1 de jul. de 2020

TERRA PLANA, DOENÇAS E A DESIGUALDADE INTELECTUAL – Edmir Saint-Clair

Para mim, é muito difícil acreditar que essa 
“Teoria” da Terra Plana possa ser levada a sério 
por alguém com um pingo de sanidade mental.

O ser humano é, sem dúvida, um animal com uma característica muito peculiar: é o único que consegue desaprender.

Uma onça, por exemplo, que atacar um porco-espinho adulto, via de regra, terá dolorosas lembranças espetadas em sua boca e focinho. A probabilidade desta mesma onça atacar novamente um porco-espinho é mínima ou nula dali pra frente. Essa lição nunca será esquecida durante toda a vida do felino. Ela jamais vai duvidar ou questionar o que aprendeu, o que comprovou cientificamente através de sua experiência prática. Após o evento, será muito pouco provável que volte a se arriscar.

O ser humano é diferente, parece sofrer de uma triste capacidade de retroceder em seu processo evolutivo, de involuir, de desaprender. Parece não se importar em jogar fora conquistas importantes e fundamentais para sua própria segurança, para que sua vida seja potencialmente melhor.

O recrudescimento da ignorância é o mais preocupante sintoma da desorientação mental pela qual nossa sociedade parecer padecer atualmente. A Terra plana é um desses sintomas. Para que alguém acredite que a terra é plana tem que, necessariamente, desacreditar de todo o progresso conquistado pela ciência nos últimos séculos . Praticamente tudo desde Galileu Galilei até hoje. E, pior, tem que acreditar numa imensa e colossal Teoria da Conspiração, claramente doentia e psicótica.

Não hesito em apontar que a pior crise que o Brasil vive hoje é a intelectual. A decadência de nosso sistema de ensino  tem se refletido de forma trágica nas escolhas realizadas por nossos cidadãos quando votam para escolher seus representantes, demonstrando como são facilmente enganados, ludibriados e conduzidos como um "admirável gado novo" de Zé Ramalho. A ignorância sempre é terreno fértil para que o que há de mais condenável numa sociedade emerja. Por isso, mantê-los nessa situação de incapacidade intelectual é tão interessante para políticos e religiosos.

O Sarampo que já havia sido erradicado há anos volta preocupar bastante nosso país. O caso é sério e grave. Um absurdo, uma abominação. E não só os não vacinados estão em risco, toda a população está.

Não sem motivos, essa onda de ignorância que parece estar aumentando de forma galopante, deixa claro um aspecto sobre o qual não vejo comentários ou preocupações manifestadas: o abismo da desigualdade intelectual.

Sob esse prisma as projeções são dignas das piores distopias imaginadas, por enquanto, como ficção.

É muito mais difícil presenciarmos alguém questionar a importância de uma vacina quando ela tem o mínimo de conhecimento formalmente adquirido de fonte com competência reconhecida.

O pior aspecto da desigualdade intelectual é que ela cria um abismo onde deveria haver uma ponte. 

Ela impossibilita o entendimento entre as pessoas no seu dia a dia. Chega a criar barreiras lingüísticas entre indivíduos que falam a mesma língua, dada a diferença de capacidade de entendimento recíproco. Gera antipatia onde deveria haver empatia. Abre espaço para todo tipo de crenças, superstições e teorias estapafúrdias, desagregadoras e perniciosas.

O desconhecido sempre foi o pior dos fantasmas para o ser humano. E, ele sempre tenta preencher esse buraco, provocado pela ignorância, com qualquer coisa que aplaque seu medo. Mesmo que seja a mais insana e absurda das explicações.

Nesse panorama, abre-se espaço para o sarampo, poliomielite, febre amarela, falsos profetas (aqui, uma nítida redundância), políticos hipócritas (também redundante), ladrões, criminosos e canalhas de todos os tipos em todos os segmentos da atividade humana.

Abre espaço para o retrocesso. A ignorância abre espaço para o desentendimento, para a mentira, para o mau-caratismo, violência, racismo, homofobia, doenças e para tudo que há de pior na natureza humana. Se temos alguma missão na vida, com certeza uma delas é conseguir evoluir a ponto de erradicar esses piores aspectos de nossas mentes e personalidades.

Por isso, a solução nunca estará no passado, porque a única solução é evoluir. E, para isso, a expansão do conhecimento deve ser ininterrupta. Temos que fazer diferente do que sempre fizemos para alcançar resultados que nunca alcançamos.  

Que resultados? Viver com menos aflições, com menos medo e com menos doenças, para que cada um possa ser o mais feliz que conseguir. Parece simples e é.

Dentre outras coisas, o conhecimento nos faz acreditar no futuro, no surgimento dessas novas possibilidades.

Não tenho a menor dúvida de que só o conhecimento advindo da ciência poderá nos salvar desse delicado momento que a civilização humana atravessa.
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