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DOIS TURNOS DE SONO: A FORMA ESQUECIDA COMO NOSSOS ANTEPASSADOS DORMIAM - Zaria Gorvett - BBC Future

 

Será que estamos dormindo errado?                                                                                                   Indo contra o que seria nosso ciclo natural de sono?

Eram cerca de 11 horas da noite de 13 de abril de 1699, em uma pequena aldeia no norte da Inglaterra. Jane Rowth, com nove anos de idade, piscava os olhos, observando as sombras da noite escura. Ela e sua mãe haviam acabado de acordar de um curto sono.

A mãe de Jane levantou-se e andou até a lareira daquela casa simples, onde começou a fumar seu cachimbo. Foi quando dois homens surgiram na janela. Eles chamaram a sra. Rowth para se aprontar e ir com eles.

Na cama com os romanos: como o sexo mudou a história da Roma antiga

6 mitos sobre o sono que prejudicam a nossa saúde

Como Jane explicou mais tarde para o tribunal, sua mãe claramente estava esperando os visitantes. Ela foi com eles sem resistir - mas antes sussurrou para sua filha: "fique deitada e estarei de volta pela manhã". Talvez a sra. Rowth tivesse alguma tarefa noturna a cumprir. Ou talvez ela estivesse em dificuldades e sabia que encontraria perigos ao sair de casa.

De qualquer forma, a mãe de Jane não conseguiu cumprir sua promessa e nunca mais voltou para casa. Naquela noite, a sra. Rowth foi brutalmente assassinada e seu corpo foi encontrado dias depois. O crime nunca foi esclarecido.


Cerca de 300 anos depois, no início dos anos 1990, o historiador Roger Ekirch visitou o Escritório de Registros Públicos de Londres - um imponente edifício gótico, com belos arcos de entrada, que abrigou os Arquivos Nacionais do Reino Unido entre 1838 e 2003. Foi ali que, entre fileiras quase infinitas de documentos e manuscritos antigos, ele encontrou o depoimento de Jane Rowth.

Ekirch estava originalmente pesquisando para escrever um livro sobre a história das horas noturnas e, naquela época, buscava registros do período entre o início da Idade Média e a Revolução Industrial.

Ele havia descoberto que os depoimentos judiciais são muito esclarecedores. "Eles são uma fonte maravilhosa para historiadores sociais", afirma Ekirch, que é professor da Universidade Estadual da Virgínia, nos Estados Unidos. "Eles comentam sobre atividades muitas vezes não relacionadas ao crime propriamente dito."

Ekirch receava ter que escrever o capítulo do seu livro sobre o sono. Ele acreditava que o sono fosse não só uma necessidade universal, mas uma constante biológica, e não esperava encontrar nada de novo sobre o tema - até que um ponto estranho do testemunho de Jane Rowth o impressionou.

Ao ler o depoimento, ele encontrou duas palavras que nunca havia visto antes, mas que pareciam retratar um detalhe particularmente intrigante da vida no século 17: "primeiro sono".

"Posso recitar o documento original de cor quase inteiro", afirma Ekirch. Sua euforia com a descoberta ainda pode ser percebida, mesmo décadas depois.

Na Idade Média, era absolutamente normal que várias pessoas dormissem juntas. Viajantes que haviam acabado de se conhecer compartilhariam a mesma cama, bem como patrões e seus servos

No seu testemunho, Jane descreve como, pouco antes dos homens chegarem à sua casa, ela e sua mãe haviam acordado do primeiro sono da noite. Não havia mais explicações - o sono interrompido era indicado como sendo algo comum e totalmente sem importância. "Ela se referiu ao caso como se fosse absolutamente normal", afirma Ekirch.

A existência de um primeiro sono indica que havia também um segundo sono - uma noite dividida em duas metades. Era apenas um hábito familiar ou haveria algo mais, além disso?

Pelos meses que se seguiram, Ekirch vasculhou os arquivos e encontrou muitas outras referências sobre esse fenômeno misterioso do duplo sono, ou "sono bifásico", como ele viria a denominá-lo.

Alguns relatos eram um tanto banais, como a menção feita pelo tecelão Jon Cokburne, que simplesmente o citou de passagem no seu depoimento. Mas outros eram mais sombrios, como o de Luke Atkinson, de East Riding of Yorkshire, no norte da Inglaterra. Certa vez, ele cometeu um assassinato no início da manhã, entre os dois sonos - e sua esposa declarou que, muitas vezes, ele usava esse intervalo para ir até as casas de outras pessoas para realizar atos sinistros.

Quando Ekirch ampliou sua pesquisa, incluindo bancos de dados online de outros registros escritos, logo ficou claro que o fenômeno era mais comum e difundido que ele havia imaginado.


Para começar, o primeiro sono é mencionado em uma das obras mais famosas da literatura medieval, The Canterbury Tales ("Os contos da Cantuária", em português), de Geoffrey Chaucer (escritos entre 1387 e 1400). O livro apresenta um concurso de contar histórias entre um grupo de peregrinos.

Existe também uma menção no livro Beware the Cat ("Cuidado com o gato", em tradução livre), do poeta William Baldwin (1561) - um livro satírico considerado por alguns o primeiro romance já escrito. Ele conta a história de um homem que aprende a linguagem de um grupo de gatos sobrenaturais assustadores. Um deles, chamado Mouse-slayer ("Assassino de Camundongos", em tradução livre), enfrenta julgamento por promiscuidade.

Mas isso é apenas o começo. Ekirch encontrou referências casuais ao sistema de sono em duas partes em todas as formas escritas que se pode imaginar - centenas de cartas, diários, livros médicos, escritos filosóficos, artigos de jornal e peças de teatro. A prática aparece até em canções da época, como na balada Old Robin of Portingale: "... e, ao acordar do seu primeiro sono, você precisa tomar uma bebida quente; e, ao acordar do sono seguinte, suas mágoas se acalmarão..."

E o sono bifásico também não era exclusivo da Inglaterra. Ele era amplamente praticado em todo o mundo pré-industrial. Na França, o sono inicial era chamado de "premier somme", enquanto, na Itália, era o "primo sonno".

De fato, Roger Ekirch encontrou evidências do hábito até em locais distantes como a África, sul e sudeste asiático, Austrália, Oriente Médio - e no Brasil. Um registro colonial do Rio de Janeiro, datado de 1555, descreve que o povo tupinambá costumava comer depois do seu primeiro sono.

Como muitos romanos, o historiador Lívio praticava o sono bifásico. Ele menciona o método na sua obra-prima, “A história de Roma”

Já um registro de Mascate, em Omã, explicava no século 19 que os habitantes locais se recolhiam para seu primeiro sono antes das 22 horas.

E Ekirch começou a suspeitar que esse método, longe de ser uma peculiaridade da Idade Média, poderia ter sido a principal forma de dormir por milênios - um padrão antigo herdado dos nossos ancestrais pré-históricos. O registro mais antigo encontrado por Ekirch foi do século 8 antes de Cristo, no épico grego A Odisseia, enquanto as indicações mais recentes dessa prática datam do início do século 20, quando, de alguma forma, ela caiu no esquecimento.

Como isso funcionava? Por que as pessoas dormiam em dois turnos? E como algo que um dia foi tão comum acabou sendo completamente esquecido?


Era um momento vago

No século 17, a noite de sono era mais ou menos assim:

Das 21 às 23 horas, as pessoas que tinham condições começavam a recostar-se em colchões forrados com palha ou trapos (os colchões dos ricos poderiam ter enchimento de penas), prontas para dormir por duas horas. Enquanto isso, nas camadas inferiores da sociedade, as pessoas precisavam acomodar-se sobre plantas espalhadas no solo ou, pior, no chão de terra batida - talvez até sem cobertor.

Naquela época, muitas pessoas dormiam juntas, frequentemente acompanhadas de uma acolhedora variedade de percevejos, pulgas, piolhos, familiares, amigos, servos e - se estivessem viajando - também completos estranhos.

Para minimizar constrangimentos, o sono envolvia uma série de convenções sociais rígidas, como evitar contato físico ou muitos movimentos durante a noite. E havia posições definidas para dormir. As meninas mais jovens, por exemplo, normalmente deitavam-se em um lado da cama, com as mais velhas mais perto da parede, seguidas pela mãe e pelo pai, depois os filhos meninos - também dispostos por idade - e os que não eram membros da família depois deles

Duas horas depois, as pessoas começavam a despertar desse sono inicial. O tempo acordado à noite normalmente começava perto de 23 horas e ia até cerca de uma hora da manhã, dependendo do horário em que as pessoas haviam ido para a cama.

Esse despertar geralmente não era causado por ruídos, nem por outras perturbações à noite. Também não havia alarme para despertar - os despertadores foram inventados apenas em 1787, por um norte-americano que, ironicamente, precisava acordar no horário para vender relógios. As pessoas acordavam de forma totalmente natural, da mesma forma que faziam pela manhã.

O período acordado era chamado de "vigília" e era um intervalo surpreendentemente útil para realizar tarefas. "[Os registros] descrevem que as pessoas faziam quase de tudo depois que acordavam do primeiro sono", relata Ekirch.

Dormir em conjunto significava que as pessoas normalmente tinham alguém com quem falar quando acordavam para a “vigília”.

Sob o fraco brilho da Lua, das estrelas, lâmpadas a óleo ou "velas de junco" - uma espécie de vela para residências simples, feita de caules de junco encerados - as pessoas se dedicavam a tarefas comuns, como colocar lenha no fogo, tomar remédios ou urinar (muitas vezes, no próprio fogo).


Para os camponeses, acordar significava voltar ao trabalho mais sério - seja sair para vistoriar os animais de criação ou realizar tarefas domésticas, como remendar roupas, pentear lã ou descascar os juncos a serem queimados. Ekirch encontrou o relato de um servo que certa vez chegou a preparar um lote de cerveja para seu patrão entre meia-noite e duas horas da manhã, em Westmorland, no noroeste da Inglaterra.

Para os cristãos, havia orações elaboradas a cumprir, incluindo algumas especificamente recomendadas para esse período. Um padre chamou a vigília de a hora mais "proveitosa" do dia - depois de digerir o seu jantar e encerrar as tarefas mundanas, "ninguém virá procurar você, exceto Deus".

Já as pessoas com disposição para a filosofia poderiam usar a vigília como um momento pacífico para ruminar sobre a vida e ponderar sobre novas ideias. No final do século 18, um comerciante londrino chegou a inventar um dispositivo especial para registrar suas percepções noturnas mais ardentes - um "lembrador noturno", que consistia de um bloco de pergaminho fechado com uma abertura horizontal que poderia ser usada como guia para escrever.

Mas, principalmente, a vigília era útil para a socialização - e para o sexo. Como explica Ekirch em seu livro, At day's close: A history of nighttime ("No encerramento do dia: a história das horas noturnas", em tradução livre), as pessoas muitas vezes sentavam-se na cama e apenas conversavam. E, durante essas estranhas horas de penumbra, as pessoas que dividiam a cama conseguiam compartilhar um nível de informalidade e conversas casuais dificilmente atingido durante o dia.

E, para os casais que conseguissem vencer a logística de compartilhar a cama com outras pessoas, era também um intervalo conveniente para intimidade física. Depois de um longo dia de trabalho manual, o primeiro sono eliminava sua exaustão e o período seguinte era considerado um excelente momento para conceber sua enorme quantidade de filhos.

Depois que as pessoas ficavam acordadas por duas horas, normalmente elas voltavam para a cama. Esse segundo período era considerado o sono "da manhã" e poderia durar até amanhecer ou mais. Da mesma forma que acontece hoje, a hora em que as pessoas finalmente acordavam para o dia dependia da hora em que elas foram para a cama à noite.

Pessoas pesquisando no Escritório de Registros Públicos

O Escritório de Registros Públicos abrigava milhares de depoimentos criminais da era medieval, que agora são guardados nos Arquivos Nacionais em Kew, a sudoeste de Londres

Adaptação antiga

Segundo Ekirch, existem referências ao sistema de sono em dois períodos espalhadas ao longo de toda a Antiguidade, o que indica que ele já era comum naquela época.

O sistema é mencionado casualmente em obras de escritores ilustres, como o biógrafo grego Plutarco (século 1 depois de Cristo), o viajante grego Pausânias (século 2 depois de Cristo), o historiador romano Lívio e o poeta romano Virgílio.

Posteriormente, a prática foi adotada pelos cristãos, que imediatamente perceberam o potencial da vigília como uma oportunidade para recitar salmos e fazer confissões. No século 6, São Bento ordenava aos monges que se levantassem à meia-noite para essas atividades e essa ideia acabou por espalhar-se por toda a Europa, gradualmente chegando à população em geral.

Mas os seres humanos não são os únicos animais a descobrir os benefícios de dividir o sono. Essa prática é amplamente adotada no mundo natural, com muitas espécies repousando em dois ou até mais períodos de sono separados. Isso os ajuda a permanecer ativos nas horas mais benéficas do dia, quando eles têm maior possibilidade de encontrar alimento, sem que eles próprios se tornem o lanche de alguém.

Um exemplo é o lêmure-de-cauda-anelada. Esses icônicos primatas de Madagascar, com seus olhos vermelhos arrepiantes e caudas verticais em preto e branco, mantêm padrões de sono surpreendentemente similares aos dos seres humanos da era pré-industrial. Eles são "catemerais", ou seja, eles ficam acordados durante a noite e o dia.

"Existem muitas variações entre os primatas, em termos da distribuição da sua atividade ao longo do período de 24 horas", afirma David Samson, diretor do laboratório do sono e evolução humana da Universidade de Toronto em Mississauga, no Canadá. E, se o sono em dois períodos é natural para os lêmures, ele se pergunta: pode ser esta a forma em que nós também evoluímos para dormir?

Roger Ekirch vinha alimentando o mesmo pressentimento há muito tempo. Mas ele passara décadas sem encontrar nada de concreto que o comprovasse - nem que esclarecesse por que essa prática desapareceu. Até que, em 1995, Ekirch leu uma reportagem no The New York Times sobre um experimento do sono realizado alguns anos antes.

A pesquisa foi conduzida por Thomas Wehr, cientista do sono do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, e envolveu 15 homens. Depois de uma semana inicial de observação dos seus padrões de sono normais, eles foram mantidos sem iluminação artificial à noite para reduzir suas horas de "luz do dia" - seja ela natural ou elétrica - das 16 horas habituais para apenas 10.

No restante do tempo, eles foram confinados em um quarto sem luz nem janelas e totalmente imersos na escuridão envolvente. Eles não podiam ouvir música nem se exercitar - e foram induzidos ao repouso e ao sono.

O historiador Roger Ekirch se pergunta se hoje as pessoas conseguem se lembrar menos de seus sonhos que os nossos ancestrais porque agora é menos comum acordar no meio da noite

No início do experimento, todos os homens tinham hábitos noturnos normais - eles dormiam em um turno contínuo que durava do final da noite até a manhã. Mas algo incrível aconteceu em seguida.

Depois de quatro semanas de dias com 10 horas, os padrões de sono dos participantes haviam se transformado. Eles não dormiam mais em um único período, mas em duas metades, aproximadamente com a mesma duração. As duas partes eram separadas por um período de uma a três horas que eles passavam acordados.

Medições do hormônio do sono - a melatonina - demonstraram que seus ritmos circadianos também haviam se ajustado, o que demonstra que seu sono foi alterado em nível biológico.

Wehr havia reinventado o sono bifásico. "Depois do meu casamento e do nascimento dos meus filhos, foi provavelmente o momento mais emocionante da minha vida", relembra Ekirch. Quando ele escreveu para Wehr explicando a extraordinária coincidência entre o estudo científico e a sua pesquisa histórica, "acho que posso afirmar que ele ficou tão radiante quanto eu", afirma.

Mais recentemente, a própria pesquisa de David Samson foi confirmada por essas descobertas - mas com uma fascinante reviravolta.

Em 2015, Samson recrutou voluntários locais da remota comunidade de Manadena, no nordeste de Madagascar, para um estudo em conjunto com colaboradores de diversas outras universidades. O local é uma aldeia grande, ao lado de um parque nacional. Não há infraestrutura elétrica, de forma que as noites locais são quase tão escuras quanto eram milênios atrás.

Pediu-se aos participantes - em sua maioria, agricultores - que usassem um "actímetro" - um sofisticado dispositivo sensor de atividade que pode ser usado para rastrear ciclos de sono - por 10 dias, para verificar seus padrões de sono.

"Descobrimos que [nas pessoas privadas de luz artificial] havia um período de atividade logo após a meia-noite até cerca de 1h a 1h30 da manhã", afirma Samson, "a atividade era reduzida em seguida até o sono e a inatividade [permanecia] até que eles acordassem, às seis horas, o que normalmente coincide com o nascer do sol".

Ou seja, o sono bifásico nunca desapareceu completamente - ele sobrevive até hoje nos bolsões mais distantes do mundo.


Nova pressão social

Coletivamente, essa pesquisa também forneceu a Ekirch a explicação que ele desejava sobre o motivo que levou a maior parte da humanidade a abandonar o sistema de dois períodos de sono a partir do início do século 19. Como ocorreu com outras mudanças recentes do nosso comportamento, como a dependência do relógio, a resposta era a Revolução Industrial.

"A iluminação artificial tornou-se mais presente e sua potência aumentou - primeiro, foi [a iluminação] a gás, introduzida pela primeira vez em Londres", explica Ekirch, "e depois, claro, a iluminação elétrica, mais para o final do século. Além de alterar o ritmo circadiano das pessoas, a iluminação artificial também permitiu naturalmente que as pessoas ficassem acordadas até mais tarde."

Mas, embora as pessoas não fossem mais para a cama às 21 horas, elas ainda precisavam acordar no mesmo horário pela manhã - o que prejudicava o seu repouso. Ekirch acredita que isso tornou seu sono mais profundo, porque era reduzido.

Além de alterar os ritmos circadianos da população, a iluminação artificial prolongou o primeiro sono e reduziu o segundo. "E consegui rastrear [essas alterações], quase a cada década, ao longo do século 19", afirma Ekirch.

Curiosamente, o estudo de Samson em Madagascar envolveu uma segunda parte - na qual a metade dos participantes recebeu luzes artificiais por uma semana, para ver se elas causavam alguma diferença. E, neste caso, os pesquisadores concluíram que não havia impacto sobre os seus padrões de sono segmentados. Mas eles indicam que uma semana pode não oferecer tempo suficiente para que as luzes artificiais causem mudanças importantes - de forma que o mistério continua...

Mesmo que a iluminação artificial não seja a única causa, no final do século 20, a divisão entre dois períodos de sono havia desaparecido por completo. A Revolução Industrial não havia mudado apenas a nossa tecnologia, mas também a nossa biologia.

Nova ansiedade

Um efeito colateral importante da mudança dos hábitos de sono de grande parte da humanidade foi uma mudança de comportamento. Por um lado, começamos rapidamente a ridicularizar as pessoas que dormem demais e desenvolvemos preocupação com a relação entre acordar cedo e a produtividade.

Mas, para Ekirch, "o aspecto mais gratificante de tudo isso são as pessoas que sofrem de insônia no meio da noite". Ele explica que nossos padrões de sono agora estão tão alterados que ficar acordado no meio da noite pode nos causar pânico.

"Não quero diminuir a importância disso - eu mesmo, na verdade, sofro de distúrbios do sono e tomo medicamentos para isso." Mas, quando as pessoas aprendem que esse padrão pode ter sido totalmente normal por milênios, ele percebe que isso reduz um pouco a ansiedade.

Mas, antes que a pesquisa de Ekirch gere uma derivação da dieta paleolítica e as pessoas comecem a jogar suas lâmpadas fora - ou, pior, dividam artificialmente seu sono em dois com despertadores -, ele se empenha em ressaltar que o abandono do sistema de sono em dois períodos não significa que a qualidade do nosso sono hoje em dia seja inferior.

Apesar das notícias quase constantes sobre a grande incidência de distúrbios do sono, Ekirch já argumentou que, em alguns aspectos, o século 21 é a era de ouro do sono - um período em que a maioria de nós não precisa mais se preocupar em ser assassinado na cama, congelar até a morte ou remover piolhos, podendo dormir sem dores, sem a ameaça de incêndios e sem estranhos deitados ao nosso lado.

Em resumo, o sono em um único período pode não ser "natural", da mesma forma que belos colchões ergonômicos e a higiene moderna também não o são. "Ou seja, não existe retorno porque as condições mudaram", afirma Ekirch.

Nós podemos estar perdendo a oportunidade de ter conversas confidenciais na cama no meio da noite, sonhos psicodélicos e revelações filosóficas noturnas - mas, pelo menos, não acordamos cobertos de picadas vermelhas irritantes.

* Zaria Gorvett é jornalista sênior da BBC Future. Sua conta no Twitter é @ZariaGorvett.

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PSICONEUROIMUNOLOGIA: A INTRIGANTE TÉCNICA DE ESCREVER SOBRE TRAUMAS QUE AJUDA A CURAR O CORPO - BBC Future

Segundo a neurociência, 
há ligação entre saúde e escrita

Em 1986, o professor de Psicologia James Pennebaker descobriu algo extraordinário, que inspirou uma geração de pesquisadores a fazer centenas de experimentos. 

Ele pediu a estudantes que passassem 15 minutos escrevendo sobre o maior trauma de suas vidas ou, caso não tivessem passado por um, sobre o momento mais difícil que viveram.

Eles tinham que se soltar e incluir seus pensamentos mais profundos, mesmo que nunca os tivessem compartilhado antes. Eles realizaram essa mesma tarefa por quatro dias consecutivos. Não foi fácil. Pennebaker disse que, em média, um a cada 20 alunos acabou chorando, mas, quando questionados se queriam continuar o experimento, sempre disseram que sim. Enquanto isso, um grupo de controle passou o mesmo número de sessões escrevendo descrições de coisas neutras, como uma árvore ou seus quartos.

Escrever sobre seus sentimentos não aumenta seu sistema imune para sempre

O pesquisador então passou seis meses monitorando a frequência com que os estudantes iam ao médico. No dia em que viu os resultados, ele saiu do laboratório, encontrou um amigo que o esperava no carro e lhe disse que havia descoberto algo grande. Os estudantes que escreveram sobre seus sentimentos secretos foram muitas vezes menos ao médico nos meses seguintes.

Desde então, a área da psiconeuroimunologia tem explorado a ligação entre o que agora é conhecido como "escrita expressiva" e o funcionamento do sistema imune.

Os estudos seguintes examinaram o efeito dessa escrita em tudo, de asma e artrite até câncer de mama e enxaqueca.

Por exemplo, em um estudo pequeno, conduzido no Kansas (EUA), foi descoberto que mulheres com câncer de mama tinham menos sintomas incômodos e iam a menos consultas médicas relacionadas ao câncer nos meses seguintes ao experimento.

O objetivo do estudo não era observar o diagnóstico de câncer a longo prazo e os autores não sugerem que o câncer poderia ser afetado. Mas a curto prazo, outros aspectos da saúde da mulher pareciam melhores que aqueles nos grupos de controle que escreveram sobre outra coisa além de seus sentimentos em relação ao câncer.

No entanto, isso nem sempre funciona. Uma meta-análise de Joanne Fratarolli, da Universidade da Califórnia em Riverside, apontou que há um efeito em geral, mas que este é pequeno. Para uma intervenção livre e positiva, é um benefício que vale a pena. Alguns estudos tiveram resultados decepcionantes, mas há uma área em que os resultados são mais consistentes: a da cura de ferimentos.

Nesses estudos, voluntários corajosos fazem a escrita expressiva e alguns dias depois recebem um anestésico local e, então, uma biópsia no braço. O ferimento geralmente mede 4 milímetros e cura em algumas semanas. Essa cura é monitorada repetidamente e é mais rápida se os voluntários escrevem sobre seus pensamentos mais secretos.

Simplesmente imaginar um acontecimento traumático e escrever uma história a respeito já pode desencadear benefícios

O ato de colocar palavras no papel faz o que, afinal? Inicialmente se assumia que isso estava ligado à catarse, ao fato de que as pessoas se sentiam melhor porque colocavam seus sentimentos para fora. Mas então Pennebaker começou a olhar com atenção para a linguagem usada pelas pessoas na escrita.

Ele descobriu que os tipos de palavras usadas mudam no transcorrer das quatro sessões. Aqueles cujos ferimentos curavam mais rápido começaram a usar mais a palavra "eu", mas nas últimas sessões usavam "ele" ou "ela" com maior frequência, sugerindo que eles estavam olhando para o acontecido com outras perspectivas. Eles também usaram palavras como "porque", implicando que estavam dando sentido aos acontecimentos e os colocando em uma narrativa. Pennebaker acredita que o simples ato de rotular seus sentimentos e colocá-los em uma história pode afetar o sistema imune de alguma forma.

Mas há uma descoberta curiosa sugerindo que pode haver outra coisa acontecendo. Imaginar um acontecimento traumático e escrever uma história a respeito dele pode fazer a ferida curar mais rápido, então talvez a diferença esteja menos relacionada com a resolução de questões passadas e mais com encontrar uma maneira de regular suas próprias emoções.

Após o primeiro dia de escrita, a maioria das pessoas disse que remoer o passado as fez se sentir pior. Será que o estresse fez as pessoas liberarem hormônios de estresse como o cortisol, que também é benéfico a curto prazo e pode fortalecer o sistema imune? Ou será que é a melhora do humor depois de vários dias escrevendo que traz os benefícios para a imunidade? Até agora, ninguém sabe.

Seja qual for o mecanismo, apesar de várias décadas de pesquisa mostrando que funciona, a técnica raramente é usada clinicamente. Dá até para imaginar uma situação em que pessoas com cirurgia marcada sejam instruídas a praticar a escrita expressiva nas semanas anteriores ao procedimento, mas poucos estudos usaram populações clínicas com ferimentos reais e cirúrgicos em vez de aplicar ferimentos artificialmente em estudantes saudáveis.

Também funciona melhor para algumas pessoas em relação a outras e tudo depende do quanto elas se engajam no processo. Além disso, o efeito é a curto prazo, então você teria que calcular bem o tempo. Escrever sobre seus sentimentos não aumenta sua imunidade para sempre. Se as mesmas pessoas se machucarem de novo alguns meses após o estudo inicial, elas não vão se curar mais rápido que outra pessoa qualquer.

A escrita pode funcionar depois que você se machucar, como quando você está se recuperando de uma cirurgia.

Agora, uma pesquisa recente da Nova Zelândia sugeriu que não é necessário realizar a escrita antes de você se machucar. Pode funcionar do mesmo jeito se você fizer a escrita expressiva depois. Isso abre um leque de possibilidades para a prática não apenas quando a cirurgia é planejada, mas para ferimentos que não podemos prever.

Kavita Vedhara, da Universidade de Nottingham, e sua equipe na Nova Zelândia fizeram um experimento com 120 voluntários saudáveis e pediram a eles para escrever ou sobre um evento estressante ou sobre o que fizeram no dia anterior. Isso foi feito antes ou depois de uma biópsia no braço. As pessoas que estavam no grupo da escrita expressiva (que escreveram sobre op evento estressante) tinham uma tendência seis vezes maior de ter o ferimento curado em 10 dias na comparação com as outras.

Ainda é preciso realizar mais estudos com pacientes reais, mas talvez um dia, quando passarmos por uma operação, poderemos ir para casa com instruções sobre escrita expressiva. Como diz Kavita Vedhara, o efeito "é de curto prazo, mas poderoso".
Por Claudia Hammond - Fonte: BBC Future.

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COMO FORTALECER SUA MEMÓRIA SEM O MENOR ESFORÇO - BBC Future

Passar algum tempo sem fazer nada pode ser forma mais eficiente para memorizar algo novo.

Ao tentar memorizar algo novo, é normal partir da premissa de que, quanto mais nos concentramos, melhor será nosso desempenho.

Contudo, passar algum tempo sem fazer nada pode ser exatamente o que você precisa. Escureça o ambiente, sente-se e desfrute de 10 a 15 minutos de contemplação silenciosa, e você vai perceber que sua memória estará muito melhor do que tivesse tentado usar o momento de forma mais produtiva.

Uma nova pesquisa revela que devemos buscar "interferências mínimas" durante essas pausas - evitando deliberadamente qualquer atividade que possa interferir na delicada missão de formação da memória. Por isso, evite executar tarefas pequenas, verificar seus emails ou mexer no seu smartphone. Você realmente precisa dar ao seu cérebro a oportunidade de uma recarga completa sem distrações.

Uma desculpa para não fazer nada pode parecer uma técnica mnemônica perfeita para o estudante preguiçoso, mas essa descoberta também pode fornecer algum alívio para pessoas com amnésia e algumas formas de demência, sugerindo novas maneiras de liberar uma capacidade latente e não reconhecida de aprender e lembrar.

Recarregando as baterias
Os extraordinários benefícios de estimulação à memória durante um repouso tranquilo foram documentados em 1900 pelo psicólogo alemão Georg Elias Muller e seu aluno Alfons Pilzecker.

Em uma de suas muitas experiências sobre consolidação da memória, Muller e Pilzecker pediram aos participantes que memorizassem uma lista de sílabas sem sentido. Após um curto período de estudo, metade do grupo recebeu imediatamente uma segunda lista para memorizar - enquanto o resto pôde descansar por seis minutos antes de continuar com a tarefa.

Testados novamente uma hora e meia depois, os dois grupos apresentaram diferentes padrões de memorização. Os participantes que puderam descansar por seis minutos lembraram de quase 50% de sua lista, em comparação com uma média de 28% do grupo que não pôde "recarregar" suas baterias mentais.

A descoberta indicou que nossa memória para novas informações é especialmente frágil logo após a codificação, tornando-a mais suscetível a interferências.

Apesar de vários psicólogos terem revisitado o tema ao longo dos anos, foi apenas no início dos anos 2000 que suas implicações mais amplas começaram a ser conhecidas, a partir de uma pesquisa de Sergio Della Sala, da Universidade de Edimburgo, na Escócia, e Nelson Cowan, da Universidade de Missouri, nos EUA.

Benefícios de estimulação à memória durante repouso tranquilo foram documentados em 1900.

Os pesquisadores estavam interessados em descobrir se uma interferência reduzida poderia melhorar as memórias de pessoas que sofreram uma lesão neurológica, como um acidente vascular cerebral.

Usando uma configuração semelhante ao estudo original de Muller e Pilzecker, eles deram aos participantes listas de 15 palavras. Dez minutos depois, testaram a memória deles. Em alguns testes, os envolvidos permaneceram ocupados realizando alguns testes cognitivos. Em outros, foram convidados a se deitar em um quarto escuro e evitar cair no sono.

O impacto dessa pequena intervenção foi mais profundo do que qualquer um poderia supor. Embora os dois pacientes mais gravemente amnésicos não tenham se beneficiado, os outros triplicaram o número de palavras que poderiam lembrar - de 14% para 49%, colocando-os quase na faixa de pessoas saudáveis sem danos neurológicos.

Os resultados seguintes foram ainda mais impressionantes. Os participantes foram convidados a ouvir algumas histórias e a responder perguntas sobre elas uma hora depois. Sem poder descansar, eles só conseguiam lembrar apenas 7% dos fatos das histórias; com o resto, essa taxa saltou para 79% - um aumento astronômico de 11 vezes na informação que eles conseguiram memorizar.

Os pesquisadores também encontraram um benefício semelhante, embora menos pronunciado, para participantes saudáveis em cada caso, aumentando a proporção do que lembraram entre 10 e 30%.

Memória espacial
Della Sala e a ex-aluna de Cowan, Michaela Dewar, da Universidade Heriot-Watt, nos Estados Unidos, realizaram diversos estudos complementares desde então, replicando a descoberta em contextos muito diferentes.

Em participantes saudáveis, descobriram que esses curtos períodos de descanso também podem melhorar nossas memórias espaciais - ajudando, por exemplo, os participantes a lembrar a localização de diferentes pontos de referência em um ambiente de realidade virtual. Essa vantagem permaneceu uma semana após a tarefa de aprendizado original, e parece beneficiar tanto os jovens quanto os idosos.

Além dos sobreviventes de acidentes vasculares cerebrais, os pesquisadores também encontraram benefícios semelhantes para pessoas nos estágios mais leves do mal de Alzheimer.

Estamos sempre vulneráveis à distração
Em cada caso, eles simplesmente pediram aos participantes que se sentassem em uma sala com luz reduzida e silenciosa, sem seus celulares ou distrações semelhantes.

"Não demos a eles instruções específicas em relação ao que deveriam ou não deveriam fazer enquanto descansavam", diz Dewar.

"Mas os questionários preenchidos no final de nossos experimentos sugerem que a maioria das pessoas simplesmente deixou suas mentes vagar", acrescenta.

Mesmo assim, devemos ter cuidado para não nos esforçar demais enquanto sonhamos acordados. Em um estudo, por exemplo, os participantes foram convidados a imaginar um evento passado ou futuro durante a pausa, o que pareceu reduzir a memorização do que acabaram de aprender.

Portanto, pode ser mais seguro evitar qualquer esforço mental empreendido durante nosso tempo de inatividade.

Nossa memória para novas informações é especialmente frágil logo após a codificação, tornando-a mais suscetível a interferências

Por que isso acontece?
O mecanismo exato ainda é desconhecido, embora algumas pistas venham da crescente compreensão da formação da memória.

É sabido, por exemplo, que, uma vez inicialmente codificadas, as memórias passam por um período de consolidação que as cimenta no armazenamento a longo prazo.

Antigamente, pensava-se que isso acontecia principalmente durante o sono, com uma maior comunicação entre o hipocampo - onde as memórias são formadas pela primeira vez - e o córtex, um processo que pode construir e fortalecer as novas conexões neurais que são necessárias para a lembrança posterior.

Essa intensa atividade noturna pode ser a razão pela qual muitas vezes aprendemos coisas de forma mais eficaz antes de dormir. Mas, em linha com a pesquisa de Dewar, um estudo realizado em 2010 por Lila Davachi, da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, descobriu que a solidificação da memória não se limitava ao sono, e que atividade neural semelhante ocorre também durante períodos de repouso.

Na pesquisa, os participantes foram primeiro convidados a memorizar pares de imagens - combinando um rosto com um objeto ou uma cena. Então, puderam se deitar e deixar suas mentes vagarem por um curto período de tempo.

Como era de se esperar, Davachi revelou uma maior interação entre o hipocampo e as áreas do córtex visual durante o repouso. Segundo ela, as pessoas que mostraram um maior aumento de conectividade entre essas áreas foram aquelas que se lembraram mais da tarefa.

Talvez o cérebro tenha algum tempo de inatividade potencial para cimentar o que acabou de aprender - e reduzir qualquer estímulo complementar neste momento pode facilitar esse processo. Parece que o dano neurológico pode tornar o cérebro especialmente vulnerável a essa interferência depois de aprender uma nova memória, razão pela qual o período de descanso provou ser particularmente importante para vítimas de AVC e pessoas com alzheimer.

Na era do excesso de informação, vale a pena lembrar que nossos smartphones não são os únicos que precisam ser recarregados de vez em quando. Nossos cérebros também.

Na era do excesso de informação, vale a pena lembrar que nossos smartphones não são os únicos que precisam ser recarregados de vez em quando

Estratégias
Se você está interessado em maneiras mais rápidas e de baixo esforço para impulsionar sua memória, pode se beneficiar das seguintes estratégias:

Desafie-se: ativamente se empenhar em memorizar informações é muito mais efetivo do que apenas ler passivamente.

Dê um tempo: espere algumas semanas antes de voltar a visitar um material.

Converse consigo mesmo: o ato de simplesmente descrever um evento ajuda a fixá-lo na memória.

Mude o foco: às vezes pode ser benéfico misturar e fazer um rodízio dos assuntos, em vez de estudá-los em bloco.
David Robson
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COMO FOI CRIADA A HETEROSSEXUALIDADE COMO A CONHECEMOS HOJE - BBC Future

A heterossexualidade não "estava simplesmente lá" 
desde sempre - e não há por que imaginar que sempre estará

O dicionário médico Dorland, de 1901, definiu a heterossexualidade como "um apetite anormal ou pervertido em relação ao sexo oposto".

Mais de duas décadas depois, em 1923, o dicionário Merriam Webster definia a orientação sexual como "paixão sexual mórbida por alguém do sexo oposto". Apenas em 1934 a heterossexualidade teve o significado atualizado: "manifestação de paixão sexual por alguém do sexo oposto".

Pessoas costumam reagir com incredulidade ao conhecer essas definições: "Isso não pode ser verdade", dizem. A sensação é de que a heterossexualidade sempre "esteve presente".

Há alguns anos, circulava na internet um vídeo de um homem que perguntava às pessoas na rua se achavam que homossexuais nascem com essa orientação sexual. As respostas variavam, mas a maioria dizia que era uma "combinação de natureza e criação".

O entrevistador então fazia outra pergunta na sequência, fundamental ao experimento: "Quando você decidiu ser hétero?" A maioria confessou nunca ter pensado nisso.

Ao sentir que seus preconceitos ficaram à mostra, as pessoas acabavam concordando com o ponto do entrevistador: as pessoas nascem gays, assim como nascem heterossexuais.

O vídeo parecia sugerir que todas as sexualidades "simplesmente estão aí", ou seja, não precisamos de uma explicação para a homossexualidade assim como não precisamos de uma para a heterossexualidade.

Parece não ter passado pela cabeça dos produtores do vídeo, ou das milhões de pessoas que o compartilharam, que precisemos de uma explicação para ambas.

Enquanto sexo heterossexual é tão antigo quanto a humanidade, o conceito de heterossexualidade como uma identidade é algo muito recente

Há trabalhos muitos bons, tanto acadêmicos quanto populares, sobre a construção social do desejo e da identidade homossexuais. Na verdade, a maioria de nós aprendeu que a identidade homossexual passou a existir em um momento específico da história humana. O que não aprendemos porém, é que um fenômeno parecido aconteceu com o surgimento da heterossexualidade.

Há várias razões para essa omissão educacional, incluindo viés religioso e outros tipos de homofobia. Mas a principal razão pela qual não fazemos perguntas sobre a origem da heterossexualidade é provavelmente porque ela parece natural. Normal.

Mas a heterossexualidade não "estava simplesmente presente" desde sempre. E não há por que imaginar que sempre estará.

Quando a heterossexualidade era anormal
A primeira contestação de que a heterossexualidade foi inventada geralmente envolve um apelo à reprodução: parece óbvio que o sexo entre genitais diferentes existiu desde o início da humanidade - e não teríamos sobrevivido até aqui sem isso. Mas essa contestação presume que heterossexualidade é a mesma coisa que sexo reprodutivo. Não é.

"O sexo não tem história", escreve o teórico queer David Halperin, professor da Universidade de Michigan, "porque é baseado no funcionamento do corpo". A sexualidade, por outro lado, tem uma história, precisamente porque é uma "construção cultural".

Em outras palavras, enquanto o sexo parece ser algo programado na maioria das espécies, a nomeação e classificação desses atos e de quem os pratica é um fenômeno histórico que pode e deve ser estudado como tal.

O casal transgênero em que o pai deu à luz um menino
Em outras palavras: sempre houve instintos sexuais no mundo animal (sexo). Mas em um momento específico na história, os humanos criaram significados para esses instintos (sexualidade). Quando humanos falam sobre heterossexualidade, estamos tratando da segunda definição.

Hanne Blank trouxe uma maneira útil de discutir isso em seu livro Hétero: A Surpreendentemente Curta História da Heterossexualidade, com uma analogia da história natural.

Em 2007, o Instituto Internacional para Exploração das Espécies listou o peixe Electrolux addisoni na lista das "top 10 novas espécies" do ano. Mas é claro que essas espécies não passaram simplesmente a existir havia dez anos - foi apenas quando elas foram descobertas e cientificamente nomeadas.

"Documentos escritos de um certo tipo, por um certo tipo de autoridade, transformaram o Electrolux de uma coisa que já existia para uma coisa que ficou conhecida", conclui Blank.

O julgamento de Oscar Wilde por "indecência" frequentemente é considerado um momento chave para a formação da identidade gay.

Algo parecido aconteceu com os heterossexuais, que, ao final do século 19, passaram da mera existência para o conhecimento público. "Antes de 1868, não havia nenhum heterossexual", escreve Blank. Nem homossexuais.

Os humanos não haviam pensado ainda que eles poderiam ser diferenciados entre si de acordo com o tipo de amor ou desejo sexual que sentiam. Comportamentos sexuais, é claro, haviam sido identificados e catalogados, e até proibidos em certos momentos. Mas a ênfase estava no ato, não em quem o praticava.

Então o que mudou?
A linguagem. No final dos anos 1860, o jornalista húngaro Karl Maria Kertbeny criou quatro termos para descrever experiências sexuais: heterossexual, homossexual e dois termos que hoje não são usados mas que na época descreviam masturbação e bestialidade, monossexual e heterogenit.

Kertneby usou o termo heterossexual uma década depois quando foi convidado a escrever um capítulo de um livro a favor da descriminalização da homossexualidade. O editor do livro, Gustav Jager, decidiu não publicá-lo, mas acabou usando os termos de Kertneby em um livro que ele publicou em 1880.

A vez seguinte em que a palavra foi publicada foi em 1889, quando o psiquiatra austríaco-alemão Richard von Krafft-Ebing a incluiu em um catálogo de "doenças sexuais" chamado Psicopatia Sexualis. Mas, em quase 500 páginas, a palavra "heterossexual" é usada apenas 24 vezes, e nem sequer consta no índice.

Isso se deu porque Krafft-Ebing estava mais interessado em "instinto sexual contrário" ("perversões") do que em "instinto sexual", sendo que o último é o que ele considerava "normal" em termos de desejo sexual de humanos.

"Normal" é uma palavra cheia de significado, e foi usada de maneira errônea na história. A ordenação hierárquica de raças que levou à escravidão já foi aceita como normal, assim como a cosmologia geocêntrica. Os fundamentos desses consensos vistos como fenômenos normais perderam suas posições de privilégio apenas após serem alvo de questionamentos.

Para Krafft-Ebing, desejo sexual normal estava situado em um contexto maior de utilidade de procriação, uma ideia que combinava com as teorias dominantes sobre sexo no Ocidente. No mundo ocidental, muito antes dos atos sexuais serem divididos em hétero e homo, já havia uma ordem binária: sexo procriativo e não-procriativo.

A Bíblia, por exemplo, condena o sexo homossexual pela mesma razão que condena a masturbação: porque a "semente" é desperdiçada no ato.

Enquanto essa visão foi amplamente ensinada, mantida e reforçada pela Igreja Católica e depois por outras religiões cristãs, é importante sublinhar que ela não vem originalmente das escrituras judaicas ou cristãs, mas do estoicismo - doutrina fundada por Zenão de Cício (335-264 a.C.) que se caracteriza por uma ética em que a eliminação das paixões e a aceitação do destino são características do homem sábio.

Karl Maria Kertbeny criou o rótulo 'heterosexual"

Como a teórica católica Margaret Farley explica, os estoicos "tinham fortes pontos de vista sobre o poder dos humanos de regular emoções e sobre o desejo dessa regulamentação para encontrar a paz interior". O filósofo estoico Musonius Rufus, por exemplo, argumentava que as pessoas deveriam se proteger contra autoindulgências, incluindo excesso sexual.

Para evitar sua indulgência sexual, diz o teólogo Todd Salzman, Rufus e outros estoicos tentaram classificá-la em "um contexto mais amplo de significado humano" - argumentando que o sexo só poderia ser moral se buscasse a procriação. Antigos teólogos cristãos adotaram essa ética conjugal-reprodutiva e o sexo reprodutivo virou a única forma normal de sexo já época de Agostinho (354-430).

Apesar de Krafft-Ebing tomar essa lógica procriativa como natural, ele a expandiu bastante. "No amor sexual, o verdadeiro propósito do instinto, a reprodução da espécie, não é consciente", escreveu.

Em outras palavras, o instinto sexual contém algo como um objetivo reprodutivo programado - um objetivo que está presente até mesmo nos que fazem "sexo normal" e não o percebem.

Em seu livro A Invenção da Heterossexualidade, Jonathan Ned Katz vê um grande impacto na abordagem de Krafft-Ebing. "Ao colocar o reprodutivo separado do inconsciente, Krafft-Ebing criou um espaço pequeno e obscuro onde uma nova forma de prazer começou a se desenvolver."

A importância desse movimento - de instinto reprodutivo para desejo erótico - não pode ser diminuída, já que é crucial para as noções modernas de sexualidade.

Em geral, quando as pessoas hoje pensam em heterossexualidade, imaginam algo como: João sabe desde muito pequeno que é eroticamente atraído por garotas. Certo dia ele canaliza essa energia erótica em Suzana e ele a conquista. O casal se apaixona, dá expressões sexuais e físicas aos seus desejos eróticos e os dois vivem felizes para sempre.

Foi apenas na virada do século 20 que os pensadores começaram a separar desejo sexual da reprodução

Sem o trabalho de Krafft-Ebing, essa narrativa talvez nem fosse considerada "normal". Não havia qualquer menção, mesmo que implícita, à procriação. Definir instinto sexual como normal de acordo com desejo erótico foi uma revolução fundamental para pensar sobre sexo.

O trabalho de Krafft-Ebing deu base para uma mudança cultural que aconteceu entre a definição de 1923 de heterossexualidade como "mórbida" para a de 1934 como "normal".

O sexo e a cidade
Ideias e palavras frequentemente são produtos de sua época. Esse certamente é o caso da heterossexualidade, que nasceu em um momento em que a vida americana estava ficando mais regulamentada. Segundo afirma Blank, a invenção da heterossexualidade corresponde com o surgimento da classe média.

No final do século 19, as populações nas cidades na Europa e na América do Norte começaram a explodir. Em 1900, por exemplo, a cidade de Nova York tinha 3,4 milhões de moradores - 56 vezes sua população apenas um século antes.

Conforme as pessoas se mudavam para os centros urbanos, traziam consigo suas "perversões sexuais". Ao menos era o que parecia. "Em comparação com os vilarejos rurais, as cidades pareciam antros de excessos sexuais", escreve Blank.

Quando as populações nas cidades eram menores, diz Blank, era mais fácil controlar esse tipo de comportamento, assim como era mais fácil controlá-lo quando acontecia em áreas rurais onde a familiaridade entre vizinhos era uma norma. A fofoca das cidades pequenas podia ser um grande motivador.

Devido ao conhecimento maior dessas práticas sexuais em paralelo com o fluxo de classes mais baixas às cidades, "a culpa pelo comportamento sexual urbano impróprio geralmente era jogada sobre as classes mais baixas", diz Blank.

Era importante para uma classe média emergente se diferenciar desses excessos. A família burguesa precisava de uma forma de proteger seus membros da "decadência aristocrática por um lado e dos horrores da cidade lotada do outro". Isso demandava "sistemas reproduzíveis e universalmente aplicáveis para uma administração social que pudesse ser implementada em larga escala".

No passado, esses sistemas podiam ser baseados na religião, mas o "novo Estado secular exigia uma justificativa secular para suas leis", diz Blank. Aí entram especialistas como Krafft-Ebing, que deixou claro que a classe média ascendente não podia considerar o desvio da sexualidade normal (hétero) como simplesmente um pecado, mas como uma degeneração moral - um dos piores rótulos que alguém poderia ter então.

O anonimato da vida urbana no século 19 frequentemente era culpada por um comportamento sexual mais "imoral e livre".

"Chame um homem de 'canalha' e você define seu status social", escreveu William James em 1895. "Chame ele de 'degenerado' e você o colocou no grupo mais repugnante da raça humana". Como diz Blank, degeneração sexual se tornou uma régua para medir as pessoas.

A degeneração, afinal de contas, era o processo contrário do darwinismo social. Se o sexo procriador era fundamental para a evolução contínua das espécies, desviar dessa norma era uma ameaça para toda a sociedade. Por sorte, esse desvio poderia ser revertido, se fosse observado cedo o bastante, pensavam os especialistas da época.

A formação da "inversão sexual" acontecia, para Krafft-Ebing, em vários estágios e era curável já no primeiro. "Krafft-Ebing enviou uma mensagem clara contra a degeneração e a perversão. Todas as pessoas com dever cívico deveriam se tornar observadoras", escreve Ralph M. Leck, autor do livro Vita Sexualis.

E isso certamente era uma questão de civilidade: a maioria do efetivo colonial vinha da classe média, que era grande e estava em crescimento.

Freud
Apesar de Krafft-Ebing ter ficado relativamente conhecido, foi Freud quem deu ao público maneiras científicas de pensar sobre sexualidade. Por mais que seja difícil reduzir as teorias do médico a algumas frases, seu maior legado é a teoria psicossexual do desenvolvimento, segundo a qual as crianças desenvolvem suas sexualidades por meio de uma dança psicológica elaborada dos pais.

Para Freud, heterossexuais não nascem assim, mas são feitos assim. Como diz Katz, a heterossexualidade para Freud foi uma conquista, aqueles que a conquistavam com sucesso navegavam por seu desenvolvimento infantil sem sair da linha.

Ainda assim, como diz Katz, exigia muita imaginação classificar essa navegação em termos de normalidade. Segundo Freud, o caminho convencional para a normalidade heterossexual é pavimentado com o tesão incestuoso do menino e da menina pelo pai ou mãe, com o desejo das crianças de assassinar seus rivais - ou seja, o pai no caso do menino e a mãe no caso da menina - e com o desejo de exterminar qualquer irmão ou irmã rivais.

Ou seja, a estrada para a heterossexualidade é pavimentada de tesão e desejo de sangue. A invenção do heterossexual, na visão de Freud, é uma criação profundamente perturbada.

O fato dessa visão de Édipo ter sobrevivido por tantos anos, assim como a explicação para a sexualidade normal, "é uma das maiores ironias da história da heterossexualidade", diz Katz.

Alfred Kinsey (no centro da foto) pode ter diminuído o tabu sobre o sexo, mas seus estudos reafirmaram as categorias já existentes de comportamento homo e heterossexual

Ainda assim, a explicação de Freud parecia satisfazer a maioria do público, que, continuando com sua obsessão com a regulação sobre todo e qualquer aspecto da vida, aceitou de bom grado a nova ciência sobre a normalidade.

Essas atitudes tiveram um novo embasamento científico com o trabalho de Alfred Kinsey, cujo estudo Comportamento Sexual do Macho Humano, de 1948, classificava a sexualidade dos homens em uma escala de zero (exclusivamente heterossexual) a seis (exclusivamente homossexual).

Suas descobertas o levaram a concluir que grande parte da população masculina "tem ao menos uma experiência homossexual entre a adolescência e a idade avançada".

Enquanto o estudo de Kinsey ampliou as categorias de homo e hétero ao permitir um certo contínuo sexual, ele também "reafirmou enfaticamente a ideia de que a sexualidade é dividida entre dois polos", como diz Katz.

O futuro da heterossexualidade
Essas categorias permanecem até hoje. "Ninguém sabe exatamente por que heterossexuais e homossexuais seriam diferentes", escreveu Wendell Rickets, autor do estudo Pesquisa Biológica sobre Homossexualidade, de 1984.

A melhor resposta que temos é um tanto tautológica: "Heterossexuais e homossexuais são considerados diferentes porque eles podem ser divididos em dois grupos com base na crença de que eles podem ser divididos em dois grupos".

Apesar da divisão hétero/homo parecer eterna e um fato indestrutível da natureza, ela não o é. Trata-se meramente de uma gramática recente que os humanos inventaram para falar sobre o que o sexo significa para nós.

A heterossexualidade, afirma Katz, "é inventada no discurso como algo que está fora do discurso. Ela é construída como se fosse um discurso que é universal e fora da temporalidade". Ou seja, é uma construção, mas é apresentada como se não fosse.

Como qualquer filósofo francês ou criança com um lego poderá lhe dizer, qualquer coisa que foi construída pode ser desconstruída também. Se a heterossexualidade não existia no passado, ela não precisa existir no futuro.

Jane Ward, autora de Not Gay ("Não Gay", em tradução livre), questiona o futuro da sexualidade. 
"O que significaria pensar sobre a capacidade das pessoas para cultivar seus desejos sexuais da mesma maneira em que cultivam um gosto por uma certa comida?"

Apesar da preocupação de alguns com a possibilidade de uma fluidez sexual, é importante lembrar que vários argumentos na linha Born This Way ("eu nasci assim", em tradução livre) não são aceitos por boa parte dos cientistas.

Eles não sabem exatamente qual é a "causa" da homossexualidade e eles certamente rejeitam qualquer teoria que proponha uma origem simples, como um "gene gay".

Desejos sexuais, como todos os nossos desejos, mudam e são reorientados ao longo de nossas vidas - e é o que eles fazem, frequentemente nos sugerem novas identidades. Se isso for verdade, então a sugestão de Ward de que podemos cultivar preferências sexuais parece fazer sentido.

Por trás da pergunta de Ward há um desafio sutil: se estamos desconfortáveis com o quanto de poder temos - se é que temos algum - sobre a nossa sexualidade, qual é o motivo? Da mesma maneira, por que estaríamos desconfortáveis ao questionar a crença de que a homossexualidade, e por extensão a heterossexualidade, são verdades eternas da natureza?

O escritor James Baldwin criticou a definição das pessoas como hétero ou gay, dizendo que se trata de "um falso argumento, uma falsa acusação"

Em uma entrevista ao jornalista Richard Goldstein, o romancista e dramaturgo James Baldwin disse ter fantasias boas e ruins sobre o futuro. Uma das boas era que "ninguém teria que se definir como gay", um termo para o qual Baldwin dizia não ter paciência. "Ele responde a um argumento falso, a uma acusação falsa", dizia.

Que acusação é essa?
"A de que você não tem o direito de estar aqui, que você precisa provar seu direito de estar aqui. Eu estou dizendo que não tenho o que provar. O mundo também pertence a mim."

Era uma vez em que a heterossexualidade era necessária porque os humanos modernos precisavam provar quem eram e por que eram, e eles precisavam defender seu direito de estar ali. Conforme o tempo foi passando, porém, esse rótulo parece na verdade limitar o leque de maneiras pelas quais os humanos entendem seus desejos, amores e medos.

Talvez essa seja uma razão pela qual uma pesquisa britânica recente descobriu que menos da metade dos jovens de 18 a 24 anos se identificam como "100% heterossexual".

Isso não sugere que a maioria desses jovens sejam bissexuais ou homossexuais, mas que eles não precisem mais desse termo como as gerações passadas precisavam no século 20.

Debates a respeito de orientação sexual tendem a focar em um conceito mal definido de "natureza". Porque o sexo entre genitais diferentes geralmente resulta na reprodução da espécie, damos a ele um status moral especial.

Mas a "natureza" não nos revela nossas obrigações morais - somos responsáveis por determiná-las, mesmo quando não percebemos que estamos fazendo isso. Como observou o filósofo David Hume, pular de uma observação de como é a natureza para uma fórmula do que a natureza deve ser é uma falácia lógica.

Conforme os direitos LGBT se tornam mais reconhecidos, muitas pessoas também descrevem seus desejos sexuais como parte de um espectro

Por que julgar o que é natural e ético para um ser humano de acordo com sua natureza animal? Muitas das coisas que os humanos valorizam, como medicina e arte, não são naturais. Ao mesmo tempo, humanos detestam muitas coisas que são naturais, como doenças e morte.

Se considerarmos alguns fenômenos naturais como éticos e outros como não-éticos, isso significa que as nossas mentes (os que observam) estão determinando o que fazer com a natureza (o que é observado). A natureza não existe em algum lugar "lá fora", independentemente de nós - sempre estamos interpretando-a de dentro dela.

Até este momento da história do planeta, a espécie humana se multiplicou por meio do coito de sexos diferentes. Cerca de um século atrás, demos significados específicos a esse tipo de relação sexual, parcialmente porque queríamos encorajá-las.

Mas o nosso mundo está bastante diferente hoje. Tecnologias como a implantação de diagnóstico genético e fertilização in vitro (FIV) estão sendo cada vez mais desenvolvidas. Em 2013, mais de 63 mil bebês nasceram a partir de FIV. Na verdade, mais de cinco milhões de crianças nasceram através de tecnologias reprodutivas. Esse número ainda mantém esse tipo de reprodução como minoria, mas toda evolução tecnológica começou com os números contra ela.

Socialmente, também, a heterossexualidade está "perdendo terreno". Se havia um tempo em que indiscrições homossexuais eram o escândalo do dia, mudamos para um outro mundo cheio de casos heterossexuais de políticos e celebridades, com fotos, mensagens de texto e vários vídeos de sexo. A cultura popular está repleta de imagens de relações e casamentos heterossexuais disfuncionais.

Além disso, entre 1960 e 1980, a taxa de divórcio aumentou em 90%, lembra Katz. E enquanto ela caiu consideravelmente durante nas últimas três décadas, ela não se recuperou ao ponto em que seja possível falar que "instabilidade de relacionamento" seja algo exclusivo dos homossexuais, diz Katz.

A tênue linha entre heterossexualidade e homossexualidade não é apenas borrada, como alguns interpretam a partir da pesquisa de Kinsey - é uma invenção, um mito, que já está defasado, diga-se. Homens e mulheres continuarão fazendo sexo entre genitais diferentes até o fim da espécie humana. Mas a heterossexualidade enquanto marcador social, estilo de vida e identidade pode morrer muito antes disso.
Brandon Ambrosino
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