DENTRO DE UM ABRAÇO - Martha Medeiros

Onde você gostaria de estar agora, 
 exato momento?

Fico pensando nos lugares paradisíacos onde já estive, e que não me custaria nada reprisar: num determinado restaurante de uma ilha grega, em diversas praias do Brasil e do mundo, na casa de bons amigos, em algum vilarejo europeu, numa estrada bela e vazia, no meio de um show espetacular, numa sala de cinema assistindo à estréia de um filme muito esperado e, principalmente, no meu quarto e na minha cama, que nenhum hotel cinco estrelas consegue superar – a intimidade da gente é irreproduzível.

Posso também listar os lugares onde não gostaria de estar: num leito de hospital, numa fila de banco, numa reunião de condomínio, presa num elevador, em meio a um trânsito congestionado, numa cadeira de dentista.

E então? Somando os prós e os contras, as boas e más opções, onde, afinal, é o melhor lugar do mundo?

Meu palpite: dentro de um abraço.

Que lugar melhor para uma criança, para um idoso, para uma mulher apaixonada, para um adolescente com medo, para um doente, para alguém solitário? Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro. Dentro de um abraço não se ouve o tic-tac dos relógios e, se faltar luz, tanto melhor. Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve.
Que lugar melhor para um recém-nascido, para um recém-chegado, para um recém-demitido, para um recém-contratado? Dentro de um abraço nenhuma situação é incerta, o futuro não amedronta, estacionamos confortavelmente em meio ao paraíso.

O rosto contra o peito de quem te abraça, as batidas do coração dele e as suas, o silêncio que sempre se faz durante esse envolvimento físico: nada há para se reivindicar ou agradecer, dentro de um abraço voz humana nenhuma se faz necessária, está tudo dito.

Que lugar no mundo é melhor para se estar? Na frente de uma lareira com um livro estupendo, em meio a um estádio lotado vendo seu time golear, num almoço em família onde todos estão se divertindo, num final de tarde à beira-mar, deitado num parque olhando para o céu, na cama com a pessoa que você mais ama?

Difícil bater essa última alternativa, mas onde começa o amor senão dentro do primeiro abraço? Alguns o consideram como algo sufocante, querem logo se desvencilhar dele. Até entendo que há momentos em que é preciso estar fora de alcance, livre de qualquer tentáculo. Esse desejo de se manter solto é legítimo. Mas hoje me permita não endossar manifestações de alforria.

...recomendo fazer reserva num local aconchegante e naturalmente aquecido: dentro de um abraço que te baste.

OUTRA MANEIRA DE VER AS COISAS - Ramiro Calle

Era um homem que sempre tivera boa sorte, mas certo dia começou a deparar-se com muitas contrariedades. Foi visitar um sábio e disse-lhe:

- Venerável sábio, estou à beira do desespero. Desde há um tempo, tudo me corre mal. A minha mulher adoeceu, os meus negócios dão prejuízo e o meu ânimo anda abatido.

- Assim são as coisas – disse o sábio. – A fortuna e o infortúnio alternam-se. É a lei da vida.

- Não, não – protestou o homem. – Alguém conjurou contra mim, garanto-lhe.

O homem estava obcecado com isso e os raciocínios do mestre de nada serviam. De repente, o mestre disse:

- Ainda bem que conservo o amuleto que o meu mestre me deixou e que é infalível nestes casos. Nunca falhou.

O sábio pôs um pequeno seixo do rio na mão do homem e disse-lhe:

- Não o percas. É muito poderoso. Pendura-o ao pescoço e todos os dias, durante um mês, reza-lhe uma prece. Foi benzido pelo meu mestre e pelo mestre do mestre do meu mestre.

Aliviado, o homem foi-se embora. Todos os dias rezava uma prece ao amuleto e o seu ânimo começou a restabelecer-se, os seus negócios começaram a correr melhor e a sua mulher começou a recuperar. Passado um mês, voltou a visitar o sábio e disse-lhe:

- Alma nobre, que relíquia maravilhosa! Aqui a tem, senhor, é muito valiosa! Grande poder o dela!

Mas o sábio ordenou-lhe:

-Jogue-a fora! Desfaz-te dessa simples pedrinha. Não é um amuleto, apanhei-a um dia qualquer perto do rio.

O homem indignou-se visivelmente e perguntou:

- Está a fazer pouco de mim? Por que fez isso?

- Porque estavas tão obcecado que tive de usar a tua imaginação construtiva para refrear a tua imaginação destrutiva. É como quando um homem sonha que está a ser atacado por um leão mas encontra um revólver e o mata, ou seja, com uma arma ilusória matou um leão ilusório.

O poder da imaginação é extraordinário, tanto na sua direção construtiva como destrutiva, criativa ou autodestrutiva. É uma energia que há que saber orientar. 

A imaginação descontrolada e neurótica faz-nos ver o que não é e induz-nos a falsas interpretações e a sentirmo-nos ameaçados por objetos, situações e circunstancias que não têm qualquer mal. 

Um sinal de sabedoria é poder manter a mente mais atenta ao aqui e agora e exercitá-la para que compreenda o que é, e não o que foi ou possa vir a ser. 
in “Os Melhores Contos Espirituais do Oriente” – Ramiro Calle.

O MARAVILHOSO CÉREBRO EMOCIONAL DAS PESSOAS COM ALTA SENSIBILIDADE (PAS)

Às vezes não é fácil. Em muitas situações é difícil se encaixar em um mundo com tantos altos e baixos, muito barulhento, egoísta e desonesto. Os sentidos das pessoas com alta sensibilidade, ou pessoas altamente sensíveis, (PAS) são tão vulneráveis ​​quanto privilegiados. Elas podem sentir o que os outros não sentem, e o fazem com tanta intensidade que o mundo é mostrado a eles com uma série de realidades que escapam aos outros.

O que realmente faz uma pessoa com alta sensibilidade ser dessa forma? Isso é genético? Por que elas sofrem mais do que os outros? Por que o amor é ao mesmo tempo tão intenso e tão doloroso em seus relacionamentos? Por que desfrutam da solidão e, ao mesmo tempo, se sentem profundamente sós, desde crianças?

Em 2014 foi publicado um estudo interessante realizado na Universidade de Stony Brook (Nova York), cujo objetivo foi explicar as características do cérebro de uma pessoa com alta sensibilidade (PAS) e como ele poderia se diferenciar do das pessoas que não são, ou pelo menos não têm uma abertura emocional tão clara.

Os resultados do trabalho realizado por seis pesquisadores foram publicados na revista “Brain and Behavior”. Trazemos aqui algumas informações. Temos certeza de que você irá se surpreender.

Estima-se que cerca de 20% da população possui as características básicas que definem uma alta sensibilidade. É comum que elas passem grande parte de suas vidas sem saber que pertencem a esse pequeno grupo de privilegiados e que, de alguma forma, têm que viver usando “óculos invisíveis” que os fazem ver o mundo de uma maneira diferente e com um coração mais aberto e vulnerável.

Estudos realizados na Universidade de Stony Brook revelaram que as pessoas com alta sensibilidade têm um cérebro emocional dotado de grande empatia. São cérebros totalmente orientados à “sociabilidade” e à união com os demais.

O que isto significa?
O que os pesquisadores concluíram foi, basicamente, que os processos cerebrais dessas pessoas mostram um excesso de excitação nas áreas neurais relacionadas às emoções e à interação: elas são capazes de decifrar e intuir os sentimentos daqueles que estão à sua frente mas por sua vez, enfrentam um problema muito básico.

O resto do mundo não tem a mesma empatia, portanto, há um nítido desequilíbrio em relação à essa sensibilidade e a sensibilidade daqueles ao redor, e elas se veem como diferentes.

Para chegar a estas conclusões foram realizados diferentes testes, como exames de ressonância magnética que permitiram estudar os processos cerebrais das pessoas diagnosticadas como PAS e de outras não diagnosticadas. Para fazer isso, elas foram expostas a diferentes estímulos para verificar a atividade bioquímica e as diferentes estruturas que compõem a atividade cerebral.

Os resultados foram muito visíveis em dois aspectos:

Os neurônios espelho
Tenho certeza de que você já ouviu falar de neurônios espelho. Eles cumprem uma função social, sendo encontrados principalmente em seres humanos e primatas. Localizado no córtex frontal inferior do cérebro, perto da área da linguagem, eles estão relacionados, principalmente, à empatia e a nossa capacidade de capturar, processar e interpretar as emoções dos outros.

Em pessoas com alta sensibilidade, a atividade dos neurônios-espelho é contínua e muito notável, desde a infância.

Lobo da ínsula
A ínsula é uma estrutura pequena e alojada profundamente em nosso cérebro. É encontrada no córtex insular que, por sua vez, está relacionada com o sistema límbico, a estrutura base das nossas emoções que nos dá uma visão mais subjetiva e íntima da realidade.

Na verdade, os cientistas deste estudo chamam a ínsula de “sede da consciência”, que reúne grande parte dos nossos pensamentos, intuições, sentimentos e percepções de tudo o que experimentamos a cada momento. E não surpreende saber que, em pessoas com alta sensibilidade, essa estrutura “mágica” tem uma grande atividade em comparação com aquelas não caracterizadas com a alta sensibilidade.

O estudo também conclui que, além de serem mais sensíveis aos estímulos visuais associados a rostos e emoções humanas, elas também têm um limite mais baixo a muitos estímulos físicos, tais como luzes brilhantes ou sons altos, mesmo ativando as estruturas cerebrais relacionadas à dor. Algo curioso, sem dúvida.

As pessoas com alta sensibilidade têm um traço, uma maneira de sentir e compreender o mundo através de um sistema neurossensorial mais fino, nítido. E não é o que eles têm, é o que são.

Por isso devem aprender a viver com o coração e com este dom maravilhoso, porque o sofrimento não é uma obrigação, mas uma opção que não vale a pena escolher.

QUANDO VOCÊ COMETER UM ERRO, SEJA GENTIL CONSIGO MESMO. - Gema Coelho

Os erros são companheiros de vida inseparáveis, além de sábios mestres, sempre e quando nos empenhamos em aprender com eles. De acordo com a perspectiva que tomarmos, um erro pode ser uma oportunidade de sucesso, uma experiência de profundo sofrimento, ou um acontecimento a mais em nossas vidas.

A atitude diante dos nossos erros é o mais importante de tudo. O sofrimento derivado de cometer um erro pode exercer um grande poder sobre nós, sobretudo se somos exigentes. Porém, quem é o protagonista principal que faz com que a gente se sinta tão mal quando nos equivocamos? A seguir, o apresentaremos para você: o crítico interno.

O crítico interno
Você se lembra daquela pequena voz que surge no seu interior e que se dedica a julgar como você age, pensa ou sente? Não tem um tom muito elevado, mas até mesmo em seu sussurro, os efeitos que podem causar na gente são surpreendentes. E apesar de não sermos capazes de ver sua aparência, tem pinta de não ser demasiadamente grande… mas do que temos certeza é de que as consequência de escutá-la podem ser devastadoras.

Pois bem, te apresentamos a esse personagem que habita nosso interior e que, em algumas pessoas, atua como o protagonista principal das suas vidas e, em outras, como ator secundário: seu nome é Crítico e seu sobrenome Interno, Crítico interno, já o conhecia?

Não deveria ter dito isso”, “Não vão me dar esse trabalho porque não tenho as habilidades necessárias”, “Nada dá certo pra mim”, “Sou um desastre, desse jeito ninguém vai querer ficar comigo”, são apenas alguns exemplos do que o nosso Crítico Interno diz pra gente.

Essa pequena voz à qual costumamos dar poder pode chegar a complicar nossa saúde emocional se não encontrarmos nenhum remédio. Para ela, nunca há nada suficientemente bem feito, ainda que tenhamos colocado todo o nosso esforço nisso. Só sabe estar alerta para nos avisar que desviamos daquilo que interiorizamos como certo.

Se tivéssemos que dar uma forma para ela, seria como um monstro com os olhos grandes que coloca uma cara ameaçadora cada vez que não fazemos o que considera certo ou que cometemos um erro, indutor da culpa e mestre da exigência. Que má companhia, não é mesmo?

Origens do crítico interno
Essa pequena voz surge de experiências passadas relacionadas com nossa educação ou com situações dolorosas que vivemos ou presenciamos para nos alertar que continuamos não fazendo as coisas corretamente. Normalmente são críticas que interiorizamos e que transformamos em um padrão habitual de pensamentos.

Nos ensinaram o valor da exigência, do esforço e do compromisso, mas se esqueceram de nos avisar que nem tudo pode ser perfeito. O mundo não é branco ou preto: está cheio de cinza, e devemos tomar consciência disso. A busca pela perfeição nos torna insistentes, mas ao mesmo tempo ansiosos e estressados, imersos em culpa e frustração se não conseguimos o que queremos.

Para o crítico interno só existe um modo “correto”, e se desviarmos dele, voltaremos a sofrer. No fundo, sua intenção não é ruim, procurar nos proteger das críticas, rejeições, vergonhas e condenações. O problema se encontra na sua falta de flexibilidade e na sua forma de comunicar-se através do medo, da ameaça e do desprezo.

Além disso, quanto mais credibilidade damos a ele, mais poder ele terá sobre nós, transformando-se em nossa forma de pensar habitual.

Como nos relacionar com nosso crítico interno?
Como vimos, nosso crítico interno irá surgir como um lembrete quando nos equivocamos, desprezando-nos e culpabilizando-nos. Sua aparição dependerá de como a gente se sente, aparecendo nos momentos nos quais estamos mais vulneráveis, distorcendo a realidade e atacando nossa autoestima.

Até agora, aprendemos que ele manda e nós obedecemos, sem questioná-lo. Fazemos papel de carrascos e vítimas ao mesmo tempo. Mas, se não colocarmos limites, isso acabará nos destruindo. 

O que podemos fazer?

Em primeiro lugar, tenha em mente que o crítico interno foi crescendo com você e se instalou como sua forma de pensar. Por isso, você tem que identificá-lo para guiá-lo de maneira consciente e colocando os devidos limites. Você até pode imaginar como é falar com ele quando ele aparecer.

Em vez de dar-lhe credibilidade, questione-o, mas tratando-o com empatia e respeito. Sua forma de se relacionar com você foi definida através da crítica porque é a única coisa que lhe ensinaram, mas isso não impede que você mostre que há mais formas de fazer as coisas. Deixe-o saber que existe a flexibilidade além da rigidez, que existem muitas maneiras de interpretar o que acontece conosco.

Ensine que quando você comete um erro, a crítica o machuca, e que, a partir de agora, ser gentil se transformou na prioridade para sua saúde emocional.

“NÃO QUERO SER FELIZ. QUERO É TER UMA VIDA INTERESSANTE” – Contardo Calligaris

Psicanalista defende que deveríamos nos preocupar em tornar interessante nossa vida de todo dia. Isso implica ter curiosidade, aventurar-se, arriscar mais, lamentar menos e não se proteger das inevitáveis tristezas.

Mais do que buscar permanentemente felicidade máxima, um arrebatamento mágico, deveríamos nos preocupar em tornar interessante nossa vida de todo dia.

É o que defende o doutor em psicologia clínica e psicanalista Contardo Calligaris. Italiano de Milão, depois de mais de duas décadas em conexão direta com o Brasil, já morou na Inglaterra, Suíça, França e nos Estados Unidos e fez muitas viagens. Escreveu mais de dez livros, incluindo dois romances.

Criou até uma série para TV, Psi, no canal a cabo HBO. Diz que, semanalmente, abre mão de “parecer inteligente aos olhos dos pares” e publica toda quinta-feira uma coluna no jornal Folha de S.Paulo. Mais de 100 delas estão no livro Todos os Reis Estão Nus (Três Estrelas). Filmes, fatos, casos de amigos, tudo vira pretexto para traduzir um pouco das teorias da psicanálise, filosofar e provocar reflexão. “Não sou de dourar a pílula”, avisa. Não estranhe, portanto, se sentir um impulso diferente ao terminar de ler esta entrevista. Entrevista concedida a Dagmar Serpa/ revista Claudia.

O que é felicidade hoje?

Não gosto muito da palavra felicidade, para dizer a verdade. Acho que é, inclusive, uma ilusão mercadológica. O que a gente pode estudar são as condições do bem-estar. A sensação de competência no exercício do trabalho, já se sabe, é a maior fonte de bem-estar, mais que a remuneração. Nós temos um ideal de felicidade um pouco ridículo.

Um exemplo é a fala do churrasco. Você pega um táxi domingo ao meio-dia para ir ao escritório e o taxista diz: “Ah, estamos aqui trabalhando, mas legal seria estar num churrasco tomando cerveja”. Talvez você ou o taxista sofram de úlcera, e não haveria prazer em tomar cerveja. Nem em comer picanha.

Mesmo que não vissem problema, pode ser que detestassem as pessoas lá e não se divertissem. Em geral, somos péssimos em matéria de prazer. Por exemplo, estamos sempre lamentando que nossos filhos seriam uma geração hedonista, dedicada a prazeres imediatos, quando, de fato, vivemos numa civilização muito pouco hedonista. Por isso, nos queixamos de excessos e nos permitimos prazeres medíocres ou muito discretos.

Mas continuamos acreditando que ser feliz é ter esses prazeres que não nos permitimos. E agora?

Ligamos felicidade à satisfação de desejos, o que é totalmente antinômico com o próprio funcionamento da nossa cultura, fundada na insatisfação. Nenhum objeto pode nos satisfazer plenamente.

O fato de que você pode desejar muito um homem, uma mulher, um carro, um relógio, uma joia ou uma viagem não tem relevância. No dia em que você tiver aquele homem, aquela mulher, aquele carro, aquele relógio, aquela joia ou aquela viagem, se dará conta de que está na hora de desejar outra coisa. Esse mecanismo sustenta ao mesmo tempo um sistema econômico, o capitalismo moderno, e o nosso desejo, que não se esgota nunca. Então, costumo dizer que não quero ser feliz.. Quero é ter uma vida interessante.

Mas isso inclui os pequenos prazeres?

Inclui pequenos prazeres, mas também grandes dores. Ter uma vida interessante significa viver plenamente. Isso pressupõe poder se desesperar quando se fica sem alguma coisa que é muito importante para você. É preciso sentir plenamente as dores: das perdas, do luto, do fracasso. Eu acho um tremendo desastre esse ideal de felicidade que tenta nos poupar de tudo o que é ruim.

O que adianta garantir uma vida longa se não for para vivê-la de verdade? É isso que temos de nos perguntar?

Quem descreveu isso bem foi (o escritor italiano) Dino Buzatti, no romance O Deserto dos Tártaros. Conta a história de um militar que passa a vida inteira em um posto avançado diante do deserto na expectativa de defender o país contra a invasão dos tártaros, que nunca chegam. Mas tem um lado simpático na ideologia do preparo. É que está subentendida a ideia de que um dia a pessoa viverá uma grande aventura. Mas o que acontece, em geral, é que a preparação é a única coisa a que a gente se autoriza.

Então, pelo menos há um desejo de viver uma aventura?

Mas os sonhos estão pequenos. A noção de felicidade hoje é um emprego seguro, um futuro tranquilo, saúde e, como diz a música dos aniversários, muitos anos de vida. Acho estranho quando vejo alguém de 18 anos que, ao fazer a escolha profissional, leva em conta o mercado de trabalho, as oportunidades, o dinheiro… Isso nem passaria pela cabeça de um jovem dos anos 1960.

A julgar pela quantidade de fotos colocadas nas redes sociais de pessoas sorridentes, elas têm aproveitado a vida e se sentem felizes. Ou, como você aborda em uma crônica, hoje mais importante do que ser é parecer feliz?

O perfil é a sua apresentação para o mundo, o que implica um certo trabalho de falsificação da sua imagem e até autoimagem. Nas redes sociais, a felicidade dá status. Mas esse fenômeno é anterior ao Facebook. Se você olhar as fotografias de família do final do século 19, início do 20, todo mundo colocava a melhor roupa e posava seriíssimo. Ninguém estava lá para mostrar que era feliz. Ao contrário, era um momento solene. É a partir da câmera fotográfica portátil que aparecem as fotos das férias felizes, com todo mundo sempre sorridente.

E a gente olha para elas e pensa: “Eu era feliz e não sabia”.

Não gosto dessa frase porque contém uma cota de lamentação. E acho que a gente nunca deveria lamentar nada, em particular as próprias decisões. Acredito que, no fundo, a gente quase sempre toma a única decisão que poderia tomar naquelas circunstâncias. Então, não vale a pena lamentar o passado. Mas é verdade que existe isso.

As escolhas ao longo da vida geram insegurança e medo. Em relação a isso, você diz que há dois tipos de pessoa: os “maximizadores”, que querem ter certeza antes de que aquela é a opção certa, e a turma do “suficientemente bom”. O segundo grupo sofre menos?

Tem uma coisa interessante no “maximizador”: é como se ele acreditasse que existe o objeto mais adequado de todos, aquele que é perfeito. Mas é claro que não existe.

A busca da perfeição não gera frustração, pois sempre haverá algo que a gente perdeu?

Freud dizia que o único objeto verdadeiramente insubstituível para a gente é o perdido. E não é que foi perdido porque caiu do bolso. Ele fala daquilo que nunca tivemos. Então, faz sentido que nossa relação com o desejo seja esta: imaginamos existir algo que nunca tivemos, mas que teria nos satisfeito totalmente. Só não sabemos o que é.

Como nos livrar desse sentimento?

Temos de tornar cada uma de nossas escolhas interessante. Isso só é possível quando temos simpatia pela vida e pelos outros – o que parece básico, mas não é no mundo de hoje. Não por acaso, o grande espantalho do nosso século é a depressão. A falta de interesse pelo mundo e pelos outros é o que pode nos acontecer de pior.

HUMANIDADE ÀS CEGAS - Miguel Torga

Tanto jornal, tanta rádio, tanta agência de informações, e nunca a humanidade viveu tão às cegas. Cada hora que passa é um enigma camuflado por mil explicações.


A verdade, agora, é uma espécie de sombra da mentira. E como qualquer de nós procura quase sempre apenas o concreto, cada coisa que toca deixa-lhe nas mãos o simples negativo da sua realidade.

A ÍNDOLE DA MULTIDÃO - Charles Bukowski

 Há suficiente traição, ódio,
violência,
Absurdo no ser humano comum
Para abastecer qualquer exército a qualquer
momento.
E Os Melhores Assassinos São Aqueles
Que Pregam Contra o Assassinato.
E Os Melhores No Ódio São Aqueles
Que Pregam AMOR
E OS MELHORES NA GUERRA
-ENFIM- SÃO AQUELES QUE PREGAM
PAZ

Aqueles Que Pregam DEUS
PRECISAM de Deus
Aqueles Que Pregam Paz
Não Têm Paz.
AQUELES QUE PREGAM AMOR
NÃO TÊM AMOR
CUIDADO COM OS PREGADORES
Cuidado Com Os Conhecedores.

Cuidado
Com Aqueles
Que Estão SEMPRE
LENDO
LIVROS

Cuidado Com Aqueles Que Ou Destestam
A Pobreza Ou Orgulham-se Dela

CUIDADO Com Aqueles Rápidos Em Elogiar
Pois Eles Precisam de LOUVOR Em Retorno

CUIDADO Com Aqueles Rápidos Em Censurar:
Eles Temem O Que
Desconhecem

Cuidado Com Aqueles Que Procuram Constantemente
Multidões; Eles Não São Nada
Sozinhos

Cuidado
O Homem Vulgar
A Mulher Vulgar
CUIDADO Com O Amor Deles

Seu Amor É Vulgar, Busca
Vulgaridade
Mas Há Força Em Seu Ódio
Há Força Suficiente Em Seu
Ódio Para Matá-lo, Para Matar
Qualquer Um.

Não Esperando Solidão
Não Entendendo Solidão
Eles Tentarão Destruir
Qualquer Coisa
Que Difira
Deles Mesmos

Não Sendo Capazes
De Criar Arte
Eles Não
Entenderão A Arte

Considerarão Seu Fracasso
Como Criadores
Apenas Como Falha
Do Mundo

Não Sendo Capazes De Amar Plenamente
Eles ACREDITARÃO Que Seu Amor É
Incompleto
ENTÃO TE ODIARÃO

E Seu Ódio Será Perfeito
Como Um Diamante Brilhante
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
COMO UM TIGRE
COMO Cicuta

Sua Mais Refinada
ARTE 
(Traduzido por Clarah Averbuck)
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FERNANDO SABINO - O HOMEM NU


Ao acordar, disse para a mulher:
Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.
Explique isso ao homem — ponderou a mulher.
Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.
Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.
Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:
Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.
Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.
Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares... Desta vez, era o homem da televisão!
Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:
Maria, por favor! Sou eu!
Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.
Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.
Ah, isso é que não! — fez o homem nu, sobressaltado.
E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!
Isso é que não — repetiu, furioso.
Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.
Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso. — Imagine que eu...
A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:
Valha-me Deus! O padeiro está nu!
E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:
Tem um homem pelado aqui na porta!
Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:
É um tarado!
Olha, que horror!
Não olha não! Já pra dentro, minha filha!
Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.
Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
Não era: era o cobrador da televisão.

A TEORIA TRIANGULAR DO AMOR DE STERNBERG

A teoria triangular do amor visa explicar o fenômeno complexo que é o amor e os relacionamentos amorosos. A teoria proposta pelo psicólogo Robert Sternberg descreve os diferentes elementos do amor, as possíveis combinações desses elementos e o momento certo de formar outros tipos de relações.

O amor é muito interessante porque é um dos sentimentos mais intensos que podemos experimentar. O amor nos afeta em todos os sentidos, e quando encontrarmos a pessoa especial, nossa vida muda completamente. Quando nos apaixonamos, sentimos emoções intensas que afetam tanto a nossa mente quanto o nosso corpo. Por isso, vários psicólogos, sociólogos e médicos têm tentado entendê-lo e explicá -lo a partir de diferentes pontos de vista: biológico, cultural, etc. Nas últimas décadas a investigação sobre este tema tem sido mista, buscando a entender a paixão, o amor, a atração e o desgosto.

A teoria do amor de Sternberg:

Uma das teorias mais conhecidas do amor é a Teoria Triangular do Amor de Sternberg. Robert Sternberg é um professor da Universidade de Yale amplamente reconhecido pelas suas pesquisas. Além do amor, suas pesquisas têm como foco também a inteligência e a criatividade. No entanto, seu trabalho mais notório foi a Teoria Triangular do Amor, muitos outros especialistas sobre o assunto têm apoiado as suas ideias.

Compreendendo a Teoria Triangular do Amor:
Para Sternberg, o amor é composto de três qualidades principais que se manifestam em qualquer relacionamento amoroso: a intimidade, a paixão e o compromisso.

Intimidade: A intimidade se refere à sensação de proximidade ou à conexão entre duas pessoas que fazem parte de uma história de amor. É baseada na confiança, na amizade e no carinho.

Paixão: Este componente é a energia da relação. Tem a ver com as emoções, os sentimentos de atração física e o desejo ou a necessidade de estar com a outra pessoa, bem como ter relações íntimas com ela.

Compromisso: Se refere à decisão de continuar no relacionamento apesar dos altos e baixos que possam surgir. Inclui aspectos tais como: os momentos importantes, a história da relação, etc.

Estes três elementos representam os lados da teoria pirâmide de Sternberg. A intimidade fica no ponto mais alto, e a paixão e o compromisso nos lados. 

A forma de cada relacionamento será diferente, dependendo das combinações que ocorrerem com esses componentes. 

Por exemplo: em um relacionamento que ainda está nas fases iniciais, a paixão predomina sobre a intimidade e o compromisso.

As possíveis combinações ou tipos de amor:

Segundo as possíveis combinações, Sternberg afirma que existem diferentes formas de amar. Estas formas de amor podem ser entendidas de formas isoladas ou como etapas:

1. Carinho:
O carinho faz referência à amizade verdadeira: só há intimidade e não existe paixão ou compromisso. Os membros da relação sentem que podem confiar um no outro, mas não há desejo de ter relações íntimas ou compromisso como casal.

2.Paixão:
Nesta forma de amor existe muita paixão, no entanto, não há intimidade ou compromisso, tornando este tipo de relação superficial. É como uma espécie de romance, mas acaba logo no início da relação, pois não há compromisso o suficiente.

3. O amor vazio:
O amor vazio é caracterizado por uma presença elevada de compromisso, mas sem paixão ou intimidade. É bem comum em relações de longo prazo, quando não há nenhuma confiança ou relações íntimas, mas há o compromisso de estar juntos.

4. O amor romântico:
O amor romântico é uma forma de amor em que os membros da relação estão atraídos um pelo outro e há animação no casal,  também existe confiança e intimidade. O amor romântico tem inspirado milhares de romances e filmes por todo o mundo, é o amor de Romeu e Julieta. Se nesta fase do relacionamento o casal continuar com o mesmo entusiasmo, pode acabar em noivado.

5. Amor sociável:
Ele geralmente ocorre em relacionamentos duradouros. Há intimidade e comprometimento, mas nenhuma paixão . É o tipo de amor que pode ocorrer quando o casal não tem desejo e emoção pela outra pessoa, mas a convivência, as crianças e as experiências os mantêm unidos. Esta relação pode ser satisfatória para os membros e pode durar muito tempo.

6. Amor fugaz:
No amor fugaz prevalece a paixão e o compromisso, mas não há nenhuma intimidade. O amor fugaz ocorre quando os parceiros querem ficar juntos, pois há desejo e excitação de viver experiências íntimas juntos, no entanto, não têm muitas coisas em comum.

7.  Amor consumado:
Este é o amor completo, e é constituído pelos três elementos da Teoria da Pirâmide de Sternberg. O amor consumado é o principal arquétipo de amor, pois é o amor ideal, conhecido também como amor maduro.

Você tem que trabalhar com os três elementos para alcançar o amor ideal:

Sternberg diz que não há amor quando não existe nenhum dos três elementos no relacionamento. O autor afirma que os casais com amor consumado ou ideal podem continuar a dividir um profundo desejo e paixão mesmo depois de muitos anos de relacionamento. 

No entanto, Sternberg aponta que manter o amor ideal é mais difícil do que alcançá-lo, pois é necessário que o casal trabalhe os três elementos básicos da sua teoria.

O equilíbrio entre estes três elementos pode mudar a forma como o relacionamento progride. É importante lembrar que o tempo a sós não resulta em intimidade, paixão e compromisso. Conhecer os três elementos pode ajudar os membros do relacionamento a perceber em qual aspecto precisam melhorar no relacionamento. Sternberg conclui que sem a expressão dos três componentes, até mesmo o amor mais autêntico pode morrer.

O que acontece no nosso cérebro quando nos apaixonamos?

Muitos especialistas no assunto dizem que o amor é um fenômeno complexo, e apesar das muitas investigações que têm sido feitas até agora, não existe um consenso entre os pesquisadores. A paixão, a intimidade e o amor são experiências complexas em que os fatores sociais, culturais, psicológicos e biológicos interagem.
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NARCISISMO COLETIVO, UM VÍRUS QUE SE EXPANDE CADA VEZ MAIS

O narcisismo coletivo se transformou em um vírus. Nós podemos defini-lo assim porque causa danos, contagia e se expande facilmente. 

Embora não pareça, a busca pela exaltação do próprio grupo em detrimento dos demais é uma dinâmica que aconteceu em todas as épocas; variando em intensidade e alcançando suas máximas em determinados momentos históricos, como na Alemanha nazista.

Expressa certa nostalgia pela existência de uma “raça superior”. Mesmo que, é claro, não precise ser necessariamente uma raça. Cabe, então, a qualquer grupo que compartilhe algum elemento de identidade comum. Podemos falar de nações, mas também podemos falar de times esportivos ou de profissões.

Ele se manifesta de forma muito visível no futebol. O narcisismo coletivo faz com que, para alguns torcedores, seja impossível aceitar tranquilamente que seu time perca para o time oponente; também os leva a fazer grandes exibições de poder, com músicas, barulhos irritantes ou atitudes que 
buscam intimidação. 

“Narcisismo. Não acredito que você não tenha
um espelho de corpo inteiro”.
– David Levithan –

O mesmo acontece com os países e o sentimento nacionalista. Há aqueles que se irritam porque alguém não gosta de seu país. Não toleram nenhuma crítica contra seu país e desejam, fortemente, que sua pátria seja admirada por todos e destacada em todas as circunstâncias.

É claro que todos nós queremos sentir orgulho do lugar de onde viemos, ou do grupo ao qual pertencemos. No entanto, quando isso toma outras dimensões, já não se trata de um sentimento saudável. Mais cedo ou mais tarde este sentimento se transformará em intolerância e  violência.

Do orgulho de grupo ao narcisismo coletivo
Qual seria a diferença entre o orgulho nacional, o de grupo e o narcisismo coletivo? Quem sofre do vírus do narcisismo coletivo não quer sentir orgulho pelo seu grupo, e sim demonstrar ser superior aos demais. No fundo, habita a insegurança e, por isso, buscam a reafirmação do que os outros pensam.

Em qualquer sentimento, atitude ou comportamento humano onde haja exagero, o mais provável é que também haja um sintoma neurótico. O narcisismo não é uma excessão. Quando construído a nível individual, surgem as pessoas que gostam de ostentar e mostrar uma imagem de segurança, em vez da realidade que vivem.

O mesmo acontece nos grupos. É mais fácil que o narcisismo coletivo floresça naqueles grupos nos quais o que mais se compartilha é uma autovalorização fraca e fortes dúvidas sobre seu próprio prestígio. 

Por isso o que estas pessoas mais desejam é serem reconhecidas pelos demais. E não só isso: também desejam a derrota dos outros, nas mais diversas situações.

Um estudo realizado pela Universidade de Varsóvia, na Polônia, indicou que os grupos que sofrem de narcisismo coletivo são, geralmente, compostos por indivíduos que têm fortes sentimentos de insuficiência pessoal. O grupo é uma tentativa de compensar esta percepção de vazio.

A manipulação nos grupos narcisistas
É comum que os grupos que exibem um narcisismo coletivo gerem líderes autoritários e, muitas vezes, totalitários. O fato de se sentir guiado por alguém que não demonstra nenhuma vulnerabilidade, ou, em todo caso, é extremamente forte, dá segurança aos seus seguidores. Estes líderes costumam explorar todos estes sintomas e, por isso, exaltam com veemência a suposta superioridade que existe em pertencer a um grupo, comparado a não pertencer.

Este assunto foi estudado pela Universidade de Londres e concluíram que esse tipo de líder tende a construir teorias da conspiração contra eles. Um inimigo comum pode ser aquela peça que vai ajudar a consolidar sua uniformidade e a união dentro destes coletivos. O próprio narcisismo faz com que fantasiem sobre o fato de serem observados, invejados e potencialmente atacados por outros.

A agressão e a vingança começam a adquirir outro significado neste tipo de grupo. Cometer atos violentos contra aqueles que não pertencem ao coletivo pode ser visto de forma positiva. Isso pode acontecer especialmente caso a agressão seja dirigida a um possível inimigo, conspirador ou um aliado destes. O mesmo acontece com a vingança, que já não é vista como uma paixão irracional ou que causa mal, e sim como um direito legítimo, sustentado pela aparente necessidade de se defender.

Diferentemente deles, os grupos que têm um senso saudável de orgulho coletivo geram efeitos construtivos. Neste caso, produz-se uma maior coesão e confiança mútua. Uma união que, para ser consolidada, não precisa diminuir os outros nem passar por cima daqueles que sejam diferentes. Enquanto o orgulho razoável é o fundamento da democracia, o narcisismo coletivo é a base do fascismo e de seus métodos de imposição e controle.
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6 COMPORTAMENTOS QUE SÃO REFLEXOS DE TRAUMAS DA INFÂNCIA

O trauma da primeira infância se refere ao trauma psicológico que uma criança experiencia em seu período crítico de desenvolvimento, que vai da sua concepção até os cinco anos de idade.

Experiências de infância adversas se referem aos eventos potencialmente traumáticos que podem ter efeitos negativos e duradouros na saúde e bem-estar da pessoa.

Algumas dessas experiências adversas podem ser causadas por abuso, negligência, violência familiar ou pais com doença mental.

Independentemente da idade que você experienciou o trauma, seus efeitos irão se manifestar naturalmente em sua vida adulta. Se não for diagnosticado ou tratado, isso pode ter um impacto significativo em sua vida e na capacidade de se desenvolver como adulto.

Como os efeitos não são os mesmos para todos, aqui estão algumas das manifestações mais comuns de experiências de infância traumáticas.

Verifique os possíveis sintomas que você pode estar manifestando sem saber por quê.

1. Você sofre de ansiedade severa.
Na maior parte do tempo você sente pânico e não é capaz de compreender as coisas facilmente. Você é ansioso mesmo quando não há motivo para ser.

A vida parece difícil de controlar, o que faz com que você se sinta sempre no limite. Mesmo um pequeno gatilho pode colocá-lo à beira de um ataque de pânico.

Sua mente é hiperativa e pensa demasiadamente em todas as situações possíveis. Isso é adicionado à sua ansiedade, alimenta seus medos e distorce a imagem que você tem do mundo.

2. Você se conforma com as coisas onde você acha mais confortável.
Traumas de infância restringem suas emoções. Fazem você ter medo de tentar coisas novas. Pelo fato de suas cicatrizes e feridas serem bem profundas, sair da sua zona de conforto é praticamente impossível. Até mesmo a ideia de colocar os pés em território novo o deixa nervoso. Por isso, você tende a se conformar até mesmo com coisas pequenas que não prometem um futuro melhor, contanto que você esteja confortável.

3. Você permite que o medo controle a sua vida.
Você toma decisões baseadas no grau de “segurança” que sente. Em sua perspectiva, estar seguro significa não fazer coisas que o assustam. Por exemplo, se o seu trauma é associado à violência na família, você tentará evitar ter sua própria família. Só que quanto mais você evita seus medos, mais você dá poder a ele.

4. Você tem a tendência de se afastar.
Você se sente seguro apenas na sua própria companhia. Se afastar do mundo exterior lhe traz conforto. Você é distante até mesmo na presença de familiares. Você somente se aproxima quando precisa, e quando o faz, é com medo de ser julgado. Isso leva ao desenvolvimento de transtorno de ansiedade social.

5. Você desenvolve uma atitude passiva agressiva.
Uma atitude passiva agressiva é resistir à demanda de outros em silêncio para evitar confronto. Você faz os outros acreditarem que você concorda, quando, na verdade, não concorda.

Suprimir suas emoções é um mecanismo de defesa que você usa para evitar o confronto direto com o problema. Isso cria ressentimento e amargura para com os outros e o mundo, os quais você culpa depois por esses sentimentos.

6. Você sempre fica nervoso.
Quando enfrenta uma situação de estresse, você frequentemente perde o controle. É porque seu corpo físico também está traumatizado e deixa você se sentindo tenso o tempo todo, levando você à situação de escolher entre brigar ou correr.

Você pode não lembrar mais do trauma, mas seu corpo lembra das emoções que ele causou em você. Por isso, você sente pânico ou agitação.

Como seguir em frente e curar seus traumas:
Não é fácil refletir sobre os efeitos de traumas de infância, principalmente quando o machucado, a dor ou a memória está profundamente enraizada em sua alma.

Não importa o quão difícil pareça ser superá-los, você precisa começar. Passo a passo. Vá cada vez mais fundo e deixe que você experiencie aquela dor e aquelas emoções que você guarda.

O processo pode envolver uma exposição gradual das diferentes camadas de si mesmo, reproduzindo mais uma vez os eventos em sua mente.

Esse processo pode ser doloroso, mas quando você olha para si mesmo com perdão e compaixão, você entenderá que não foi culpa sua. Você então perceberá devagar que a cura é possível. Você perceberá que tudo que precisa fazer para curar-se é parar de resistir à dor e deixá-la fazer o que tem que fazer, sinta as emoções e deixe-as ir embora.

É assim que você se livra do trauma e da bagagem emocional e é muito mais rápido e fácil do que você imagina. Apenas deixe que você experiencie aquelas emoções.

Comece cuidando de si mesmo. É o primeiro passo em direção à sua jornada de cura.


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