APRENDA FAZENDO COM QUEM FAZ.

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SOMOS O QUE LEMBRAMOS - Cláudia Penteado

“Lembrar é fácil para quem tem memória. 
Esquecer é difícil para quem tem coração.” 
(William Shakespeare)

Mnemósine é a pouco lembrada deusa grega da Memória. Curiosamente, uma de suas filhas com Zeus, a musa Clio – na verdade, deusa da história – costuma levar a fama. Mas Mnemósine – filha do imperador Cronus com a deusa Gaia (terra) – foi considerada uma das mais poderosas deusas de seu tempo. A memória nos distingue de outras criaturas no mundo animal e nos equipou com a razão e a capacidade de prever e antecipar acontecimentos.  Mnemósine é citada, muitas vezes, como a primeira filósofa e detentora do poder da razão: nomeou objetos, deu aos humanos a capacidade de dialogar, memorizar, lembrar. Quando não existia a escrita e as histórias eram contadas de geração para geração, a memória exercia papel essencial.

Mnemósine preservava do perigo do esquecimento. Na cosmogonia grega, as almas bebiam do rio Lete (de “letal”, esquecimento) quando estavam prestes a reencarnar, e, por isso, esqueciam sua existência anterior. Já quem escolhia lembrar as lições aprendidas em vida, recebia a bebida de Mnemósine e seguia para os campos elisios para ter paz e tranquilidade.

Afinal de contas, como armazenar e contar a nossa própria história?

Compartimentada na mente, onde o excesso de informações nos faz esquecer mais do que lembrar? Na mente e nas lembranças nos traímos o tempo todo, trafegando num terreno pantanoso onde ficção se mistura com a realidade e acabamos não tendo mais certeza do que restou do “fluxo e refluxo dos dias”. E as coisas que guardamos? O que representam, afinal, “as coisas” na nossa história? As fotografias? As cartas? Os objetos colecionados?

Outro dia passei uma noite na casa onde cresci, na região serrana. Cheguei lá usando o velho instinto geolocalizador, já  que a neblina tornou o caminho completamente branco, embotando a visão. Já em casa, protegida do frio e da garoa, decidi mergulhar fundo no passado, o que não é difícil, já que cada cantinho da casa remete a um cem número de lembranças – reais ou imaginárias, não importa muito. Fui fundo: decidi remexer em caixas de guardados no meu antigo quarto infantil, hoje usado pela minha filha. Reli cartas, revi e revivi montes de fotos e momentos.

No calor do meu passeio nostálgico, percebi que o que os guardados têm de familiar e de aconchegante, têm também de inquietante. O que parece é que sempre há “coisas” em excesso. O que fazemos com as coisas que compõem a nossa história iconográfica, os “itens históricos” colecionados ao longo da vida? Como determinar se há um “excesso”? Até que ponto jogar “coisas” fora ou dá-las representa um ato prático e simbólico – uma vez que o que importa e é de fato relevante,  permanecerá sempre dentro e não fora?

Minha avó materna costumava queimar todas as cartas recebidas ao longo do ano na lareira da sala, sempre perto do Natal. Ela, que perdeu casas e “coisas” de boa parte da vida na segunda guerra, não tinha grande apego a coisas. Mas fotos, bem me lembro, tinha em profusão. Gostava delas, vivia pedindo que lhe mandássemos, que lhe déssemos para guardar. Lembro claramente do quanto as imagens lhe eram importantes.

Já minha ex-sogra era uma guardadora de “coisas” profissional. Dona Zélia guardava cada desenho que seus netos lhe dessem, qualquer bonequinho que ganhasse, colecionava corujinhas e outras miniaturas, armazenava panos de prato para poder presentear e nunca faltar, adorava brincos, botões, vidrinhos de perfume. Fotos, então, nem se fala. Suas paredes já não tinham espaço para novos quadrinhos com fotos da família, e as prateleiras transbordavam de álbuns.

Remexendo meus guardados, descobri montes de cartas recebidas e algumas cópias das que escrevi e guardei, por algum motivo. Lendo-as, protegida pela distância do tempo, recordei dramas e preocupações, estados de espírito e sentimentos que formam uma linha do tempo bem diferente daquela que temos hoje no Facebook, onde está só o que é bom e passou por um crivo cuidadoso para ser visto pelos outros. Essa nova linha do tempo virtual certamente não tem o mesmo valor. Se antes fotografar era realmente registrar a história, hoje transformou-se em um exercício de exibicionismo muitas vezes gratuito e descartável. Pode-se deletar uma linha do tempo inteira. Substituir por novas fotos e amigos mais interessantes ou desejáveis em um outro momento da vida. Manipulamos e deletamos nossa história virtual da maneira que bem entendemos, apertando alguns botões.

Em geral, a decisão do que descartar tem muito menos a ver com quem somos do que com quem deixamos de ser. Coisas deixam de fazer “sentido” em nossas vidas, estantes ou gavetas quando não nos enxergamos mais nelas. Essa é a  lógica que nos impede de abarrotar nossas casas e transformar nossos espaços em verdadeiros museus. Mutantes, vamos cambiando nosso jeito de ver o mundo a cada dia, e nem sempre nos orgulhamos do que já fomos e das escolhas que fizemos. Aí deletamos.

Mas as coisas também nos servem para mantermos por perto as lembranças. Como Mnemósine, acredito que há um grande valor em manter viva a memória de quem já fomos e as lições que aprendemos. Troféus de viagem nos fazem reviver peregrinações pelo mundo, livros são parte de nós mesmos, fotos remetem a tantos e tantos momentos que compartimentalizamos na memória, displiscentemente. Cartas são verdadeiras preciosidades autobiográficas.

Artigos de jornal guardados resgatam ideias que já nos foram relevantes, uma peça de roupa pode lembrar o cheiro de alguém que já se foi ou um romance inteiro.

Não chego a nenhuma conclusão definitiva, claro. Jogo algumas coisas fora, reorganizo outras e, aconselhada ao pé do ouvido por Mnemósine, guardo a maior parte. Reconheço que não quero esquecer. 


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O NOSSO LUGAR - Cláudia Penteado

 

A vida me fez de vez em quando pertencer, 
como se fosse para me dar a medida 
do que eu perco não pertencendo. 
E então eu soube: pertencer é viver. 
(Clarice Lispector)

Uma amiga confessou outro dia sua sensação de completo deslocamento no mundo. Depois que infartou, embora tenha se recuperado físicamente, não conseguiu reconectar-se à vida que levava, como se não tivesse mais direito a ela. Como se estivesse prestes a ir embora e tenha ganho uma sobrevida “de lambuja”. Passou a sentir um entorpecimento permanente e achou mais simples passar a deixar as pessoas decidirem seus próximos passos – o marido, a filha, os amigos. Ficou com a sensação de que “desencarnou” da sua própria história e busca, de alguma maneira, a reencarnação. A notícia recente de que seus exames médicos não estavam lá essas coisas piorou a sensação de vulnerabilidade. De repente, via-se postergando planos, pensando: “e se eu não estiver viva até lá?”…

Isso me fez pensar que os sentimentos da minha amiga “desencarnada” em vida são, na verdade, os mesmos de muitos de nós em pleno século XXI: uma espécie de não pertencimento e a sensação de constante vulnerabilidade. Ou ainda: angústia, por acreditar que é preciso pertencer a algum grupo ou lugar a qualquer preço, sob pena de flutuar no limbo. Quem já se sentiu ou tem se sentido assim ultimamente?

Em uma entrevista recente, o filósofo Zygmunt Bauman afirmou que hoje em dia trocamos de identidade várias vezes ao longo de uma existência e que isso pode ser extremamente angustiante. Antigamente, vivia-se “uma vida só”: nascia-se, fazia-se uma única escolha profissional, trocava-se talvez de esposa/marido uma vez no máximo (ou não), envelhecia-se com tranquilidade e calma, o tempo passava de uma forma que talvez pareça até monótona, mas o fato é que havia a possibilidade e a perspectiva de se viver uma vida só. Uma vida inteira sem grandes transformações ou mudanças de rumo. Sem que isso causasse, necessariamente, frustração ou angústia.

O mundo de hoje nos mostra, o tempo todo, que há muitas vidas a serem vividas. A vida virtual, claro, é uma delas. E há várias vidas virtuais possíveis, dependendo das rede sociais em que se está. Em algumas você brinca de intelectual, em outras é mais pessoal e sedutor, em outras inventa um personagem inteiramente novo ou pode viver, por exemplo, taras inconfessáveis. Se por um lado é divertido viver tantas personas, por outro a sensação de não pertencer a lugar algum de verdade pode gerar uma eterna insatisfação. 

Na vida virtual, mais do que na real, há uma sensação de que é preciso fazer, o tempo todo, algo novo. Algo que surpreenda, mostre o quanto se é interessante, bacana, alguém que vale a pena “seguir” ou ser amiga. Que foto incrivelmente bela ou sexy vou inserir na minha linha do tempo? Que frase vou “postar” hoje nas redes sociais para angariar elogios e comentários? Que foto ou piada fará as pessoas me acharem incrivelmente engraçado? Que estilo de vida vou defender?

Na vida real, mais angústias. Dependendo da sua profissão, se você não tem um smartphone, não responde seus e-mails rapidamente, não tem uma conta no Facebook, nunca leu um livro digital ou não tem intimidade com um iPad, torna-se uma alma penada e sofre olhares de pena de seus pares. O estereótipo do “velhinho antenado”, que mexe com tecnologia com o pé nas costas sim, ele existe, me garantem -, é amplamente explorado pela mídia e deixa um monte de gente… no buraco negro do não pertencimento. E que profissão vou escolher depois dos 40, já que virou tendência tornar-se escritor, músico, intelectual, consutor, terapeuta ou iogue na segunda metade da existência, depois de comprovado que todas as escolhas foram equivocadas?

E, repare, as mudanças de profissão podem acontecer várias vezes ao longo da vida pós-moderna. Apurando uma matéria sobre aprimoramento profissional, ouvi de diretores de Recursos Humanos de grandes empresas que os “jovens de hoje” têm imensa facilidade de mudar de profissão repentinamente, se algo lhes parecer mais atraente. Mantê-los nas empresas é um desafio imenso e o que seduz não é só dinheiro ou um bom “plano de carreira”: é uma espécie de estado contínuo de excitação e empolgação no ambiente de trabalho. Sem tesão não há solução, já dizia Roberto Freire. Nunca isso foi mais verdadeiro. Isso deve gerar um bocado de ansiedade. Chego a ficar cansada de pensar nisso.

E quando é o momento certo de separar do parceiro para viver uma outra história afetiva, que tenha mais a ver com a pessoa em que me transformei? Com quem viverei novos sonhos ou quem sabe velhos sonhos de juventude que ficaram escondidos e empoeirados e finalmente me permito viver? Posso ter outro filho perto dos 60 anos ou adotar um bebê…E, porque não, passar uns meses na Índia ou fazer o caminho de Santiago para rever toda a minha existência. Sabe-se lá que outras tantas opções isso trará ao meu destino? A impermanência virou um estado natural. A grama do(s) vizinho(s) – que nunca foram tantos – jamais esteve mais verde do que agora. 

Impossível pensar em continuar simplesmente fazendo a mesma coisa, todos os dias, e ser feliz com isso. Isso nos torna monótonos, sem perspectivas, sem graça, sem brilho. É preciso se reinventar, inovar, incorporar o bordão pós-moderno.

É claro que ter tantas opções diante de nós e mudar pode ser saudável, divertido e maravilhoso. Esta não é uma apologia à não mudança! Meu ponto é que a cobrança social pela mudança pode angustiar e frustrar, quando não nos sentimos verdadeiramente conectados às nossas escolhas. Quando não mudamos porque realmente queremos. Não mudar é também uma escolha e não deve ser um fator condenatório ou sepultador. Não é fácil, no mundo de hoje, conquistar o direito de não mudar o tempo todo e ser feliz com isso.

Demanda muita honestidade consigo mesmo escolher a própria vida – independente do que corre ao redor – e sentir-se confortável nela, como numa cadeira mole do Sergio Rodrigues.

Ultimamente, eu realmente acredito que no lugar de pensar tanto e olhar excessivamente em volta, o que necessitamos é simplesmente mergulhar no doce e autêntico sabor das nossas escolhas, olhando para dentro, e não para fora.

Pensando menos no futuro e mais no presente – um clichê que nos libera, como descreve Lispector numa crônica, da sensação de estar no deserto, sôfrego, bebendo os últimos goles de água de um cantil. Porque o mundo de hoje pode, mesmo, nos dar esta sensação.

 

GENEROSIDADE, MUITO PRAZER - Cláudia Penteado

Generosidade é um conceito nem sempre muito claro e incrivelmente complexo na hora de ser posto em prática.

 Ela começa por aceitar a minha própria história, repleta de fraquezas e falhas – e encontrar nela as coisas boas, que me trouxeram até aqui com dignidade. 

Aceitar a própria história, já li numa crônica da Eliane Brum, é um desafio desmedido e libertador. Nos faz aceitar a idade que chega, e ver brilho nela e no futuro. Tem me feito encontrar a riqueza de ser o fruto – bom – de tudo o que vivi e das escolhas que fiz, inclusive as “erradas”. Outro tipo de generosidade é estar verdadeiramente aberto a cuidar do(s) outro(s). 

Eu me achava a pessoa mais generosa do mundo até que decidi construir uma nova família.

Estar disponível emocionalmente para isso não é simples. Encontro, diariamente, novas oportunidades de expandir o espaço no meu coração para “cuidar” desse novo núcleo familiar que escolhi. 

Eu – que, imagine só, já fui casada por 15 anos – achava que sabia tudo sobre casamento e cuidar de uma família. Depois de algumas cabeçadas, devo dizer que há um imenso encanto nisso: em não saber, em ficar meio perdido e ter de buscar novas ferramentas internas para construir uma nova história e cuidar de um novo amor. 

E, neste meio tempo, porque não, me tornar uma pessoa um pouco melhor.

Este aprendizado é o grande presente que me dei nessa minha nova fase de vida. Uma fase cercada de verde por todos os lados, tucanos, saíras, gambás, luar por entre as folhagens, um jardim cheio de flores incrivelmente belas, cheiro de lavanda, vazamentos e boilers que pifam, paredes que dão bolhas, cheiro de citronela pra espantar (muitos) mosquitos, e a permanente brisa fresca da novidade e do amor verdadeiro. 

Dentro da minha carteira, guardo comigo uma frase que ganhei de uma amiga e que diz: escolhas são compromissos de amor com o caminho. É isso.









A INSUSTENTÁVEL(?) DIFERENÇA DO SER - Cláudia Penteado

" As melhores coisas e as melhores pessoas 
nascem da diferença" .
Robert Frost

Outro dia reencontrei uma amiga que não via faz muito tempo. Não foi um reencontro comum. Foi o reencontro com alguém que eu tinha a sensação de ter perdido de vista para sempre. Bruna era uma dessas pessoas cheias de personalidade. Jornalista, meio hippie, cabelão cacheado e sempre despenteado de um jeito charmoso,  quase nada de maquiagem. 

Linda, divertida, fazia ioga e corria na lagoa. Um belo dia, conheceu Rodrigo, um publicitário gente boa, daqueles que andam em carros último tipo, usam ternos Armani e relógios Bulgari. Enquanto namoravam, eu cada vez menos cruzava com ela pelas ruas da Gávea, alegremente voltando da ioga em sua bike, indo tomar um chope despretensioso no baixo ou alugando algum filme de arte na locadora.

Um par de anos depois, mudou-se com Rodrigo para o Leblon. Casaram na Itália, eu soube por um amigo em comum. Bruna foi se transformando aos poucos:  alisou os cabelos, adotou a tal da progressiva – fenômeno contemporâneo como o botox e o silicone. Seu visual mudou para algo entre o chique e o sensual.  Passou a dirigir um desses utilitários. Preto e blindado. A bike, ela esqueceu no antigo prédio e volta e meia eu a avistava sendo conduzida pelo velho porteiro, seu Abelardo. Abandonou a ioga e matriculou-se numa academia de ginástica. Ganhou músculos, ficou sarada, passou a usar salto, roupas justas. Fazia um estilo gostosona, sempre bem maquiada e os cabelos impecavelmente arrumados.

Nunca me pareceu esfuziantemente feliz, nas poucas vezes que a encontrei para um café rápido pelo Leblon ou no bate-papo do computador. Comentava que a vida andava corrida, que ela pensava em ter um filho mas que o marido era muito ocupado e que ela andava viajando muito acompanhando-o em compromissos profissionais. Para mim, é como se Bruna realmente não fosse mais a mesma pessoa.

Por isso, reencontrá-la outro dia foi tão significativo. Avistei, como que num passe de mágica, a velha amiga de cabelos cacheados, colchão de ioga nas costas, passeando pelo bairro onde tantas vezes nos esbarramos. O olhar tinha o brilho dos velhos tempos, e tomei um baita susto, parecia ter entrado numa máquina do tempo. “Me separei”, anunciou. “Estou  namorando o Sergio, aquele cara que você me apresentou uma vez no Baixo Gávea, lembra? Ele agora dá aula de ioga na academia onde pratico”, disse. Lembrei do Sergio e revivi por um instante aquela noite no Baixo Gávea, uns 10 anos antes. 

Bruna estava começando a namorar Rodrigo, encantada com a novidade, olhando para o celular de cinco em cinco minutos, e mal deu atenção ao Sergio, meu colega de grandes olhos verdes do grupo de estudo de filosofia. 

Quem acabou flertando com ele fui eu, e mantivemos um romance por alguns meses, até que ele foi passar um tempo na Índia e acabamos nos desencontrando. Me casei, ele também…mas pelo visto separou e de alguma forma foi parar nos braços da minha velha amiga.


Foi bom reconhecê-la e de alguma forma perceber que ela havia tomado coragem para fazer as pazes com quem realmente é. Há relações que nos levam para lugares estranhos e nos fazem procurar um jeito de “encaixar” naquilo que consideramos ideal para as nossas vidas ou para quem nos rodeia. Bruna queria se encaixar no jeito que ela provavelmente acreditava ser o ideal de seu homem. Talvez não lhe passasse pela cabeça que Rodrigo  tenha sido atraído pela diferença. Também ele tentou “agradar” a mulher e matriculou-se na ioga, mas não conseguiu manter o ritmo das aulas, em sua vida atribulada. Quase arrumou uma hérnia de disco. Era mais fácil ir para a academia no fim do dia e dar uma corrida na esteira. E a vida foi passando. 

A medida que Bruna se transformava, aos poucos, na boneca inflável que acreditava ser o ideal de Bruno, ele perdia de vista, meio desconsertado, o sorriso maroto e a alegria de viver da pessoa com quem se casara. Rodrigo foi sim capaz de amar a diferença na mulher, mas acabou entrando no frustrante jogo da simbiose tão comum em casamentos, em que invariavelmente um dos dois se anula mais que o outro, para evitar conflitos e embates. 

Perto do fim, ambos reconheceram que, ainda que houvesse amor (mais nostálgico que real), a vida a dois tornara-se insustentavelmente pesada e nenhum dos dois estava realmente feliz, com os pés bem fincados no chão e conscientes de quem realmente eram, em suas individualidades.

Merece atenção especial em nossas vidas o tema “diferença” e o tempo que perdemos tentando encontrar a identificação, o familiar, o que temos em comum com pessoas, coisas ou situações. Boa parte das nossas frustrações – senão todas – vêm justamente do desamparo que sentimos diante do encontro com o que nos causa estranhamento e por vezes nos leva à insegurança, à menos-valia, a sensação de não pertencimento, à rejeição. 

Afinal, deve haver algo de errado conosco, ao sermos tão diferentes daquilo ou daquele que amamos e/ou admiramos. A diferença no outro ou em algo nos repele mais do que atrai, embora o ditado popular diga que “opostos se atraem”. Não é verdade.

Um estudo realizado pela Universidade de Iowa, nos EUA, revelou que similaridades na personalidade são mais importantes do que concordância em religião, atitudes e valores, quando se trata de um casamento feliz (seja lá o que for isso). No entanto, 85.7% das pessoas ouvidas neste mesmo estudo afirmaram buscar um parceiro com a personalidade diferente, até mesmo oposta.


Prática e teoria, portanto, essas sim, são opostas. E o que nos interessa – e deveria, sempre, interessar – é a prática. Esta, no “mundo real”, tem sido a busca pelo “feitos um para o outro”, pelas “almas gêmeas”.  O resultado costuma ser desastroso: as diferenças, repelidas de um lado e de outro, geram brigas  e a busca de pontos em comum revela-se inútil e infantil. Surgem então Brunas e Rodrigos, anulando seus desejos mais verdadeiros, sem coragem de admirar e assumir suas próprias diferenças e admirar as diferenças no outro.

Afinal de contas, construímos e estruturamos nosso ego a partir das identificações que fazemos ao longo da vida. Romper com isso, é também fraturar o Ego. É preciso muita coragem.  Já ia me esquecendo de contar que fim levou o publicitário de terno Armani, ex-marido da minha amiga Bruna. Desiludido com a separação, resolveu tirar um ano sabático para viajar. 

No caminho de Santiago, conheceu a baiana Mirna, meio hippie, separada, mãe de uma menina de 4 anos e funcionária de uma ONG voltada para o desenvolvimento auto-sustentável. Em pouco tempo, decidiu abandonar a carreira de publicitário e foi morar com ela na Bahia.

A DIFÍCIL ARTE DE DIZER NÃO - Cláudia Penteado

“Desde que me cansei de procurar, aprendi a encontrar; Desde que o vento começou a soprar-me na face, velejo com todos os ventos.” (Nietzsche)

A semana passou dolorosa na região da cervical, abalando minhas estruturas – emocional e física. Uma cartela de antiinflamatório depois, ainda sinto dores principalmente ao me virar na cama ou tentar as habituais torções na aula de ioga. 

Há algumas semanas, tirando uns dias de férias, estive nas mãos de uma massoterapeuta que me alertou: sua cervical necessita de cuidados. 

Demanda cuidado permanente para acabar com aquelas dores de cabeça que eu não sabia de onde vinham e evitar consequencias mais sérias no futuro – seja lá o que isso quer dizer. Tudo fruto de uma rigidez que tomou conta dessa região castigada por anos diante do computador e toda sorte de experimentações corporais – das pesadas aulas de ginástica localizada à Ashtanga. 

Mas não é só isso: a cervical carrega quase tudo. A consciência e a inconsciência, as emoções, a culpa, o medo, a raiva, a frustração, a histeria, a inércia, o excesso de esforço. Carrega tudo o que nos vai pela cabeça e todas as preocupações de uma rotina diária – e de uma vida inteira.

Percebi que a dor se acentua quando viro o pescoço para os lados, tentando realizar o simples gesto de dizer não com a cabeça. Parece simples, mas dizer sim é muito mais fácil. O travamento no pescoço dificulta o não, tão difícil no dia a dia – e na vida.

Dizer não tem sido tema frequente no meu processo de autoconhecimento. É no mínimo curioso e simbólico que exatamente enquanto discuto a capacidade – e a necessidade vital – de dizer não na hora certa, a região responsável por comandar esse simples gesto se trave completamente.

O travamento marca o momento em que decido exercitar o Não.  Porque dizer não quando se quer dizer não – ainda que seja difícil – é manter a coerência em dia com o que se sente. Basta perceber como tudo muda na vida de uma criança no momento em que ela descobre que é capaz de dizer não. Liberdade!

Você já reparou como se diz o Sim – o gesto, em si? Dizer sim é abaixar a cabeça, repetindo o ancestral gestual dos rituais religiosos…uma espécie de servidão e conformismo. 

O gestual do Sim é submissão, uma entrega representada pela postura curva de quem consente. Em que momento da nossa história isso virou consenso – o gesto de dizer sim, o de dizer não, me atiça a curiosidade.

O fato é que dizer não depende da postura altiva e de um esforço extra que, no meu caso, está dolorido. A dor física irá passar, claro, mas o desafio que permanece é ajustar a trava interna – aquela espécie de Poliana que habita secretamente cada um de nós – e que privilegia o Sim no lugar do Não.

GENTILEZA GERA GENTILEZA? - Cláudia Penteado

 
Resiliência – Habilidade que uma pessoa desenvolve para resistir, 
lidar e reagir de modo positivo em situações adversas.

Desde que me mudei para um bairro verdadeiramente silencioso, comecei a reparar muito mais na sonoplastia ao meu redor. Além de, claro, me deslumbrar com a novidade do canto de vários passarinhos, novos vizinhos muito próximos, passei a reparar  também nos sons produzidos pelas pessoas. É curioso porque quando se mora em um apartamento em uma região não tão silenciosa, os sons produzidos pelas pessoas em geral não incomodam tanto.  

Se alguém resolveu pendurar um prego meio fora de hora não chega a ser uma tragédia – afinal, que nunca na vida fez algo semelhante? Uma festa no play do prédio até altas horas é rotina imposta pelas circunstâncias – e quem tem filho pequeno e nunca promoveu um evento barulhento que atire a primeira pedra. De qualquer forma, a vida passada em elevadores e repartições tão próximas umas das outras vai se ajambrando da melhor maneira possível, e a rotina de acontecimentos nos torna um pouco anestesiados a uma certa quantidade de chateações.

Quando se passa a viver em um canto em que o principal atributo natural é o silêncio, de repente tudo se transforma. O ensaio da banda no vizinho dá para aguentar, claro, música é vida, e quem tem uma pré-adolescente em casa jamais poderá dizer “desta água não beberei”. Ainda mais uma pré-adolescente filha de um guitarrista. A vida segue deixando claros e nítidos os horários do lixeiro, os latidos dos cães da vizinhança, o vai-vém dos vizinhos que possuem portões automáticos, o mau-jeito nas manobras em dias de chuva na ladeira escorregadia, uma ou outra festinha até mais tarde, alguns passantes mais animados, sem que isso se torne um transtorno.

Faz algumas semanas, a rotina mudou. Instalou-se na vizinhança uma grande obra. Todos os dias – sem trégua, faça sol ou chuva, seja dia de semana, dia santo ou feriado, – quando o relógio se aproxima das oito horas da manhã uma legião de profissionais da área da construção civil me presenteia com uma coleção de sons totalmente novos, que vão de marretadas e serras elétricas a gargalhadas e gritos entusiasmados, além de agudos persistentes vindos de rádios de música e de telefonia.

A primeira sensação, ao acordar com a barulheira às oito da manhã num domingo chuvoso (é isso mesmo, um domingo chuvoso daqueles clássicos), é  de incredulidade. Não, isso vai durar uns 10 minutos no máximo, claro, deve ser algo pontual, um engano.

Mas, quando o barulho não pára,e piora, dando sinais de que os trabalhos seguirão dia adentro, vai tomando conta do corpo um misto dos personagens de Michael Douglas em Um dia de Fúria e Glenn Close em  Atração Fatal. A coisa piora ainda mais quando o marido segue dormindo candidamente e insinua que você está exagerando.

Passada a indignação inicial, vem a sensação de impotência, mesmo. De um segundo para outro, você abandona os pensamentos destrutivos e incorpora a resiliência, sem saber exatamente quem está certo ou errado e qual a melhor maneira de agir. Vem a turma do deixa disso e você procura, desesperadamente, a Poliana que existe dentro de você. Encontro a Poliana. Ela é fruto, invariavelmente, do cenário de desrespeito, bagunça total e falta de cortesia e educação que nos rodeia diariamente, e que nos confunde. A ponto de nos acostumamos a ser mal tratados e desrespeitados.

É hábito não reclamar do que nos incomoda – porque simplesmente ultrapassou o limite que cabe ao outro e nos invade o território. Reclamar nos transforma instantaneamente em chatos, intolerantes, malas sem alça. Melhor ficar quieta, não atrapalhar o bom (?) andamento das coisas, não criar conflitos. Mas em nome do que, exatamente? E beneficiando quem? Que gentileza é essa que esperam de mim, e que não gera gentileza em retorno?


Não gosto do lugar de “mala”, claro, mas acredito na defesa de alguns limites essenciais para que a dignidade de cada pessoa seja exercida em sua plenitude no convívio social – e pleno não significa irrestrito. 

Alguns limites de bom senso em reconhecimento à autonomia de cada um na verdade nos libertam. É nos diferenciam dos ogros. Naquele domingo chuvoso, até a noite resistiram os sons indesejáveis vindos do canteiro de obras. E eu resisti bravamente ao desconforto, pensando: calma, calma. Não se precipite. Medite. Respire. No dia seguinte – feriado de São Jorge – a trupe voltou e recomeçou a barulheira pontualmente às oito da manhã. Mas a tortura não durou muito. Uma vizinha decidiu abandonar a Poliana e chamou a polícia. 

Em pouco tempo os operários foram para casa descansar. E pude finalmente dormir até mais tarde, feliz por não ser a única “mala” da rua.

NOVE ANOS E AS COISAS SIMPLES - Cláudia Penteado

Complicar: arrevesar, dificultar, difícil, emaranhar, 
embaraçado, embaraçar, embrulhar, encrencar, enlaçar, enrascar, 
enredado, enredar, envolver, implicar e intricar.

A vida pode ser incrivelmente complicada. A convivência com a minha filha de nove anos me mostra que, realmente, sem medo do clichê, nós adultos temos a arte de complicar. E de tornar tudo incrivelmente massante e chato. Incluir o lúdico no dia a dia é algo que desaprendemos ao longo da vida. Eu simplesmente desaprendi. Volta e meia me deparo com a possibilidade de reencontrar este canal – e como funciona!

Meu marido frequentemente consegue transformar a hora de comer, por exemplo, numa grande brincadeira. E, entre jogos de adivinhação e outras brincadeiras, as garfadas vão sendo dadas e a comida some do prato da pequena sem que eu tenha que proferir qualquer ameaça. Meu lado germânico condena a prática, pois afinal de contas a vida não é uma grande brincadeira. O mundo real é cruel e desumano e temos que preparar nossos filhos para a vida com os pés bem fincados no chão!

Mas o fato inserir o lúdico no cotidiano é muito mais uma maneira mais leve de levar a vida – real, sim – do que fugir dela. É encará-la de frente com mais sabedoria. Menos chatice. Quando minha filha crescer, certamente terá impressos na mente os momentos gostosos que viveu ao redor da mesa com a família e tirará maior proveito disso do que dos dias em que teve de comer ao som da mãe ou da babá argumentando o quanto comer faz bem para a saúde, ou diante de alguma ameaça grave como a proibição iminente de usar o computador caso o prato não seja esvaziado a contento.

São atos de amor, afinal de contas, e eu me lembro bem de inúmeras vezes em que tive que comer sem vontade, para agradar a uma mãe ansiosa porque eu estava magra demais ou porque poderia ficar doente. Mas não posso negar que bom mesmo eram os cafés da manhã de Domingo, tantas vezes ao som de Mozart e quando o ato de comer mais parecia uma grande celebração da vida.

O prazer à mesa é certamente algo que desenvolvi com o tempo graças a rituais lúdicos frequentemente criados pelo meu pai, um grande apreciador da comida, capaz de transformá-la em algo memorável. O distanciamento eventual da massacrante rotina de tarefas que temos que cumprir – dentro da qual alimentar os filhos acaba entrando no hall de obrigações cotidianas – permite abrir os olhos para novas maneiras de fazer as mesmíssimas coisas. Acho que vale à pena dar-se a chance de tentar.

É PRECISO AMAR O TRABALHO PARA SER FELIZ? - Cláudia Penteado

“Dê a um homem tudo o que ele deseja, e ele, apesar disso, 
naquele mesmo momento, sentirá que esse tudo não é tudo.” (Kant)

Outro dia conversava com uma amiga sobre seu filho de vinte e poucos anos, que dizia-se perplexo com a perspectiva de vir a ser como seus pais: workaholic e estressados. Passamos a conversar, então, sobre as conquistas e frustrações em torno do objetivo de ganhar dinheiro. 

Afinal, qual é a melhor fórmula? Creio que grande parte das nossas frustrações no plano profissional vêm do fato de que nos iludimos com a ideia de que precisamos fazer algo que amamos no plano profissional. 

Há uma frase clássica que se costuma dizer: faça aquilo que você ama, e o dinheiro virá. Sinceramente, acho que essa frase leva a equívocos imensos. Passei, como todo mundo, por algumas crises profissionais: afinal, se eu não amar mais o que faço, como seguir em frente? E se eu amar cantar, significa que serei uma boa cantora? E se eu amar escrever, necessariamente serei uma escritora de sucesso?

Minha filha dança balé. Na idade em que ela está – 10 anos – já se percebe o talento para a dança. Ela e suas coleguinhas evoluem ano a ano, mas há algumas que evoluem mais que outras. E, infelizmente, as que evoluem mais não são, necessariamente, as que mais amam dançar balé.

Algumas afirmam que serão bailarinas profissionais no futuro, e seus corpinhos desengonçados se esforçam para acompanhar outras que, menos preocupadas com o futuro, têm uma leveza e delicadeza naturais e parece que nasceram para dançar. 

É claro que aquelas que amam a dança provavelmente se esforçarão mais e, por que não, poderão se tornar excelentes bailarinas no futuro.  Talvez não se tornem a primeira bailarina do Municipal, mas estarão satisfeitas com o que for possível alcançar em suas carreiras, já que amam dançar. 

Mas o meu ponto é: amar o que se faz não é garantia de sucesso. Ajuda. E para fazer algo bem não é necessário, como regra geral, ter feito aquela escolha por amor.

Em uma das minhas crises ligadas às escolhas profissionais – que fiz, como a maioria, numa época da vida em que ninguém deveria ser autorizado a fazer escolhas tão sérias -, conversei com uma amiga a respeito do seu trabalho. “Mas você ama o que você faz?”, perguntei. E ela, publicitária e autora de três livros de ficção, disse: “Claro que não, o que eu faço é para pagar minhas contas. 

O que eu amo mesmo é a literatura. Mas escrever não paga as minhas contas”. Sua tranquilidade me surpreendeu, ao não fazer qualquer tipo de associação entre o trabalho e amada literatura.

Conheço biólogos que trabalham como tradutores, historiadores que enveredaram para a publicidade, publicitários que se tornaram psicanalistas, atrizes que dão aula de ioga,  músicos que administram empresas, jornalistas donos de lojas de depilação, passadeiras que queriam ser cantoras, designers que se tornaram estilistas. 

Muitas vezes o trabalho é aquilo que se gosta de verdade, quando a formação foi uma tentativa de acertar. Outras vezes, o que se estudou era o que se gostava muito, e a atividade que se exerce foi o que as circunstâncias permitiram, ou de onde o dinheiro veio como recompensa por um trabalho bem feito.

O livro “Ame seu trabalho”, do consultor Richard Whiteley, é um guia para quem não ama o que faz, mas ensina que existem atitudes que podem reverter o ciclo e transformar seu trabalho em algo muito próximo do ideal.  

Será? “A maioria de nós encontrou o emprego que tem ou o trabalho que realiza por acaso. “, diz. Segundo o consultor, é preciso encontrar o lugar da verdadeira paixão e, de alguma forma, no lugar de querer transformar tudo, inserir a paixão naquilo que se faz, de alguma forma. Impossível certamente não é.   

Ele sugere que se tente, na medida do possível, combinar quatro fatores: o que se faz bem, quanto se pode ganhar, o que se pode aprender a o que se adora fazer. Alinhar estes quatro fatores é, no entanto, bem difícil. E não necessariemente duradouro, porque nos modificamos ao longo do tempo.

Para mim, a melhor mensagem está em procurar, no lugar de chutar o balde, agregar algo de novo ao que se faz na tentativa de transformar para melhor, sem ter que jogar tudo fora e recomeçar do zero.

Blaise Pascal – autor da célebre frase “o coração tem razões que a própria razão desconhece” – costumava defender a existência de três ordens: a do corpo, a do espírito e a da razão. Basicamente, existem assuntos que devem ser tratados dentro de seus limites de entendimento. 

De uma maneira simplista, equivale a dizer que assuntos relativos a dinheiro, devem deixar de lado sentimentos e ser tratados no plano da razão, dos números, dos contratos. 

Misturar as ordens é fazer confusão. Isso fortalece minha teoria de que perdemos muito tempo questionando se a vida foi generosa conosco ao nos contemplar com a possibilidade de exercer uma atividade profissional que amamos e ainda por cima rende muito dinheiro. E menos generosa com quem trabalha com algo que não necessariamente seria sua primeira opcão na vida.
 
É importante não perder de vista o fato de que o retorno financeiro não vem apenas para quem ama o que faz. Vem para quem trabalha duro, seriamente, e tem um comprometimento com aquilo que se propôs a fazer. Simples assim.

O dinheiro não virá para um cantor talentoso ou um vendedor de automóveis se ambos não tiverem disciplina e comprometimento. 

Amar o que se faz ajuda um bocado, claro. Mas não é tudo.  Às vezes é preciso simplesmente parar de idealizar a vida, de reclamar, e arregaçar as mangas. 

Embora recomeçar seja sempre uma opção possível, claro.

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