tamanho bem diante dos seus olhos. 

Teria de lidar com a perda progressiva da juventude. E teria de lidar com a velhice dos pais, com a sua própria, e também com a morte daqueles a quem ama. É muita coisa para lidar, não? Se além de tudo isso a vida estiver começando... coitadas de nós.


Ao defender que “a vida começa aos 40”, portanto, estamos nos lançando em um paradoxo lógico: “a vida começaria no mesmo momento em que chega à metade”. E não a qualquer metade, mas a uma metade que envolve declínio físico, perdas inescapáveis e termina em morte. 

Parece deprimente? Seria, se fosse só isso, mas há também muitas possibilidades interessantes em curso, se tivermos aprendido algo em algum momento anterior. Triste? Algumas vezes muito triste, com certeza, mas também engraçada, se já conseguirmos rir de nós mesmas, e com um monte de coisas para inventar e para experimentar – e outras que só nos resta aceitar. É a vida, com sua mistura de tragédia e de comédia e um bocado de espaços vazios e de repetições.


Despida de seu conteúdo revolucionário, que fazia sentido em décadas passadas, mas hoje não me parece que faça mais, a máxima de que “a vida começa aos 40” pode se tornar uma autossabotagem. Temos medo, quando chegamos aos 40, porque uma metade da vida já passou – e justamente a metade em que éramos jovens. Para as mulheres é de certo modo mais difícil porque a exigência de que pareçamos jovens é maior. E por causa dela muitas se lançam aos bisturis para adiar o inevitável, nem sempre com resultados satisfatórios. 

Sem falar nas injeções na testa, que de piada viraram coisa séria e dispendiosa desde a invenção do botox. Mas não acho que transformar nosso medo em autoafirmação seja uma boa ideia. Tipo: “Ah, que maravilha, cheguei aos 40 anos e agora começa a melhor época da minha vida!”. Soa meio bobo, não? Não é possível que 40 anos de vida não tenha nos permitido dizer algo mais instigante.


É preciso que a vida antes dos 40 tenha sido bem ruim para que o que venha depois seja tão melhor assim a ponto de se tornar a vida inteira. Se não foi tão ruim antes dos 40, também não é preciso temer que seja tão pior depois, a ponto de se tornar necessário gritar em público que os 40 estão sendo uma libertação ou uma epifania ou a abertura de “2001, uma odisseia no espaço”.

Como tudo nesse nosso mundo de mercadorias, o conteúdo revolucionário de ontem virou propaganda de hoje para nos vender um montão de produtos. E seria legítimo esperar que pelo menos nisso soasse algum tipo de sirene, já que a maior parte do que tentam nos vender nessa faixa etária onde “a vida começa” seja justamente rejuvenescimento. Contraditório, não? Acreditar que publicidade é filosofia, este é um passo que não precisamos dar.

Fico aqui pensando se não há também certa dose de vingança contra as mais jovens nessas reafirmações constantes da força da mulher dos 40 e dos 50 e além. Algo como: “Vocês têm juventude, corpinho e possibilidades, mas a vida de vocês não tem nenhum significado. A vida de verdade começa aos 40”. Ora, todas nós tivemos 20, e todas as que têm 20 hoje terão 40 e, com sorte, um dia passarão dos 70. Foi importante para mim aos 20 e depois aos 30 saber que existiam mulheres interessantes, criando vidas interessantes, depois dos 40, dos 50 e além. 

Hoje, perto de completar 46 anos, sonho em chegar aos 80 com uma vida tão significativa como a de Fernanda Montenegro ou como a de uma parteira chamada Jovelina que conheci numa reportagem no Amapá. Mas ao meu próprio modo.


Agora, se essas mulheres que criam coisas interessantes e por isso ganham espaço na mídia e por isso se tornam formadoras de opinião e por isso se tornam perfeitas não para si mesmas, mas para os anunciantes, tivessem feito pouco caso da minha vida de 20 para afirmar a sua de 40, 50 ou além, eu teria ficado muito decepcionada. Não por acreditar nelas, mas por não poder acreditar nelas.

A vida é o que temos e o que fazemos dela, com um pouco de tudo, em qualquer idade. Aos 40, percebemos que começamos a envelhecer. Não acho que devemos negar isso, mesmo porque não adianta. O que vamos dizer aos 50 ou aos 60? Que a vida começa de novo? Ué, mas ela não tinha começado aos 40? E aos 70, 80 ou 90, vamos “descobrir” que a vida começa no fim?

Não existe “vida de verdade” – só existe vida, que é o que está acontecendo agora, seja lá o que for. Acho que vale mais a pena aceitar que envelhecemos e descobrir um jeito de viver com isso. Não começando, mas continuando a criar a melhor vida possível, a melhor vida possível com os limites de cada uma, do jeito de cada uma. E com uma grande dose de generosidade com as nossas atrapalhações – e também com as de quem amamos –seja aos 20, aos 40 ou aos 70.

De minha parte, aos 20 anos eu estava tropeçando nos meus próprios pés e me perguntando o que e quem sou eu. Aos 40 e poucos continuo tropeçando nos meus próprios pés e me perguntando quem e o que sou eu. Não que não tenha descoberto e trilhado algumas pistas, mas é que elas vão se multiplicando e se alargando no percurso. O tempo escasseia, mas o número de perguntas aumenta, o que é um tanto ingrato.

Aos 20 anos, eu não sabia se queria ser jornalista ou bióloga ou garçonete em Amsterdã ou me matar. Aos 40 e poucos eu me confundo com escolhas mais subjetivas, algumas não consigo nem mesmo nomear. E me preocupo muito em não ser uma coisa só, como um daqueles gênios presos em uma garrafa que só realizam o desejo dos outros. Me esforço então para desfazer rótulos sobre mim mesma – e faço caretas para não ficar cristalizada em uma só imagem no espelho, o privado e o público. Nesse momento da vida, como já escrevi aqui, a gente pode descobrir que é tão importante se desinventar como foi um dia se inventar. Mas imagino que, bem perto da morte, ainda vou estar tropeçando em pés com joanetes e pensando: o que e quem sou eu?

Tenho uma amiga dez anos mais velha para quem pergunto todo ano, só para sacanear: Você ficou mais sábia? “Não”, ela sempre responde, “mas estou com uma ruga enorme na testa”. Eu também não fiquei, digo. Mas acho que ficamos ambas, porque rimos disso. Depois dos 40, o que posso afirmar é que a vida, pelo menos para mim, não começou.

Continuei perdida, assaltada por perguntas e duvidando das respostas.


Mas comecei a entender que esta é uma boa notícia.
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