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GENTILEZA GERA SAÚDE - Cristiane Segatto

Como uma dieta diária de emoções positivas 
altera o funcionamento do corpo

O trabalho criativo é fascinante. O sujeito está lá, pressionado pelo prazo, pelo cliente, pelo chefe, torturado pela obrigação de traduzir uma ideia em três palavras. Precisa ser uma mensagem sintética e eficaz. Dessas que grudam nos miolos e produzem o movimento desejado: um impulso de consumo, uma sensação, uma mudança de comportamento. O coitado tenta um, dois, três, trinta caminhos e fracassa.

Se tiver sorte, é liberado para pegar umas horinhas de sono. Dorme, acorda, se enfia no chuveiro e, enquanto esfrega o shampoo no couro cabeludo ensebado, pumba! Lá vem ela. Límpida, exata, a mais perfeita tradução do que pretendia comunicar.

Fico elucubrando a respeito dessas etapas sempre que um slogan me conquista. Leio, admiro, sinto e me pergunto qual será o cérebro por trás da ideia. Quem inventou? Como inventou? Com que facilidade ou sofrimento inventou? Foi no chuveiro? Na academia? No momento em que a pasta de amendoim escorregou sobre o pão?

Tendo a achar que as boas ideias nunca surgem no ambiente de trabalho. Comigo é assim. Minhas ideias são rebeldes. Só aparecem quando tenho alguma ilusão de liberdade. Aí agarro um guardanapo, uma caderneta soterrada na bolsa, um lenço de papel, um recibo de cartão de débito para anotar as palavras certas enquanto é tempo.

Sempre achei que algo semelhante tivesse acontecido com o felizardo criador da frase “gentileza gera gentileza”. É uma mensagem perfeita, na forma e no impacto. Ela induz um sentimento de boa vontade em relação aos desconhecidos. Alguém que escolheu usar uma camiseta com essas palavras ou colou no carro esse adesivo deve ser, pelo menos em tese, uma pessoa respeitosa, interessante.

Só recentemente descobri que essa frase não foi criada por um redator profissional. É obra de uma personalidade urbana carioca, conhecida como profeta Gentileza, morto em 1996. Ele andava de túnica branca e barba longa e, nos anos 80, criou 56 painéis sob um viaduto da Avenida Brasil. Um deles trazia a frase genial.

Estou convencida de que gentileza gera gentileza, mas há quem sustente que gentileza gera saúde. Uma delas é a psicóloga Barbara Fredrickson, professora da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Ela é uma das tantas pesquisadoras que buscam explicar como o bem-estar emocional produz saúde física.

Pessoas que vivem relações afetuosas e são capazes de encarar a maioria dos desafios com otimismo tendem a viver mais e com mais qualidade. Diferentes estudos sugerem que emoções positivas fortalecem o sistema imune. Por consequência, diminui o risco de contrair resfriados e conviver com processos de inflamação crônica. Outros trabalhos indicaram menor propensão a doenças cardiovasculares, dores de cabeça, fraqueza etc.

Em seu novo trabalho, publicado na revista Psychological Science, Barbara investiga como as emoções afetam o nervo vago. Ele é responsável pela inervação de diversos órgãos, como o coração, o estômago, o pulmão, o intestino delgado, entre outros. Por meio dele, o cérebro é informado sobre o estado das vísceras.

Quando um susto, um stress agudo acelera os batimentos cardíacos e coloca o organismo inteiro em alerta, o nervo vago e seus auxiliares trabalham para restabelecer a normalidade. Eles reduzem a pressão arterial e normalizam os batimentos cardíacos.

Nesses tempos de stress crônico, é fundamental encontrar formas de manter o nervo vago funcionando adequadamente. Do contrário, o corpo inteiro sofre.

Sessenta e cinco voluntários se inscreveram no novo estudo de Barbara. Metade do grupo participou de aulas de meditação compassiva, uma técnica destinada a desenvolver sentimentos como bondade e compaixão.

Durante as sessões, eles foram instruídos a focar a mente em suas próprias preocupações. Aos poucos, deveriam incluir as aflições das pessoas com que se relacionavam.

Em silêncio, deveriam repetir frases como: “Você pode se sentir seguro”; “Você pode se sentir feliz”; Você pode se sentir saudável”. Sempre que a mente vagasse por outros lugares, os praticantes deveriam trazê-la de volta a essas frases.

Fora das aulas, em momentos estressantes ou chatos como ficar preso num congestionamento, eles deveriam se esforçar para fixar a mente nesses pensamentos. “É algo como suavizar o próprio coração para estar mais aberto aos outros”, disse Barbara à revista Time.

Cascata das bravas? Conversinha de autoajuda? Pelo sim, pelo não, vale a pena acompanhar os resultados do trabalho.

Antes do início do estudo e ao final dele, a variação da frequência cardíaca dos voluntários foi analisada. Essa é uma medida da resposta do nervo vago. Quanto mais tonificado é o nervo, maior é a variação da frequência cardíaca. E mais baixo é o risco de doenças cardiovasculares. O nervo também participa do controle dos níveis de glicose e da resposta do sistema imune.

Além de tudo isso, o vago tem papel importantíssimo na forma como nos relacionamos. Está ligado aos nervos que sintonizam nossos ouvidos com a fala humana, coordena o contato visual e regula a expressão das emoções. Também influencia a liberação de oxitocina, um hormônio importante para a formação de vínculo entre as pessoas.

Todos os participantes (os que meditaram e os que não participaram das aulas) registraram as emoções positivas e negativas vividas no cotidiano durante 61 dias.

Resultado: quem meditou registrou um aumento de emoções positivas, como alegria, interesse, serenidade e conexão com outras pessoas. Essas sensações foram acompanhadas de uma melhoria na função do nervo vago.

É um sinal de que uma dieta diária de emoções positivas favorece a saúde. E o mais interessante: esses benefícios podem ser mensuráveis.

Só meditar, no entanto, não adianta. A alteração na função do nervo só ocorreu naqueles em que a prática realmente ajudou a melhorar as emoções. Não houve mudança no padrão fisiológico entre os que meditaram, mas emocionalmente continuaram na mesma.

É um bom começo. Resta saber se os benefícios fisiológicos da prática e da mudança de olhar sobre os fatos são sustentáveis no longo prazo. Novos estudos estão em andamento.

Enquanto eles não ficam prontos, que tal colocar um pouquinho de gentileza no seu dia? Responder ao bom dia que alguém lhe deseja. Segurar a porta do elevador e oferecer passagem. Não avançar sobre a travessa de comida assim que o garçom a coloca sobre a mesa se decidiu dividir o prato com uma colega de trabalho – principalmente se você é homem e ela tiver idade quase suficiente para ser sua mãe.

Recentemente, recebi todas essas demonstrações de falta de gentileza. Nenhum dos autores as interpretou como gafe ou deslize. Se essas são as novas regras de convivência, prefiro viver à moda antiga.

Gentileza gera gentileza. Gentileza gera saúde.

PARENTE É PIOR QUE CHEFE - Cristiane Segatto

Os relacionamentos estressam mais que o 
trabalho e o trânsito, revela uma pesquisa inédita no Brasil.
Quatro estratégias para lidar com ele.

A psicóloga Marilda Lipp é uma das principais pesquisadoras das causas, consequências e tratamento do estresse no país. Pós-doutora pelo National Institutes of Health, dos Estados Unidos, ela é autora de 22 livros e dirige a clínica privada Centro Psicológico de Controle do Stress (CPCS). Em seu mais recente projeto, Marilda decidiu aplicar no Brasil uma pesquisa on-line, de acordo com o método usado nos EUA pela Associação Americana de Psicologia.

Pela internet, Marilda conseguiu em abril e maio deste ano uma amostra inédita em pesquisas do gênero: 2.195 participantes, de várias regiões e de todos os níveis de renda e escolaridade -- de faxineiras a pós-doutores. O resultado, divulgado com exclusividade por esta coluna, foi surpreendente.

Os fatores que atualmente mais estressam os brasileiros:
1) Relacionamentos (18%)
2) Problemas financeiros (17%)
3) Sobrecarga de trabalho (16%)
4) Trabalho em si (13%)
5) A maneira de pensar do entrevistado (8%)

E o trânsito? A violência? A péssima qualidade de vida nas grandes cidades?
Sim, esses ladrões de saúde apareceram entre as respostas espontâneas, mas foram muito menos citados que as dificuldades de relacionamento. A esfera privada, segundo os entrevistados, estressa mais que os fatores relacionados à coletividade.

De todos os tipos de relacionamento que provocam estresse, os mais frequentes foram os familiares (7,85%), os amorosos (7,01%), a convivência com colegas de trabalho (2,12%) e com o chefe (1,58%).

“Os brasileiros estão confusos em relação ao papel de cada um na família. Os valores mudaram e faltam limites. Os adolescentes não sabem mais o que é normal e o que não é. Isso tudo complica os relacionamentos e faz sofrer”, diz Marilda.
Dificuldades de relacionamento em casa afetam mais a autoestima e a segurança que os problemas no âmbito profissional. “Quando o foco do problema é o trabalho, a pessoa pode tentar deixá-lo lá quando vai embora Se o que vai mal é a família, tudo fica mais difícil.”

Difícil não quer dizer impossível. Sempre há como melhorar as habilidades de comunicação dentro de casa, discutir e rever valores e criar normas de acordo com a visão da família – e não por pressão social. É fundamental empreender um esforço para priorizar uma área da vida que é de suma importância para a saúde emocional e física.

Não por acaso, os participantes disseram sofrer de doenças que têm forte relação com o estresse, como hipertensão, asma, gastrite, depressão, ansiedade e doença do pânico.

Outros dados interessantes:
- 34% sentiam que o nível de estresse estava extremo no momento da pesquisa
- 37% relataram que o nível de estresse era maior em abril que no ano anterior
- 63% fazem atividade física para aliviar o estresse – o que é ótimo!
- 53% comem para aliviar o estresse – o que é péssimo!
- 75% conversam com amigos ou familiares para aliviar o estresse

“Se conversar com familiares e amigos é a primeira estratégia e as relações interpessoais estão conturbadas, a pessoa fica sem apoio”, diz a pesquisadora.
 
Outras estratégias podem ser cultivadas. Marilda sugere quatro pilares de combate ao estresse. Os três primeiros aliviam sintomas e dão sensação de bem-estar. O quarto pode debelar a pressão excessiva, aquela que compromete a saúde.

1) Mexer o corpo
Descubra a atividade física que você gosta. Se não pode pagar uma academia, encontre outra forma de praticar exercícios. Caminhar, correr, pular corda, jogar futebol não custa nada – ou muito pouco.

2) Relaxar
Cada pessoa relaxa a sua maneira. Se você relaxa depois de praticar ioga, ótimo. Se relaxa assistindo à TV, ótimo também. Não há uma receita única. O importante é reservar 20 minutos diários para descontrair e esvaziar a cabeça. Praticar respiração profunda várias vezes ao dia é uma boa estratégia. Não custa nada, é rápido e oxigena o cérebro. Marilda ensina como fazer isso no livro Relaxamento para todos.

3) Comer bem
Habitue-se a comer de forma equilibrada. Adote uma alimentação rica em frutas, legumes e verduras. Em momentos de muita tensão, usamos os nutrientes para lidar com tudo o que nos ameaça.

4) Fazer terapia
Se não puder pagar um psicólogo, reflita sobre o que é prioritário e vida de acordo com essas prioridades. Respeite seus limites e aprenda a dizer “não”. Procure ter uma visão positiva da vida. Nem sempre o que nos faz sofrer são os acontecimentos em si, mas a leitura que fazemos deles.

Tudo isso parece autoajuda e, de fato, é. Ninguém melhor do que você para ajudá-lo a se relacionar e viver melhor.

PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS E DEPRESSÃO - Cristiane Segatto

 Como mudar crenças e ideias que produzem sofrimento

Ruminar é a coisa certa a fazer, desde que você tenha quatro patas, coma capim e disponha de um sistema digestivo complexo. Bois, cabras, camelos e outros herbívoros são bons nisso. O alimento vai, devagar, da boca ao estômago. Depois, volta do estômago à boca. E, de novo, segue da boca ao estômago. Tudo em nome do bom aproveitamento dos nutrientes. Humanos não processam alimentos desse jeito, mas podem ser paquidérmicos ruminantes mentais.

Sabe quando os problemas não saem da cabeça? Vão e voltam? O perrengue aconteceu lá no passado, mas ainda mina as relações do presente? Os ressentimentos encorpam como bola de neve? Ruminantes raramente viram a página ou passam a borracha. O estrago pode ser grande.

“A ruminação é um dos fatores que contribuem para a depressão”, diz o psicólogo Robert L. Leahy, do Weill Cornell Medical College, em Nova York. Há poucas semanas ele fez uma apresentação por videoconferência durante o congresso da Associação Brasileira de Psiquiatria, realizado em Curitiba.

Eu estava lá e hoje aproveito para compartilhar um pouco das observações dele. Leahy falou sobre o uso da terapia cognitivo-comportamental no tratamento da depressão.
Essa forma de psicoterapia foi desenvolvida nos anos 60 pelo psiquiatra Aaron T. Beck, quando era professor da Universidade da Pensilvânia. O objetivo é a modificação de pensamentos e comportamentos inadequados ou inúteis.

É uma terapia de curta duração, bem estruturada, voltada para o presente e, em geral, mais barata que outras formas de atendimento psicológico. É um dos raros tipos de terapia que os planos de saúde aceitam pagar.

Até hoje, mais de 500 estudos científicos demonstraram os benefícios da terapia cognitivo-comportamental no tratamento de transtornos psiquiátricos, problemas psicológicos (questões familiares e conjugais, luto complicado, angústia, raiva, hostilidade etc) e outros problemas médicos com componentes psicológicos.

A terapia pode ser útil no tratamento de transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade, transtorno do pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno bipolar, transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, esquizofrenia e muitos outros.

Essa modalidade de terapia também tem ajudado no tratamento de enxaqueca, dores, obesidade, insônia, hipertensão, disfunção erétil etc. Mais informações sobre resultados de estudos podem ser encontradas no site do BecK Institute e da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas.

Qual é a teoria por trás da terapia cognitivo-comportamental? Ela é baseada na ideia de que nossa percepção sobre as situações influencia a forma como nos sentimos.

Quando uma pessoa está em sofrimento emocional, é comum que tenha uma percepção distorcida dos fatos. O objetivo do terapeuta é ajudar o paciente a avaliar se seus pensamentos são, de fato, realistas. O segundo passo é aprender a mudá-los.

Ao pensar de forma mais realista, é provável que a pessoa se sinta melhor. “A terapia cognitiva ensina as técnicas para que o paciente seja seu próprio terapeuta”, diz Leahy. 

Ainda nos anos 60, quando Beck desenvolvia a técnica, ele observou que os pacientes deprimidos tinham ondas de pensamentos negativos que pareciam surgir espontaneamente. É o que os terapeutas chamam de “pensamentos automáticos”.

Esses pensamentos azedam o bolo de qualquer mastigação mental. Distorcem a realidade e angustiam. Ruminar é ter pensamentos negativos e repetitivos sobre o presente ou o passado.

“Por baixo dos pensamentos automáticos, há sempre suposições inadequadas”, diz Leahy. Coisas do tipo: “Nunca vou conseguir ser feliz fazendo as coisas por conta própria”. Com a ajuda da terapia, o paciente pode perceber que essa é uma generalização que não corresponde à realidade.

Qual é a raiz desse estado mental que causa tanto sofrimento? No começo da infância, as crianças desenvolvem determinadas ideias sobre si mesmas, sobre as outras pessoas e sobre o mundo.

Uma boa definição sobre isso aparece no livro Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática, da psicóloga Judith S. Beck, filha do criador da técnica. A segunda edição desse clássico da área é um lançamento da Editora Artmed.

“As suas crenças mais centrais, ou crenças nucleares, são compreensões duradouras tão fundamentais e profundas que frequentemente não são articuladas nem para si mesmo”, escreve Judith. “A pessoa considera essas ideias como verdades absolutas – é como as coisas “são”.

Imagine uma pessoa que tem a crença nuclear de que é incompetente. Ela interpreta as situações por meio das lentes da sua crença, mesmo que a interpretação racional seja evidentemente inválida. A pessoa tende a selecionar as informações que confirmam sua crença nuclear. As informações contrárias são simplesmente desconsideradas ou desvalorizadas.

No livro, Judith representa esse modelo de processamento da informação num diagrama. Quando a pessoa se acha incompetente, todos os dados negativos são processados imediatamente. Eles fortalecem a crença nuclear. Algo assim:

“Não consigo aprender a mexer nesse novo programa de computador.”
“Não consigo um empréstimo no banco.”

Os dados positivos apresentados pela realidade são transformados em dados negativos:

“O chefe me elogiou, mas eu não merecia.”
“Escolhi o plano de saúde, mas levei muito tempo.”

Às vezes, os dados positivos nem são percebidos. Quem se acha incompetente nem se dá conta de que faz muitas coisas bem feitas. Por exemplo: pagar as contas dentro do prazo, consertar um problema no encanamento etc.

O desafio do paciente é analisar a validade dessas crenças nucleares e mudar os pensamentos automáticos. Aceitar que errar é humano e assumir seus erros é um bom começo.

“Todas as pessoas inteligentes que conheço já tomaram decisões erradas”, diz Leahy, autor de dezenas de livros, entre eles A regulação emocional em psicoterapia.

Ninguém gosta de errar, mas é preciso perder o medo de lidar com ele. Quatro frases de Leahy que vale a pena ter em mente:
1) Todo mundo erra.
2) Erros são informação. São parte do progresso.
3) Um erro não é o fim do mundo.
4) Não tenha orgulho de ser perfeccionista.

A terapia cognitiva-comportamental não é uma panaceia. Em alguns pacientes, o efeito pode ser passageiro. Outros se beneficiariam mais se tivessem acesso a outras formas de terapia – de longo prazo e grande investimento (financeiro e emocional).

Em muitas situações, a terapia não substitui os remédios. Pacientes com depressão grave e outros transtornos psiquiátricos raramente podem ser tratados adequadamente sem medicamentos.

Em saúde mental, radicalismos podem ser bons para um ou outro grupo, mas péssimos para os pacientes. Ao final da apresentação, Leahy deixou um recado atualíssimo.

“Os pacientes nos procuram porque querem se sentir melhor. Não vêm por causa da religião da terapia cognitiva ou de qualquer outra”, disse. “Não há um tratamento que funcione para todos o tempo todo.”

Ninguém merece sofrer sozinho. O passo transformador é assumir que precisa de ajuda. Como Leahy, não acredito em cura. Acredito em ajuda. Ele não acredita em cura da condição humana. Nem eu.

ENTREVISTA: “QUER DIZER QUE MÉDICO PODE CHORAR?"

 Como um professor da Faculdade de Medicina da Unicamp 
ajuda os alunos a trocar o cinismo pela capacidade 
de se colocar no lugar do paciente

O carioca Marco Antonio de Carvalho-Filho, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Campinas, é uma daquelas figuras boas de conversa que cativam os alunos sem fazer força. Aos 40 anos, ele entende e fala a língua dos jovens. Nos últimos anos, Carvalho-Filho trabalha para reverter um fenômeno cruel detectado na Unicamp.

Os calouros de medicina escolhem a profissão movidos por sentimentos nobres (como entender o ser humano e aliviar o sofrimento), mas são deformados ao longo da experiência universitária. Para enfrentar o problema, o professor criou uma série de atividades baseadas em recursos das artes e da psicologia. O objetivo é desenvolver nos futuros médicos a chamada empatia – a capacidade de compreender o sentimento ou a reação de outra pessoa imaginando-se nas mesmas circunstâncias.

No primeiro ano, Carvalho-Filho usa obras de arte e textos literários nas aulas. O quadro Udslidt (algo como “desgastado”, em dinamarquês), do pintor Hans Andersen Brendekilde (1857-1942) retrata uma mulher que chora a morte do pai num campo recém-arado por ele. É o pretexto para falar sobre a morte e os sentimentos relacionados a ela. “Discutimos a impotência e as fantasias de poder que o médico pode ter como mecanismo de defesa”, diz Carvalho-Filho. “Isso pode levá-lo a indicar tratamentos fúteis que apenas prejudicam os pacientes”.

Durante uma pesquisa acadêmica orientada por ele e realizada pelo médico Marcelo Schweller, alunos do quarto e do sexto anos foram convidados a atender pacientes fictícios, representados por atores profissionais de forma bastante realista. Os níveis de empatia antes e depois das atividades foram avaliados por meio de uma escala internacional de empatia médica. O desempenho dos alunos do quarto ano aumentou de 115 pontos para 121. Entre os do sexto ano, o crescimento foi de 117 pontos para 123. O trabalho, publicado na revista Academic Medicine, tem sido apresentado em vários congressos médicos internacionais. A seguir, Carvalho-Filho explica como exemplos negativos recebidos durante a faculdade moldam o caráter dos futuros médicos.

ÉPOCA - O ensino de medicina provoca nos alunos uma espécie de antipatia em relação ao pacientes?

Marco Antonio de Carvalho-Filho - Não é exatamente antipatia. Entrevistei os calouros durante três anos consecutivos. Queria saber por que eles haviam escolhido a profissão. Mais de 70% diziam que a principal motivação era ajudar o próximo. A segunda era conhecer o ser humano. Citavam exatamente as virtudes que esperamos que um médico tenha. Infelizmente, a tendência ao longo do curso é que eles percam aquelas motivações iniciais e se distanciem dos pacientes.

ÉPOCA - Por que isso acontece?

Carvalho - Filho - Pense na realidade desses alunos. Para entrar numa universidade como a Unicamp, eles precisam ser alunos de alto rendimento. Vivem em famílias pequenas, têm pais graduados, nunca trabalharam na vida e são solteiros. São garotos privilegiados.

ÉPOCA - De que forma essa condição privilegiada dificulta a adaptação deles à nova realidade?
Carvalho-Filho - Os alunos chegam superprotegidos, com pouca experiência de fracasso ou perda. A maioria nunca perdeu ninguém – nem um tio, uma avó. A sociedade produziu uma geração que cresce confinada em casa, sem a vivência da rua. Isso leva à perda de capacidade de comunicação. Quando esses garotos entram na faculdade de medicina, são expostos à pobreza e à doença. Os pacientes sofrem, perdem funções, morrem. Quando o aluno está diante do sofrimento e não tem instrumentos para lidar com ele, cai na armadilha de usar o cinismo. É natural que isso aconteça. O cinismo – ou distanciamento afetivo – é um mecanismo de defesa.

ÉPOCA - Os estudantes não têm oportunidade de refletir sobre esses sentimentos?

Carvalho-Filho - Falta esse espaço nas escolas médicas, tanto no Brasil como no Exterior. A medicina se desenvolveu de forma tão tecnológica a ponto de suplantar o conhecimento dos últimos 5 mil anos. Nesse processo de especialização, ela se aproximou da doença e se afastou do doente. O aluno  tem que estudar tanto que se esquece da dimensão humana do paciente. Quando percebemos isso na Unicamp, decidimos criar um núcleo para lidar com essa questão.

ÉPOCA - Que tipo de intervenção vocês fizeram durante a pesquisa?

Carvalho-Filho - Criamos pacientes fictícios com a ajuda de uma companhia de atores formados na Unicamp. Construímos pacientes extremamente densos afetivamente. Uma mulher que recebeu o diagnóstico de câncer de mama e não quer se submeter à cirurgia. Um rapaz que imagina ter uma doença cardíaca e, na verdade, enfrenta um tremendo sofrimento porque perdeu o emprego e é arrimo de família. Vários outros casos. Os atores usam uma técnica de realismo. Todos sabem que são atores, mas 96% dos alunos dizem que se sentem diante de pacientes reais. Os alunos atendem esses “pacientes” e depois fazemos um debate. Discutimos os sentimentos e as habilidades de comunicação que cada um demonstrou.

ÉPOCA - Eles se emocionam?

Carvalho-Filho - É espetacular. É a redescoberta da pureza. Olham para mim e perguntam: “Quer dizer que médico pode chorar? Não preciso virar um robô?”. Claro que médico pode chorar. Às vezes, uma lágrima expressa mais que qualquer palavra. Os alunos adoram a atividade. Fazemos das 14 horas às 18 horas. Tem dia que ficamos até às dez horas da noite. Não querem ir embora. Preciso dizer que tenho filho me esperando em casa.

ÉPOCA - É possível treinar a empatia?

Carvalho-Filho - Empatia é a capacidade de se colocar no outro, de entender o outro e ajudá-lo. Alguns estudos sugerem que há um componente cognitivo nessa história -- algo que pode ser ensinado e praticado. Mas acredito que o lado afetivo também pode ser treinado. Ensinamos relação médico-paciente com recursos das artes, da poesia, da música, do teatro. Na Unicamp, esse curso faz parte do currículo obrigatório do primeiro ano. Na maioria das faculdades, há uma disciplina de habilidades de comunicação. Ensinam que o médico deve dizer “bom dia” e olhar nos olhos do paciente.

ÉPOCA - Isso basta?

Carvalho-Filho - De jeito nenhum. O aluno precisa perceber que o médico é um especialista na espécie humana. Tanto no lado afetivo como biológico. Falamos sobre técnicas de comunicação. Como eles devem começar uma conversa, como deixar o paciente à vontade. O que determina a boa consulta não é o tempo. É a capacidade de ouvir. Quando era estudante, passa visita no hospital, ia para um bar e só ficava falando sobre os pacientes com os meus amigos. Falava o tempo todo. É uma forma de elaborar as sensações. Queremos ajudar nossos alunos a aprender a amar esse amor. Se não aprende isso, faz uma medicina ruim. Não é fugir do sentimento. É aprender a sentir esse sentimento.
 
ÉPOCA - Está cada vez mais difícil encontrar um médico que tenha uma boa dose de empatia?

Carvalho-Filho - Se eu chegar à minha casa e perguntar quem teve uma experiência positiva com algum médico no último ano, vai ser aquele silêncio. Médicos que demonstram empatia são raros. Acho que sempre foram. A medicina deveria ser uma bandalheira quando o grupo de Hipócrates achou, lá na Grécia Antiga, que era necessário formalizar certas virtudes em forma de juramento. Hoje, falar em virtude virou tabu na nossa sociedade. O médico bem-sucedido é o médico valorizado pelo mercado.


ÉPOCA - Por tudo isso, a sociedade perdeu a confiança na classe médica?

Carvalho-Filho - Perdeu. Isso é ruim para a classe médica e para a sociedade. O paciente sofre duplamente: pela doença e pela falta de confiança. A situação de trabalho da maioria dos médicos está muito difícil. Baixa remuneração, falta de estrutura, acúmulo de empregos. Com tudo isso, o médico fica reativo. Surge uma série de conflitos nos serviços de saúde. Eles acabam explodindo no colo do paciente. Acho que se tivermos médicos mais preparados afetivamente, do ponto de vista humano, vamos conseguir proteger mais o paciente.

ÉPOCA - O que você chama de currículo oculto na medicina?

Carvalho-Filho - São algumas experiências informais que o aluno acumula na faculdade e que ajudam a moldar o caráter do médico. Boa parte do aprendizado de valores acontece nas festas, no bar, dentro do centro cirúrgico. Um exemplo é o trote. Estou feliz com toda a discussão sobre o trote. Esse debate precisa crescer. O trote é uma forma de perpetuar o poder que não tem nada a ver com o bom exercício da medicina.

ÉPOCA - Isso significa que o aluno chega bem intencionado à faculdade e vai sendo deformado ao longo do curso?


Carvalho-Filho - Na medicina, reproduzimos modelos. Que futuro médico nós teremos se ele vê o melhor cirurgião destratar a enfermeira corriqueiramente? As demonstrações de poder exercido de forma unilateral são modelos negativos. É a educação pela humilhação. Um professor que gosta de um aluno e, mesmo assim, o humilha ensina a esse aluno que a humilhação é uma forma normal de se comunicar. Esse futuro médico vai humilhar a secretária e o paciente

PARA FICAR BEM NA FOTO - Cristiane Segatto

Aumenta a procura por cirurgia plástica para 
melhorar a aparência nas redes sociais. 
O que isso significa?

Num mundo em que as aparências contam mais que a essência, todos querem ficar bem na foto. Interessante essa expressão. Ficar bem na foto não significa apenas ser fotogênico. Significa se sair bem nas mais diversas situações. Manejar as adversidades com destreza e construir relações amistosas com quase todo mundo. Construir uma boa imagem pessoal em qualquer ambiente.  

Usamos essa expressão quando queremos nos referir ao comportamento ou à estratégia de alguém. Nem sempre é um comentário positivo. Muitas vezes a frase é um veneninho ensopado de inveja, desses comuns no mundo corporativo. “Putz, não é que o cara ficou bem na foto?”.

Mesmo quando o assunto é o comportamento, recorremos a palavras que denotam a extrema valorização da aparência física. Por mais cruel e escandaloso que seja, exibir uma boa estampa tornou-se mais ou menos tudo. Principalmente em redes sociais como o Facebook, uma ilha da fantasia onde prosperam os belos, os felizes, os legais e os bem-sucedidos.

Não pretendo aqui fazer um discurso moralista. Cada um é livre para criar o personagem que quiser. O que me parece perigoso é acreditar nele a ponto de se submeter a intervenções cirúrgicas. Profissionais da área relatam que, nos últimos meses, aumentou o número de pessoas interessadas em fazer cirurgia plástica para melhorar a imagem nas redes sociais.

A Academia Americana de Cirurgia Facial e Reconstrutiva fez uma pesquisa entre 752 cirurgiões associados a ela. Constatou um aumento de 31% nesse tipo de demanda. É uma tendência que se repete em vários países. Na Índia, por exemplo. No Brasil, campeão mundial em número de cirurgias plásticas realizadas, não poderia ser diferente. 

Nunca as pessoas olharam tanto para si mesmas. Ou melhor: nunca olharam tanto para o próprio umbigo e para a própria casca. Postam fotos feitas em todos os ângulos e nas mais diversas situações com mais frequência do que olham no espelho.

Características físicas que antes não incomodavam ou incomodavam pouco passaram a ser vistas como algo a ser consertado, aperfeiçoado, enquadrado nos padrões. Tudo com a esperança de agradar mais, receber mais “curtir”, mais pios, mais isso e mais aquilo. É uma necessidade emocional. Todos querem se sentir queridos e aceitos, mas a saída fácil parece ser entrar na faca.

Um reclama do queixo pequeno. Outra do colo envelhecido, das mãos manchadas, do abdome flácido. Não há limites para a severidade autoimposta. O alvo preferencial das reclamações é o nariz. Por estar no centro da face e ser estático, o nariz personaliza o rosto.

“Não existem pessoas feias com nariz bonito”, diz o cirurgião plástico Volney Pitombo. Se tem nariz bonito, é bonita”. Pitombo é um dos mais respeitados especialistas em rinoplastia no Brasil. Realizou mais de 5 mil cirurgias desse tipo, inclusive em celebridades como Débora Bloch, Murilo Benício e Angela Vieira.

Talvez Pitombo tenha razão, mas outro fenômeno (o das pessoas bonitas que quiseram ficar mais bonitas e acabaram deformadas), não pode ser menosprezado. “Nariz é a operação que exige mais concentração, experiência e técnica do cirurgião”, diz Pitombo. “Desastres ocorrem quando o profissional adota uma técnica excessivamente redutora. A cirurgia fica literalmente na cara”, diz.

O resultado é aquele nariz infantilizado, no estilo Barbie, tão em voga nos anos 60 e 70. O nariz não foi feito para ser tratado com agressividade. Dá errado. A rinoplastia atual é estruturada. Em vez de retirar osso e cartilagem, os cirurgiões chegam a adicioná-la para modelar o nariz.

Eles fazem pequenos ajustes para harmonizá-lo com o rosto. “Um nariz mestiço com a forma larga pode ser suavizado, se esse for o desejo do paciente, mas tentar arrebitá-lo ou deixá-lo fininho é algo inaceitável”, diz Pitombo. As fotos de Michael Jackson antes e depois das inúmeras plásticas não deixam dúvidas sobre isso.

Os mais jovens cismam que o nariz é grande ou largo demais. Querem consertá-lo e postar a novidade nas redes sociais antes mesmo de ver o resultado final. Não faz muito tempo, Pitombo operou uma jovem e, poucas horas depois, ainda no quarto, ela estava postando fotos “do novo nariz” no Facebook. Antes mesmo de retirar o curativo.

De tanto se olhar e espiar os outros nas redes sociais, os mais velhos passaram a se incomodar ainda mais com o envelhecimento. Reclamam de um fato da vida. Na faixa dos 30 ou 40 anos, a ponta do nariz realmente começa a mudar. Fica um pouco mais caída. É possível retocá-la e, com isso, ganhar um aspecto mais jovem.

Essa é uma decisão muito particular, mas antes de se submeter a uma cirurgia é preciso tomar vários cuidados. Os primeiros são de ordem prática:

• Escolher um profissional com título de especialista emitido pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica

• Avaliar a experiência dele. Nem todo cirurgião plástico é bem-sucedido em rinoplastias. Mexer no nariz exige um treinamento especial

• Ter certeza de que está consciente e bem informado sobre o tipo de anestesia, os riscos da cirurgia e as complicações que podem surgir no pós-operatório

• Só operar em locais seguros, com centro cirúrgico autorizado pela Vigilância Sanitária e equipamentos necessários para socorrê-lo em qualquer emergência.

Nenhum desses é o cuidado principal. O essencial é avaliar a real motivação por trás da operação. A motivação precisa ser genuína. Vir de dentro para fora. Não de fora para dentro. Não deixe que as pressões, os modismos e os padrões de beleza roubem sua identidade.

Ninguém terá a nobreza de Kate Middleton se encomendar um nariz como o dela – algo que virou moda nos consultórios. Não tente copiar a sensualidade de Scarlett Johansson. Ela não está no nariz, ainda que ele tenha sido retocado. Não está nos lábios, nem no umbigo, nem no dedo mindinho. Está em algum ponto insondável, mas escandalosamente perceptível. É dela e só dela. Certamente você tem a sua. De outro jeito, com outra intensidade, mas em você.

“O nariz perfeito é o da própria pessoa”, diz Pitombo. Quando opera, o objetivo dele é atingir a naturalidade máxima.“Todo o meu esforço é para que as pessoas que convivem com o paciente notem o benefício sem detectar a plástica. Quando isso acontece, o sentimento é de ter realizado uma obra-prima. Coisa de Michelangelo”, diz.


Obra-prima é você. De carne, osso, com imperfeições, com correções ou sem elas. Seja o que quiser, de forma consciente. Seja, sobretudo, você.

PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS E DEPRESSÃO - Cristiane Segatto

Como mudar crenças e ideias que produzem sofrimento

Ruminar é a coisa certa a fazer, desde que você tenha quatro patas, coma capim e disponha de um sistema digestivo complexo. Bois, cabras, camelos e outros herbívoros são bons nisso. O alimento vai, devagar, da boca ao estômago. Depois, volta do estômago à boca. E, de novo, segue da boca ao estômago. Tudo em nome do bom aproveitamento dos nutrientes. Humanos não processam alimentos desse jeito, mas podem ser paquidérmicos ruminantes mentais.

Sabe quando os problemas não saem da cabeça? Vão e voltam? O perrengue aconteceu lá no passado, mas ainda mina as relações do presente? Os ressentimentos encorpam como bola de neve? Ruminantes raramente viram a página ou passam a borracha. O estrago pode ser grande.

“A ruminação é um dos fatores que contribuem para a depressão”, diz o psicólogo Robert L. Leahy, do Weill Cornell Medical College, em Nova York. Há poucas semanas ele fez uma apresentação por videoconferência durante o congresso da Associação Brasileira de Psiquiatria, realizado em Curitiba.

Eu estava lá e hoje aproveito para compartilhar um pouco das observações dele. Leahy falou sobre o uso da terapia cognitivo-comportamental no tratamento da depressão.

Essa forma de psicoterapia foi desenvolvida nos anos 60 pelo psiquiatra Aaron T. Beck, quando era professor da Universidade da Pensilvânia. O objetivo é a modificação de pensamentos e comportamentos inadequados ou inúteis.

É uma terapia de curta duração, bem estruturada, voltada para o presente e, em geral, mais barata que outras formas de atendimento psicológico. É um dos raros tipos de terapia que os planos de saúde aceitam pagar.

Até hoje, mais de 500 estudos científicos demonstraram os benefícios da terapia cognitivo-comportamental no tratamento de transtornos psiquiátricos, problemas psicológicos (questões familiares e conjugais, luto complicado, angústia, raiva, hostilidade etc) e outros problemas médicos com componentes psicológicos.

A terapia pode ser útil no tratamento de transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade, transtorno do pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno bipolar, transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, esquizofrenia e muitos outros.

Essa modalidade de terapia também tem ajudado no tratamento de enxaqueca, dores, obesidade, insônia, hipertensão, disfunção erétil etc. Mais informações sobre resultados de estudos podem ser encontradas no site do BecK Institute e da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas.

Qual é a teoria por trás da terapia cognitivo-comportamental? Ela é baseada na ideia de que nossa percepção sobre as situações influencia a forma como nos sentimos.

Quando uma pessoa está em sofrimento emocional, é comum que tenha uma percepção distorcida dos fatos. O objetivo do terapeuta é ajudar o paciente a avaliar se seus pensamentos são, de fato, realistas. O segundo passo é aprender a mudá-los.

Ao pensar de forma mais realista, é provável que a pessoa se sinta melhor. “A terapia cognitiva ensina as técnicas para que o paciente seja seu próprio terapeuta”, diz Leahy.

Ainda nos anos 60, quando Beck desenvolvia a técnica, ele observou que os pacientes deprimidos tinham ondas de pensamentos negativos que pareciam surgir espontaneamente. É o que os terapeutas chamam de “pensamentos automáticos”.

Esses pensamentos azedam o bolo de qualquer mastigação mental. Distorcem a realidade e angustiam. Ruminar é ter pensamentos negativos e repetitivos sobre o presente ou o passado.

“Por baixo dos pensamentos automáticos, há sempre suposições inadequadas”, diz Leahy. Coisas do tipo: “Nunca vou conseguir ser feliz fazendo as coisas por conta própria”. Com a ajuda da terapia, o paciente pode perceber que essa é uma generalização que não corresponde à realidade.

Qual é a raiz desse estado mental que causa tanto sofrimento? No começo da infância, as crianças desenvolvem determinadas ideias sobre si mesmas, sobre as outras pessoas e sobre o mundo.

Uma boa definição sobre isso aparece no livro Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática, da psicóloga Judith S. Beck, filha do criador da técnica. A segunda edição desse clássico da área é um lançamento da Editora Artmed.

“As suas crenças mais centrais, ou crenças nucleares, são compreensões duradouras tão fundamentais e profundas que frequentemente não são articuladas nem para si mesmo”, escreve Judith. “A pessoa considera essas ideias como verdades absolutas – é como as coisas “são”.

Imagine uma pessoa que tem a crença nuclear de que é incompetente. Ela interpreta as situações por meio das lentes da sua crença, mesmo que a interpretação racional seja evidentemente inválida. A pessoa tende a selecionar as informações que confirmam sua crença nuclear. As informações contrárias são simplesmente desconsideradas ou desvalorizadas.

No livro, Judith representa esse modelo de processamento da informação num diagrama. Quando a pessoa se acha incompetente, todos os dados negativos são processados imediatamente. Eles fortalecem a crença nuclear. Algo assim:

“Não consigo aprender a mexer nesse novo programa de computador.”
“Não consigo um empréstimo no banco.”

Os dados positivos apresentados pela realidade são transformados em dados negativos:

“O chefe me elogiou, mas eu não merecia.”
“Escolhi o plano de saúde, mas levei muito tempo.”

Às vezes, os dados positivos nem são percebidos. Quem se acha incompetente nem se dá conta de que faz muitas coisas bem feitas. Por exemplo: pagar as contas dentro do prazo, consertar um problema no encanamento etc.

O desafio do paciente é analisar a validade dessas crenças nucleares e mudar os pensamentos automáticos. Aceitar que errar é humano e assumir seus erros é um bom começo.

“Todas as pessoas inteligentes que conheço já tomaram decisões erradas”, diz Leahy, autor de dezenas de livros, entre eles A regulação emocional em psicoterapia.

Ninguém gosta de errar, mas é preciso perder o medo de lidar com ele. Quatro frases de Leahy que vale a pena ter em mente:
1) Todo mundo erra.
2) Erros são informação. São parte do progresso.
3) Um erro não é o fim do mundo.
4) Não tenha orgulho de ser perfeccionista.

A terapia cognitiva-comportamental não é uma panaceia. Em alguns pacientes, o efeito pode ser passageiro. Outros se beneficiariam mais se tivessem acesso a outras formas de terapia – de longo prazo e grande investimento (financeiro e emocional).

Em muitas situações, a terapia não substitui os remédios. Pacientes com depressão grave e outros transtornos psiquiátricos raramente podem ser tratados adequadamente sem medicamentos.

Em saúde mental, radicalismos podem ser bons para um ou outro grupo, mas péssimos para os pacientes. Ao final da apresentação, Leahy deixou um recado atualíssimo.

“Os pacientes nos procuram porque querem se sentir melhor. Não vêm por causa da religião da terapia cognitiva ou de qualquer outra”, disse. “Não há um tratamento que funcione para todos o tempo todo.”

Ninguém merece sofrer sozinho. O passo transformador é assumir que precisa de ajuda. Como Leahy, não acredito em cura. Acredito em ajuda. Ele não acredita em cura da condição humana. Nem eu. 
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CRISTIANE SEGATTO - O abraço e a flor

Saí hoje cedo para caminhar com o objetivo de sempre: mexer o corpo, chacoalhar as ideias e ver a vida como ela é. A colheita não poderia ter sido melhor. Assim que dobrei a esquina, consegui minha dose diária de surpresa boa – tão necessária para mim quanto o sol.

Meninas de 20 e poucos anos exibiam um cartaz que anunciava abraços grátis. Achei que fosse mais uma ação promocional das construtoras de apartamento que, nos últimos meses, passaram a perturbar os moradores na porta de todas as padarias da região.

Estava pronta para repetir o meu clássico “Não estou 
comprando nada. Só pão”, quando uma das garotas se aproximou. Meus braços foram mais rápidos que o raciocínio. Aceitei o abraço, retribuí, me emocionei. Talvez elas não tenham percebido (eu estava de óculos escuros), mas acho que meu corpo falou por mim.

Essa sou eu. As meninas são estudantes de enfermagem do Centro Universitário São Camilo. Nosso encontro melhorou meu dia.

A ideia de oferecer abraços em locais públicos se espalhou pelas cidades brasileiras nos últimos anos. São iniciativas inspiradas na campanha Free Hugs, criada em 2008 por um australiano. Os propósitos são variáveis. 

Algumas ações são nobres e humanitárias. Outras não passam de estratégias comerciais para promover sites, empresas ou palestras de autoajuda.

No caso da enfermagem e da psicologia, a justificativa é a melhoria da qualidade de vida. Estudos demonstram que abraçar reduz os níveis de cortisol e norepinefrina, hormônios relacionados ao estresse crônico e à ocorrência de doenças cardíacas.
O abraço também aumenta a produção de dopamina e serotonina (hormônios do prazer) e de oxitocina (o hormônio do afeto). Quanto mais oxitocina o cérebro libera, mais a pessoa quer ser tocada e menos estressada ela fica. É um círculo virtuoso: quanto mais abraçada ela é, mais ela deseja ser abraçada.

Um estudo realizado no ano passado pela Universidade Médica de Viena demonstrou que o abraço pode mesmo reduzir o stress, o medo e a ansiedade. A oxitocina liberada contribui para a redução da pressão arterial, aumenta o bem-estar e favorece o desempenho da memória.

No entanto, o neurofisiologista Jürgen Sandkühler, autor do trabalho, questiona o valor dos abraços recebidos de pessoas estranhas. A oxitocina é o hormônio produzido pela glândula pituitária, conhecido por favorecer o estabelecimento de laços afetivos entre pais e filhos e entre os casais.
“O efeito do abraço sobre a produção de oxitocina só ocorre quando existe confiança mútua”, diz. “Se o abraço não é desejado pelas duas pessoas, o efeito positivo se perde”, diz.

Em resumo: as pessoas precisam estar na mesma sintonia. Acredito que isso seja perfeitamente possível entre estranhos. Não sei se o nível dos meus hormônios aumentou, mas a iniciativa das estudantes de enfermagem alegrou meu dia. Espero que elas não percam a ternura quando a realidade da profissão se apresentar.

Como essas meninas, acredito que o bem-estar pode ser contagiante. Ao final de nosso breve encontro, uma delas me ofereceu uma flor feita com capricho e papel crepom.

Resolvi testar o poder da flor. Durante uma hora caminharia com ela na mão e observaria a reação de quem cruzasse meu caminho. Será que alguém notaria alguma coisa fora do script? Será que um sorrisinho escaparia dos lábios?

Na fila para pagar o cafezinho, notei a primeira demonstração de boa vontade. A flor escapou enquanto eu abria a carteira. Com a expressão tensa, o gerente correu para avisar: “Moça, alguma coisa caiu”. Abaixei para pegá-la e respondi: “Foi a flor”.

Ele abriu um sorriso raro, sem nenhuma ruga na testa.

Segui meu caminho, em busca da dose diária de sol recomendada pelo médico e da vida que não está em nenhuma ferramenta de busca. Uma moça aflita olhou a flor e teve coragem de se aproximar.

“Por favor, estou numa emergência. Você pode me ajudar?” Quando perguntei qual era o problema, ela virou de costas e levantou a blusa. O fecho da roupa, na parte das costas, havia arrebentado. Restavam duas metades de tecido. A garota tinha uma entrevista de emprego num restaurante a poucos passos dali. Estava apavorada.

Para surpresa dos pedestres, parei na calçada para amarrar as duas partes da blusa de uma desconhecida. Tentei dar o melhor nó possível. Com uma jaquetinha jeans, ela cobriu o estrago. Depois agradeceu por eu ter aparecido na hora certa, no lugar certo. A flor não saíra da minha mão direita.

Três quadras depois, ela escapou, levada por uma ventania. Na tentativa de recuperá-la, cruzei a frente de cinco policiais. Com passos sincronizados e olhos bem abertos, eles registraram o único sinal aparente de desordem civil. A mulher que corria atrás da flor de papel crepom. Renderia uma foto de primeira página, mas acho que ninguém viu.

Voltei para casa com uma supersafra de gentilezas. Nunca ouvi, numa única manhã, tanta gente me desejando bom dia, tanto motorista me dando passagem, tanta conversa, tanto olho no olho, tanto sorriso. O tênis, a roupa, o percurso eram os mesmos. O que mudou foi o abraço e a flor.

Só um pedestre não viu nada. Bateu o portão de um prédio com fones enterrados no ouvido, óculos bem escuros, mochila estufada, ombros curvados para frente – aquele visual e aquele comportamento que são a marca do nosso tempo. Não do meu tempo, mas o de muita gente. Quase me atropelou, mas não notou minha presença. Muito menos a da flor.

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RACISMO AQUI NÃO!

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