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QUEM NUNCA ERROU? - Adriana Calcanhoto

A tendência agora é pedir perdão muito tempo passado o caso, 
como o mea culpa da Igreja Católica

Desculpas sinceras. Expressão caída em desuso. Totalmente fora de moda. Foi mal, errei. Perdão, pronto. Não ouço isso. Não se tem vergonha de errar, mas admitir o erro não rola. Venho reparando, no elevador por exemplo, onde as pessoas que vão entrar não esperam mais as que estão lá saírem antes, o que é uma questão de civilidade, mas também de lógica, de física, de matemática, saem primeiro os que já estão dentro para que os que estão fora entrem no elevador vazio. Não é muito mais simples? A experiência já não se comprovou por si própria menos complicada assim? A questão não é de física, de matemática ou de história. O problema é falta de educação. Estamos vivendo o resultado de anos de desprezo pela educação, e agora, como produto desse descaso, o caos ético, aí sim uma simples lei da física.

O governo não comete erros. A oposição também não. A militância também não. Se há alguém que erra é o povo. Os médicos jamais erraram e erram cada dia menos porque há cada vez mais gente inferior em quem se pode despejar a culpa, foi o anestesista, foi a enfermeira, foi o paciente. No Brasil não existem erros médicos. Conheço só no Rio uns quatro doutores por quem passei, eu e muitas outras pessoas, que deveriam estar proibidos de exercer a medicina, senão presos, mas reclamar a quem? Ao chefe dos médicos? Quanto mais chefe, menos admitirá que outros médicos possam vir a errar, errar é para humanos. É normal que um cirurgião, rico e bem-sucedido, que atende em consultório da Zona Sul com tapetes espessos e esculturas caras, opere uma moça, esqueça dentro dela uma tesoura com gaze e, uma vez o exame de imagem comprovando o deslize, nunca mais atenda aos aflitos telefonemas de sua vítima? “Erro da instrumentadora”, mandou dizer lá de baixo da saia da mamãe. Errar não é humano, errar é o humano. Acontecem erros, mas quem é o responsável pela instrumentadora?

Quando trabalha-se em equipe o líder se responsabiliza por seu grupo, assume erros que não necessariamente ele, ou ela, chefe, hajam cometido. O líder diz “erramos” ou mesmo “errei” e segue em frente, para aprender com o erro e passar seu aprendizado adiante. Se ninguém assume os erros como poderá aprender com eles, que é para isso que eles servem? As erratas dos jornais são sempre em um cantinho admitindo uns errinhos de ortografia, no máximo.
A tendência agora é pedir perdão muito tempo passado o caso, como o mea culpa da Igreja Católica, pedindo desculpas por séculos de abusos de variadas formas, psicológicas, mentais e físicas, conhecidos mas negados e calados por trás de seu teatro cristalizado. A igreja não comete erros. No imbróglio relativo ao deputado Marcelo Freixo, O GLOBO conseguiu apenas dizer que nada tem contra o deputado, assim como este, em trecho de sua carta, muxixou não se sentir acima do bem e do mal. Enfim, o que interessa: Freixo chama a atenção para uma prática jornalística que ele denuncia: o fatal “o deputado nega”. O que concluímos naturalmente quando notícias e matérias fecham com “o deputado nega”? Ele está mentindo, pensamos. “O réu nega”, ou seja, o réu mente. “A compositora nega”. Ela mente. Negamos até a morte seja lá o que for. A militância comprada não erra. Mercenários não erram. Acidentes é que acontecem. “Nem sabia que aquilo era um rojão”.

Vi, em uma matéria de telejornal, brasileiros nas ruas respondendo ao repórter se tinham consciência da pequena corrupção cometida, flagrada naquele instante pelo jornalista, como jogar lixo no chão, avançar o sinal, dirigir embriagado, fazer gato de luz, comprar produtos piratas, o que tinham a dizer, por que haviam escolhido agir assim? Todos tinham uma desculpa, pensando somente em si, nem sequer cogitando que fechar o cruzamento reflete no trânsito da cidade, invade espaço e tempo dos outros. Outros? “É, tá errado, mas fazer o quê, né? Rererê”. “Todo mundo erra, rarará”. A autocomplacência é a bola da vez. Esse é o comando geral. Somos uma democracia, todo mundo pode errar, com ou sem intenção. Todo mundo tem direito de mentir, claro. Tive uma empregada, Tereza, que eu chamava de “Da praia” porque era lá que ela passava o dia, mas que vinha do sertão da Bahia e que a cada erro cometido, em vez de dizer “Adriana, desculpe, fui eu”, dizia: “não comi proteína na infância, não posso fazer nada”.

Fui deixando que ela ficasse no emprego porque achava graça nessa resposta ready-made, pronta para ser disparada a qualquer momento ante a menor provocação dentro ou fora de qualquer contexto. Depois comecei a achar que, por essa resposta e por ganhar aquele salário todo para passar o dia no Posto 8, ela devia ter comido não só proteína como glicose e nutrientes em excesso de modo geral, fiquei com medo de tanta esperteza, e nossa história acabou nesse momento.

O Brasil é patriarcal, e intuo que o código fundamental masculino do “negue até a morte” no quesito trair a mulher contaminou os demais aspectos da sociedade brasileira como uma bactéria. Já achava isso antes, mas agora meu ouvido anda saturado de não fui eu, não vi, nem sabia, ninguém me passou nada, o advogado nega, o miliciano nega, o policial nega, o doutor nega.

Será então que quando o “político nega” está representando só o partido e seus próprios interesses ou também, infelizmente, seus eleitores e suas pequenas corrupções, “quem nunca errou, moça?”. Senão vejamos, quem são os possíveis candidatos ao governo do Estado do Rio de Janeiro?

ADRIANA CALCANHOTTO - Feliz ano todo

Feliz mergulho no Arpoador dia 31, 
feliz longa lista de metas para ser toda descumprida

Assisti ao monstro de olhos azuis chamado Tônia Carrero, perguntada em entrevista sobre se era feliz, responder calmamente: “sou feliz e infeliz várias vezes ao dia”. Bingo. A felicidade vai e vem o tempo todo. Ou, convenhamos, seria um tédio de matar. É então nesse espírito, de estar feliz, significando que se estará infeliz daqui a pouco e feliz de novo e infeliz, e assim por diante vida afora, que desejo aos compadres felicidades no ano que vem.

Feliz mergulho no pôr do sol no Arpoador dia 31, feliz longa lista de metas para o ano para ser descumprida inteira. Feliz virada de ano uma hora antes da meia-noite, pobres ouvidos dos bichos, feliz fogos de artifícios. Feliz volta de Copacabana de metrô, feliz carteira batida, feliz ressaca no primeiro dia do ano. Feliz garis achando moedas, celulares, joias, amuletos e calcinhas na areia. 

Feliz alagamentos causados por bueiros entupidos pelo lixo que devia ser jogado no lixo, não no chão. Feliz leitura de “Fim”, o romance de estreia da Fernanda Torres. Feliz deslizamentos nas encostas durante o verão e o estaremos providenciando. 

Feliz quaresmeiras floridas, feliz andorinhas voando em direção ao Norte. Feliz esquenta de carnaval, feliz grito de carnaval, feliz carnaval, feliz saltos quebrados no carnaval, feliz ar-condicionado para não ouvir o carnaval lá fora. Feliz crise no relacionamento por conta do carnaval, feliz desfile das campeãs. Feliz, então, acho que agora sim, ano novo.

Feliz volta às aulas, feliz primeira ida para a primeira aula. Feliz de quem tem aulas para ir. Feliz palmas para os guerreiros professores. Feliz fotos de servidores públicos com maços de dinheiro sob roupas de baixo. Feliz despedida de uma misógina enrustida do comando da comissão dos direitos humanos. 

Feliz psicodélicas previsões de crescimento da economia, feliz contas públicas mais mal maquiadas do que aquelas velhinhas inglesas que não enxergam mais nada e aplicam a sombra verde acima das sobrancelhas e o batom vermelho no buço.

Feliz outono no Rio. Feliz cheiro de jasmim à noite. Feliz páscoa, feliz dieta pós-páscoa, feliz construção do Pavilhão da Esdi, feliz deslumbrante luz de maio, feliz tucanos nas palmeiras, que comem os filhotes dos outros pássaros, mas apanham do bem-te-vi.

 Feliz macacos-prego levando seu bolo de fubá árvore acima. Feliz tigre na cabeça no botequim da esquina. Feliz branquinha no balcão. Feliz inaugurações de piscinões binários. Feliz inaugurações de construções em ruínas. Feliz noites dormidas na rua sob marquise estreita com chuva forte tendo papelão e jornal como cobertor. 

Feliz mês das noivas, feliz provas de vestido, feliz provas de amor, feliz provas de fidelid… Feliz dia das mães. Feliz luz nos morros de manhã bem cedinho, feliz pedras no meio do caminho. Feliz imbecis pichando a estátua do poeta. 

Feliz explosão de bueiros. Feliz muros grafitados. Feliz esperança de que a Rita Lee venha morar no Rio. Feliz anúncio de banco vendendo mais endividamentos a “você, a pessoa mais importante do mundo para nós”. Feliz carga tributária. Feliz estádios com obras atrasadas precisando de mais e mais dinheiro.

Feliz chopinho na esquina, feliz nada pra fazer. Feliz festa na laje, feliz baile funk. Feliz chão, chão, chão, chão. Feliz sorriso do Nelson Sargento. Feliz feijoada da tia Surica. Feliz coalizações lisérgicas para disputar a presidência da pobre República. 

Feliz alianças que dão vergonha na gente. Feliz promessas humanamente incumpríveis, feliz direito de votar. Feliz voto. Feliz melhor projeto para o Brasil. Feliz água de coco no calçadão. Feliz multa por jogar lixo no chão. Feliz compre seu carro novo, compre seu carro novo compre seu carro novo. 

Feliz paciência no trânsito. Feliz trens e ônibus atrasados, abarrotados, feliz vagões femininos. Feliz cadeias piores que o inferno. Feliz salve a seleção. Feliz compre sua TV, compre sua TV, compre sua TV, compre sua TV, compre sua TV. Feliz Copa “do Mundo da Fifa”. Feliz seja lá o que tiver de ser. Feliz Lei Maria da Penha.

Feliz Flip. Feliz crianças atingidas por balas perdidas e sumiços de trabalhadores sem qualquer explicação. Feliz pelada, feliz pedalada, feliz futevôlei na praia. Feliz biscoito Globo, feliz mate gelado. Feliz possibilidade de ver o Ferreira Gullar zanzando por Copacabana.

Feliz sequência de ondas verdes parecendo esmeralda líquida. Feliz ondas, feliz vacas, feliz caldos. Feliz fale mais, fale mais, fale mais, fale mais, fale mais. Feliz “este número de telefone não existe”. Feliz parada gay. 

Feliz feriado de Zumbi dos Palmares. Feliz turistas na favela, feliz meninos jogando bola. Feliz bicicletas roubadas. Feliz juiz filho da puta. Feliz dicas de livros da Cora. Feliz topless em paz. Compadres queridos, um feliz ano todo.

ADRIANA CALCANHOTTO - Conversa de interior

“Uma coluna quinzenal vai ser produzida por uma não escritora, 
até o pescoço de trabalho, em turnê mundial?”

“Mas como assim, Adriana Calcanhotto, você a partir de agora vai escrever para O GLOBO? Melhor dizendo, a que horas você poderia escrever para O GLOBO? E as pilhas de clássicos na bancada, por ler? E a correspondência atrasada? E as encomendas das cantoras, de canções novas para seus novos discos? E o prometido show para as meninas do Orfanato Santa Rita adiado para o dia de São Nunca?”

— Nunca aprendi a dizer não.

— E, por conta desse detalhe, uma coluna quinzenal vai ser produzida por uma não escritora, até o pescoço de trabalho, em plena turnê mundial de voz e violão?

— Posso chamar a coluna de “Eu ando pelo mundo” e fazer dela uma espécie de diário de bordo, revelando a falta de glamour total que é uma turnê nos seus bastidores.

— Você vai dar como nome da coluna uma frase, um verso que seja, que começa com “eu”?

— Na verdade, acho que não preciso de um nome. Minha editora disse que posso fazer o que eu quiser.

— Com a pontuação inclusive? Sua editora por acaso sabe que você não sabe pontuar, que escolheu escrever letra de música porque não sabe o que fazer com as vírgulas, querendo crer que letras de música estão isentas dessa norma?

— Ela disse que tem um pessoal que cuida disso, que faz o trabalho sujo. Devem ser tipo aqueles que mexiam nas vírgulas da Clarice Lispector e ela ficava fula da vida. Então, se mexiam nas dela, que começava livros com uma vírgula, por que motivo não mexeriam nas minhas? Para facilitar, posso já mandar os textos sem vírgula nenhuma, que algum aplicativo ou estagiário faz o resto. Minha editora me deixou muito à vontade para não pontuar se não quiser.

— Se não puder, você quer dizer. A propósito, a sua editora está a par da sua agenda?

— Não, ela só me convidou para escrever para o prestigioso periódico.
— Ah, só? No prestigioso periódico onde escrevem o Verissimo, a Cora Rónai, o Francisco Bosco?

— Exatamente.

— Minha nossa, e agora?

— Como eu ia dizendo, vou escrever no Segundo Caderno do GLOBO de domingo quinzenalmente.

— E sobre que assunto?

— Como assunto? Moro no Rio de Janeiro, o que não falta é assunto. O prefeito se engalfinha com um cidadão inconveniente, as pessoas acham que chegar atrasado e jogar lixo no chão é sinal de poder, os motoristas cariocas em dias nublados trocam de pista sem parar num zigue-zague de tontear. E tem o Brasil, onde Renan Calheiros é presidente do Senado, o governo brasileiro demonstra simpatia pelos ditadores africanos riquíssimos, que não cuidam de seu povo, ora, assunto.

— Bem, e quando começa?

— Já começou, na verdade. Daqui a 15 dias publico um texto me apresentando aos leitores e estará iniciada a jornada.

— Com tanto assunto, pretende iniciar com um texto falando de si mesma?

— Minha editora acha delicado que eu me apresente aos leitores.

— Se houver. A propósito, em que estado de consciência estava a sua editora quando ela propôs esta temeridade, sabe dizer se ela tinha tomado alguma coisinha, uma substância alucinógena qualquer, algum remedinho, ou um coquetel de fármacos para gripe ou algo do gênero?

— Não me pareceu. Ela bebeu um mate e tinha uma resposta na ponta da língua a todas as questões que levantei, como meu medo do compromisso, prazos, assuntos, vírgulas. De qualquer modo, nunca aprendi a dizer não.

— Então, mesmo não acreditando muito, só me resta dizer seja lá o que Deus quiser..

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