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NÃO, NÃO ESTAMOS TODOS NO MESMO BARCO


Cada um sabe de sua vida e de sua situação. Então, não julgue!
Me irrita essa frase “estamos no mesmo barco”
Não, não estamos. Não seja ridículo. Estamos na mesma tempestade, mas não no mesmo barco. O seu barco pode afundar.. e o meu não, e vice versa.
Pra alguns a quarentena tá sendo ótima! Momento de reconexão.. trabalho tá indo suave, etc
Para alguns tá sendo uma crise!
Para outros uma paz... tempo de descanso. Férias.
Para outros tempo de tortura: “como vou pagar minhas contas?!”
Alguns estão preocupados com qual ovo de Páscoa vão comer hoje.. kinder ou Lacta..
Alguns estão preocupados se vai ter pão pra comer até o final da semana, se o arroz e o feijão serão suficientes.
Alguns estão no home office na fazenda.. outros estão catando lixo pra sobreviver.
Alguns querem voltar trabalhar porque não tem mais dinheiro.
Alguns querem matar quem quer voltar trabalhar porque ele não tá pensando em dinheiro, afinal ele já tem uma reserva não precisa se preocupar com isso.
Uns estão com Fé em Deus que veremos muitos milagres ainda em 2020.
Outros dizendo que o pior nem chegou.
Então...Não amigo, nós não estamos no mesmo barco. Estamos passando pelo mesmo momento mas com percepções, experiências e necessidades COMPLETAMENTE diferentes. E sairemos cada um de um jeito desta tempestade.
Por isso neste momento é muito importante enxergar além do que se vê. Enxergar além de partido político, além de religião, além do próprio umbigo... não menospreze a dor do outro porque você não a sente, não julgue a vida boa do outro porque você não sabe o que ele passou pra chegar lá... simplesmente não julguem.
Julguemos menos. Tanto o que não tem, quanto o que tem de sobra. Tanto o que quer voltar trabalhar, quanto o que quer ficar em casa.
Afinal.. estamos em barcos diferentes irmão! Fale por você...
Autor Desconhecido
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CORONA VÍRUS, BRASIL E A LEI DE GERSON – Edmir Saint-Clair

Mais de 60 países contaminados. Países inteiros em quarentena, a economia mundial sofrendo um impacto incalculável e sem luz no fim de um túnel que ninguém sabe o tamanho.  Vôos internacionais, os maiores eventos esportivos, culturais e comerciais do mundo cancelados. Mais de 400 milhões de alunos sem aula ao redor do mundo.

O planeta inteiro mudou sua rotina tão subitamente como nunca antes se viu na história.  Cada nação está enfrentando o problema do seu jeito, evidenciando seu grau de evolução humanitária e social.

Não importa se é ou não motivo para tamanha mobilização, o que importa é como a será a sua atitude: solidária e com consciência social? Ou com egoísmo querendo livrar o seu e o resto que se dane? 

Essa proposição, por mais simples ou até mesmo simplória que possa parecer, tem um endereço certo: o Brasil.

Na Itália, um país inteiro em quarentena severa, vizinhos na cidade de Roma foram para a janela cantar juntos para espairecer, se distrair e se solidarizar. Ninguém compra uma unidade a mais do que não precisa para imediatamente. Não existe consumo desnecessário ou irresponsável socialmente. E assim acontece na maioria dos países infectados.

É hora de cada um decidir quem quer ser.

Uma pessoa do bem, com consciência social e boa vontade com quem precisar ou aquele que chega ao supermercado e leva os 50 frascos de álcool Gel, apesar de morar sozinho, zerando a prateleira, mesmo havendo tantas pessoas esperando para pegar a mesma coisa?  
Para nós, brasileiros está na hora de mostrar que superamos o velho e ultrapassadissimo “levar vantagem em tudo, certo?”

Esclarecendo quem não conhece: tratava-se de uma campanha publicitária do cigarro Vila Rica com o jogador Gerson, o canhotinha de ouro, campeão mundial na icônica Copa de 70. Ele sempre fechava o comercial de TV falando o slogan: “O importante é levar vantagem em tudo, certo?”
Por isso, passou a ser conhecida como a “Lei de Gerson”.  No fundo essa referência foi uma grande injustiça com o canhotinha de ouro, que sofreu com isso. Gerson nunca mereceu ser vinculado a uma máxima de ética tão duvidosa.

Essa mensagem ganhou, inicialmente, o significado de jeitinho brasileiro que, com o tempo, foi ficando mais pesado até significar qualquer  atitude nebulosa. A expressão foi cada vez mais deturpada até significar “passar os outros para trás e levar vantagem sobre.” Já com os dois pés na marginalidade da lei.

Com o distanciamento que só o tempo nos dá, consigo perceber como o brasileiro médio foi agindo cada vez mais dessa forma, contando com a tolerância de toda sociedade. Ou, por outro lado, talvez isso tenha simplesmente exposto esse aspecto até então obscuro. O certo, é que a partir da década de 70, a ética foi sendo cada vez mais violentada, contando com uma complacência generalizada. E, se um pode todos podem. E, assim, chegamos a 2020...

Essa situação gerada pela Corona vírus serve como termômetro para nós, brasileiros, sabermos a quantas andamos como sociedade. A sociedade é composta por cada um de nós. A atitude da nação brasileira será a soma das atitudes de cada cidadão.

Essa é uma oportunidade única para pensar que tipo de brasileiro e de ser humano cada um deseja ser. 

     

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COVID-19 , NO QUE ACREDITAR? - Edmir Saint-Clair


Não acredito que as decisões inéditas e pesadas da maior parte dos países do mundo sejam puro alarmismo, tão pouco acredito nessa fantasia de uma trama chinesa para dominar o mundo.

O mundo está quase parado como nunca antes. Com as notícias correndo na internet, nem preciso me alongar em exemplos que se somam a cada instante, todo mundo já sabe.  
O COVID-19 já causou prejuízos incalculáveis para todas as nações.

Empresários e entidades dos esportes, incluindo os que movimentam valores equivalentes ao PIB de alguns países, como futebol, NBA, Fórmula-1, Champion League, UEFA e toda a cadeia que sustenta essa indústria, paralisou suas atividades com uma rapidez assustadora. Ninguém joga trilhões de dólares no ralo assim numa tacada e sem pestanejar... Aí tem. E deve ser forte.
E, se não tem parece muito que tem. Não dá pra arriscar. Está meio estranho esse pandemônio a nível governamental que tomou conta do mundo. Deve ter um motivo muito muito forte. 

Pandemia assusta e só é declarada quando existem motivos muito graves.  E esse motivo se chama COVID-19, que está aniquilando, principalmente, a população idosa.
Nesse momento, não nos cabe nada além de acreditar e seguir as recomendações das autoridades médicas.
O caso é muito sério e grave. Tem hora pra tudo e agora não é hora de dar uma de mais sabido, mais informado, mais descolado ou qualquer outra designação mais imbecil nesse sentido.

A coisa mais burra a fazer nesse momento é perder tempo tergiversando. A realidade é que a esmagadora maioria de nós, leigos mortais, não tem o conhecimento suficiente para fazer outra coisa senão acatar e obedecer ao que os médicos falam e recomendam.

Somos todos ignorantes e inexperientes diante do tamanho desse evento, pelo simples fato de que nunca aconteceu antes.

Vamos nos unir diante de nossas inexperiências, vamos ser solidários e aprender juntos como podemos vencer esse obstáculo da melhor forma.  É preciso dar crédito aos milhares de médicos e cientistas que se dedicam a pesquisar curas e soluções.

Informar-se somente em sites de instituições reconhecidamente idôneas e competentes é fundamental para não fazer papel de bobo e sair acreditando em sandices de todos os tipos. Não é hora para brincadeiras ou experiências.

Tudo está acontecendo de maneira muito veloz. Não temos tempo a perder com questões mesquinhas e menores, está na hora de cada um fazer o seu melhor pelo bem de todos. Isso se chama solidariedade e é a base de sustentação de qualquer sociedade humana bem sucedida.
" Só um ser humano pode ajudar outro ser humano"

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CONVERSAS NECESSÁRIAS – Edmir Saint-Clair

Todos temos pendências. Assuntos que incomodam.

Algumas dessas questões são com pessoas importantes em nossas vidas. Importantes demais para que as deixemos se perderem de nós sem que pelo menos aconteça uma tentativa de esclarecimento que deixe, ao menos, a alma mais leve.

Quantas vezes não nos pegamos pensando numa suposta conversa com aquela(e) ex com quem tivemos um final confuso e cheio de mal entendidos. Ou, a conversa com o parente próximo com quem tivemos conflitos nunca esclarecidos. À vezes, nos afastamos de pessoas muito próximas e queridas por nunca termos feito nada para trazer luz aquele assunto pendente. Para esclarecer. Clarear a questão. Buscar um entendimento.

A maioria de nós tem uma tendência a ir acumulando pendências. Questões mal resolvidas varridas para debaixo do tapete. Situações mal paradas. Incômodas. Das quais não nos damos conta na maior parte do tempo, mas que brotam nos momentos mais improváveis e incômodos, atrapalhando alguma coisa.

Situações que poderiam ter sido esclarecidas e não foram.  E, por isso, criaram distâncias instransponíveis. Uma nódoa que incomoda num dia branco.

Uma coisa é certa, não adianta tentar tocar em frente aquela relação que sofre com pendências. Não adianta tentar varrer para debaixo do tapete. Porque na vida não tem tapete é sempre chão duro. E também não tem embaixo, nem em cima. É tudo a mesma vida, o mesmo rolo.

Não podemos deixar tudo a cargo do tempo. Essas conversas necessárias tem que acontecer sob pena de se transformarem naquelas terríveis dores nas costas que nos fazem entrevar diante de seu peso invisível. Temos que correr atrás, agir para esclarecer nossos mal entendidos com as pessoas queridas. Não podemos deixar algo tão importante por conta do acaso. É muito arriscado, a vida é uma só.

O tempo não pára. E, se deixarmos por conta dele as distâncias podem se alongar tanto que a possibilidade de volta não exista mais. Não existe relação, em nenhum nível, que não possa ser estragada pela falta de esclarecimentos
mútuos sobre assuntos mal resolvidos. A mágoa deixa marcas, cria barreiras e distâncias que o tempo não resolve, ao contrário, só alimenta.

Esclarecer pendências com as pessoas queridas é necessário.  É o único caminho para que a distância definitiva não se estabeleça. Poder ver, através do olhar de quem amamos, a nossa versão mais bonita é um dos momentos mais sublimes e felizes que podemos experimentar na vida. Sentir o amor de quem amamos é ser feliz. Perder essa possibilidade é perder um pedaço gigante de felicidade possível.

Definitivamente, varrer pendências emocionais para debaixo do tapete é um erro que pode custar caro. Que pode nos custar quem amamos.
Por Edmir Saint-Clair
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CORPO INTERDITADO - Martha Medeiros

Estava num café esperando por uma amiga. Enquanto o tempo passava, fiquei observando o ambiente. Outra mulher estava sozinha a poucas mesas de distância, também esperando alguém atrasado. O atrasado dela chegou antes da minha. Vi quando ela se levantou para cumprimentá-lo. Deram-se dois beijinhos.

Os dois beijinhos mais vacilantes e constrangedores que podem ocorrer entre um casal. Talvez fosse delírio meu, mas tenho quase certeza de que eram ex-amantes, ex-namorados, ou um ex-marido e uma ex-esposa que haviam terminado a relação poucos dias atrás, no máximo alguns meses atrás.

É uma cena clássica. Depois de anos de amor e intimidade, a relação se desfaz. Os dois juram nunca mais se ver, odeiam-se por algumas semanas, até que um dia surge uma pendência para ser conversada, ou simplesmente resolvem tomar um drinque para provar ao mundo que a amizade prevaleceu, essas cenas aparentemente civilizadas que trazem significados ocultos.

Ou pior: encontram-se sem querer num estacionamento no centro da cidade, num corredor de shopping, num quiosque do mercado público. Você aqui? Que surpresa. E os dois beijinhos saem de uma forma tão desengonçada que seria motivo pra rir, não fosse de chorar. Eles não se possuem mais fisicamente.

Interdição do corpo. Um dos troços mais sofridos de um final de relacionamento, que só se vai experimentar depois de um tempo afastados. Uma coisa é você ficar racionalizando sobre o desenlace trancafiada no quarto, ele ficar ruminando sobre as razões do rompimento enquanto trabalha.

Uma coisa é você chorar durante o banho para disfarçar os olhos inchados, ele falar mal de você em bares, fingindo que se livrou da Dona Encrenca. Uma coisa é você consultar uma cartomante a fim de acreditar em dias mais promissores, ele sair com umas lacraias bonitinhas pra provar que te esqueceu.

Outra coisa é quando os dois se encontram, cara a cara, depois de semanas ou meses apenas se imaginando.

Ele está ali na sua frente. Mas você não pode agarrar seus cabelos, não pode passar a mão no seu peito, não pode rir de uma piada interna que só pertence aos dois, porque está oficializado que nada mais pertence aos dois.

Ela está ali na sua frente. Mas você não pode mais dar uma beliscadinha na sua bunda, não pode mais beijá-la na boca, não pode mais dizer uma bobagem em seu ouvido, porque está oficializado que ela agora é apenas uma amiga, e não se toma esse tipo de liberdade com amigas.

Depois de terem vivido, por anos, a proximidade mais libidinosa e abençoada que pode haver entre duas pessoas apaixonadas, vocês agora estão proibidos ao toque. Não se amam mais, é o que ficou decretado. Logo, os códigos de aproximação mudaram.

Você dará dois beijinhos na mulher que tantas vezes viu nua, como se ela fosse uma prima. Você dará dois beijinhos no homem para quem tanto se expôs, como se ele fosse um colega de escritório. Esses dois beijinhos doerão mais do que um soco do Mike Tyson.

O corpo interditado. Você não pode mais tocá-lo, você não pode mais tocá-la. O definitivo sinal de que o fim não era uma ilusão.

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onde somos levados a refletir sobre racismo, preconceito, 
  solidão, amizade, descobertas e experiências de criança, 
de adolescente e, por fim, de um jovem adulto. 
A relação com cotidiano do bairro. 
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MATURIDADE EMOCIONAL E CAPACIDADE DE LIDAR COM FRUSTRAÇÕES - Juliana Santin

Era uma vez uma menina que, aos 7 anos de idade, precisou usar óculos. Esse acontecimento foi um grande sofrimento para ela, que sentiu-se estranha, diferente, feia.

Essa menina odiou ter que usar óculos com todas as suas forças. Escondia-se das pessoas quando estava de óculos. Chorou por isso, achou-se a pior das criaturas. Com o avanço da idade, ela passou a usar lentes de contato, mas seu sonho mesmo era fazer cirurgia para correção e livrar-se de uma vez por todas desse tormento. Finalmente, esse dia chegou! Ela operou os olhos e pronto. Livrou-se para sempre dos óculos e das lentes.

Até que, um tempo após a cirurgia, ela notou que a vista não estava muito boa e veio a notícia: teria que voltar a usar óculos! E é aqui que vem o grande desfecho da história que é o gancho para esse texto: dessa vez, a menina – agora, mulher – não mais esbravejou, não mais chorou escondida, não mais escondeu-se. Comprou óculos modernos e bonitos e passou a usá-los como acessório. Preferia não precisar usá-los – quem não prefere ter a vista perfeita? -, mas, já que tem que usar, o melhor a fazer é aceitar e lidar da melhor forma possível.

Essa história foi narrada por uma de minhas irmãs. E, pela foto acima – sim, essa moça da foto é minha irmã – percebe-se que ela obteve sucesso na escolha dos novos óculos.
Ela me contou isso, justamente refletindo sobre como uma coisa que foi tão problemática para ela na infância, adolescência e juventude agora perdeu peso, tem outro valor.

Contou sobre como encarou de uma maneira tão diferente essa frustração – e foi, mesmo uma frustração, pois ninguém opera os olhos achando que vai precisar de óculos de novo – e sobre como o que antes a deixava tão desconfortável, hoje já incomoda pouco, quase nada.
Isso me levou a refletir sobre essa questão tão importante e difícil: a maturidade emocional.

O psiquiatra Flávio Gikovate tem uma definição muito interessante para essa questão. Para ele, a maturidade refere-se basicamente a uma boa tolerância à frustração. Ele deixa claro que maturidade, apesar de a palavra nos levar a crer que se trata de “idade madura”, não tem a ver com o avanço da idade. Há pessoas mais velhas imaturas, bem como há jovens muito maduros.

Então, tornamo-nos pessoas cada vez mais maduras quando passamos a ter maior tolerância às frustrações. Isso diz respeito a fatos imutáveis e sobre os quais não temos controle algum, como é o caso da necessidade de usar óculos da minha irmã, bem como a frustrações relacionadas a erros e falhas que cometemos. Isso também diz respeito à tolerância ligada às incertezas da vida.

“Tolerar bem frustrações não significa não sofrer com elas e muito menos não tratar de evitá-las. A boa tolerância às dores da vida implica certa docilidade, capacidade de absorver os golpes e mais ou menos rapidamente se livrar da tristeza ou ressentimento que possa ter sido causado por aquilo que nos contrariou”. (F. Gikovate)

Assim, uma pessoa emocionalmente madura, embora também se frustre, consegue lidar melhor com os sofrimentos derivados dessas frustrações, consegue não descontar nos outros seus descontentamentos, bem como consegue aceitar com mais serenidade os fatos que não há como mudar. Por exemplo, minha irmã precisa usar óculos para enxergar.

Diante disso, ela tem duas opções: xingar, sofrer, chorar, se revoltar, achar que é o fim do mundo – mas usar mesmo assim, porque não há alternativa -, ou entender que é chato, mas é o que é, então, o negócio é tornar a questão a melhor possível, que, nesse caso, significa investir em uma armação bonita, por exemplo.

O exemplo dos óculos pode ser extrapolado para tudo. Sempre que passamos por situações frustrantes, mas sobre as quais não temos controle, a escolha mais madura é controlar as emoções e lidar com o máximo de docilidade possível. Em situações como filas intermináveis, erros em sistemas, perda de oportunidades, decepção com os outros, etc., a maturidade leva a um enfrentamento cada vez mais tranquilo dessas situações.

Além disso, a maturidade emocional leva a uma tolerância maior a erros e falhas e essa é uma grande conquista, pois isso leva a uma redução do medo. Uma pessoa que aguenta melhor o sofrimento e a frustração vai arriscar mais, pois sabe que pode errar, passar vergonha, perder dinheiro, sofrer de alguma maneira, mas já aprendeu a lidar com o sofrimento. A pessoa que aguenta melhor o sofrimento arrisca mais e, consequentemente, cresce e se desenvolve mais também. Assim, a maturidade emocional é condição para o desenvolvimento e o crescimento pessoal.

“Os mais evoluídos emocionalmente tendem a ser mais ousados e a buscar com determinação a realização de seus projetos. Têm menos medo dos eventuais – e inevitáveis – fracassos, pois se consideram suficientemente fortes para superar a dor derivada dos revezes. Ao contrário, aprendem com seus tombos, reconhecem onde erraram e seguem em frente com otimismo e coragem ainda maior. Costumam ter melhores resultados do que aqueles mais ponderados e comedidos, condição que não raramente esconde o medo do sofrimento próprio dos que enfrentam os riscos”. (F. Gikovate)

O próprio autoconhecimento depende dessa capacidade de aguentar as dores e sofrimentos, porque não é nada fácil olhar para dentro de si mesmo e enxergar falhas, erros, problemas. Esse ato de cutucar feridas e abrir armários é extremamente difícil. Se não formos capazes de tolerar essas dores e frustrações, não teremos coragem de olhar para dentro e essa é, com certeza, condição essencial para o crescimento e o desenvolvimento pessoal.

Gikovate também explica que uma pessoa madura emocionalmente tem maior empatia, ou seja, capacidade de se colocar no lugar do outro, porque, muitas vezes, ao nos colocarmos no lugar do outro sentimos o sofrimento dele. A pessoa imatura se fecha para esse tipo de exercício, porque não aguenta o sofrimento. Quando conseguimos nos colocar no lugar dos outros certamente lidamos melhor com as diferenças, pensamos mais antes de falar, conseguimos ser mais gentis, conseguimos não levar tudo para o lado pessoal.

A maturidade emocional também é essencial para nos ajudar a lidar com as incertezas da vida. E quantas são as incertezas da vida! Tornamo-nos maduros quando abrimos mão daquele desejo infantil de querer garantias de que algo vai dar certo, de querer ter certeza de que não vamos falhar, de querer controlar tudo. É angustiante lidar com as incertezas, mas o fato é que vivemos em um mar de incertezas. Quanto maior nossa maturidade, mais tranquila e alegre é nossa trajetória.

A maturidade emocional é conquistada com esforço, com coragem, com um grande componente racional, está sempre em desenvolvimento e é o ingrediente principal de uma vida mais tranquila e leve – cheia de frustrações, erros, dores e sofrimentos, como é mesmo a vida, afinal, mas sem que isso seja determinante.

Isso, por fim, lembrou-me a oração da serenidade, que aprendi ainda criança quando frequentava reuniões públicas dos Alcoólicos Anônimos, a convite de meu avô, ex-alcóolatra que precisou de muita coragem e força para obter essa conquista, que pede coragem para mudar as coisas que se pode mudar, serenidade para aceitar as que não podem ser mudadas e sabedoria para distinguir umas das outras.
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A NOITE VERMELHA - Heloísa Seixas

O incêndio da Praia do Pinto no Leblon
Lembro-me que naquela noite acordei sem motivo algum. Acordei, simplesmente, sem saber por quê. No instante exato do acordar, não houve susto. O sobressalto veio depois. Olhei para a parede do meu quarto e vi que estava tomada por uma sombra incomum. Uma sombra vermelha, cor de fogo. Sempre achei que todas as sombras eram iguais, cinzentas, negras. Jamais imaginei que pudesse haver uma sombra cor de fogo. Intrigada, com uma ponta de medo, levantei da cama e fui até a janela. E então fui atraída pela luz.

Parece o início de um conto de terror – e, de certa forma, é. Foi assim que me senti naquela madrugada distante em que vi a Favela da Praia do Pinto pegar fogo. As chamas eram tão tremendas que projetavam sobre a parede do meu quarto um reflexo avermelhado, um pôr-do-sol no meio da noite. Todo o terreno hoje ocupado pela Selva de Pedra estava pegando fogo. Não havia um só ponto onde não brilhassem as labaredas, projetando-se para o alto, devorando o céu, em meio ao tiroteio dos bujões de gás que explodiam.

Ao ver a cena, meu coração se contraiu. Adolescente ainda, tive a noção exata do que significava aquele espetáculo terrível, pensando, angustiada, nas pessoas que com certeza tentavam escapar do fogo. Horas depois, quando o dia raiasse, outro espetáculo me espantaria. A multidão compacta enchendo as ruas em torno da favela destruída, carregando nas costas seus móveis, seus pertences, num movimento febril que era a perfeita reconstituição de um gigantesco formigueiro.

Ao fim de tudo, manhã já alta, quando olhei o imenso quadrado cinzento que restara no lugar da favela, senti uma estranha sensação de vazio. Mas ela veio acompanhada de uma lembrança boa. A recordação de outro espaço, grande como aquele, já então desaparecido: o terreno baldio onde armavam o circo, quando eu era criança. Ficava no quarteirão entre o Jardim de Alá e a Almirante Pereira Guimarães, em plena Ataulfo de Paiva, que eu atravessava de mãos dadas com a babá, rumo ao mundo encantado e assustador que a lona escondia. Por um segundo, cheguei a pensar no circo pousando outra vez no Leblon, no imenso terreno deixado vago pela favela calcinada. Mas logo dei de ombros, sorrindo. Bobagem. Eu não era mais criança.

Mas é engraçado. Desde então, essas duas lembranças tão díspares – do fogo e do circo – andam sempre juntas dentro de mim. Dois terrenos vazios que, como retalhos quadrados numa colcha, ajudam a compor o cenário desse Leblon de onde nunca saí.
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ENCERRANDO CICLOS - Glória Hurtado

Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver...

Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos - não importa o nome que damos, o que importa é deixar, no passado, os momentos da vida que já acabaram...

Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu. Pode dizer para si mesmo que não dará mais nenhum passo, enquanto não entender as razões que levaram a certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó...

Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seja parceiros, amigos, familiares; todos estarão encerrando capítulos, virando a página, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado...

Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco. O que passou não voltará...

Não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem, noite e dia, uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor possibilidade de voltar. As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora...

Por isso, é tão importante (por mais doloroso que seja) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros...

Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível. O que está acontecendo em nosso coração ao se desfazerem certas lembranças significa, também, abrir espaço para que outras tomem seu lugar.
Crescer é deixar ir embora, soltar, desprender-se...

Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas; portanto, às vezes ganhamos, às vezes perdemos. Não espere que lhe devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que compreendam seu amor...

Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará, apenas, envenenando e nada mais...

Encerrando ciclos, não por causa do orgulho, por incapacidade ou soberba, mas porque, simplesmente, aquilo já não se encaixa mais na sua vida...

Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem você é.
Glória Hurtado (psicóloga colombiana)
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NEUROCIÊNCIA SUPEROU A PSICANÁLIE - Ivan Izquierdo

NEUROCIÊNCIA SUPEROU A PSICANÁLIE - Ivan Izquierdo
A psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência...