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MATURIDADE EMOCIONAL E CAPACIDADE DE LIDAR COM FRUSTRAÇÕES - Juliana Santin

Era uma vez uma menina que, aos 7 anos de idade, precisou usar óculos. Esse acontecimento foi um grande sofrimento para ela, que sentiu-se estranha, diferente, feia.

Essa menina odiou ter que usar óculos com todas as suas forças. Escondia-se das pessoas quando estava de óculos. Chorou por isso, achou-se a pior das criaturas. Com o avanço da idade, ela passou a usar lentes de contato, mas seu sonho mesmo era fazer cirurgia para correção e livrar-se de uma vez por todas desse tormento. Finalmente, esse dia chegou! Ela operou os olhos e pronto. Livrou-se para sempre dos óculos e das lentes.

Até que, um tempo após a cirurgia, ela notou que a vista não estava muito boa e veio a notícia: teria que voltar a usar óculos! E é aqui que vem o grande desfecho da história que é o gancho para esse texto: dessa vez, a menina – agora, mulher – não mais esbravejou, não mais chorou escondida, não mais escondeu-se. Comprou óculos modernos e bonitos e passou a usá-los como acessório. Preferia não precisar usá-los – quem não prefere ter a vista perfeita? -, mas, já que tem que usar, o melhor a fazer é aceitar e lidar da melhor forma possível.

Essa história foi narrada por uma de minhas irmãs. E, pela foto acima – sim, essa moça da foto é minha irmã – percebe-se que ela obteve sucesso na escolha dos novos óculos.
Ela me contou isso, justamente refletindo sobre como uma coisa que foi tão problemática para ela na infância, adolescência e juventude agora perdeu peso, tem outro valor.

Contou sobre como encarou de uma maneira tão diferente essa frustração – e foi, mesmo uma frustração, pois ninguém opera os olhos achando que vai precisar de óculos de novo – e sobre como o que antes a deixava tão desconfortável, hoje já incomoda pouco, quase nada.
Isso me levou a refletir sobre essa questão tão importante e difícil: a maturidade emocional.

O psiquiatra Flávio Gikovate tem uma definição muito interessante para essa questão. Para ele, a maturidade refere-se basicamente a uma boa tolerância à frustração. Ele deixa claro que maturidade, apesar de a palavra nos levar a crer que se trata de “idade madura”, não tem a ver com o avanço da idade. Há pessoas mais velhas imaturas, bem como há jovens muito maduros.

Então, tornamo-nos pessoas cada vez mais maduras quando passamos a ter maior tolerância às frustrações. Isso diz respeito a fatos imutáveis e sobre os quais não temos controle algum, como é o caso da necessidade de usar óculos da minha irmã, bem como a frustrações relacionadas a erros e falhas que cometemos. Isso também diz respeito à tolerância ligada às incertezas da vida.

“Tolerar bem frustrações não significa não sofrer com elas e muito menos não tratar de evitá-las. A boa tolerância às dores da vida implica certa docilidade, capacidade de absorver os golpes e mais ou menos rapidamente se livrar da tristeza ou ressentimento que possa ter sido causado por aquilo que nos contrariou”. (F. Gikovate)

Assim, uma pessoa emocionalmente madura, embora também se frustre, consegue lidar melhor com os sofrimentos derivados dessas frustrações, consegue não descontar nos outros seus descontentamentos, bem como consegue aceitar com mais serenidade os fatos que não há como mudar. Por exemplo, minha irmã precisa usar óculos para enxergar.

Diante disso, ela tem duas opções: xingar, sofrer, chorar, se revoltar, achar que é o fim do mundo – mas usar mesmo assim, porque não há alternativa -, ou entender que é chato, mas é o que é, então, o negócio é tornar a questão a melhor possível, que, nesse caso, significa investir em uma armação bonita, por exemplo.

O exemplo dos óculos pode ser extrapolado para tudo. Sempre que passamos por situações frustrantes, mas sobre as quais não temos controle, a escolha mais madura é controlar as emoções e lidar com o máximo de docilidade possível. Em situações como filas intermináveis, erros em sistemas, perda de oportunidades, decepção com os outros, etc., a maturidade leva a um enfrentamento cada vez mais tranquilo dessas situações.

Além disso, a maturidade emocional leva a uma tolerância maior a erros e falhas e essa é uma grande conquista, pois isso leva a uma redução do medo. Uma pessoa que aguenta melhor o sofrimento e a frustração vai arriscar mais, pois sabe que pode errar, passar vergonha, perder dinheiro, sofrer de alguma maneira, mas já aprendeu a lidar com o sofrimento. A pessoa que aguenta melhor o sofrimento arrisca mais e, consequentemente, cresce e se desenvolve mais também. Assim, a maturidade emocional é condição para o desenvolvimento e o crescimento pessoal.

“Os mais evoluídos emocionalmente tendem a ser mais ousados e a buscar com determinação a realização de seus projetos. Têm menos medo dos eventuais – e inevitáveis – fracassos, pois se consideram suficientemente fortes para superar a dor derivada dos revezes. Ao contrário, aprendem com seus tombos, reconhecem onde erraram e seguem em frente com otimismo e coragem ainda maior. Costumam ter melhores resultados do que aqueles mais ponderados e comedidos, condição que não raramente esconde o medo do sofrimento próprio dos que enfrentam os riscos”. (F. Gikovate)

O próprio autoconhecimento depende dessa capacidade de aguentar as dores e sofrimentos, porque não é nada fácil olhar para dentro de si mesmo e enxergar falhas, erros, problemas. Esse ato de cutucar feridas e abrir armários é extremamente difícil. Se não formos capazes de tolerar essas dores e frustrações, não teremos coragem de olhar para dentro e essa é, com certeza, condição essencial para o crescimento e o desenvolvimento pessoal.

Gikovate também explica que uma pessoa madura emocionalmente tem maior empatia, ou seja, capacidade de se colocar no lugar do outro, porque, muitas vezes, ao nos colocarmos no lugar do outro sentimos o sofrimento dele. A pessoa imatura se fecha para esse tipo de exercício, porque não aguenta o sofrimento. Quando conseguimos nos colocar no lugar dos outros certamente lidamos melhor com as diferenças, pensamos mais antes de falar, conseguimos ser mais gentis, conseguimos não levar tudo para o lado pessoal.

A maturidade emocional também é essencial para nos ajudar a lidar com as incertezas da vida. E quantas são as incertezas da vida! Tornamo-nos maduros quando abrimos mão daquele desejo infantil de querer garantias de que algo vai dar certo, de querer ter certeza de que não vamos falhar, de querer controlar tudo. É angustiante lidar com as incertezas, mas o fato é que vivemos em um mar de incertezas. Quanto maior nossa maturidade, mais tranquila e alegre é nossa trajetória.

A maturidade emocional é conquistada com esforço, com coragem, com um grande componente racional, está sempre em desenvolvimento e é o ingrediente principal de uma vida mais tranquila e leve – cheia de frustrações, erros, dores e sofrimentos, como é mesmo a vida, afinal, mas sem que isso seja determinante.

Isso, por fim, lembrou-me a oração da serenidade, que aprendi ainda criança quando frequentava reuniões públicas dos Alcoólicos Anônimos, a convite de meu avô, ex-alcóolatra que precisou de muita coragem e força para obter essa conquista, que pede coragem para mudar as coisas que se pode mudar, serenidade para aceitar as que não podem ser mudadas e sabedoria para distinguir umas das outras.
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A Casa Encantada
Contos do Leblon
Edmir Saint-Clair
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A NOITE VERMELHA - Heloísa Seixas

O incêndio da Praia do Pinto no Leblon
Lembro-me que naquela noite acordei sem motivo algum. Acordei, simplesmente, sem saber por quê. No instante exato do acordar, não houve susto. O sobressalto veio depois. Olhei para a parede do meu quarto e vi que estava tomada por uma sombra incomum. Uma sombra vermelha, cor de fogo. Sempre achei que todas as sombras eram iguais, cinzentas, negras. Jamais imaginei que pudesse haver uma sombra cor de fogo. Intrigada, com uma ponta de medo, levantei da cama e fui até a janela. E então fui atraída pela luz.

Parece o início de um conto de terror – e, de certa forma, é. Foi assim que me senti naquela madrugada distante em que vi a Favela da Praia do Pinto pegar fogo. As chamas eram tão tremendas que projetavam sobre a parede do meu quarto um reflexo avermelhado, um pôr-do-sol no meio da noite. Todo o terreno hoje ocupado pela Selva de Pedra estava pegando fogo. Não havia um só ponto onde não brilhassem as labaredas, projetando-se para o alto, devorando o céu, em meio ao tiroteio dos bujões de gás que explodiam.

Ao ver a cena, meu coração se contraiu. Adolescente ainda, tive a noção exata do que significava aquele espetáculo terrível, pensando, angustiada, nas pessoas que com certeza tentavam escapar do fogo. Horas depois, quando o dia raiasse, outro espetáculo me espantaria. A multidão compacta enchendo as ruas em torno da favela destruída, carregando nas costas seus móveis, seus pertences, num movimento febril que era a perfeita reconstituição de um gigantesco formigueiro.

Ao fim de tudo, manhã já alta, quando olhei o imenso quadrado cinzento que restara no lugar da favela, senti uma estranha sensação de vazio. Mas ela veio acompanhada de uma lembrança boa. A recordação de outro espaço, grande como aquele, já então desaparecido: o terreno baldio onde armavam o circo, quando eu era criança. Ficava no quarteirão entre o Jardim de Alá e a Almirante Pereira Guimarães, em plena Ataulfo de Paiva, que eu atravessava de mãos dadas com a babá, rumo ao mundo encantado e assustador que a lona escondia. Por um segundo, cheguei a pensar no circo pousando outra vez no Leblon, no imenso terreno deixado vago pela favela calcinada. Mas logo dei de ombros, sorrindo. Bobagem. Eu não era mais criança.

Mas é engraçado. Desde então, essas duas lembranças tão díspares – do fogo e do circo – andam sempre juntas dentro de mim. Dois terrenos vazios que, como retalhos quadrados numa colcha, ajudam a compor o cenário desse Leblon de onde nunca saí.
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A Casa Encantada
Contos do Leblon
Edmir Saint-Clair
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ENCERRANDO CICLOS - Glória Hurtado

Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver...

Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos - não importa o nome que damos, o que importa é deixar, no passado, os momentos da vida que já acabaram...

Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu. Pode dizer para si mesmo que não dará mais nenhum passo, enquanto não entender as razões que levaram a certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó...

Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seja parceiros, amigos, familiares; todos estarão encerrando capítulos, virando a página, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado...

Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco. O que passou não voltará...

Não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem, noite e dia, uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor possibilidade de voltar. As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora...

Por isso, é tão importante (por mais doloroso que seja) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros...

Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível. O que está acontecendo em nosso coração ao se desfazerem certas lembranças significa, também, abrir espaço para que outras tomem seu lugar.
Crescer é deixar ir embora, soltar, desprender-se...

Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas; portanto, às vezes ganhamos, às vezes perdemos. Não espere que lhe devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que compreendam seu amor...

Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará, apenas, envenenando e nada mais...

Encerrando ciclos, não por causa do orgulho, por incapacidade ou soberba, mas porque, simplesmente, aquilo já não se encaixa mais na sua vida...

Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem você é.
Glória Hurtado (psicóloga colombiana)
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A Casa Encantada
Contos do Leblon
Edmir Saint-Clair
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A SOLIDÃO DO HOMEM ATUAL – Edmir Silveira

A mulher caminha a passos largos para assumir seu devido lugar na sociedade, ou seja, a igualdade de condições com o homem. Justo, muito justo, justissimo. Fora as óbvias diferenças e as não tão óbvias geradas pelas oscilações hormonais nas várias fases da vida, sempre vi as mulheres como iguais, só que mulheres. Tenho filha e irmãs, uma com idade muito próxima e, de quem, sou especial e infinitamente amigo e confidente.

Mas, nesse texto meu foco somos nós, os homens. Os que reconhecem há tempos essa igualdade, os direitos, as diferenças e tudo mais que veio a reboque. É a evolução. É fato. É realidade.

Gostaria que todas(os) fizessem uma coisa que acho que há muito tempo não fazem e, se fazem, nem notamos: prestar um pouquinho de atenção na gente. Nos homens. No que sentimos e como nos sentimos.

Vocês sabiam que a gente também sente uma depressão profunda quando nos separamos de vocês?

Vocês sabem o quanto é difícil deixar o/a filho(a) na casa de vocês, nos domingos à noite e voltar pra casa sozinhos?

É, o homem é muito mais solitário que a mulher. Por vários motivos, culturais principalmente. Mulher chora, liga pra amiga no meio da madrugada, dorme na casa da outra pra fazer companhia, até ao banheiro vão juntas!

Homem não. Homem é sozinho. E quanto mais triste, mais sozinho quer ficar. Vocês, mulheres, sabiam que a maioria dos homens tem vergonha de estar triste, deprimido?

Podem se sentir em pleno desespero emocional mas não ligam pros amigos no meio da noite. Choram sozinhos, quando conseguem romper as próprias barreiras. Nossa... como um choro profundo alivia...

As mulheres tem o trabalho, mil coisas pra fazer todos os dias e quando chegam em casa, cansadas, ainda tem que dar atenção aos filhos. Nunca estão sozinhas.

Se vocês soubessem como faz falta o dia a dia com os filhos, se vocês soubessem como tudo isso preenche a vida de coisas boas...

O ser humano só preenche seu vazio interior com outro se humano, com pessoas. Com afeto. Igual as mulheres.
Mulheres, por favor, nos ensinem como se faz isso. Não sabemos.
Nos ensinem a não ter vergonha de assumir nossas dores, nossas dúvidas, nossas inseguranças, como vocês assumem as de vocês e, por isso, são tão melhor resolvidas.

Homem tem vergonha de ser dispensado do trabalho, de ser rejeitado (mesmo que seja só no time da pelada), de ser traído, de estar em crise, de sentir qualquer coisa. E, pior, tem muito mais vergonha ainda de contar que está passando por tudo isso.

Um homem pode ter amigos de muitos anos, de infância, sem que esses amigos saibam algo mais profundo sobre a privacidade, problemas e sentimentos uns dos outros. A maioria é assim.

A maioria vai negar isso, porque até admitir já é bem difícil. É admitir a superficialidade das relações entre nós. Mas, é verdade. Que me desculpem os homens, mas eu nunca prometi a nenhum amigo que não revelaria essas verdades.

Mulheres nos ajudem a compreender qual é o nosso papel hoje. Perdemos todos os papéis que os antigos, injustos e ultrapassados conceitos também nos impunham.

Já estamos cansados de saber o quanto somos dispensáveis na criação dos filhos (não disse que não somos importantes), inclusive com relação às despesas.

Somos dispensáveis em todas as coisas em que éramos ou nos sentíamos importantes. Às vezes, nos sentimos reduzidos a acompanhantes. Que trocam lâmpadas, carregam coisas pesadas, dirigem carros, fazem companhia, levam ao cinema, as enchem de elogios e fazem sexo.

Às vezes, é assim que, nós homens, nos sentimos. Como se apenas nosso desempenho físico fosse importante. Como vocês, também precisamos sentir carinho e interesse pelo que sentimos, por nossas tristezas e alegrias. Precisamos sentir que vocês nos amam como gente e não só como homens. 

Vocês podem não precisar da gente pra quase nada, mas a gente precisa de vocês pra quase tudo. 

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FELIZ ANO NOVO! - Rubem Alves

Para termos um Feliz Ano Novo temos que estar dispostos a “matar” o que fomos e nascer de novo em cada momento da vida. Está aí um grande desafio. Dos maiores, senão o maior de todos!

As cigarras passam a maior parte de suas vidas debaixo da terra, alimentando- se das raízes das árvores. Disseram-me que há certas espécies de cigarras que chegam a viver 15 anos debaixo da terra. 

De repente, alguma coisa acontece, e surge dentro delas um impulso irresistível para mudar. Saem então dos seus túneis, sobem pelos troncos das árvores, arrebentam suas cascas, subterrâneas gaiolas, e se transformam em seres alados. 


Se elas não abandonarem suas cascas não se transformarão em seres alados. Continuarão a ser seres subterrâneos. Nossos demônios são nossas cascas.

Abandonar as cascas é esquecer a forma subterrânea de ser. A grande transformação das cigarras acontece quando a morte se aproxima. É a proximidade da morte que lhes diz: ‘Chegou a hora de voar, cantar e fazer amor, para continuar a viver…’ Eu acho que a morte é o único poder capaz de nos trazer vida nova. 

A consciência da morte nos força a sair de nossas sepulturas, nos dá asas, nos convida a voar e a amar.
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 O Leblon pré-novelas do Manuel Carlos. Contos e crônicas onde somos levados a refletir sobre racismo, preconceito, solidão, 
amizade, descobertas e experiências de criança, de adolescente e, 
por fim, de um jovem adulto. A relação com cotidiano do bairro. 

O autor é nascido no bairro e um conhecedor de sua história. Clipper, Pizzaria Guanabara, BB Lanches, Jobi, Bracarense e outros lugares típicos do Leblon são os palcos dessas histórias.
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CONVERSANDO COM DEUS - Arthur da Távola

Nestes tempos de loucura guerreira, a gente deve buscar refúgio também nas crianças. Elas são sempre a conseqüência trágica das guerras. Mesmo quando não estão no campo das mesmas. Fui criança em 1940 e hoje, sessenta anos depois ainda me recordo do rádio de meu pai, com notícias da Segunda Guerra Mundial e do meu susto pois não sabia o que queria dizer "lá longe". Acreditava que “longe” era o que ficava além do Túnel Novo.
                                  
Mas recebi de um mensageiro da Internet chamado Müller (não deu outras informações acerca de si mesmo) esta deliciosa tradução de algumas frases de crianças. Nada tem a ver com a guerra. É só para vermos como são criativas as crianças e pensarmos nas que morrem por causa dos delírios humanos, o maior dos quais é a guerra e seu estúpido cortejo de destruição.
                                  
CARTINHAS PARA DEUS: cartas reais para Deus escritas por crianças
(traduzidas de original em inglês):
                                  
1. Querido Deus, Eu não pensava que laranja combinava com roxo
  até que eu vi o pôr-do-sol que Você fez terça- feira. Foi demais! (Eugene)
                                  
 2. Querido Deus, Você queria mesmo que a girafa se parecesse assim ou foi um acidente? (Norma)

3. Querido Deus, Em vez de deixar as pessoas morrerem e ter que fazer outras novas, porquê você não mantêm aquelas que você tem agora? (Jane)

4. Querido Deus, Eu fui a um casamento e eles beijaram dentro da igreja. Tem algum problema com isso? (Neil)
                                  
5. Querido Deus, Obrigado pelo meu irmãozinho, mas eu orei por um cachorrinho. (Joyce)

6. Querido Deus, Choveu o tempo todo durante as nossas férias e como meu pai ficou zangado! Ele disse algumas coisas sobre você que as pessoas não deveriam dizer, mas eu espero que você não vá machucá-lo. Seu amigo (mas eu não vou dizer quem eu sou)

7. Querido Deus, Por favor, me mande um poney. Eu nunca te pedi nada antes, Você pode checar. (Bruce)
                                  
8. Querido Deus, Eu quero ser igualzinho ao meu pai quando eu crescer, mas não com tanto cabelo no corpo. ( Sam)

9. Querido Deus, Eu penso em Você de vez em quando, mesmo quando não estou orando.(Elliott)

10. Querido Deus, Eu aposto que é muito difícil para você amar a todas as pessoas no mundo. Na nossa família tem só quatro pessoas e eu nunca consigo... (Nan)
                                  
11. Querido Deus, Meus irmãos me falaram sobre nascer de novo, mas soa muito estranho. Eles estão só brincando, não é? (Marsha)
                                                                     
12. Querido Deus, Se Você olhar para mim na igreja domingo, eu vou te mostrar meus sapatos novos. (Mickey)

13. Querido Deus, Nós lemos que Thomas Edison fez a luz. Mas na escola dominical nós aprendemos que foi Você. Eu acho mesmo que ele roubou sua idéia. Sinceramente, (Donna)
                                  
14. Querido Deus, Eu não acho que alguém poderia ser um Deus melhor que você. Bem, eu só quero que saiba que não estou dizendo isso porque você já é Deus. (Charles)

 15. Querido Deus, Talvez Caim e Abel não matassem tanto um ao outro se eles tivessem seu próprio quarto. Isso funciona com meu irmão. (Eddie)


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 O Leblon pré-novelas do Manuel Carlos. Contos e crônicas onde somos levados a refletir sobre racismo, preconceito, solidão, amizade, descobertas e experiências de criança, de adolescente e, por fim, de um jovem adulto. A relação com cotidiano do bairro. 
O autor é nascido no bairro e um conhecedor de sua história. Clipper, Pizzaria Guanabara, BB Lanches, Jobi, Bracarense e outros lugares típicos do Leblon são os palcos dessas histórias.
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A VIDA COMO ELA PODE SER - Cláudia Penteado



 “Aqui se passa fome, aqui se odeia, 
aqui se é feliz, 
no meio de invenções miraculosas.”  
(Adélia Prado)

As festas de fim de ano – puxa, que bom que acabaram – sempre me fazem refletir a respeito das escolhas que fazemos diariamente. 

Até a minha adolescência, Natal e réveillon foram momentos de confraternização familiar sem precedentes, com festas, viagens e bons encontros. A separação dos meus pais transformou essa época do ano em algo bem próximo do inferno, quando escolhas tinham que ser feitas e o resultado quase sempre era um bocado de dor de cabeça. Com o tempo, as escolhas de fim de ano passaram a recair invariavelmente em estar o mais longe possível de qualquer um dos “lados” da família que eu agora só “administrava”, elegendo novos destinos junto a novas famílias – as dos namorados. Nelas não havia dúvidas, divisões, lembranças saudosistas, comparações, culpa ou cobrança. Apenas a leve sensação do desprendimento e o reconfortante não-pertencimento.

Faz parte do crescimento eleger quem entra para a nossa família – a escolhida, aquela que parece não carregar consigo problemas ou ressentimentos. O que fazemos, na realidade, é ir atrás de escolhas que nos  afastem do sofrimento. Caímos no velho clichê de que toda família é problema e não perdemos tempo no resgate daquilo que para nós já é visto como irresgatável. Batalha perdida sem sequer entrar em campo. Como tudo na vida, família dá mesmo trabalho, e como já trabalhamos muito para ganhar nosso sustento e tentar levar uma existência minimamente digna, tudo o que não queremos é ter mais trabalho nas outras frentes das nossas vidas.
Hoje me vejo num barco parecido: novas escolhas feitas recaem em novas famílias e fito os olhinhos questionadores da minha filha de 10 anos que – a partir desse ano – passará suas festas de fim de ano revezando entre papai e mamãe. Andei, andei, e estacionei no mesmo lugar?  Não. O que eu desejo para ela, é que não se sinta culpada porque não passou Natal com a mamãe, ou vai passar o réveillon longe do papai. Em primeiro lugar, isso depende de um pacto bem amarrado de amizade e admiração entre os pais dela – claro. O que inclusive permitiu que ela pudesse passar muitos Natais com papai e mamãe juntos, mesmo depois de separados. Sim, é possível escrever uma história diferente da minha – mas dá muito trabalho. A partir de agora, o que eu quero é que embora não esteja com papai e mamãe juntos nas festas de fim de ano, ela tenha a oportunidade de escolher sem a sensação de Sofia no clássico de William Styron. Cabe aos adultos – que, afinal de contas, a colocamos nesse lugar – não lhe causar sofrimento desnecessário com nossas carências e as próprias culpas não resolvidas.

Mas mais do que isso, o que eu gostaria de mostrar para ela é que, sim, escolher é crescer. Escolher fará parte de cada momento da sua vida, para sempre. E que nem sempre escolher o mais fácil a fará mais feliz.
A frase é batida, mas a vida não tem mesmo ensaio. Ou seja, “já é”, como dizem hoje em dia. Uma professora de literatura, Elizabeth Duque Estrada, vai ainda mais longe e costuma dizer que vivemos nossas muitas reencarnações em vida.

Diante disso, escolher o difícil nos ensina a construir bases fortes, a ganhar musculatura. Desistir da família e correr para a casa de um namorado ou de uma amiga qualquer pode parecer um alívio, em alguns momentos, mas nos tira a chance de amadurecer e investir energia e emoções em relações que, sim, podem valer à pena. Sim, família não é aquela que aparece nos nossos documentos e registros oficiais: são as relações que efetivamente cultivamos, nas quais investimos, nas quais escolhemos colocar energia. Mas a família dos registros oficiais também não é só problema. Hoje penso duas vezes antes de desistir de investir em relações humanas – sejam elas quais forem – porque encaro de frente as muitas fraquezas que eu mesma tenho, e as muitas e muitas vezes em que precisei que as pessoas que eu amo não desistissem de mim.

Claro que vou me esforçar para facilitar as escolhas da minha filha em relação a mim. E vou mostrar para ela que sempre haverá as escolhas corriqueiras de passar um Natal, um reveillon, fazer uma viagem, e que elas não precisam vir recheadas de cargas emocionais pesadas. Há escolhas outras muito mais importantes. Quero construir com ela algo sólido o suficiente para lhe dar motivos para me escolher diariamente – como pessoa. O que eu desejo é que ambas sejamos capazes de nos escolher mutuamente, sempre. Ainda que muitas vezes esta não pareça a escolha mais óbvia, fácil, ou simples. Mas que, simplesmente, valha à pena. 
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 O Leblon pré-novelas do Manuel Carlos. Contos e crônicas 
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A TRISTEZA PERMITIDA - Martha Medeiros

Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?

Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.

Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.

“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. 

Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. 


Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.

Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.
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"As primeiras festinhas foram na AABB, Monte Líbano e Caiçaras, na Lagoa. As inesquecíveis foram no Clube Leblon e no Clube Campestre. Na saída bom era comer na Pizzaria Guanabara que tinha uma pizza calabreza deliciosa e vendia pedaços no balcão."

PERDOANDO DEUS - Clarice Lispector

Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade.

Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso “fosse mesmo” o que eu sentia – e não possivelmente um equívoco de sentimento – que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho.

O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.

E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.

Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo.

Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante.

Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto.

Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado poderia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.

Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.

… mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.

É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é.

É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim.

É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta.

Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala.

Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza?

Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.
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