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O DIA EM QUE O RIO DE JANEIRO DERRETEU - Carlos Eduardo Novaes

Aparentemente aquele dia amanheceu igual a todos os outros do mês de janeiro. Céu azul, lavado, um sol forte e musculoso ainda se espreguiçando, uma promessa de calor. Manhã sob medida para turistas, estudantes em férias e desempregados. O Rio, quando quer, sabe como nenhuma outra cidade se enfeitar para o verão. D. Odete Araújo abriu a janela de sua casinha em Bangu e girou a cabeça como se tentando perscrutar o tempo. Viu um cidadão parado na calçada segurando um cigarro. A fumaça do cigarro subia em linha reta, parecia traçada a régua. Não havia a mais leve brisa no ar. D. Odete respirou fundo, passou as costas da mão na testa gotejante e comentou com a vizinha:
— Acho que hoje chegaremos aos 45 graus.

Os moradores de Bangu entendem mais do que todos de altas temperaturas. A vizinha deu de ombros. Um grau a mais ou a menos não faz diferença neste inferno suburbano. Na véspera, os termômetros de Bangu acusaram 44.8 graus, quebrando os recordes dos anos de 84, 85, 86 e 87. D. Odete comentou num tom cabalístico que aquele era o 13º dia consecutivo que o Rio se debatia com uma febre de 40 graus.


No Centro da cidade, um movimento típico das manhãs de verão. As pessoas procurando as sombras, procurando os bares, procurando diminuir o ritmo. Nada de anormal. O contínuo Ademar Ferreira, porém, percebeu o termômetro digital, que uma hora antes acusava 43 graus, agora marcando 48. O amigo, com quem conversava numa esquina da Avenida Rio Branco, disse que os termômetros estavam de miolo mole. Ontem vira um marcando 54 graus. Ademar continuou conversando, tornou a olhar o termômetro: 49 graus. Notou certa inquietação no ar. Os transeuntes se mexiam mais, tiravam o paletó, afrouxavam a gravata: 50 graus. Outras pessoas começaram a perceber a escalada dos termômetros. O calor aumentava: 51 graus. Um grupo preocupado se reuniu em torno de um orelhão e ligou para o Serviço de Meteorologia. O que está acontecendo? Os cientistas admitiam que a temperatura subia. vertiginosa, mas desconheciam as razões. Estavam acompanhando uma frente fria encalhada na Patagônia.


As pessoas se aglomeravam diante dos termômetros como se acompanhassem o movimento de apostas no Jóquei: 53 graus. 
As expressões revelavam medo e tensão. O calor tornava-se escaldante. Era como se tivessem ligado o forno da Rio Branco: 55 graus. Não dava mais para ficar exposto ao sol. As pessoas procuraram proteção embaixo das marquises. Muitas, nervosas, se refugiavam em lojas e escritórios com ar condicionado: 56 graus. Um bando de honrados cidadãos invadiu uma loja de eletrodomésticos:
— Liguem os ventiladores, pelo amor de Deus! — Infelizmente vendemos todos — respondeu o vendedor, torcendo o lenço empapado de suor.

Na Zona Sul o pânico se alastrava como um rastilho de pólvora. Edevaldo Santos, vendedor de picolés na praia, notou que algo estranho acontecia quando abriu a caixa de isopor e viu os palitos boiando num caldo de sorvete: 60 graus. 

Não dava mais para atravessar a areia quente. Quem ficou na praia já não podia sair. Dois helicópteros procuravam transportar os banhistas. Primeiro, velhos e crianças! A praia, como a cidade, já estava sob o império do caos, apesar das rádios e televisões pedirem calma à população. A corda que pendia dos helicópteros era disputada a tapa: 65 graus. Faltava ar, a garganta secava, o corpo parecia incandescente. A estudante Luísa Coelho lembrou-se de Joana D'Arc. Teve início a invasão de bares, restaurantes, supermercados. Todos corriam às prateleiras de bebidas. Água, refrigerantes, cerveja, vinho, champanhe, qualquer líquido. Tinha gente bebendo Pinho-Sol.

O trânsito enlouqueceu de vez. Os motoristas abandonavam seus carros nos congestionamentos. Os ônibus eram largados em qualquer lugar. Os veículos transformavam-se em fornos crematórios: 74 graus. 

Os pneus começaram a derreter. Nas ruas as pessoas iam se desfazendo das roupas. Vários executivos foram vistos se esgueirando pelos cantos, de cueca, meias e pasta. Começou a invasão dos apartamentos com ar condicionado. Eles viraram uma espécie de abrigo nuclear. Só na minha sala havia 67 pessoas se empurrando para botar a cara na frente do aparelho: 80 graus. De repente ouviu-se um ruído e logo o silêncio do ar-condicionado. A cidade ficara sem energia. O calor derreteu os cabos da Light. O sol esquentava os vidros e o concreto dos prédios. Era insuportável o calor nos apartamentos. A população desesperada saiu às ruas à cata de sombras. Num poste em Madureira havia 23 pessoas espremidas e perfiladas ao longo de sua tira de sombra: 84 graus!

Os carros dos Bombeiros circulavam pelas ruas com um restinho de água molhando a população. "Aqui, aqui! Joga aqui antes que eu pegue fogo!" Os chafarizes da cidade. estavam mais cheios do que trem da Central. Milhares de. pessoas mergulhavam na Lagoa Rodrigo dA Freitas. Só que esta, como as outras lagoas da cidade, secava rapidamente. As poucas matas pegavam fogo. As ruas de terra rachavam ao melhor estilo nordestino. O asfalto começou a borbulhar. Ploft! A cidade se transformava num caldeirão: 88 graus. No cais do porto os marinheiros se atiravam do convés como se os navios estivessem naufragando. No Santos Dumont um avião da Ponte-Aérea, ao invés de levantar vôo, embicou dentro d'água. O piloto foi aplaudidíssimo pelos passageiros.


A temperatura estava em torno dos 94 graus. No Sumaré as antenas das emissoras de televisão adernavam, desmaiando lentamente. O Pão de Açúcar começou a derreter como um sorvete de casquinha. Uma mancha escura se espalhava pelo mar. No meio, boiando, o bondinho com turistas americanos fotografando tudo. Outros morros também derretiam. O Dois Irmãos, para surpresa geral, entrou em erupção. A estátua de Cristo tinha desaparecido do alto do Corcovado. Dizem que, quando o morro começou a desmanchar, Ele saiu voando com seus braços abertos. Todo mundo já estava tendo visões e alucinações. Nas calçadas da Visconde de Pirajá — lado da sombra — as pessoas se arrastavam aos gritos de "água, água". Eram inúmeras as miragens. O pipoqueiro Manuel de Souza jura que viu as Sete Quedas na Praça Nossa Senhora da Paz.


As 17h12min, por fim, o sol começou a perder a força. As pessoas, ainda desconfiadas, foram saindo de dentro das geladeiras, freezers, frigoríficos. Nas câmaras frigoríficas da Cibrazem — contou-se ... — havia 12 mil 344 pessoas. Uma sensação de forno quente pairava sobre o Rio. Somente à meia-noite os termômetros voltaram ao normal: 40 graus. Terminara o efeito-estufa, deixando um rastro de dor e destruição. Não havia uma única gota d'água na cidade. Fomos dormir e no Day After, como não havia trabalho, saímos todos para a praia. 


Pois creiam: no meio do comércio de sanduíches naturais, chapéus, cocadas, óleo para bronzear, o diabo, já tinha nego vendendo um aparelhozinho para dessalinizar a água do mar.

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VOCÊ É TUDO QUE PODERIA SER? – Patrícia Saint-Clair

A vida é muito mais o que acontece dentro da gente do que o que acontece fora.

A nossa vida não é o que os outros veem, mas como nós a vemos de dentro de nós. Sempre me chamam a atenção os casos de homicídio seguido de suicídio em que pessoas que conheciam o autor dizem que nem suspeitavam do que acontecia com ele.

A dor psíquica nem sempre se vê de fora. Aliás, visto de fora, dá pra errar feio. Quantas vezes o cenário é maravilhoso, você pode estar em um lugar paradisíaco, mas visto de dentro, nada disso é sequer notado. Por isso fico vendo com certo enfado tantas frases de autoajuda tão em moda nas redes da vida, nada contra. Muitas são muito bacanas, mesmo! Mas me soam como se nossas questões, aquelas que mais nos afligem, fossem por falta de informação sobre como nos comportar ou falta de força de vontade nossa.

Será que a gente tem tanto poder assim sobre como nos comportamos? Sobre como vemos o mundo e as coisas que nos acontecem? Nosso cérebro e nossa mente parecem que têm vontade própria e não a NOSSA vontade.

Principalmente quando se tratam das questões que nos são mais difíceis. Então parece que não adianta aprender a teoria, porque quando nos vemos na situação de fato, não conseguimos aplicá-la. Você já sentiu isso? Quantas vezes o discurso é perfeito, mas a reação é outra. Por quê? Porque tudo o que nos acontece, depende do nosso olhar, da nossa lente. De como nos acostumamos a enxergar o mundo. As situações que vivemos na primeira infância, principalmente, e também ao longo da maturação do nosso sistema nervoso central, de como nosso cérebro foi se configurando, moldam esse nosso olhar. As situações boas e ruins que nos aconteceram ficam impregnadas na nossa lente. Na forma subjetiva como vemos e vivenciamos o mundo. E o temperamento com o qual a gente nasce também influencia a nossa forma de reagir ao que nos acontece, desde sempre, desde que nascemos. E o que a gente traz de gerações anteriores à nossa? Aquela cultura familiar, as crenças que nos são passadas, até de forma subliminar . Fora outras formas de transmissão transgeracional, hoje estudadas, até pelo DNA.

É uma soma de fatores que intriga até hoje a ciência, mas que, sem dúvida, nos constituem.

Não que a gente não tenha nenhum poder sobre isso, absolutamente. Mas conhecer de que somos feitos, o que nos constitui e o que nos limita, é fundamental. E a partir daí, sim, fazer as escolhas possíveis. Pensar o que você realmente quer na sua vida. O que você realmente gostaria de ser e tudo o que você poderia ser. Ou pelo menos, não andar a esmo, mas andar nessa direção. Porque enquanto estamos vivendo estamos fazendo essas duas coisas sem parar, buscando o querer e o ser. Nunca termina. E a terapia é uma das formas de resolver essa equação. Sempre repito que foi um dos melhores investimentos que fiz na vida. Por isso, recomendo.

Patrícia Saint-Clair -  Psicóloga clínica com especialização em Análise Reichiana, EMDR e Neuropsicologia.
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ESTAR SÓ - Danuza Leão

Vivendo só, às vezes, a pessoa está melhor 
do que jamais esteve, mas ninguém acredita

Do que mais se precisa na vida para ser feliz? 
De calor humano, dizem; por calor humano entenda-se, para começar, de alguém com quem se 
compartilha a vida, uma família bem estruturada e amigos, muitos amigos. Trocando em miúdos: para não correr o risco de ficar só -nunca.

Mas, quanto mais gente em volta, mais problemas. Houve um tempo em que se dizia que os casamentos seriam felizes para sempre; mais tarde, que durariam sete anos. Mas o mundo mudou, a ciência moderna constata que o amor dura no máximo dois anos e, como ninguém suporta ser infeliz por mais de um fim de semana, o divórcio está em alta.

E a família, como vai? Ninguém conta, mas raras são as que se dão bem e, quanto maiores elas são, mais brigas. Por ciúmes, inveja e, sobretudo, por dinheiro. Aliás, dinheiro é o grande responsável por quase tudo; ouso dizer (mas sem muita certeza) que existem mais brigas por dinheiro do que por amor.

Quando se vê um homem ou uma mulher (sobretudo) com mais de 50 vivendo só, tem sempre uma amiga que diz -com a melhor das intenções- "ah, você precisa encontrar alguém". Às vezes a pessoa está bem, melhor do que jamais esteve, mas, como existe essa certeza de que os seres humanos não podem viver sós, ninguém acredita -ou não quer acreditar ou não entende. Todos devem estar namorando, casando, ou qualquer outro nome que se queira dar, e se estiverem com um parceiro, mesmo tristes, infelizes, sem assunto, à beira de cometer suicídio ou um assassinato, qual o problema? O importante é estar acompanhada, o que aliás nos tira a felicidade de sermos as donas absolutas do controle remoto e poder passar o fim de semana com a geladeira vazia e sem arrumar a cama.

Aliás, o que as pessoas fazem para que isso não aconteça? Elas se cercam de pessoas com quem não têm quase nada em comum, das quais frequentemente não gostam e até falam mal. Numa mesa de restaurante com seis, oito pessoas, ninguém ouve o que o outro está dizendo, ninguém consegue trocar uma ideia com quem está ao seu lado; mas essas são as pessoas que falam mais alto, que mais dão gargalhadas, que mais parecem estar felizes.

Quem está só parece -parece- ser a mais infeliz das criaturas, sem ter um amigo para jantar e, em datas tipo Natal ou Ano Novo, dá até vontade de chorar de pena.

Mas é curioso como nos relacionamos com nossos amigos -com a maioria deles, digamos- estamos sempre tentando contar uma boa novidade ou sendo inteligente ou falando coisas muito interessantes, para que nos tornemos muito interessantes e assim possamos conservá-los. É bom ter um amigo animado, que entra em nossa casa falando alto, perguntando o que vamos beber e fazendo planos fantásticos para o próximo fim de semana

Mais curioso ainda é que não há amigo melhor neste mundo do que aquele em cuja companhia você se sente tão bem, mas tão bem, que pode até ficar calado pois parece que está só. Vai entender.
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Contos, Crônicas e Poesias







PROPORÇÕES – Poesia 


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A RECEITA DA FELICIDADE – Edmir Saint-Clair

Todos os dias pipocam dúzias de  textos sobre o tema Felicidade. Livros são lançados, artigos escritos, vídeos e todo tipo de arquivos são produzidos e vem se juntar a uma incontável biblioteca sobre o assunto. 

Ao refletirmos sobre isso, vemos que existem milhares de rótulos cujo cerne é a felicidade: psicologia, filosofia, autoajuda, meditação, sexoterapias, práticas tântricas,  yogas e outras centenas de "cadeiras" da matéria. 

"Felicidade não existe, 
o que existe são momentos felizes".
Peninha

Por mais óbvia e simplória que essa frase pareça, a princípio, trás uma verdade incômoda e nem um pouco romântica. Em seu enunciado, já determina sua finitude inexorável. 

Que tipo de felicidade transcendental é essa que a humanidade tanto busca? Uma felicidade perene e inalterável, onde cessa a tristeza e a contrariedade.
Um "foram felizes para sempre..."

Assim colocado, fica fácil vermos que, sob esse ângulo, a felicidade é uma utopia absoluta. 

Mas, se a pensarmos como um momento de pleno gozo da existência, a filosofia "Peninha" é absolutamente verdadeira. 

A maioria de nós, que já passou de certa idade, tem plena certeza de que existem muitos momentos onde nos sentimos plenos, felizes. Pelos mais variados motivos. 

Saber perceber esses momentos, enquanto estão acontecendo, é fundamental no processo de ser feliz.

Esse processo é desenvolvido intuitivamente durante a vida, e a forma como esse aprendizado se consolida em cada um é o que determina a capacidade ou a incapacidade de alcançar esses  momentos. Se desenvolveremos ou não a capacidade ser feliz. 

Ser feliz é um mérito pessoal. Uma conquista.

 Essa consciência do agora, esse momento no qual nos damos conta de que, naquele segundo, estamos sendo felizes, a felicidade se completa e explode como um gozo total do ser, pleno. Isso é o resultado de um processo, é a consciência do momento e requer aprendizado. 

É por ele que a humanidade vive. Para sermos palco, em nosso interior,  de uma explosão espetacular de sentimentos e sensações que são absurdamente compensadoras. 

Ás vezes, sua exteriorização não passa de um leve sorriso. Outras, é, literalmente, um gol do seu time num estádio lotado só com torcida a favor. Um espetáculo!

Para que esses momentos ocorram, é preciso que aconteça uma evolução sincronizada dos acontecimentos provocadores, únicos em cada ser.

Esse conjunto de fatores, muito pessoais e individualizados, se juntam e fazem nosso sistema orgânico produzir uma série de hormônios, em quantidades e proporções únicas, de tal forma que o resultado é a descarga daquelas sinapses únicas que provocam a sensação de Felicidade.

Esse processo é extremamente individual e único. Sequer no mesmo indivíduo acontece exatamente da mesma forma duas vezes. O simples fato de já ter ou de nunca ter acontecido já determina essa originalidade. 

Pensando assim, na felicidade como um conjunto de fatores que nos faz sentir bem por um período  de tempo, podemos sim encontrar esses ingredientes em atitudes diárias que nos proporcionem mais prazer do que incômodos. Com a frequência dos momentos prazerosos estaremos aumentando a possibilidades de que os fatores disparadores daquela sensação estejam presentes por mais tempo, aumentando a chance de sentir aquelas sensações.

Para que tenhamos o discernimento necessário para saber o que nos agrada, o que não faz diferença e o que realmente nos contraria profundamente , é preciso um autoconhecimento bastante razoável.

Prestar atenção nos próprios sentimentos e reações é fundamental. Ter a capacidade de perceber onde estão nossos limites requer autocrítica, sempre incômoda e perturbadora. Ninguém gosta de reconhecer limitações.

Depois dessa etapa, vem uma tão difícil quanto: estipular os nossos limites externos. 

Até onde deixar que os outros opinem, influam e nos cobrem por nossas decisões de âmbito pessoal? Até onde deixar, e quem vamos deixar, "se meter na nossa vida".
Até onde dar satisfação de nossos atos, e a partir de onde nossas motivações e propósitos são questões sobre as quais não devemos satisfação a ninguém?

É complicado. Mas, ninguém disse que não seria. 

Para procurar a receita, primeiro é preciso descobrir quais os ingredientes e que quantidades devem ser usadas para que o resultado nos traga a satisfação da vida com sabor.

E, como seria  bom, se  pudéssemos deixar essa receita como herança para nossos filhos. Como a receita de um bolo da vovó.
Mas, infelizmente, essa receita só vai servir para você. 
É pessoal e intransferível. 
E, quando a gente pensa que está chegando a uma conclusão, entra mais alguém na história e dana-se tudo de novo.

Se sozinho já é difícil, imagina a dois...


     

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SEM ESFORÇO E SEM EXEMPLO - Lya Luft

Não creio que a gente ande tão ruim de português por causa das redes sociais, dos torpedos no celular. Essa reclamação tem cheiro de mofo.

O interessante é que, embora digam que se lê pouco, as editoras vendem mais que nunca, bienais e feiras ficam lotadas, e mesmo assim não conseguimos nos expressar direito, nem oralmente nem por escrito. Se lemos mais, por que escrevemos e falamos mal?

Penso que, coisas verificadas há trinta anos em meus tempos de professora universitária, andamos com problema de raciocínio. Não aprendemos a pensar, observar, argumentar (qualquer esforço maior foi banido de muitas escolas), portanto não sabemos organizar nosso pensamento, muito menos expressá-lo por escrito ou mesmo falando. "Eu sei, mas não sei dizer", "Eu sei, mas não consigo escrever isso"" são frases ouvidas há muito tempo, tempo demais.

A exigência aos alunos baixou de nível assustadoramente, e com isso o ensino entrou em queda vertiginosa. Tudo deve parecer brincadeira. Na infância, ensinam a chamar as professoras de tias, coisa com que, pouco simpática, sempre impliquei: tias são parentes. Professoras, ou o carinhoso profes, ou pros, são pessoas que estão ali para cuidar, sim, mas também para educar já os bem pequenos. Modos à mesa, civilidade, dividir brinquedos, não morder nem bater, socializar-se enfim da maneira menos selvagem possível.

Depois, sim, devem educar e ensinar. Sala de aula é para trabalhar: pátio é para brincar. Não precisa ser sacrifício, mas dar uma sensação de coisa séria, produtiva e boa.

Por alguma razão, lá pela década de 60 inventamos — melhor: importamos — a ideia de que ensinar é antipático e aprender, ou estudar, é crueldade infligida pelos adultos. Tabuada, nem pensar. Ortografia, longe de nós. Notas, abolidas: agora só os vagos conceitos. Reprovação seria o anátema. É preciso esforçar-se, e caprichar, para ser reprovado.

Resultado: alunos saindo do ensino médio para a faculdade sem saber redigir uma página ou parágrafo coerente e em boa ortografia em seu próprio idioma!

O acesso à universidade, devido a esse baixo nível do ensino médio, reduziu-se a um facilitarismo assustador. Hordas de jovens entram na universidade sem o menor preparo. São os futuros bacharéis que não vão passar no exame da Ordem. Na medicina e na engenharia, o resultado pode ser catastrófico: ali se lida com vidas e construções. Em lugar de querer melhorar o nível desse ensino, cogita-se abolir o exame da Ordem. Outras providências desse tipo virão depois. Em vez de elevarmos o nível do ensino básico, vamos adotar o método da não reprovação. Em lugar de exigirmos mais no ensino médio, vamos deixar todos à vontade. pois com tantas cotas e outros recursos vão ingressar na universidade de qualquer jeito.

Além do ensino e do aprendizado, facilitamos incrivelmente as coisas no nível da educação, isto é. comportamento, compostura, postura, respeito, civilidade.

Alunos comem, jogam no celular, conversam, riem na sala de aula — na presença do professor que tenta exercer sua dura profissão — como se estivessem no bar. Tente o professor impor autoridade, e possivelmente ele, não o aluno malcriado, será chamado pela direção e admoestado. Caso tenha sido mais severo, quem sabe será processado pelos pais.

Não estou inventando: nesta coluna não escreve a ficcionista, mas a observadora da realidade.

A continuar esse processo antieducação, e nos altos escalões o desfile de péssimos exemplos, impunidades, negociatas e deboches — além do desastroso resultado do julgamento do mensalão, apesar de firulas jurídicas —, teremos problemas bem interessantes nos próximos anos em matéria de dignidade e honradez. Pois tudo isso contamina o sentimento do povo. que somos todos nós, e pior: desanima os jovens que precisam de liderança positiva.

Resta buscar ânimo em outras pastagens, para não desistir de ser um cidadão produtivo e decente.
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UMA AUSÊNCIA DE MODELOS - Roberto DaMatta


Assim era o nosso mundo, feito de países de elite: grandes, adiantados, civilizados e resolvidos. Neles, nada faltava e por isso eram o oposto do Brasil, onde faltava tudo

Sou do tempo em que se discutia qual era o maior país do mundo. Éramos tão ignorantes e ingênuos que, mesmo neste vale de lágrimas, acreditávamos na existência de nações sem problemas.

Um sujeito dizia que a França era o cara; mas um outro arguia que não: o lugar era dos alemães porque, além da excelência nas suas máquinas inquebrantáveis, eles tinham reinventado a religião, a literatura e a música. Já um terceiro lembrava que os americanos ganharam o guerra e que, sem ter tido dissidências internas que desembocavam no terror ou no nazismo, davam valor à iniciativa individual e inventaram o filme colorido e musicado. Mal dizia isso, porém, um outro notava a velha Inglaterra da Revolução Industrial e do estado de bem-estar social. O primeiro país a equilibrar democracia com aristocracia, equilibrando ricos e pobres. Essas classes que em todo lugar viviam sem classe.

Era a deixa para alguém falar da União Soviética e situá-la como o modelo de um paraíso já em curso. Avassalador e irresistível como a manifestação mais clara das leis do progresso histórico, liberada pelo partido — esse instrumento da liberdade concreta e do fim do ardil burguês — do capitalismo condenado à morte pelo seu próprio funcionamento.

Tal era o debate nos meus tempos de juventude quando, numa praia de Icaraí sem poluição, eu ouvia o Pezinho, o Silvinho, o Enylton e o Moliterno, para ficar nos mais queridos, essas preocupações que se reproduziam na casa de vovô Raul quando meus tios discordavam sobre os melhores automóveis, navios, aviões e, creiam-me!, navalhas. Aliás, esse era o único assunto que fazia meu pai falar e introduzir no campo dos países exemplares a Suécia, pois somente ele barbeava-se com o inigualável aço de navalhas escandinavas.

Com a Suécia, surgia a Holanda. Uma Holanda conhecida pelos moinhos de vento, pois nada sabíamos de sua trajetória cultural marcada pelo calvinismo, pelo grande Espinosa e pelas suas famosas putas em vitrines, como a confirmar o que freudianamente sobra quando se combate extremadamente a sexualidade. Havia um imenso toque de provincianismo e pós-guerra nesses debates, razão pela qual surgia o Japão como eventual bandido e a China como uma espécie de doente perdido e, imaginem, irrecuperável.

À nossa pátria — esse Brasil feito de lusitanos, índios e negros escravos — que era o lanterninha do mundo, cabia o papel de ator estreante cujas linhas mal decoradas não convenciam no palco onde brilhavam esses gigantes “adiantados” que por suposto e definição haviam dado certo e resolvido tudo.

Isso era tão verdadeiro que ouvi de um professor que a própria língua já determinava o lugar das “raças humanas”, conforme era comum classificar as sociedades daqueles dias antigos e ferozes. 

“Tome o alemão. Só um sujeito inteligentíssimo pode dominar essa língua complexa, criativa e desenhada para a filosofia!”, dizia ele. “E o português?”, perguntou um colega. “Bem — respondeu o mestre sorrindo — a nossa língua pátria é boa para o samba, para a anedota e para o mais ou menos!”

Mais tarde, descobri que o professor havia tentado aprender alemão com um refugiado de guerra; um tal de Otto Folterer, e que o instrutor o havia feito desistir por “falta de inteligência”. Quando timidamente eu perguntei do meu canto como é que se explicava que na Alemanha as crianças falavam alemão, ninguém me deu atenção. Eram todos, como os gregos antigos, inteligentíssimos, tal como os holandeses, que, não sei bem por que, teriam essa afinidade com os helenos e os germânicos. Segundo a lenda, os holandeses seriam capazes de entender todas a línguas, desde que o estrangeiro falasse devagar, soletrando as palavras.

Foi o que ocorreu com o Soares quando ele viajou para o Holanda. Sem saber uma virgula de holandês, lembrou-se do detalhe e pediu ao esguio e atencioso garçom holandês um bife bem passado com fritas e um chope gelado pronunciando cada palavra monossilabicamente. Minutos depois, chegou o garçom com o pedido. “Como você me entendeu?” inquiriu o Soares. “Eu também sou da terrinha...” disse o holandês devagar, detendo-se como ele em cada silaba. “E por que Diabos — explodiu Soares — estamos falando holandês?”

Assim era o nosso mundo, feito de países de elite: grandes, adiantados, civilizados e resolvidos. Neles, nada faltava e por isso eram o oposto do Brasil, onde faltava tudo, até mesmo uma língua inteligente e um conflito brutal, mas indispensável ao progresso.

Quando eu olho para a crise europeia, apavoro-me com o radicalismo político americano que paralisa o governo, vejo como a grande esquerda francesa e russa esboroou-se, tenho uma certa nostalgia desse nosso Brasil inocente, mas que também faz espionagem, explora os médicos cubanos, derruba viadutos, sonha com censura e que, de fato, tem uma língua tão ou mais complicada que o alemão.

Essa língua que os nossos políticos já estão falando por conta das eleições...

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IDA A TUPÃ - Mauro Rasi

Quando íamos passar o fim de semana em Tupã, distante uns 200 e poucos quilômetros de Bauru, todo mundo ia pra cama logo após o jantar, pra acordar cedinho. Mal conseguia dormir de excitação. Íamos ver tio Walter e tia Conceição e meus primos Neusa, Cidinha e Zé Roberto. Querem mais?

Às seis da manhã já estávamos na estrada. Papai pilotava o Gordini e mamãe puxava o coro, animadíssima.

— "Adeus Sarita;vou partir para a fronteira..."

Sua disposição era impressionante: As seis da manhã já estava com a corda toda, E, me vendo sonolento, pois não havia dormido direito de tanta excitação, ordenava:

— “Canta, menino!"

Eu, praticamente dormindo, completava, de mau humor:

— "Vou levar minha boiada para vender lá na feira.

Mamãe via um eucalipto na estrada e gritava:

— "Respira fundo, enche o pulmão."

Enchíamos o pulmão. Ela insistia:

— "Prende a respiração. Prende."

E não deixava a peteca cair. Quando ameaçava cair ela logo puxava "Ronda", de Paulo Vanzolini, que instantaneamente virava um sambinha animado:

— "Se hoje eu rondo a cidade a te procurar, sem te encontrar,lálárirá...'

Cantava tudo com alegria. Até "Assum Preto" tornava-se de uma alegria contagiante:

— "Furaram os óio, do assum preto, pra ele assim cantá mior..."

Na sua interpretação o pobre pássaro ficava cego, mas feliz. Mamãe não admitia infelicidade. Maysa em sua boca virava uma Ivete Sangalo. Seu "Meu Mundo Caiu" era visto com otimismo. Quem a ouvisse pensaria que o mundo havia desabado de felicidade.

Perto de Marília, ou seja, na metade do caminho, era hora de cantar o hit de Nora Ney, "Ninguém me ama, ninguém me quer". Com alegria; se é que isso é possível. Parecia que era tudo de mentirinha:

— "Fui como resto de bebida que você jogou fora..." Mamãe não sentia nada do que cantava; era tudo da boca pra fora. Como em "Lama", do Lupicínio:

— "Se meu passado foi lama, hoje quem me difama viveu na lama também...". Não havia rancor nem amargura. Era uma lama "limpa, uma lama do bem. Quando cantarolava "a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou" parecia até que o pai havia deixado um seguro de uns US$ 1 milhão e não algo de que se pudesse envergonhar.

Seu repertório era praticamente de fossa, que ela metamorfoseava. As músicas entravam lagartas e saíam borboletas. Ela sempre via o lado positivo das coisas. Depressão lá em casa não se criava, era sinônimo de chilique ou faniquito. Tudo se curava com um bom banho frio. E, se a depressão persistisse, vinha a ameaça:

— Dá uma enxada pra ele capinar o quintal que eu quero ver se esse fricote não passa...

Mas às vezes acontecia uma tragédia, como sábado passado. Papai foi matar formigas. Da última vez tinha usado querosene e quase pôs fogo na casa. Dessa vez usou formicida. Formicida Tatu. Só de ver aquela caveirinha entre duas tíbias estampada na latinha já suava frio. A latinha ficava guardada na última prateleira do armário do quintal, num lugar quase inacessível. Mas eu achava que um dia não iria me conter e acabaria abrindo a lata e experimentando um pouquinho. Deve ter sido porque o primeiro morto que eu vi (devia ter uns cinco anos) estava caído, descalço e sem camisa, no portão do E.C. Noroeste. Ao lado do corpo havia uma garrafa de Coca-Cola e a fatídica latinha.

Para encurtar a história, papai espalhou formicida pela casa, mas esqueceu de avisar o Bolinha, nosso cãozinho vira-lata, que foi lá e lambeu. E morreu.

Por isso estávamos indo para Tupã, para esquecer. Nessa época meu universo ia de Bauru a Tupã. Eu me perguntava:

 "O que será que tem depois de Tupã?". 

Mas no íntimo eu já sabia a resposta. Depois de Tupã começava a fantasia.
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A CIÊNCIA E A PACIÊNCIA - Ferreira Gullar

Nem sempre a sabedoria dos mais velhos 
ajuda os mais jovens. 
O jovem quer errar, precisa errar.

Houve época em que a idade era tida como qualidade, mas, de uns tempos para cá, caiu em descrédito. Nos anos 60, tornou-se comum dizer-se que não se devia confiar em ninguém que tivesse mais de 30 anos. Descobriu-se, então, que ser jovem era o único valor real e que a chamada sabedoria dos mais velhos era simples balela.

Os que diziam isso, naquela época, hoje têm mais de 60 anos e não sei se continuam a afirmar a mesma coisa ou se ensinam a seus filhos o que aprenderam com a idade.

Por exemplo, que o consumo de drogas, a que se entregavam entusiasticamente naquela época, levou muitos amigos seus à loucura ou à morte precoce. Mas, se o fizerem, correm o risco de ouvir deles que não confiam em ninguém que tenha mais de 30 anos de idade, pois foi o que aprenderam com os próprios pais.

De fato, aos 20 anos, a gente não sabe muito da vida. Tampouco os mais velhos sabem tudo. Se aquela frase irreverente expressava a necessidade de uma geração de romper com os valores estabelecidos e entregar-se ao desvario beatnik, há que levar em conta que cabe aos jovens inventar a própria vida e, para isso, têm que, às vezes, não ouvir os conselhos dos pais.

É que nem sempre a sabedoria dos mais velhos ajuda os mais jovens. E mais que isso, o jovem quer errar, precisa errar, porque é errando que se aprende. Não adianta a mãe advertir o filhinho de não tocar o dedo na chama da vela, pois fogo queima. Ele só acreditará depois de queimar o dedo.

Bem, toda essa conversa vem a propósito de minha irritação com a barulheira desta rua onde moro. Desta vez, foi um vendedor de laranjas que apregoava as virtudes de sua mercadoria, berrando num alto-falante posto em cima de uma caminhonete.

Minha filha Luciana, que me visitava na ocasião, preocupada com meu estado de espírito, aconselhou-me a mudar de apartamento e buscar uma rua tranquila, como aquela onde mora. Minha reação a seu conselho deve tê-la surpreendido.

- Sair eu deste apartamento onde moro há 30 anos?! Nunca! Já pensou na quantidade de livros que teria que transportar e rearrumar na outra casa? Prefiro enlouquecer aqui mesmo.

Foi a minha primeira reação. Logo, mudei de tom e lembrei-lhe de que, mal me instalara aqui, descobri que, sob meu quarto de dormir, funcionava uma boate. Iniciou-se uma luta que durou anos e que terminei vencendo. Se não saí naquela época, não seria agora que o faria.

E quando os meninos da vizinhança passaram a jogar bola embaixo de minha janela? Era todos os dias, no final da tarde. Eles, na verdade, menos jogavam do que gritavam, se esgoelavam. Um inferno.

Desesperado, comecei a engendrar um plano para acabar com aquilo e concluí que o mais eficaz seria quebrar meia dúzia de garrafas e jogar os cacos de vidro na calçada. Encontrada a solução, fui dormir naquela noite mais conformado, sem calcular as consequências daquele plano. Sucedeu que, dois dias depois, à hora de sempre, não houve a pelada. Nem no dia seguinte, nem nunca mais.

Achei ótimo, mas não me dei ao trabalho de refletir sobre o fato. Não muito depois, foi um vendedor de uvas que, todos os dias, a partir das três da tarde, começava a gritar num alto-falante: "Uvas por dois reais! É só hoje e não tem mais!".

Isso durou semanas, mas um dia acabou também. Senti-me aliviado e não pensei mais no assunto, mesmo porque o que nos desagrada a gente trata, se possível, de esquecer.

E não é que, certa noite, dois caras começaram a conversar aos berros debaixo da minha janela. Além do berro em si mesmo, irrita-me especialmente o fato de que o sujeito está junto do outro, mas berra como se estivesse do outro lado da rua.

Tive vontade de descer, ir até eles e lhes dar um esporro. Mas pensei um pouco, fui até a cozinha tomar um gole d' água e, quando voltei à sala, eles tinham ido embora ou se calado. Então refleti: se eu tivesse dado um esporro neles, teria ganho dois inimigos e eles, para me irritar, estariam possivelmente berrando até agora. E ainda teria ganho dois inimigos.

Terminei aprendendo: espere passar, pois tudo passa. A sabedoria é ter paciência e não se estressar nem brigar. Mas isso só se aprende com a idade.
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