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COINCIDÊNCIAS - Cláudia Laitano

O secretário de Lincoln, chamado Kennedy, implorou ao chefe que não comparecesse ao teatro naquela noite de abril de 1865 em que o presidente americano foi morto por John Wilkes Booth enquanto assistia a um espetáculo.  

O secretário de Kennedy, chamado Lincoln, pediu ao chefe que não viajasse para Dallas, onde o presidente planejava iniciar sua campanha de reeleição – e acabou sendo assassinado por Lee Harvey Oswald na tarde de 22 de novembro de 1963. Booth matou Lincoln em um teatro e fugiu para um armazém. Oswald alvejou Kennedy de um armazém e fugiu para um teatro. Mortos, tanto Lincoln quanto Kennedy foram sucedidos por presidentes chamados Johnson.

O feixe de episódios, datas e incidentes que unem as trágicas biografias de dois dos mais populares presidentes americanos era o lote mais estimado de fatos aparentemente inexplicáveis que o escritor húngaro Arthur Koestler (1905-1983), autor do clássico O Zero e o Infinito, colecionava.

O escritor era um compilador de episódios desse tipo – que para ele não eram coincidências, mas manifestações de uma espécie de energia organizadora transcendente. Judeu nascido em Budapeste no começo do século passado, Koestler foi preso, exilado e perseguido pelo regime soviético.

Essencialmente cético em relação à humanidade, Koestler sentia-se envolvido por aquilo que o ateu Sigmund Freud batizou de “sentimento oceânico” – a sensação que algumas pessoas têm de fazer parte de algo maior do que elas, como o útero materno ou um oceano. Da balbúrdia caótica da realidade, Koestler pinçava aqueles momentos em que uma série de notas aleatórias parecia soar como uma melodia. De alguma forma, seu “sentimento oceânico” dava sentido e propósito a sua vida.

Coincidências podem ser encaradas como aquelas flores delicadas e perfeitas que crescem junto ao mato desregrado de um terreno baldio. Podemos ser surpreendidos pela explosão de beleza em meio ao caos, e até nos comover sinceramente com ela, mas isso não nos permite ignorar seu caráter aleatório.

Muitas pessoas não toleram a ideia de coincidência porque talvez tenham dificuldade de aceitar que a casualidade comanda boa parte dos eventos que influem mais decisivamente no curso das nossas vidas: o grande amor que nasce da circunstância de duas pessoas sentarem-se lado a lado em um avião ou uma morte que poderia ter sido evitada se um carro cruzasse por uma determinada esquina 15 segundos antes ou 15 segundos depois.

Já ouvi muitas vezes a frase “não existem coincidências” dita com o tom solene de quem profere uma verdade evidente por si só: nada acontece por acaso, o bater de asas de uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do mundo e por aí vai. Negar que algumas coisas acontecem sem motivo ou ordenação é uma forma socialmente aceita de pensamento mágico. Inventa-se uma lógica para explicar aquilo que não se entende – e a lógica acaba passando por aquilo que não é, ou seja, lógica.

Admitir o acaso (ou o caos) não oferece qualquer consolo diante da dor nem é tão divertido quanto montar quebra-cabeças ligando fatos que não têm qualquer conexão, mas é tão inescapável para alguns quanto o sentimento oceânico que leva outros a ver sentido e propósito em tudo.
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FAMOSA QUEM? - Cláudia Laitano

Quem é a pessoa mais famosa do mundo? Digite isso no Google, e as respostas serão tão insólitas quanto divertidas: “Jesus, Bento 16 e Britney Spears”, “Deus, Michael Jackson, Beatles e Madonna”, “Oprah, Obama e Lady Gaga”.

Famoso pra quem, cara-pálida?, seria a resposta mais adequada. A maior surpresa da cerimônia de entrega do Grammy, realizada em fevereiro, não foram os muitos prêmios de Adele (conhece?), mas a multidão de internautas que durante a festa perguntava nas redes sociais quem era, afinal, aquele coroa sorridente que estava sendo homenageado no palco.

Ter feito parte da maior banda de rock do mundo e estar na ativa há mais de 50 anos queria dizer abacate para os fãs de Rihanna e Lady Gaga: Paul McCartney levou um sonoro e virtual “famoso quem?”.

Esta semana, aconteceu um fenômeno parecido aqui no Brasil nas horas que se seguiram à morte de Millôr Fernandes. Enquanto boa parte dos adultos letrados lamentava a perda de um dos pensadores mais lúcidos do Brasil, uma multidão de inocentes perguntava-se quem, diabos, era aquele sujeito bom de trocadilhos que andavam citando tanto no Twitter.

A movimentação foi tamanha, que um gaiato decidiu criar o blog quememillorfernandes.tumblr.com, reunindo manifestações do tipo: “Vei... Eu nem sabia quem era Millôr Fernandes, daí essa pessoa morre e vira gênio do nada!”.

Nossa primeira reação diante da ignorância alheia (principalmente com relação aos nossos ídolos) é amaldiçoar a estupidez humana e a corrupção dos tempos. Menos. Atire a primeira lápide quem nunca foi surpreendido pela consternação em torno da morte de um “famoso quem?”.

Todo mundo tem buracos negros em sua cultura geral – e quem acha que não tem provavelmente está mal informado. (“Não é que com a idade você aprenda muitas coisas; mas você aprende a ocultar melhor o que ignora”, escreveu o próprio Millôr, mestre na arte de não se levar muito a sério.)

Diante de um fato que ilumina nossa vasta e espessa ignorância, temos duas atitudes possíveis: desprezar a nova informação (se eu não sei e os meus amigos não sabem, não faço muita questão de saber) ou procurar entender do que estão falando. Na era da superabundância de informação, porém, eleger prioridades tem se tornado cada vez mais difícil: cultura pop e cultura erudita, diversão e notícias, presente e passado, muitas vozes disputam nosso tempo e nossa atenção.

O sujeito que se orgulha de nunca ter ouvido falar de Millôr ou Paul McCartney pode desprezar quem é leigo em Bruno Mars ou Angry Birds (“Em que mundo você vive, macróbio alienado?”). Tanta informação disponível pode ser encarada com arrogância, por quem se convence de que já sabe tudo o que precisa saber, ou com angústia, por quem é permanentemente assolado pela sensação de que está perdendo alguma coisa.

Quem nunca ouviu falar de Millôr Fernandes pode ser digno tanto de pena quanto de inveja. Pena se perder a chance de dar-se ao trabalho (e ao prazer) de descobrir por que tanta gente gostava dele. Inveja porque só quem não o conhecia pode desfrutar o prazer irrepetível de ler Millôr pela primeira vez.
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COMO NASCEM OS PAIS - Cláudia Laitano

Observando casais com bebês recém-nascidos ou por chegar, é possível perceber como as mães tendem a ser parecidas umas com as outras, enquanto os pais seguem um padrão mais errático de comportamento, variando do envolvimento absoluto à mal disfarçada indiferença.

Mães de primeira viagem costumam ser muito pragmáticas – e previsíveis. Não que o lado subjetivo da maternidade não cobre algum reordenamento mental, mas são tantas as questões práticas a enfrentar naquelas primeiras semanas – alimentar, aquecer, aninhar –, que o resto parece ficar em segundo plano. O pai, por sua vez, é sempre uma revelação, um mistério a ser decifrado na medida em que a nova condição se impõe.

A forma como um homem lida com a paternidade é uma espécie de consolidação de uma mistura imponderável de uma série de variáveis, que vão da ideia de pai ideal que ele construiu ao longo da vida (ou não) ao investimento amoroso na mulher que está lhe dando um filho. Há pais quase mães, assim como há pais quase tios de segundo grau. Ambos orbitam no âmbito da “normalidade”, ou seja, um pai que nunca trocou uma fralda pode ser tão aceitável (ou estranho) quanto um pai que parou de trabalhar para cuidar do filho.

Nos casos de uma paternidade não desejada, ao homem é dada a opção de decidir se será um pai de fato ou de dever, já que a lei obriga que pague as contas de um filho comprovadamente seu – mas não mais do que isso. Em um país com uma arraigada cultura de abandono de filhos, o teste de DNA foi um avanço e tanto.

São tantas as histórias de pais que somem deixando para trás filhos nascidos dentro ou fora de um casamento, que é impossível a gente não se perguntar por que isso é tão comum aqui e não tanto em outros países com condições sociais e econômicas parecidas com as nossas.

Curiosamente, o mesmo país que naturalizou o “pai desconhecido” não quer nem ouvir falar em uma legislação que contemple a interrupção de uma gravidez indesejada. Na prática, a ambígua moralidade brasileira dá o seguinte recado para o mundo: mulheres têm a obrigação de ser mães, querendo ou não, enquanto os homens têm apenas o dever de pagar as contas – e isso se a lei os alcançar.

A decisão inédita do STJ de condenar um pai por “abandono afetivo” da filha, anunciada esta semana, abre a possibilidade de discutirmos as letras miúdas do contrato de paternidade. Pais podem dar bronca ou não, podem ensinar o filho a andar de bicicleta ou não, podem sustentar a família ou não. A paternidade ideal, ou possível, sempre será uma construção individual, tanto quanto a maternidade. Mas os compromissos de um pai ou de uma mãe com um filho nunca vão ser apenas materiais. Como lembrou a ministra Nancy Andrighi ao dar sentença esta semana, “amar é faculdade, cuidar é dever”.
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