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EVITE SER TRAÍDO - Arnaldo Jabor

Você homem da atualidade, vem se surpreendendo diuturnamente com o “nível” intelectual, cultural e, principalmente, “liberal” de sua mulher, namorada etc.
As vezes sequer sabe como agir, e lá no fundinho tem aquele medo de ser traído – ou nos termos usuais – “corneado”. Saiba de uma coisa…

Esse risco é iminente, a probabilidade disso acontecer é muito grande, e só cabe a você, e a ninguém mais evitar que isso aconteça – ou então – assumir seu “chifre” em alto e bom som. Você deve estar perguntando porque eu gastaria meu precioso tempo falando sobre isso. Entretanto, a aflição masculina diante da traição vem me chamando a atenção já há tempos.

Mas o que seria uma “mulher moderna”? A principio seria aquela que se ama acima de tudo, que não perde (e nem tem) tempo com/para futilidades, é aquela que trabalha porque acha que o trabalho engrandece, que é independente sentimentalmente dos outros, que é corajosa, companheira, confidente, amante…
É aquela que as vezes tem uma crise súbita de ciúmes mas que não tem vergonha nenhuma em admitir que está errada e correr pros seus braços… É aquela que consegue ao mesmo tempo ser forte e meiga, arrumada e linda… Enfim, a mulher moderna é aquela que não tem medo de nada nem de ninguém, olha a vida de frente, fala o que pensa e o que sente, doa a quem doer… Assim, após um processo “investigatório” junto a essas “mulheres modernas” pude constatar o pior.

VOCÊ SERÁ (OU É???) “corno”, ao menos que:

- Nunca deixe uma “mulher moderna” insegura. Antigamente elas choravam. Hoje, elas simplesmente traem, sem dó nem piedade.

- Não ache que ela tem poderes “adivinhatórios”. Ela tem de saber da sua boca – o quanto você gosta dela. Qualquer dúvida neste sentido poderá levar às conseqüências expostas acima.

- Não ache que é normal sair com os amigos (seja pra beber, pra jogar futebol…) mais do que duas vezes por semana, três vezes então é assinar atestado de “chifrudo”. As “mulheres modernas” dificilmente andam implicando com isso, entretanto elas são categoricamente “cheias de amor pra dar” e precisam da “presença masculina”. Se não for a sua meu amigo…Bem…

- Quando disser que vai ligar, ligue, senão o risco dela ligar pra aquele ex bom de cama é grandessíssimo.

- Satisfaça-a sexualmente. Mas não finja satisfaze-la. As “mulheres modernas” têm um pique absurdo com relação ao sexo e, principalmente dos 20 aos 38 anos, elas pensam – e querem – fazer sexo TODOS OS DIAS (pasmem, mas é a pura verdade)… Bom, nem precisa dizer que se não for com você…

- Lhe dê atenção. Mas principalmente faça com que ela perceba isso. Garanhões mau (ou bem) intencionados sempre existem, e estes quando querem são peritos em levar uma mulher às nuvens. Então, leve-a você, afinal, ela é sua ou não é????

- Nem pense em provocar “ciuminhos” vãos. Como pude constatar, mulher insegura é uma máquina colocadora de chifres.

- Em hipótese alguma deixe-a desconfiar do fato de você estar saindocom outra. Essa mera suposição da parte delas dá ensejo ao um “chifre” tão estrondoso que quando você acordar, meu amigo, já existirá alguém MUITO MAIS “comedor” do que você…só que o prato principal, bem…dessa vez é a SUA mulher.

- Sabe aquele bonitão que, você sabe, sairia com a sua mulher a qualquer hora. Bem… de repente a recíproca também pode ser verdadeira. Basta ela, só por um segundo, achar que você merece…Quando você reparar… já foi.

- Tente estar menos “cansado”. A “mulher moderna” também trabalhou o dia inteiro e, provavelmente, ainda tem fôlego para – como diziam os homens de antigamente – “dar uma”, para depois, virar do lado e simplesmente dormir.

- Volte a fazer coisas do começo da relação. Se quando começaram a sair viviam se cruzando em “baladas”, “se pegando” em lugares inusitados, trocavam e-mails ou telefonemas picantes, a chance dela gostar disso é muito grande, e a de sentir falta disso então é imensa. A “mulher moderna” não pode sentir falta dessas isas…senão…

Bem amigos, aplica-se, finalmente, o tão famoso jargão “quem não dá assistência, abre concorrência e perde a preferência”. Deste modo, se você está ao lado de uma mulher de quem realmente gosta e tem plena consciência de que, atualmente o mercado não está pra peixe (falemos de qualidade), pense bem antes de dar alguma dessas “mancadas”… proteja-a, ame-a, e, principalmente, faça-a saber disso. Ela vai pensar milhões de vezes antes de dar bola pra aquele `bonitão´ que vive enchendo-a de olhares… e vai continuar, sem dúvidas, olhando só pra você!!!”

BURRICE E IGNORÂNCIA - Arnaldo Jabor

 
A burrice é diferente da ignorância. 
A ignorância é o desconhecimento dos fatos e das possibilidades. 
A burrice é uma forca da natureza. 
(Nelson Rodrigues)

A ignorância quer aprender. A burrice acha que já sabe. A burrice, antes de tudo, é uma couraça. A burrice é um mecanismo de defesa. O burro detesta a dúvida e se fecha.

O ignorante se abre e o burro esperto aproveita. A ignorância do povo brasileiro foi planejada desde a Colônia. Até o século 19, era proibido publicar livros sem licença da Igreja ou do governo. A burrice tem avançado muito; a burrice ganhou status de sabedoria, porque, com o mundo muito complexo, os burros anseiam por um simplismo salvador. Os grandes burros têm uma confiança em si que os ignorantes não têm. Os ignorantes, coitados, são trêmulos, nervosos, humildemente obedecem a ordens, porque pensam que são burros, mas não são; se bem que os burros de carteirinha estimulam esse complexo de inferioridade.

A ignorância é muito lucrativa para os burros poderosos. Os burros são potentes, militantes, têm fé em si mesmos e têm a ousadia que os inteligentes não têm. Na porcentagem de cérebros, eles têm uma grande parcela na liderança do país. No caso da política, a ignorância forma um contingente imenso de eleitores, e sua ignorância é cultivada como flores preciosas pelos donos do poder. Quanto mais ignorantes melhor. Já pensaram se a ignorância diminuísse, se os ignorantes fossem educados? Que fariam os senhores feudais do Nordeste em cidades tomadas como Muricy ou o município rebatizado de Cidade Edson Lobão, antiga Ribeirinha? A ignorância do povo é um tesouro; lá, são recrutados os utilíssimos "laranjas" para a boa circulação das verbas tiradas dos fundos de pensão e empresas públicas.

Como é o "design" da burrice? A burrice é o bloqueio de qualquer dúvida de fora para dentro, é uma escuridão interna desejada, é o ódio a qualquer diferença, à qualquer luz que possa clarear a deliciosa sombra onde vivem. O burro é sempre igual a si mesmo, a burrice é eterna como a pedra da Gávea (Nelson Rodrigues). De certa forma, eu invejo os burros. Como é seu mundo? Seu mundo é doce e uno, é uma coisa só. O burro sofre menos, encastela-se numa só ideia e fica ali, no conforto, feliz com suas certezas. O burro é mais feliz.

A burrice não é democrática, porque a democracia tem vozes divergentes, instila dúvidas e o burro não tem ouvidos. O verdadeiro burro é surdo. E autoritário: quer enfiar burrices à força na cabeça dos ignorantes. O sujeito pode ser culto e burro. Quantos filósofos sabem tudo de Hegel ou Espinoza e são bestas quadradas? Seu mundo tem três ou quatro verdades que ele chupa como picolés. O burro dorme bem e não tem inveja do inteligente, porque ele "é" o inteligente.

Mesmo inconscientemente, aqui e lá fora, a sociedade está faminta de algum tipo de autoritarismo. A democracia é mais lenta que regimes autoritários. Sente-se um vazio com a democracia - ela decepciona um pouco as massas. Assim, apelos populistas, a invenção de "inimigos" do povo, divisão entre "bons" e "maus" surte efeito. Surge na política a restauração alegre da burrice. Isso é internacional. Bush se orgulhava de sua burrice. Uma vez, ele disse em Yale: "Eu sou a prova de que os maus estudantes podem ser presidentes dos USA". E aí, invadiu o Iraque e escangalhou o Ocidente. E está impune, quando deveria estar em cana perpétua. Aqui, também assistimos à vitória da testa curta, o triunfo das toupeiras.

O bom asno é sempre bem vindo, enquanto o "pernóstico" inteligente é olhado de esguelha. A burrice organiza o mundo: princípio, meio e fim. A burrice dá mais ibope, é mais fácil de entender. A burrice dá mais dinheiro; é mais "comercial".

Em nossa cultura, achamos que há algo de sagrado na ignorância dos pobres, uma "sabedoria" que pode desmascarar a mentira "inteligente" do mundo. Só os pobres de espírito verão a Deus, reza nossa tradição. Existe na base do populismo brasileiro uma crença lusitana, contrarreformistas, de que a pobreza é a moradia da verdade.

No Brasil, há uma grande fome de "regressismo", de voltar para a "taba" ou para o casebre com farinha, paçoca e violinha. E daí viriam a solidariedade, a paz, num doce rebanho político que deteria a marcha das coisas do mundo, do mercado voraz, das pestes e, claro, dos "canalhas" neoliberais. É a utopia de cabeça para baixo, o culto populista da marcha a ré.

Nosso grande crítico literário Agripino Grieco tinha frases perfeitas sobre os burros. "A burrice é contagiosa; o talento, não" ou "Para os burros, o 'etc' é uma comodidade..." ou "Ele não tem ouvidos, tem orelhas e dava a impressão de tornar inteligente todos os que se avizinhavam dele", "Passou a vida correndo atrás de uma ideia, mas não conseguiu alcançá-la", "Ele é mais mentiroso que elogio de epitáfio", "No dia em que ele tiver uma ideia, morrerá de apoplexia fulminante".

Vi na TV um daqueles bispos de Jesus, de terno e gravata, clamando para uma multidão de fiéis: "Não tenham pensamentos livres; o Diabo é que os inventa!". Entendi que a liberdade é uma tortura para desamparados. Inteligência é chata; traz angústia com seus labirintos. Inteligência nos desorganiza; burrice consola. A burrice é a ignorância ativa, é a ignorância com fome de sentido.

Nosso futuro será pautado pelos burros espertos, manipulando os pobres ignorantes. Nosso futuro está sendo determinado pelos burros da elite intelectual numa fervorosa aliança com os analfabetos.

Como disse acima, a liberdade é chata, dá angústia. A burrice tem a "vantagem" de "explicar" o mundo. O diabo é que a burrice no poder chama-se "fascismo".

RELACIONAMENTOS - Arnaldo Jabor

Sempre acho que namoro, casamento, romance tem começo, meio e fim. Como tudo na vida. Há exceções, raras, mas existem. Mas, estou falando dos meros mortais que não têm essa sorte.

Detesto quando escuto aquela conversa:
- 'Ah,terminei o namoro...
- 'Nossa,quanto tempo?
- 'Cinco anos... Mas não deu certo...acabou'
- É não deu...?
Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou.
E o bom da vida é que você pode ter vários amores.

Acredito em pessoas que se somam.
Às vezes você não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro?
E não temos esta coisa completa.
Às vezes ele é fiel, mas não é bom de cama.
Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel.
Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador.
Às vezes ela é malhada, mas não é sensível.
Tudo nós não temos.
Perceba qual o aspecto que é mais importante e invista nele.

Pele é um bicho traiçoeiro.
Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai/mamãe mais básico; que é uma delícia. Qualquer toque da mão já é quase sexo, por mais simples que seja.
E as vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona...

Acho que o beijo é importante...e se o beijo bate... se joga... se não bate...mais um Martini, por favor... e vá dar uma volta.

Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra.
O outro tem o direito de não te querer.
Não lute, não ligue, não dê piti.
Se a pessoa tá com dúvida, problema dela, cabe a você esperar ou não.
Existe gente que precisa da ausência para querer a presença.
O ser humano não é absoluto. Ele titubeia, tem dúvidas e medos mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta.
Nada de drama.
Que graça tem alguém do seu lado sob chantagem, gravidez, dinheiro, recessão de família?
O legal é alguém que está com você por você.E vice versa.

Não fique com alguém por dó também.
Ou por medo da solidão.
Nascemos sós. Morremos sós. Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado.
E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento.
Tem gente que pula de um romance para o outro.
Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia?
Gostar dói.
Você muitas vezes vai ter raiva, ciúmes, ódio, frustração. Faz parte.
Você namora um outro ser, um outro mundo e um outro universo
E nem sempre as coisas saem como você quer...

A pior coisa é gente que tem medo de se envolver. De assumir o que está vivendo. De ser o que está sendo. Se você está sempre com alguém, faz sexo com alguém, é apaixonado por alguém e não assume que este alguém é sua namorada(o), é porque você deve ser daqueles chatos que alegam te um "problema com essa coisa de compromisso"...
Se alguém vier com este papo, corra, afinal, você não é terapeuta.
Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível.
Na vida e no amor, não temos garantias.
E nem todo sexo bom é para namorar. Mas em todo namoro bom o sexo é melhor ainda.
Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar.
Nem todo beijo é para romancear.
Nem sempre um beijo bom é início de algo maior. Às vezes, é só o beijo que é bom, porque o resto deixa muito a desejar. Ou não desejar.
Enfim...quem disse que ser adulto é fácil?

A VERGONHA PODE SER O INÍCIO DA SABEDORIA - Arnaldo Jabor

O Brasil mudou muito dentro de nós. Não falo de uma descrição figurativa da história recente. Falo de bobagens, detritos, coloquialismos que nos mudaram. 

Falo de nossa vida interior de 1964 para cá. Houve uma mutação mental silenciosa sob os acontecimentos. O que mudou nas cabeças?

Antes de 64, o ritmo das coisas tinha a linearidade de um filme acadêmico. Para nós, jovens de esquerda, o país era ameaçado por uma vaga "direita" que não romperia o contrato imaginário de uma luta "cordial". Falávamos muito em "luta de classes", mas não conhecíamos ainda a violência da "reação".

Acreditávamos em um Papai Noel histórico. Dizíamos: "Nosso Exército é democrático porque é de classe média e a burguesia nacional é progressista. Não trairão Jango".

Nada descreve o choque da aparição súbita de Castello Branco na capa da "Manchete". Nunca ouvíramos falar daquele homenzinho fardado, feio como um ET. De repente, tivemos a certeza de que tínhamos "subestimado o inimigo". Rompeu-se em 64 o sonho de que as ideias mudavam o mundo. 

Não tínhamos mais o "futuro harmônico" de um socialismo imaginário. Um general baixinho mandava em todos, acima das "sagradas massas". Grande trauma.

Aprendizado: o coloquial, a ignorância, o acaso eram mais fortes que nossos generosos desejos. Fizemos, claro, um diagnóstico "histórico": "64 foi um golpe dado pelo conservadorismo das elites diante das massas surgidas na industrialização, com o apoio do imperialismo". 

Tudo bem - mas foi muito mais um golpe dado pela classe média apavorada, com medo de sua ala "de esquerda". 

A esquerda - toda de classe média (não havia "operários" no Brasil antes de surgir a alegoria de Lula) - era o braço generoso e crítico dessa mesma classe média. Descobrimos que não havia "massas proletárias". 

Achávamos que íamos lutar contra os ianques e fomos vencidos por nossas tias. A adesão a 64 foi impressionante. Nossos pais, primos, avós, todo mundo era "de direita". A esquerda janguista foi coberta de ridículo. 

Acabou ali a ideia de que o país era um projeto positivo que evoluía - Brasília, bossa nova, reformas, tudo parou ali.

O pensamento político que flutuava num processo feliz passou a sofrer a necessidade de "revisão". Perdêramos a inocência. Surgiu a esquerda autocrítica que viria a fundar o PSDB, duas décadas depois. 

A ela se opôs, desde então, a esquerda ortodoxa, que não renegou a antiga fé e foi desembarcar com seus dogmas no PT na mesma época.

Em 66, começaram as passeatas pela liberdade. Havia um espaço de transgressão possível, com uma vaga permissão de Castello e até de Costa e Silva num populismo meio bonachão. 

Achávamos que a liberdade resolveria tudo e, como a luta contra a ditadura era seríssima, nos sentimos cheios de razão, legitimados como vítimas nobres. 

A luta pela democracia nos fez cegos para as dificuldades de um país complexo, que conheceríamos depois.

Toda a resistência popular e cultural das manifestações de rua acabou com a decretação do Ato Institucional nº 5, coloquial também ( "Fecha o Congresso, Arthur, fecha!", aconselhou d. Iolanda). Em 68, um raio partiu a vida. 

A consciência nacional conheceu a morte. Não falo só da tortura ou da violência. Falo também da morte na alma, de todas as ilusões.

Quem não viveu de 69 a 72 não sabe o que é loucura, piração de consciências. Acabou a ideia de "povo unido", e começou a época dos francos atiradores, dos guerrilheiros suicidas, soltos em paisagens vazias. Saímos da ilusão para o desespero. 

De um lado, a morte heroica na guerrilha, do outro o "desbunde" místico na cultura arrasando as melhores cabeças no LSD e no misticismo - e tudo cercado pelo show da grana multinacional, criando o "milagre" brasileiro, jorrando yuppies endinheirados e dando ao povão a ideia de um grande progresso, feito de Transamazônica, Itaipu e porrada. 

Nem reforma agrária nem educação - Copa de 70 e estatismo retumbante, financiado pela onda bancária internacional.

Mas, em 72, começa a crise do petróleo, provocando a ideia de "abertura" política de Geisel (não por acaso). A Opep ajudou, pois, com menos petrodólares, a ditadura foi ruindo - sinistra ligação entre o mercado e nossos desejos. 

À medida que nossa capacidade de endividamento diminuía, crescia o desejo de democracia.

Quem ditava as regras? Os militares? Não. Fomos capturados em 64 para contrair a dívida externa, e "libertados" em 85 para pagá-la. E veio a democracia.

Ficamos todos de mãos dadas pelo "amor à pátria", de Ulysses a Quércia, de Tancredo a João Alves, o futuro "anão do Orçamento", na ingênua ficção de que éramos irmãos contra o mal autoritário dos militares. Tancredo morre na porta do Planalto, Sarney assume e, depois, Collor. 

E nesses anos, vimos com horror o país sendo pilhado, arrombado pelas "vítimas da ditadura" que tomaram o poder.

Até que Collor fez uma revolução contra si mesmo, expondo a olho nu, em seu narcisismo masoquista, o absurdo do sistema político debaixo das saias da "democracia". Sua loucura escancarada nos abriu os olhos para o país. Agora, a história se repetiu com Jefferson, o iluminista do mensalão. 

Depois, por acaso, por uma paixão de Itamar, entrou FHC, que nos deu oito anos de vida real e consciência pública, odiado pelo ciúme de seus colegas da academia e sabotado pela velha esquerda sua rival, toda lotada no PT. 

Aquela esquerda autocrítica dos anos 60 governou por oito anos tucanos e foi sucedida pela esquerda ortodoxa de Dirceu e depois pela alegoria televisiva do lulismo. Os velhos inimigos: revisionistas contra ortodoxos. 

A verdade do Brasil é coloquial, feita de pequenos ladrões, sujos arreglos políticos, emperramentos técnicos. Hoje, sabemos que somos parte da estupidez secular do país. 

Prefiro nossa vergonha de hoje aos rostos iluminados dos jovens inocentes de antes. 

Assumir nossa doença talvez seja o início da sabedoria.

A REVOLUÇÃO DAS PIRIGUETES – Arnaldo Jabor

Chega de política. Vou falar de sexo. Antes, havia a “sexpol”, bandeira da política sexual dos anos 60. Hoje, temos no máximo a “polsex”, ou seja, como as ideologias dançaram, só a sexualidade explica os rumos do mundo e, claro, do Brasil, nosso grande motel das ilusões perdidas. Sexo: nossos sentimentos estão canalizados para um mesmo buraco. Ando pela rua e todos os outdoors são de mulher nua — outro dia, quase bati o carro na Avenida Paulista, por causa da lourinha nua da “Playboy”.

Todas as capas de revista são uma grande feira de mulheres gostosas e homens raspadinhos. Tudo parece liberdade, mas a coisa é outra. Nos anos 60 (oh… os recentes anos remotos) o sexo era uma novidade política, depois dos caretíssimos anos 50, quando o sexo tinha algo de crime, algo de secreto que perfumava nossas vidas com o estímulo da culpa. Não havia motéis, nem as pílulas que, depois, fizeram mais pela liberdade sexual que mil livros feministas. Nunca vi tanta publicidade movida a sexo.

A propaganda nos promete uma suruba transcendental. Em nenhum lugar do mundo vemos o apelo sexual nas ruas, nas roupas de meninas — nosso feminismo resultou na revolução das “periguetes”.

No Brasil das celebridades, o feminismo foi um mal-entendido. Muitas vezes rima com galinhagem ou até com uma forma velada de prostituição. É uma mistura de liberdade com submissão a uma salada de frutas: mulher melancia, mulher melão, mulher jaca.

Hoje em dia, as mulheres foram expulsas de seus ninhos de procriação, de sua sexualidade expectante, e são obrigadas ao sexo ativo e masculino. A “supergostosa” é homem; ou melhor, é produto do desejo masculino. O homem é pornográfico; a mulher é amorosa. A pornografia é só para homens.

Já expuseram o corpo todo, seios, vagina, mucosas, ânus. O que falta? Os órgãos internos? Seu ideal é serem desejadas como bons produtos. Felicidade é serem consumidas. Felizes como coisas: Uma salsicha é feliz? Uma bela lata de caviar? Mas como amar um eletrodoméstico? A grande moda do momento são mulheres penduradas em acrobáticas posições ginecológicas para raspar os pelos pubianos nos salões de beleza.

Ficam balançando em paus de arara e, depois, saem felizes com um jardinzinho estreito e não mais a floresta peluda onde mora a temível “vagina dentata”. Parecem uns bigodinhos verticais que me fazem pensar em Hitler.

Que querem essas mulheres? Querem acabar com nossos lares? Querem nos humilhar com sua beleza inconquistável? Elas têm de fingir que não são reais, pois ninguém mais quer ser “real” hoje em dia.

Nos anos 60, sexo era revolução política. Tudo era político. O sexo utópico dos anos 60 era o prelúdio para outras conquistas sociais. O orgasmo para Reich era uma vitória contra a burguesia. Eu me lembro de ter dito para uma mulher amada: “Querida, nosso amor é uma forma de luta contra o imperialismo norte-americano”.

O sexo dos 60 era um comício; queria acabar com a culpa, com o limite, com o proibido. Todas as sacanagens foram testadas, mas chegou-se ao outro lado com uma vaga insatisfação. O que faltava? Faltava o pecado. Sem o pecado ficávamos insuportavelmente livres. Em meio a tanta liberdade, nunca fomos tão solitários. Tudo era referido ao sexo, para substituir frustrações políticas e sociais.

Com a recaretização do mundo, a liberdade aparente conquistada andou para trás. A liberdade deu lugar à “dessublimação repressiva,” como nomeou Marcuse, uma “liberdade” tão ostensiva e grossa que é um louvor à proibição. Os sonhos viraram produto. Todas as conquistas viraram fetiches de consumo: revolta, igualdade, utopias, até o desespero e a angústia passaram a vender roupas e costumes.

O prazer é obrigatório no mercado. A partir dessa época, sob a aparência de grandes euforias narcisistas de gestos e risos de prazer, há um regressismo oculto no mundo de bundas e coxas lipoaspiradas, seios siliconados, bofes comedores. A anatomia virou uma das poucas portas de fuga da classe baixa, como uma saída para a miséria. Nuas, todas as mulheres são iguais: a democracia da bunda. A bunda é a esperança de milhares de Cinderelas.

A mídia e a propaganda compraram a liberdade, que não é mais “uma calça velha e desbotada,” mas é a superação do pudor, da intimidade. Se alguma mulher ficar famosa, tem de tirar a roupa. O striptease é a “antiburka” — igual pelo avesso. A pessoa não tem mais um corpo; o corpo é que tem uma pessoa, frágil, tênue, morando dentro dele. O corpo e a pessoa são duas coisas diferentes; a menina mostra sua bunda como se fosse uma irmã siamesa.

Tanta oferta sexual angustia-nos, dá-nos a certeza de que nosso desejo é programado por indústrias masturbatórias, provocando tesão para vender satisfação.

A verdade é que o prazer anda de cabeça baixa, deprimido, apesar do eufórico exibicionismo em revistas de celebridades. Todos podem confessar tudo: “Sim, eu gosto de atacar nos mictórios das rodoviárias e me orgulho de minha tara!” — diz o perverso sorrindo na TV. A permissividade total esvai a tesão.

O prazer precisa da proibição. Aliás, o vício solitário é bem seguro. A punheta é metafísica. A masturbação a dois existe até no grande amor romântico, onde dois narcisismos se tocam, se beijam, se arranham, mas não se comunicam.

Ninguém mais quer ser “sujeito”, apesar de afirmar o contrário. Todos querem ser “inconformistas como todo mundo”. O corpo tem de dar lucro. Todo mundo quer ser coisa.

Vi um anúncio de uma boneca inflável que sintetizava o desejo secreto do homem de mercado: ter mulheres digitais que não vivam. O anúncio tinha o slogan embaixo: “She needs no food nor stupid conversation” (“Não precisa de comida nem de conversa fiada”). A liberdade de mercado produziu um estranho “mercado da liberdade”.

ARNALDO JABOR – Paciência

Ah! Se vendessem paciência nas farmácias e supermercados... Muita gente iria gastar boa parte do salário nessa mercadoria tão rara hoje em dia.
Por muito pouco a madame que parece uma "lady" solta palavrões e berros que lembram as antigas "trabalhadoras do cais"... E o bem comportado executivo?
O "cavalheiro" se transforma numa "besta selvagem" no trânsito que ele mesmo ajuda a tumultuar...

Os filhos atrapalham, os idosos incomodam, a voz da vizinha é um tormento, o jeito do chefe é demais para sua cabeça, a esposa virou uma chata, o marido uma "mala sem alça". Aquela velha amiga uma "alça sem mala", o emprego uma tortura, a escola uma chatice.

O cinema se arrasta, o teatro nem pensar, até o passeio virou novela.
Outro dia, vi um jovem reclamando que o banco dele pela internet estava demorando a dar o saldo, eu me lembrei da fila dos bancos e balancei a cabeça, inconformado...

Vi uma moça abrindo um e-mail com um texto maravilhoso e ela deletou sem sequer ler o título, dizendo que era longo demais.
Pobres de nós, meninos e meninas sem paciência, sem tempo para a vida, sem tempo para Deus.

A paciência está em falta no mercado, e pelo jeito, a paciência sintética dos calmantes está cada vez mais em alta.

Pergunte para alguém, que você saiba que é "ansioso demais" onde ele quer chegar?
Qual é a finalidade de sua vida?
Surpreenda-se com a falta de metas, com o vago de sua resposta.
E você? Onde você quer chegar?
Está correndo tanto para quê?
Por quem?
Seu coração vai agüentar?
Se você morrer hoje de infarto agudo do miocárdio o mundo vai parar?
A empresa que você trabalha vai acabar?
As pessoas que você ama vão parar?
Será que você conseguiu ler até aqui?
Respire... Acalme-se...

O mundo está apenas na sua primeira volta e, com certeza, no final do dia vai continuar girando, com ou sem a sua paciência...
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EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO(2) - Arnaldo Jabor

Falem por alto!... - minha mãe dizia, quando eu entrava na pequena sala de visitas, com poltronas verdes e um quadro de rosas na parede. Naquela época, o tempo era lento, as ruas silenciosas, as tardes vazias e as mulheres casadas se visitavam, em busca de alguma verdade que explicasse suas vidas mas, quando se reuniam na salinha de minha mãe, ficavam tensas e grandes verdades morriam mudas.

Por isso, as conversas viravam sempre para o mundo "lá fora", pois a vida era dividida entre o que se passava na rua e 'dentro' das casas, onde os filhos se criavam, as empregadas cozinhavam e os maridos chegavam. Mas não havia 'fora' nem 'dentro'.

Só havia o radio com tristes novelas, havia os telefones pretos e as geladeiras brancas, havia os sofás de cetim e as almofadas de crochê, mas elas se sentiam vazias de alguma coisa que ignoravam, sentiam-se barradas de um baile que devia existir em algum lugar, sonhavam com filmes americanos, os beijos ardentes, os finais felizes, os galãs tão diferentes dos maridos deprimidos que chegavam do escritório.

Minha mãe tinha uma voz especial para as visitas, frases escolhidas, ponteada de sorrisos, ostentando uma felicidade tranquila que eu não via no dia a dia. Era a mesma voz que usava para falar ao telefone com as cunhadas tão odiadas por ela - uma voz estudada, afetuosa, que sumia e dava lugar a um rosto rancoroso quando desligava. Por que ela muda a voz? - eu pensava. As visitas também falavam com o tom discreto e calculado de senhoras casadas, como se temessem alguma coisa - o que, meu Deus? - a perda da dignidade de esposas honestas?

Aquela tristeza no ar me intrigava. Tristeza nas lâmpadas fracas, nos rostos das mulheres de minha família.

Quando eu entrava na sala, minha mãe avisava: "Falem por alto!" - era a senha para não falarem coisas que eu não podia ouvir.

Então, o mundo se encantava, aquela salinha de visitas virava um tesouro de mistérios. Elas tinham um segredo que me era vedado, ocultado. E tudo ficava interessantíssimo pois, para além daquela salinha feia, havia algum acontecimento extraordinário, talvez até um crime, que não me revelavam - por quê? Eu me encolhia no chão entre as cadeiras, tentando pescar algum indício em suas falas que não eram para crianças como eu, ali, me contorcendo entre pernas cruzadas e xicaras de café. "Falem por alto...!"

Aí, a conversa mudava para frases cortadas ao meio, gestos e mimicas cifradas: "Ah..Fulana, vocês sabem quem é, aquela, aquela... Pois o marido não viajou, não. Largou ela por uma já sabem...uma (quem, quem?) uma da 'vida' , 'femme du bas fond' (falavam francês na época)... E a filha? Será que ela ainda é... acho que ela já perdeu 'aquilo' ...Ihh, já furou há muito tempo..." Os risos vinham repassados de um pudor discreto de senhoras. "Perdeu o quê?", pensava eu no chão. Eu tinha que descobrir.

"E Sicrana? Sabem quem é...não? Ah, essa costura pra fora!..."

O gesto de minha tia foi para fora da janela, do outro lado da rua. "Lá...lá..." - apontavam. Mas, "lá" era a casa de dona Nina, mãe do meu amigo Caveirinha, que não era costureira - pensei, alarmado.

"É só olhar: toalhinhas higiênicas com sangue no varal, calcinhas na janela, novela alta, roupa berrante para uma viúva, maiô de duas peças na praia?" "Eu me benzo quando passo em frente!" , disse a prima pobre, humilde, ouvida com pouco afeto, pois temiam que pedisse alguma ajuda por sua miséria de tamancos e unhas sujas.

Havia nas pernas apertadas, nas saias discretas, uma solidão que não conseguiam ocultar, mesmo nas conversas íntimas, troca de cochichos e maledicências. Escondiam-me fatos, mas eu sentia a presença de algo que não estava ali, que algo se passava entre elas, que elas ignoravam.

Olhei pela janela e vi d. Nina numa cadeira na varanda, alta e muito branca. Devia estar esperando o filho, meu amigo Caveirinha. Senti que ali estava a resposta para a conversa "por alto" e comecei a sentir medo e desejo de ir a casa de d. Nina.

Para disfarçar, aumentei minha criancice, me arrastando entre as cadeiras, forçando a fatal repreensão de minha mãe, ao me ver acariciando a perna de minha tia mais moça, perna gorda, com estrias azuis, boa de pegar, que minhas mãos alisavam, apertando a panturrilha. "Menino...! Para com isso!" "Este menino é danado", diziam com sorrisos maldosos.

Meu pai chegou do trabalho e entrou na sala. As dragonas rebrilhavam na farda de capitão. Tudo mudou. Minha mãe correu a abraçá-lo, exibindo um afeto conjugal que não o comoveu em sua viril antipatia. As vizinhas se ergueram, nervosas com sua presença. O bigode, o cabelo com brilhantina, o uniforme, tudo as fazia arfar de emoção enquanto se aprestavam: "Já estamos de saída..." ("Por que aquela súbita pressa?" - eu pensava).

E foram embora, como um grupo de refugiadas. Ficou a sala vazia, onde não tinha acontecido nada naquela tarde, nada houvera ali, nada, além de seus desejos não formulados. Elas não sabiam o que desejar e não sabiam que não sabiam.

A noite ia cair e eu resolvi ir à casa do Caveirinha. Cheguei ao portão aberto e fui entrando. Com grande medo, segui pelo corredor. Ninguém estava no quarto do Caveirinha, Carlos Eduardo para a mãe, que era viúva de um marido que, diziam, bebia e que caíra na linha do trem. Ninguém. Súbito, no fundo do corredor, ouvi um choro remoto. No quarto já avermelhado pelo fim do dia, vi, pela fresta da porta, d. Nina, enrodilhada num sofá do quarto, de costas para a porta e nua - completamente nua. Ela soluçava num choro convulso e seu corpo tremia muito. Seu pranto crescia para um gemido cada vez mais alto, mais alto, até que subitamente parou. Depois de um tempo, ela se ergueu. Ela não tinha chorado. Era outra coisa que eu não sabia. De olhos secos, veio andando em direção à porta de onde eu a espreitava. Sua nudez era coberta de pelos negros no púbis, se alastrando pelas pernas muito brancas. Nua como uma vênus peluda, não me viu. Fugi em pânico. Tinha visto alguma coisa que eu não sabia o que era, mas entendi que era o que eu não podia saber. Nunca mais visitei o Caveirinha.

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EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO - Arnaldo Jabor

"Durante muito tempo, 
costumava deitar-me cedo."

Mas ficava de olhos abertos para a tênue iluminação da rua que entrava pela fresta da janela. Desde o crepúsculo, filtrava-se uma luz entre o roxo e o dourado que ia morrendo, enquanto eu ouvia as mães chamando os meninos para dentro, um carro que passava e o silêncio que se ouvia depois, os acordes iniciais do Guarani (prefixo da Hora do Brasil) às sete da noite, que soava no rádio de meu pai, avisando aos navegantes que "as boias de luz estavam apagadas temporariamente" no mar, o que me dava uma grande paz, por estar aconchegado em minha cama, mas com pena da solidão das boias de luz flutuando sem rumo no vasto oceano. Meus brinquedos, carrinhos de lata, rolimãs, bolas de gude, jogo de botões, tudo fazia parte de um mundo que estaria ali quando eu acordasse, um pequeno país que eu habitava, limitado por ruas perpendiculares à minha, por terrenos baldios, por valas onde pescava ínfimos peixinhos, por árvores escaladas, pelas casas vizinhas onde se aninhavam amigos e perigosos inimigos - a paisagem dos meus primeiros anos.

Eu ainda não via as coisas em conjunto, minha visão geral era rala e meus olhos se detinham em minúcias que até hoje me emocionam sem razão, detalhes que pareciam revelar mistérios, como a chuva batendo quente e lenta no muro amarelo e roído de buracos, os urubus voando muito longe entre árvores altíssimas e nuvens esgarçadas, as formigas levando folhas de fícus para o buraquinho, onde eu colocava açúcar para surpreendê-las, tontas com o doce presente inesperado, o homem-do-saco que passava todo dia e que, ameaçavam os adultos, levava crianças para fazer sabão, os cachorros vadios que, esses sim, viravam sabão quando a 'carrocinha' da polícia passava, o mendigo veado que revirava os olhos, imundo, chamado de 'Amélia', e que, garantiam, ficara assim porque dera mijo para a mãe que lhe pedira água no leito de morte, brigas entre 'gravatas' e bofetadas, o projecionista do Cine Palácio Vitoria que brilhava ao fim da rua e que toda noite nos dava fotogramas cortados de filmes arrebentados, o que me fez conhecer o cinema em pequenos quadrinhos coloridos com rostos de Virginia Mayo, Sabu, cavalos a galope, beijos na boca, coxas de odalisca, múmias e desenhos do Mickey, sheiks brancos no deserto, o carro grená de meu pai que chegava, minha mãe esperando no portão.

Já houve muitos "eus" dentro de mim, mas nessa infância profunda, "eu" ainda não havia. Havia o mundo misterioso que eu pesquisava em pedaços. Aos poucos, foram se colando em mim os primeiros sustos, súbito entendimento de segredos, a descoberta do corpo, a diferença das meninas, o 'pau, o cu, a boceta', os palavrões que eu aprendia nas vilas e esquinas, palavras sussurradas como senhas, indícios do que seria a 'realidade' para mim, mais tarde. Escrevo essas coisas para lembrar de mim mesmo, vivendo em meio a uma nuvem de impressões fátuas, confusas, de onde, às vezes, saltava alguma coisa com aparência de sentido, um súbito sentimento que me parecia essencial, como um órgão oculto que eu descobria.

Eu devia ter uns 6 anos quando fui a meu primeiro dia de aula, levado por minha mãe na Rua 24 de maio, no Rocha, coberta de folhas secas de mangueira que o vento derrubara. Fiquei sozinho pela primeira vez, sem pai nem mãe no colégio desconhecido.

No pátio do recreio, crianças corriam. Uma bola de borracha voou em minha direção e bateu-me no peito. Olhei e vi uma menina morena, de tranças, olhos negros, bem perto de mim, pedindo a bola. Lembro que seu queixo tinha um pequeno machucado, como um arranhão coberto de mercúrio cromo. Seu nariz era arrebitado, insolente e num lampejo eu senti um tremor desconhecido.

Ela deve ter me fitado no fundo dos olhos por uns três segundos, mas até hoje me lembro de sua expressão afogueada e vi que ela também sentira algum sinal em meu corpo, alguma informação da matéria em seu destino de fêmea. Tenho certeza de que nossos olhos viram a mesma coisa, um no outro. Senti que eu fazia parte de um magnetismo da natureza que me envolvia e envolvia a menina, que alguma coisa vibrava entre nós e que eu tinha um destino ligado àquele tipo de ser, gente de trança, que ria com dentes brancos e lábios vermelhos que era diferente de mim e entendi também que sem aquela diferença eu não me completaria. Ela voltou para o jogo e vi suas pernas correndo e ela se virando para uma última olhada. Meu sentimento infantil foi de impossibilidade, aquele rosto me pareceu maravilhoso e impossível de ser atingido inteiramente - um momento de descoberta e perda. Misteriosamente, nunca mais a encontrei naquela escola.

Foi mais ou menos isso, felicidade e medo, a sensação de tocar num mistério sempre movente, como um fotograma que para por um instante e logo se move na continuação do filme. Sempre senti isso pela vida afora em cada visão de mulheres que amei. São momentos em que a máquina da vida parece se explicar, como se fosse uma lembrança do futuro, como se eu me lembrasse do que iria viver. Percebo hoje que aquela sensação de profundo sentido que tive aos 6 anos pode ter definido minha maneira de amar pelos tempos que viriam. Talvez tenha visto, por um segundo, que o amor aparece em brevíssimos instantes, um cabelo molhado, um rosto dormindo, despertando em nós uma espécie de 'compaixão' por nosso próprio desamparo, entrevisto no outro.

ALGUÉM PARA AMAR - Arnaldo Jabor

Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, nos bares, levanta os braços, sorri e dispara: “eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também”.

No entanto, passado o efeito do álcool com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração “tribalista” se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição. A maioria não quer ser de ninguém, mas quer que alguém seja seu.

Estes, desconhecem a delícia de assistir a um filme debaixo das cobertas num dia chuvoso comendo pipoca com chocolate quente, o prazer de dormir junto abraçado, roçando os pés sob as cobertas e a troca de cumplicidade, carinho e amor. 

Namorar é algo que vai muito além das cobranças. É cuidar do outro e ser cuidado por ela, é telefonar só para dizer bom dia, ter uma boa companhia para ir ao cinema de mãos dadas, ter alguém para fazer e receber cafuné, um colo para chorar, uma mão para enxugar lágrimas, enfim, é ter alguém para amar…

Somos livres para optarmos! E ser livre não é beijar na boca e não ser de ninguém. É ter coragem, ser autêntico e se permitir viver um sentimento.

MEMÓRIAS DO FUTURO - Arnaldo Jabor

Estou na clínica especial do Nada aqui neste ano remoto do futuro. Futuro de quê? Futuro de um futuro que o Brasil esperava havia vários séculos. Essas clínicas são chamadas hoje de “zonas de esquecimento”; viraram “hype” há mais de um século e hoje abundam. Os sujeitos entram para perder todos os sentidos. Fica apenas a memória, que, aos poucos, sem ajuda de tato, gosto, cheiro, visão e audição, vai se transformando numa leve fonte de murmúrios, em lapsos de visões, em tênue brilho de lembranças, e depois, o silêncio do nada. Muitas clínicas são arapucas, e as mais baratas apenas jogam os pacientes numas salas vazias e deixam-nos na mistura de restos de comida e excrementos. Ninguém reclama. Mas eu vivo na melhor: “Le Néant”, que as famílias visitam para verificar o tratamento – é impecável no trato dos corpos sorridentes, murchos e mudos.

Hoje, inexplicavelmente, me encontro na rua com sol batendo em meus olhos, e volta a mim uma enxurrada de memórias que eu sempre evitara. Como saí? Em que ano estou? Minha lembrança mais antiga jaz no deserto, quando o Califado Islâmico tomou conta do Oriente Médio, chegando até as bordas de Israel-Palestina, já considerada “área insolúvel” e que virou parque temático.

Muitas terras viraram temáticas também: a desolação de Nueva Iork, depois das nuvens de “antrax” na Broadway, o Buraco Iraque, depois da bomba do ex-Paquistão – hoje Talibânia –, e o deserto de Tokyorama, província da China...

Mas vou me ater às memórias do Brasil.

Sei que há muitos anos o futuro do país se delineou. Foi logo depois da reeleição de uma mulher...

Esqueço-lhe o nome... Sei que, depois, o famoso Lula sucedeu-lhe em 2018, continuando em 2022, criando uma dinastia de si mesmo, reeleito em vários mandatos, até 2034, quando ele já não falava mais e tinha sido mumificado num carro móvel de vidro que desfilava entre a multidão de fiéis ajoelhados. A maioria do povo semianalfabeto celebrava a realização do projeto do seu partido, uma espécie de populismo pós-moderno (como chamavam) feito de pedaços de getulismo, chavismo e outras religiões. Quando se iniciou a decomposição, seu corpo foi entronizado no Museu Bolívar, um palácio de mármore vermelho desenhado por Oscar Niemeyer, tendo como curador Gilberto Carvalho, 108.

Nesta época, o velho Brasil tinha renascido como rabo de lagarto. Voltara a correção monetária sob uma inflação de 2.200%, um flashback do período Collor, agora representado por seu neto na grande aliança ainda presidida por Sarney, 117, que visava unir partidos no programa nacional de “decrescimento”, já que a democracia se revelara um antigo sonho grego impossível. Todo o projeto do “lulismo” tinha dado frutos depois de tantos anos no poder. “Podres poderes!” – rosnavam alguns poucos inimigos, urubus complexados. Tinha-se atingido o sonho glorioso de socialismo “puro”, onde só havia o Estado sem sociedade em volta. Era assim.

O MST tinha finalmente desmontado a maldita agroindústria, as manifestações de junho viraram uma data popular, como festas juninas animadas por black blocks, considerados agora “guarda revolucionária”; a imprensa tinha acabado, graças à proibição de papel, enquanto ex-jornalistas gritavam nas ruas e distribuíam panfletos mimeografados.

Foi nessa fase que houve o Segundo Crash da Bolsa de Nueva Iork, entre nuvens de suicidas e filas de desempregados.

Aqui foi uma surpresa. O Brasil quebrou, e nada aconteceu. Houve, claro, legiões de famintos atacando os supermercados, mas logo ficou claro que a miséria é autorregulável. Muito simples: a fome diminui a população, dado benéfico para a incrível falta de comida, provocada pela decisão do governo de jamais cortar gastos fiscais. Nossos aviões e navios passaram a ser confiscados regularmente pelos países do Império Neoliberal, o que foi bom para desonerar gastos de manutenção.

Foi então que se começou a falar em um novo lema: “Ordem sem Progresso”, no seio de um novo movimento de salvação nacional: o “Recua Brasil!”. Entendêramos finalmente que o Brasil é um “acochambramento” secular e que isso não é um defeito, é nossa grandeza fabricada por séculos de escravismo, de burocracia e de corrupção endêmica.

A nova “república” proclamava: “Vamos assumir nosso atraso, chega de progresso!”. Foi outro grande alívio o fim da angústia de progresso que oprimia os brasileiros: a Paz é a desistência dos sonhos de felicidade.

Daí, veio o movimento “Desiste Brasil”, organizando o antigo caos em ilhas, em zonas de atraso. Um dos sucessos foi o PEP, “Plano de Extermínio de Periferias”. No início, alguns humanistas protestaram, mas, depois, se acostumaram com o fechamento das favelas com muros de concreto, como em Gaza-Auschwitz. Outro grande programa foi o PROCU (Projeto de Criminalidade Unificada), que mapeou as máfias todas, a evangélica, a ruralista, a hospitalar, a de traficantes, formando um arquipélago de áreas exclusivas com regras de matança mais controláveis. Sem falar em iniciativas de vanguarda moral como a COPUT (Cooperativa de Prostituição Infantil), que organizou as meninas de rua e incentivou o turismo sexual de que tanto dependemos.

Isso, além do PROCRACK e do PROMERD (cagadas genéricas) e a PROLIM (venda de liminares “a priori”). Criou-se o “Orçamento Espoliativo”, que os congressistas adoraram, com sete novos necrotérios em Alagoas e nove clínicas essenciais de cirurgia plástica no Piauí, de onde veio também a bela ideia da “Comunidade Sossegada”, que distribui Lexotans aos retirantes da seca.

Mas foi aí que comecei a tremer. Olhava os outros do meu canto: pareciam tão felizes...

Sim, mas de vez em quando eles entravam num choro meloso, um uivo desesperado como as sirenes que circulavam em Nueva Iork, no século XXI. Meu terror foi aumentando. Eu estava só, mas via o repulsivo Futuro brasileiro, preparado por séculos de atraso. Corri de volta à minha “zona de esquecimento”, a “Le Néant”, mergulhei no silêncio dos cinco sentidos e cego, surdo e mudo, pude finalmente descansar no nada.

ARNALDO JABOR - A Copa da esperança e a Copa do medo

Meu avô chegou em casa chorando. As ruas estavam desertas e o silêncio era total. Isso, no dia 16 de julho de 1950, quando o Brasil perdeu para o Uruguai. Lembro de meu avô dizendo que só se ouviam os sapatos. Os chinelos, até pés descalços desciam as rampas do Maracanã e, vez por outra, alguém soluçava. Eu era pequeno e não entendia bem aquele desespero que excitava a criançada - ver adultos chorando! Muitos anos depois o Nelson Rodrigues me disse a mesma coisa: só os sapatos falavam. Mas por que isso aconteceu?

A guerra tinha acabado, a Fifa nos escolhera para a sede da Copa porque a Europa estava ainda muito combalida pela guerra. Tivemos de construir o Maracanã, que o prefeito Mendes de Morais inaugurou como se fosse o símbolo de um Brasil novo - o maior estádio do mundo. Getúlio Vargas já era candidato a presidente democraticamente eleito e tínhamos a sensação que deixaríamos de ser um país de vira-latas para um presente que nos apontava o futuro. O governo Dutra tinha gasto a maior parte de nossas altas reservas do pós-guerra em importações americanas. Inteiramente submisso ao desejo dos gringos, nos enchemos de produtos inúteis: meias de nylon, chicletes de bola, bolinhas de gude coloridas com que jogávamos, ioiôs, carros importados, o novo clima do cinema americano, dos musicais da Metro, o sonho de alegria e orgulho que pedimos emprestado aos Estados Unidos. Com ingênua esperança de modernidade, achávamos que nossa vez tinha chegado. E fomos ao jogo para ver nossa independência. Tínhamos certeza absoluta da vitória. Os jornais já fotografavam os jogadores do "scratch" como campeões invencíveis. Tínhamos ganho tudo. Apenas um empate com a Suíça, sete a um contra a Suécia, seis a um contra a "fúria" espanhola. O estádio estava cheio de ex-vira-latas, de ex-perdedores; como diria Nelson Rodrigues, todos éramos patrióticos granadeiros bigodudos e dragões da independência, Napoleões antes de Waterloo. Não queríamos apena uma vitória, mas a salvação. Só a taça aplacaria nossa impotência diante da eterna zona brasileira. Queríamos berrar ao mundo: "Viram? Nós somos maravilhosos!".

Precisando de somente um empate, a seleção brasileira abriu o marcador com Friaça aos dois minutos do segundo tempo, mas o Uruguai conseguiu a virada com gols de Schiaffino e Ghiggia. Claro que foi um terrível lance de azar, mas, para nós, o mundo acabou. No estádio mudo, sentia-se a respiração custosa de 200 mil pessoas. Ouvia-se a dor. Foi uma mutação no País.

Não estávamos preparados para perder! Essa era a verdade. E a certeza onipotente leva à desgraça. Traz a morte súbita, a guilhotina. Sem medo, ninguém ganha. Só o pavor ancestral cria uma tropa de javalis profissionais para o triunfo, só o pânico nos faz rezar e vencer, só Deus explica as vitórias esmagadoras, pois nenhum time vence sem a medalhinha no pescoço e sem ave-marias. Isso é o óbvio, mas foi ignorado. E quando o óbvio é desprezado, ficamos expostos ao sobrenatural, ao mistério do destino. Um amigo meu, já falecido, Paulo Perdigão, escreveu um livro essencial para entender o País naquela época - A Anatomia de Uma Derrota, em que ele cria uma frase que nos explicava em 50 e que nos explica até hoje: o Brasil seria outro país se tivéssemos ganho "aquela" Copa, "naquele" ano. "Talvez não tivesse havido a morte de Getúlio nem a ditadura militar. Foi uma derrota atribuída ao atraso do País e que reavivou o tradicional pessimismo da ideologia nacional: éramos inferiores por um destino ingrato. Tal certeza acarretou nos brasileiros a angústia de sentir que a nação tinha morrido no gramado do Maracanã..." E aí ele escreveu a frase rasgada de dor: "Nunca mais seremos campeões do mundo de 1950!".

Esta sentença nos persegue até hoje. Talvez nunca mais tenhamos o peito cheio de fé como naquele ano remoto.

Lá, sonhávamos com um futuro para o País. Agora, tentávamos limpar nosso presente. Somos hoje uma nação de humilhados e ofendidos, debaixo da chuva de mentiras políticas, violência e crimes sem punição. Descobrimos que o País é dominado por ladrões de galinha, por batedores de carteira e traficantes. E mais grave: a solidariedade natural, quase 'instintiva', das pessoas está acabando. Já há uma grande violência do povo contra si mesmo. Garotos decapitam outros numa prisão, ônibus são queimados por nada, meninas em fogo, presos massacrados, crianças assassinadas por pais e mães, uma revolta sem rumo, um rancor geral contra tudo. Repito: estamos vivendo uma mutação histórica.

Há uma africanização de nossa desgraça, com o perigo de ser irreversível. E não era assim - sempre vivemos o suspense e a esperança de que algo ia mudar para melhor.

Isso parece ter acabado. É possível que tenhamos caído de um 'terceiro mundo' para um "quarto mundo". O quarto mundo é a paralisação das possibilidades. Quem vai resolver o drama brasileiro? As informações criam apenas perplexidade e medo, mas como agir? Não há uma ideologia que dê conta do recado.

O mais claro sinal de que vivemos uma mutação histórica é esta Copa do Medo. Há o suspense de saber se haverá um vexame internacional que já nos ameaça. Será péssimo para tudo, para economia, transações políticas, se ficar visível com clareza sinistra nossa incompetência endêmica, secular. Nunca pensei em ver isso. O amor pelo futebol parecia-me indestrutível. O governo pensava assim também, com o luxo dos gastos para o grande circo. E as placas nas ruas se sucedem: "Abaixo a Copa!". "Queremos uma vida padrão Fifa!"

Como vão jogar nossos craques? Com que cabeça? Será possível ganharmos com este baixo astral, com a gritaria de manifestantes invadindo os estádios? Haverá espírito esportivo que apague essa tristeza?

Antes, nas copas do mundo, éramos a pátria de chuteiras. Hoje, somos chuteiras sem pátria.

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A psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência...