O TEMPO E NÓS - Mário Sérgio Cortella

Conversa na frente do elevador (cujo botão de chamada era seguidamente apertado pela mesma pessoa): “Olha, eu tenho um livro pra você ler que é bom demais”! Resposta do outro, preocupado: “É grande”?

Pouco depois, outras pessoas ali mesmo, também apertando o botão com sofreguidão, rola outra conversa: “Descobri um curso para você fazer que é magnífico”! Resposta, com ar franzido: “Demora”?

Não tenho tempo! Esse é quase um brado recorrente. Ora, tempo é questão de prioridade; se digo que não tenho tempo para algo, estou dizendo que aquilo não é prioridade para mim.

Por isso, a questão central não é saber se tenho ou não tempo, mas, isso sim, quais são as minhas prioridades ao viver. Ficar idoso é ter bastante idade e, portanto, avolumar mais tempos; já o envelhecimento vem com vigor quando desistimos de usar o tempo para a fruição, a partilha, o crescimento, e a inovação de si mesma e de si mesmo.

A velhice é uma sensação de que o tempo é algo a ser aguardado na conclusão (o tempo passa...), em vez de usado para reinvenção (vou achar um tempo para isso)...

A velhice é, antes de mais nada, uma desistência.

Em 1924 o estupendo estudioso da cultura brasileira, nosso maior pensador sobre Folclore, o potiguar Câmara Cascudo, publicou pela editora Monteiro Lobato (isso mesmo!) a obra Histórias que o tempo leva; foi seu segundo livro de uma série de dezenas e dezenas que produziu em 88 anos de vida.

Nascido em Natal em 1898 (há pouco mais de 180 quilômetros de Currais Novos, como diria outro potiguar dedicado ao livros, José Xavier Cortez) , tem seu corpo naquela capital sepultado desde 1986.

Cascudo deixou um livro de memórias, O Tempo e Eu, cuja primeira edição é de 1968 (ano simbólico!) e que saiu pela editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, da qual ele foi professor e cujo Instituto de Antropologia tem seu nome. Obra sólida, marcada não pela nostalgia de “tempos perdidos” mas pela alegria dos “tempos vividos”.

Professor com orgulho, não perdia tempo quando alguém esquecia isso; bastante idoso, irritava-se mais e mais com quem o chamava de folclorista e, em uma entrevista foi direto: “Faço questão de ser tratado por esse vocábulo que tanto amei: professor. Os jornais, na melhor ou na pior das intenções, me chamam folclorista. Folclorista é a puta que os pariu. Eu sou um professor. Até hoje minha casa é cheia de rapazes me perguntando, me consultando”.

Foi um gênio, inclusive no uso do tempo.

Porém, sua genialidade não era unânime dentro de casa. Teve uma cozinheira que trabalhou com ele mais de quarenta anos, pessoa boa e dedicada, que um dia foi abordada perto do fogão por uma visita de Cascudo (em lugar que dava para ver o professor no interior da biblioteca pessoal) e esta comentou “Mas esse homem é um gênio, né”.

A cozinheira disse, sem parar de mexer o pirão de queijo: “Acho não, moço. Faz décadas que estou aqui e vejo ele estudar todo dia por um tempão”...

GRANDES QUESTÔES - Marcelo Gleiser

Uma sociedade que deixa de se questionar 
sobre o sentido profundo das coisas está fadada ao retrocesso

Nos últimos 400 anos, milhares de homens e mulheres usaram o método científico para construir um corpo de conhecimento único que transformou a humanidade. Baseado na formulação de hipóteses e nos seus testes empíricos, o método oferece um processo de construção progressiva, em que descrições cada vez mais abrangentes dos fenômenos naturais são obtidas.

Da física de Newton, que descreve a gravidade como uma ação à distância entre corpos com massa, à relatividade de Einstein, que descreve a gravidade como resultado da curvatura do espaço em torno de objetos com massa, uma quantidade cada vez maior de fenômenos naturais foi compreendida.

O mesmo ocorre com a mecânica newtoniana e sua extensão para a mecânica quântica, que descreve os átomos e suas partículas. Ou da biologia com Darwin e a subsequente revolução na genética. Dessa compreensão e de suas aplicações vem a tecnologia, parte indissolúvel de nossas vidas.

Esse acúmulo de conhecimento não ocorreu ao acaso. Ideias, por mais belas e convincentes que possam parecer, só se tornam parte do corpo de conhecimento científico após serem testadas no laboratório.

Mais precisamente, uma teoria só é aceita enquanto não for provada errada ou incompleta. Não existem explicações finais; apenas descrições satisfatórias dentro do que podemos testar. Com o avanço da tecnologia, esses testes tornam-se cada vez mais refinados. É justamente dessa maior precisão que falhas nas teorias aceitas podem surgir. Sem o constante refinamento das tecnologias usadas, ficamos sem meios de testar novas ideias. E o avanço do conhecimento estagna.

Essa é uma preocupação constante dos cientistas, especialmente daqueles cujas ideias e teorias envolvem testes que empregam tecnologias avançadas e, em geral, caras. Quem não fica maravilhado com as imagens espetaculares de galáxias e nebulosas distantes do Telescópio Espacial Hubble ou de um dos telescópios gigantes no topo de montanhas no Havaí e no Chile? E a descoberta do bóson de Higgs, a tal "partícula de Deus"?

Galáxias a 10 bilhões de anos-luz ou partículas subatômicas que existem por menos de um bilionésimo de segundo parecem ser realidades distantes do nosso dia a dia, com contas a pagar, trânsito, questões sociais e políticas diversas. Há quem diga que são essas as questões fundamentais, que investir no conhecimento mais abstrato é perda de tempo e de insumos fiscais.

Não há dúvida de que problemas sociais e políticos precisam de nossa atenção. Não há dúvida também de que projetos científicos de larga escala são caros. Porém, a resposta não precisa ser "isso ou aquilo". Não precisa e não deve.

Se deixarmos de questionar o sentido profundo das coisas e nos dedicarmos apenas ao imediato, abandonaremos um dos aspectos mais nobres da humanidade: a necessidade de nos questionar sobre o mundo, sobre nosso papel nele e nossas origens. Deixaremos de construir pontes entre as várias vertentes do conhecimento, que enriquecem nossa visão de mundo. Uma sociedade que deixa de se indagar sobre as grandes questões está fadada ao retrocesso. O espírito humano precisa do novo para crescer.

SOMOS O QUE LEMBRAMOS - Cláudia Penteado

“Lembrar é fácil para quem tem memória. 
Esquecer é difícil para quem tem coração.” 
(William Shakespeare)

Mnemósine é a pouco lembrada deusa grega da Memória. Curiosamente, uma de suas filhas com Zeus, a musa Clio – na verdade, deusa da história – costuma levar a fama. Mas Mnemósine – filha do imperador Cronus com a deusa Gaia (terra) – foi considerada uma das mais poderosas deusas de seu tempo. A memória nos distingue de outras criaturas no mundo animal e nos equipou com a razão e a capacidade de prever e antecipar acontecimentos.  Mnemósine é citada, muitas vezes, como a primeira filósofa e detentora do poder da razão: nomeou objetos, deu aos humanos a capacidade de dialogar, memorizar, lembrar. Quando não existia a escrita e as histórias eram contadas de geração para geração, a memória exercia papel essencial.

Mnemósine preservava do perigo do esquecimento. Na cosmogonia grega, as almas bebiam do rio Lete (de “letal”, esquecimento) quando estavam prestes a reencarnar, e, por isso, esqueciam sua existência anterior. Já quem escolhia lembrar as lições aprendidas em vida, recebia a bebida de Mnemósine e seguia para os campos elisios para ter paz e tranquilidade.

Afinal de contas, como armazenar e contar a nossa própria história?

Compartimentada na mente, onde o excesso de informações nos faz esquecer mais do que lembrar? Na mente e nas lembranças nos traímos o tempo todo, trafegando num terreno pantanoso onde ficção se mistura com a realidade e acabamos não tendo mais certeza do que restou do “fluxo e refluxo dos dias”. E as coisas que guardamos? O que representam, afinal, “as coisas” na nossa história? As fotografias? As cartas? Os objetos colecionados?

Outro dia passei uma noite na casa onde cresci, na região serrana. Cheguei lá usando o velho instinto geolocalizador, já  que a neblina tornou o caminho completamente branco, embotando a visão. Já em casa, protegida do frio e da garoa, decidi mergulhar fundo no passado, o que não é difícil, já que cada cantinho da casa remete a um cem número de lembranças – reais ou imaginárias, não importa muito. Fui fundo: decidi remexer em caixas de guardados no meu antigo quarto infantil, hoje usado pela minha filha. Reli cartas, revi e revivi montes de fotos e momentos.

No calor do meu passeio nostálgico, percebi que o que os guardados têm de familiar e de aconchegante, têm também de inquietante. O que parece é que sempre há “coisas” em excesso. O que fazemos com as coisas que compõem a nossa história iconográfica, os “itens históricos” colecionados ao longo da vida? Como determinar se há um “excesso”? Até que ponto jogar “coisas” fora ou dá-las representa um ato prático e simbólico – uma vez que o que importa e é de fato relevante,  permanecerá sempre dentro e não fora?

Minha avó materna costumava queimar todas as cartas recebidas ao longo do ano na lareira da sala, sempre perto do Natal. Ela, que perdeu casas e “coisas” de boa parte da vida na segunda guerra, não tinha grande apego a coisas. Mas fotos, bem me lembro, tinha em profusão. Gostava delas, vivia pedindo que lhe mandássemos, que lhe déssemos para guardar. Lembro claramente do quanto as imagens lhe eram importantes.

Já minha ex-sogra era uma guardadora de “coisas” profissional. Dona Zélia guardava cada desenho que seus netos lhe dessem, qualquer bonequinho que ganhasse, colecionava corujinhas e outras miniaturas, armazenava panos de prato para poder presentear e nunca faltar, adorava brincos, botões, vidrinhos de perfume. Fotos, então, nem se fala. Suas paredes já não tinham espaço para novos quadrinhos com fotos da família, e as prateleiras transbordavam de álbuns.

Remexendo meus guardados, descobri montes de cartas recebidas e algumas cópias das que escrevi e guardei, por algum motivo. Lendo-as, protegida pela distância do tempo, recordei dramas e preocupações, estados de espírito e sentimentos que formam uma linha do tempo bem diferente daquela que temos hoje no Facebook, onde está só o que é bom e passou por um crivo cuidadoso para ser visto pelos outros. Essa nova linha do tempo virtual certamente não tem o mesmo valor. Se antes fotografar era realmente registrar a história, hoje transformou-se em um exercício de exibicionismo muitas vezes gratuito e descartável. Pode-se deletar uma linha do tempo inteira. Substituir por novas fotos e amigos mais interessantes ou desejáveis em um outro momento da vida. Manipulamos e deletamos nossa história virtual da maneira que bem entendemos, apertando alguns botões.

Em geral, a decisão do que descartar tem muito menos a ver com quem somos do que com quem deixamos de ser. Coisas deixam de fazer “sentido” em nossas vidas, estantes ou gavetas quando não nos enxergamos mais nelas. Essa é a  lógica que nos impede de abarrotar nossas casas e transformar nossos espaços em verdadeiros museus. Mutantes, vamos cambiando nosso jeito de ver o mundo a cada dia, e nem sempre nos orgulhamos do que já fomos e das escolhas que fizemos. Aí deletamos.

Mas as coisas também nos servem para mantermos por perto as lembranças. Como Mnemósine, acredito que há um grande valor em manter viva a memória de quem já fomos e as lições que aprendemos. Troféus de viagem nos fazem reviver peregrinações pelo mundo, livros são parte de nós mesmos, fotos remetem a tantos e tantos momentos que compartimentalizamos na memória, displiscentemente. Cartas são verdadeiras preciosidades autobiográficas.

Artigos de jornal guardados resgatam ideias que já nos foram relevantes, uma peça de roupa pode lembrar o cheiro de alguém que já se foi ou um romance inteiro.

Não chego a nenhuma conclusão definitiva, claro. Jogo algumas coisas fora, reorganizo outras e, aconselhada ao pé do ouvido por Mnemósine, guardo a maior parte. Reconheço que não quero esquecer. 


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JUVENTUDE, VELHICE - Danuza Leão

 
Com algum cuidado com a vaidade 
e a sorte de ter uma boa saúde, 
os anos passam e a vida (quase) não muda.

Vi na Folha de São Paulo, um belo caderno especial com o nome "Sem medo de envelhecer", e como costumo me meter em coisas para as quais não fui chamada, vou dar minha opinião.

Só que, sinceramente, não conheço bem o assunto. Vivo da mesma maneira que vivi a vida inteira; quase nada mudou. Deixei de fazer alguma coisa que fazia antes? Poucas, que não me fazem falta (a natureza é sábia), mas sei que fiquei mais impaciente com as pessoas. De resto, tudo igual, praticamente.

Tenho observado que, dependendo do país, a velhice é encarada de maneira diferente. Na Europa, por exemplo, não se refere a uma pessoa dizendo que ela é velha -nem jovem; essas palavras não são usadas quando se fala sobre alguém, seja homem, seja mulher. Ao falar, eles podem dizer eventualmente "deve ter em volta de 50" (ou 60, ou 70), e só.

O Brasil é difícil para quem não é mais uma gatinha -com os homens é diferente, é claro-, e a cada ano surge uma "safra" nova, palavra, aliás, bem deselegante; quando um novo verão se anuncia, algumas, que conseguiram alguma notoriedade no anterior, pela beleza, pelo frescor da juventude, deixam de ser famosas. Só permanecem na crista da onda as que têm um algo mais.

Com algum cuidado com a vaidade e a sorte de ter uma boa saúde, os anos passam e a vida (quase) não muda.

Todos podem -e devem- continuar trabalhando, indo à praia, viajando, dançando, comendo, bebendo, namorando, e muitos são mais felizes do que na plena juventude.
Porque sabem o que querem, não perdem tempo com o que não interessa; as mulheres, como já não têm tantas ilusões, sabem que podem ser felizes sem a necessidade de um amor, um companheiro, um marido; um homem, enfim.

Se encontrarem, ótimo, mas quando olham para trás e lembram do quanto sofreram quando se acharam apaixonadas -um homem era necessário para que uma mulher pudesse existir-, devem pensar: "ah, quanto tempo perdido".

Hoje, homens e mulheres numa faixa de idade mais alta podem fazer tudo o que querem, sem precisar nem mesmo de um amigo/a, porque são mais seguros, coisa que ninguém é quando jovem. A não ser quando desistem e passam a viver não suas próprias vidas, mas as dos filhos, e depois, as dos netos. Aí é a aposentadoria da vida, uma escolha pessoal.

A cultura brasileira é cruel no quesito idade. Dizer que uma pessoa é -ou parece- jovem é um elogio, e chamar de velho é uma maneira de insultar, geralmente usada quando não encontram outra coisa para dizer àqueles de quem não gostam, com quem não concordam.

A rigor, o assunto nem deveria existir -a não ser, é claro, para ajudar os que não podem viver com independência, precisando de cuidados especiais, o que pode acontecer com gente de qualquer idade, gente que teve a má sorte de ter problemas de saúde.

Nessa minha última viagem, percebi que em Paris, por exemplo, ninguém é apontado como gay; que seja um homem (ou mulher) que tem relações amorosas com pessoas do mesmo sexo, disso não se fala -tanto como não se fala se alguém é jovem ou não. As pessoas são como são, e ninguém perde tempo "carimbando" ninguém; simplesmente não tem importância.

Mas aqui, ai da mulher que é ou foi bonita, quando os anos vão chegando. Essas não são perdoadas, e a idade que têm é assunto de discussão, se têm dois anos a mais ou a menos.

Por isso, resolvi aumentar a minha, e se me perguntam, digo que acabei de completar 91 anos; assim, corro o risco de ouvir um "mas que incrível, não parece", o que é sempre bom de ouvir.
E como estou saindo de férias, mando um beijo e até março.

 
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UMA TAÇA DE SAÚDE - Luiz Loccoman

Ao bebermos vinho tinto lentamente, em pequenos goles, sentindo o sabor, nosso cérebro se beneficia do resveratrol, substância presente nas uvas que ajuda a prevenir a deterioração das células neurais.

Degustar uma taça de vinho pode proporcionar mais que prazer e bem-estar. A bebida milenar, associada ao deus grego Dioniso e ainda hoje usada em rituais religiosos, tem chamado a aten­ção de cientistas por seus benefícios à saúde. É comprovado que, em pequenas quantidades, previne doenças cardiovas­culares, diabetes e alguns tipos de câncer. Uma substância em especial tem revelado grande potencial terapêutico: o resveratrol, molécula presente na casca de uvas pretas e ro­sadas e um dos ativos não alcoólicos encontrados na bebida. Segundo o cientista Lindsay Brown, da Escola de Ciências Biomédicas da Universidade de Queensland, na Austrália, a molécula reduz os sintomas de doenças relacionadas à idade, como o diabetes 2. Segundo Brown, a substância per­tence ao grupo das sirtuínas, família de enzimas que agem na regulação energética e no envelhecimento das células.

Em um estudo da Universidade do Texas pesquisadores injetaram o resveratrol no cérebro de ratos e observaram aumento da secreção de insulina e redução dos níveis glicêmi­cos. Mesmo nos animais que receberam dieta hipercalórica, a molécula ajudou a reduzir os níveis de açúcar sem causar os efeitos colaterais dos medicamentos para diabetes mais utilizados. A descoberta pode ajudar a criar remédios que atuem sobre as sirtuínas. Entretanto, os pesquisadores res­saltam que esse mecanismo não esclarece o efeito protetor do vinho contra o diabetes 2, pois o resveratrol não parece atravessar facilmente a barreira hematoencefálica. Isso ocorre porque a substância é praticamente inativada quando chega ao intestino e ao fígado. Assim, ela atinge a circulação apenas em pequenas quantidades. Porém, se o vinho for bebido de forma lenta, em pequenos goles, as chances de absorção pelo sangue aumentam, através das membranas mucosas da boca, até 100 vezes. 

A equipe coordenada pelo químico André Souto, da Pontifícia Univer­sidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), trabalha no desenvolvimento de um fármaco contra diabetes com base no resveratrol, que além de encontrado na uva, está presente em quantidade 100 vezes maior também na hortaliça popularmente conhecida como azedinha (Rumex acetosa). No entanto, ainda são necessários mais estudos para saber se é possível produzir remédios a partir da planta.

À FRANCESA
O resveratrol tem mostrado efeito sobre várias patologias. Cientistas da Escola de Medicina Johns Hopkins, em Maryland, administraram a substância em ratos e duas horas depois indu­ziram um derrame isquêmico nos animais, cor­tando o suprimento de sangue do cérebro. Eles observaram que os camundongos que haviam ingerido preventivamente um composto com resveratrol sofreram significativamente menos danos cerebrais do que os que não receberam a substância. O estudo foi publicado on-line na Neurology Experimental.

O neurocientista Sylvain Doré, coordenador da pesquisa, aponta que o resveratrol pode aumentar os níveis da enzima hemeoxigenase (HEOX), conhecida por proteger as células neurais contra perda progressiva de função neurológica causada pelo entupimento (isque­mia) ou rompimento (hemorragia) de vasos sanguíneos cerebrais. Durante um acidente cardiovascular, a HEOX aumenta a resistência dos neurônios contra a asfixia. A novidade é que o resveratrol pode potencializar a ação da enzima e tornar o cérebro mais resistente contra o AVC isquêmico. Por outro lado, os efeitos do resveratrol dependem da quantidade de heme oxigenase presente no organismo. Ratos com deficiência da enzima não se beneficiaram da ação protetora do resveratrol – neles um maior número de células cerebrais morreu após a indução do derrame isquêmico. Doré associa suas conclusões ao que chama de “paradoxo francês”: apesar da dieta rica em queijos, man­teiga e outras gorduras saturadas, a incidência de doenças cardiovasculares é relativamente baixa entre os franceses. O fato é atribuído ao consumo regular de vinho tinto.

Além disso, o consumo da bebida tem sido associado também à diminuição de doenças inflamatórias agudas como a septicemia (infec­ção grave do organismo por germes patogêni­cos). 

Em estudo feito na Escócia, o imunofar­macologista Alirio Melendez, do Centro de Pes­quisa Biomédica da Universidade de Glasgow, utilizou o resveratrol para tratar camundongos com doenças inflamatórias agudas. Ele aponta que processos de infecções graves são difíceis de ser controlados e, ainda hoje, são causa frequente de morte. 

Pacientes que sobrevivem à infecção mantêm qualidade de vida muito baixa por causa dos danos provocados pela inflamação de vários órgãos internos. Melendez induziu um agente inflamatório em dois grupos de ratos, mas antes disso um deles havia recebi­do doses de resveratrol. Os camundongos que não receberam a substância mostraram forte resposta inflamatória, parecida com a doença em humanos, enquanto o grupo que recebeu tratamento não demonstrou sinais de infecção. Os cientistas examinaram os tecidos dos ratos para determinar exatamente como o resveratrol foi capaz de proteger os animais e descobriram que a substância impediu o corpo de criar duas moléculas envolvidas no desencadeamento de inflamações: a esfingosina quinase e a fosfoli­pase. O pesquisador acredita que o resveratrol pode ser usado para tratar doenças inflamató­rias e desenvolver drogas ainda mais eficazes.

Doré aponta, porém, que tomar suplemen­tos de resveratrol, comercializados em alguns países como os Estados Unidos, não garante os mesmos efeitos do consumo moderado de vinho. Apesar de a substância ser encontrada em uvas pretas, ele acredita que a interação com o álcool presente na bebida garante o potencial terapêutico da substância.

NA MEDIDA CERTA
É importante ressaltar que as quantidades de resveratrol na bebida variam com o tipo de vinho. Ainda são necessárias mais pesquisas para escla­recer qual tipo é mais adequado para consumo e quais as quantidades indicadas. “Talvez o resve­ratrol não seja o responsável direto por proteger as células cerebrais contra os danos provocados pelos radicais livres. O mais provável é que a subs­tância e os seus metabolitos estimulem as células a se defender”, sugere Doré. O neurocientista se concentra em estudar os efeitos preventivos da substância, mas pretende investigar os benefícios terapêuticos depois do acidente vascular cerebral (AVC) e se é possível reverter perdas neurais que surgem com o passar do tempo.

Outro benefício associado ao consumo de vinho tinto foi publicado no Journal of Neuroscience. Em um experimento com roedores, o neurocientista Giulio Pasinetti e seus colegas do Departamento de Psiquiatria da Escola de Medicina Monte Sinai, em Nova York, mostraram que substâncias presentes na bebida podem combater os primeiros sinais de Alzheimer. Eles aplicaram extrato retirado da semente de uva em camundongos na fase pré-sintomática da doença degenerativa, durante cinco meses. A dose aplicada era equivalente à quantidade média de alimentos consumida pelos animais, com referência em valores diários de uma dieta saudável. A exposição à substância reduziu a acumulação de placas amiloides no cérebro e o declínio cognitivo em comparação com o grupo de controle. Observaram também que os roedores tinham melhor memória espacial. Segundo Pasinetti, o vinho pode ajudar a retardar a formação de placas e fazer com que os sintomas, como a perda cognitiva, demorem mais para aparecer.

Em um estudo anterior, o neurocientista relatou que o consumo moderado da bebida e de outros produtos feitos da uva traz benefícios à saúde, particularmente para a função cardio­vascular. O objetivo agora é tentar descobrir qual a principal molécula, entre os milhares conti­das no vinho tinto, envolvida na prevenção de patologias neurodegenerativas. Outros grupos desenvolvem pesquisas semelhantes com o café. “Esse pode ser o primeiro passo para desenvolver um tratamento natural e sem contraindicações para demência”, diz.

Apesar dos ganhos trazidos pela bebida, o consumo de álcool tem riscos, principalmente para pessoas com problemas hepáticos. “Se uma taça diária funciona para os franceses, que mantêm o hábito ao longo de gerações, isso não significa que pessoas que nunca ingeriram a bebida vão se beneficiar se incor­porarem o vinho à sua dieta”, diz Pasinetti. 

Uma alternativa inofensiva é o consumo de uvas pretas e rosadas. Elas contêm altas concentrações de antioxidantes, resveratrol e flavonoides, principalmente na casca e nas sementes. Para alguns pesquisadores, comer a fruta fresca ou tomar seu suco garante a mesma quantidade de antioxidantes, com a vantagem – para tristeza dos apreciadores de vinho – de não ter álcool.

ALEGRIA – Frases sábias de homens sábios.


“Pode-se desfrutar de tanta alegria em dar prazer a alguém que às vezes sentimo-nos quase na obrigação de agradecer a essa pessoa.”
Henri Montherlant

“A alegria evita mil males e prolonga a vida.”
William Shakespeare

“Pode-se ficar alegre consigo mesmo durante certo tempo, mas a longo prazo a alegria tem de ser compartilhada.”
Ibsen

“A alegria é para o corpo humano o mesmo que o sol é para as plantas.”
Jean Massillon

“Quem é alegre tem sempre razão de sê-lo, ou seja, justamente esta, a de ser alegre. Nada pode substituir tão perfeitamente qualquer outro bem quanto essa qualidade, enquanto ela mesma não é substituível por nada.”
Schopenhauer

“Já é vender a alma não saber contentá-la.“
 Albert Camus

“Se queres viver alegremente, não te preocupes nem com o passado nem com o futuro.“
Johann Goethe 

“A alegria é a pedra filosofal que tudo converte em ouro.”
Benjamim Franklin

“O desgosto e a alegria dependem mais do que somos do que daquilo que nos acontece.”
Multatuli
Compilação: Cult Carioca
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ORGASMO? MUITO PRAZER! - Mônica El Bayeh

Orgasmo feminino intriga os homens? É o que parece. Talvez porque não seja tão visível quanto o deles. Ou porque pode ser facilmente fingido, ao contrário do deles.

 Fato é que não passam quinze dias sem que me depare com pesquisas sobre nossos orgasmos. Não vejo muita utilidade. Não nos orgasmos, nas pesquisas! Preferia minha parte em dinheiro.

A pesquisa da semana é do psicólogo americano Barry Komisaruk, professor da Universidade Rutgers, de Nova Jersey. Ele passou 30 de seus 72 anos investigando os benefícios do prazer sexual no bem-estar das mulheres.
Poderia ter descoberto isso, mais rápido de forma muito mais prazerosa e feliz, na prática. Mas, depois de trinta anos de pesquisa, é melhor nem avisar isso a ele. Ia ser uma decepção.

Komisaruk pretende verificar se o prazer sexual beneficia o tratamento de pacientes com ansiedade, depressão ou dependências. Ora, Komisaruk, que pergunta é essa? Nunca viu uma carinha satisfeita, calma e tranquila depois de ter seu objetivo atingido? Vai ver que não. Tanto tempo pesquisando...

Faz parte da cultura popular a máxima de que sexo faz bem à pele e aos cabelos. Ouso ir além, sexo faz bem à vida. Mas o tesão é uma energia que vai muito além da cama e se espalha pela vida. Algumas pessoas têm, outras não.

Todos conhecemos pessoas que cheiram a infelicidade. Podem ter tudo, nada lhes alegra, nada parece tampar o vazio que as preenche. Sempre com a mesma cara de bunda.

Orgasmo, felicidade e alegria acontecem assim: ou você descobre como é que funciona o seu e corre atrás. Ou você não tem. Não chega lá. Fica a ver navios. Claro, sempre é tempo de aprender! Basta querer e trabalhar por isso. Nem costuma ser um trabalho muito custoso.

Não raro encontro pessoas que esperam que tudo venha do outro. Esperam que a felicidade, a realização amorosa, a alegria e, porque não, o orgasmo cheguem de forma mágica. Sem esforço. Trazido por um príncipe, Papai Noel, Fada dos dentes, sei lá. Impossível.

Numa relação, seja ela sexual ou não, boa parceria é tudo. Mas a capacidade de ter orgasmo é como a capacidade de ter alegria. Arriscando um neologismo: é indelegável. Algumas mulheres entregam seu prazer na mão do outro. O outro, coitado, pega essa batata quente achando que pode resolver, dar conta de tudo. Só que não!

Homens entendem do corpo deles. E a situação deles, nesse sentido, é mais cômoda. Afinal, o deles sempre esteve ali à mostra e ao fácil alcance da mão. Esbarram com ele toda hora, brincam e se divertem juntos. Um menino e seu pinto, desde cedo, já são grandes amigos. Íntimos.

Nós mulheres já temos um design mais arrojado. Tudo arrumadinho e embutido. Pequeno por fora, mas com espaço interno excelente. Cabe até um bebê! Se fossemos um carro, seríamos mais caro que eles. Só que, da mesma forma que com os carros, eles têm o dobro da nossa quilometragem rodada. A gente demora muito mais para descobrir onde ficam todos os comandos. Isso faz diferença na hora do arranque.

Meu prazer é todo meu. Nem vejo egoísmo nisso. Venha, estou de olho no seu câmbio. Você me interessa. Mas a direção, só eu posso te dar. Meu corpo, meu prazer é um mapa pessoal, com GPS intransferível. Trocamos coordenadas. Você me passa as suas, eu te indico as minhas. Chegamos ao ponto G? Para que só um, tem tantas letras por aí...

O orgasmo independe do parceiro. Alívio para os machos de plantão? Não tanto. Claro que um parceiro com boa pegada ajuda. É uma benção! Mas não é garantia de nada. Um carro, mesmo que diferente, é fácil de tentar dirigir. Um corpo, não. Corpos tem senha de acesso. Corpos, tanto masculinos como femininos, são Esfinges com enigmas a serem desvendados. Compartilhamos senhas e segredos. Se não sei minha senha, tipo celular bloqueado, fico sem sinal, não consigo completar a ligação. Distante de minha área de cobertura, a brincadeira perde a graça.

De verdade, não entendo bem porque os homens nos estudam tanto. Era só perguntar! A gente respondia. Imagino que tantas pesquisas sobre orgasmo sejam uma tentativa dos homens de acalmar as mulheres. De tentar entender melhor como funciona e ver se aprimoram o controle sobre nós. Para os homens, em se tratando de palavras e conversas, menos sempre é mais. O que fazer com essas mulheres indomáveis, tão falantes, questionadoras, cheias de demanda?

A notícia orgásmica da semana passada é que o Royal Edinburg Hospital, na Escócia, realizou uma pesquisa e concluiu que as pessoas que fazem sexo regularmente, numa média de três vezes por semana, aparentam ser cinco a sete anos mais novas que a idade real. O prazer é essencial à manutenção da juventude. Uau, a gente nem imaginava isso, né? Tinha mesmo que pesquisar para saber. Mais uma pesquisa fundamental na descoberta do já sabido.

Prazer rejuvenesce, claro. Mas o gozo vai muito além do genital. Tenho prazer de escrever um bom texto, de ler um livro interessante, dar uma aula que valha a pena. Imagino que seja o mesmo com um ator que estreia sua peça, um médico que termina uma cirurgia bem sucedida, uma pessoa que acaba uma faxina e olha a casa arrumada e limpa.

Prazer de matar a saudade, de beijar e abraçar quem se ama . Prazer rejuvenesce, sim. Qualquer que seja. Podemos encontrar pessoas que não têm vida sexual ativa há muitos anos, ou que nunca tiveram vida sexual ativa, e são perfeitamente felizes na sua forma de gozar a vida. Alegres, felizes e realizadas. Descobriram e estimulam diariamente seu ponto Q. Q de Quero mais é aproveitar a vida! Juventude é o prazer de estar vivo! Esse é o grande orgasmo!

Por via das dúvidas, já avisei aqui em casa: ou comparece e faz sua parte direitinho ou junta dinheiro para a minha plástica.

DEEPAK CHOPRA - Saúde x Qualidade do Pensamento

Somos as únicas criaturas na face da terra capazes de mudar 
nossa biologia através do que pensamos e sentimos.

Nossas células estão constantemente bisbilhotando nossos pensamentos e sendo modificados por eles. Um surto de depressão pode arrasar seu sistema imunológico; apaixonar-se, ao contrário, pode fortificá-lo tremendamente.

A alegria e a realização nos mantém saudáveis e prolongam a vida. A recordação de uma situação estressante, que não passa de um fio de pensamento, libera o mesmo fluxo de hormônios destrutivos que o estresse. Suas células estão constantemente processando as experiências e metabolizando-as de acordo com seus pontos de vista pessoais. Não se pode simplesmente captar dados brutos e carimbá-los com um julgamento. Você se transforma na interpretação quando a internaliza.

Quem está deprimido por causa da perda de um emprego projeta tristeza por toda parte no corpo – a produção de neurotransmissores por parte do cérebro reduz-se, o nível de hormônios baixa, o ciclo de sono é interrompido, os receptores neuropeptídios na superfície externa das células da pele tornam-se distorcidos, as plaquetas sanguíneas ficam mais viscosas e mais propensas a formar grumos e até suas lágrimas contêm traços químicos diferentes das lagrimas de alegria. A ansiedade por causa de um exame acaba passando, assim como a depressão por causa de um emprego perdido. O processo de envelhecimento, contudo, tem que ser combatido a cada dia.

Shakespeare não estava sendo metafórico quando Próspero disse:
- Nós somos feitos da mesma matéria dos sonhos.”

Você quer saber como esta seu corpo hoje?
Lembre de seus pensamentos de ontem.
Quer saber como estará seu corpo amanhã?
Olhe seus pensamentos hoje!” 

QUEM NAMORA AGRADA A DEUS - Arthur da Távola

Namorar é a forma bonita de viver um amor. Não namora quem cobra nem quem desconfia. Namora, quem lê nos olhos e sente no coração as vontades saborosas do outro.

Namora, quem se embeleza em estado de amor. Namora, quem suspira, quem não sabe esperar mas espera, quem se sacode de taquicardia e timidez diante da paixão. Namora, quem ri por bobagem, quem sente frios e calores nas horas menos recomendáveis.

Não namora quem ofende, quem transforma a relação num inferno, ainda que por amor. Amor às vezes entorta, sabia? E quando acontece, o feito pra bom faz-se ruim. Não namora quem só fala em si e deseja o parceiro apenas para a glória do próprio eu.

Não namora quem busca a compreensão para a sua parte ruim. O invejoso não namora. Tampouco o violento! 

Namorados que se prezam têm a sua música. E não temem se derreter quando ela toca. Ou, se o namoro acabou, nunca mais dela se esquecem.

Namorados que se prezam gostam de beijo, suspiro, morderem o mesmo pastel, dividir a empada, beber no mesmo copo. Apreciam ternurinhas que matam de vergonha fora do namoro ou lhes parecem ridículas nos outros.

Por falar em beijo, só namora quem beija de mil maneiras e sabe cada pedaço e gostinho da boca amada. Beijo de roçar, beijo fundo, inteirão, os molhados, os de língua, beijo na testa, no seio, na penugem, beijo livre como o pensamento, beijo na hora certa e no lugar desejado. Sem medo nem preconceito. Beijo na face, na nuca e aquele especial atrás da orelha, no lugar que só ele ou ela conhece.

Namora, quem começa a ver muito mais no mesmo que sempre viu e jamais reparou. Flores, árvores, a santidade, o perdão, Deus, tudo fica mais fácil para quem de verdade sabe o que é namorar. Por isso só namora quem se descobre dono de um lindo amor.

Só namora quem não precisa explicar, quem já começa a falar pelo fim, quem consegue manifestar com clareza e facilidade tudo o que fora do namoro é complicado.

Namora, quem diz: "Precisamos muito conversar"; e quem é capaz de perder tempo, muito tempo, com a mais útil das inutilidades e pensar no ser amado, degustar cada momento vivido e recordar palavras, fotos e carícias com uma vontade doida de estourar o tempo e embebedar-se de flores astrais.

Namora, quem fala da infância e da fazenda das férias, quem aguarda com aflição o telefone tocar e dá um salto para atendê-lo antes mesmo do primeiro "trim". Namora, quem namora, quem à toa chora, quem rememora, quem comemora datas que o outro esqueceu. Namora, quem é bom, quem gosta da vida, de nuvem, de rio gelado e parque de diversões.

Namora, quem sonha, quem teima, quem vive morrendo de amor e quem morre vivendo de amar. 

VÍDEO PALESTRA - OS CUIDADOS COM A INTIMIDADE - Renato Janine Ribeiro



Ao longo dos últimos anos a vida social foi-se tornando cara, penosa. Viver em conjunto já deu prazer, mas atualmente pesa. Isso se agrava quando a crise se torna norma em vez de exceção. Como salvar a vida social? Como preservar a vida pessoal, como ponto rico de apoio à intimidade?


Renato Janine Ribeiro é filósofo, Professor Titular de Ética e Filosofia
 na Universidade de São Paulo (USP)

O FUTURO DO FUTEBOL - João Ubaldo Ribeiro

Itaparica sempre marcou presença no futebol nacional e aí está Obina, que não me deixa mentir. 

Quando eu era jovem, no distante século passado, cheguei a envergar a gloriosa camisa 2 do São Lourenço, sob a alcunha de Delegado, a mim aposta pelo técnico Hélio Gaguinho em alusão a meu eficaz policiamento da grande área — beque direito de recursos talvez limitados, mas aplicadíssimo. 

Nessa época, o campeonato da ilha era aguerridamente disputado por diversos times hoje legendários, que protagonizaram epopeias futebolísticas inesquecíveis pelo Recôncavo afora, como por exemplo a que envolveu meu saudoso amigo Vavá Paparrão, na condição de ponta-direita do Esporte Clube Ideal, enfrentando, em contenda decisiva, na casa de um adversário que jogava pelo empate, a por todos respeitada equipe da Associação Atlética São Bartolomeu de Maragogipe. 

Não estive presente no episódio, mas ouço relatos desde pequeno.

São dessas histórias do futebol e do grande atletismo. Logo no começo do primeiro tempo, Paparrão recebeu um lançamento em profundidade de Waltinho Filósofo, à altura da intermediária, dominou o balão de couro, fechou para o centro, traçou um, traçou dois, traçou três, traçou quatro e arremessou rasteiro de canhota, sem chance de defesa para o famoso guarda-vala maragogipense Carrapato, que ainda mergulhou na direção do esférico, mas não viu nem a passagem dele. 

Foi um delírio na torcida, com invasão de campo e tudo mais. Inconformada, a agremiação da casa passou a perseguir Paparrão com violência por toda a cancha, encorajada pela conivência de Sua Senhoria, que fazia vista grossa e mandava seguir o jogo, sem ligar para Paparrão contorcendo-se em dores no gramado.

Não adiantou, porque, como o gigante Anteu, que se erguia revigorado de cada queda ao solo, Vavá se levantava para de novo infernar a defesa adversária. Terminou marcando mais um gol e dando um passe açucarado para Bertinho Penico fazer o terceiro no apagar das luzes, uma vitória esmagadora. 

Festa na delegação itaparicana, Paparrão aclamado como o herói da jornada. Mas eis que, ao tentar juntar-se aos que faziam a volta olímpica, ele não conseguiu firmar-se em pé. Para resumir: tinha fraturado a perna em dois lugares, durante o jogo, mas — sabe como é, sangue quente, disputa na raça, o sujeito fica fora de si — só foi notar depois que saiu de campo. Havia diversas testemunhas, mas, infelizmente, todas elas também já se finaram.

No tempo em que o Bahia se concentrava na ilha, todo mundo ia assistir aos craques locais botando os medalhões na roda, notadamente Chupeta. Este, aliás, eu mesmo conheci e tentei marcá-lo diversas vezes, na companhia de meu compadre Edinho. Compadre Edinho é um burro de um homem deste tamanho, seguramente para mais de sete arrobas, e nós dois partíamos em dupla, para marcar Chupeta na praia. Chupeta era desses canhotos, como Maradona, que escondem a bola junto ao pé esquerdo, mas eu tentava fazer com que ele a adiantasse e Edinho jogava um punhado de areia na cara dele. Não adiantava nada e ele sempre passava, do mesmo jeito com que passava por todo o time do Bahia, que, por sinal, tentou levá-lo diversas vezes, mas não conseguiu.

Tudo isto é para mostrar que o debate encetado no Bar de Espanha, no qual se chegou até mesmo à alarmante — e certamente alarmista — sugestão de que o futebol acabou, conta com participantes e plateia à altura da importância do assunto, brasileiros que sabem o que estão dizendo, é bom prestar atenção. Lá dos fundos, mal se vendo de onde ela saía, uma voz roufenha, logo por todos reconhecida, interferiu na discussão.

O futebol acabou quando acabou o gol de bunda — disse Zecamunista, saindo da sombra e levantando a pala de seu boné da Marinha Soviética. — Todo mundo aqui já viu gol de bunda, alguns até já fizeram, é para curtir com a cara do adversário mesmo, não é esporte? Agora não pode mais. Não pode fazer embaixada, não pode dar dribles supérfluos, Garrincha não ia poder mais, agora só pode jogada politicamente correta! Daqui a pouco vão fazer a lista das jogadas que pode e que não pode! E vão patentear as jogadas, vão vender patrocínios para as jogadas, só quem vai poder fazer é quem o patrocinador autorizar! Vai ter o voleio da Coca-Cola, a cavadinha da Skol e a pedalada da Caloi! Vão regular tudo, vão vender tudo, vão...

— Tenha calma, Zeca, também não é assim.

— É pior! Acabaram com o juiz ladrão! Não pode acabar com o juiz ladrão! Onde já se viu futebol sem juiz ladrão?

— Tenha paciência, não sei como alguém pode defender o juiz ladrão.

— Pois eu defenderei até a morte a preciosa figura do juiz ladrão! Como vão ficar as torcidas derrotadas, no dia seguinte? Quantas vezes a atuação de um bom juiz ladrão evitou uma briga séria ou até um suicídio? Tem que ter juiz ladrão! Agora vão botar máquina para tirar dúvidas e corrigir os erros. Que graça tem isso, empobrece o futebol! O futebol acabou, estão acabando de matar o futebol!

— Exagero seu, as torcidas continuam.

— Continuam, é uma maravilha. O camarada vai ao estádio e recebe uma paulada na cabeça e um chute na barriga. Ou então veste a camisa do time, vai ao boteco e toma um tiro na cabeça. Isto não é torcer por futebol, é esporte radical. Caçar tubarão é mais seguro.

— Já senti que você não vai nem torcer pela seleção, nesta Copa.

— Não, isso eu vou, é uma questão profissional, é a única chance de apostar no Brasil e ganhar.

OUTRO OLHAR SOBRE O BUDISMO - Rick Ricardo

As recentes noticias que monges budistas, no Sri Lanka, Myanmar e, também, na Tailândia, iniciaram uma campanha de intolerância e violência não são uma exceção à regra, pois eles são exemplos contemporâneos de uma longa procedência histórica.

O Budismo é, geralmente, retratado no Ocidente como uma religião de paz e não-violência, onde os monges que usam vestes de cor açafrão com as cabeças raspadas, passam a maior parte do seu tempo meditando. Mas, budismo, como instituição, não é diferente de qualquer outra religião.

Os primeiros dos cinco preceitos morais do Budismo diz que é errado tirar a vida de qualquer ser vivo. Enquanto a teoria budista tende a igualar matar animais inclusive insetos com tirar a vida de pessoas, a maioria dos monges budistas comem carne regularmente. Mesmo na Índia, onde a maioria da população é vegetariana, a carne faz parte do menu dos monastérios budistas.

Instituições budistas justificaram o militarismo japonês em publicações oficiais e colaboraram com o exército japonês na guerra Russo -Japonesa e na Segunda Guerra Mundial. O Budismo Tibetano, ocasionalmente, lutou entre si, principalmente, por razões políticas, com disputas sectárias entre as escolas Kagyu e Gelug e desempenharam um enorme papel na guerra civil tibetana.

Na Tailândia, o monge Kitti-Vutto incentivou seus partidários a usar a violência contra a esquerda. Seu discurso infame, em 1976, era que "matar comunistas não é imoral, é uma coisa boa porque salva a nação e a religião”.

Várias são as correntes que criticam seriamente a religião tibetana pela manutenção de uma sociedade feudal que explorava os camponeses e os tratava como escravos. Mesmo hoje em dia, quando viajo ao Tibete noto isto claramente. Quanto mais tempo vivo em sociedades budistas, mais vejo que o Budismo, como um conjunto de doutrinas e dogmas é de uma fé cega e ávida por poder.

Escândalos sobre monges Budistas estão sempre nas manchetes de jornais, aqui na Ásia. Alguns monges ganham muito dinheiro com os seus discípulos, e tem um estilo de vida luxuoso. Alguns têm coleções de carros importados ou mesmo aviões particulares. Os shopping centers de eletrônicos estão sempre lotados de monges comprando as ultimas novidades da tecnologia.

O Budismo e suas instituições tradicionais são muito conservadores, reacionárias e fora de contato com a realidade.

Minha intenção aqui não é demonizar o Budismo, porque na realidade aprendi muito vivendo em monastérios budistas e com suas práticas, com sua incrível Yoga e meditação, sobre a impermanência e que a realidade externa reflete o estado da realidade interior. Minha intenção é desmistifica-lo de sua imagem no ocidente.

Muitos ocidentais adotaram a religião Budista, mas as escrituras budistas continuam desconhecidas pelo menos para o ocidental médio. A maioria destes "budistas" nem sequer sabem quais escrituras seguem e muito menos o que está contido nelas. Como conseqüência, muitos modernos budistas acreditam que suas fontes escriturais são de fato desprovidas de violência, que este é um problema só da Bíblia ou do Alcorão ,mas este não é o caso.


Exclusivo para o CULT CARIOCA 

Rick Ricardo – O Monge Ocidental

É um profundo conhecedor da região e de seus costumes. 
Viveu em monastérios budistas nos locais que mencionou. 
Reside em Bangkok, na Tailândia.

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