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AVE DE RAPINA - Ana Anaissi

No inicio do século passado eu era uma jovem nascida no Rio de Janeiro e com uma situação financeira muito precária. Sonhando com um príncipe encantado, eu gostava de colocar minha roupa mais bonita, aos domingos, e ir à missa pra depois ficar passeando diante de lojas e belas casas que me enchiam os olhos com tanto requinte e bom gosto. Um dia, durante uma forte chuva, tive que me abrigar em uma marquise pra esperar uma ocasião de voltar pra casa. Entre as pessoas que também se abrigavam na marquise pude avistar um belo rapaz que me olhava também muito intensamente.

 Logo nos aproximamos e eu pude perceber, encantada, que o jovem era estrangeiro e que viera ao Brasil a negócios. Em pouco tempo nos apaixonamos e como não podia deixar de ser, fui, com os poucos pertences que tinha, ao encontro de Paris com meu príncipe encantado. Também como não podia deixar de ser, em poucas semanas estava eu em Paris dormindo nas praças e, pior (pode? Pode!) tendo que disputar comida com os pombos que ali habitavam (Muito antes de mim). 

Eu, que já tinha fobia de pássaros, vivi momentos aterrorizantes quando precisava ficar a menos de dois metros desses serezinhos assustadores. Pois bem, de lixo em lixo acabei fazendo amizades com alguns mendigos-artistas que por outros motivos (nenhum tinha fugido do seu país de origem com um francês pois já eram todos franceses)residiam nas ruas do centro de Paris. Enquanto aperfeiçoava minha arte, aperfeiçoava também minha fobia; Qualquer coisa que voasse me deixava embaraçada na tênue linha que separa a sanidade da loucura. 

Como se não bastasse meus problemas (Pobre, enganada, abandonada num país estranho, convivendo com pombos que me intimidavam, descobrindo que não tinha talento algum para as artes, tá bom?), um belo dia estava eu pintando esse quadro quando de repente, ao olhar para o céu, deparei-me com o que eu chamei (para o psiquiatra que me atendeu de emergência) de “grande pombo desgovernado”. Devidamente medicada e de volta ao meu espaço parisiense favorito, arredores da Torre Eiffel, continuei minha arte, minha procura do que comer e minha fobia aos pássaros. 

Mal havia me recuperado do trauma e numa bela tarde de ventania sinto sobre mim uma grande sombra desgovernada que logo (graças a Deus) foi levada, ao sabor do vento, pra longe das minhas vistas.

Aterrorizada com os acontecimentos (invasão de pássaros gigantes desgovernados) me abriguei, decidida a ali ficar, num café cujo dono tentou em vão me expulsar com insultos e gestos agressivos (pros insultos eu fazia cara de quem não entendia francês e pros gestos eu fazia cara de que interpretava como se fossem gestos de boas vindas, ou seja, me fiz de louca). Um dia, um desses pássaros desgovernados, numa reviravolta brusca do vento e do raciocínio do próprio pássaro, estatelou-se em uma construção e explodiu diante de um grande número de pessoas que, eu não entendia porque, ficavam sempre aplaudindo qualquer proeza que esses pássaros invasores faziam. (achava que era de medo, como simples mortais que fingem adorar um deus com medo de represálias). Me aproveitei da falta de mobilidade de gigante voador e me aproximei devagar do pássaro caído. 

Embora não entendesse a preocupação no rosto das pessoas ao redor (deveriam estar comemorando o pássaro vencido), comecei a, sozinha, bater palma esfuziantemente para comemorar a morte do inoportuno. Em meio à caras zangadas e resmungos franceses, vi que de dentro do pássaro morto saía um homem, sorrindo apesar dos percalços e que, pra minha surpresa, falava alguns impropérios em português, minha língua. Impressionada e penalizada por aquele conterrâneo que escapara de ser engolido pelo pássaro gigante, eu corri para abraçá-lo por pura solidariedade. Orgulhosa por meu conterrâneo ter libertado o mundo da grande ameaça voadora, lhe falei:
-O senhor agora vai ficar com fobia de pássaros, fobia essa muito mais justificável do que a minha!

Depois de estrondosa gargalhada, o homem me abraçou e disse: - Ao contrário, minha jovem, agora é que eu vou entrar na barriga desse pássaro e fazer com que ele voe cada vez melhor!

Posso dizer com certeza que aquela foi a tarde em que eu troquei a minha fobia por um orgulho imeeeeeeeeeenso de ter conhecido em momento tão importante um gênio brasileiro que contribuiu com sua determinação e inteligência para o desenvolvimento de todas as nações. Minha admiração e respeito àquele que é um orgulho para o povo brasileiro; Alberto Santos Dumont, o pai da aviação.
Não tem mesmo uma palavra melhor que “orgulho” pra expressar o que cada brasileiro sente ao ler a biografia desse homem.

ANA LUCIA ANAISSI - ENCAIXES

Gente, esse quadro me transporta numa velocidade inacreditável lá pra idos de 214, 213 a.C. quando eu, Achila, era uma escrava no palácio do rei Hierão, em Siracusa, na Magna Grécia. Eu de-tes-ta-va ser escrava com todas as minhas forças. Tinha ódio do rei, ódio da rainha, ódio dos outros nobres, dos outros escravos, dos passarinhos e das plantas. Enfim, era uma revoltada. E uma revoltada com imaginação pois vivia inventando mil maneiras pra escapar do serviço e deixar tudo nas costas das outras escravas (Que, diga-se de passagem, também eram revoltadas mas não tinham imaginação). Entre as minhas mentiras preferidas estavam:
-TPM – Três vezes por mês.
-Torcicolo – Quinze dias de um lado, quinze dias do outro. (Eu fazia uma encenaçãozinha perfeita, torcia o pescoço como uma coruja)
-Asma – Sempre aos domingos. ( Entrei tanto no personagem que acabei morrendo disso, sem ter).
- Peste estranha – Era a mais legal porque eu me agarrava em quem tivesse passando e começava a balbuciar com os olhos revirados e uma mão escorregadia e fria (Eu enfiava na massa de pão e deixava dois minutos).
Mas, de tanto ficar “doente”, a chefa dos escravos mandou que diminuíssem minha ração já que eu não trabalhava quase nada. Fiquei doente de verdade. Fiquei esquálida. Passei a ser conhecida na cidade como “Estegomia de Hierão” e o povo gritava sem dó toda vez que eu era levada pro médico amarrada no lombo de uma vaca. Tá certo que eu estava magra, mas respeito é bom e eu gosto. Bom, ofensas a parte, eu estava, agora, numa péssima situação. Todos os meus ataques mentirosos se transformaram em verdadeiros porque eu não tinha mais noção do que era uma raçãozinha quente. A vaca parava religiosamente em frente à uma casinha acanhada no meio do mato e me despejava em frente à porta do curandeiro da cidade que me botava pra dentro, fazia umas rezas, me dava uma sopa, e me mandava de volta assim que eu conseguia erguer os joelhos e caminhar. (Não precisava me erguer toda). Na volta, sem a vaca, eu ia caminhando e sempre parava, intrigada, na frente de uma casa onde eu sabia que morava um velho sábio chamado Arquimedes. Ficava intrigada porque o via a escrever na areia, apagar, escrever de novo e mais mil vezes até que ficasse satisfeito.
Um dia, acho que saí antes de esticar os DOIS joelhos e acabei caindo em frente ao portão da casa do sábio. Ele me viu de longe e entrou em casa. Quando eu já estava desistindo de contar com ele, eis que Arquimedes surge com algo parecido com uma máquina que era feita com cordas e roldanas. Arquimedes, o sábio matemático, apenas colocou o gancho da engenhoca no meu cinto e me içou com uma rodadinha de manivela, até o alto e me levou pra dentro de sua casa. (Tá certo que eu era magra mas um velhinho daqueles me levantar com a ponta do dedo rodando uma manivela, foi o máximo da humilhação). Quando me recuperei, contei toda minha história pra ele (resolvi me confessar) e ele chegou à conclusão que eu era a verdadeira “magra de ruim”. Ele achou que eu mereci o castigo mas mesmo assim resolveu me ajudar pedindo ao rei Hierão (Que era seu amigo) pra deixar eu ajudá-lo nos seus experimentos. Foi assim que descobri que o velho Arquimedes era o maior matemático de todos os tempos e que nas horas de folga inventava os artefatos mais originais da Grécia. Na verdade foi ele quem conseguiu por três anos impedir que os romanos invadissem Siracusa porque inventou catapultas, guindastes, disparadores de flechas e até conseguiu, com espelhos, queimar os navios romanos que já nem queriam ficar perto da cidade e estavam distantes. Muitíssimo agradecida por ele ter me içado das garras da fome, tive duas ocasiões para retribuir tamanha bondade. A primeira foi servir de testemunha de que meu amo não era louco embora tivesse saído nu pela cidade gritando Eureka, Eureka. (Seu juiz, ele só estava feliz por ter descoberto a Hidrostática!) e também quando o rei Hierão pediu que ele desse um jeito de colocar um gigantesco navio no mar pois ninguém tinha conseguido. Arquimedes, depois de fazer uma grandiosa obra de roldanas e cordas, pediu a mim (Acho que ele me escolheu porque ia ficar mais chocante devido ao meu físico quase imperceptível) que desse um pequeno puxão na corda que unia as roldanas, o que fez com que o navio deslizasse pomposamente para as águas. Sob aplausos ensurdecedores Arquimedes voltou tranquilamente para sua casa e continuou a fazer as coisas que ele achava mais sérias que esses brinquedinhos do rei. Me lembro como se fosse hoje de Arquimedes resmungando: “Ora, um simples navio; Deem-me um ponto de apoio e levantarei o mundo!”
*****
Arquimedes morreu em 212 a.C. na invasão de Siracusa pelos romanos. Matemático, físico e inventor grego, além de inúmeros inventos (Parafuso de Arquimedes, alavancas, etc...) Cícero fez um registro de que Arquimedes também fez um pequeno planetário. Suas valiosíssimas obras deixadas são, entre outras:
- Da esfera e do Cilindro
- Das Espirais
- Da Medida do Círculo
- Do Equilíbrio dos Planos

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