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A LOUCURA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE - Willian Vieira

Transtornos mentais sempre existiram, mas o tratamento como doença  é tão recente quanto a guilhotina. Saiba como a loucura já foi encarada.

Na Antiguidade grega, a loucura tinha um caráter mitológico que se misturava à normalidade. Num tempo em que a noção de passado era vaga, a escrita inexistia e os deuses decidiam tudo, o "louco" era uma espécie de ponte com o oculto. De sua boca, vinham informações quentinhas lá de cima, e não se tinha dúvida: eram eles, os deuses, que decidiam que tipo de loucura a pessoa teria. Isso até Hipócrates, o pai da medicina, estragar a festa do panteão, lá por volta do século 4 a.C.

"Se a voz dele (o doente) ficar mais intensa, comparam-no a um cavalo e então se afirma que Poseidon é o responsável", ironizava. "Um absurdo", pensava ele, que finalmente separou doença mental de deuses e mitos. Hipócrates sistematizou então a teoria dos humores. Era a bílis que afetava o comportamento e causava a loucura, fosse melancolia ou mania - ou seja, loucura calma ou agressiva. Confusão ainda maior estava em crer que o pânico era causado pelo deslocamento do cérebro, por sua vez aquecido pela bílis vinda pela corrente sanguínea.
Platão também deu seu pitaco no século 5 a.C. - e desde então, até o século 19, a filosofia foi a linha mestra para entender a loucura. Sua teoria das 3 mentes (a racional, a emotiva e a instintiva) pregava: se uma delas se desequilibrasse, surgia a desordem mental. Claro, o que para eles causava o desequilíbrio eram as glândulas, e não o cérebro. A coisa muda pouco com os romanos. Galeno (130 d.C.) incrementou a hipótese da boa e velha bílis: a amarela causaria a mania (alegre, furiosa ou homicida), e a negra, a melancolia. Assim, com poucas variações, a relação entre corpo e mente virou a base para compreender a loucura - o que seria retomado durante o Renascimento, após um longo intervalo em que Deus (dessa vez, um só) voltou com força total: a Idade Média.

Idade Média
Vade retro, Satanás
Em se tratando de loucura, estereótipos sobre a Idade Média se encaixam como uma luva bem pouco cirúrgica: nada de bílis amarela ou negra nem de cérebro deslocado, mas o Capeta em carne e osso. As referências que se cristalizaram sobre o período vêm dos textos de santo Agostinho e são Tomás de Aquino, os maiores pensadores religiosos da Idade Média. Ambos pregaram a vida perfeita, moralmente sã, tudo direitinho, segundo a Bíblia. Qualquer coisa que se fizesse de errado era pecado.
Para santo Agostinho, o que separava o homem do animal era o dom da razão. Se o homem a perdesse, logo se reduzia a um animal, a punição divina para a alma pecadora. Bastava um comportamento estranho (um transtornozinho de personalidade ou um episódio psicótico dos bravos) e o cara era imediatamente taxado como possuído pelo demônio. A loucura não era um problema psiquiátrico porque, afinal, ainda não existia a psiquiatria. A mente era um conceito filosófico, moral. E, nessa época, a moral provinha de Deus.
A depressão de nossos dias era especialmente "má", digna de entrar na lista de pecados capitais: a "acedia", um tipo de "preguiça" que distanciava a pessoa do amor e da misericórdia de Deus. Uma indolência sem fim, causada por uma quantidade tão grande de pecados que arrependimento algum serviria para absolvê-los. Afinal, a acédia comprometia a alma a ponto de não sobrarem mais forças para as penitências, muito menos para as obras de Deus.
Se a pessoa fosse endemoniada, o que fazer com o pecador? Havia as práticas inquisitoriais padrão, mas também era comum trancar os loucos em um navio e mandá-los para outra cidade, exilados. Os loucos sumiam e isso era considerado perfeitamente normal.

Séculos 17 e 18
Perda da razão
O Renascimento veio, as ditas trevas anticientíficas ficaram para trás e, conforme o Iluminismo chegava, os loucos continuaram a se dar mal - só que agora de forma mais racional. A loucura sai do mundo das forças naturais ou divinas e se torna a falta da razão. Surge a noção de alienação das faculdades mentais - memória, razão e imaginação -, dessa vez com causas internas, e não pela ação da bílis ou de demônios.
Quer dizer que tudo melhorou? Não. Com o fim da lepra, esvaziaram-se os leprosários espalhados por toda a Europa. Que ideia poderia fazer então mais sentido do que rebatizá-los de "hospitais gerais" e mandar para lá todos os que não conseguissem seguir as normas estabelecidas pela razão? Mendigos, loucos, inválidos. Todos iam para o mesmo saco, expostos ao público para mostrar o que acontecia com quem se afastasse da razão. Afinal, a medicina ainda engatinhava em relação aos males da mente, e, equanto isso, a filosofia virava escrava da razão. A lógica era simples: quem pensa chega à razão, e a razão leva à virtude. Já o "louco", desprovido de razão, cai no vício. Torna-se a falta de controle, o perigo. Para evitar o escândalo de ter um louco em casa, famílias pediam a internação de seus parentes.
Uma vez irracional, o louco era visto e tratado como um animal. A descrição de um manicômio francês pelo filósofo Michel Foucault em A História da Loucura na Idade Clássica dá conta disso. "As loucas acometidas por um acesso de raiva são acorrentadas como cães à porta de suas celas e separadas das guardiãs e dos visitantes por um corredor defendido por uma grade de ferro; através dessa grade é que lhes entregam comida; por meio de ancinhos, retira-se parte das imundícies que as cercam."

Século 19
A doença mental
O medo de ser internado chegou ao auge nas vésperas da Revolução Francesa. Bastava sua família zangar-se com você ou seu vizinho decidir aumentar sua propriedade para denunciá-lo como louco. Protestos de internos mentalmente saudáveis inconformados em viver com os insanos também pipocavam. Mas junto à Revolução Francesa veio a revolução psiquiátrica: em 1793, o médico francês Philippe Pinel transformou a loucura de uma questão de ordem social para uma questão médica. Agora, a ciência a veria como uma doença que deve ser curada.
O tratamento de Pinel se baseava em vigiar constantemente o comportamento do interno. Qualquer desvio deveria ser imediatamente comunicado - e punido. Era quase pavloviano, como educar um cachorro nos dias de hoje. Depois de um tempo, muitos pacientes de fato mudavam de comportamento.
Assim nascia uma ciência ocupada em estudar a cognição e as emoções. Na Alemanha, Wilhelm Wundt fundava o primeiro laboratório de psicologia, enquanto os americanos tomavam a frente na pesquisa da psiquiatria. Mas a próxima grande virada viria em 1886, quando Sigmund Freud pariu a psicanálise e, em 1900, quando publicou a Interpretação dos Sonhos, no qual analisa distúrbios de personalidade com base na sexualidade vivida durante a infância.
Só que tudo isso acabou virando uma bagunça: psiquiatria, psicologia e psicanálise se intercambiavam para tratar transtornos mal definidos e pouco conhecidos. E a maior vítima continuava sendo o "louco", que, se por um lado podia ser tratado, passou a ser visto sob o estigma da doença.

Século 20
Faca ou pílula?
No século 20, a ciência deu um enorme salto nos tratamentos médicos de doenças mentais. O início foi bizarro (leia ao lado): comas induzidos, lobotomia, eletrochoques. Isso melhorou um pouco na década seguinte, com o desenvolvimento de sedativos para acalmar pessoas com quadros psicóticos e estimulantes para "levantar" depressivos. Começava a era da psicofarmacologia.
Em 1950, foi sintetizado o primeiro remédio específico: a clorpromazina, que acalma o paciente psicótico sem deixá-lo grogue. Isso fez com que, em vez da mesa de cirurgia, bastasse ir para a farmácia, evitando muitas lobotomias. Em 1959, veio o antidepressivo e, um ano depois, o ansiolítico benzodiazepínico. A eficácia desses medicamentos transformou a psiquiatria - e a indústria farmacêutica.
"Com os antipsicóticos, os pacientes deixariam de passar 30 anos num manicômio para ficar só 30 dias. Ou seja, eram tratados e devolvidos à sociedade, que teve de aprender a lidar com eles de outras formas", diz Renato del Sant, psiquiatra e professor da USP.
O último grande capítulo dos medicamentos viria em 1986: a fluoxetina (Prozac), ainda hoje usada contra transtornos como depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, síndrome do pânico e bulimia. No cérebro, a substância impede a reabsorção de serotonina, neurotrasmissor associado ao bem-estar. Por ter menos efeitos colaterais que seus concorrentes, o Prozac virou sinônimo de uma geração inteira de pessoas menos "depressivas", a tal Geração Prozac, que virou até nome de filme.
Mas a psiquiatria passou também por sérias críticas. Primeiro, por se apoiar às vezes apenas em medicamentos. "Por causa da força da indústria farmacêutica, a psiquiatria passou a tratar o cérebro como se fosse um fígado e o ser humano como um grande camundongo, que só tivesse funções bioquímicas, e não um contexto social", afirma Del Sant. Outra crítica foi escancarada em 1972 num estudo de David Rosenhan, professor da Universidade de Stanford.
Nele, 8 voluntários sadios se consultaram em diferentes hospitais psiquiátricos alegando ouvir vozes - a única mentira que contaram. Mesmo assim, 7 deles foram diagnosticados com esquizofrenia e internados até 52 dias em hospitais incapazes de reconhecer os falsos pacientes. Conclusão: ainda não sabemos distinguir insanidade de sanidade.

Século 21
Neurociência e genética
Os remédios e o guia DSM revo-lucionaram o modo como transtornos mentais são tratados, mas estão longe de resolver o problema. Só nos EUA, segundo estudo publicado na revista Science em 2010, as perdas econômicas causadas por transtornos mentais passam de US$ 200 bilhões anuais - o equivalente ao PIB de Israel. A luz no fim do túnel pode estar em duas frentes de pesquisa: o estudo do genoma e o mapeamento dos circuitos neurais.
O mapeamento do cérebro tem revelado quais as áreas envolvidas em cada tipo de transtorno. Males como depressão, ansiedade extrema e transtorno obssessivo-compulsivo já foram mapeados - só não se sabe ainda como funcionam e como curá-los. Essa é a promessa para o futuro. Outras pesquisas rastreiam quais circuitos neurais se ativam num dado processo mental: com uso de raios de luz e proteínas, tais circuitos poderiam ser "ligados" e "desligados". Mas só foram testados em bichos.
Outros estudos também identificam genes que podem causar o mau funcionamento de circuitos neurais. Como cada circuito é determinado por milhares de genes, um problema em alguns genes pode trazer uma batelada de sintomas que caracterizam um transtorno.
Mas a relação entre genes e transtornos não é simples. Diferentes problemas genéticos podem acarretar os mesmos sintomas e, consequentemente, um mesmo diagnóstico. Assim, é possível que haja inúmeras causas genéticas para os mesmos transtornos. Como se vê, faltam ainda enormes passos até se encontrar uma cura por terapia genética. Mas ela seria uma revolução para a neurociência e para a psiquiatria.
Enquanto isso, o dia a dia de pacientes mentais tem melhorado. O movimento antimanicomial deu uma grande ajuda para libertar pessoas antes trancafiadas em hospícios. Grandes manicômios brasileiros, famosos por cenas horrendas de gente pelada correndo entre fezes, foram substituídos pelos Centros de Apoio Psicossocial, onde pacientes recebem tratamento, mas não residem mais. Mesmo em casos graves de esquizofrenia, eles passam a maior parte do tempo com a família. É fato que transtornos mentais ainda carregam um estigma pesado. Mas as coisas estão mudando.
Tratamento de choque
No começo, era o caos. Assim que se descobriu que as convulsões conseguiam aliviar alguns sintomas psiquiátricos, nos anos 1930, o eletrochoque tornou-se o tratamento com melhores resultados para diminuir a agressividade de pacientes. Só que os aparelhos eram primitivos, e a aplicação, quase intuitiva. Não se sabia qual corrente elétrica usar, onde aplicar, nem por quanto tempo. E não havia anestesia ou relaxantes: era aplicado a seco, muitas vezes como punição a "maus pacientes". O resultado eram pacientes com memória afetada, apáticos, "abilolados". Mas, sem remédios antipsicóticos, as clínicas psiquiátricas não tinham nenhuma técnica melhor.
Com o tempo, o eletrochoque, hoje chamado de ECT (eletroconvulsoterapia), voltou com tudo, dessa vez humanizado. Primeiro vêm a anestesia e um relaxante muscular. Assim, o paciente não se debate, o que evita as clássicas fraturas e machucados. Batimentos cardíacos, pressão e respiração são monitorados, enquanto duas placas são postas na parte frontal da cabeça do paciente, deitado na maca. Basta uma sessão rápida de 120 volts e ele entra em convulsão, processo acompanhado por eletroencefalograma. O paciente mal se mexe. Meia hora depois, se estiver bem, toma o café no hospital e volta para casa. Em geral, o tratamento é feito com 3 sessões semanais.
Não é que não haja efeito colateral. Problemas de memória podem ocorrer no curto prazo, mas somem após 6 meses. Metade dos casos melhora. O resultado químico é similar ao dos antidepressivos - os choques ajudam a regular a liberação dos neurotransmissores -, com bons resultados para tratar depressão grave quando remédios não adiantam. E, por incrível que pareça, é o tratamento mais seguro nas depressões em gestantes. Isso porque não interfere na formação do feto, como fazem os medicamentos. Idosos que não querem tomar mais remédios do que já precisam também optam por ele. E, segundo os médicos, não é preciso ter medo: não dói nem queima os miolos.

Veja as técnicas mais loucas já adotadas contra a "loucura":

1. MALARIOTERAPIA
O psiquiatra austríaco Julius Wagner-Jauregg observou que pacientes com transtornos mentais, especialmente os decorrentes da sífilis, melhoravam quando tinham febre. Então passou a injetar sangue contaminado de pacientes com malária - a febre alta decorrente faria o resto. Isso rendeu a Jauregg o Nobel de Medicina em 1927.

2. BANHOTERAPIA
O doente era imerso em uma banheira de água gelada. Depois, enrolado em lençóis molhados. Achava-se que o choque térmico aumentaria o "sentimento de corporalidade" em esquizofrênicos. Isso porque é comum o esquizofrênico achar que parte de seu corpo não lhe pertença, o que pode levar a mutilações, como arrancar os olhos.

3. COMA DE INSULINA
Foi introduzido em 1933. Injetavam-se altas doses de insulina no paciente, 6 dias por semana, por até dois anos. Isso derrubava o nível de glicose, levando ao coma. Uma hora depois, o paciente recebia uma dose de glicose. Convulsões eram comuns. Bizarro, mas isso reduzia a "hostilidade" dos pacientes.

4. CARDIAZOL
Médicos concluíram que convulsões eram benéficas. Então um psiquiatra húngaro teve em 1934 a ideia de aplicar um estimulante cardíaco que, em altas doses, levava ao ataque epiléptico. Só que, até perder a consciência, a pessoa sofria até 3 minutos de um terror indescritível. A técnica foi derrubada pelo eletrochoque, em 1938.

5. PSICOCIRURGIA
Em 1935, o português António Egas Moniz experimentou cortar as conexões do córtex pré-frontal injetando álcool por um buraco para danificar tecidos cerebrais. Pacientes ficavam totalmente apáticos - e Moniz ganhou o Nobel. A melhoria da técnica - a lobotomia - virou regra em manicômios até os anos 1970.

Corrida maluca
Como o número de transtornos previstos cresceu em 6 décadas.
Como grande parte da ciência hoje, a classificação dos transtornos mentais tem os dois pés fincados na 2a Guerra, quando o governo americano tentava tratar os soldados vindos da batalha com a cabeça bagunçada. Dos 11 milhões de homens e mulheres que serviram à época, 1 milhão foi diagnosticado com algum transtorno psiquiátrico. Com base nesses casos, o Exército concluiu em 1946 um manual que classifica 47 transtornos mentais. A Associação Americana de Psiquiatria (APA) pegou o texto, deu um tapinha e o publicou em 1952 como Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais - o DSM, sigla inglesa. Nascia o guia definitivo dos transtornos mentais.

Em quase 6 décadas, o DSM abandonou a psicanálise de Freud para adotar diagnósticos baseados em listas de sintomas. Basta o paciente se encaixar em certo número desses critérios para o psiquiatra enquadrá-lo em um transtorno correspondente. Críticos dizem que isso ignora as causas dos transtornos (a maioria continua desconhecida) e leva à medicalização de quem não é doente - para o bem da indústria farmacêutica. Ao mesmo tempo, o guia atravessou fronteiras e se tornou um padrão global. Queiram ou não os pajés, os sacerdotes taoístas, pretos velhos e exorcistas, agora depressão é depressão, e esquizofrenia é esquizofrenia. 

OUÇA AQUI: CIENTISTAS RECRIAM CANÇÃO DA GRÉCIA ANTIGA.

A música da Grécia antiga, que não era ouvida há milhares de anos, está sendo trazida de volta à vida por um músico e tutor em Artes Clássicas na Universidade de Oxford.

Armand D’Angour contou à BBC que está conseguindo realizar esta façanha a partir de letras originais de músicas da Grécia antiga compostas entre 750 e 400 a.C. e recriando sons de instrumentos usados na época.

“Imagine se daqui a 2,5 mil anos tudo que tenha sobrado dos Beatles e das óperas de Mozart e Verdi tenham sido as letras e não a música”, diz D’Angour.

“E imagina se pudéssemos reconstruir a música, redescobrindo os instrumentos que a tocaram e ouvir novamente a letra em sua composição original, como seria incrível”.

E é exatamente isso que está sendo feito, a partir de textos da Grécia antiga.

O músico disse que é fácil esquecer que as escrituras nas origens da literatura ocidental, os épicos de Homero, os poemas de amor de Sappho, as tragédias de Sófocles e Eurípedes eram todas, originalmente, músicas.

Ritmos preservados

As novas revelações sobre a música grega antiga surgiram a partir de algumas dezenas de documentos antigos registrados com uma notação musical inventada em torno do ano 450 a.C..

Apesar de esses documentos, encontrados em pedra na Grécia e em papiro no Egito, já serem conhecidos por classicistas há muito tempo – alguns foram publicados em 1581 – novas descobertas foram adicionadas nas últimas décadas.

Datados de cerca de 300 a.C. a 300 d.C., estes novos fragmentos nos oferecem uma visão mais clara da notação musical da Grécia antiga.

D’Angour diz que os ritmos, provavelmente o aspecto mais importante da música, são indicados pelo ritmo das próprias palavras.

E os instrumentos, que são conhecidos através de descrições, pinturas e achados arqueológicos, permitem estabelecer os timbres e a gama de tonalidade.

Tradições não ocidentais

D’Angour ressalta ser importante perceber que normas rítmicas e melódicas antigas são diferentes das que temos hoje.

“Devemos colocar nossos preconceitos ocidentais de lado. O melhor paralelo é com tradições populares não ocidentais, como as da Índia e do Oriente Médio.”

“Práticas instrumentais que derivam de antigas tradições gregas ainda sobrevivem em áreas da Sardenha e da Turquia, e nos dão uma ideia sobre os sons e técnicas que criaram a experiência musical nos tempos antigos”, diz o músico.

Então, como soava a música antiga da Grécia?

D’Angour conseguiu fazer a gravação de uma curta canção de quatro linhas composta por Seikilos, inscrita em uma coluna de mármore e que data de cerca de 200 d.C..



As palavras da canção podem ser traduzidas:

Enquanto viveres, brilha

E de todo não te aflijas

A vida é curta

E o tempo cobra suas dívidas

Segund D’Angour a notação musical é evidente. Ela marca uma batida rítmica regular, indicando um princípio muito importante da composição antiga.
Fonte:BBC



VOCÊ É TUDO QUE PODERIA SER? – Patrícia Saint-Clair

A vida é muito mais o que acontece dentro da gente do que o que acontece fora.

A nossa vida não é o que os outros veem, mas como nós a vemos de dentro de nós. Sempre me chamam a atenção os casos de homicídio seguido de suicídio em que pessoas que conheciam o autor dizem que nem suspeitavam do que acontecia com ele.

A dor psíquica nem sempre se vê de fora. Aliás, visto de fora, dá pra errar feio. Quantas vezes o cenário é maravilhoso, você pode estar em um lugar paradisíaco, mas visto de dentro, nada disso é sequer notado. Por isso fico vendo com certo enfado tantas frases de autoajuda tão em moda nas redes da vida, nada contra. Muitas são muito bacanas, mesmo! Mas me soam como se nossas questões, aquelas que mais nos afligem, fossem por falta de informação sobre como nos comportar ou falta de força de vontade nossa.

Será que a gente tem tanto poder assim sobre como nos comportamos? Sobre como vemos o mundo e as coisas que nos acontecem? Nosso cérebro e nossa mente parecem que têm vontade própria e não a NOSSA vontade.

Principalmente quando se tratam das questões que nos são mais difíceis. Então parece que não adianta aprender a teoria, porque quando nos vemos na situação de fato, não conseguimos aplicá-la. Você já sentiu isso? Quantas vezes o discurso é perfeito, mas a reação é outra. Por quê? Porque tudo o que nos acontece, depende do nosso olhar, da nossa lente. De como nos acostumamos a enxergar o mundo. As situações que vivemos na primeira infância, principalmente, e também ao longo da maturação do nosso sistema nervoso central, de como nosso cérebro foi se configurando, moldam esse nosso olhar. As situações boas e ruins que nos aconteceram ficam impregnadas na nossa lente. Na forma subjetiva como vemos e vivenciamos o mundo. E o temperamento com o qual a gente nasce também influencia a nossa forma de reagir ao que nos acontece, desde sempre, desde que nascemos. E o que a gente traz de gerações anteriores à nossa? Aquela cultura familiar, as crenças que nos são passadas, até de forma subliminar . Fora outras formas de transmissão transgeracional, hoje estudadas, até pelo DNA.

É uma soma de fatores que intriga até hoje a ciência, mas que, sem dúvida, nos constituem.

Não que a gente não tenha nenhum poder sobre isso, absolutamente. Mas conhecer de que somos feitos, o que nos constitui e o que nos limita, é fundamental. E a partir daí, sim, fazer as escolhas possíveis. Pensar o que você realmente quer na sua vida. O que você realmente gostaria de ser e tudo o que você poderia ser. Ou pelo menos, não andar a esmo, mas andar nessa direção. Porque enquanto estamos vivendo estamos fazendo essas duas coisas sem parar, buscando o querer e o ser. Nunca termina. E a terapia é uma das formas de resolver essa equação. Sempre repito que foi um dos melhores investimentos que fiz na vida. Por isso, recomendo.

Patrícia Saint-Clair -  Psicóloga clínica com especialização em Análise Reichiana, EMDR e Neuropsicologia.
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COMO É UMA RELAÇÃO SAUDÁVEL? – Augusto Cury

Ser individualmente inteligente não significa construir uma relação inteligente e saudável. Pessoas cultas podem construir uma relação irracional, falida emocionalmente, saturada de atritos, destituída de sensibilidade e troca. Casais saudáveis amam-se com um amor inteligente e não apenas com a emoção. Quem usa apenas o instrumento da emoção para sustentar um relacionamento corre o risco de ver os seus sentimentos a flutuar entre o deserto e os glaciares. Num momento, a pessoa vive as labaredas da paixão, noutro vive os glaciares dos atritos. Numa altura troca juras de amor, noutra troca golpes de ciúme. Hoje é dócil como um anjo, amanhã implacável como um carrasco.

A relação «desinteligente» é intensamente instável, enquanto a relação saudável, ainda que golpeada por focos de ansiedade, tem estabilidade. A relação desinteligente é saturada de tédio, enquanto a saudável tem uma aura de aventura. Na relação desinteligente, um é perito em reclamar do outro, enquanto, na relação saudável, um curva-se em agradecimento ao outro. Na relação desinteligente, os atores são individualistas, pensam apenas em si, enquanto, na saudável, os participantes são especialistas em tentar fazer o outro feliz. Na relação doente cobra--se muito e apoia-se pouco, na saudável dá-se muito e cobra-se pouco. Que tipo de casal o leitor forma: saudável ou doente, inteligente ou desinteligente?

Casais inteligentes têm uma mente madura, focam-se no essencial, na grandeza do afeto, na preferência pelo diálogo, pelo espetáculo do respeito mútuo, enquanto casais desinteligentes valorizam o trivial, discutem por tolices, dissipam a sua energia psíquica com pequenos estímulos stressantes, são rápidos a acusar-se e lentos a abraçar-se.

Casais inteligentes enriquecem o território da emoção, valorizam o que o dinheiro não pode comprar, enquanto casais desinteligentes, mesmo quando enriquecem, empobrecem. Como? Empobrecem dentro de si, pois dão uma importância excessiva àquilo que o dinheiro consegue conquistar e não a si próprios.

Casais inteligentes mapeiam e domesticam os vampiros emocionais que sugam a sua alegria, espontaneidade e romance, enquanto os casais desinteligentes escondem os fantasmas nos porões da sua mente.
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ESTUPIDIFICAÇÃO HUMANA - Isabela Spínola

Este é precisamente o momento em que realizamos que a concentração de poder tem apenas por fim a manipulação de sociedades, pela necessidade de ordem social que o ser humano necessita. Se assim não o fosse, ainda hoje seríamos um neandertal. Quem não chegou a esta fronteira de pré-loucura jamais identificará a manipulação diária de que é alvo.

Algumas das características que os aprendizes de vida possuem, são a certeza de que nunca saberão demasiado, a busca da verdade na sua essência e um acesso ilimitado aos mais diversos e coloridos mundos.

Aprender é uma vontade inata e natural, não se aprende a ter vontade de aprender, é preciso ser curioso, é preciso não se bastar, é preciso constatar, é preciso conhecer, é preciso ver as formas na sua forma original. A fome de conhecimento desemboca num cérebro em contínua expansão, para quem não bastam as verdades comunitárias e colectivas.

Nietzsche, um dos meus aprendizes preferidos, foi para muitos um insano, para outros um génio. Incapaz de lidar com a sua condição de ser emocional, enveredou pela misoginia, passando mais tarde por diversos estados de loucura, pela frustração que lhe causava o não reconhecimento público das suas obras.

Nietzsche dedicou toda a sua vida ao aprendizado, deixando hábeis e preciosos escritos, que apenas traduzem o comportamento humano e o impacto deste na sociedade. Aponta como sendo o exercício mais difícil o auto-conhecimento, não pela carga reflectiva que tal implica, mas antes pela necessidade de superar os nossos próprios limites, para que seja possível identificá-los e assim balizá-los.

As saídas da zona de conforto, são desconfortáveis efectivamente, mas sem passar por elas, nunca saberemos do que somos capazes, e não tendo este conhecimento, nunca nos conheceremos realmente.

O auto-conhecimento está aberto a todos, todavia, apenas os aprendizes lá chegarão. Não por serem melhores, apenas porque são mais curiosos, e esta viagem é sempre traçada na vida de um aprendiz. Cedo ou tarde algum caminho desembocará no auto-conhecimento. O que move os aprendizes na vida é apenas um motor: a busca da essência. Este tema interessa a alguém? Possivelmente não, nem tão pouco é sujeito a juízos de valor a inércia intelectual.

A essência da verdade apenas interessa aos aprendizes, que com o seu espírito inconformista e analítico esmiúçam a fundo qualquer tema que lhe desperte interesse. Este é o patamar onde os conceitos se confundem, e frequentemente duvidamos deles, sendo necessário um mergulho ainda mais profundo nos pântanos do conhecimento.

O homem reduzido à sua essência, é um animal controlado. Questiona-se qual a necessidade de racionalidade, porque não vivemos apenas como os animais irracionais, porque tivemos de dar este uso à nossa racionalidade, qual o objectivo da racionalidade afinal.

Este é seguramente um patamar irreversível e onde identificamos que somos sempre essência pura não formatada sem necessidade física ou mental de produtos massificados (neste ponto recomendo vivamente a leitura de José Saramago no seu "Ensaio de Cegueira").

A zona de perigo (se é que assim poderei chamar) desta constatação
reside apenas no isolamento social que tal pode provocar, podendo chegar já a um estado de pré-loucura nietzschiana. Este é precisamente o momento em que realizamos que a concentração de poder tem apenas por fim a manipulação de sociedades, pela necessidade de ordem social que o ser humano necessita.

Se assim não o fosse, ainda hoje seríamos um neandertal. Quem não chegou a esta fronteira de pré-loucura jamais identificará a manipulação diária de que é alvo.

Um dos grandes pilares que fomentou a manipulação nas sociedades ocidentais, foi sem dúvida a religião católica, que criou raízes há já vinte séculos com seus dogmas e ainda hoje perdura como a grande linha orientadora da consciência humana. Baseada no Cristianismo, surge num contexto político em que se verificava uma necessidade revanchista de fuga ao império romano. A natural defesa pelas minorias, a necessidade humana de mártires comuns, fez com que o cristianismo se propagasse exponencialmente durante os três séculos em que foram perseguidos pelos romanos.

No século IV, os romanos passam a tolerar o Cristianismo, passando a religião católica de uma seita de minorias para uma religião de massas. A decadência do próprio império romano vem a fortalecer as figuras cristãs da época, elegíveis desde logo pelas multidões, passando estas a assumir funções de destaque na sociedade civil.

Faltava dar um corpo e fundamento à igreja cristã, e é a partir deste momento que são fundados os mais profundos pilares comportamentais da sociedade ocidental. Baseada na doutrina da Trindade, e considerando-se mandatados por entidades divinas, dividem a sociedade ao meio, admitindo apenas em raras excepções, a salvação aos seus infiéis. Não existindo à data um código civil baseado em valores emocionais, o cristianismo é rapidamente absorvido como forma de gratificação emocional (boas acções garantem um lugar no paraíso), tendo até hoje perdurado na consciência humana, inibindo-a de qualquer valor divergente implicando tal a punição de consciência no indíviduo.

Actuando como super-ego na consciência humana, a religião actua sobre emoções, constituindo um padrão comportamental já racionalizado e que se transmite através das gerações.

Existe realmente esta necessidade de ordem na vida comunitária, não obstante todo o fanatismo e comércio envolto na matéria. Se a linha de valores cristãos é a mais adequada à nossa sociedade? Não sei responder. Considero ser tão válida como seria outra linha de valores qualquer, na verdade a mina de ouro foi descoberta pelos poucos que perceberam a capacidade de manipulação das massas.

Os membros alfa da sociedade rapidamente teriam de enveredar por caminhos onde pudessem comandar as suas alcateias, a religião terá sido apenas uma via para atingir um fim. Nos dias de hoje, a tendência é a de baixar a fasquia ainda mais. Foram substituídos valores morais por valores líquidos, e a experiência em sabotagem social é sem dúvida superior, e na actualidade comandada por dois grandes exércitos: poder político e mediático.

O acesso total a informação não filtrada e de fraca qualidade intelectual, exponencia a estupifidicação humana, na medida em que não propicia o crescimento intelectual, despromovendo assim as capacidades e liberdades individuais. Receio que as próximas gerações, apresentem uma percentagem inferior de neurónios, pelo seu desuso em crescendo e consequente não replicação via adn.

O que acontecerá ao nosso mapa neurológico dentro de 3 séculos? Isto leva-me a pensar que inevitavelmente as sociedades auto-conduzem-se a este patamar de estupidificação ao ponto de não restar nada. Será desta forma que regressarmos à nossa essência, a tempos pré-históricos, para depois recomeçar de novo. Será esta a explicação para já termos tido civilizações mais evoluídas do que nossa?
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100 DIAS QUE MUDARAM O MUNDO - Lila Schwarcz

Para historiadora Lilia Schwarcz, pandemia marca 

o fim do século 20 e indica os limites da tecnologia.

Um milhão e quinhentas mil pessoas infectadas pelo mundo —um terço delas na última semana. Oitenta e sete mil mortos em uma velocidade desconcertante. O fim dos deslocamentos. Milhões de pessoas obrigadas a readequar suas rotinas ao limite de suas casas.

O mundo parou.

Em 31 de dezembro de 2019 um comunicado do governo chinês alertava a Organização Mundial da Saúde para a ocorrência de casos de uma pneumonia "de origem desconhecida" registrada no sul do país. Ainda sem nome, o novo coronavírus alcançaria 180 países ou territórios. "É incrível refletir sobre quão radicalmente o mundo mudou em tão curto período de tempo", indica o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus.

Para uma das principais historiadoras do país, no futuro, professores precisarão investir algumas aulas para explicar o que vivemos hoje —momento que, para ela, pode ser comparado à quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. "A quebra da Bolsa também parecia inimaginável", afirma Lilia Schwarcz, professora da Universidade de São Paulo e de Princeton, nos EUA. "A aula vai se chamar: O dia em que a Terra parou."

Lilia sugere ainda que a crise causada pela disseminação da covid-19 marca o fim do século 20, período pautado pela tecnologia. "Nós tivemos um grande desenvolvimento tecnológico, mas agora a pandemia mostra esses limites", diz.

A seguir, trechos da entrevista em que a historiadora compara o coronavírus à gripe espanhola, de 1918, diz que o negacionismo em relação a doenças sempre existiu e afirma que grandes crises sanitárias construíram heróis nacionais, como Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, e reforçaram a fé na ciência.

Ao longo do texto, as imagens de street art e de pessoas usando máscaras mostram o nosso novo normal.

Completaram-se 100 dias desde que o primeiro caso de coronavírus, na China, foi notificado à Organização Mundial de Saúde. Podemos considerar que esses 100 dias mudaram o mundo?

É impressionante como um uma coisinha tão pequena, minúscula, invisível, tenha capacidade de paralisar o planeta. É uma experiência impressionante de assistir. Eu estava dando aula em Princeton [universidade nos EUA], e foi muito impressionante ver como as instituições foram fechando. É uma coisa que só se conhecia do passado, ou de distopias, era mais uma fantasia.

Nunca se sai de um estado de anomalia da mesma maneira. Crises desse tipo fecham e abrem portas. Estamos privados da nossa rotina, sem poder ver pessoas que a gente gosta, de quem sentimos imensa falta, não podemos cumprir compromissos.

Mas também abre portas: estamos refletindo um pouco se essa rotina acelerada é de fato necessária, se todas as viagens de avião são necessárias, se todo mundo precisa sair de casa e voltar no mesmo horário. Se não podemos ser mais flexíveis, menos congestionados, com menos poluição.

Então, talvez abra [a oportunidade] para refletir sobre alguns valores como a solidariedade. Todo mundo que diz que sabe o que vai acontecer está equivocado, a humanidade é muito teimosa. Mas penso que estamos vivendo uma situação muito singular, de outra temporalidade, num tempo diferente. Isso pode romper com algumas barreiras: estamos vivendo num país de muito negacionismo. No Brasil vivemos situação paradoxal, o presidente nega a pandemia.

Mas o mundo, neste momento, é outro?

Neste exato momento em que conversamos, o mundo está mudado. Nós que éramos tão certeiros nas nossas agendas, draconianas, de repente me convidam para um evento em setembro, eu digo: "Olha, não sei se vou poder ir, se vai dar para confirmar". Essa humanização das nossas agendas, dos nossos tempos, eu penso que já mudou, sim.

Ficar em casa é reinventar sua rotina, se descobrir como uma pessoa estrangeira [à nova rotina]. Eu me conheço como uma pessoa que acorda de manhã, vai correr, vai para o trabalho, vai para o outro, chega em casa exausta. Agora, sou eu tendo que me inventar numa temporalidade diferente, que parece férias mas não é. É um movimento interior de redescoberta.

Insisto que nem todos passam por isso. [O filósofo francês] Montaigne dizia: "A humanidade é vária". Nem todos estão passando por isso da mesma maneira, depende de raça, classe, há diferenças, varia muito.

E em relação aos papéis sociais dos homens e das mulheres?

 Nós, mulheres, já temos um conhecimento distinto dos homens na noção do cuidado, na casa, acho que a mudança vai ser maior para os homens, que não estão acostumados com o dia a dia da casa, com fazer comida, arrumar. Essa ideia de cuidado foi eminentemente uma função feminina.

E estou muito interessada em ver como os homens vão lidar com essa ideia de ficar em casa e ter que cuidar também. É uma experiência muito única que vivemos.

Pandemia marca o fim do século 20

Há discussões que dizem que o século 20 carecia de um "marco" para seu fim e que as primeiras décadas do século 21 ainda estavam lidando com a herança do século passado.

 A senhora concorda? Essa pandemia pode funcionar como esse divisor?

Sim. O historiador britânico Eric Hobsbawn disse que o longo século 19 só terminou depois das Primeira Guerra Mundial [1914-1918]. Nós usamos o marcador de tempo: virou o século, tudo mudou. Mas não funciona assim, a experiência humana é que constrói o tempo. Ele tem razão, o longo século 19 terminou com a Primeira Guerra, com mortes, com a experiência do luto, mas também o que significou sobre a capacidade destrutiva.

Acho que essa nossa pandemia marca o final do século 20, que foi o século da tecnologia. Nós tivemos um grande desenvolvimento tecnológico, mas agora a pandemia mostra esses limites

Mostra que não dá conta de conter uma pandemia como essa, nem de manter a sua rotina numa situação como essa. A grande palavra do final do século 19 era progresso.

Euclides da Cunha dizia: "Estamos condenados ao progresso". Era quase natural, culminava naquela sociedade que gostava de se chamar de civilização.

O que a Primeira Guerra mostrou? Que [o mundo] não era tão civilizado quando se imaginava. Pessoas se guerreavam frente a frente. E isso mostrou naquele momento o limite da noção de civilização e de evolução, que era talvez o grande mito do final do século 19 e começo do 20. E nós estamos movendo limites. Investimos tanto na tecnologia, mas não em sistemas de saúde e de prevenção que pudessem conter esse grande inimigo invisível.

A senhora já assinalou que a gripe espanhola matou muito mais do que as duas Grandes Guerras juntas e que, assim como vivemos hoje no Brasil, houve muito negacionismo e lentidão na tomada de decisões. Não aprendemos essa lição? 

Por que é difícil não repetir os erros?

A doença, seja ela qual for, produz uma sensação de medo e insegurança. Diante desse tipo de crise, sanitária, a nossa primeira reação é dizer: "Não, aqui não, aqui não vai entrar". Antes de virar pandemia, as mortes são distantes, esse discurso do "aqui não", é muito claro, é natural, com todas as aspas que se pode colocar, porque o estado que queremos é de saúde. Mas nós também somos uma sociedade que esquece o nosso próprio corpo, ele serve para botar uma roupa, pentear o cabelo, é como se ele não existisse.


É demorado assumir, o negacionismo existiu sempre. No começo do século, em 1903, a expectativa de vida era de 33 anos. O Brasil era chamado de grande hospital e tinha todo tipo de doença: lepra, sífilis, tuberculose, peste bubônica, febre amarela. Quando entra [o presidente] Rodrigues Alves e indica um médico sanitarista para combater a febre amarela, a peste bubônica e a varíola, eles começam matando ratos e mosquitos e depois passam a vacinar contra a varíola.

Mas na época a população não entendeu, não foi informada e reagiu. O mesmo presidente que indicou Osvaldo Cruz é o que vai estar no poder no contexto da gripe espanhola. Osvaldo Cruz já tinha morrido, então indica o herdeiro dele, Carlos Chagas. [Com a gripe espanhola] As autoridades brasileiras já sabiam o que estava acontecendo, mesmo assim não tomaram atitude. A gripe entrou a bordo de navios que atracaram no Brasil e aí explodiu. Mas a atitude sempre foi essa: "Aqui não, é um país de clima quente, não é de pessoas idosas".

Como pode falar em ter menos risco no Brasil porque a população é mais jovem, se é muito mais desigual que países europeus que já estão sofrendo? O negacionismo cria o bode expiatório, é recorrente.


Mas por que não aprendemos com os erros do passado?

Porque o negacionismo nega a história também. É dizer: "Em 1918 não tínhamos as condições que temos agora, não tínhamos a tecnologia". Então também se pode usar a história de maneira negacionista, negando o passado e dizendo que isso aconteceu naquela época mas não vai acontecer agora.

Quando se fala em guerra, o que acontece? Por que todos os países têm seu exército e tem reserva? Porque, na hipótese de ter uma guerra, temos que ter um exército, tem toda uma população de reserva na hipótese de ter guerra.

Se o estado brasileiro levasse a sério a metáfora bélica, o que já deveria ter sido feito? Uma estrutura para atender guerras de saúde, e isso não é só no Brasil, mas os estados não fazem, não existe um sistema para prevenir as pandemias.

A doença só existe quando as pessoas concordam que ela existe, é preciso ensinar para população. Se não tem esse comando, as pessoas não constroem a doença e continuam a negá-la

As reações contra a gripe espanhola foram muito semelhantes às de agora: poucas pessoas andavam nas ruas, quem andava estava de máscara, igrejas fechadas, teatros lavados com detergente. A humanidade ainda não inventou outra maneira de lidar com a pandemia a não ser esperar pelo remédio ou pela vacina. A Realidade será marcada por nova posição das mulheres.

Nos acostumamos com o discurso de que os idosos vão morrer quase que inevitavelmente caso sejam infectados. O que isso mostra sobre a maneira como lidamos com as pessoas mais velhas?

Mostra que somos uma sociedade que preza a juventude e faz o que com a história e com os idosos? Transforma tudo em velharia. Eu particularmente não acho que juventude seja qualidade. É uma forma de estar no mundo. Você pode ser jovem na terceira idade, ou um velho jovem. Essa nossa construção da juventude faz muito mal.

E a pergunta que cada um de nós tem que se fazer: alguém tem direito de dizer quem pode morrer ou não? Se cuidarmos melhor das populações vulneráveis, e aí se incluem os idosos, estaremos cuidando melhor de nós mesmos, não só na questão simbólica, também na questão prática.

O que é não lidar com a velhice? É uma forma que nós temos de não lidar com a morte, não sabemos falar do luto. Não vemos o presidente falar uma palavra de solidariedade às famílias das pessoas que morreram, é como se não quisesse falar da morte.

Estamos esticando a nossa linha do tempo, as pessoas não podem envelhecer, e ao mesmo tempo estamos acabando com nossa capacidade subjetiva. Velhice é vista só como momento de decrepitude. Não são valores que são estimados pela população e no nosso século.

Tem a ver com tecnologia também: velho é aquele que não sabe lidar com ela. Portanto, o isole. E ele que aguarde a morte.


Remédios milagrosos também fazem parte da história das pandemias?

Todos nós sempre esperamos por um milagre. Nossa prepotência é um pouco esta: achamos que somos uma sociedade muito racional, que se pauta pela tecnologia, mas todos nós esperamos por um milagre sempre.

Todo mundo quer ouvir o que o presidente fala: "Tenho um remédio que vai acabar com isso tudo". Que pensamento mágico é esse? A crise vai mudar o mundo? Depende do quanto as pessoas saírem do pensamento mágico, refletirem mais sobre seus castelos de verdades.

A pandemia traz alguma mudança em relação à história das mulheres?

A questão das mulheres é também questão de gênero e classe social. Mulheres de classes média e alta têm muitos recursos e podem lidar mais livremente com trabalho. O que é muito diferente no caso de mulheres pobres, negras, que vivenciam ainda mais essa situação. Há muitas enfermeiras negras e pardas. A posição da enfermeira é de cuidado também, com os pacientes, até com os médicos, ela desempenha esse papel que tem no interior da sua casa no sistema de saúde.

E essas mulheres são vulneráveis porque muitas delas estão nas lidas dos hospitais, sem proteção necessária, e porque estão nas lidas das suas casas.

Os séculos 20 e 21 são da revolução feminista, como já vai aparecendo. As mulheres não vão voltar atrás. Teremos uma realidade marcada por uma nova posição das mulheres

Eu desejo que as pessoas usem esse momento para repensar suas verdades, e dentre as muitas verdades [que precisam ser repensadas, está essa questão de gênero muitas vezes invisível: mulheres ocupam as posições de cuidado sem ser vista.

2020 - O ano em que a Terra parou

Como um professor de história explicará a pandemia de 2020 daqui a 100 anos?

Vai explicar como o crash da Bolsa de Nova York é explicado hoje. Essa pandemia vai merecer algumas aulas. A quebra da Bolsa também parecia inimaginável, e estamos vivendo situações que são anomalias nesse sentido, porque são inimagináveis.

O professor de história terá que lidar com o fato de que a pandemia poderá marcar o final de um século e começo de outro, como também conseguiu parar o mundo em tal atividade e com tal rotatividade, e com tanta velocidade. Nós aceleramos muito, e agora tivemos que parar.

O título da aula será: "O dia em que a Terra parou"

A ameaça da pandemia também deu mais voz a quem tenta chamar a atenção para as condições de moradia e saúde precárias de uma parte significativa dos brasileiros. A crise é também uma oportunidade para uma mudança social?

O Brasil consistentemente vai ganhando posições de proeminência de desigualdade social, há classes sociais muito distintas no alcance das benesses da tão proclamada civilização. O Brasil é o 6º país mais desigual do mundo. Tendemos também a negar a desigualdade. Não acho que será pior com classes baixas do que será com idosos, são grupos muito vulneráveis [ao risco de agravamento].

Na gripe espanhola, os grupos mais afetados eram as populações pobres, dos subúrbios. As vítimas tinham entre 20 a 40 anos, mas muitos mais morreram em nome da civilização, porque a pobreza foi expulsa [do centro]. E as epidemias são impiedosas. Quando dizem "Fique em casa, mantenha o isolamento", tem que refletir sobre as condições que moram essas populações.

Em um Brasil tão múltiplo, com condições sociais tão diferentes, os mais pobres serão as populações mais afetadas. O Brasil também é o terceiro país em população carcerária. Me tira o sono o que vai acontecer se a pandemia entrar nas prisões. Se é que já não chegou e nós não sabemos. Se isso acontecer, quando chegar nos mais pobres, vamos ter que enfrentar como é perversa a correlação de pandemia e desigualdade social.

 

No Brasil, que tem uma saúde dividida entre privada e pública, as pessoas de mais renda nem pensam em usar a saúde pública. A doença faz isso, vai nivelar, porque atinge as várias classes sociais.

Já podemos vislumbrar alguma aprendizagem com a crise atual?

Eu penso que sim, vários países já estão começando a pensar no exército de reserva, como vamos construir não só uma estrutura para reagir à pandemia mas que também se antecipe.

O problema é que nós vivemos um governo no Brasil que não acredita na ciência. Vamos ver se aprendemos de uma vez, que a gente pense no que a ciência produz. Em horas como agora fica mais claro: a saída virá da ciência, com a vacina ou remédio que venha controlar a pandemia.

Não estranharia se tivermos os próximos presidentes médicos, o que estamos aprendendo nos vários países é a importância do Ministério da Saúde, e de termos de fato especialistas nos ministérios, contar não apenas com um político, mas com um político especialista.

Que grande mudança política já é possível dizer que a pandemia trouxe ao Brasil?

Ela está acontecendo. O presidente foi destituído pelo Ministro da Saúde [quando o Bolsonaro insinuou que [o ministro da Saúde, Luiz Henrique] Mandetta seria demitido mas recuou após pressão]. Você já está verificando um crescimento dessas figuras, como aconteceu na época da Revolta da Vacina [1904], o grande herói daquele momento era Oswaldo Cruz, e na gripe espanhola, Carlos Chagas virou grande herói nacional.

Espero que essas pessoas, se chegarem a esses lugares, não usem a posição para garantir mais poder, torço muito para que usem de forma generosa essa posição.

A política é como cachaça, quem tomou não abre mais mão. É o caso de não baixar a vigilância cidadã em relação a políticos médicos. Mandetta, que está ocupando bem seu cargo, foi profundamente ideológico, com a carreira vinculada a seguros médicos privados, e, por ideologia, acabou com o Mais Médicos.

As pessoas olhavam para nós, acadêmicos, e diziam: "Vocês são parasitas". Espero que as pessoas reflitam e entendam que o mundo da produção tem temporalidades diferentes.

Uma coisa é o tempo da indústria, da tecnologia, que é questão de segundos. Outra é o tempo do cientista, que usa da temporalidade mais alargada para descobrir novas saídas. As pessoas vão começar a entender, como na época da gripe espanhola, porque Carlos Chagas se tornou mais popular do que cantor e jogador de futebol — as charges falavam isso.

A ciência, que era o bandido, é hoje a grande a utopia.

Quem é a fonte?

Antropóloga e historiadora, Lila Schwarcz é professora titular na Universidade de São Paulo e professora visitante na Universidade de Princeton, nos EUA. É autora de uma série de livros, entre eles: "Sobre o autoritarismo brasileiro"; "Espetáculo das raças" e "Brasil: Uma biografia". É editora da Companhia das Letras, colunista do jornal Nexo e curadora adjunta para histórias do Masp.

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