O DIA EM QUE CONHECI UMA LENDA – Edmir Saint-Clair

O ano era 1972.  Janeiro, férias escolares. Eu tinha uns 12 anos e acabara de ganhar meu primeiro violão no último natal. Passava a maior parte do tempo entre a praia, as peladas à tarde e o violão no resto do tempo. Dias cheios, quentes e inesquecíveis. O condomínio dos Jornalistas, no Leblon, fervia de crianças e adolescentes de todas as idades. Literalmente, dos 6 aos 20 tinha gente de todas as idades. Bem no centro do condomínio havia um ringue de patinação que servia, principalmente, pro pessoal ficar sentado nas bordas. No centro, tinha de tudo, menos gente patinando. Os mais novos jogavam “roda de bobinho” aos sábados depois de sermos expulsos do campo pelos mais velhos. À noite, a festa continuava com brincadeiras de polícia e ladrão com 50 crianças em cada time correndo por uma área que corresponde a um quarteirão inteiro do Leblon.
Os quase adolescentes como eu, ficavam conversando e alguns tocavam violão. Eu ficava olhando e tentando repetir a posição dos dedos no meu violão. Eu levava jeito e em pouco tempo estava tocando algumas coisas mais simples, America, Carpenters, James Taylor, Carole King e outros adocicados do gênero. Dos brasileiros eram poucos que faziam sucesso na nossa roda; Novos Baianos surgindo, Milton Nascimento, Mutantes e alguns dessa tribo.
Os FIC (Festivais Internacionais da Canção da Globo) estavam em decadência e já não despertavam tanto a nossa atenção como antes. Só a minha, que sempre fui ligadíssimo em música desde que me entendi por gente, e me interessava por tudo. Acompanhava pelo jornal o passo a passo das etapas e sabia quem eram todos os participantes, tanto da fase nacional quanto da internacional.
Mas, quem fazia sucesso no Jorna (como os moradores sempre chamaram, carinhosamente, o condomínio dos Jornalistas) naquelas férias era James Taylor. Naquele dia, depois da décima repetição de “You've got a friend” senti que era hora de subir pra casa, bateu o sono.
Quando cheguei à minha portaria já estava esperando o elevador um cara alto, jovem, muito magro e com os cabelos penteados de um jeito engraçado. Puxou conversa quando viu meu violão. Falou que era da Bahia e estava na casa dos primos, Horácio e Heloísa, que eu conhecia desde sempre, apesar de serem mais velhos do que eu. Disse que era músico e que iria cantar no FIC da Globo. Fiquei entusiasmado com aquilo, o cara era muito simpático e gente boa, o que não era comum, já que os “caras mais velhos” não davam guarida pros pirralhos como eu. Quando chegou meu andar, abri a porta, me voltei para ele e perguntei:
- Como é seu nome? Vou assistir você na TV.
Ele respondeu sorrindo:
- Raul Seixas.

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 O Leblon pré-novelas do Manoel Carlos.
Contos e crônicas.
 O cotidiano do bairro.
 Clipper, Pizzaria Guanabara, BB Lanches, Jobi, Bracarense
e outros lugares tradicionais do Leblon
são os palcos dessas histórias.

A Casa Encantada 
Contos do Leblon
Edmir Saint-Clair
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