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O MOÇO DE BENFICA - Cora Rónai

Os melhores luthiers, vindos das melhores escolas europeias, não consertavam uma flauta como ele. Graças a isso, muitas flautas antigas, já aposentadas, voltaram a cantar pelo Rio

Era uma vez um moço que morava no subúrbio. Chamava-se Carlos Cesar e, na garagem de casa, montou uma pequena oficina onde consertava flautas. No começo atendia aos músicos das bandas militares que moravam na vizinhança mas, aos poucos, sua fama foi se espalhando pela cidade — e, logo, todos os flautistas do Rio de Janeiro passaram a bater ponto em Benfica. Mais um tempo, e flautistas de outros estados, atraídos pela fama do luthier, também passaram a enviar seus instrumentos para ele.

O problema é que toda flauta sofre um processo natural de desgaste. O forro das sapatilhas — que são aquelas chaves que os flautistas apertam com os dedos para tampar os buracos do cilindro e formar diferentes notas — perde a elasticidade e, com isso, deixa o ar vazar. A consequência é triste: desafinação total.

Forrar uma sapatilha, porém, não é para qualquer sapateiro. Ela tem que ficar tão bem adaptada ao corpo da flauta, mas tão bem adaptada, para que a vedação seja total e ar algum consiga escapar. A arte envolve jornal (faz isso com um iPad!), feltro e baudruche, ou tripa de peixe — o mesmo material que se usava em perfumaria para lacrar os vidros de essência.

— Quem foi que chegou à conclusão de que tinha que ser assim? — perguntei à Laura, que me contou essa história. — E por que justo jornal?

— Ninguém sabe. É uma tradição antiga.

— Mas quando as flautas transversas foram inventadas os jornais ainda não existiam...

— Mas as sapatilhas também não! As transversas do século XVII tinham uma única chave, de couro. As flautas só ganharam sapatilhas no século XIX.

Por algum motivo que não pretendo descobrir nesta encarnação, há pessoas que têm um talento fora do comum para combinar jornal, feltro e tripa de peixe, e o moço de Benfica era uma dessas pessoas. Os melhores luthiers, vindos das melhores escolas europeias, não consertavam uma flauta como ele. Graças a isso, muitas flautas antigas, já aposentadas, voltaram a cantar pelo Rio. Durante uma época, por sinal, ninguém mais na cidade teve medo de comprar flauta velha, porque era certo que o Carlos Cesar daria um jeito no instrumento.

— Ele era tão bom que, quando acabava um trabalho, tirava as molas das sapatilhas, apagava a luz da garagem e acendia uma lanterninha dentro da flauta. Não escapava nem luz, quem dirá ar!

Um dia, Laura foi a Benfica levar ou trazer uma dessas flautas combalidas, e o luthier lhe pediu um favor. Precisava comprar um feltro específico, usado pela Wm. S. Haynes, uma fábrica de instrumentos americana, porque não havia nada melhor no mercado. Como não falava inglês, pediu que ela entrasse em contato com os fabricantes.

Laura voltou para casa, escreveu para a fábrica, explicou quem era o Carlos Cesar e, algumas semanas depois, recebeu um pacote pelo correio. Era um metro de feltro, que a Wm. S. Haynes mandava de presente para o luthier de Benfica. Mas, quando viu o feltro, ele ficou muito desapontado.

— Não é esse o feltro que eles usam nas flautas, não — disse, assim que botou a mão no tecido. E mostrou à Laura um pedaço do outro, como comparação.

— Só que os dois eram exatamente iguais! — conta a Laura. — A cor era a mesma, o peso, a espessura... Não havia diferença nenhuma, mas o Carlos Cesar insistiu comigo para que escrevesse de novo para a fábrica. Tentei demovê-lo da ideia, disse que estava maluco, que os dois feltros eram iguaizinhos, mas ele não quis nem saber. De modo que escrevi novamente. Agradeci a gentileza deles, disse que estava até constrangida, mas que o nosso luthier teimava em dizer que o feltro que eles usavam nas flautas era diferente do que o que lhe haviam enviado. E, pelo sim pelo não, juntei duas amostrinhas.

Três semanas depois chegou a resposta da fábrica. Os diretores estavam abismados. O feltro era realmente diferente, um grande segredo de fabricação. Só que nunca ninguém, em lugar algum, jamais havia dado por essa diferença. Eles queriam conhecer o luthier que descobrira o segredo e o convidaram a visitá-los, com todas as despesas pagas.

De modo que lá se foi o Carlos Cesar para Boston, onde lhe ofereceram um emprego. Ele estava na dúvida se aceitava, os amigos daqui insistiram, e ele chegou a passar algum tempo lá, mas as saudades do Brasil foram mais fortes. Lá fazia frio, as pessoas eram fechadas, não tinha roda de samba...

Com o dinheiro recebido, o moço comprou algumas flautas velhas que, voltando ao Brasil, pôs nos trinques. Revendeu e, com o lucro, voltou de novo aos Estados Unidos, onde comprou mais algumas flautas velhas. E assim sucessivamente, até o dia em que, já de posse de um dinheirinho, percebeu que não precisava mais comprar flautas velhas. Passou a trazer flautas novas e, com o tempo, virou um dos maiores importadores de instrumentos do país.



Vendeu a casinha no subúrbio, foi embora do Rio e deixou uma legião de flautistas órfãos que, até hoje, falam dos seus feitos e admiram as flautas que ele consertou. De lá para cá apareceram muitos outros luthiers, todos razoavelmente bons no uso do jornal, do feltro e da tripa de peixe, mas nunca mais ninguém consertou uma flauta como o moço de Benfica.

DECEPÇÃO VIRTUAL - Cora Rónai

Conhecer melhor as pessoas é uma das grandes vantagens 
e desvantagens das redes sociais

Uma das grandes vantagens das redes sociais é que, nelas, passamos a conhecer melhor as pessoas. Uma das grandes desvantagens das redes sociais é que, nelas, passamos a conhecer melhor as pessoas. Ao longo dos últimos dias, tive — como tivemos todos nós, jornalistas — uma overdose de ambas; e posso dizer, com convicção absoluta, que não estou preparada emocionalmente para conhecer melhor as pessoas.

Pegando o mote do meu amigo João Ximenes Braga, não sei de ninguém que, perto de mim, defenda a violência policial. Como ele, nunca tive um amigo, conhecido, pessoa de qualquer relação, que defendesse que bandido bom é bandido morto. Nunca ouvi essa frase enunciada em ambiente no qual eu estivesse presente, a não ser em tom de brincadeira ou reprovação. Também não tenho amigos que apoiem o Bolsonaro, o Marcos Feliciano ou a Rachel Sheherazade — de quem, aliás, eu nunca tinha ouvido falar. Meus amigos e conhecidos tendem a ser pessoas cordiais e afáveis, que fazem o bem, respeitam a lei e o próximo. De modo que, como o João, eu também achava que estava razoavelmente a salvo do convívio com pessoas de má-fé, intelectualmente desonestas ou, na melhor das hipóteses, insensíveis e sem noção. Daquilo, enfim, que o João, resumida e apropriadamente, definiu como “gente babaca”. Até que...
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Não, não aconteceu de uma vez só. Foi aos poucos. Quando as manifestações foram sequestradas pelos black blocs, em meados de 2013, passei a conhecer melhor muitas pessoas. Foi um choque. Vi gente que até então eu tinha em alta conta defendendo a violência nas ruas como forma de manifestação legítima; vi pessoas que até então me pareciam civilizadas relativizando comportamentos absolutamente inaceitáveis, como a destruição de bancas de revistas ou o saque de lojas, para não falar na sistemática destruição de equipamentos públicos. Tentei argumentar com alguns (na verdade, muitos); escrevi duas ou três vezes sobre o assunto aqui mesmo, no jornal; usei blog, Twitter e Facebook na tentativa de explicar para onde aquela violência fatalmente nos conduziria. Fui chamada de — como é que vocês adivinharam? — burguesa da Zona Sul, reacionária, elite branca. E jornalista.

É que, àquela altura, já havia começado a caça às bruxas. Com a imprensa transformada em vilã, nós, jornalistas, passamos a ser ofendidos, acuados, agredidos. Tornei a escrever, sugerindo aos descontentes mudarem de canal em vez de queimar carros de reportagem. E de novo fui surpreendida pela reação de algumas pessoas supostamente educadas, que justificavam as agressões feitas aos meus colegas porque, afinal, a cobertura das manifestações não estava bem de acordo com o que a Mídia Ninja ou os black blocs imaginavam que deveria ser.

— Mas vocês acham sinceramente que isso justifica bater em repórter e em cinegrafista?! Vocês acham que está certo expulsar jornalista de espaço público?! Vocês querem mesmo um país sem imprensa?!

Os esclarecidos davam metaforicamente de ombros. Naqueles dias em que a Mídia Ninja ainda parecia ser um projeto independente, era cool defender os black blocs que atacavam jornalistas; por outro lado, era muito pouco cool reconhecer que repórteres, cinegrafistas e fotógrafos eram trabalhadores de carne e osso, que estavam sendo hostilizados e feridos, e cujos direitos estavam sendo cerceados.

Jamais esquecerei o vídeo em que uma equipe da Band, expulsa de uma manifestação, só conseguiu chegar ao carro passando por um corredor polonês de imbecis descontrolados, que se achavam ungidos pela Verdade Revolucionária, na definição perfeita do meu colega Fernando Mollica. Nunca vi nada mais parecido com uma cena de filme sobre a ascensão do nazismo, com a diferença de que aquilo era real e estava acontecendo logo ali.
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Quando eu achava que já tinha visto de tudo, e que daquele ponto a decepção não passaria, foi anunciada a morte cerebral do cinegrafista Santiago Andrade. Acredito que estilhaços do rojão que o matou atingiram também a alma de todos nós que somos jornalistas, que nos orgulhamos da nossa profissão e que sabemos da importância da liberdade de imprensa para um país que se quer democrático. Os mais velhos, entre os quais me incluo, nos lembramos bem do que é trabalhar sob censura.

Pois não é que várias pessoas que eu imaginara serem gente de bem escolheram exatamente essa hora para abdicar da própria inteligência? Li coisas de um nível de estupidez indescritível, geralmente associadas à conjunção adversativa mau-caratista que tem sido a marca registrada do país: “Tá, o cinegrafista morreu, mas — e a violência da polícia?”.

Isso para não falar nos que acham que a morte de Santiago não foi assassinato, mas “acidente”, e que nós, jornalistas, estamos exagerando ao dar a um crime o nome que lhe cabe. Ora, nunca vi ninguém acender estopim de “acidente”, um “acontecimento repentino, fortuito e desagradável” na definição do dicionário.

Foram pessoas como os assassinos do Santiago que afastaram o povo das manifestações, ao transformar os protestos em batalhas campais; são canalhas assim, que soltam rojões no meio da multidão, que estão enfim dando aos políticos e à polícia, de mão beijada, a carta branca que tanto querem para sufocar de vez os protestos legítimos da população.

Mas quem justifica a violência como “movimento” ou “estética”, e quem tenta diminuir a importância da morte de um jornalista no exercício da profissão, também terá a sua culpa no cartório no dia em que não pudermos mais sair às ruas — rotulados, todos, de terroristas, para indizível gáudio do governo.

LEMBRANÇAS ANTIGAS, DISCUSSÕES NOVAS - Cora Rónai

Qualquer documento oficial no país é infinitamente
 mais complicado do que deveria ser

Em 1999, três rapazes americanos lançaram um serviço que foi, pelos três anos seguintes, uma das experiências mais lindas da internet. O Napster juntava, num só lugar, todos os usuários que gostavam de música. Ele servia como ponto de encontro universal; os arquivos, em MP3, continuavam nas máquinas dos usuários, que davam, uns aos outros, acesso às suas respectivas coleções. Graças a isso, descobri música do mundo inteiro, gêneros que não conhecia, cantores de que nunca tinha ouvido falar. A minha playlist se transformou numa Torre de Babel cantante, com faixas em urdu, telugu, malayalam, pashto, grego, khmer, yorubá, kechua e servo-croata. Havia até alguma coisa em inglês e francês. Em troca, ofereci muita música brasileira para os meus parceiros ao redor do mundo, muito Francisco Alves, muito Nelson Cavaquinho, muito Quinteto Armorial, e mesmo os que já tinham ouvido falar em MPB ficavam admirados, porque, na sua imaginação, os brasileiros passavam os dias na praia jogando futebol e ouvindo Bossa Nova, de preferência na voz do Sinatra.

Essa confraternização espetacular acabou três anos depois. Esse foi o tempo que a RIAA, a nefasta Recording Industry Association of America, levou para abater o Napster, num show de maldade, incompreensão e autodestruição poucas vezes igualado. Os processos movidos contra o Napster e usuários aleatoriamente pescados no sistema reuniram alguns dos melhores advogados dos Estados Unidos, e foram acompanhados, como se fossem novelas, por todos os jornalistas e observadores da área. Eu imprimia calhamaços de 200 páginas de argumentação legal que lia avidamente, roendo as unhas, angustiada com a má-fé de alguns argumentos, encantada com o bom senso de outros, maravilhada com a sabedoria de um ou outro (raro) juiz. Detalhe: apesar de inglês não ser a minha primeira língua, eu entendia absolutamente tudo o que estava em discussão, e o que eu não entendia — algumas expressões jurídicas, algumas referências à jurisprudência — encontrava imediatamente na rede.

A batalha do Napster me deu vontade de fazer Direito. A defesa brilhante de pontos de vista opostos me encantou num grau que eu jamais experimentara, porque todos os advogados eram muito bons — especialmente o time que se juntou em torno do Napster, e que entendia exatamente o que significava a falta de fronteiras nacionais oferecida pela internet e a sua importância para a cultura e a liberdade da Humanidade como um todo.

Em suma, era tudo muito bem pensado e, óbvio, muito bem escrito.

Era tudo muito, muito CLARO.

A MÁQUINA DE FAZER POBRES - Cora Rónai

Não há horizonte para quem está na miséria; 
na pobreza, há luz no fim do túnel

Imaginem um programa social que diminui o índice de internação de crianças doentes em 90%, aumenta a sua frequência escolar em 92% e praticamente dobra a renda familiar dos seus pais. Pois foi isso que três pesquisadores da Universidade de Georgetown encontraram aqui no Brasil, quando decidiram estudar os efeitos a médio e longo prazo do Saúde Criança, uma ONG carioca especializada em transformar miseráveis em pobres, na perfeita definição da sua fundadora.

Parece um jogo de palavras espirituoso, mas fala de dois universos onde o tudo e o nada seguem rumos separados. A diferença entre a miséria e a pobreza é praticamente intransponível para quem está na miséria; não há horizontes ou esperança nesse mundo. Na pobreza, contudo, já se permitem sonhos e, eventualmente, realizações. Na pobreza há luz no fim do túnel; na miséria, só trens vindos em direção contrária.

Vera Cordeiro descobriu essa fronteira quando trabalhava no Hospital da Lagoa. Crianças eram internadas, tinham alta, iam para casa — e logo estavam de volta ao hospital, em condições ainda piores, num ciclo vicioso que, quase sempre, só terminava com a morte dos pequenos pacientes. Claro: ir para casa significa voltar para as condições insalubres que os tinham feito adoecer. Significava falta de medicação, de cuidados, de comida. Ela chegou à conclusão de que era virtualmente impossível tratar das crianças sem tratar das suas famílias e do seu entorno. E foi à luta.

Trabalhando com voluntárias, correndo atrás de donativos e de parceiros, ela traçou um plano de ação e passou a atacar a miséria em várias frentes: dando remédios e alimento para as crianças, mas também reformando os seus barracos infectos, ensinando um ofício às mães e, muitas vezes, obtendo documentos para famílias inteiras que não existiam oficialmente.

Deu tão certo que hoje o Saúde Criança — que começou como Renascer, mas mudou de nome no meio do caminho para não ser confundido com a famigerada igreja — virou franquia social, e está presente em sete estados brasileiros, sendo que, em Minas Gerais, virou política de governo. A organização ganhou todos os prêmios mundiais do setor, é exemplo no mundo inteiro e chamou a atenção de Muhammad Yunus, o banqueiro bengali que ganhou o Prêmio Nobel da Paz pela concepção do conceito de microcrédito.

Dentro deste quadro de sucesso, faltava calcular, em números concretos, o efeito a longo prazo da atuação do Saúde Criança. Não é segredo para ninguém que a metodologia funciona; afinal, as voluntárias e voluntários ficam ligados às famílias que atendem, e volta e meia têm notícias delas mesmo depois que se desligam do programa. Mas haveria como medir o seu impacto?

Sim, havia. Há três anos, os pesquisadores Daniel Ortega Nieto, James Habyarimana e Jennifer Tobin, da Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos, passaram a acompanhar e comparar 127 famílias assistidas pelo SC com outras tantas que não foram beneficiadas. O resultado do seu trabalho, divulgado no mês passado, foi surpreendente. O tempo médio de internação hospitalar das crianças caiu de 62 dias por ano para nove. A renda familiar per capita passou de R$ 566 para R$ 1.087. Houve também um aumento notável na porcentagem de adultos empregados, de 54 por cento na entrada para 70 por cento até cinco anos após a participação no programa. Esse índice é atribuído aos cursos profissionalizantes promovidos pelo Saúde Criança.

A percepção de bem-estar das famílias é eloquente: ao entrar no programa, 56 por cento definiam a sua situação como ruim ou muito ruim. Passados três anos, esse índice caiu para pouco mais de 15 por cento — enquanto 51,2 por cento passaram a se achar em situação boa ou muito boa, contra os 9,6 anteriores.

Como disse uma das mães atendidas:

Quando você chega aqui você está triste, abatida, sem esperança. Aqui eles ensinam a gente a andar com a cabeça erguida.”

Pois é.

Isso também é Brasil, mas no meio de tantas notícias ruins protagonizadas por elementos torpes, nem sempre nos lembramos dos pequenos milagres que acontecem todos os dias, promovidos por brasileiros que honram o seu país.

* * *

E agora, os nossos comerciais: o Saúde Criança está participando do “Skoll Foundation social entrepreneurs challenge”, um desafio internacional para arrecadação de recursos online promovido pela Fundação Skoll, que investe em empreendedores sociais ao redor do mundo.

Entre as 57 instituições escolhidas, há apenas duas brasileiras (a outra é o CDI, o Comitê para Democratização da Informática, muito bem colocado graças à doação de um trabalho do Vik Muniz). O Saúde Criança está em sétimo lugar, e precisa melhorar a posição para garantir uma parte no prêmio de 250 mil dólares que será repartido entre as ONGs que mais arrecadarem.

O desafio termina no próximo dia 22 de novembro. Até lá, é só ir ao site, que fica em crowdrise.com/SaudeCrianca, e fazer a sua doação. Doe o valor de uma manicure, por exemplo, ou de um jantar: não vai fazer falta a você, e vai ajudar muito a uma causa que é nobre e digna de apoio.

CORA RÓNAI - Tempo, memória, cortesia: vitímas da informação?

Cora Rónai -23 de julho de 2009

TEMPO, MEMÓRIA, CORTESIA: VÍTIMAS DA INFORMAÇÃO?


 *Obs: Prestem atenção na data em que foi escrito. Hoje, está muito pior...


– Estou impressionada com as pessoas, — disse a amiga que mora parte do tempo no Rio, outra em Nova York e o que sobra pelo resto do mundo. — Aqui no Brasil ninguém responde mais a email, a convite formal, a nada! Não sei se é falta de educação, falta de tempo ou se as coisas agora são assim mesmo…


Se eu não tivesse ligado exatamente para responder a um convite, poderia ter pensado que estava diante de uma indireta: é que a carapuça parecia feita sob medida. Ainda que saiba que não responder aos amigos (e não agradecer aos livros que enviam) é imperdoável, ainda que comece praticamente todos os dias com a consciência culpada por causa dos emails que deixei de responder na véspera e já agoniada com os que não responderei ao longo das próximas horas, o fato é que, por mais que tente, não encontro tempo ou concentração para me manter em dia com o que a civilidade exige.
Este é um tema recorrente nas minhas colunas da “Revista Digital”, até porque atribuo boa parte da culpa dessa desatenção ao mundo hi-tech e à vida-ponto-com em que ando mergulhada há tantos anos. Cada carta manuscrita se transformou em centenas de emails, cada fonte de informação multiplicou-se ao infinito e está a um clique de distância. Resultado: de pessoa cortês que enviava flores em datas significativas e cartões bonitinhos escritos com letra até legível, virei um bípede sem dúvida bem informado, mas sempre em falta com suas obrigações elementares.
Há uns tempos, em desespero de causa, escrevi isso no Facebook (e na Revista): “Cora Rónai está com o trabalho todo atrasado!”. Era só parcialmente verdade. Para variar, tudo estava atrasado na minha vida.
“A sobrecarga de informação acertou o passo comigo, me ultrapassou e periga me jogar fora da estrada,” disse então. “Como todo mundo, eu também precisaria de um dia de 48 horas para ficar minimamente em dia com o que me cerca. Recebo e compro mais livros do que consigo ler, tenho mais DVDs do que posso assistir pelos próximos dez anos, CDs e revistas se amontoam ao meu redor, há mensagens por responder na secretária eletrônica, no celular e na mailbox.”
De lá para cá, nada melhorou; pelo contrário. Tudo está ao nosso alcance ao mesmo tempo, um link puxa outro, os torpedos e o Twitter piam insistentemente no celular e no notebook. Olho para os gatos enroscados no tapete e invejo sua vidinha singela. A quantidade de informação que um gato administra está perfeitamente de acordo com o seu tempo físico e com a capacidade do seu cérebro: onde ficam os potes de água e ração, quem são os bípedes e quadrúpedes com quem convive, o que significam os vários ruídos da casa, o que é bom para brincar e o que é melhor deixar quieto. É um universo descomplicado, que permanece inalterado desde que os gatos são gatos. A mesma coisa acontece com os cães e com quase todas as espécies do planeta. Até a lagartixinha pálida que vive no lavabo não tem preocupações muito diferentes daquelas que passavam pela cabeça dos seus avôs dinossauros.
Já a complexidade da vida dos humanos, depois de alguns milênios em banho-maria, vem se acelerando a uma velocidade assustadora. Nosso cérebro continua igual ao dos nossos antepassados que viviam em aldeias de umas poucas almas, mas o tempo encolhe progressivamente, pois tem que ser dividido em fatias cada vez menores. Nas pequenas aldeias, a vida seguia o ritmo do sol, todos se conheciam desde sempre e, tirando as atribuições básicas da vida cotidiana, por árduas que fossem, não havia muito o que fazer. Dependendo da capacidade de imaginação de cada um, havia ainda menos em que pensar. As notícias que chegavam de fora vinham com anos de atraso e jeito de lenda; o que importava saber, de verdade, se restringia à vizinhança imediata, ao espaço conhecido.
O próprio mundo em que Andy Warhol previu quinze minutos de fama para cada um — ainda ontem! — era um mundo razoavelmente controlável, pré-internet, em que a sobrecarga de informação (information overload) não existia nem como expressão. Na época, o peso maior da equação estava na fama, uma figura de retórica distante e ilusória; hoje está no tempo, real. Quinze minutos no vertiginoso ano de 2009 são uma eternidade, uma abundância de segundos de que ninguém mais dispõe.
O ser humano é, por definição, um animal multi-tarefa, mas há um limite para a sua capacidade de processamento de dados. Se já não a ultrapassamos, estamos perto disso, como provam os esquecimentos constantes e a falta de memória que não poupam ninguém, numa espécie de gripe suína dos neurônios.
Quem tem lembrança de um pai ou avô que sabia longos poemas de cor fica pasmado: como era possível?! A conclusão quase inevitável é que não se fazem mais pessoas como antigamente. Mas talvez não seja bem assim. A capacidade de armazenagem do cérebro dos nossos antepassados não era diferente da nossa; apenas estava ocupada de outra forma. Entre outras infinitas coisas, eles não precisavam administrar centenas de contatos no Orkut nem seguir milhares de pessoas no Twitter.

CORA RÓNAI - Contra a censura e o obscurantismo

Recentemente, os usuários da internet em inglês levaram um sacode de uma notável quantidade de sites, a começar pela venerável Wikipedia, que passou 01 dia fora do ar. A idéia – dar um alerta geral sobre dois sinistros projetos de lei que devem ser votados pelo congresso americano nas próximas semanas – foi extremamente bem sucedida. Mais de um milhão de assinaturas contra os projetos foram encaminhadas através do site da Electronic Frontier Foundation, e quase cinco milhões de norte-americanos subscreveram uma petição do Google; mas, mais importante, 13 senadores mudaram de posição a respeito da indigitada legislação, e deixaram de apoiá-la.

Entre os vários protestos contra o Stop Online Piracy Act (Sopa) e o Protect Intelectual Property Act (Pipa), destacou-se uma palestra de emergência do TED, feita por Clay Shirky, professor da NYU, explicando a origem e os possíveis efeitos dos dois projetos. Shirky abriu a palestra apresentando o caso de uma padaria da sua universidade que fazia bolos de aniversário confeitados com desenhos fornecidos pelos clientes, em geral obras das próprias crianças homenageadas. Mas como volta e meia apareciam um Mickey ou uma Pequena Sereia nos desenhos, a padaria foi obrigada a acabar com o serviço, porque estava infringindo o copyright da Disney. Hoje ainda é possível comprar lá bolos de aniversário enfeitados, mas apenas com a meia dúzia de desenhos padrão oferecidos pela casa.

A analogia com o que pode vir a acontecer com a internet caso os famigerados projetos de lei sejam aprovados é perfeita: a rede com que colaboramos e que se formou graças ao conteúdo produzido e compartilhado por nós mesmos se transformaria numa estufa censurada onde só se encontraria o que passasse pelo crivo da indústria do entretenimento norte-americana. Os efeitos dessa censura local, contudo, teriam alcance mundial, já que boa parte da web passa pelos Estados Unidos. Twitter e Facebook estão baseados lá, assim como os principais servidores de blogs, como o WordPress e o Blogspot.

Na Inglaterra, em tom de troça, o site do Guardian criou a Guardipedia, uma alternativa para internautas em síndrome de abstinência da Wikipedia. Patrick Kingsley, um dos seus blogueiros de tecnologia, dispôs-se a responder às perguntas dos leitores consultando a Enciclopédia Britânica da biblioteca do jornal. As dificuldades, porém, logo ficaram óbvias: a última edição em papel data de 1989. Além disso, os livros não têm função de busca nem fazem links, o que torna todo o processo mais demorado.

Brincadeiras à parte, o que está em jogo na batalha entre Hollywood e as gravadoras, de um lado, e o povo da internet, de outro, são duas visões de mundo distintas, dois tempos radicalmente diferentes. O futuro da rede deve ser decidido neste embate entre passado e presente.

O histórico da Motion Pictures Association of America (MPAA) e da Recording Industry Association of America (RIAA), as duas poderosas associações que estão por trás dos projetos de lei, é péssimo: firmemente ancoradas no passado, elas são incapazes de perceber as mudanças que acontecem à sua volta, mesmo quando podem beneficiá-las. No caso mais notório da sua longa história de combate às novas tecnologias, está a tentativa de proibição de fabricação de aparelhos de vídeo-cassete. Para Jack Valenti, então presidente da MPAA, a invenção da Sony seria comparável ao estrangulador de Boston, a indústria cinematográfica sendo uma donzela solitária e desprotegida.

No fim, como se sabe, o estrangulador e seus descendentes, os players de DVD e de Blu-Ray, salvaram a vida da pobre donzela, que teria morrido de inanição se ficasse restrita às salas de projeção…

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RACISMO AQUI NÃO!

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