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COMO VENCER OS FANTASMAS DO FINAL DO ANO - Christian Ingo Lenz Dunker

A chegada de dezembro desperta, em muitas pessoas, desde angústia e ansiedade até sentimentos de euforia relacionados às expectativas de um novo ano. Para enfrentar o período de "loucura", o autor sugere um "manual de sobrevivência" em 7 passos

Psicanalistas, psicoterapeutas e aqueles que de alguma forma lidam com o sofrimento psíquico são unânimes em reconhecer que o “final do ano” é uma época particularmente perigosa. Talvez a “loucura” desse período devesse ser incluída nas síndromes traumáticas do cotidiano -– ao lado da angústia de domingo à noite e da euforia vazia e efêmera das sextas-feiras. Essas ocasiões estão associadas a situações de risco social iminente pela ruptura da rotina, da organização do tempo e pela variação caótica de encontros, desejados e indesejados que pode desencadear.

Assim como as sextas e as segundas-feiras, o final de ano marca um ponto de passagem, mas diferentemente das duas primeiras, sua localização temporal é indeterminada. Para alguns o período começa em novembro; para outros, na semana do Natal; há ainda aqueles que confundem a loucura de fim de ano com complexo das férias perfeitas. Estabelece-se assim uma seqüência de retraumatizações que às vezes só se resolvem pela pacificação representada pelo reinício do ano. Aliás, também o início desse novo ciclo parece representar mais um estado de ânimo que uma data precisa no calendário.

Adormecida, a loucura de fim de ano permanece latente até ser acordada pelas campanhas publicitárias e o apelo às compras. E assim é com o sofrimento neurótico em geral: como não se sabe de onde ele veio espera-se que vá embora por si mesmo. Nessa época convivem dois sentimentos opostos: de que algo já se faz presente, mas ainda não vigora plenamente, como se não houvesse chegado sua hora. Por isso tememos esse período – e também o esperamos ardentemente. Seu retorno insidioso, ano após ano, traz à luz as mais fortes experiências infantis. As lembranças de tantos desejos se apossam de nós combinando a saudade e a fantasmagoria do passado. O esforço para nos reunirmos e comemorar nos coloca sempre uma pergunta silenciosa: afinal por que nessa época não me sinto tão feliz como deveria? Por que surge essa angústia às vezes crônica, às vezes aguda? Recordar, repetir e elaborar – eis a difícil travessia que o final do ano nos propõe. Esses três movimentos que coordenam o tratamento psicanalítico são exigidos de forma concentrada e assistemática ao término de cada ciclo de 12 meses.

Imaginemos que no final do ano – assim como nos fins de semana, em menor escala – temos de nos haver com a difícil tarefa de reconstruir narrativamente vivências passadas de tal forma que elas se completem como uma experiência da qual possamos nos apropriar. A perda progressiva da experiência tornou-se a tal ponto um problema que muitas vezes recorremos aos discursos pré-fabricados nas reuniões e festas de Natal.

DISCURSOS VAZIOS

Três tipos de loucura são bastante comuns nessa época. Lembrando Jacques Lacan, podemos dizer que esses enlouquecimentos encampam discursos específicos: da histérica, do universitário e do mestre. O primeiro promove o deslocamento da experiência de tal forma que seu agente seja uma terceira pessoa, técnica mais conhecida como fofoca. Ao falarmos de atitudes condenáveis de outra pessoa, com os mais picantes ingredientes acrescidos por nossa imaginação ou maledicência, vivemos a aventura da transgressão de forma deslocada e segura, uma espécie de “transgressão light”. Geralmente, o fofocado simplesmente realiza aquilo que, no fundo, gostaríamos de ter feito – que nossa covardia, preguiça ou ética impediu. Assim, parasitamos histericamente a experiência potencial do outro, propiciando a nós mesmos uma vivência pobre de satisfação. Vivemos – sem de fato viver – a aventura transgressiva do outro e ao mesmo tempo temos a sensação ilusória de que participamos de uma situação coletiva. Falsa coesão demonstrada pelo fato de que aquele que deixa o grupo será objeto imediato e preferencial de tal prática.

O segundo tipo de discurso que mimetiza a experiência, na loucura de final de ano, é usado pelos “experts”. Aqui o falso coletivo é composto pela exclusão daqueles que “não sabem como é bom”. A conversa é feita para deixar claro que quem dela participa tem gosto ou saber diferenciado, inacessível aos mortais, e possui vivências mais preciosas que o tornam alguém especial. Surgem as “elevadas” considerações sobre a qualidade do vinho servido, a respeito dos charutos fumados, dos últimos eventos culturais freqüentados, conversas sobre os bens adquiridos e a superioridade do sistema aeroportuário de outros países ou ainda sobre as inenarráveis qualidades daquele prato degustado no sofisticado restaurante da moda. Os comentários giram em torno das curiosas discussões sobre a qualidade insubstituível do bacalhau de antigamente ou se detêm nas queixas a respeito da imperícia culinária do anfitrião. A tirania do gosto, envolta num discurso universitário que pode ser tediosamente descritivo, assume a perspectiva professoral de autoridade constituída. Resta, nesses casos, só a aparência de que se compartilha algo.

O terceiro tipo de discurso, com marcado caráter pseudo-experiencial, diz respeito à retórica do planejamento. Neste caso incluímos aqueles para os quais o final do ano não é a suspensão da guerra, mas o seu clímax: a grande batalha. Os ritos se impõem a seus praticantes, parecendo adquirir vida própria – com cartões escritos em grande escala, felicitações por atacado, presentes distribuídos como se atendessem à demanda de uma linha de montagem, práticas filantrópicas executadas milimetricamente, segundo as últimas técnicas de gerenciamento de tempo e de recursos humanos. O objetivo é chegar vivo até o início do próximo ano – mas sem viver a experiência, apenas reduzindo-a a um conjunto de tarefas. Para essas pessoas, aqueles percebidos como fora do circuito estão literalmente atrapalhando. Se a ocupação comandava a vida até aqui, surge um redobramento: a sobreocupação. Preocupados em manter osistema funcionando, esses “mestres de fim de ano” estão permanentemente irritados e atrasados. Sua posição sacrificial os autoriza a se irritar profundamente com os incautos, seu olhar é temido pela culpa que pode provocar. A conversa é reduzida à localização incógnita daquela lata de ervilhas ou à fiscalização do cumprimento de ordens. A prática é, no fundo, uma técnica de esquecimento, espécie de “fuga para frente”. Repetir em vez de lembrar: desta maneira os afetos podem ser retidos e substituídos por ações.

A fofoca, o superentendimento e a sobreocupação são maneiras de nos desviarmos, são estratégias para não recordar, seja porque nos dedicamos a lembrar criticamente dos outros, porque transformamos a lembrança em descrição de acontecimentos passados ou porque substituímos o lembrar pelo fazer. O fato é que esses três discursos -– da histérica (fofoca), do universitário (experts) e do mestre (sobreocupação) – são táticas para fugir do desprazer, mais do que meios para usufruir da satisfação esperada no final do ano.

LEMBRAR PARA ESQUECER

O prazer do “retorno para casa” não é um efeito automático e sim fruto de um tipo específico de trabalho psíquico a que a reconstrução da experiência nos convida; trabalho que Freud chamava de elaboração (Ducharbeiten, literalmente “trabalho através de”), ou seja, uma forma muito específica de lembrar que traz consigo o afeto e a integração do que é lembrado no presente, bem como a projeção de um futuro. Lembrar para poder esquecer.

Vejamos então como situações similares podem ser bons provocativos para uma verdadeira experiência. Nesse caso podemos incluir, por exemplo, a épica do lombo seco, o complexo dramático dos bolinhos de bacalhau ou ainda a lírica – ou cômica – entrega dos presentes. Note-se como, nesse caso, aquela travessa fora de moda com cara de Papai Noel é um detalhe imprescindível: sem ela o Natal não seria Natal. O juízo especialista do gosto autorizado é suspenso em prol do valor simbólico rememorativo de um elemento arbitrário.

Fora daquela comunidade, a travessa de plástico seria apenas mais um caso de mau gosto e não um evocador de histórias. Ao contrário da retórica descritiva da exclusão, a épica da experiência é inclusiva. Aquela tia falecida reaparece como modelo a ser seguido, o fracasso retumbante dos fios de ovos daquele ano volta à memória, a face forçada de satisfação daquele namorado em primeira visita natalina é rememorada com graça. Ou seja, torna-se mais importante a história lembrada, o fato de que estávamos juntos, do que o que foi consumido ou quem pagou a conta. A experiência traz outra dimensão do tempo vivido.

Os idosos se tornam mais sábios, as crianças se tornam mais crianças, os adultos interrogam sua própria maturidade. Isso ocorre porque além da própria posição cada qual se reconhece nas demais, avaliando em si mesmo o que poderia ter sido ou o que poderá vir a ser. Como mensagens deixadas em uma garrafa, recolhidas 20 ou 30 anos depois, essas histórias nos devolvem a nossa própria mensagem, agora de forma invertida pelo processo da experiência. Sabe-se que o tempo passa mais devagar para a criança, e teoricamente isso tem relação com o fato de que suas conexões sinápticas estão em formação ou sua capacidade de aprender com a experiência é maior. A experiência lentifica o tempo; a vivência o comprime – é por isso que em uma viagem o caminho de ida parece ser mais longo que o caminho da volta.

A primeira regra de um possível “manual de sobrevivência psíquica de fim de ano”, portanto, deveria contribuir para tornar crítica a consciência de nossa própria loucura − uma experiência trágica ou cômica, não importa, desde que seja digna de ser narrada.  A primeira orientação, portanto, é: passar da vivência à experiência.

Mas por que seria o nosso passado imediato, representado pelo ano que passou, algo a ser tão fortemente evitado? Qual a natureza de sua força traumática? O primeiro erro consiste em subestimar o “adversário”, achar que esse é um período do ano como qualquer outro e como tal deve ser vivido. A insanidade do final de ano se infiltra insidiosamente por meio dos detalhes: pequenos adiamentos, evitações, ansiedade flutuante ou inúmeras atuações desordenadas. É a ação da amnésia, esperada em qualquer evento traumático repetitivo.  Depois vem o súbito encontro com a coisa traumática, o que Freud chamava de Schreck (terror-pânico) e Lacan de “encontro com o Real”. Muitos são seus desencadeantes: o presente misteriosamente “esquecido”; a notícia abrupta de que aquela tia virá mesmo... e com os sobrinhos; a notícia, retinta de alívio e inveja, de que aquele cunhado de fato não virá pois se evadiu para o abrigo antiaéreo da colônia de férias. Sem falar na pergunta decisiva: quem fará o peru desta vez?  Fato é que o fim de ano nos coloca em estado de alta reatividade e atenção prevenida. Comentários banais se transformam em ofensas insuportáveis; como os soldados que voltam do front, somos tomados por uma espécie de “neurose de guerra transitória”.

Subitamente começamos a agir como se fôssemos vítimas de nosso próprio destino. Não importa se o mártir se oferece ou é convocado, o pânico lhe parece uma nuvem flutuante prestes a explodir. O pânico foi um sentimento bastante estudado pelos teóricos da guerra, principalmente pelo fato de que é um sentimento coletivo e contagioso, instabiliza a ordem e sugere que não há mais ninguém no comando. A ruptura entre a linha de frente e os generais interrompe a cadeia simbólica necessária para a guerra e torna difuso quem é e onde está o inimigo – o adversário confunde-se agora com qualquer um. Daí a solução do pânico em medo. Diferentemente do que acontece em situações de pânico, na de medo temos um objeto, sabemos o que temer. Nesse caso está em questão o medo do futuro. Esse é o terceiro momento da loucura de final de ano: irritabilidade difusa, explosões despro---porcionais de raiva, dramáticas efusões afetivas além de decisões intempestivas.

Essa desorientação de referências pode surgir sob a forma do afeto inverso ao pânico, ou seja, o tédio. Apesar de aparentemente opostos, pânico e tédio têm a mesma gramática, em ambos há uma suspensão da orientação simbólica do sujeito. Há ainda no tédio uma espécie de fuga para fora da cena, de descolamento do sujeito em relação a sua própria experiência, como se a pessoa se sentisse estranha, sem lugar diante de tanta “felicidade” no ar. Para o entediado tudo parece artificial, repetitivo e sem graça, pois apesar de ele estar ali, não se sente naquele lugar.Ele está ou gostaria de estar em outro local.

Assim como o pânico evolui para o medo, o tédio evolui para a melancolia. De fato, a loucura de final de ano admite a figura do melancólico, que se sente excluído e se recrimina por isso. Como dizia o poeta Nerval, o melancólico é antes de tudo um realista, acha que percebe as coisas como realmente são. Vê na troca amorosa de presentes apenas mais uma manobra da lógica do capital; nos amigos que o procuram, apenas uma operação de networking; nas iniciativas solidárias, apenas o alívio para a culpa dos mais favorecidos. A crua verdade, certamente. Mas não toda ela.

No fim do ano estabelece-se, portanto, esta tríade composta pela ansiedade da expectativa, pelo terror maníaco ou traumático e pela ressaca moral carregada de decepção e tédio melancólico. Se quisermos contribuir para a sobrevivência subjetiva nesse tempo de fraternidade compulsória, devemos examinar mais de perto as tarefas psíquicas que o momento apresenta.

CONTABILIDADE DE SONHOS

Comecemos pelo fato de que o final de ano convoca a experiência do tempo. O tempo não percebido da ocupação cotidiana é suspenso. Sentimo-nos improdutivos. De repente nos damos conta de que o tempo passou, sem que nos déssemos conta. Todavia, saber que isso acontece é diferente de realizar essa informação.  Se o tempo passou num instante e se compreendemos que esse tempo se foi, é então o momento de concluir. A maneira mais simples – e mais pobre – de fazer isso é planejar. Formal ou informalmente colocamos o ano transcorrido em certos crivos: metas, realizações, fracassos, decepções, empates, honrosos ou não.

Esta espécie de ajuste de contas com o passado geralmente nos convida a um exercício de objetivação da experiência. Fatos, datas e resultados surgem como métricas espontâneas que nos permitem, de forma simples e rápida, saber se estamos em débito ou crédito com nossos sonhos. Atenção, aqui vem o engano. A contabilidade reduz processos a produtos. Como simples vivência, aquela longa batalha com a trigonometria transforma-se apenas em um “passei de ano” e cumpri minha obrigação. A densa experiência representada pelo término de um namoro torna-se apenas mais um fracasso na lista de tantos outros. Cria circularidades: “A vida ficou me devendo uma este ano? Vou comer aquela porção extra de rabanada... afinal eu mereço”. Ou “Consegui aquilo que queria este ano? Também vou comer a tal porção extra de rabanada, afinal... eu mereço”. Ou seja, independentemente do resultado, fracasso ou sucesso, a prática da contabilidade empobrece nossa experiência, sentimo-nos vazios depois de fazê-la, com ou sem rabanadas adicionais. Ela só nos diz se estamos no positivo ou no negativo, escondendo, por efeito de método, se foi um fracasso interessante ou um sucesso sem graça.

A segunda regra é, portanto, desconfiar dos poderes da contabilidade e evitar o cálculo neurótico do gozo.

 O “balanço” de fim de ano infelizmente pode ser piorado por outra circunstância: o encontro com parentes e amigos – ou o não encontro com parentes e amigos, tanto faz. Tido como momento de confraternização e reencontro, o período tem potencial altamente explosivo, especialmente se acrescido de contabilidade negativa. Neste caso, ao refazer a memória e a história coletiva, em vez de reafirmação e comemoração de um destino comum, a tendência será encontrar um culpado altamente disponível: o outro.

Quer porque nosso balanço se mostre tímido diante das grandes realizações alheias, quer porque elas sejam atribuídas diretamente às vicissitudes de nossos próprios laços familiares, a insatisfação flutuante encontra terreno fértil para se transformar em culpa. A culpa é sempre uma decorrência do fato de que não estamos à altura de nossos desejos, ou seja, que na verdade não nos empenhamos como deveríamos ou gostaríamos para torná-los realizáveis. Além disso, é sempre um subterfúgio preferível à angústia. Assim, este sentimento de traição encontra logo um depositário. Em vez de refletir sobre a pergunta capital: “Será que, neste ano, realmente agi em conformidade com meu desejo?”, substituimos a reflexão pela resposta rápida: “É claro que não, afinal o outro não me deixou”. E não importa quem seja o outro: o marido ou a mulher, os filhos, o chefe, a empresa ou a situação econômica e política do país.

O fragmento de satisfação da qual me sinto frustrado é imediatamente imputado a esse outro, segundo as próprias fantasias fundamentais. Foi ele quem raptou aquele pedacinho que faltou para a realização de meu próprio desejo. Ao mesmo tempo é o outro que nos lembra que estamos em falta, a começar pelo fato de que não o encontramos há tempos – aliás, esqueci dos amigos? Isso dá margem tanto a comparações depressivas quanto à pirotecnia exibicionista nos conhecidos excessos de fim de ano.

Quando adaptamos nossos desejos a uma imagem e transformamos qualquer objetivo e bobagens em metas, a fantasia que se articula neles sofre uma curiosa mutação. Passa de sua função regulatória, como horizonte semi-indeterminado de aspirações, para a condição de obrigação compulsória. Se escolhemos querer, estamos então obrigados a continuar querendo. É assim que nos tornamos prisioneiros e escravos de nossos próprios desejos, de tal forma que rapidamente eles se tornam um fardo.

Logo, terceira regra, não convém fazer desejos caberem em metas.

APLAUSOS E CASA EM ORDEM

Não há loucura de final de ano sem os banquetes. Lautos e exagerados, eles são pretexto tanto para o encontro comemorativo como para o remorso com relação àqueles que estão excluídos. Excluídos são tanto os que se encontram privados de nossa companhia quanto aqueles que já se foram e que, como fantasmas, benévolos ou malévolos, retornam nessa hora. Aqui entra em jogo outro fenômeno próprio da loucura de final de ano: a interpassividade. Todos nós conhecemos aquele truque de televisão que consiste em utilizar risos artificiais ou aplausos de auditório em comédias medíocres. Alguém levanta uma placa e todos riem no momento em que devem rir, aplaudem quando ordenado ou vaiam.

Um similar nacional deste truque são as carpideiras. Profissionais do choro, elas desempenham a função de alguém que “chora por nós”, assim como a claque de auditório “ri por nós”. O resultado é que mesmo diante de uma comédia chata sentimos que afinal nos divertimos um pouco, quando na verdade “alguém se divertiu por nós”.  Aplique-se o conceito à loucura de fim de ano. Precisamos mostrar boa vontade porque afinal “mamãe acha isso tão importante”, ou então “as crianças acreditam em Papai Noel” – logo não podemos decepcioná-las. Ou seja, há alguém que “acredita por nós” e, para não desfazer o truque, nos comportamos como se acreditássemos.

Mas aqui há um efeito inesperado. A crença não é apenas um sentimento interno e individualizado que experimentamos em nosso íntimo. A crença é uma prática. Como dizia Pascal: ajoelha e reza, a crença virá por si mesma. Portanto, quando praticamos desengajadamente os rituais exigidos pela loucura de fim de ano, em nome de “alguém que acredita por nós”, como se estivéssemos excluídos e a salvo do consumismo, da hipocrisia e da ganância segregatória, estamos de fato acreditando. O que se demonstra pela conhecida situação na qual as crianças continuam a acreditar em Papai Noel, mesmo que não acreditem, pois, afinal, quem quer decepcionar os adultos? O problema da crença interpassiva é que ela impede que nos apropriemos de nossas próprias crenças – a ponto de criticá-las ou reinventá-las.

Portanto, quarta regra de sobrevivência: leve os rituais a sério, eles são mais importantes e eficazes do que você pensa.

TEMPO DE SOLIDÃO

Findo o ano, que fazer no próximo? Que fazer com o futuro? Aqui, a insanidade de fim de ano porta o grão de verdade contido em cada forma de loucura. A loucura que afinal nos torna humanos ao oferecer o limite de nossa liberdade, segundo a tese de Lacan. Quem começou confiando na contabilidade fatalmente será presa fácil do dispositivo das promessas de ano-novo. Feitas com base em metas e objetivos, são facilmente derrubadas ao primeiro contato com o cotidiano real. Elas redundam na decepção com nosso presumido poder de praticar a liberdade. Isso já aparece de forma muito inicial na forma como depositamos, nesse período, a expectativa de que poderemos, enfim, colocar a casa em ordem.

O tempo de férias é rapidamente mobilizado para a resolução de questões em atraso. É preciso resolver o passado para criar um novo futuro, sem pendências. Essa fantasia de renascimento se apóia na ancestral prática cultural de comemorar a mudança de ciclo das estações. O solstício e o equinócio correspondem a momentos de passagem, logo de potencial desequilíbrio, entre um modo de vida e outro, entre o dia e a noite, entre a colheita e o plantio, entre a juventude e a velhice. Durante muito tempo, aprendemos a simbolizar a transição compartilhando, rememorando e reescrevendo a história conforme certos dualismos primários.

A festa, o fim do ano (mas também, em menor escala, o fim de semana e o fim do dia) são exemplos, mais ou menos coletivos, desses “pontos de suspensão”. Nossa época, entretanto, não aceita muito bem que tal ponto, justamente onde se anuncia algo de nossa liberdade, esteja sujeito a tamanha coerção social. Isso ajuda a entender por que, apesar do espírito de confraternização, a loucura de fim de ano nos convoca tão facilmente para a expe-riência da solidão. No fundo, desconfiamos do destino coletivo que comemoramos e sabemos que, mais que um desígnio, o destino é uma tarefa profundamente solitária.

A quinta regra de sobrevivência psíquica inspira-se na sabedoria bíblica que reza guardar sábados e festas. O mandamento não diz gozar ao máximo sábados e festas, nem mesmo penitenciar-se ou culpar-se em sábados e festas, apenas guardar. Guardar significa manter uma certa distância, cuidar ao longo do tempo, manter a atenção... para com nossa própria loucura.

Para muitos a insanidade do final de ano assume dimensão sagrada, mística ou religiosa. Seria possível criticar a teoria da experiência supondo que ela é, no fundo, uma forma de saudosismo e de valorização regressiva do passado, como um mero escapismo das dificuldades do presente. Afinal não vivemos mais nem os ciclos dos agricultores sedentários, nem as aventuras dos marinheiros viajantes.

Os ciclos das bolsas de valores nos afetam mais que tempestades ou secas. Neste sentido é anacronismo imaginar que a verdadeira experiência seria uma espécie de reatualização do tipo de laço que supomos presente nas antigas comunidades orgânicas. Melhor seria olhar para essa força simbólica da cultura sem tentar resgatar a essência de um passado que talvez nunca tenha existido. Como na história do pai que ao morrer diz aos filhos que há um tesouro enterrado em suas terras. Em busca do tesouro os filhos reviram a propriedade, não encontrando mais que raízes e troncos, além de decepção. Todavia, como efeito deste trabalho, naquele ano a terra se mostrou mais fértil do que nunca, produzindo assim o tesouro que o pai prometera.

Aqui o truque é simples: em vez de mimetizar o passado, como se sua repetição fosse garantia de felicidade e segurança, arriscar-se a viver o novo produzassim um tesouro que não estava lá. É pelo mesmo princípio pelo qual uma ficção pode produzir efeitos reais que se opera a transferência no tratamento psicanalítico. Boa parte da loucura de fim de ano se aviva com a promessa de um passado essencial que nos colocaria em linha com um futuro previsível, geralmente anunciado nos pedidos e promessas de ano-novo.

Portanto, sexta recomendação: encontre a repetição produtiva, caso contrário achará apenas tocos, raízes e mais algumas minhocas.     

No fundo, a loucura de final de ano apenas potencializa a loucura que já estava lá, encoberta pela nuvem do esquecimento e da ocupação. Erasmo de Roterdã, pensador do século XVI, tinha uma classificação muito atual da loucura. Dizia haver dois tipos: a loucura louca e a loucura sábia. A primeira é aquela que desconhece que os assuntos humanos são uma comédia de representações na qual cada um diz uma coisa, pensa outra e age de acordo com uma terceira. Louco louco é aquele que toma o teatro humano pelo valor, esperando dele o que ele não pode dar. O louco sábio, ao contrário, é aquele que tem conhecimento de que toda loucura é louca e, sem se isentar dos assuntos humanos e de sua estrutura trágica e cômica, olha de frente para a verdade do teatro que a ele se apresenta. Não para desmascará-lo como hipocrisia mentirosa, sob a qual se esconderia a sórdida verdade essencial, mas para habitá-lo como espaço possível de liberdade e criação.

A sétima regra de sobrevivência psíquica em tempos de loucura de fim de ano, a regra de ouro, é, portanto, não levar demasiadamente a sério sua própria loucura. Guardá-la com carinho é suficiente.
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A BANALIDADE DAS APARÊNCIAS - Christian Ingo Lenz Dunker

O mal como algo “comum” prospera 
como uma patologia das aparências

Hanna Arendt está em alta. Aqui e na Europa discute-se o legado de seu pensamento, com bons comentários e teses, sem falar no impactante filme homônimo de Margarethe von Trotta. Sua ideia mais conhecida, sobre a banalidade do mal, permitiu reler o genocídio nazista como efeito de uma superestimação do modo de vida burocrático-administrado e de nossa paixão pela obediência – e não como uma súbita epidemia de psicopatas na Alemanha de Hitler, na Itália de Mussolini ou na União Soviética de Stalin.

A ideia da banalidade do mal e sua força descritiva, tanto no que se refere à impessoalização dos carrascos voluntários, quanto à falta de resistência das vítimas, apoia-se em uma concepção muito interessante sobre o que vem a ser o nosso mundo de aparências. O mal como algo “comum” prospera como uma patologia das aparências. Ao contrário da vida, que se desenvolve em um ciclo de produção e consumo, no qual dominam os processos em permanente necessidade de reposição, o mundo é composto por acontecimentos, obras e atos que permanecem como contingência ou como impossibilidade. 

A mistura entre público e privado formou um novo tipo de sociedade que gradativamente reduziu a dimensão política, que deveria incluir atos de criação, à mera reposição de processos sociais. Dessa maneira, perdemos a possibilidade de entabular verdadeiros atos, e desenvolvemos uma existência que sentimos como meramente funcional – problema bem retratado em Um homem sério (2009), dos irmãos Cohen.

Verdadeiros atos, aliás, são poucos: dizer sim, dizer não, prometer e perdoar. Mas quando eles acontecem temos sempre imprevisibilidade dos resultados e irreversibilidade do processo, combinadas com a criação de uma nova realidade que pressiona pelo gradual anonimato dos autores. 

Por exemplo, quando dizemos “eu te amo”, como um ato, essas quarto condições são atendidas. Antes de amar todos são possíveis (imprevisibilidade), mas quando ele acontece só um é necessário (irreversibilidade). Quando o ato acontece, cria um novo estado de existência, que torna seus agentes únicos. 

Autores são paradoxalmente anônimos, pois suas identidades pregressas desaparecem como efeito do ato. Aparecer opõe-se tanto a “ser” quanto a “desaparecer”. Há, portanto, contingência e impossibilidade presentes no ato, fazendo com que sejam criadas condições próprias ali onde “pareciam” impossíveis. Até aqui Hanna Arendt caminha de modo convergente com Hegel e Lacan.

O problema do humanismo é que sua crítica da lógica das aparências o leva a advogar algum tipo de essencialismo por trás das aparências, que de certa forma seria o verdadeiro autor dos atos humanos. 

Ora, a banalidade das aparências nem sempre justifica a existência de essências encobertas ou perdidas, autênticas ou verdadeiras. A banalidade das aparências só é perigosa – nos convidando ao sentimento de irrelevância e ao seu correlativo ressentimento social – se é incapacitante para o ato, seja de pensar, querer ou julgar. E aqui o antídoto deve ser buscado em Freud. Refiro-me a Lucian Freud, neto do criador da psicanálise que se tornou um expoente da pintura figurativa na virada do século. 

Em um momento no qual a lógica das aparências se tornava suspeita e a arte partia para o irrepresentável como alternativa formal, Lucian insistia no grotesco, na caricatura e na deformação como maneira de mostrar que nem toda aparência é banal. 

Há aparências que são “acontecências” e outras que são só “parecências”. Como ele mesmo dizia: “Retrato as pessoas não pelo que elas parecem ser, e não apesar do que elas parecem ser, mas do modo como elas acontecem ser (happen to be)”.

PROVOCAR ATÉ OUVIR O INSUPORTÁVEL - Christian Ingo Lenz Dunker

Algumas pessoas provocam 
o outro até ouvir algo insuportável, 
criando discursos repetitivos que reforçam ciclos de ressentimento.

– Eu te ligo.

– Mas eu vou ficar tão nervosa esperando você ligar que eu preferia que você não ligasse.

– Tá bom, eu não te ligo.

– Legal! Assim eu não preciso ficar desesperada, pensando que eu podia ligar para você enquanto você não liga para mim. Nem imaginar por que você ainda não ligou. Mas... Você vai ligar, não é?

– Eu te ligo.

Esta adaptação de “diálogo impossível” poderia ter vindo do livro homônimo de Luis Fernando Verissimo (Objetiva, 2012). Um trabalho que parece retomar as pesquisas, dos anos 70, feitas pelo antropólogo Gregory Bateson e da Escola de Palo Alto, sobre a comunicação paradoxal.

O chefe que diz uma coisa e faz outra contrária, o pai que “mostra” seu amor ao filho repetindo reclamações e críticas, o discurso liberal com a prática autoritária, são exemplos de situações discursivas patológicas.

Duplicidades entre mensagens e códigos, dissonância entre o que pensamos e o que dizemos, disparidades entre a forma como “representamos” ações e a maneira “real” como nos comportamos, têm aparecido nas pesquisas do psicólogo Daniel Kahneman, a do Nobel de Economia em 2002, e em uma vasta gama de investigações sobre a filosofia moral “prática”.

De todos os diálogos impossíveis, o meu favorito ao “prêmio” de alienação discursiva é, sem dúvida, a conversa entre casais. A temida DR (discussão de relacionamento) é um caso particular do que Freud chamava de “a mais generalizada degradação do objeto na vida amorosa”, ou seja, um dos signos clínicos típicos e inevitáveis da desagregação da retórica amorosa.

Como a piada que nos lembra que os Beatles falavam de amor e não duraram mais que dez anos juntos, os Rolling Stones, que louvam o gozo, estão até hoje cantando Satisfaction.

Também entre amigos as chamadas “mesmas conversas” são fonte de gradual irritação, mas isso não contraria a regra, pois a amizade é uma forma de amor. O grande enigma é saber por que, mesmo sabendo que se dissermos A ouviremos B, não conseguimos resistir à força impelente do discurso que nos degrada, arrastando o outro junto.

O caso típico é o daquela pessoa que não consegue se conter até ouvir aquilo que lhe é insuportavelmente repetitivo. Ela dá voltas, provoca e parece forçar o outro a perder a paciência e dizer o que sempre diz, machucando e reforçando o ressentimento que a conversa inicialmente tinha o objetivo de reparar.

Há, nesses diálogos, aquele acento traiçoeiro que nos faz ter a certeza delirante de que só com um “pouquinho“ (o diminutivo é aqui essencial) mais de tempo, dinheiro ou compreensão tudo estaria resolvido. Devia haver um “Discursivos Anônimos” para nos lembrar que nessa matéria é preciso evitar sobretudo a “primeira palavra”. E reunião sistemática para recordarmos que estamos há tantos dias sem pronunciá--la.

Em uma época na qual se insiste tanto na importância da criatividade e da inovação, pouco ou quase nada se ouve sobre a  renovação do discurso. Não há nenhum personal trainer para a palavra, não conheço receita, manual, regime ou educação dirigida que seja eficiente neste assunto (não confundir com oratória, sedução e coisas do gênero).

A cura para isso anda escassa. É na poesia que aprendemos o trabalho de dizer com cuidado e escutar com precisão.

Mas quem defenderá a utilidade da poesia como gênero de primeira necessidade da vida relacional?



Na verdade, as tentativas de disciplinar de modo “autoconsciente” nosso discurso têm resultados muito parciais – quando não desastrosos. Portanto, seria melhor que aprendêssemos a respeitar o adversário que parece tão fácil de ser derrotado: a palavra. E a palavra de amor, que com amor se faz.
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LIBERDADE OU JUSTIÇA? - Christian Ingo Lenz Dunker

 O novo moralismo brasileiro, seja de direita ou de esquerda, está fortemente orientado por uma espécie de crise de excesso de experiências de falso reconhecimento.

“Temos o direito a ser iguais quando nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades.”

Nessa afirmação de Boaventura de Sousa Santos (Reconhecer para libertar, Civilização Brasileira, 2003) apresenta-se, de modo sintético, um dos maiores paradoxos da modernidade. Aspirações de liberdade, autonomia e independência parecem acirrar nossa paixão individualista e egoísta.

Mas a liberdade tem um problema constitutivo que é saber onde ela começa. Seu início se dá no berço de cada um? Na forma como cada um livremente encontra um destino para o que herdou? Tudo parece depender de qual é o momento que vamos escolher para dar início à história: a gênese divina, a origem das espécies, a Revolução Francesa, a abolição da escravatura ou a última prova da Fuvest? O direito de ser diferente é o que podemos chamar de liberdade.

Ocorre que a diferença gera distinção, comparação e mérito de tal maneira que ela se explica por si mesma. Diferença gera mais diferença. No reino da pura liberdade vigora a justiça bíblica de Mateus: “quem muito tem, mais lhe será dado, quem pouco tem, mesmo este pouco lhe será tirado”. É comum que se erga aqui, contra os excessos óbvios da liberdade individual, o argumento coletivo da justiça.

Aqui o problema é inverso, ou seja, saber quando a justiça termina.

O conhecido dilema da flauta indiana proposto por Amartya Sen serve para exemplificar o dilema: se temos três crianças e apenas uma flauta, parece óbvio que esta deve ser dada para a única que sabe tocar o instrumento. É verdade, mas uma verdade encarcerada no presente. Basta acrescentarmos a ideia de que no futuro a segunda criança pode vir a aprender a tocar flauta e que ter o instrumento é o maior estímulo para isso que se perceberá como a justiça incapaz de pensar seu próprio futuro é falha. Bastaria olhar para o passado e ver que a terceira criança foi quem trabalhou para construir a flauta que nosso juízo de justiça se altera imediatamente.

Frequentemente esquecemos es­sa divisão constitutiva nas relações de gênero, nos dilemas familiares e em nossas pequenas decisões cotidianas. Divisão que estrutura também nossas formas de sofrimento. Um sofre com o sentimento agudo de injustiça, o outro, com a falta crônica de liberdade.

Mas a palavra-chave na asserção do pensador português, e nas chamadas epistemologias do sul, não é justiça nem liberdade, mas reconhecimento.

O problema de sua formulação é que ele a coloca apenas em termos de direitos. Temos direito à justiça e liberdade assim como aos bens simbólicos da igualdade e da diferença. Para a psicanálise, o direito é o território do gozo, assim como o reconhecimento é a terra do desejo.

O novo moralismo brasileiro, seja ele de direita ou de esquerda, está fortemente orientado por uma espécie de crise de reconhecimento. Uma crise formada pelo excesso de experiências de falso reconhecimento: leis que não pegam, direitos que não valem, exceções por toda parte.

Um estado livre de democracia formal. Uma crise formada também pela intolerância ao gozo, ódio à diferença e impulso mórbido a praticar a justiça sem memória e uma liberdade sem futuro.

O VERDADEIRO AMOR É A EXCEÇÃO À REGRA - Christian Ingo Lenz Dunker

Imagine ouvir de seu amante a fórmula:
 “te amo como amei todos os outros (ou outras) antes de você”. Péssimo, não é?

Defendo a ideia de que o casamento é uma espécie de perversão consentida, uma vez que tenta aplicar regras de contrato, uso e usufruto, que regem as nossas relações com coisas, às relações entre pessoas, que se definem por suas demandas particulares de liberdade. Vários leitores(as) escreveram pedindo mais esclarecimentos, objetando que são felizes com seus cônjuges e não veem nada de patológico em serem tratados(as) segundo regras que compreendem uso exclusivo do corpo e da intimidade seja sob forma de compromisso ou posse. Aqui vai o segundo capítulo desta conversa sobre os limites de nosso direito ao gozo do outro.

Costumamos caracterizar os perversos como aqueles que possuem uma relação com a lei diferente da nossa. Eles cometem crimes e não se sentem culpados. Eles recusam as modalidades de prazer, gozo e satisfação que nós designamos como normais e deveriam ser, compulsoriamente, seguidas por todos. Uma concepção mais atualizada sobre o assunto dirá que os perversos nos parecem pessoas “malvadas”, mas não apenas porque eles vivem em outra forma de lei, criada e administrada por eles mesmos, mas porque tentam forçar o outro a gozar segundo essa lei que caprichosamente criaram.

Lembremos que a antiga e aposentada categoria de perversão sobrevive no atual DSM-5 como personalidade antissocial, cujos signos clínicos são: fracasso em se conformar às normas sociais, mentira, impulsividade, irritabilidade agressiva quando contrariado, falta de preocupação com segurança, irresponsabilidade em se sustentar e ganhar dinheiro e ausência de culpa ou remorso. Ou seja, o perverso é aquele que presume um lugar especial para si mesmo, uma espécie de excepcionalidade diante a lei.

Ocorre com o casamento exatamente a mesma coisa, mas com uma diferença substancial, fazemos as mesmas coisas, mas não para realizar nossos próprios desejos egoístas de uso do outro, mas como prova de que isso atesta nosso amor mais verdadeiro. Nada menos inquietante para um irmão ciumento do que ouvir de seus pais algo como: “Nós amamos você exatamente igual aos seus irmãos”. Ser amado como mais-um em uma espécie de regra cujo enunciado é para-todos mata qualquer forma de amor verdadeiro. Experimente ouvir de seu amante, ainda que como exercício de imaginação, a fórmula: “Te amo como amei todos os outros (ou outras) antes de você”.

Péssimo, não é? É que o amor verdadeiro é aquele que tem força para criar exceções e não se mantém sem a renovação disso. Ele não se conforma às normas, ou você se contenta com um “amor normal”? Ele nos leva a mentir, não para enganar e levar vantagem, mas porque em nome do amor protegemos o outro das chamadas verdades dolorosas. Ele é impulsivo e não premeditado, pois nos torna agressivos e inseguros diante da possibilidade de perder o outro. Finalmente, no amor verdadeiro suspendemos a segurança e queremos o risco, uma vez que em nome dele não há culpa, remorso ou interesse financeiro.


Todos esses traços são perfeitamente ocorrentes nesse estado de debilidade e rebaixamento cognitivo provisório chamado apaixonamento; no entanto não queremos permanecer nessa vida em estrutura de encontro, sem futuro certo e garantido. É para isso que inventamos o casamento. O melhor dos dois mundos: força da lei e a garantia da exceção. Daí a fórmula de que o casamento é uma espécie de perversão consentida.

EM ALGUM LUGAR DO PASSADO - Christian Ingo Lenz Dunker

Em 27 de outubro de 1924 Freud foi capa da Time como um dos maiores cientistas de sua época.  Em 1993, a mesma revista anunciava: “Freud está morto”. De lá para cá, a psicanálise desenvolveu um interessante e controverso debate com a neurociência. Com é próprio das ciências, certas ideias, que parecem obviamente equivocadas em um momento, depois são redescobertas, assim como métodos e fatos promissores ganham e perdem relevância em razão da oscilação entre modelos concorrentes.

Uma síntese possível do atual estado do debate diria que a neurociência, menos do que refutar a psicanálise, a demonstra – conforme a opinião de psicanalistas de diferentes tendências, como Gerard Pommier e Peter Fonágy. Inversamente, pesquisadores como Eric Kandel, ganhador do Nobel, e o sul-africano Marc Solms afirmam que o método psicanalítico de tratamento pela palavra encontra fortes subsídios nas descobertas obtidas pelas novas tecnologias de neuroimagem e mapeamento cerebral.

A psicanálise não é uma teoria sobre o cérebro, mas um método de tratamento pela palavra. Não há nenhuma incompatibilidade, apenas a que é própria da ciência, para reunir achados de diferentes origens.

Mas há sempre cientistas que vivem fora de sua época, seja ela 1924 ou 1993. Ivan Izquierdo é um caso paradigmático deste tipo de burocrata da ciência que extrapola as regras do jogo científico querendo levar sua autoridade para além de onde ela foi estabelecida. Em entrevista publicada pela Folha de S.Paulo, em 18 de junho, ele afirma que “a psicanálise hoje é um exercício estético, não um tratamento de saúde. Se a pessoa gosta, tudo bem, não faz mal, mas é uma pena quando alguém que tem um problema real, que poderia ser tratado, deixa de buscar um tratamento médico achando que a psicanálise seria uma alternativa”.

Uma ótima síntese de como é possível alguém que, por posição e ofício na Academia Brasileira de Ciências, deveria representar o conjunto da pesquisa efetivamente praticada no país, mas, em vez disso, deixa-se levar pelo interesse em valorizar sua própria área de investigação.

O espírito de corrupção, que domina nosso país, não é imune aos órgãos de controle e representação da ciência. 

Primeiro: há um desconhecimento soberbo das pesquisas que demonstram a eficácia da psicanálise como método de tratamento, incluída entre as terapias psicodinâmicas de longo prazo. 

Segundo: existe uma ignorância inaceitável com relação ao fato de que todo tratamento possui potenciais efeitos iatrogênicos, logo, a psicanálise também. 

Terceiro: em defesa das terapias cognitivas, ele argumenta, na mesma matéria, que “mudar uma palavra ressignifica toda a memória”, exatamente como a psicanálise sempre postulou.

COMO VENCER OS FANTASMAS DO FINAL DO ANO - Christian Ingo Lenz Dunker

A chegada de dezembro desperta, em muitas pessoas, desde angústia e ansiedade até sentimentos de euforia relacionados às expectativas de um novo ano. Para enfrentar o período de "loucura", o autor sugere um "manual de sobrevivência" em 7 passos

Psicanalistas, psicoterapeutas e aqueles que de alguma forma lidam com o sofrimento psíquico são unânimes em reconhecer que o “final do ano” é uma época particularmente perigosa. Talvez a “loucura” desse período devesse ser incluída nas síndromes traumáticas do cotidiano -– ao lado da angústia de domingo à noite e da euforia vazia e efêmera das sextas-feiras. Essas ocasiões estão associadas a situações de risco social iminente pela ruptura da rotina, da organização do tempo e pela variação caótica de encontros, desejados e indesejados que pode desencadear.

Assim como as sextas e as segundas-feiras, o final de ano marca um ponto de passagem, mas diferentemente das duas primeiras, sua localização temporal é indeterminada. Para alguns o período começa em novembro; para outros, na semana do Natal; há ainda aqueles que confundem a loucura de fim de ano com complexo das férias perfeitas. Estabelece-se assim uma seqüência de retraumatizações que às vezes só se resolvem pela pacificação representada pelo reinício do ano. Aliás, também o início desse novo ciclo parece representar mais um estado de ânimo que uma data precisa no calendário.

Adormecida, a loucura de fim de ano permanece latente até ser acordada pelas campanhas publicitárias e o apelo às compras. E assim é com o sofrimento neurótico em geral: como não se sabe de onde ele veio espera-se que vá embora por si mesmo. Nessa época convivem dois sentimentos opostos: de que algo já se faz presente, mas ainda não vigora plenamente, como se não houvesse chegado sua hora. Por isso tememos esse período – e também o esperamos ardentemente. Seu retorno insidioso, ano após ano, traz à luz as mais fortes experiências infantis. As lembranças de tantos desejos se apossam de nós combinando a saudade e a fantasmagoria do passado. O esforço para nos reunirmos e comemorar nos coloca sempre uma pergunta silenciosa: afinal por que nessa época não me sinto tão feliz como deveria? Por que surge essa angústia às vezes crônica, às vezes aguda? Recordar, repetir e elaborar – eis a difícil travessia que o final do ano nos propõe. Esses três movimentos que coordenam o tratamento psicanalítico são exigidos de forma concentrada e assistemática ao término de cada ciclo de 12 meses.

Imaginemos que no final do ano – assim como nos fins de semana, em menor escala – temos de nos haver com a difícil tarefa de reconstruir narrativamente vivências passadas de tal forma que elas se completem como uma experiência da qual possamos nos apropriar. A perda progressiva da experiência tornou-se a tal ponto um problema que muitas vezes recorremos aos discursos pré-fabricados nas reuniões e festas de Natal.

DISCURSOS VAZIOS

Três tipos de loucura são bastante comuns nessa época. Lembrando Jacques Lacan, podemos dizer que esses enlouquecimentos encampam discursos específicos: da histérica, do universitário e do mestre. O primeiro promove o deslocamento da experiência de tal forma que seu agente seja uma terceira pessoa, técnica mais conhecida como fofoca. Ao falarmos de atitudes condenáveis de outra pessoa, com os mais picantes ingredientes acrescidos por nossa imaginação ou maledicência, vivemos a aventura da transgressão de forma deslocada e segura, uma espécie de “transgressão light”. Geralmente, o fofocado simplesmente realiza aquilo que, no fundo, gostaríamos de ter feito – que nossa covardia, preguiça ou ética impediu. Assim, parasitamos histericamente a experiência potencial do outro, propiciando a nós mesmos uma vivência pobre de satisfação. Vivemos – sem de fato viver – a aventura transgressiva do outro e ao mesmo tempo temos a sensação ilusória de que participamos de uma situação coletiva. Falsa coesão demonstrada pelo fato de que aquele que deixa o grupo será objeto imediato e preferencial de tal prática.

O segundo tipo de discurso que mimetiza a experiência, na loucura de final de ano, é usado pelos “experts”. Aqui o falso coletivo é composto pela exclusão daqueles que “não sabem como é bom”. A conversa é feita para deixar claro que quem dela participa tem gosto ou saber diferenciado, inacessível aos mortais, e possui vivências mais preciosas que o tornam alguém especial. Surgem as “elevadas” considerações sobre a qualidade do vinho servido, a respeito dos charutos fumados, dos últimos eventos culturais freqüentados, conversas sobre os bens adquiridos e a superioridade do sistema aeroportuário de outros países ou ainda sobre as inenarráveis qualidades daquele prato degustado no sofisticado restaurante da moda. Os comentários giram em torno das curiosas discussões sobre a qualidade insubstituível do bacalhau de antigamente ou se detêm nas queixas a respeito da imperícia culinária do anfitrião. A tirania do gosto, envolta num discurso universitário que pode ser tediosamente descritivo, assume a perspectiva professoral de autoridade constituída. Resta, nesses casos, só a aparência de que se compartilha algo.

O terceiro tipo de discurso, com marcado caráter pseudo-experiencial, diz respeito à retórica do planejamento. Neste caso incluímos aqueles para os quais o final do ano não é a suspensão da guerra, mas o seu clímax: a grande batalha. Os ritos se impõem a seus praticantes, parecendo adquirir vida própria – com cartões escritos em grande escala, felicitações por atacado, presentes distribuídos como se atendessem à demanda de uma linha de montagem, práticas filantrópicas executadas milimetricamente, segundo as últimas técnicas de gerenciamento de tempo e de recursos humanos. O objetivo é chegar vivo até o início do próximo ano – mas sem viver a experiência, apenas reduzindo-a a um conjunto de tarefas. Para essas pessoas, aqueles percebidos como fora do circuito estão literalmente atrapalhando. Se a ocupação comandava a vida até aqui, surge um redobramento: a sobreocupação. Preocupados em manter osistema funcionando, esses “mestres de fim de ano” estão permanentemente irritados e atrasados. Sua posição sacrificial os autoriza a se irritar profundamente com os incautos, seu olhar é temido pela culpa que pode provocar. A conversa é reduzida à localização incógnita daquela lata de ervilhas ou à fiscalização do cumprimento de ordens. A prática é, no fundo, uma técnica de esquecimento, espécie de “fuga para frente”. Repetir em vez de lembrar: desta maneira os afetos podem ser retidos e substituídos por ações.

A fofoca, o superentendimento e a sobreocupação são maneiras de nos desviarmos, são estratégias para não recordar, seja porque nos dedicamos a lembrar criticamente dos outros, porque transformamos a lembrança em descrição de acontecimentos passados ou porque substituímos o lembrar pelo fazer. O fato é que esses três discursos -– da histérica (fofoca), do universitário (experts) e do mestre (sobreocupação) – são táticas para fugir do desprazer, mais do que meios para usufruir da satisfação esperada no final do ano.

LEMBRAR PARA ESQUECER

O prazer do “retorno para casa” não é um efeito automático e sim fruto de um tipo específico de trabalho psíquico a que a reconstrução da experiência nos convida; trabalho que Freud chamava de elaboração (Ducharbeiten, literalmente “trabalho através de”), ou seja, uma forma muito específica de lembrar que traz consigo o afeto e a integração do que é lembrado no presente, bem como a projeção de um futuro. Lembrar para poder esquecer.

Vejamos então como situações similares podem ser bons provocativos para uma verdadeira experiência. Nesse caso podemos incluir, por exemplo, a épica do lombo seco, o complexo dramático dos bolinhos de bacalhau ou ainda a lírica – ou cômica – entrega dos presentes. Note-se como, nesse caso, aquela travessa fora de moda com cara de Papai Noel é um detalhe imprescindível: sem ela o Natal não seria Natal. O juízo especialista do gosto autorizado é suspenso em prol do valor simbólico rememorativo de um elemento arbitrário.

Fora daquela comunidade, a travessa de plástico seria apenas mais um caso de mau gosto e não um evocador de histórias. Ao contrário da retórica descritiva da exclusão, a épica da experiência é inclusiva. Aquela tia falecida reaparece como modelo a ser seguido, o fracasso retumbante dos fios de ovos daquele ano volta à memória, a face forçada de satisfação daquele namorado em primeira visita natalina é rememorada com graça. Ou seja, torna-se mais importante a história lembrada, o fato de que estávamos juntos, do que o que foi consumido ou quem pagou a conta. A experiência traz outra dimensão do tempo vivido.

Os idosos se tornam mais sábios, as crianças se tornam mais crianças, os adultos interrogam sua própria maturidade. Isso ocorre porque além da própria posição cada qual se reconhece nas demais, avaliando em si mesmo o que poderia ter sido ou o que poderá vir a ser. Como mensagens deixadas em uma garrafa, recolhidas 20 ou 30 anos depois, essas histórias nos devolvem a nossa própria mensagem, agora de forma invertida pelo processo da experiência. Sabe-se que o tempo passa mais devagar para a criança, e teoricamente isso tem relação com o fato de que suas conexões sinápticas estão em formação ou sua capacidade de aprender com a experiência é maior. A experiência lentifica o tempo; a vivência o comprime – é por isso que em uma viagem o caminho de ida parece ser mais longo que o caminho da volta.

A primeira regra de um possível “manual de sobrevivência psíquica de fim de ano”, portanto, deveria contribuir para tornar crítica a consciência de nossa própria loucura − uma experiência trágica ou cômica, não importa, desde que seja digna de ser narrada.  A primeira orientação, portanto, é: passar da vivência à experiência.

Mas por que seria o nosso passado imediato, representado pelo ano que passou, algo a ser tão fortemente evitado? Qual a natureza de sua força traumática? O primeiro erro consiste em subestimar o “adversário”, achar que esse é um período do ano como qualquer outro e como tal deve ser vivido. A insanidade do final de ano se infiltra insidiosamente por meio dos detalhes: pequenos adiamentos, evitações, ansiedade flutuante ou inúmeras atuações desordenadas. É a ação da amnésia, esperada em qualquer evento traumático repetitivo.  Depois vem o súbito encontro com a coisa traumática, o que Freud chamava de Schreck (terror-pânico) e Lacan de “encontro com o Real”. Muitos são seus desencadeantes: o presente misteriosamente “esquecido”; a notícia abrupta de que aquela tia virá mesmo... e com os sobrinhos; a notícia, retinta de alívio e inveja, de que aquele cunhado de fato não virá pois se evadiu para o abrigo antiaéreo da colônia de férias. Sem falar na pergunta decisiva: quem fará o peru desta vez?  Fato é que o fim de ano nos coloca em estado de alta reatividade e atenção prevenida. Comentários banais se transformam em ofensas insuportáveis; como os soldados que voltam do front, somos tomados por uma espécie de “neurose de guerra transitória”.

Subitamente começamos a agir como se fôssemos vítimas de nosso próprio destino. Não importa se o mártir se oferece ou é convocado, o pânico lhe parece uma nuvem flutuante prestes a explodir. O pânico foi um sentimento bastante estudado pelos teóricos da guerra, principalmente pelo fato de que é um sentimento coletivo e contagioso, instabiliza a ordem e sugere que não há mais ninguém no comando. A ruptura entre a linha de frente e os generais interrompe a cadeia simbólica necessária para a guerra e torna difuso quem é e onde está o inimigo – o adversário confunde-se agora com qualquer um. Daí a solução do pânico em medo. Diferentemente do que acontece em situações de pânico, na de medo temos um objeto, sabemos o que temer. Nesse caso está em questão o medo do futuro. Esse é o terceiro momento da loucura de final de ano: irritabilidade difusa, explosões despro---porcionais de raiva, dramáticas efusões afetivas além de decisões intempestivas.

Essa desorientação de referências pode surgir sob a forma do afeto inverso ao pânico, ou seja, o tédio. Apesar de aparentemente opostos, pânico e tédio têm a mesma gramática, em ambos há uma suspensão da orientação simbólica do sujeito. Há ainda no tédio uma espécie de fuga para fora da cena, de descolamento do sujeito em relação a sua própria experiência, como se a pessoa se sentisse estranha, sem lugar diante de tanta “felicidade” no ar. Para o entediado tudo parece artificial, repetitivo e sem graça, pois apesar de ele estar ali, não se sente naquele lugar.Ele está ou gostaria de estar em outro local.

Assim como o pânico evolui para o medo, o tédio evolui para a melancolia. De fato, a loucura de final de ano admite a figura do melancólico, que se sente excluído e se recrimina por isso. Como dizia o poeta Nerval, o melancólico é antes de tudo um realista, acha que percebe as coisas como realmente são. Vê na troca amorosa de presentes apenas mais uma manobra da lógica do capital; nos amigos que o procuram, apenas uma operação de networking; nas iniciativas solidárias, apenas o alívio para a culpa dos mais favorecidos. A crua verdade, certamente. Mas não toda ela.

No fim do ano estabelece-se, portanto, esta tríade composta pela ansiedade da expectativa, pelo terror maníaco ou traumático e pela ressaca moral carregada de decepção e tédio melancólico. Se quisermos contribuir para a sobrevivência subjetiva nesse tempo de fraternidade compulsória, devemos examinar mais de perto as tarefas psíquicas que o momento apresenta.

CONTABILIDADE DE SONHOS

Comecemos pelo fato de que o final de ano convoca a experiência do tempo. O tempo não percebido da ocupação cotidiana é suspenso. Sentimo-nos improdutivos. De repente nos damos conta de que o tempo passou, sem que nos déssemos conta. Todavia, saber que isso acontece é diferente de realizar essa informação.  Se o tempo passou num instante e se compreendemos que esse tempo se foi, é então o momento de concluir. A maneira mais simples – e mais pobre – de fazer isso é planejar. Formal ou informalmente colocamos o ano transcorrido em certos crivos: metas, realizações, fracassos, decepções, empates, honrosos ou não.

Esta espécie de ajuste de contas com o passado geralmente nos convida a um exercício de objetivação da experiência. Fatos, datas e resultados surgem como métricas espontâneas que nos permitem, de forma simples e rápida, saber se estamos em débito ou crédito com nossos sonhos. Atenção, aqui vem o engano. A contabilidade reduz processos a produtos. Como simples vivência, aquela longa batalha com a trigonometria transforma-se apenas em um “passei de ano” e cumpri minha obrigação. A densa experiência representada pelo término de um namoro torna-se apenas mais um fracasso na lista de tantos outros. Cria circularidades: “A vida ficou me devendo uma este ano? Vou comer aquela porção extra de rabanada... afinal eu mereço”. Ou “Consegui aquilo que queria este ano? Também vou comer a tal porção extra de rabanada, afinal... eu mereço”. Ou seja, independentemente do resultado, fracasso ou sucesso, a prática da contabilidade empobrece nossa experiência, sentimo-nos vazios depois de fazê-la, com ou sem rabanadas adicionais. Ela só nos diz se estamos no positivo ou no negativo, escondendo, por efeito de método, se foi um fracasso interessante ou um sucesso sem graça.

A segunda regra é, portanto, desconfiar dos poderes da contabilidade e evitar o cálculo neurótico do gozo.

 O “balanço” de fim de ano infelizmente pode ser piorado por outra circunstância: o encontro com parentes e amigos – ou o não encontro com parentes e amigos, tanto faz. Tido como momento de confraternização e reencontro, o período tem potencial altamente explosivo, especialmente se acrescido de contabilidade negativa. Neste caso, ao refazer a memória e a história coletiva, em vez de reafirmação e comemoração de um destino comum, a tendência será encontrar um culpado altamente disponível: o outro.

Quer porque nosso balanço se mostre tímido diante das grandes realizações alheias, quer porque elas sejam atribuídas diretamente às vicissitudes de nossos próprios laços familiares, a insatisfação flutuante encontra terreno fértil para se transformar em culpa. A culpa é sempre uma decorrência do fato de que não estamos à altura de nossos desejos, ou seja, que na verdade não nos empenhamos como deveríamos ou gostaríamos para torná-los realizáveis. Além disso, é sempre um subterfúgio preferível à angústia. Assim, este sentimento de traição encontra logo um depositário. Em vez de refletir sobre a pergunta capital: “Será que, neste ano, realmente agi em conformidade com meu desejo?”, substituimos a reflexão pela resposta rápida: “É claro que não, afinal o outro não me deixou”. E não importa quem seja o outro: o marido ou a mulher, os filhos, o chefe, a empresa ou a situação econômica e política do país.

O fragmento de satisfação da qual me sinto frustrado é imediatamente imputado a esse outro, segundo as próprias fantasias fundamentais. Foi ele quem raptou aquele pedacinho que faltou para a realização de meu próprio desejo. Ao mesmo tempo é o outro que nos lembra que estamos em falta, a começar pelo fato de que não o encontramos há tempos – aliás, esqueci dos amigos? Isso dá margem tanto a comparações depressivas quanto à pirotecnia exibicionista nos conhecidos excessos de fim de ano.

Quando adaptamos nossos desejos a uma imagem e transformamos qualquer objetivo e bobagens em metas, a fantasia que se articula neles sofre uma curiosa mutação. Passa de sua função regulatória, como horizonte semi-indeterminado de aspirações, para a condição de obrigação compulsória. Se escolhemos querer, estamos então obrigados a continuar querendo. É assim que nos tornamos prisioneiros e escravos de nossos próprios desejos, de tal forma que rapidamente eles se tornam um fardo.

Logo, terceira regra, não convém fazer desejos caberem em metas.

APLAUSOS E CASA EM ORDEM

Não há loucura de final de ano sem os banquetes. Lautos e exagerados, eles são pretexto tanto para o encontro comemorativo como para o remorso com relação àqueles que estão excluídos. Excluídos são tanto os que se encontram privados de nossa companhia quanto aqueles que já se foram e que, como fantasmas, benévolos ou malévolos, retornam nessa hora. Aqui entra em jogo outro fenômeno próprio da loucura de final de ano: a interpassividade. Todos nós conhecemos aquele truque de televisão que consiste em utilizar risos artificiais ou aplausos de auditório em comédias medíocres. Alguém levanta uma placa e todos riem no momento em que devem rir, aplaudem quando ordenado ou vaiam.

Um similar nacional deste truque são as carpideiras. Profissionais do choro, elas desempenham a função de alguém que “chora por nós”, assim como a claque de auditório “ri por nós”. O resultado é que mesmo diante de uma comédia chata sentimos que afinal nos divertimos um pouco, quando na verdade “alguém se divertiu por nós”.  Aplique-se o conceito à loucura de fim de ano. Precisamos mostrar boa vontade porque afinal “mamãe acha isso tão importante”, ou então “as crianças acreditam em Papai Noel” – logo não podemos decepcioná-las. Ou seja, há alguém que “acredita por nós” e, para não desfazer o truque, nos comportamos como se acreditássemos.

Mas aqui há um efeito inesperado. A crença não é apenas um sentimento interno e individualizado que experimentamos em nosso íntimo. A crença é uma prática. Como dizia Pascal: ajoelha e reza, a crença virá por si mesma. Portanto, quando praticamos desengajadamente os rituais exigidos pela loucura de fim de ano, em nome de “alguém que acredita por nós”, como se estivéssemos excluídos e a salvo do consumismo, da hipocrisia e da ganância segregatória, estamos de fato acreditando. O que se demonstra pela conhecida situação na qual as crianças continuam a acreditar em Papai Noel, mesmo que não acreditem, pois, afinal, quem quer decepcionar os adultos? O problema da crença interpassiva é que ela impede que nos apropriemos de nossas próprias crenças – a ponto de criticá-las ou reinventá-las.

Portanto, quarta regra de sobrevivência: leve os rituais a sério, eles são mais importantes e eficazes do que você pensa.

TEMPO DE SOLIDÃO

Findo o ano, que fazer no próximo? Que fazer com o futuro? Aqui, a insanidade de fim de ano porta o grão de verdade contido em cada forma de loucura. A loucura que afinal nos torna humanos ao oferecer o limite de nossa liberdade, segundo a tese de Lacan. Quem começou confiando na contabilidade fatalmente será presa fácil do dispositivo das promessas de ano-novo. Feitas com base em metas e objetivos, são facilmente derrubadas ao primeiro contato com o cotidiano real. Elas redundam na decepção com nosso presumido poder de praticar a liberdade. Isso já aparece de forma muito inicial na forma como depositamos, nesse período, a expectativa de que poderemos, enfim, colocar a casa em ordem.

O tempo de férias é rapidamente mobilizado para a resolução de questões em atraso. É preciso resolver o passado para criar um novo futuro, sem pendências. Essa fantasia de renascimento se apóia na ancestral prática cultural de comemorar a mudança de ciclo das estações. O solstício e o equinócio correspondem a momentos de passagem, logo de potencial desequilíbrio, entre um modo de vida e outro, entre o dia e a noite, entre a colheita e o plantio, entre a juventude e a velhice. Durante muito tempo, aprendemos a simbolizar a transição compartilhando, rememorando e reescrevendo a história conforme certos dualismos primários.

A festa, o fim do ano (mas também, em menor escala, o fim de semana e o fim do dia) são exemplos, mais ou menos coletivos, desses “pontos de suspensão”. Nossa época, entretanto, não aceita muito bem que tal ponto, justamente onde se anuncia algo de nossa liberdade, esteja sujeito a tamanha coerção social. Isso ajuda a entender por que, apesar do espírito de confraternização, a loucura de fim de ano nos convoca tão facilmente para a expe-riência da solidão. No fundo, desconfiamos do destino coletivo que comemoramos e sabemos que, mais que um desígnio, o destino é uma tarefa profundamente solitária.

A quinta regra de sobrevivência psíquica inspira-se na sabedoria bíblica que reza guardar sábados e festas. O mandamento não diz gozar ao máximo sábados e festas, nem mesmo penitenciar-se ou culpar-se em sábados e festas, apenas guardar. Guardar significa manter uma certa distância, cuidar ao longo do tempo, manter a atenção... para com nossa própria loucura.

Para muitos a insanidade do final de ano assume dimensão sagrada, mística ou religiosa. Seria possível criticar a teoria da experiência supondo que ela é, no fundo, uma forma de saudosismo e de valorização regressiva do passado, como um mero escapismo das dificuldades do presente. Afinal não vivemos mais nem os ciclos dos agricultores sedentários, nem as aventuras dos marinheiros viajantes.

Os ciclos das bolsas de valores nos afetam mais que tempestades ou secas. Neste sentido é anacronismo imaginar que a verdadeira experiência seria uma espécie de reatualização do tipo de laço que supomos presente nas antigas comunidades orgânicas. Melhor seria olhar para essa força simbólica da cultura sem tentar resgatar a essência de um passado que talvez nunca tenha existido. Como na história do pai que ao morrer diz aos filhos que há um tesouro enterrado em suas terras. Em busca do tesouro os filhos reviram a propriedade, não encontrando mais que raízes e troncos, além de decepção. Todavia, como efeito deste trabalho, naquele ano a terra se mostrou mais fértil do que nunca, produzindo assim o tesouro que o pai prometera.

Aqui o truque é simples: em vez de mimetizar o passado, como se sua repetição fosse garantia de felicidade e segurança, arriscar-se a viver o novo produzassim um tesouro que não estava lá. É pelo mesmo princípio pelo qual uma ficção pode produzir efeitos reais que se opera a transferência no tratamento psicanalítico. Boa parte da loucura de fim de ano se aviva com a promessa de um passado essencial que nos colocaria em linha com um futuro previsível, geralmente anunciado nos pedidos e promessas de ano-novo.

Portanto, sexta recomendação: encontre a repetição produtiva, caso contrário achará apenas tocos, raízes e mais algumas minhocas.     

No fundo, a loucura de final de ano apenas potencializa a loucura que já estava lá, encoberta pela nuvem do esquecimento e da ocupação. Erasmo de Roterdã, pensador do século XVI, tinha uma classificação muito atual da loucura. Dizia haver dois tipos: a loucura louca e a loucura sábia. A primeira é aquela que desconhece que os assuntos humanos são uma comédia de representações na qual cada um diz uma coisa, pensa outra e age de acordo com uma terceira. Louco louco é aquele que toma o teatro humano pelo valor, esperando dele o que ele não pode dar. O louco sábio, ao contrário, é aquele que tem conhecimento de que toda loucura é louca e, sem se isentar dos assuntos humanos e de sua estrutura trágica e cômica, olha de frente para a verdade do teatro que a ele se apresenta. Não para desmascará-lo como hipocrisia mentirosa, sob a qual se esconderia a sórdida verdade essencial, mas para habitá-lo como espaço possível de liberdade e criação.

A sétima regra de sobrevivência psíquica em tempos de loucura de fim de ano, a regra de ouro, é, portanto, não levar demasiadamente a sério sua própria loucura. Guardá-la com carinho é suficiente.

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