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NATAL, A ESTÓRIA DO MENININHO - Rubem Alves

Minhas netas: o Natal está chegando. Todo mundo fica agitado, é preciso comprar presentes no cartão de crédito, fazer dívidas a serem pagas no outro ano, preparar comilanças... Mas, afinal de contas, por que tanto agito? Eu acho que a maioria se agita sem saber porque. E, se soubessem, não se agitariam... Pois eu vou dizer o que penso do por que do Natal. O Natal é o dia em que se para tudo a fim de se contar e a fim de se ouvir uma estória, a mais bela e a mais simples jamais contada. Todo esse agito por causa de uma estória? É. 

Vocês, que gostam do Harry Potter, fiquem sabendo: a estória do Natal é uma estória do mundo dos mágicos, dos bruxos, das fadas, das varinhas de condão, dos encantamentos. As estórias têm poderes mágicos. Vocês já notaram que, quando a gente ouve uma estória que nos comove, ela entra dentro da gente, faz a gente rir, faz a gente chorar, faz a gente amar, faz a gente ficar com raiva? As estórias dos mundos dos mágicos saltam das páginas dos livros onde estão escritas, entram dentro da gente e se alojam no coração. 


Quando isso acontece a estória fica viva, toma conta do nosso corpo e da nossa alma, e nós passamos a ser parte dela. Pois a estória do Natal faz isso com a gente. Quando vai chegando o Natal eu fico com saudade das músicas antigas de Natal (tem de ser das antigas; as modernas não servem) e começo a folhear meus livros de arte, onde estão as pinturas do presépio. É muito simples: um menininho que nasceu em meio aos bois, vacas, ovelhas, cavalos, jumentos... Era menininho pobre. 


Mas diz a estória que quando ele nasceu aconteceu uma mágica com o mundo: tudo ficou diferente: as árvores se cobriram de vaga-lumes, as estrelas brilharam com um brilho mais forte, e até uns reis deixaram os seus palácios e foram ver o nenezinho. A visão do menininho os transformou: eles largaram suas coroas, jóias e mantos de veludo junto com os bichos, na estrebaria. Quem vê o menininho fica curado de perturbação. Perturbados são os adultos que, ao falar sobre Deus, imaginam um ser muito grande, muito poderoso, muito terrível, ameaçador, sempre a vigiar o que fazemos para castigar. 


Pois o Natal diz que isso é mentira. Porque Deus é uma criancinha. Ele está muito mais próximo de vocês do que dos adultos. E foi essa mesma criancinha que, depois de crescida, disse que para estar com Deus bastava voltar a ser criança. Se os adultos, antes de comprar presentes e preparar ceias, se lembrassem da estória, eles ficariam curados da sua doidice. Na noite do Natal que se aproxima, antes de abrir os presentes, antes de começar a comedoria, peça ao seu pai ou à sua mãe: “Por favor, conte a estória do menininho...“ E, se eles não souberem contar, peça que eles leiam esse poema sobre o Menino Jesus escrito por um poeta que queria ser menino, por nome de Alberto Caeiro.

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver.
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro.
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta.
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales.
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?
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A MEDIDA DA FELICIDADE - Hélio Schwartsman

Faz sentido a proposta de criar um índice de felicidade para orientar as ações do poder público. Idealmente, ele substituiria medidas mais grosseiras, como o PIB per capita, e iria além do Índice de Desenvolvimento Humano.

A rigor, a ideia nem é nova. Já no século 4º a.C., Aristóteles afirmou que a "eudaimonía" (felicidade) é o fim de toda ação humana. Jeremy Bentham (1748-1832) não só definiu que a meta das políticas públicas era promover o bem-estar como fez a primeira tentativa de calculá-lo.

Thomas Jefferson (1743-1826) pôs a "busca pela felicidade" entre os direitos inalienáveis elencados na Declaração de Independência dos EUA, ao lado da vida e liberdade.

A grande dificuldade era encontrar meios de medir a felicidade. Isso começou a mudar na segunda metade do século passado, com a proliferação de pesquisas sobre o tema.

Acadêmicos agindo na interseção entre economia, psicologia e sociologia estudaram o impacto de fatores como dinheiro, emprego, liberdade, ambiente e filhos na percepção de bem-estar do indivíduo e chegaram a conclusões interessantes.

O dinheiro é importante, mas só até certo ponto. Depois de determinado valor (US$ 100 mil anuais nos EUA), incrementos na renda não trazem mais felicidade. Ter emprego, liberdade, saúde e relações sociais eleva o bem-estar. Barulho, trânsito e brigas com familiares o reduzem. E, pior, não nos habituamos a essas situações. Contra intuitivamente, ganhar na loteria não traz efeitos duradouros. O felizardo logo se acostuma à nova condição. Já filhos, segundo quatro estudos, trazem infelicidade.

Juntar tudo isso num valor numérico é o desafio. Para tornar tudo mais complicado, o nível de felicidade que cada um experimenta é, em larga medida, hereditário. Outro problema é que o eu autobiográfico, que responde às perguntas, nem sempre concorda com o eu senciente, que experimenta os prazeres e as dores.
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A VIDA COMO ELA PODE SER - Cláudia Penteado

 “Aqui se passa fome, aqui se odeia, 
aqui se é feliz, 
no meio de invenções miraculosas.”  
(Adélia Prado)

As festas de fim de ano – puxa, que bom que acabaram – sempre me fazem refletir a respeito das escolhas que fazemos diariamente. 

Até a minha adolescência, Natal e réveillon foram momentos de confraternização familiar sem precedentes, com festas, viagens e bons encontros. A separação dos meus pais transformou essa época do ano em algo bem próximo do inferno, quando escolhas tinham que ser feitas e o resultado quase sempre era um bocado de dor de cabeça. Com o tempo, as escolhas de fim de ano passaram a recair invariavelmente em estar o mais longe possível de qualquer um dos “lados” da família que eu agora só “administrava”, elegendo novos destinos junto a novas famílias – as dos namorados. Nelas não havia dúvidas, divisões, lembranças saudosistas, comparações, culpa ou cobrança. Apenas a leve sensação do desprendimento e o reconfortante não-pertencimento.

Faz parte do crescimento eleger quem entra para a nossa família – a escolhida, aquela que parece não carregar consigo problemas ou ressentimentos. O que fazemos, na realidade, é ir atrás de escolhas que nos  afastem do sofrimento. Caímos no velho clichê de que toda família é problema e não perdemos tempo no resgate daquilo que para nós já é visto como irresgatável. Batalha perdida sem sequer entrar em campo. Como tudo na vida, família dá mesmo trabalho, e como já trabalhamos muito para ganhar nosso sustento e tentar levar uma existência minimamente digna, tudo o que não queremos é ter mais trabalho nas outras frentes das nossas vidas.
Hoje me vejo num barco parecido: novas escolhas feitas recaem em novas famílias e fito os olhinhos questionadores da minha filha de 10 anos que – a partir desse ano – passará suas festas de fim de ano revezando entre papai e mamãe. Andei, andei, e estacionei no mesmo lugar?  Não. O que eu desejo para ela, é que não se sinta culpada porque não passou Natal com a mamãe, ou vai passar o réveillon longe do papai. Em primeiro lugar, isso depende de um pacto bem amarrado de amizade e admiração entre os pais dela – claro. O que inclusive permitiu que ela pudesse passar muitos Natais com papai e mamãe juntos, mesmo depois de separados. Sim, é possível escrever uma história diferente da minha – mas dá muito trabalho. A partir de agora, o que eu quero é que embora não esteja com papai e mamãe juntos nas festas de fim de ano, ela tenha a oportunidade de escolher sem a sensação de Sofia no clássico de William Styron. Cabe aos adultos – que, afinal de contas, a colocamos nesse lugar – não lhe causar sofrimento desnecessário com nossas carências e as próprias culpas não resolvidas.

Mas mais do que isso, o que eu gostaria de mostrar para ela é que, sim, escolher é crescer. Escolher fará parte de cada momento da sua vida, para sempre. E que nem sempre escolher o mais fácil a fará mais feliz.
A frase é batida, mas a vida não tem mesmo ensaio. Ou seja, “já é”, como dizem hoje em dia. Uma professora de literatura, Elizabeth Duque Estrada, vai ainda mais longe e costuma dizer que vivemos nossas muitas reencarnações em vida.

Diante disso, escolher o difícil nos ensina a construir bases fortes, a ganhar musculatura. Desistir da família e correr para a casa de um namorado ou de uma amiga qualquer pode parecer um alívio, em alguns momentos, mas nos tira a chance de amadurecer e investir energia e emoções em relações que, sim, podem valer à pena. Sim, família não é aquela que aparece nos nossos documentos e registros oficiais: são as relações que efetivamente cultivamos, nas quais investimos, nas quais escolhemos colocar energia. Mas a família dos registros oficiais também não é só problema. Hoje penso duas vezes antes de desistir de investir em relações humanas – sejam elas quais forem – porque encaro de frente as muitas fraquezas que eu mesma tenho, e as muitas e muitas vezes em que precisei que as pessoas que eu amo não desistissem de mim.

Claro que vou me esforçar para facilitar as escolhas da minha filha em relação a mim. E vou mostrar para ela que sempre haverá as escolhas corriqueiras de passar um Natal, um reveillon, fazer uma viagem, e que elas não precisam vir recheadas de cargas emocionais pesadas. Há escolhas outras muito mais importantes. Quero construir com ela algo sólido o suficiente para lhe dar motivos para me escolher diariamente – como pessoa. O que eu desejo é que ambas sejamos capazes de nos escolher mutuamente, sempre. Ainda que muitas vezes esta não pareça a escolha mais óbvia, fácil, ou simples. Mas que, simplesmente, valha à pena. 
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MIKE TYSON: NUNCA HOUVE UM PUGILISTA COMO ELE - Edmir Saint-Clair

 

Mike Tyson começou a lutar, profissionalmente, no dia 06 de março de 1985, quando venceu o Porto-Riquenho Hector Mercedes por nocaute no primeiro round. Daí pra frente foi uma saraivada inacreditável de nocautes consecutivos. Foram anos seguidos dando surras em todos os recordes possíveis do Boxe.

Não sei precisar a partir de quando comecei a acompanhar sua carreira. Naquela época, não existia canais por assinatura, ou a gente via na TV aberta ou não via. Sempre gostei de boxe, desde pequeno, e lembro perfeitamente de lutas de Mohamed Ali. Lembro-me da chamada “Luta do Século”, em 1974, quando Ali enfrentou George Foreman. De lá pra cá, sempre acompanhei com atenção tudo que passava na TV ou saía nos jornais sobre boxe. Ou seja, me considero uma pessoa com conhecimento mediano sobre as lutas e protagonistas do nobre esporte bretão, como era chamado na época em que Léo Batista narrava as lutas.

Com a carreira de Mike Tyson foi diferente. Já era adulto quando ele começou a lutar. Nessa época, já conhecia a história e havia visto muitos filmes e documentários sobre as carreiras dos grandes astros do boxe. 

As lutas de Mike Tyson eram completamente diferentes das outras. Não existia fase de estudos entre os adversários, não existia a dança de pernas de Ali, não existia a esgrima magnífica dos lutadores cubanos. Existia era porrada na cara do pobre que ousava enfrentar a máquina de nocautear chamada Mike Tyson.  Era absolutamente impressionante e rápido.

Após os primeiros nocautes, todas as TVs do mundo passaram a transmitir suas lutas, incluindo as do Brasil. As lutas eram, geralmente, nos sábados à noite, depois da meia noite. Rapidamente, o pessoal do Bar Clipper, no Leblon, incorporou o evento, e vi muitas lutas no bar com uma penca de amigos e freqüentadores. Em algumas, perdi a luta porque havia ido ao banheiro. E vi muitos outros passarem pelo mesmo desgosto de mijar na hora errada.  Bastavam uns 3 minutos de descuido e perdia-se a luta pela qual esperávamos tanto.

Mike Tyson teve outra característica impressionante, a quantidade de lutas que fez nos dois primeiros anos como profissional (1985/86); foram 28 lutas num período de 22 meses. Sendo que dessas 28 lutas, apenas duas foram decididas por pontos.

Como tudo na vida, um dia as histórias sem encerram, sem exceção, e Mike Tyson foi nocauteado por um lutador obscuro, como ninguém poderia imaginar, em 1990, após uma série de confusões em sua vida. 

Agora, ele volta aos noticiários e vai realizar uma luta como nunca houve na história: um ex-campeão mundial vai lutar (exibição) aos 54 anos de idade. Gosto de duvidar muito que seja só “exibição”, não para Mike Tyson.

Para mim, não resta a menor dúvida: nunca houve um lutador de Boxe como Mike Tyson.

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A DANÇA DA VIDA - Edmir Saint-Clair

Ela chegou de novo, de repente, 
de longe, de sempre.

Nossas vidas sempre se encontram
 em surpresas improváveis.

Desde o primeiro encontro, resolvemos nos amar pra sempre. Só crianças podem resolver para sempre. Porque sempre não é aqui, não é agora. Mas, pode até ser, porque sempre não tem hora, é sempre.

E nosso tempo sempre foi bem diferente dos outros tempos.
Sempre foi repente, um presente, sempre não mais que de repente. Sempre só presente.

Toda mulher escolhe a dança, a dança escolhe poucas mulheres. É quando a alma nasce maior, já sabendo o seu propósito na vida.

E minha bailarina chegou, de novo, quando preciso da sua dança. Minha bailarina sempre sabe quando chegar.

Faz  tempo que precisava dos seus silêncios que me conhecem sem falar. 

Seu abraço e seu silêncio. Eu precisava me ouvir na música que dança clássica, elegante e perfeita, num corpo único para aquele propósito, perfeito no detalhe de cada movimento. De cada respiração, sublinhando as palavras não ditas.  

E de novo a mágica se faz. De novo no Leblon, de novo na Casa Encantada. 

De novo para sempre. Até nos despedirmos de novo. 

(Parte do livro A Casa Encantada, Contos do Leblon - Edmir Saint-Clair)
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GENTILEZA GERA SAÚDE - Cristiane Segatto

Como uma dieta diária de emoções positivas 
altera o funcionamento do corpo

O trabalho criativo é fascinante. O sujeito está lá, pressionado pelo prazo, pelo cliente, pelo chefe, torturado pela obrigação de traduzir uma ideia em três palavras. Precisa ser uma mensagem sintética e eficaz. Dessas que grudam nos miolos e produzem o movimento desejado: um impulso de consumo, uma sensação, uma mudança de comportamento. O coitado tenta um, dois, três, trinta caminhos e fracassa.

Se tiver sorte, é liberado para pegar umas horinhas de sono. Dorme, acorda, se enfia no chuveiro e, enquanto esfrega o shampoo no couro cabeludo ensebado, pumba! Lá vem ela. Límpida, exata, a mais perfeita tradução do que pretendia comunicar.

Fico elucubrando a respeito dessas etapas sempre que um slogan me conquista. Leio, admiro, sinto e me pergunto qual será o cérebro por trás da ideia. Quem inventou? Como inventou? Com que facilidade ou sofrimento inventou? Foi no chuveiro? Na academia? No momento em que a pasta de amendoim escorregou sobre o pão?

Tendo a achar que as boas ideias nunca surgem no ambiente de trabalho. Comigo é assim. Minhas ideias são rebeldes. Só aparecem quando tenho alguma ilusão de liberdade. Aí agarro um guardanapo, uma caderneta soterrada na bolsa, um lenço de papel, um recibo de cartão de débito para anotar as palavras certas enquanto é tempo.

Sempre achei que algo semelhante tivesse acontecido com o felizardo criador da frase “gentileza gera gentileza”. É uma mensagem perfeita, na forma e no impacto. Ela induz um sentimento de boa vontade em relação aos desconhecidos. Alguém que escolheu usar uma camiseta com essas palavras ou colou no carro esse adesivo deve ser, pelo menos em tese, uma pessoa respeitosa, interessante.

Só recentemente descobri que essa frase não foi criada por um redator profissional. É obra de uma personalidade urbana carioca, conhecida como profeta Gentileza, morto em 1996. Ele andava de túnica branca e barba longa e, nos anos 80, criou 56 painéis sob um viaduto da Avenida Brasil. Um deles trazia a frase genial.

Estou convencida de que gentileza gera gentileza, mas há quem sustente que gentileza gera saúde. Uma delas é a psicóloga Barbara Fredrickson, professora da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Ela é uma das tantas pesquisadoras que buscam explicar como o bem-estar emocional produz saúde física.

Pessoas que vivem relações afetuosas e são capazes de encarar a maioria dos desafios com otimismo tendem a viver mais e com mais qualidade. Diferentes estudos sugerem que emoções positivas fortalecem o sistema imune. Por consequência, diminui o risco de contrair resfriados e conviver com processos de inflamação crônica. Outros trabalhos indicaram menor propensão a doenças cardiovasculares, dores de cabeça, fraqueza etc.

Em seu novo trabalho, publicado na revista Psychological Science, Barbara investiga como as emoções afetam o nervo vago. Ele é responsável pela inervação de diversos órgãos, como o coração, o estômago, o pulmão, o intestino delgado, entre outros. Por meio dele, o cérebro é informado sobre o estado das vísceras.

Quando um susto, um stress agudo acelera os batimentos cardíacos e coloca o organismo inteiro em alerta, o nervo vago e seus auxiliares trabalham para restabelecer a normalidade. Eles reduzem a pressão arterial e normalizam os batimentos cardíacos.

Nesses tempos de stress crônico, é fundamental encontrar formas de manter o nervo vago funcionando adequadamente. Do contrário, o corpo inteiro sofre.

Sessenta e cinco voluntários se inscreveram no novo estudo de Barbara. Metade do grupo participou de aulas de meditação compassiva, uma técnica destinada a desenvolver sentimentos como bondade e compaixão.

Durante as sessões, eles foram instruídos a focar a mente em suas próprias preocupações. Aos poucos, deveriam incluir as aflições das pessoas com que se relacionavam.

Em silêncio, deveriam repetir frases como: “Você pode se sentir seguro”; “Você pode se sentir feliz”; Você pode se sentir saudável”. Sempre que a mente vagasse por outros lugares, os praticantes deveriam trazê-la de volta a essas frases.

Fora das aulas, em momentos estressantes ou chatos como ficar preso num congestionamento, eles deveriam se esforçar para fixar a mente nesses pensamentos. “É algo como suavizar o próprio coração para estar mais aberto aos outros”, disse Barbara à revista Time.

Cascata das bravas? Conversinha de autoajuda? Pelo sim, pelo não, vale a pena acompanhar os resultados do trabalho.

Antes do início do estudo e ao final dele, a variação da frequência cardíaca dos voluntários foi analisada. Essa é uma medida da resposta do nervo vago. Quanto mais tonificado é o nervo, maior é a variação da frequência cardíaca. E mais baixo é o risco de doenças cardiovasculares. O nervo também participa do controle dos níveis de glicose e da resposta do sistema imune.

Além de tudo isso, o vago tem papel importantíssimo na forma como nos relacionamos. Está ligado aos nervos que sintonizam nossos ouvidos com a fala humana, coordena o contato visual e regula a expressão das emoções. Também influencia a liberação de oxitocina, um hormônio importante para a formação de vínculo entre as pessoas.

Todos os participantes (os que meditaram e os que não participaram das aulas) registraram as emoções positivas e negativas vividas no cotidiano durante 61 dias.

Resultado: quem meditou registrou um aumento de emoções positivas, como alegria, interesse, serenidade e conexão com outras pessoas. Essas sensações foram acompanhadas de uma melhoria na função do nervo vago.

É um sinal de que uma dieta diária de emoções positivas favorece a saúde. E o mais interessante: esses benefícios podem ser mensuráveis.

Só meditar, no entanto, não adianta. A alteração na função do nervo só ocorreu naqueles em que a prática realmente ajudou a melhorar as emoções. Não houve mudança no padrão fisiológico entre os que meditaram, mas emocionalmente continuaram na mesma.

É um bom começo. Resta saber se os benefícios fisiológicos da prática e da mudança de olhar sobre os fatos são sustentáveis no longo prazo. Novos estudos estão em andamento.

Enquanto eles não ficam prontos, que tal colocar um pouquinho de gentileza no seu dia? Responder ao bom dia que alguém lhe deseja. Segurar a porta do elevador e oferecer passagem. Não avançar sobre a travessa de comida assim que o garçom a coloca sobre a mesa se decidiu dividir o prato com uma colega de trabalho – principalmente se você é homem e ela tiver idade quase suficiente para ser sua mãe.

Recentemente, recebi todas essas demonstrações de falta de gentileza. Nenhum dos autores as interpretou como gafe ou deslize. Se essas são as novas regras de convivência, prefiro viver à moda antiga.

Gentileza gera gentileza. Gentileza gera saúde.

LENDA DE COPACABANA - Luís Fernando Veríssimo

Contam os antigos que há muitos anos, antes mesmo do Eskibon e do Jajá de côco, quando Copacabana ainda era uma praia e não um deserto que acabava no mar, quando ainda havia os postos pintados de branco e calçadão era um sapato grande, um rapaz, um dia, encontrou uma concha à beira-mar. 

Era no tempo em que ainda havia conchas, e não bisnagas de plástico, à beira-mar. Uma daquelas conchas grandes e retorcidas que você levava ao ouvido e ouvia o ruído do mar, mesmo que estivesse longe do mar. Mas o rapaz levou a concha ao ouvido e não ouviu o ruído do mar. Ouviu uma voz que dizia “Preto dezessete”.

Era um rapaz humilde mas ambicioso que morava numa vila de Botafogo e vinha a Copacabana de bonde sempre que podia. Estava estudando, com sacrifício. Não tinha dinheiro para jogar na roleta. Não tinha nem idade para entrar no Cassino da Urca. Mas toda vez que levava a concha ao ouvido ouvia o mesmo sussurro. “Preto dezessete”.

Guardou a concha em casa. Não deixava ninguém chegar perto dela, nem a mãe. Volta e meia, ia lá e botava a concha contra o ouvido. Para ter certeza de que não tinha sonhado que ela falava. E ouvia claramente: “Preto dezessete”.

Vendeu o que podia (e o que não podia) e com um terno emprestado que o fazia parecer mais velho tocou-se para a Urca. Foi aquela vez que o preto dezessete deu dezessete vezes seguidas. Voltou para casa - de táxi, pela primeira vez na vida - e colocou a concha sobre o ouvido, rindo sozinho.

 Que número deveria jogar agora? A concha disse para ele aplicar o dinheiro na compra de uma casa em Copacabana, e deu o endereço. Ele conhecia a casa, das suas caminhadas na praia. Estava caindo aos pedaços. Mas a concha insistia. Ele então gastou todo o dinheiro da roleta na compra da casa. Dias depois, recebeu uma oferta de uma construtora pelo terreno. Três vezes o que ele tinha gasto na compra da casa. Aceitou, com uma condição. A cobertura do prédio seria dele. Conselho da concha.

Durante quatro, cinco anos, a concha administrou o seu dinheiro. Compra e venda de ações, jóias, imóveis, títulos de mineração. Aos poucos, sua fortuna foi crescendo. Ele tornou-se conhecido como gênio das finanças e playboy. Reinava sobre Copacabana da sua cobertura aberta ao mar. 

Era visto em passeios solitários pela praia - só ele, seus dálmatas, algumas mulheres e o mordomo com o champanha - com seu talismã, a concha, encostada ao ouvido. De volta ao apartamento despachava telegramas para vários pontos do país e do mundo - isto foi antes do DDD - com ordens para comprar, vender, liquidar, multiplicar. Nunca errava. Não tinha assessores, não consultava ninguém, não lia nada, não trabalhava, apenas ouvia a sua concha e enriquecia. Um gênio, diziam todos.

Até que um dia encostou a concha no ouvido e ouviu a voz dizer:
- Vende tudo.
Vender tudo? Não podia ser. Deu uma sacudida na concha e voltou a encostá-la ao ouvido.
- Vende tudo.

Pela primeira vez, duvidou de um conselho da concha. Mas não a contrariou. Vendeu tudo. Não foi fácil, mas em poucas semanas tinha transformado todas as suas posses em dinheiro vivo e na mão. E então, de olhos arregalados, ouviu a concha dizer:
- Aposta tudo no Uruguai.
- No Uruguai?! Essa não.
Brasil e Uruguai decidiriam uma Copa do Mundo dali a dias no Maracanã. O Brasil não podia perder. Resolveu desobedecer a concha.

Depois disso, durante anos, a concha permaneceu em silêncio. Ele a colocava no ouvido e não ouvia nada. Nem o ruído do mar. Desorientado, aplicou mal seu dinheiro e em pouco tempo acabou sem nada. Tornou-se um vagabundo. Perambulava pela praia, com a concha apertada contra a barriga. Vivia de esmolas e, quando tinha sorte, tatuíras. Até que um dia resolveu atirar a concha de volta ao mar. Ela era um símbolo do seu azar. Levou-a ao ouvido pela última vez... e ouviu, de novo, a voz!
- Avestruz.
Avestruz! Roubou os óculos raiban que um americano deixara na praia para dar mergulho, vendeu e jogou no bicho. Foi aquela vez que deu avestruz dezessete vezes seguidas. Ele recomeçou sua ascensão. Terrenos. Títulos. Joint-ventures.

 Aprendera sua lição. Seguia fielmente todas as recomendações da concha. Quando a concha disse para ele vender tudo e aplicar na Bolsa, ele nem piscou. Vendeu e aplicou. Quando a concha disse para ele liquidar suas ações e pular fora, rápido, mesmo com a Bolsa disparando, ele liquidou e pulou. No dia seguinte a Bolsa estourou e ele ficou com sua fortuna. E então a concha disse:
- Constrói um edifício.

E ele construiu. Na Avenida Atlântica, conforme instruções da concha. Com grandes janelas para o mar. Os apartamentos não tinham divisões. Eram enormes salas, altas, largas e ressonantes. Ele não entendeu, mas não discutiu. Os arquitetos e engenheiros também não entenderam.
- Sabe o que é que parece esse edifício? - disse um dos engenheiros. - Uma enorme caixa de som.
E quando o edifício estava pronto, ele colocou a concha no ouvido e ouviu ela dizer: “Som”.

Com o dinheiro que sobrara depois da construção, e seguindo minuciosas instruções da concha, ele comprou e instalou em todas as grandes salas do edifício, com suas janelas altas para o mar, a mais sofisticada aparelhagem de som que encontrou. Grandes alto-falantes que iam do chão ao teto em todos os andares. E a concha mandou que ele instalasse um painel central de controle do som no saguão do prédio. E quando o painel foi instalado, a concha mandou que ele ligasse a chave. E ele ligou a chave. E de todos os alto-falantes de todos os andares do edifício com suas grandes janelas viradas para a praia saiu um ruído ensurdecedor que fez estremecer o próprio calçadão e, dizem, as próprias paredes do forte. 

Era o ruído do mar, só que muito mais alto do que o mar. Ele compreendeu então - enquanto vinha a prefeitura e interditava o seu edifício e vinha a polícia e o acusava de ameaçar o sossego público - que fora usado pela concha, cuja ambição era muito maior do que a dele. E compreendeu alguma coisa sobre a vida e o mundo e a razão cega de todas as coisas.
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ÁGUAS DE MARÇO EM LONDRES – Edmir Saint-Clair

 
Áudio da postagem: voz artificial


A última coisa que se espera, quando estamos em outro país, no caso a Inglaterra, é que um inglês saiba mais uma letra de Tom Jobim do que a gente, que é brasileiro e carioca.

Estava vivendo um tempo em Londres, maravilhado com aquela mágica atmosfera londrina da segunda metade dos anos 80. Uma das coisas me levou até lá foi a música.

Uma das características mais fascinantes da cidade é a quantidade de lugares onde se pode ouvir música ao vivo. Nos parques, estações de metrô e restaurantes, na hora do almoço. A partir do entardecer a oferta aumenta e não existe lugar no mundo com mais estabelecimentos com música ao vivo.

Os pubs londrinos são famosos, não se precisa acrescentar nada ao que já foi dito quanto a isso.

Tive vontade de tocar num pub na hora do almoço. Uma apresentação solo. Voz e violão, como nunca havia feito ou sequer cogitado até aquele momento. Um pocket show de bossa-nova. Nunca fui bom em decorar nem as minhas próprias letras, mas como eram todas em português, mesmo que eu errasse ninguém perceberia. A vida inteira participei de bandas, nunca havia feito uma apresentação solo.

Meus amigos ingleses se encarregaram de conseguir o lugar para que eu realizasse minha fantasia musical.

Era um restaurante bastante agradável e espaçoso. Claro e arejado, nem parecia ser londrino. O pequeno palco era baixo e a altura do som era regulada como música ambiente. Não incomodaria quem estivesse conversando. Perfeito para mim.

Uma experiência similar a dos músicos de churrascaria, mas em Londres. Pelo menos, não tinha ninguém conhecido se o fiasco acontecesse. Isso me trazia calma.

Depois de desfilar um monte de Djavan, Toquinho, Gil, Tom e Vinícius, resolvi finalizar o set cantando Águas de Março.

Durante toda a apresentação, uma mesa próxima demonstrara estar gostando. Das sete ou oitos pessoas, um homem em particular estava bastante entusiasmado. Inclusive, me pareceu cantar algumas em português. Pelo tipo físico, era inglês com certeza.

Quando iniciei o primeiro “é pau, é pedra...”, do que seria a última musica, ele se levantou, subiu o pequeno degrau do palco e fiz-lhe um gesto encorajando-o a se aproximar. Parei de tocar, ele se apresentou gentilmente e disse que sabia a letra da música, em português...

Quase que eu lhe respondi:

- Que bom, porque eu mesmo não sei...

Mas, achei melhor não.

O inglês pegou o microfone auxiliar e começamos o dueto mais surreal da minha vida. Como eu sabia que aquele restaurante era freqüentado quase que exclusivamente por ingleses, e eles não tem o costume de decorar a letra de Águas de março, não me preocupara com minha amnésia musical até aquele momento.

Mas, o desgraçado sabia a letra todinha... E, a partir da segunda estrofe , eu comecei a misturar pau com pedra, com toco, com fim do caminho, com chuva e o inglês tentando ir atrás do que eu falava...

Claro, afinal o brasileiro ali era eu. Se tinha alguém errando a letra em português só poderia ser ele!

Logo após soar o último acorde daquele desastroso dueto internacional, o pobre inglês aproximou-se, nitidamente constrangido, e ficou se desculpando por um bom tempo por ter se atrapalhado com letra. Afinal, disse ele, o português é uma língua muito difícil... No que eu concordei prontamente. Ele ficou tão inconformado que quase confessei para ele que quem errara a letra inteira fora eu. Ele acertara tudo. Mas, achei melhor deixar quieto.

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A CIDADEZINHA NATAL - Luís Fernando Veríssimo

Idéia para uma história. 
Homem chega num carro com motorista a uma cidadezinha do interior. Manda estacionar o carro na única praça da cidadezinha, em frente à única igreja, e diz para o motorista ficar esperando no carro enquanto ele inspeciona a cidadezinha a pé. Não leva muito tempo. A cidadezinha é quase nada. A praça, a igreja, a prefeitura, algumas casas em volta da praça, poucas ruas. O prédio mais alto da cidadezinha tem quatro andares. É o que fica em cima da maior loja da cidade, a Ferreira e Filhos, que vende de tudo.
O homem entra no único boteco da praça, pede uma cerveja e puxa conversa. Quer saber quem é que manda na cidadezinha. Há quatro ou cinco pessoas no boteco, que não pararam de observar os movimentos do homem desde que ele desceu do seu carro com motorista. O maior carro que qualquer uma delas jamais tinha visto. Ninguém fala. O homem repete a pergunta. Quem é que manda na cidadezinha? As pessoas se entreolham. Finalmente o dono do boteco responde.
― O prefeito é o dr. Al...
― Não, não. Não perguntei o prefeito.
O que manda mesmo.
― É o Ferreira Filho.
― O da loja?
― É.
― Ele manda na cidade?
 Não tem alguém mais alto?
― Tem o delegado Fro...
― Polícia, não. Alguém mais alto.
― Tem o padre Túlio.
― O padre Túlio manda no Ferreira Filho?
― Bom... ― começa a dizer o dono do boteco.
― Só quem manda no Ferreira Filho é a dona Vicentina ― interrompe alguém, e todos caem na risada.
― A esposa dele?
Mais risadas. Não, não é a esposa. Nem a mãe. Dona Vicentina é uma costureira que não costura. O atelier da dona Vicentina ocupa uma pequena sala na frente da sua casa, mas está sempre vazio. O verdadeiro negócio da dona Vicentina, e suas sobrinhas, acontece nos fundos da casa. É lá que ela recebe o Ferreira Filho, e o prefeito, e o delegado e, desconfiam alguns, até o padre Túlio. Se alguém manda no Ferreira Filho, e na cidadezinha, é a dona Vicentina. Portanto é na sala dos fundos da casa da dona Vicentina que o homem reúne as autoridades, oficiais e reais, da cidadezinha, naquela mesma noite, e faz a sua oferta. 
Quer comprar a cidadezinha. Como comprar? Comprar. Cash. Tudo. A praça, os prédios, a população, tudo. E os arredores até o cemitério. Mas como? Não é possível. Há impecilhos legais, há...Todos os protestos cessam quando o homem revela a quantia que está disposto a pagar por tudo, e por todos. É uma quantia fabulosa. Em troca, pede pouca coisa. Um retoque na praça, onde ele quer que seja construído um coreto sob uma árvore milenar, que também deve ser providenciada. Cada habitante da cidade, ao receber o seu dinheiro, receberá junto instruções sobre o que dizer, quando forem perguntados. Dirão que se lembram, sim, do homem. Que ele nasceu e cresceu, sim, na cidadezinha. Que era filho da dona Fulana e do seu Sicrano (os nomes serão fornecidos depois). Que muito brincou na praça, sob a árvore milenar. Que estudou na escola tal, com a professora tal, que terá muitas boas lembranças dele. Uma das habitantes mais antigas da cidadezinha será escolhida para fazer o papel da professora tal. Cada habitante da cidadezinha terá seu papel. Só o que precisarão fazer, quando forem perguntados, é contar histórias sobre a infância e a adolescência do homem na cidadezinha. As histórias também serão fornecidas depois. 
― Mas perguntados por quem? ― quer saber Ferreira Filho.
― Por repórteres. Virão muitos repórteres aqui.
― Por quê? 
O homem não diz. Pergunta se está combinado. Se pode contar com a cidadezinha e com seus habitantes. Todos concordam. Está combinado. Dona Vicentina diz que se alguém não concordar, vai ter que se ver com ela.
No dia seguinte, depois de dizer que o dinheiro e as instruções virão em poucos dias e antes de entrar no carro, o homem olha em volta da praça, examinando cada uma das casas ao seu redor. Finalmente, escolhe uma, aponta, e diz:
― Se perguntarem, eu nasci ali. 
Entra no carro e vai embora. Poucos dias depois chegam o dinheiro e as instruções, ou os papéis a serem distribuídos entre os habitantes. É feito o combinado. Constroem o coreto no meio da praça e transplantam uma grande árvore milenar para lhe fazer sombra. E quando a cidadezinha é invadida por repórteres querendo saber da vida do homem, todos respondem de acordo com as instruções. Alguns até improvisam, como a dona Vicentina, que conta que foi a primeira namorada dele. 
Mas por que tantas perguntas?
― Vocês não souberam? ― diz um dos repórteres.
― Ele se matou, ontem. 
O último pedido dele foi para ser enterrado aqui, na sua cidadezinha natal. No dia seguinte, chega o corpo para ser enterrado no cemitério. Depois da cerimônia, as autoridades, oficiais e reais, da cidadezinha se reúnem na casa da dona Vicentina para decidir o que fazer. O fato de ele ter se suicidado complica um pouco a coisa, mas no fim fica decidido. Colocarão um busto dele na praça, ao lado da árvore que amava tanto, com uma placa de agradecimento. Afinal, era o filho mais ilustre da cidadezinha.
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18 EXPRESSÕES RACISTAS QUE VOCÊ USA SEM SABER

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Entre sutilezas, brincadeiras e aparentes elogios, a violência simbólica se amplia quando expressões como estas são repetidas:

RACISMO AQUI NÃO!

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