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AS PEGADINHAS DO INCONSCIENTE - Cláudia Penteado

No emaranhado de informações com que lidamos diariamente, afogados em dados e versões de muitas e muitas histórias, volta e meia nos deparamos com algo bacana. É o caso de um artigo publicado recentemente no blog do Buffer, que chama a atenção para os erros que, quem diria, nossos cérebros cometem o tempo todo, sem que nos demos conta. São erros, segundo o artigo de Belle Beth Cooper (profissional de conteúdo do Buffer), cometidos por nosso inconsciente, numa espécie de gestalt habitual, mas que podem ser evitados – desde que tomemos consciência de sua existência. Vamos a eles.

O primeiro erro que cometemos é o seguinte: nos cercamos de informações que combinam com nossas crenças. Em geral, gostamos de pessoas que pensam como a gente. Isso significa que, inconscientemente, acabamos ignorando ou descartando qualquer coisa que ameace nossos pontos de vista. No artigo, Belle diz que isso se chama “Confirmation bias”: é uma experiência passiva de confirmação contínua daquilo em que acreditamos. Ela usa um vídeo de lançamento do livro “You are now less dumb”, de David McRaney, como exemplo da tendência das pessoas em cultivar certas crenças sem desafiá-las.

O segundo erro comum chama-se “a ilusão do corpo do nadador”. Normalmente confundimos fatores seletivos com resultados. Uma espécie de pegadinha no estilo “ovo ou galinha”, mas o fato é que nossa mente nos engana mais do que imaginamos. Acreditamos, por exemplo, que nadadores têm corpos perfeitos porque são bons nadadores. Na realidade, nadadores são bons porque seus corpos foram elemento essencial de seleção que lhes permitiu, a priori, tornarem-se excelentes nanadores. E, claro, o treinamento aprimorou seus corpos.

O terceiro erro cometido é nos preocuparmos com coisas que já perdemos. Costumamos nos preocupar com perdas – não só de dinheiro, mas energia e tempo - porque, segundo o psicólogo Daniel Kahneman, em seu livro Thinking Fast and Slow, nos apegamos a elas muito mais do que aos ganhos. Isso porque a humanidade convive com uma impressão arquetípica poderosa: a de se defender e evitar ameaças, desde os tempos das cavernas, muito mais do que maximizar oportunidades. Isso nos impede de fazer escolhas com base no que nos renderá melhores experiências no futuro, no lugar daquelas que simplesmente nos farão ter a sensação de “compensar” experiências ruins do passado. Se você compra um ingresso para um filme ruim, você fica assistindo até o fim para fazer com que ele “se pague” ou sai do cinema e usa seu tempo para fazer algo mais divertido? Faz pensar.

O quarto erro recorrente é que costumamos prever “vantagens”. Se o time vem ganhando, acreditamos que continuará ganhando. Mas as nossas chances de ganhar ou de perder, se dependemos da sorte e do acaso, se equivalem. É uma espécie de “falha” no nosso pensamento de criaturas sem qualquer lógica ou coerência. Mais uma vez, colocamos muito peso em experiências do passado e confundimos nossa memória acreditando que o futuro funcionará dentro de um determinado “padrão” já introjetado. Essa falha costuma levar jogadores compulsivos à falência porque eles sempre acreditam que a próxima jogada será a da sorte. Porque provavelmente tiveram alguma experiência de sorte no passado, claro.

O quinto erro é racionalizar compras que não queremos fazer. Quem nunca? Vivemos tentando nos convencer de que fizemos boas compras, tentando justificar mais um par de sapatos ou bolsa. Mesmo sabendo que eram caros demais, você usaria pouco ou talvez nunca. Mas somos ótimos em nos convencermos de que precisávamos de algo que no fundo...sabíamos que não. É uma espécie de racionalização pós-compra, uma síndrome, mesmo, usada para dar algum conforto ao ato equivocado. Uma tentativa da nossa mente de nos manter na zona de conforto da consistência, sem escorregar para a dissonância cognitiva que toma conta quando tentamos, desesperadamente, nos definir entre duas ideias ou teorias opostas.

Sexta “armadilha” do nosso inconsciente: tomamos decisões com base no efeito âncora. Ao invés de pensarmos no valor em si de uma determinada escolha, tendemos a compará-la a alguma outra escolha como justificativa. No artigo Belle cita o economista Dan Ariely como o suposto criador desse “efeito âncora”. Dan conduziu um experimento em que dois tipos de chocolates foram postos à venda, um ao lado do outro: um mais simples, gotas de chocolate da Hershey’s a um centavo cada, e outro mais sofisticado, trufas da Lindt a 15 centavos cada. As trufas desapareceram rapidamente, pois o consumidor agiu comparando as duas marcas e vendo qual era um “deal” melhor. Dan decidiu reduzir a diferença de preço entre os dois produtos: os kisses da Hershey’s de graça, trufas por 14 cents. As pessoas escolheram os Kisses. Dan tem vários exemplos de como as pessoas agem quando têm mais de uma opção, comparando-as, e nem sempre tomando a melhor decisão. Às vezes nos prendemos a um determinado valor e o usamos para efeito comparativo, quando na verdade há outros aspectos mais interessantes para serem analisados que passam absolutamente batido. Muitas vezes não sabemos, mesmo, o que preferimos. Soa familiar?

O sétimo erro recorrente: acreditamos mais na nossa memória do que nos fatos. Nem vou discorrer aqui como a memória pode nos enganar. Muitas vezes nossa memória nos faz tomar decisões de acordo com aqueles padrões do passado já mencionados no quarto item dessa lista de erros – ao invés de parar para analisar os fatos. Um pouco de objetividade pode ser bom.

Oitavo e último erro: prestar muito mais atenção aos estereótipos do que imaginamos. Belle cita nesse item um exemplo dos pesquisadores Daniel Kahneman e Amos Tversky que, em 1983, testaram esse aspecto incoerente do pensamento humano ao criar uma pessoa imaginária e pedir que as pessoas lessem a descrição e respondessem a uma pergunta. A descrição era de uma moça solteira, jovem e muito inteligente, formada em filosofia e engajada em demonstrações antinucleares na juventude. Colocam-se então duas alternativas e deve-se escolher a “mais provável”.

A primeira: Linda é caixa de banco. A segunda: Linda é caixa de banco e participa do movimento feminista. A maioria (85%) escolheu a segunda opção, mais detalhada, na verdade uma “pegadinha de linguagem” - pois repete a opção 1 incluindo um ingrediente limitador, para confundir as pessoas e suas visões estereotipadas. Isso demonstra o quanto se pode ser irracional e ilógico nas escolhas: a resposta dois simplesmente não poderia ser a correta numa pergunta sobre maior probabilidade.

Fica aí a lição de casa: tentar identificar esses vícios do inconsciente, que automatizam as decisões. E fazem errar.
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O PODER TERAPÊUTICO DA ESTRADA - Martha Medeiros

Viajar é um ato de desaparecimento”, 
escreveu certa vez Paul Theroux, um dos escritores 
mais bem-sucedidos na arte de narrar suas andanças pelo mundo.

É uma frase ambígua, pois parece verdadeira apenas do ponto de vista de quem fica. O viajante realmente desaparece pra nós – aliás, desaparecia, pois nestes tempos cibernéticos ninguém mais consegue manter-se inalcançável.

Já para aquele que parte, viajar não é um ato de desaparecimento. Ao contrário, é quando ele finalmente aparece para si mesmo.

Somos seres enraizados. Moramos a vida inteira na mesma cidade, mantendo um endereço fixo. Nossa movimentação é restrita: da casa para o trabalho, do trabalho para o bar, do bar para a casa, com pequenas variações de itinerário. Essa rotina vai se firmando gradualmente, e um belo dia nos damos conta de que estamos vendo sempre as mesmas pessoas e conversando sobre os mesmos assuntos. Não há grande aventura ou descoberta no nosso deslocamento sistemático dentro desse microcosmo.

Isso, sim, soa como um desaparecimento. Onde foram parar as outras partes de nós que compõem o todo?

Viajar é sair em busca dos nossos pedaços para integralizar o que costuma ficar incompleto no dia a dia.

Assisti a On The Road, adaptação do livro de Jack Kerouac, superbem filmado por Walter Salles, e também a Aqui É o Meu Lugar, em que Sean Penn, magistral, pra variar, interpreta um roqueiro decadente que sai pela estrada para acertar as contas com o passado do pai e encontra adivinhe quem? Ele mesmo, ora quem. É sempre assim. Há em nós uma persona oculta que só se revela quando a gente se põe em movimento.

Road movies me encantam porque dão protagonismo a tudo que alimenta nossa fantasia: a liberdade, a música, a poesia, a natureza e o tempo estendido, sem o aprisionamento dos relógios e dos calendários – viajar é uma jornada simultânea de ida e volta, nosso passado e nosso futuro marcando um encontro no asfalto. Ou sou eu que fico meio chapada só de falar nisso.

On The Road, mesmo que em certos pontos convide para um cochilo, tem momentos arrebatadores, como a dança sensual de Kristen Stewart com Garrett Hedlund, o boogie woogie de Slim Galliard num contagiante número de jazz, e um final que emociona, senão a todos, certamente aos que reverenciam a literatura. Já o filme com Sean Penn é uma viagem para longe do lugar-comum – nada é óbvio, nada é o que se espera.

E não bastasse ter Frances McDormand no elenco e a trilha sonora de David Byrne, ainda conta com a participação significativa, tipo cereja do bolo, do ator Harry Dean Stanton, que nos remete ao emblemático Paris, Texas, uma forma de lembrar que todas as estradas se cruzam em algum ponto.

Que seus pais não me ouçam, mas se você está entre iniciar uma terapia ou se largar no mundo, comece experimentando a segunda opção. Ambas levam para o mesmo lugar, mas num consultório não tem vento no rosto nem céu estrelado. Se não funcionar, aí sim, divã.

PRECISA-SE - Clarice Lispector

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. 

É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. 

Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. 

Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar.

P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilarecerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

A VIDA COMO ELA PODE SER - Cláudia Penteado



 “Aqui se passa fome, aqui se odeia, 
aqui se é feliz, 
no meio de invenções miraculosas.”  
(Adélia Prado)

As festas de fim de ano – puxa, que bom que acabaram – sempre me fazem refletir a respeito das escolhas que fazemos diariamente. 

Até a minha adolescência, Natal e réveillon foram momentos de confraternização familiar sem precedentes, com festas, viagens e bons encontros. A separação dos meus pais transformou essa época do ano em algo bem próximo do inferno, quando escolhas tinham que ser feitas e o resultado quase sempre era um bocado de dor de cabeça. Com o tempo, as escolhas de fim de ano passaram a recair invariavelmente em estar o mais longe possível de qualquer um dos “lados” da família que eu agora só “administrava”, elegendo novos destinos junto a novas famílias – as dos namorados. Nelas não havia dúvidas, divisões, lembranças saudosistas, comparações, culpa ou cobrança. Apenas a leve sensação do desprendimento e o reconfortante não-pertencimento.

Faz parte do crescimento eleger quem entra para a nossa família – a escolhida, aquela que parece não carregar consigo problemas ou ressentimentos. O que fazemos, na realidade, é ir atrás de escolhas que nos  afastem do sofrimento. Caímos no velho clichê de que toda família é problema e não perdemos tempo no resgate daquilo que para nós já é visto como irresgatável. Batalha perdida sem sequer entrar em campo. Como tudo na vida, família dá mesmo trabalho, e como já trabalhamos muito para ganhar nosso sustento e tentar levar uma existência minimamente digna, tudo o que não queremos é ter mais trabalho nas outras frentes das nossas vidas.
Hoje me vejo num barco parecido: novas escolhas feitas recaem em novas famílias e fito os olhinhos questionadores da minha filha de 10 anos que – a partir desse ano – passará suas festas de fim de ano revezando entre papai e mamãe. Andei, andei, e estacionei no mesmo lugar?  Não. O que eu desejo para ela, é que não se sinta culpada porque não passou Natal com a mamãe, ou vai passar o réveillon longe do papai. Em primeiro lugar, isso depende de um pacto bem amarrado de amizade e admiração entre os pais dela – claro. O que inclusive permitiu que ela pudesse passar muitos Natais com papai e mamãe juntos, mesmo depois de separados. Sim, é possível escrever uma história diferente da minha – mas dá muito trabalho. A partir de agora, o que eu quero é que embora não esteja com papai e mamãe juntos nas festas de fim de ano, ela tenha a oportunidade de escolher sem a sensação de Sofia no clássico de William Styron. Cabe aos adultos – que, afinal de contas, a colocamos nesse lugar – não lhe causar sofrimento desnecessário com nossas carências e as próprias culpas não resolvidas.

Mas mais do que isso, o que eu gostaria de mostrar para ela é que, sim, escolher é crescer. Escolher fará parte de cada momento da sua vida, para sempre. E que nem sempre escolher o mais fácil a fará mais feliz.
A frase é batida, mas a vida não tem mesmo ensaio. Ou seja, “já é”, como dizem hoje em dia. Uma professora de literatura, Elizabeth Duque Estrada, vai ainda mais longe e costuma dizer que vivemos nossas muitas reencarnações em vida.

Diante disso, escolher o difícil nos ensina a construir bases fortes, a ganhar musculatura. Desistir da família e correr para a casa de um namorado ou de uma amiga qualquer pode parecer um alívio, em alguns momentos, mas nos tira a chance de amadurecer e investir energia e emoções em relações que, sim, podem valer à pena. Sim, família não é aquela que aparece nos nossos documentos e registros oficiais: são as relações que efetivamente cultivamos, nas quais investimos, nas quais escolhemos colocar energia. Mas a família dos registros oficiais também não é só problema. Hoje penso duas vezes antes de desistir de investir em relações humanas – sejam elas quais forem – porque encaro de frente as muitas fraquezas que eu mesma tenho, e as muitas e muitas vezes em que precisei que as pessoas que eu amo não desistissem de mim.

Claro que vou me esforçar para facilitar as escolhas da minha filha em relação a mim. E vou mostrar para ela que sempre haverá as escolhas corriqueiras de passar um Natal, um reveillon, fazer uma viagem, e que elas não precisam vir recheadas de cargas emocionais pesadas. Há escolhas outras muito mais importantes. Quero construir com ela algo sólido o suficiente para lhe dar motivos para me escolher diariamente – como pessoa. O que eu desejo é que ambas sejamos capazes de nos escolher mutuamente, sempre. Ainda que muitas vezes esta não pareça a escolha mais óbvia, fácil, ou simples. Mas que, simplesmente, valha à pena. 

ESSES FILHOS PERPLEXOS DIANTE DA VELHICE DOS PAIS - Eliane Brum

Uma sequência de filmes mostra que 
a velhice mudou – ou está mudando. 

Isso diz bastante sobre o aumento da expectativa de vida, já que um dos temas cruciais da sociedade contemporânea passa a ser como ser velho nestes tempos. E faz com que atores e atrizes sem muita chance de viver papéis desafiadores por conta da idade, muitos deles obrigados a uma aposentadoria não desejada, passem a ter a chance de interpretações magistrais, como foi o caso de Emmanuelle Riva e de Jean-Louis Trintignant, no excepcional Amor. Ou tem levado atores consagrados a se aventurar na direção depois dos 70, como fez Dustin Hoffman no encantador O Quarteto. São filmes em que a velhice é contada pelo olhar de quem a está vivendo e há várias formas de pensar sobre o que está sendo dito, dentro e fora da tela. Minha proposta é refletir sobre uma em particular: nos últimos quatro filmes exibidos por aqui e que já estão ou devem estar chegando às locadoras e às TVs por assinatura, os filhos ou estão ausentes ou são uns atrapalhados, oscilando entre a boçalidade e a incapacidade de dar conta da própria vida.

Em O Excêntrico Hotel Marigold, o mais fraco deles, um dos casais britânicos vai parar na Índia porque a filha gastou o dinheiro dos pais numa aventura empreendedora na internet. Assim, precisam encontrar uma opção mais barata de moradia, o que os leva ao excêntrico hotel do título. Ainda que depois a opção se mostre interessante, mesmo que por caminhos tortuosos, não foi uma escolha num primeiro momento. E sim uma reação à atrapalhação da filha, que se arriscou não com o seu próprio dinheiro, mas (convenientemente) com o dos pais, o que também é uma marca da nossa época.

No ótimo E se vivêssemos todos juntos?, a filha do casal interpretado por Jane Fonda e Pierre Richard é uma chata pretensiosa que só aparece para (tentar) mandar nos pais e dar palpite na vida deles, para em seguida desaparecer. Já o filho do Don Juan interpretado por Claude Rich é muito mais participativo e francamente esforçado, mas o pai tenta escapar de todo jeito das boas intenções filiais porque esse filho só é capaz de enxergá-lo como alguém que vai quebrar a qualquer momento – o que é verdade, mas está longe de ser toda a verdade.

Em Amor, a maravilhosa Isabelle Huppert está menos maravilhosa no papel de filha do casal que se descobre velho de repente, numa manhã qualquer, em um segundo. Esta personagem, às voltas com um casamento que parece emocionante apenas pelas razões erradas, encarna a filha perplexa diante dos pais. Perplexa e apavorada diante da fragilidade e da finitude dos pais. Ela tenta intervir, ela tenta se impor, ela tenta dizer e fazer coisas sensatas – e tudo falha. Ela tenta principalmente ser potente, mas mal dá conta da própria vida. Seu diálogo com o pai, enquanto a mãe não sabe de si, é uma das cenas antológicas desse filme belíssimo.

Em O Quarteto, que se passa num “lar para velhos” que foram cantores e músicos antes de perderem a voz, a memória ou a saúde, os filhos não estão lá. Surgem, ao fundo, nos dias de visita, mas nenhum dos personagens principais parece ter filhos. Artistas de ópera, eles possivelmente não tiveram tempo para a maternidade ou a paternidade. E esta não parece ser nem uma questão, nem um motivo de arrependimento, o que é bastante interessante. Se tiveram filhos, o fato não foi tão marcante a ponto de ser citado, o que de novo é bem interessante. O quarteto é primeiro um trio, que se ampara e se diverte na velhice como os amigos de uma vida inteira que foram e ainda são. A quarta personagem, que chega para fechar o grupo, é uma diva atormentada pela perda da potência, que no seu caso se expressa pela voz que falha. Ela terá de descobrir que pode cantar mesmo com uma voz que não é – nem jamais voltará a ser – a da juventude. E para isso terá de amarrar alguns fios esgarçados do passado.

Só estou citando os últimos filmes, mas antes destes já tivemos outros em que os filhos aparecem ora perdidos, ora oportunistas na vida dos pais, como no delicioso Elsa & Fred. O que vale a pena perceber é que, cada vez mais, ao contar a velhice pelo olhar de quem a vive, conta-se também da perplexidade dos filhos apatetados diante dos pais. Não mais os pais velhos como um estorvo para filhos que mal dão conta da sua vida, sem saber se os enfiam num asilo ou os carregam para casas ou apartamentos onde mal cabem eles. E sim filhos atrapalhados ou boçais que, quando aparecem, tornam-se um estorvo para os pais.

A ponto de em E se vivêssemos todos juntos? deixarem o filho de um para fora do portão e ainda lhe darem um banho de mangueira para que vá embora de uma vez e não volte tão cedo. São velhos poderosos – e que reivindicam seu poder mesmo em uma condição de fragilidade – os do cinema. Poderosos porque não se deixam apartar de sua história na velhice, ao contrário. Apropriam-se dela e a usam para viver com intensidade seus últimos capítulos, apesar das inevitáveis perdas e limitações.

Cabe esclarecer que esta questão, a dos filhos diante da velhice dos pais, que aqui se torna a principal, nos filmes é secundária, quando não inexistente, o que também é muito significativo. Como filha de pais que envelhecem, eu me identifico com esses filhos perplexos e atrapalhados. Como uma mulher que envelhece, me identifico com esses velhos, nos quais me espelho para o futuro não mais tão distante. Em qualquer um dos casos, consigo encontrar discernimento para perceber o quanto é sensacional que os filhos, que se acham tão centrais na vida de seus pais, a qualquer tempo, sejam colocados no seu devido lugar.

“Minha mãe (ou meu pai) virou criança.” Esta frase, corriqueira na boca de filhos que parecem exaustos, me provoca alguma desconfiança. Soa mais como uma tentativa de potência de filhos que estão se sentindo bem impotentes. Ou soa como uma tentativa de mostrar que sabem o que fazem ou para onde vão, quando de fato se encontram completamente perdidos. Até porque é uma marca do nosso tempo o retardamento da vida adulta, de preferência para sempre. E a velhice dos pais, os adultos por excelência, afunda todas as esperanças inconfessadas de ser adolescente para sempre em pelo menos um lugar no mundo.

Sinto compaixão por esses filhos, como senti pelos filhos dos velhos do cinema. Como senti por mim mesma à certa altura. Ao perceber que meus pais estavam envelhecendo, em determinado momento achei que tinha de assumir também o comando da vida deles. Considerei que, para ser uma boa filha, tinha de ter todas as respostas. Ou, invertendo o lugar, me apropriar do famigerado “eu sei o que é melhor para eles”. Aos poucos fui percebendo que estava me tornando uma chata pretensiosa. Com tanto medo que eles quebrassem que queria carregá-los no colo, mas minha estropiada coluna vertebral mal dá conta de sustentar meu próprio peso.
Com a gentileza que lhes é peculiar, meus pais escutavam meus palpites e minhas pregações e, claro, faziam exatamente o que queriam. Devagar fui me dando conta de que era só o que faltava ter vivido e experimentado tanto para chegar à velhice e ter de suportar uma filha tentando mandar neles. Percebi que o importante era estar por perto não só para o que fosse preciso, mas pelo prazer da companhia, e continuar capaz de escutá-los. Se precisam da minha ajuda, eles mesmos me dizem – não só com palavras, mas de maneiras mais sutis. E se fazem coisas que eu considero mais arriscadas, tanto a decisão quanto o risco continuam sendo deles, como sempre foram. Não por minha majestosa concessão, mas porque não tenho nenhum direito de impor qualquer vontade. Se depois de me tornar adulta eu nunca permiti que meus pais interferissem de forma autoritária na minha vida, por que é que eu me acharia no direito de me meter de forma autoritária na deles quando estão envelhecendo? Escutar de verdade ainda é o começo e o fim de qualquer relação de respeito mútuo – e de amor.

Mas nós, os filhos, nos atrapalhamos mesmo. E acho muito divertida a ironia com que somos tratados nessa sequência de filmes, mesmo quando não estamos. (Como assim não estamos, nós, tão centrais na vida dos pais? Que horror!) Alguns se atrapalham porque se confrontar com a velhice dos pais é se confrontar com a certeza de que não há mais jeito de escapar da vida adulta. E, para quem achou que poderia continuar sendo filho para sempre, é uma complicação virar gente grande de uma hora pra outra. Ao tentar dar ordens aos pais, esses filhos na verdade estão dizendo: “Não me deixem sozinho nesse mundo tão ameaçador. Não me desamparem!”. E a irritação que manifestam diante das limitações dos pais muitas vezes é um jeito tosco de disfarçar o pavor que sentem diante do desamparo iminente. Isso para alguns.

Para todos a velhice dos pais anuncia a própria velhice. É talvez o primeiro grande confronto com a fragilidade e com a finitude. Os filhos que olham aterrorizados para os passos claudicantes dos pais não temem apenas que eles caiam, mas principalmente que serão os próximos a ter pernas que vacilam. Ainda que não confessem nem para si mesmos, talvez seja este o maior horror. E este é um momento bem periclitante da vida. E quando isso se dá por volta dos 40, 50 anos, o confronto acontece quando o corpo está dando os primeiros sinais inequívocos de que já não somos tão jovens. É um duplo desafio, a velhice dos pais e o anúncio do próprio envelhecer. Que nem se compara, e isso também é preciso lembrar, com o desafio abissal que é ser velho – e ser velho nesse mundo em que, além de todas as dificuldades da idade, é preciso brigar para ser respeitado. E escutado.

Como já contei aqui, compartilho com um grupo de amigos o projeto de envelhecermos juntos num condomínio construído por nós em uma cidade pequena perto de uma grande. Uma cidade pequena por ser mais amigável a quem tem limitações físicas, sem contar que perder o pouco tempo de vida que resta empacado no trânsito não parece uma boa ideia. E perto de uma grande porque queremos continuar indo ao cinema, ao teatro, às livrarias e aos cafés e restaurantes, e numa cidade maior as alternativas gratuitas ou de baixo custo de eventos culturais são mais promissoras para quem vive de aposentadoria. Nossas casas terão fundos para um pátio comum, para o caso de querermos nos encontrar, e frente individual, para a rua. 

O pacto, já antigo entre nós, parte da ideia de envelhecer no mundo – e não apartado dele, como acontece com a velhice asilada – e perto de quem sabe de nós. Além de nos dar a possibilidade de amparar as dificuldades um do outro e de baratear os custos de manutenção. Neste sentido, nos aproximamos dos personagens de E se vivêssemos todos juntos?, mas com um pouco mais de privacidade.

Tenho encontrado gente na mesma faixa etária com projetos semelhantes com o seu grupo de amigos. E acredito que esta também é uma mudança importante. Acho que a minha geração está diante dessa questão como nenhuma outra. E tem aprendido algo importante com sua própria perplexidade diante da velhice dos pais. A questão dos meus pais, que sempre viveram com salário de professor, o que todo mundo sabe o que significa no Brasil, era fazer uma poupança para não depender dos filhos na velhice. A frase clássica dos pais bacanas, que hoje estão nos 70, 80 anos, é: “Não quero dar trabalho para os meus filhos dependendo deles”. Ou: “Não quero incomodar os meus filhos”.

A frase da minha geração – e que já se anuncia na boca dos velhos do cinema – é outra:
– Incomodar os meus filhos? Nem me importaria. O que não quero é que os meus filhos me incomodem!

UM BRAÇO DE MULHER - Rubem Braga

Subi ao avião com indiferença, e como o dia não estava bonito, lancei apenas um olhar distraído a essa cidade do Rio de Janeiro e mergulhei na leitura de um jornal. Depois fiquei a olhar pela janela e não via mais que nuvens, e feias. Na verdade, não estava no céu; pensava coisas da terra, minhas pobres, pequenas coisas. Uma aborrecida sonolência foi me dominando, até que uma senhora nervosa ao meu lado disse que "nós não podemos descer!". O avião já havia chegado a São Paulo, mas estava fazendo sua ronda dentro de um nevoeiro fechado, à espera de ordem para pousar. Procurei acalmar a senhora.
Ela estava tão aflita que embora fizesse frio se abanava com uma revista. Tentei convencê-la de que não devia se abanar, mas acabei achando que era melhor que o fizesse. Ela precisava fazer alguma coisa, e a única providência que aparentemente podia tomar naquele momento de medo era se abanar. Ofereci-lhe meu jornal dobrado, no lugar da revista, e ficou muito grata, como se acreditasse que, produzindo mais vento, adquirisse maior eficiência na sua luta contra a morte.
Gastei cerca de meia hora com a aflição daquela senhora. Notando que uma sua amiga estava em outra poltrona, ofereci-me para trocar de lugar, e ela aceitou. Mas esperei inutilmente que recolhesse as pernas para que eu pudesse sair de meu lugar junto à janela; acabou confessando que assim mesmo estava bem, e preferia ter um homem — "o senhor" — ao lado. Isto lisonjeou meu orgulho de cavalheiro: senti-me útil e responsável. Era por estar ali eu, um homem, que aquele avião não ousava cair. Havia certamente piloto e co-piloto e vários homens no avião. Mas eu era o homem ao lado, o homem visível, próximo, que ela podia tocar. E era nisso que ela confiava: nesse ser de casimira grossa, de gravata, de bigode, a cujo braço acabou se agarrando. Não era o meu braço que apertava, mas um braço de homem, ser de misteriosos atributos de força e proteção.
Chamei a aeromoça, que tentou acalmar a senhora com biscoitos, chicles, cafezinho, palavras de conforto, mão no ombro, algodão nos ouvidos, e uma voz suave e firme que às vezes continha uma leve repreensão e às vezes se entremeava de um sorriso que sem dúvida faz parte do regulamento da aeronáutica civil, o chamado sorriso para ocasiões de teto baixo.
Mas de que vale uma aeromoça? Ela não é muito convincente; é uma funcionária. A senhora evidentemente a considerava uma espécie de cúmplice do avião e da empresa e no fundo (pelo ressentimento com que reagia às suas palavras) responsável por aquele nevoeiro perigoso. A moça em uniforme estava sem dúvida lhe escondendo a verdade e dizendo palavras hipócritas para que ela se deixasse matar sem reagir.
A única pessoa de confiança era evidentemente eu: e aquela senhora, que no aeroporto tinha certo ar desdenhoso e solene, disse suas malcriações para a aeromoça e se agarrou definitivamente a mim. Animei-me então a pôr a minha mão direita sobre a sua mão, que me apertava o braço. Esse gesto de carinho protetor teve um efeito completo: ela deu um profundo suspiro de alívio, cerrou os olhos, pendeu a cabeça ligeiramente para o meu lado e ficou imóvel, quieta. Era claro que a minha mão a protegia contra tudo e contra todos, estava como adormecida.
O avião continuava a rodar monotonamente dentro de uma nuvem escura; quando ele dava um salto mais brusco, eu fornecia à pobre senhora uma garantia suplementar apertando ligeiramente a minha mão sobre a sua: isto sem dúvida lhe fazia bem.
Voltei a olhar tristemente pela vidraça; via a asa direita, um pouco levantada, no meio do nevoeiro. Como a senhora não me desse mais trabalho, e o tempo fosse passando, recomecei a pensar em mim mesmo, triste e fraco assunto.
E de repente me veio a idéia de que na verdade não podíamos ficar eternamente com aquele motor roncando no meio do nevoeiro - e de que eu podia morrer.
Estávamos há muito tempo sobre São Paulo. Talvez chovesse lá embaixo; de qualquer modo a grande cidade, invisível e tão próxima, vivia sua vida indiferente àquele ridículo grupo de homens e mulheres presos dentro de um avião, ali no alto. Pensei em São Paulo e no rapaz de vinte anos que chegou com trinta mil-réis no bolso uma noite e saiu andando pelo antigo viaduto do Chá, sem conhecer uma só pessoa na cidade estranha. Nem aquele velho viaduto existe mais, e o aventuroso rapaz de vinte anos, calado e lírico, é um triste senhor que olha o nevoeiro e pensa na morte.
Outras lembranças me vieram, e me ocorreu que na hora da morte, segundo dizem, a gente se lembra de uma porção de coisas antigas, doces ou tristes. Mas a visão monótona daquela asa no meio da nuvem me dava um torpor, e não pensei mais nada. Era como se o mundo atrás daquele nevoeiro não existisse mais, e por isto pouco me importava morrer. Talvez fosse até bom sentir um choque brutal e tudo se acabar. A morte devia ser aquilo mesmo, um nevoeiro imenso, sem cor, sem forma, para sempre.
Senti prazer em pensar que agora não haveria mais nada, que não seria mais preciso sentir, nem reagir, nem providenciar, nem me torturar; que todas as coisas e criaturas que tinham poder sobre mim e mandavam na minha alegria ou na minha aflição haviam-se apagado e dissolvido naquele mundo de nevoeiro.
A senhora sobressaltou-se de repente e muito aflita começou a me fazer perguntas. O avião estava descendo mais e mais e entretanto não se conseguia enxergar coisa alguma. O motor parecia estar com um som diferente: podia ser aquele o último e desesperado tredo ronco do minuto antes de morrer arrebentado e retorcido. A senhora estendeu o braço direito, segurando 0 encosto da poltrona da frente, e então me dei conta de que aquela mulher de cara um pouco magra e dura tinha um belo braço, harmonioso e musculado.
Fiquei a olhá-lo devagar, desde o ombro forte e suave até as mãos de dedos longos. E me veio uma saudade extraordinária da terra, da beleza humana, da empolgante e longa tonteira do amor. Eu não queria mais morrer, e a idéia da morte me pareceu tão errada, tão feia, tão absurda, que me sobressaltei. A morte era uma coisa cinzenta, escura, sem a graça, sem a delicadeza e o calor, a força macia de um braço ou de uma coxa, a suave irradiação da pele de um corpo de mulher moça.
Mãos, cabelos, corpo, músculos, seios, extraordinário milagre de coisas suaves e sensíveis, tépidas, feitas para serem infinitamente amadas. Toda a fascinação da vida me golpeou, uma tão profunda delícia e gosto de viver uma tão ardente e comovida saudade, que retesei os músculos do corpo, estiquei as pernas, senti um leve ardor nos olhos. Não devia morrer! Aquele meu torpor de segundos atrás pareceu-me de súbito uma coisa doentia, viciosa, e ergui a cabeça, olhei em volta, para os outros passageiros, como se me dispusesse afinal a tomar alguma providência.
Meu gesto pareceu inquietar a senhora. Mas olhando novamente para a vidraça adivinhei casas, um quadrado verde, um pedaço de terra avermelhada, através de um véu de neblina mais rala. Foi uma visão rápida, logo perdida no nevoeiro denso, mas me deu uma certeza profunda de que estávamos salvos porque a terra existia, não era um sonho distante, o mundo não era apenas nevoeiro e havia realmente tudo o que há, casas, árvores, pessoas, chão, o bom chão sólido, imóvel, onde se pode deitar, onde se pode dormir seguro e em todo o sossego, onde um homem pode premer o corpo de uma mulher para amá-la com força, com toda sua fúria de prazer e todos os seus sentidos, com apoio no mundo.
No aeroporto, quando esperava a bagagem, vi de perto a minha vizinha de poltrona. Estava com um senhor de óculos, que, com um talão de despacho na mão, pedia que lhe entregassem a maleta. Ela disse alguma coisa a esse homem, e ele se aproximou de mim com um olhar inquiridor que tentava ser cordial. Estivera muito tempo esperando; a princípio disseram que o avião ia descer logo, era questão de ficar livre a pista; depois alguém anunciara que todos os aviões tinham recebido ordem de pousar em Campinas ou em outro campo; e imaginava quanto incômodo me dera sua senhora, sempre muito nervosa. "Ora, não senhor." Ele se despediu sem me estender a mão, como se, com aqueles agradecimentos, que fora constrangido pelas circunstâncias a fazer, acabasse de cumprir uma formalidade desagradável com relação a um estranho - que devia permanecer um estranho.
Um estranho — e de certo ponto de vista um intruso, foi assim que me senti perante aquele homem de cara desagradável. Tive a impressão de que de certo modo o traíra, e de que ele o sentia.
Quando se retiravam, a senhora me deu um pequeno sorriso. Tenho uma tendência romântica a imaginar coisas, e imaginei que ela teve o cuidado de me sorrir quando o homem não podia notá-lo, um sorriso sem o visto marital, vagamente cúmplice. Certamente nunca mais a verei, nem o espero. Mas o seu belo braço foi um instante para mim a própria imagem da vida, e não o esquecerei depressa.

LIMITE - Fernanda Torres

“Não importa quão bem você faça uma coisa, 
haverá sempre um garoto asiático de 12 anos 
fazendo o mesmo, muito melhor do que você.” 

Meu filho mandou essa máxima da internet no carro, sentado ao meu lado, enquanto eu dirigia. Comecei a rir, olhando para o meu carioca da gema, formado, como a mãe, na melhor cepa das escolas construtivistas da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Quando ele nasceu, eu era dona de uma prepotência invejável com relação à sua educação. Desejava que meu guri fosse bilíngue e tivesse uma formação tradicional. Mas a vida conspirou contra os meus anseios. Eu queria me afastar do modelo da minha infância, quando as descobertas de Piaget seduziram a classe média de Ipanema. Cresci durante a ditadura militar, no seio de uma família de artistas, e qualquer cerceamento à liberdade pessoal era visto como autoritarismo. Hoje, creio no contrário, tenho medo justamente da liberdade que desconhece as regras e o sacrifício implícito para o domínio de qualquer virtude. Os pais dos amigos do meu filho se parecem comigo, sempre me senti amparada pelo corpo docente nas crises escolares, mas discordo da condescendência com que as obrigações do estudante são tratadas no ensino mais liberal. Sinto como se a escola tivesse transferido para mim a cobrança.

Servir de carrasca foi o preço que paguei por não ter tido coragem de matriculá-lo em uma instituição severa. Funcionou, ele aprendeu a estudar, mas não foi fácil. Lamento, também, que as línguas estrangeiras estejam em segundo plano no currículo do MEC, mas a ideia de criar alguém distante de sua própria cultura me afastou dos educandários estrangeiros. O ideal parece não existir. E olha que estou falando de uma classe privilegiada.

A deficiência na educação, tanto pública quanto privada, é o grande empecilho para o desenvolvimento do Brasil. A tragédia da exclusão social, a falência da saúde, a truculência policial, as estradas esburacadas, todas as infindáveis mazelas nacionais são forjadas em sala de aula.

Países como a Coreia do Sul saíram do buraco enfurnando suas crianças em internatos por sessenta horas semanais. A Ásia é regida pela harmonia de Confúcio. Lá, o bem-estar comum está acima do desejo do indivíduo.
A noção de sacrifício vem de berço. É um perfil que produz uma mão de obra altamente qualificada, mas também provoca altas taxas de suicídio infantil.
Um amigo, pai de dois filhos de mãe alemã, me explicou que por volta dos 11, 12 anos as crianças da Alemanha são submetidas a provas seletivas. Os resultados definirão se aquele aluno poderá se transformar em um médico, um maestro ou geólogo, ou se será chaveiro, marceneiro ou contador.
Pareceu-me cruel essa definição tão apressada de quem virará doutor e quem permanecerá artesão. “Mas são os melhores chaveiros do mundo”, argumentou meu amigo.

Dificilmente atingiremos a mestria dos adolescentes orientais ou a eficiência dos chaveiros da Germânia. Este é um país de degredados, de filhos sem pai. As crianças imperam, o que eu não acho triste, mas as noções de dever e responsabilidade, muitas vezes, parecem estranhas a nós.

Em 1808, de Laurentino Gomes, sobre a vinda de dom João VI ao Brasil, Joaquim Marrocos, o homem incumbido de trazer a Biblioteca do Rei para o Rio, ficou horrorizado com o país vagabundo e ignorante que conheceu na chegada. Joaquim se casou, se apegou ao escravo, adquiriu outros e teve filhos. “A aversão a esse país [...] é um grande erro, de que há muito me considero despido. [...] Vivo em paz e abundância.” Dez anos depois, Marrocos havia descoberto o encanto e a crueldade da nossa sociedade imberbe.

João Ubaldo Ribeiro teve um pai terrível, que não aguentava conviver com um analfabeto dentro de casa, não interessando o fato de o pobre ter 5 anos de idade. Sob tamanha tensão, o escritor baiano aprendeu sozinho o bê-á-bá e se transformou em um dos homens mais cultos e inteligentes que conheço, mas foi incapaz de criar o filho Bento debaixo do mesmo chicote.

Oito anos depois da primeira experiência, tenho, agora, mais um rebento para matricular na escola. No lugar da prepotência, só ficaram as dúvidas. E bem abrangentes. São Bento ou Sá Pereira? Eis a questão.

A MENINA QUEBRADA - Eliane Brum

Uma carta para Catarina,
que descobriu que até as crianças quebram

Era uma festa. Comemorávamos a vinda de um bebê que ainda morava na barriga da mãe. Eu havia acabado de segurá-la para que ela passasse a pequena mão na água da fonte do jardim. Ela tentava colocar o dedo gorducho no buraco para que a água se espalhasse, como tinha visto uma criança mais velha fazer. Parecia encantada com a possibilidade de controlar a água. Tem 1 ano e oito meses, cabelos cacheados que lhe dão uma aparência de anjo barroco e uns olhos arregalados. Com olheiras, Catarina é um bebê com olheiras, embora durma bem e muito. De repente, ela enrijeceu o corpo e deu um grito: “A menina.... A menina.... Quebrou”.

Era um grito de horror. O primeiro que eu ouvia dela. Animação, manha, dor física, tudo isso eu já tinha ouvido de sua boca bonita. Aquele era um grito diferente. Não parecia um tom que se pudesse esperar de alguém que ainda precisava se esforçar para falar frases completas. Catarina estava aterrorizada. “A menina... A menina...” Ela continuava repetindo. Olhei para os lados e demorei um pouco a enxergar o que ela tinha visto em meio à tanta gente. Uma garota, de uns 10, 12 anos, talvez, com uma perna engessada. “Quebrou...” Catarina repetia. “A menina... quebrou.”

Ela não olhava para mim, como costuma fazer quando espera que eu esclareça alguma novidade do mundo. Era mais uma denúncia. Pelo resto da festa, ela gritou a mesma frase, no mesmo tom aterrorizado, sempre que a menina quebrada passava por perto. Nos aproximamos da garota, para que Catarina pudesse ver que ela parecia bem, e que os amigos se divertiam escrevendo e desenhando coisas no gesso, mas nada parecia diminuir o seu horror. Os adultos próximos tentaram explicar a ela que era algo passageiro. Mas ela não acreditava. Naquele sábado de janeiro Catarina descobriu que as pessoas quebravam.

Eu a peguei, olhei bem para ela, olho no olho, e tentei usar minha suposta credibilidade de madrinha: “A menina caiu, a perna quebrou, agora a perna está colando, e depois ela vai voltar a ser como antes”. Catarina me olhou com os olhos escancarados, e eu tive a certeza de que ela não acreditava. Ficamos nos encarando, em silêncio, e ela deve ter visto um pouco de vergonha no assoalho dos meus olhos. Era a primeira vez que eu mentia pra ela. E dali em diante, ela talvez intuísse, as mentiras não cessariam. Naquela noite, depois da festa, fui dormir envergonhada.

O que eu poderia dizer a você, Catarina? A verdade? A verdade você já sabia, você tinha acabado de descobrir. As pessoas quebram. Até as meninas quebram. E, se as meninas quebram, você também pode quebrar. E vai, Catarina. Vai quebrar. Talvez não a perna, mas outras partes de você. Membros invisíveis podem fraturar em tantos pedaços quanto uma perna ou um braço. E doer muito mais. E doem mais quando são outros que quebram você, às vezes pelas suas costas, em outras fazendo um afago, em geral contando mentiras ou inventando verdades. Gente cheia de medo, Catarina, que tem tanto pavor de quebrar, que quebram outros para manter a ilusão de que são indestrutíveis e podem controlar o curso da vida. E dão nomes mais palatáveis para a inveja e para o ódio que os queima. Mas à noite, Catarina, à noite, eles sabem.

E, Catarina, você tem toda a razão de duvidar. Depois de quebrar, nunca mais voltamos a ser como antes. Haverá sempre uma marca que será tão você quanto o tanto de você que ainda não quebrou. Viver, Catarina, é rearranjar nossos cacos e dar sentido aos nossos pedaços, os novos e os velhos, já que não existe a possibilidade de colar o que foi quebrado e continuar como era antes. E isso é mais difícil do que aprender a andar e a falar. Isso é mais difícil do que qualquer uma das grandes aventuras contadas em livros e filmes. Isso é mais difícil do que qualquer outra coisa que você fará.

Existe gente, Catarina, que não consegue dar sentido, ou acha que os farelos de sentido que consegue escavar das pedras são insuficientes para justificar uma vida humana, e quebra. Quebra por inteiro. Estes você precisa respeitar, porque sofrem de delicadeza. E existe gente, Catarina, que só é capaz de dar um sentido bem pequenino, um sentido de papel, que pode ser derrubado mesmo com uma brisa. E essa brisa, Catarina, não pode ser soprada pela sua boca. Ser forte, Catarina, não é quebrar os outros, mas saber-se quebrado. É ser capaz de cuidar de seus barcos de papel – e também dos barcos dos outros – não como uma criança que os imagina poderosos, de aço. Mas sabendo que são de papel e que podem afundar de repente.

Não, acho que eu não poderia ter dito isso a você, Catarina. Não naquela noite, não agora. Ao lhe assegurar, cheia de autoridade de adulto, que tudo estava bem com a menina quebrada, com qualquer e com todas as meninas quebradas, o que eu dei a você foi um vislumbre da minha abissal fragilidade. Esta, Catarina, é uma verdade entre as tantas mentiras que lhe contei, ao tentar fazer com que acreditasse que eu seria capaz de proteger você. Vai chegar um momento, se é que já não houve, em que você vai olhar para todos nós, seus pais, seus “dindos”, seus avós e tios, e vai perceber que nós todos vivemos em cacos. E eu espero que você possa nos amar mais por isso.



Essa conversa, Catarina, está apenas adiada. Talvez, daqui a alguns anos, você precise me perguntar como se faz para viver quebrada. Ou por que vale a pena viver, mesmo se sabendo quebrada. E eu vou lhe contar uma história. Ela aconteceu alguns dias depois daquela festa em que você descobriu que até as meninas quebram. Nós estávamos na fila do caixa do supermercado perto de casa, com uma cesta cheia de compras, e havia um homem atrás de nós. Era um homem vestido com roupas velhas e sujas, parte delas quase farrapos. E ele cheirava mal. Poderia ser alguém que dorme na rua, ou alguém que se perdeu na rua por uns tempos. Ficamos com medo de que o segurança do supermercado tentasse tirá-lo dali, ou que a caixa o tratasse com rispidez, ou que as outras pessoas na fila começassem a demonstrar seu desconforto, como sabemos que acontece e que jamais poderia acontecer. Enquanto pensávamos nisso, ele nos abordou. E pediu, com toda a educação, mas com os olhos dolorosamente baixos: “Por favor, será que eu poderia passar na frente, porque tenho pouca coisa?”.

Quando lhe demos passagem, vimos que o homem não tinha pouca coisa. Ele só tinha uma. Sabe o que era, Catarina?

Um sabonete. Era o que havia entre as mãos de unhas compridas e sujas, junto com algumas moedas e notas amassadas, como em geral são as notas que valem pouco. Aquele homem, que parecia ter perdido quase tudo, aquele homem talvez ainda mais quebrado que a maioria, porque tinha perdido também a possibilidade de esconder suas fraturas, o que ele fez? Quando conseguiu juntar uns trocados, o que ele escolheu comprar? Um sabonete.

Catarina, talvez um dia, daqui a alguns anos, você volte a me olhar nos olhos e a dizer: “A menina... quebrou”. Ou: “Eu... quebrei”. E talvez você me pergunte como continuar ou por que continuar, mesmo quebrada. E eu vou poder lhe dizer, Catarina, pelo menos uma verdade: “Por causa do sabonete”.

A FAMOSA SAMANTA - Luis Fernando Verissimo

Quer dizer que eu finalmente vou conhecer a famosa Samanta... ― disse Gustavo.
― Você vai amar a Samanta, Gu! ― disse Suzaninha.
Suzaninha não parara de sorrir desde que recebera o telefonema da irmã dizendo que chegaria no dia seguinte e ficaria com eles. Samanta não era apenas sua irmã mais velha. Era o seu ídolo. Gustavo já cansara de ouvir as histórias da Samanta que Suzaninha contava com os olhos brilhando. Samanta fumando na mesa para desafiar o pai, e apagando o cigarro no pudim para escandalizar a mãe. Samanta namorando três ao mesmo tempo e tratando os namorados como empregados ("Homem só serve para carregar peso" era uma das suas frases). Samanta não apenas aderindo a todas as causas nobres como assumindo a liderança do movimento. Samanta mandando em todos à sua volta, e sempre conseguindo o que queria. Samanta brilhante. Samanta fantástica. Samanta irresistível.Gustavo não estava em casa quando Samanta chegou. Suzaninha abraçou a irmã, emocionada, mas Samanta a afastou, examinou seu rosto e sua roupa e decretou:
― Você está péssima.
― Você está linda!
― Esse seu marido não cuida de você, não? 
― Cuida. Ele é formidável. Você vai ver.
E depois:
― Você vai amar o Gustavo, Sam!
Samanta dormiria numa cama de armar na salinha do computador do Gustavo, que desocupara uma das suas estantes para a cunhada pôr suas coisas. Depois de examinar todo o apartamento com uma leve expressão de nojo ("Pequeno, não é?"), Samanta se atirara numa poltrona, aceitara uma bebida ("Coca daiti com uma rodela de limão e pouco gelo") e passara a fazer um relatório de casa, onde, para resumir, continuava tudo a mesma merda, inclusive o pai e a mãe. A novidade era ela. 
Samanta tinha um plano.  
― Suzeca, decidi ter um filho.― O quê?!
― Um filho. Você sabe, aquelas coisas que saem de dentro da gente e fazem barulho.
― Mas assim, sem mais nem menos? Suzana queria dizer "sem casamento nem marido?" 
― Sem mais nem menos, não. Será uma coisa muito bem planejada. Para começar, preciso encontrar o homem ideal. É para isso que estou aqui.
― Não era você que dizia que homem só serve para carregar peso? 
― E segurar a porta. Era. Mas reavaliei meus conceitos. Também servem como reprodutores, até que inventem coisa melhor. Segundo Samanta, só os mortos nunca mudavam de filosofia. Samanta pôs-se a descrever o homem que procurava. O físico. O temperamento. O jeito de ser. O posicionamento político ("De esquerda, mas não muito"). E quanto mais Samanta falava, mais Suzaninha tentava controlar o pensamento que a assolava, o vazio no seu estômago que aumentava, a certeza que crescia. Mas não havia como evitar a conclusão aterradora: Samanta procurava um homem como Gustavo. E Samanta sempre conseguia o que queria. Quando finalmente Samanta disse "Mas chega de falar de mim, me conte sobre você, Suzeca. Você sente muito a minha falta?" 
Suzana tinha decidido o que fazer. E quando Samanta comentou que Gustavo estava custando a chegar, que não podia esperar para conhecer o famoso Gustavo, disse:
― Eu me esqueci. Hoje ele tinha médico.
― Médico? Algum problema? 
― Nada demais. Quer dizer, é chato mas...
― Suzeca. Não me diz que...
Suzaninha fez que "sim" com a cabeça. Sim, era o que Samanta estava pensando.
― Disfunção erétil ― Suzeca! Mas hoje existem esses remédios...
― Nada funciona com o Gustavo. 
Quando Gustavo chegou, deu com as duas irmãs abraçadas no sofá, Samanta acariciando a cabeça de Suzaninha e dizendo:
― Suzeca, Suzeca...
Durante o jantar, Suzaninha viu Samanta examinando Gustavo e pensou: "Ela deve estar pensando ele é tudo que eu queria, mas não serve, maldição, não serve, pobre da Suzaninha." E Samanta, examinando Gustavo, pensou "Hmmm, essa disfunção erétil eu curo, ah se não curo". 
Pois Samanta não apenas descobrira o reprodutor que queria, também descobrira outra causa nobre. Suzaninha ainda a agradeceria.

REJEIÇÃO E CULPA - Danuza Leão


Não é preciso muita coisa para que a gente se sinta rejeitado. A tendência natural é pensar que ninguém gosta da gente, ou pelo menos não tanto quanto se precisa. E disso se precisa muito. Começando pelo básico: alguém acha que é -ou foi- amado suficientemente pelo pai e pela mãe?Claro que não. E aquele dia em que os dois saíram para jantar fora e ir ao cinema? Você, com cinco anos e resfriado, queria que eles ficassem a seu lado, contando uma história, e dessa noite nunca se esqueceu.
É a maior prova de que eles jamais gostaram de você. E quando eles se separaram, a culpa não foi toda sua? E quando o pai, já separado, foi convidado para aquele fim de semana de sonho, e propôs trocar o tal fim de semana que ia passar com o filho; ele se sentiu tão rejeitado e abandonado quanto um menino de rua, e o pai vai passar o fim de semana -e o resto da vida- massacrado pela culpa. As crianças vão para o analista se queixar dos pais, os pais vão para o analista para dizer que foram péssimos pais, e assim la nave va.
Mas um dia essas crianças crescem, se casam, têm seus filhos, se separam, se apaixonam e agem com seus filhos exatamente como seus pais agiram com ele. Vão todos para o analista, claro, e aos 50, 60 anos, continuam se queixando; um de ter sido rejeitado, o outro sofrendo por não ter dado mais atenção aos filhos. Todos têm razão, claro, mas querer que um pai ou uma mãe aos 25, 30 anos, em plena juventude, com os hormônios explodindo, passem as noites em casa contando histórias para os filhos na hora de dormir é contra qualquer lei da natureza, e um dia eles vão entender. Qual seria a solução? Ter filhos aos 40, depois de ter feito todas as loucuras? Não sei.
Para um filho, os pais devem amá-lo sobre todas as coisas, e dedicar todos os momentos de sua vida a ele. Eu conheço um que, aos 45, leva a namorada para a praia para vê-lo surfar, e ai dela se se virar para pegar um sol nas costas. E ai daquele pai que uma noite não pode passar uma hora jogando um joguinho na televisão porque precisa entregar um trabalho no dia seguinte. Se tiver marcado um cinema, esse filho, aos 40, ainda vai lembrar do assunto, achando que seu pai e sua mãe não foram como deveriam ter sido -e sofrendo, claro.
Queremos atenção total dos que nos cercam, sobretudo quando somos crianças, e quando envelhecermos é que vamos saber o que é falta de atenção de verdade. Para que isso não aconteça, é preciso ter vida própria, e desde cedo. Mas quantos momentos teriam sido tão bons, se mãe e filho pudessem se dizer francamente "naquele dia quase te matei, de tanta raiva", e darem uma boa risada, lembrando. Porque isso acontece, entre pessoas normais.  E falar também dos momentos, jamais verbalizados, em que a mãe amou -e ama- esse filho loucamente, mais que qualquer coisa na vida, e que depois que ele cresceu nunca mais disse, porque não faz parte da nossa cultura fazer declaração de amor a filho grande, até porque ele é o primeiro a não querer ouvir essas coisas depois que cresce, olha que mundo mais louco.
 
Ah, se a gente pudesse botar eles no colo quando desconfia que estão tristes, e abraçar, apertar, cobrir de beijos, como quando eram pequenos; mas como eles cresceram, não se pode. Mas ah, se eles soubessem; ah, se a gente conseguisse dizer.

CORA RÓNAI - 60 anos: já?!

Não posso dizer que tenha sido uma surpresa, mas foi um susto: fiz, ontem(31 de julho de 2013), 60 anos. Não lido bem com datas redondas, e essa, então, me parece singularmente emblemática. Os amigos que já passaram por isso garantem que não é nada, que não dói e que tem até vantagens, como fila especial no banco, meia entrada no cinema e no teatro e passagem grátis no ônibus; mas só de saber delas sinto vontade de sair correndo de volta para os 59, que até a semana passada me pareciam muitos, mas hoje parecem tão poucos e bons. Mais um pouco e alguém vai me recomendar hidroginástica e dança de salão.

Conceição Giancoli, amiga do Facebook, foi a mais realista: “Como já fiz 72 lhe digo: não entre na fila de idosos nos bancos, é a mais lenta, não pague meia nos teatros, é humilhante, se entrar no metrô fique de pé, as crianças precisam descansar. Lembre-se, nada mudou.”

Um dos meus orgulhos é fazer anos junto com Harry Potter. Ele é do dia 31 de julho porque J. K. Rowlings também é. Engraçado como o personagem, nesse caso, é muito mais importante para mim do que sua autora — nunca me passaria pela cabeça comemorar o fato de que faço anos no mesmo dia que ela. Go figure.

Eu cantava “Não confie em ninguém com mais de 30 anos”, e Mamãe, que sempre soube das coisas, me advertia para o fato de que, se a sorte me sorrisse, eu passaria muito mais tempo com mais de 30 do que com os 15 que tinha até então. Eu sabia por saber, mas não acreditava. Mesmo aos 27, quando joguei tudo para o alto e comecei a Vida 2.0, os 30 ainda pareciam distantes, muito distantes. Não sou boa de matemática, mas 60 é duas vezes 30. Socorro!

As casas envelhecem junto com seus habitantes. A tinta desbota, os interruptores viram curiosidade arqueológica, a decoração lembra revistas de muitos anos atrás. E o banheiro? Quando dá infiltração é preciso caçar peças no cemitério dos azulejos: brrrrr!

Tento, na medida do possível, evitar que meu apartamento compartilhe a minha sorte. Não há muito que eu possa fazer em relação ao conteúdo: ele tem uma estrutura mental já definida, que é a configuração dos móveis e, sobretudo, das estantes, e tem as suas memórias, que são as minhas — os quadros, os móveis escolhidos ao longo do tempo, as coisinhas que eu fui trazendo dos lugares que visitei, o Ganesha enorme e colorido do escritório, o frágil pirarucu de Parintins que virou a obsessão das crianças, que cismam em brincar com aquele peixe que a vó não deixa pegar.

Tenho inveja de quem consegue viver em ambientes quase vazios, sem rastros, assim como tenho inveja de quem consegue se manter magra. Meu apartamento tem chances de conseguir, um dia, essa vida elegante, mas não estarei aqui para ver. Até lá, teremos que enfrentar os anos com a possível galhardia e os ajustes necessários.

Pensando nisso, chamei um eletricista, há três meses, para rever as instalações elétricas, trocar tomadas e interruptores, renovar o quadro de luz. Queria me dar de aniversário o presente de uma casa aggiornata.

Fiz orçamentos, um mais cabeludo do que o outro. O homem que começou a obra era simpático; todos os incompetentes que chegam recomendados são simpáticos. Todos os vigaristas também. Simpatia não é qualidade de currículo para eletricista, mas isso a gente só descobre quando descobre.

O moço simpático era mentiroso, enrolão, incompetente. Faltava mais do que vinha, chegava ao meio-dia, dava desculpas ridículas e infantis, mandava a mulher ligar em seu nome. Em vez de começar e terminar um ponto para seguir em frente, começava tudo mais ou menos ao mesmo tempo e não acabava nada. Um dia fiquei tão irritada com as suas patranhas que o toquei porta afora. De lá para cá, tomei juízo, pedi laudo a um engenheiro elétrico e, num futuro oxalá próximo, terei o eletricista da sua confiança refazendo as barbeiragens daquele sergiocabral da construção civil.

Resultado: nos meus 60 anos, minha pobre casinha está com cara de 80. Pintura arrebentada em vários lugares, interruptores sem espelho, lâmpadas penduradas onde antes existiam lustres, maçarocas de fios saindo dos cantos mais improváveis — um retrato perfeito da sua dona, que está precisando de tantos remendos que só vai chegar aos 61 aos 65.

O melhor presente que ganhei — um pouco adiantado — foi Frida Gahto, a gatinha maltratada que a Bia resgatou e que, depois de duas cirurgias e de muitos cuidados, está uma lindeza, gordinha, saudável, cheia de atitude. Frida ficou tão traumatizada, coitada, que tem medo de todo mundo — mas me conferiu o privilégio da sua confiança e do seu carinho. Sempre que ela vem para o meu colo me sinto uma pessoa poderosa, especial, digna da distinção única que é o amor de um bicho.

Isso, felizmente, não muda nunca.

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